outubro 31, 2002

Namorado: ter ou não, é uma questão

"Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves friccões de esperanca. De alma escovada e coracão estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela.

Ponha intencões de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enlou-cresca."

Carlos Drummond de Andrade, extraído da crônica que saiu no JB em 20/12/93.

Que coisa linda, não? Este é o meu credo. Tenho a crônica toda, quem quiser basta pedir. Postei mais Drummond aqui, no dia 26. Clique aqui. A imagem copiei do Victor.

Escrito por Maria às 11:25 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

outubro 30, 2002

Explicacões

A Claudia, brasileira que vive na Holanda, me visita às vezes e sempre deixa comentários interessantes. Um deles, se vocês se lembram, foi quando ela me perguntou porque passar por todo esse perrengue - mudar de país se tudo é tão difícil para recomecar etc. Ontem ela me visitou novamente e, mais uma vez deixou um comentário polêmico e interessante. Vou reproduzir aqui mais uma vez porque acho que essa é uma questão que muitas pessoas estão pensando. Claudia escreveu:

"O Lula ja e o novo presidente, como esperado. Honestamente, eu estou com pena dele. As pessoas ainda nao amadureceram o suficiente para nao esperar um salvador da patria, aqui da Holanda da pra sentir como a galera esta pensando que o Lula vai conseguir mudar o mundo e consertar o Brasil ( pausa para gargalhadas ahahahahahaha). Nem o Serra, preparadissimo como e, ia conseguir fazer milagre, ainda mais com este panorama internacional horroroso, desemprego e recessao no mundo inteiro, ameaça de guerra no iraque . .. Entao, eu prevejo uma futura frustraçao coletiva imensa, nao porque o lula necessariamente va orquestrar um desastre, mas porque ele nao vai conseguir fazer um vigesimo do que os eleitores do PT estao irrealisticamente esperando dele. O lado legal disso e realmente ver um ex-metalurgico, um fodido que passou fome na infancia e perdeu um dedo numa maquina na fabrica, conseguir "chegar la". Isso e legal, e DEMOCRATICO, demonstra que no Brasil qualquer um pode mesmo chegar la, dependendo de um misto de esforços, sorte, destino e estar-no-lugar-certo-na-hora-certa. Fora o fato de que o Lula nao e um político ladrao, e por causa deste passado sem duvida e um cara bem intencionado e com uma certa sensibilidade social. Mas e um bronco, desculpe presidente, mas vc ainda fala "as elite" e coisas do tipo. Apesar dos ternos Armani, nem ingles o cara fala, imagina este cidadao numa reuniao na OMC ou tendo que decidir a politica de cambio ou outras complexas questoes economicas ... Mas eu sou uma pessoa otimista, nao votei nele, nao torci por ele mas vou fazer pensamento positivo e torcer pelo melhor.
bora ver!
Claudia"

E a minha resposta foi:

Claudia, com todo respeito: essa cantilena de que o Lula não sabe falar inglês é coisa velha. Tradutores e intérpretes existem por essa razão. Para se defender uma nacão com paixão não é necessário falar outras línguas, mas basta entender bem a nossa língua. Além do mais, veja bem, o FHC, muitíssimo culto, como eu e você, aliás, não conseguiu nos salvar das garras do FMI.

E não pense que estou aqui fazendo discurso político radical porque não é o caso. Tenho horror a radicalismos. Não gosto sequer da faccão radical petista. O que acho é que o acordo que o FMI fechou com o governo FHC é nossa dor e delícia. Precisamos dele - por desacertos do executivo dirigido por FHC - e, ao mesmo tempo, ainda vamos morrer disso, se é que você me entende, porque as condicões para o empréstimo são quase sub humanas para com a populacão mais pobre, que vai sofrer mais uma vez. O Lula, no entanto, se comprometeu a cumprir o trato porque não é burro. Sabe a condicão do país deixado pela inteligentsia tucana.

Concordo com você que o Lula vai ter um looooongo e difícil caminho pela frente, mas vamos combinar uma coisa: o fato de ele saber ou não falar outras línguas não quer dizer nada, ok? Se fosse assim, os EUA NUNCA elegeriam qualquer presidente.

Fui ler o jornal hoje e achei genial essa idéia da Fome Zero. É por isso, Claudia, que eu gosto do Lula, porque ele se preocupa com as questões emergenciais, aquilo que fazia parte do discurso teórico do FHC, falando como o sociólogo que é e não como o presidente da república. Eu votei no Lula porque acredito de todo o coracão que ele é um brasileiro preocupado com as condicões de vida básica da populacão mais pobre, que não tem voz, não pode reclamar nem fazer greve simplesmente porque em sua maioria não têm sequer trabalho.

A preocupacão econômica, vital, sem dúvida, também está presente no governo do Lula, claro, porque como disse, ele não é otário, mas o que ele quer fazer com mais urgência é tirar da miséria absoluta uma multidão de gente que merece ter, pelo menos, o que comer no fim do dia. E isso, pra mim, é ser Presidente da República.

Escrito por Maria à s 12:42 PM | Mais: Elucubrações | Comente! (0)

outubro 29, 2002

Sem internet

Estávamos sem Internet. Problema com alguma coisa da Telia - companhia de telefonia sueca, a única por sinal - aqui em Boden. Acabou de voltar.

Stefan, de folga, quase subia pelas paredes.

Lembrei agora... e a Regina Duarte? Deve estar se borrando toda, né não? Hohoho.

Escrito por Maria à s 03:21 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

outubro 28, 2002

Orgulho, Estocolmo e carros

Voltei. Tô cansadona mas feliz porque eu ajudei a eleger Lula presidente do Brasil com a segunda maior votacão popular do mundo. Estou muito feliz. Desejo do fundo do meu coracão que ele tenha luz para escolher seu secretariado, seus ministros e as pessoas que tocam a parte técnica do poder executivo. Fiquei encantada com a votacão. Nunca poderia imaginar que seria assim, com 63% de aceitacão. Que vitória, que orgulho do meu país!!!

Bom, a viagem até Estocolmo pra votar foi tranqüila. Na ida fiquei com um cupê só para mim, o que é ótimo. Já sabia como ir até a embaixada porque já fiz essa viagem antes, para me inscrever e transferir o meu título para cá. Estacão central, metrô, embaixada, metrô, estacão central. Dei uma volta pelas redondezas mas como era domingo tudo estava fechado, sem graca. Acabei burlando a minha disciplina financeira e comprando dois livros: "White Teeth", da Zadie Smith e "The Summons" do John Grisham.

A estacão central é ótima, tem de tudo. Comprei uma coca light e um muffin de chocolate (ai ai ai!) e fiquei lendo até a hora do meu trem sair. Uma delícia.

Na volta dividi o cupê com uma menina simpática que, com certeza, vinha da área de Gotemburgo. Sei disso não porque perguntei mas porque a danada falava tão rápido - do jeito que só esse pessoal de Gotemburgo faz - que precisei pedir a ela que repetisse tudo o que me perguntava pelo menos duas vezes para que eu pudesse ter alguma idéia do que ela estava falando. O maior mico. Ela deve ter me achado muito estranha... ou meio burra.

Foi hoje também a minha primeira aula de teoria para tirar carteira de motorista. Serão seis semanas de teoria, com mais aulas práticas de como trocar pneu, verificar a seguranca do veículo etc. Além, é claro, da famigerada Halkbana, cuja traducão seria alguma coisa próxima a "pista de derrapamento". Trata-se de uma pista de gelo na qual os alunos dirigem com pneus de verão e aprendem como (tentar) controlar o carro numa curva. Vai ser engracado...

Se lembram da prova do Detran? Dá uma volta naquela pistita em frente ao autódromo de Jacarepaguá e faz baliza numa vaga gigante? Pois é... senti saudades disso. Vou dormir porque tenho um livro de quase 200 páginas para ler, em sueco, sobre tudo: leis de trânsito, funcões mecânicas do veículo etc.

Escrito por Maria à s 11:23 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Mais: Livros | Mais: Vidinha | Comente! (0)

outubro 26, 2002

Escrito por Maria às 07:41 PM | Mais: Conquistas | Comente! (0)

Quase Lula lá

Fui procurar saber como foi o debate de ontem. O JB, o Globo e a GloboNews destacaram o clima de cordialidade... e só. Não disseram que o Serra arrasou nem nada. Então o Lula ganhou disparado, tô certa? :c)

Estou indo pra Estocolmo hoje à noite. Mil e cem quilômetros de trem, cerca de 11 horas. Tudo pra participar dessa eleicão.

Mico internacional -- Minha querida BBC cada vez ganha mais o meu coracão verde, amarelo e vermelho. Hohoho.

Escrito por Maria às 09:31 AM | Mais: Conquistas | Comente! (0)

Para sempre

Licão das Coisas

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graca,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
-- mistério profundo --
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito um grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade.

Escrito por Maria às 08:53 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

outubro 25, 2002

Amor à primeira vista

Leonardo na pia.JPG

Finalmente revelei seis dos milhares de rolos de filme que juntavam poeira aqui em casa. Tem foto do inverno passado, quando esquiei pela primeira vez na vida e até do verão passado, quando subi num touro mecânico também pela primeira vez.
Para comecar o slide show, escolhi o meu amado Leonardo, um dos gatos da minha mãe. Eu não o conhecia - minha mãe o ganhou depois de eu ter vindo morar aqui - mas nos entendemos desde o primeiro dia. Quando não estava dormindo ou comendo, ele não saia do meu lado. Ai que saudades, Leo! :c(
Escrito por Maria às 12:16 PM | Mais: De bem com a vida | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

outubro 24, 2002

There's no such thing as a free lunch

O YACCS tirou do ar comentários com mais de três meses de vida. Quem doou alguma grana, no entanto, tem seus comentários restaurados - todos, novos e velhos, sem limite.

O Hossein diz que é por motivos estruturais, técnicos. Acredito apenas em parte que ele esteja falando a verdade, mas acho que a tática é válida - apesar de um pouco abrupta - para fazer crescer as doacões. Afinal, o cara faz um trabalho muito legal e merece mesmo ser pago por isso. O mesmo pode ser dito sobre o Marcelo, do W.Bloggar.

Sinceramente? Não sabia que a vida sem cartão de crédito poderia ser tão difícil.

Vale dizer que o YACCS não apaga os nossos comentários, mas os armazena. Eles podem ser baixados para outros sistemas de comentários ou, como explica o Hossein nessa página de FAQ, pode-se copiar cada comentário depois de cada post. Ele sabe que é complicado e trabalhoso fazer isso e está pensando numa solucão para esse problema.

Escrito por Maria às 11:22 AM | Mais: Variedades | Comente! (0)

outubro 23, 2002

A vida como ela é

Achei muito oportuno da TV4, um canal de TV de notícias e entretenimento que adoro e que está dedicando toda sua grade de programas dessa semana a matérias sobre o racismo na Suécia. Ontem, no jornal nacional deles, foi mostrada uma autoridade dizendo que podem haver tumultos tão graves quanto aqueles que ocorreram em Los Angeles quando policiais brancos bateram em Rodney King sem motivo aparente. Até a ministra da integracão da Suécia, Mona Sahlin - não muito competente se você quiser mesmo saber minha opinião - disse que não chega a tanto, mas que perigo sem existe.

Amanhã vão mostrar em um programa ótimo chamado "Kalla Fakta" (que quer dizer mais ou menos "a verdade nua e crua dos fatos") como é difícil para imigrantes com educacão superior conseguir um emprego aqui. É o caso por exemplo, de Kurosh Jalali, cidadão sueco nascido no Irã, que por ter background de imigrante, só conseguia empregos como faxineiro e lavador de pratos. Foi para a Inglaterra e se tornou chefe apotecário no primeiro dia em que procurou emprego. Experiência semelhante a de Naser Izadkhan, também cidadão sueco com família imigrante. Hoje ele é ortodontista radicado em Manchester, Inglaterra, mas quando estava na Suécia era obrigado a ser motorista de taxi para poder sobreviver.

A verdade é que a sociedade sueca precisa acordar para o fato de que preconceitos existem e são prejudiciais para todos. Se não for por humanidade que seja por problemas econômicos. A dificuldade de se aproveitar os talentos e a competência de suecos com background imigrante custa muito à sociedade sueca como um todo. "Se o estabelecimento de profissionais de background imigrante fosse o mesmo registrado por suecos nascidos aqui, o governo ganharia mais de 30 bilhões de coroas por ano", constata Jan Ekberg, professor de Economia Nacional. Ele faz referência a todos os impostos que essas empresas pagariam, além dos custos do social com os desempregados, que deixariam de ser pagos.

Kalla Fakta, TV4, Torsdag, Kl. 20.00.

Escrito por Maria à s 01:34 PM | Mais: Elucubrações | Mais: Europa & Escandinávia | Mais: Irritação e ironia | Mais: Vida de imigrante | Comente! (0)

outubro 22, 2002

Dia a dia

Ontem o dia foi cansativo porém gratificante. Depois de voltarmos da universidade, Stefan, que estava de folga, e eu fomos pegar a chave da nossa nova garagem (aleluia! Depois de um ano e três meses de espera), passamos pelo chaveiro pra fazer uma chave extra e ainda resolvemos quando eu poderia começar as aulas de teoria para tirar a carteira de motorista. Começo na semana que vem*.

Já em casa, montamos a estante nova do escritório (ficou linda!) e tiramos as outras antigas, que colocamos na garagem. Depois de montá-las novamente (fácil) descarregamos nosso Toyotinha das coisas que, por falta de storage space**, entupiam o bagageiro do carro.

Chegamos em casa às sete da noite, exaustos mas felizes porque é ótimo realizar tudo o que queríamos. Hoje estou lavando roupa. Desco até o porão, onde ficam as máquinas de lavar e de secar, com a cesta de roupa suja; subo com a cesta de roupa limpa. Estou nisso desde o meio-dia. Cansei.

* Esse assunto ainda vai dar panos pra manga aqui...
** Aliás, numa side note: êta raça pra juntar coisa essa dos homens, viu? Nunca vi uma pessoa com tanto treco como Stefan, afe maria! E quando eu reclamo que ele deveria jogar fora umas coisas ele reage, inflamado, dizendo: "um dia ainda podemos precisar disso".

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outubro 21, 2002

De volta à Academia

Acabei de voltar da Universidade de Luleå, que fica a 30 minutos de carro daqui de Boden (como do Leblon à Barra em dias privilegiados). Fui lá conversar com um studievägledare, uma espécie de consultor que indica caminhos aos estudantes que estão em dúvida sobre que curso fazer. No meu caso é ainda mais aguda a necessidade de orientacão porque sequer sei como o sistema de ensino funciona. Levei meus diplomas, já reconhecidos pelo organismo de educacão superior daqui, e o cara ficou meio de queixo caído.

Não que eu tenha uma educacão fora dos padrões, mas quatro anos de universidade (UFRJ), sete de experiência profissional e mais vários cursos de idima são mais do que o suequinho poderia esperar de uma imigrante. Para cursar qualquer coisa aqui você tem que ter um curso de inglês básico. Mostrei meu diploma do curso que fiz em Nova York e o cara quase caiu pra trás. Gosto de mostrar essas coisas porque me fazem lembrar o quanto eu me esforcei para ser o que sou hoje - e mostro aos suecos o que é que a baiana tem, sabcumé?

Anyway, fui lá munida também de algumas informacões que pesquei no site da universidade e muitas perguntas, claro. O cara me explicou como são os cursos e eu perguntei como é que se consegue uma vaga. Há cerca de três tipos de classificacão de estudantes: os que saem direto do colégio, quem faz uma högskola - um nível intermediário entre o colégio e a universidade - e quem tem diplomas de fora da Suécia, como é o meu caso.

Para conseguir minha vaga dependo que poucos adolescentes queiram ir direto para a universidade e, aqueles que por ventura queiram estudar mais, tenham notas ruins. Além disso, caso tenha sucesso, preciso ainda pedir ajuda de custo para pagar o curso. Em fim, fui lá, falei muito, mas não tenho a menor idéia se vou conseguir alguma coisa. Nem sei que curso farei, pra falar a verdade. É nessas horas que eu queria ser bem pequenininha e aceitar as decisões que alguém tomasse por mim. Sei que é infantil, mas, ah, às vezes é tão difícil ser adulto o tempo todo!!! :c/

outubro 20, 2002

outubro 19, 2002

Tudo por um poema

Uma das coisas mais legais de se viver num país como a Suécia não é apenas conhecer características e maluquices do povo sueco. É muitíssimo interessante também entrar em contato com gente dos países mais variados, como Bósnia, Irã, Vietnã, Turquia, Rússia e até Iraque. A convivência, claro, não é lá muito fácil. Afinal, somos todos muito diferentes. Mas, mesmo não sendo refugiada de guerra eu ainda sou imigrante e algumas pessoas têm histórias que merecem mais atencão.

Uma dessas pessoas é o meu amigo Farshid, que é iraniano. Esquecam todos os esteriótipos de árabe machista (até porque os iranianos não são árabes, mas persas): o Farshid é um amor de criatura, muitíssimo inteligente e engracado. Ele veio pra Suécia há quase quatro anos atrás, fugindo de uma milícia que rondava a universidade onde ele estudava em Teerã. O que ele fez? Escreveu um poema no qual criticava o governo dos Aiatolás. Claro que não assinou o poema, que foi colocado num quadro de avisos da universidade. Alguém descobriu quem o tinha escrito e ele teve de fugir no meio da noite.

Pois bem, o negócio é que o governo da Suécia acabou de negar o visto de permanência do Farshid e ele terá de deixar o país dentro em breve e voltar para o Irã. Me encontrei com ele no colégio na semana passada e ele estava desconsolado. Eu sinceramente não entendo. O governo sueco precisa de gente para trabalhar exatamente no servico feito pelo Farshid, que é enfermeiro. Fala-se inclusive em importar mão-de-obra para certas áreas nas quais há falta aguda de profissionais e a profissão de enfermeiro é uma delas.

Para se defender durante o julgamento do seu caso, Farshid e seu advogado sueco conseguiram um fax enviado por seus amigos iranianos confirmando que a cacada realemente aconteceu e que Farshid não pode voltar para Teerã sem arriscar anos e mais anos na cadeia ou então morte imediata. Estilo Salman Rushdie. Uma das pessoas que estavam julgando o pedido de asilo político argumentou que o fax "não tinha sequer um envelope". "Mas como é que eles querem que meus amigos enviem uma carta pra mim se absolutamente tudo no Irã é censurado?", pergunta Farshid.

Acho fantástica essa abertura do governo sueco no sentido de abrigar dezenas de milhares de refugiados de guerra - gente nem sempre qualificada que se não fosse por países com uma política de paz exemplar como a Suécia morreria antes mesmo de tentar se salvar. O que eu critico é que esse abrigo seja tão parcial. O Farshid sabe muito bem sueco, se comunica e trabalha todos os dias. Ele não vive do dinheiro do social, muitíssimo pelo contrário. Além do mais, desde que chegou aqui já fez vários cursos para poder falar sueco e para poder trabalhar como enfermeiro. Por que jogar tudo isso fora?

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outubro 18, 2002

Uma idéia genial!

Li no blog da Cora e reproduzo aqui: a Luciana fez um post com links de blogs de brasileiros que moram no exterior. São 40 blogs feitos nos quatro cantos do mundo, cada um mais interessante do que o outro. Como li em um deles (já visitei todos), pode-se perceber que ser brasileiro não é apenas exercer uma nacionalidade, mas um estilo de vida.

Há dois blogs na Alemanha, um na Jordânia (pois é, incrível, não?), 13 nos EUA, dois no Canadá, cinco no Japão, dois na Austrália, cinco na Inglaterra, um em Paris, dois na Itália, dois na Holanda e quatro na Suécia, incluindo euzinha. Muito interessante!

UPDATE :: A Luciana informa que a lista já está com 58 blogs e tem mais gente chegando, oba!!!

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outubro 17, 2002

Rapidinhas

Vejo dois meninos brincando de andar de bicicleta na neve fininha e já quase toda derretida pelo sol. Agora não sei se quero um deles ou se prefiro me juntar a eles.

Comprei minha passagem de trem até Estocolmo para poder votar pelo Lula. Quero ver chegar, Lula lá, brilha uma estrela...

Não sei que livro comecar para ler no trem. O que leio agora Paradiset, Liza Marklund, está no final.

Encontrei na rua com um conhecido que nos convidou para a festa de lancamento do CD da banda de heavy metal dele. Lamentou que não poderíamos ir. Eu disse que estaria em Estocolmo votando e Stefan vai trabalhar o fim de semana inteiro. Mas eu poderia ter respondido que preferia martelar um prego na cabeca a ir a uma festa de heavy metal. Adoro esse meu lado Dragon Lady.

Vou fazer peitinho de frango a parmegiana (sem a parmegiana, só com queijo) pro meu amor jantar.

Vi Apocalipse Now Redux no Pay Per View. Bonito pra burro. Por outro lado, uma depressão. Nunca mais.

A prova ontem foi difícil, bem difícil. Sei que perdi seis pontos, pelo menos, porque ao contrário do que costumo fazer, deixei uma questão em branco.

Quem vai ser a alma boa que dará o primeiro Prozac à Regina Duarte?

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Depois de Meg e Victor

"Havia uma força tremenda no olhar ardente de seus olhos escuros; chegou 'conquistando e para conquistar'. Parecia orgulhosa e por vezes até arrogante; não sei se alguma vez chegou a ser bondosa, mas sei que isso era o que ela mais queria e que vivia momentos de angústia obrigando-se a ser um pouco bondosa. Havia, evidentemente, em sua natureza inúmeros impulsos admiráveis e uma iniciativa das mais elogiáveis; mas tudo nela parecia estar em perpétua busca de equilíbrio, sem jamais encontrá-lo; tudo estava em desordem, num estado de agitacão e desassossego. Talvez por ser demasiado severa nas exigências que fazia a si mesma não fosse capaz de encontrar dentro de si a força necessária para satisfazê-las". - Dostoievski, Os Demônios. Citado como epígrafe na biografia de Sylvia Plath, Amarga Fama, página 15. 04/03/92

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outubro 16, 2002

Como gritar de formas diferentes

crianca.jpgEu, em casa
Nevou a manhã toda
As ruas estão brancas
Não está tão frio assim
Aula de sueco hoje
Prova
Estudo formacão de palavras
Aprendo a gritar de formas diferentes em sueco
São doze verbos - quase todos irregulares
Oca
Quero um cachorro ou um gato ou um filho
Um não, gêmeos
Quero sempre mais do que posso
Escrever um livro
Best seller
Comi uma colherzinha de doce de leite de Minas
Não resolveu

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outubro 15, 2002

Análise

Não é que o companheiro não ajude a companheira na hora da limpeza doméstica. O problema é que o nosso limite de tolerância à poeira e às sujeiras em geral é mais baixo do que o deles. Simples assim.

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outubro 14, 2002

Está nevando.

Está nevando.

Escrito por Maria às 10:58 AM | Mais: Vidinha | Comente! (0)

outubro 13, 2002

MEU VENENO

Ferreira Gullar

Atrás de meus olhos dorme
Uma lagoa tão mansa
E o céu que trago na mente
Meu vôo jamais alcança
Há no meu corpo um incêndio
Que queima sem esperança
A própria terra que piso
Vira um abismo e me come
Corre em meu sangue um veneno
Veneno que tem teu nome.

Copiado da primeira página do Caderno B do JB, dia 02/08/93.

Escrito por Maria às 08:43 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

outubro 12, 2002

Roda, roda, roda baleiro

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Roda, roda, roda baleiro atencão! Quando o baleiro parar põe a mão! Pega a bala mais gostosa do planeta e não deixe que a sorte se intrometa! Bala de leite Kids, a melhor bala que há! Bala de leite Kids, quando o baleiro pararrrrrrrrr!!!!
Escrito por Maria às 05:51 PM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

outubro 11, 2002

Quem Matou o Leão?

Terminei de ler o "Bröderna Lejonhjärta", da Astrid Lindgren. O livro, como disse num post logo aqui em baixo, é muito lindo porque é a narrativa de aventuras vividas por dois irmãos. Quem conta a história é o irmão mais novo, Karl, que é uma gracinha.

Mas, apesar de lindo, o livro tem um problema, na minha opinião: o final. É que no final do "Bröderna...", o Karl se suicida. Sim, o menino se suicida.

Putz, lendo assim, é dramático pra burro, né? Bom, mas o livro não é tão pesado assim como parece. A Astrid realmente escreve bonitinho e a história é bacana, mas... sinceramente? Ainda prefiro Maria Clara Machado. :c)


EXTRA EXTRA!!! -- Querem saber mais sobre a Maria Clara Machado? Inclusive seu novo visual? Cliquem aqui para ver a foto que a galera do IG colocou numa biografia da escritora e teatróloga mineira...É brincadeira?

Escrito por Maria à s 07:55 AM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Mais: Livros | Comente! (0)

outubro 10, 2002

Nobel

O húngaro Imre Kertész ganhou o prêmio Nobel de Literatura.

Quem???

Escrito por Maria às 04:41 PM | Mais: Livros | Comente! (0)

outubro 09, 2002

Assassinaram a gramática

Estou fazendo o dever para a aula de sueco de hoje e queria escrever sobre uma mulher com vastos cabelos castanhos. Tasquei lá no papel: "Mörk hårig kvinna". Mörk quer dizer "escuro(a)"; hårig significa "cabeludo(a)"; e kvinna, "mulher".

Só que está errado. A razão? Se você não juntar as palavras mörk e hårig, o sentido fica totalmente alterado.

Então: Mörk hårig kvinna = Mulher escura e cabeluda; e Mörkhårig kvinna = Mulher de cabelos escuros.

O adjetivo mörk, no segundo caso, se junta e altera hårig. No primeiro caso, ambos adjetivos dizem respeito ao sujeito, kvinna.

Ô linguinha marvada! :c)

outubro 08, 2002

Q & A

A Claudia (infelizmente ela não deixou uma home page) comentou o meu post sobre o final do meu estágio e deixou uma pergunta intrigante no ar. Foi a pergunta que eu tive de me fazer antes de decidir largar tudo e todos e vir morar na Suécia. Eis o que ela escreveu.

"Mary, desculpa a curiosidade, mas me fala: como vc faz para aturar todas essas adversidades plus clima escandinavo??? Vc fez essa escolha por amor? Olha, eu tenho 24 anos e ja viajei meio mundo, mas de ferias tudo e maravilhoso. No momento estou em Utrecht (Holanda) e vim no intuito de ficar. Razao: um amor. Mas to achando tudo taaaaaaaao dificil que, como cantaria a marina, era mais facil tentar esquecer. E virar mais uma ilusao nessa madrugada...."

Eis a minha resposta, depois de pensar muito.

Claudia, não tem um jeito fácil de responder a sua pergunta. Certamente minha decisão de vir morar aqui não foi fácil. Muito pelo contrário, foi e é difícil mesmo, muito difícil. Mas, como é que eu posso te explicar? Eu simplesmente tinha que vir pra cá. Já tentei a vida sem o Stefan, depois de tê-lo conhecido, e não deu certo.

Eu ousei tanto porque acredito que essa experiência é de alguma forma essencial para mim. Você quer saber se foi uma decisão baseada em amor. Com certeza foi sim.

Tenho poucas respostas, mas acho que aquelas que tenho me ajudam a permanecer lúcida para saber que apesar de ter sido uma decisão complexa, estou no caminho certo.
Quer saber se dói saber que deixei pra trás uma vida inteira no Brasil? Dói. Dói muito. Quer saber se vou continuar casada com o Stefan para sempre? Não sei. Quer saber se estou frustrada pelo fato de ter deixado o meu emprego? Sim, mas tenho esperanca de conseguir me expressar profissionalmente aqui também, preciso só me dar tempo.

Quer saber se sou feliz apesar de toda a saudade? Sou sim. E é isso o que me importa.

Não sei o que é melhor pra você, afinal, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Para mim, ter vindo morar aqui foi um lance de ousadia, dor e descoberta. Me sinto viva. E isso é muito bom.

Escrito por Maria à s 04:27 PM | Mais: Elucubrações | Comente! (0)

outubro 06, 2002

LULA LÁ!

Escrito por Maria às 10:19 AM | Mais: Conquistas | Comente! (0)

outubro 04, 2002

Blá-blá-blá

Meu estágio termina semana que vem. Sem chances de emprego.

Às vezes me sinto como uma macaquinha brasileira, acenando para os suecos febrilmente, dizendo "Oi, Oi, eu já falo a sua língua! Eu sei fazer um monte de coisas! Já estou até escrevendo textos em sueco! Além disso, sou competente, confiável e honesta!". Mas mesmo que alguém me ouvisse e até acreditasse, seria difícil me encaixar em algum trabalho.

Isso porque todos os empregos ligados à área de mídia e comunicacão demandam anos de estudos. Apesar de já ter tido meu diploma da UFRJ reconhecido aqui - não sou mais apenas uma imigrante, mas agora sou uma jornalista imigrante - isso não quer dizer que posso exercer a profissão. Segundo o sindicato, do qual aliás já faco parte, preciso estudar um ano de jornalismo aqui para saber como se faz. Não me importaria de fazê-lo se para isso não precisasse me mudar pra Estocolmo.

Tentei, então, encontrar outros trabalhos, temporários, só pra entrar uma grana, e que não me obrigassem a ser faxineira. Mas não deu. Até mesmo para vender remédios na farmácia você precisa estudar anos. Química, física, o escambau. De forma que estou ainda naquele meio termo: falo sueco super bem, mas não consigo um emprego porque não tenho a educacão formal necessária para os trabalhos que quero realizar. Não quero ser jornalista porque sou uma pessoa realista: simplesmente ainda não dá para ter o controle de texto que eu tinha em português.

Ao mesmo tempo não posso fazer outra universidade porque ainda não completei o último curso de sueco, absolutamente necessário para um imigrante entrar numa universidade aqui. Só termino esse curso no segundo semestre do ano que vem. AMO o meu curso de sueco, entendam bem, queria, inclusive, poder me dedicar totalmente a ele. Mas e a minha necessidade de me exercer profissionalmente? Onde é que eu ponho?

Não precisam responder.

A pessoa que me orienta lá na agência nacional de empregos disse que eu sou uma prioridade. Segundo ela, é um desperdício ter uma pessoa como eu, que realmente tenta o tempo todo, desde que chegou aqui, que se preocupa em falar bem a língua - coisa raríssima entre imigrantes - que tem experiência profissional e formacão formal e que ainda não tenha conseguido nada, nem uma luzinha no fim do túnel. Concordo com ela. É por isso que tanta gente se muda daqui. Além de ser gelado, nego pena pra conseguir um trabalho legal!

Mas sei que tudo isso é uma loucura também. Estou aqui há exatos 17 meses. Tenho é que segurar a minha onda.

Escrito por Maria às 01:54 PM | Mais: Vida de imigrante | Comente! (0)

outubro 03, 2002

Show

Posso ver aurora boreal aqui da minha varanda. Atravessa o céu, de cabo a rabo.
Isso está acontecendo devido a movimentacões intensas do sol.
Show. Show. Show.

Escrito por Maria à s 11:26 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

Vamos dançar?

Escrito por Maria às 10:48 AM | Mais: De bem com a vida | Comente! (0)

Alguns e-mails pra responder. Já

Alguns e-mails pra responder.
Já já, ok?

Escrito por Maria às 10:29 AM | Mais: Vidinha | Comente! (0)

outubro 02, 2002

Cansei.

Cansei.

Escrito por Maria às 08:48 AM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

outubro 01, 2002

Saudades da minha avó Celia

Vó, hoje fiz uma "travessura": comprei um livro caríssimo. Ainda lembro do seu rostinho quando você voltava da rua depois de fazer uma das suas "travessuras". Queria poder te mostrar o livro. É da Astrid Lindgren, a mais famosa escritora sueca, autora da Pippi Långstromp. O nome do livro é "Bröderna Lejonhjärta", ou "Os Irmãos Coracão de Leão". Ai, nunca pensei que fosse sentir tanta saudade na minha vida. :c(

Escrito por Maria às 04:36 PM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

Mia miau gatinho!

Você gosta de gatos? Eu gosto. Se você gostar (e mesmo se não tiver a menor simpatia pelos felinos), vale a pela ver a Shopcat.com, uma página que me foi indicada pelo Serginho Maggi. Um barato.

Lá tem gatos de todos os cantos dos EUA, Canadá, Inglaterra etc. O legal é que eles trabalham... :c) Alguns são gerentes de lojas de antigüidades, recepcionistas de petshops e muitos outros têm livrarias como seu local de trabalho.

O Dunbar, que aparece aí ao lado, mora em Vancouver, Columbia Britânica, Canadá. É cada um mais lindo do que o outro.

(Foto de Trina Samson)

Escrito por Maria às 02:29 PM | Mais: Variedades | Comente! (0)