março 29, 2003
Para minha mãe

"Trabalhar com fidelidade, dia após dia, para conseguir um vislumbre vale a pena não só pela alegria e força que isso traz, mas também porque proporciona uma imagem pela qual ele pode se moldar e corrigir a si mesmo".**Paul Brunton, Práticas para a Busca Espiritual - Relax e Solitude, 1986.
"Se alguma vez ele tiver uma percepção de sua alma divina, deve se lembrar que isso aconteceu porque ela esteve sempre lá, dentro dele, sem nunca tê-lo abandonado. Se ele perseverar na Busca, a experiência irá se repetir no momento certo."*
Blogless
Minha amiga Craudinha, dona do Reality Bitesss, está desarvorada. Seu blog lilás com borboletas foi engolido pelo Blogger Br e se encontra atualmente em um limbo, um vácuo digital desconhecido.
Apesar da situação já ter uma semana de vida e depois de ter mandado muitos emails para os canais (in)competentes da Globo.com, nada foi resolvido. Craudinha está compreensivamente de saco cheio. Em bom português: a Grobo crau no blog da Crau.
Shame on you, Globo.com!!!
março 28, 2003
Resistência moçambicana
Recebi a carta abaixo em um email do Sérgio Murilo Castro [smurilo@yahoo.com], que lê o Montanha-Russa. É um texto do escritor moçambicano Mia Couto, no qual ele protesta contra a guerra e dá razões históricas importantes para sua manifestação. Sei que é um texto longo, mas vale a pena ser lido. É muitíssimo bem escrito e contundente. Num mundo perfeito, o Bush, mesmo ignorante, pediria para alguns de seus acessores que achassem uma pessoa que pudesse traduzir essa carta para ele. Claro que ele nunca o fará. Além de um texto muito longo e em outra língua, diz verdades para as quais ele prefere fechar os olhos. Boa leitura. (Obrigada, Sérgio!)
CARTA AO PRESIDENTE BUSH Mia Couto
Senhor Presidente:Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:
-- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atômicas sobre outras nações;
-- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegal da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;
-- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;
-- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);
-- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;
-- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";
-- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
-- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
-- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
-- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irã na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
-- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), El Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irã (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
-- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
-- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens. O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas. Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo).
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nos encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê-lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não esté fora. Esté dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.
Guerra de verdade
Pentagon: 12 Marines missing, 14 wounded in fighting around Nasiriya. - (Breaking News - CNN).
A U.S. Marine wounded in the Iraqi war said Thursday he was surprised by the amount of Iraqi resistance, and an Army sergeant said he thought he was going to die in the fighting. - (CNN Online)
Iraq has executed some prisoners of war in what the Pentagon's No. 2 general described Wednesday as one of many "disgusting" war crimes committed by forces loyal to Saddam Hussein. - (CNN Online)
Iraqi information minister warns Iraq will be the "graveyard" of coalition forces. - (CNN Online)
Bush, quer moleza? Senta no pudim.
março 27, 2003
Coisas da Escandinávia
Notícia do jornal que assinamos aqui em casa:
Os vendedores de haxixe que atuam em Christiania - um bairro livre de Copenhagen, na Dinamarca - entraram em greve. Durante três dias os traficantes não venderão seus produtos em protesto contra a chamada "Política do Haxixe" dinamarquesa.Alguns dos negociantes disseram a um programa de TV que a greve servirá para chamar a atenção aos problemas que as críticas à venda de haxixe podem trazer à sociedade. O problema, segundo os vendedores, é o controle contínuo do governo, que faz com que os clientes procurem outros pontos de venda menos disputados.
Agora, veja se eu posso com isso?
março 26, 2003
Soak Up The Sun
Sheryl Crow/Jeff Trott
(...)I'm gonna soak up the sun
Gonna tell everyone
To lighten up (I'm gonna tell 'em that)
I've got no one to blame
For every time I feel lame
I'm looking up o I'm gonna soak up the sun
I'm gonna soak up the sun
(...)I'm gonna soak up the sun
While it's still free
I'm gonna soak up the sun
Before it goes out on me
Don't have no master suite
I'm still the king of me
You have a fancy ride, but baby
I'm the one who has the key
(...)Maybe I am crazy too
(...)
Chega de nhe-nhe-nhén! Porque a vida, apesar de tudo, é boa. A imagem é repetida porque eu a adoro.
Força, Sam!
Acabei de me dar conta de um furo que dei. Escrevi sobre a facilidade com que consegui o meu visto permanente aqui ao mesmo tempo em que uma das pessoas mais doces que descobri pelo blog, a Sam, está passando por momentos difíceis lá na Bélgica exatamente porque as autoridades daquele país conseguem ser mais obtusas do que o Bush no que diz respeito às leis.
Desculpe, Sam! Escrevi o meu post antes de ler o que tinha acontecido contigo. Hoje, no entanto, fiquei feliz em voltar lá No Freezer e ler que o burocrata resolveu ter um pouco de bom senso e analisar seu caso de uma forma menos drástica. Fico feliz e aliviada porque concordo que você não merece ser tratada assim. Fique bem.
março 25, 2003
Reflexões
Estava lendo aos comentários que vocês fizeram no meu post lá de baixo, o sobre energias positivas e negativas. Comecei a responder ao Mauro, que tem argumentos interessantes e que casam com minha opinião a respeito de amizades. A saber:
Minha amiga é o tipo de pessoa que faz de se sentir deprimida um modo de vida;
Para a gente ajudar alguém, essa pessoa tem que estar disposta a receber a ajuda e fazer a parte dela também para melhorar a situação;
Precisa existir um envolvimento e uma contribuição de ambas as partes. Mais ou menos como uma simbiose, entende? Senão vira parasitismo.
Aí comecei a escrever e ficou enooooorme. Transformei então a resposta que daria ao Mauro e a todos vocês em um post. Comento os pontos de vista supracitados segundo o que sinto e não o que sei sobre relações humanas. Ponderei sobre as questões e tentei dar uma opinião genuína, um gut feeling.
Concordo com você, Mauro, em gênero, número e grau. No entanto, me pergunto se não estou "escolhendo demais" as amizades que tenho e descartando pessoas apenas por razões fúteis. Penso assim porque fiz isso minha vida inteira, fui desleixada e indiferente com pessoas apenas porque elas eram "difíceis". Agora, aqui sozinha nesse país gelado, me pergunto se não está na hora de investir de verdade em amizades duradouras, naquelas que nos ajudam em tempos difíceis.
Por outro lado, sinto que a melancolia dela realmente me aflige e isso é bem real. Não sei ainda o que vou fazer, afinal nem sou tão grudada assim com ela - não gosto de grudar com amigo(a) nenhum. Se grudar, só mesmo com o Stefan e olhe lá. Nos encontramos duas vezes na semana, eu e ela, quando temos aulas de sueco juntas, e só. Para falar a verdade, ela é o tipo de pessoa que realmente precisa de "um ombro amigo" apenas para chorar as misérias e raramente para rir. Claro que é totalmente inconsciente da parte dela, mas é a verdade.
Ao mesmo tempo, sinto que minha amizade com ela é construída por dificuldades em comum: vir morar num país estrangeiro, com uma língua difícil e ter de lidar com uma cultura totalmente estranha, fechada, com tradições por vezes incompreensíveis e ridículas até. Não posso negar, falamos sobre assuntos pesados: dificuldades no casamento, dia-a-dia, as manias (chatas) dos homens suecos. Conversamos também sobre nossa sensação de solidão aqui. E isso, claro, não é um assunto lá muito leve. De forma que não posso colocar toda a culpa dessa enrascada nela, coitada. Acho que precisamos, ambas, fazer um esforço para tornar essa amizade mais leve.
Mas aí, eu me pergunto: como tornar essa amizade mais leve se as questões que me afligem - e às quais ela responde com experiência, uma vez que vive aqui há 14 anos - são centrais na minha vida? Como eu disse num outro post, minha vida social aqui é limitada a visitas esporádicas ao cinema e à casa de casais amigos. Mas não muito mais do que isso. Estudo sueco sem parar; procuro emprego diariamente; e lembro do que eu tinha no Rio quase todos os dias - o que me deixa chateadíssima. Isso torna difícil meu cotidiano.
Acho que na verdade, refletindo sobre o que acabei de escrever, há uma necessidade aguda de uma mudança na minha vida. O problema com a minha amiga é importante pelo fato de eu gostar dela, de achá-la uma criatura boa e doce. Mas claro que se ficar pesado demais, eu terminarei com essa amizade da forma mais suave possível. O farei por mim porque não quero entrar numa relação de codependência. Mas o mais importante disso tudo é mesmo mudar o nhe-nhe-nhén do meu dia-a-dia.
"Apanhador no Campo de Centeio"
Sou maluca pelo "Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger. O estou relendo porque vou fazer uma prova oral de inglês amanhã e preciso ter lido um livro para poder comentar a história (mostrar que entendi e que sei fazer um resumo dos acontecimentos). Lógico, fui ver o que se escreveu sobre esse livro maravilhoso na Internet e achei um site ótimo, com análises interessantíssimas e ainda links fundamentais. Um deles é o artigo abaixo, escrito por Louis Menand para a The New Yorker quando a publicação do livro completou 50 anos. Sei que é longo, mas resolvi reproduzi-lo abaixo porque "explica" maravilhosamente bem o "Apanhador.." e toda a mística construída em torno de seu personagem principal, Holden Caufield, e do autor do livro, J.D. Salinger, que vive em reclusão desde o fim dos anos 40.
Ao contrário do que Menand diz no seu artigo, não foram meus pais que me indicaram o "Apanhador.." pra ler, mas o comprei porque havia lido "Feliz Ano Velho", do Marcelo Rubens Paiva e lá ele cita o livro do Salinger. A primeira vez que li, aos 14 anos mais ou menos, achei bacana mas não entendi muito. Numa segunda leitura, quando já era mais adolescente, me identifiquei com a rebeldia do Holden. Hoje, o que me toca é a profunda tristeza dele com relação à morte do irmão, Allie, um acontecimento recorrente na história e que faz de Holden o que ele é. Seja como for, Holden é um dos melhores personagens da literatura universal jamais criados - parece clichê, e até é, mas é verdade. Parece até um contrasenso, mas mesmo sendo um jovem sem ambigüidades, Holden tem uma personalidade tão complexa que é apaixonante.
HOLDEN AT FIFTY
by LOUIS MENAND
"The Catcher in the Rye" and what it spawned.
Issue of 2001-10-01
Posted 2001-09-27 at The New Yorker Magazine
"The Catcher in the Rye" was turned down by The New Yorker. The magazine had published six of J. D. Salinger's short stories, including two of the most popular, "A Perfect Day for Bananafish," in 1948, and "For Esmé-with Love and Squalor," in 1950. But when the editors were shown the novel they declined to run an excerpt. They told Salinger that the precocity of the four Caulfield children was not believable, and that the writing was showoffy-that it seemed designed to display the author's cleverness rather than to present the story. "The Catcher in the Rye" had already been turned down by the publishing house that solicited it, Harcourt Brace, when an executive there named Eugene Reynal achieved immortality the bad way by complaining that he couldn't figure out whether or not Holden Caulfield was supposed to be crazy. Salinger's agent took the book to Little, Brown, where the editor, John Woodburn, was evidently prudent enough not to ask such questions. It was published in July, 1951, and has so far sold more than sixty million copies.
The world is sad, Oscar Wilde said, because a puppet was once melancholy. He was referring to Hamlet, a character he thought had taught the world a new kind of unhappiness-the unhappiness of eternal disappointment in life as it is, Weltschmerz. Whether Shakespeare invented it or not, it has proved to be one of the most addictive of literary emotions. Readers consume volumes of it, and then ask to meet the author. It has also proved to be one of the most enduring of literary emotions, since life manages to come up short pretty reliably. Each generation feels disappointed in its own way, though, and seems to require its own literature of disaffection. For many Americans who grew up in the nineteen-fifties, "The Catcher in the Rye" is the purest extract of that mood. Holden Caulfield is their sorrow king. Americans who grew up in later decades still read Salinger's novel, but they have their own versions of his story, with different flavors of Weltschmerz-"Catcher in the Rye" rewrites, a literary genre all its own.
In art, as in life, the rich get richer. People generally read "The Catcher in the Rye" when they are around fourteen years old, usually because the book was given or assigned to them by people-parents or teachers-who read it when they were fourteen years old, because somebody gave or assigned it to them. The book keeps acquiring readers, in other words, not because kids keep discovering it but because grownups who read it when they were kids keep getting kids to read it. This seems crucial to making sense of its popularity. "The Catcher in the Rye" is a sympathetic portrait of a boy who refuses to be socialized which has become (among certain readers, anyway, for it is still occasionally banned in conservative school districts) a standard instrument of socialization. I was introduced to the book by my parents, people who, if they had ever imagined that I might, after finishing the thing, run away from school, smoke like a chimney, lie about my age in bars, solicit a prostitute, or use the word "goddam" in every third sentence, would (in the words of the story) have had about two hemorrhages apiece. Somehow, they knew this wouldn't be the effect.
Supposedly, kids respond to "The Catcher in the Rye" because they recognize themselves in the character of Holden Caulfield. Salinger is imagined to have given voice to what every adolescent, or, at least, every sensitive, intelligent, middle-class adolescent, thinks but is too inhibited to say, which is that success is a sham, and that successful people are mostly phonies. Reading Holden's story is supposed to be the literary equivalent of looking in a mirror for the first time. This seems to underestimate the originality of the book. Fourteen-year-olds, even sensitive, intelligent, middle-class fourteen-year-olds, generally do not think that success is a sham, and if they sometimes feel unhappy, or angry, or out of it, it's not because they think most other people are phonies. The whole emotional burden of adolescence is that you don't know why you feel unhappy, or angry, or out of it. The appeal of "The Catcher in the Rye," what makes it addictive, is that it provides you with a reason. It gives a content to chemistry.
Holden talks like a teen-ager, and this makes it natural to assume that he thinks like a teen-ager as well. But like all the wise boys and girls in Salinger's fiction-like Esmé and Teddy and the many brilliant Glasses-Holden thinks like an adult. No teen-ager (and very few grownups, for that matter) sees through other human beings as quickly, as clearly, or as unforgivingly as he does. Holden is a demon of verbal incision. He sums people up like a novelist:
"You had to feel sort of sorry for her, in a way." The secret to Holden's authority as a narrator is that he never lets anything stand by itself. He always tells you what to think. He has everyone pegged. That's why he's so funny. But The New Yorker's editors were right: Holden isn't an ordinary teen-ager-he's a prodigy. He seems (and this is why his character can be so addictive) to have something that few people ever consistently attain: an attitude toward life.
The moral of the book can seem to be that Holden will outgrow his attitude, and this is probably the lesson that most of the ninth-grade teachers who assign "The Catcher in the Rye" hope to impart to their students-that alienation is just a phase. But people don't outgrow Holden's attitude, or not completely, and they don't want to outgrow it, either, because it's a fairly useful attitude to have. One goal of education is to teach people to want the rewards life has to offer, but another goal is to teach them a modest degree of contempt for those rewards, too. In American life, where-especially if you are a sensitive and intelligent member of the middle class-the rewards are constantly being advertised as yours for the taking, the feeling of disappointment is a lot more common than the feeling of success, and if we didn't learn how not to care our failures would destroy us. Giving "The Catcher in the Rye" to your children is like giving them a layer of psychic insulation.
That it might end up on the syllabus for ninth-grade English was probably close to the last thing Salinger had in mind when he wrote the book. He wasn't trying to expose the spiritual poverty of a conformist culture; he was writing a story about a boy whose little brother has died. Holden, after all, isn't unhappy because he sees that people are phonies; he sees that people are phonies because he is unhappy. What makes his view of other people so cutting and his disappointment so unappeasable is the same thing that makes Hamlet's feelings so cutting and unappeasable: his grief. Holden is meant, it's true, to be a kind of intuitive moral genius. (So, presumably, is Hamlet.) But his sense that everything is worthless is just the normal feeling people have when someone they love dies. Life starts to seem a pathetically transparent attempt to trick them into forgetting about death; they lose their taste for it.
What drew Salinger to this plot? Holden Caulfield first shows up in Salinger's work in 1941, in a story entitled "Slight Rebellion off Madison," which features a character called Holden (he is not the narrator) and his girlfriend, Sally Hayes. (The story was bought by The New Yorker but not published until 1946.) And there are characters named Holden Caulfield in other stories that Salinger produced in the mid-forties. But most of "The Catcher in the Rye" was written after the war, and although it seems odd to call Salinger a war writer, both his biographers, Ian Hamilton and Paul Alexander, think that the war was what made Salinger Salinger, the experience that darkened his satire and put the sadness into his humor.
Salinger spent most of the war with the 4th Infantry Division, where he was in a counter-intelligence unit. He landed at Utah Beach in the fifth hour of the D Day invasion, and ended up in the middle of some of the bloodiest fighting of the liberation-in Hürtgen Forest and then in the Battle of the Bulge, in the winter of 1944. The 4th Division suffered terrible casualties in those engagements, and Salinger, by his own account, in letters he wrote at the time, was traumatized. He fought for eleven months during the advance on Berlin, and by the summer of 1945, after the German surrender, he seems to have had a nervous breakdown. He checked himself into an Army hospital in Nuremberg. Shortly after he was released, and while he was still in Europe, he wrote the first story narrated by Holden Caulfield himself, the real beginning of "The Catcher in the Rye." It was called "I'm Crazy." (It was published in Collier's in December, 1945.)
"A Perfect Day for Bananafish," published a little more than two years later, is, of course, the story that both introduced Seymour Glass, the oldest and most improbably gifted of the improbably gifted Glass children, and finished him off, since Salinger has Seymour kill himself on the last page. If we know Seymour only from the later stories in the Glass saga, in which he appears as a kind of saint-"Franny" and "Raise High the Roof Beam, Carpenters" (both published in The New Yorker in 1955), "Zooey" (1957), "Seymour: An Introduction" (1959), and "Hapworth 16, 1924" (1965), Salinger's last published work-we are likely to assume that he killed himself because the world's stupidity had made him crazy. But in "A Perfect Day for Bananafish" it is clear that Seymour kills himself because the war has made him crazy. He has just been discharged from an Army hospital, and his behavior in the story isn't saintly or visionary or engagingly eccentric; it's nutty and, in the end, psychotic. Seymour is a war casualty. So, much more obviously, is the unnamed protagonist of "For Esmé-with Love and Squalor," an American soldier who is befriended by a thirteen-year-old English girl just before he goes off to take part in the D Day invasion. "The Catcher in the Rye" was a best-seller when it came out, in 1951, but its reception as some sort of important cultural statement didn't happen until the mid-fifties, when people started talking about "alienation" and "conformity" and "the youth culture"-the time of "Howl" and "Rebel Without a Cause" and Elvis Presley's first records. It is as a hero of that culture that Holden Caulfield has survived. But "The Catcher in the Rye" is not a novel of the nineteen-fifties; it's a novel of the nineteen-forties. And it is not a celebration of youth. It is a book about loss and a world gone wrong.
By the mid-nineteen-fifties, Salinger had disappeared down his New Hampshire rabbit hole. The New Yorker's rejection of "The Catcher in the Rye" plainly had no effect on him as a writer. Criticized for creating a family with four precocious children and for writing in a style that drew attention to itself, he proceeded to create a family with seven precocious children, and to produce, in "Zooey" and "Seymour," works of supreme literary exhibitionism.
"Zooey" and "Seymour" are exhibitionistic because the emotional current driving the characters has become unmoored from anything that has actually happened to them. They are not thrown into a state of higher intensity by trauma or by grief. They are just in a state of higher intensity. In "Franny," Franny Glass's spiritual crisis is a kind of screen shielding the rather mundane circumstance that she has been made pregnant by a man who she realizes will remain, all his life, a pompous English major. But in "Zooey," published two years later, Franny's spiritual crisis is genuine, because, apparently, having spiritual crises is the price one pays for being a Glass in this lousy world. There is no suggestion of pregnancy. We get Seymour's Fat Lady instead. After 1955, Salinger stopped writing stories, in the conventional sense. He seemed to lose interest in fiction as an art form-perhaps he thought there was something manipulative or inauthentic about literary device and authorial control. His presence began to dissolve into the world of his creation. He let the puppets take over the theatre.
The New Yorker had no trouble publishing "Zooey" (which remains the longest piece of fiction it has ever run) and "Seymour." The magazine seems to have got over its anxiety about credibility and transparency. Salinger changed The New Yorker's aesthetic, at a time when The New Yorker's aesthetic was the gold standard for short fiction, and that is one testament to the impact he has had on American writing. There are many more. Philip Roth's early stories, collected in "Goodbye, Columbus," have something of Salinger's voice and comic timing, and it is hard to read Roth's later funny, kvetchy, mournful monologuists without imagining Holden Caulfield and Zooey Glass as ancestral presences.
Still, Roth was not trying to rewrite "The Catcher in the Rye"; Salinger's complete lack of irony could hardly have appealed to him. But other writers have tried, at least one in every decade since it appeared. Sylvia Plath made a version of it for girls, in "The Bell Jar" (1963); Hunter Thompson produced one for people who couldn't believe that Nixon was President and Jim Morrison was dead, in "Fear and Loathing in Las Vegas" (1971). Jay McInerney's "Bright Lights, Big City" (1984) was the downtown edition; Dave Eggers' "A Heartbreaking Work of Staggering Genius" (2000) is the MTV one. Many books featuring interestingly unhappy young people have been published since "The Catcher in the Rye," of course, and some of them were written by people who no doubt regarded Salinger as a model and an influence. But that doesn't make those books "Catcher in the Rye" rewrites. The bar is set a good deal higher than that, and the reason has to do with the Salinger mystique.
Why Salinger chose to drop out of sight and then out of print is his own business, and it probably ought to have nothing to do with the way people read the work that he did publish. But it does. Readers can't help it. Salinger's withdrawal is one of the things behind, for example, Holden Caulfield's transformation from a fictional character into a culture hero: it helped to confirm the belief that Holden's unhappiness was less personal than it appears-that it was really some sort of protest against modern life. It also helped to confirm the sense, encouraged by Salinger's own later manner, that there was no distinction between Salinger and his characters-that if you ran into Salinger at the Cornish, New Hampshire, post office (which is where his stalkers generally seem to have run into him) it would be exactly like running into Holden Caulfield or Seymour Glass. By dropping out, Salinger glamorized his misfits, for to be a misfit who can also write like J. D. Salinger-a Holden Caulfield who publishes in The New Yorker-must be very glamorous indeed.
This is why the narrator in a "Catcher in the Rye" rewrite is always a magazine writer. So, of course, is the author of the "Catcher in the Rye" rewrite, and the author and the narrator are separated by barely a hair. The model for the narrator is no longer Holden Caulfield. And it is not J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. It is the author imagined as J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. You can't, in other words, rewrite "The Catcher in the Rye" simply by telling the story of an unhappy teen-ager and updating the cultural references, or transposing the events to a different city, or changing the sex of the protagonist. You have to reproduce the Salinger mystique, because the mystique has become part of what "The Catcher in the Rye" is. The end product of the ideal Salinger rewrite isn't a Salinger story. It's Salinger. To rewrite the story of Holden Caulfield you have to become a melancholy genius, too. You have to be your own sorrow king.
The book that seems, in some ways, closest to Salinger's is Plath's. Plath belonged to the first generation of "Catcher in the Rye" readers. She read it sometime before 1953, when she spent part of a summer in New York City as a twenty-year-old intern at Mademoiselle. (When she arrived at the magazine, she asked to be assigned to interview Salinger, whose "Nine Stories" had just been published. She got Elizabeth Bowen instead.) That internship and her subsequent breakdown and hospitalization became the basis, ten years later, for "The Bell Jar."
Reviewers noticed the similarity to "The Catcher in the Rye" immediately, and there are echoes of Holden's voice and story in the voice and story of Plath's heroine, Esther Greenwood. But Plath was not merely borrowing. She must have felt that an aspiring magazine writer in New York City in 1953, when Salinger was in his prime, would naturally see life in a Salingeresque way. When Esther says, for example, "I'm stupid about executions" (1953 is the year the Rosenbergs were executed), she is adopting a Caulfield attitude. Esther's vague loathing of sex is a loathing learned partly from "The Catcher in the Rye"; her obsession with madness and suicide is partly the obsession of an admirer of "Teddy" and "A Perfect Day for Bananafish." In other ways, though, "The Bell Jar" and "The Catcher in the Rye" are very different books, and the difference can be summed up by saying that no reader has ever wanted to be Esther Greenwood. Holden (despite the confusion of the Harcourt Brace executive) is not crazy; he tells his story from a sanatorium (where he has gone because of a fear that he has t.b.), not a mental hospital. The brutality of the world makes him sick. It makes Esther insane.
"The Bell Jar," too, has become a staple of ninth-grade English, an officially approved text for adolescents, a book about the culture of youth. The later "Catcher in the Rye" rewrites-Thompson's and McInerney's and Eggers'-are not yet canonical in this way. People don't read them because their parents recommended them. They read them for the same reason they listen to alternative rock or go to see "Pulp Fiction" six times-because these are things that teach them an attitude. They are sensibility manuals; they show what sort of unhappiness is in style this decade.
"Catcher in the Rye" rewrites are all constructed on roughly the same pattern: a trauma triggered by a death (in Thompson's book, it's the death of the sixties), followed by an episode of emotional regression and a kind of shadow war, mostly in the head, with the rest of the world. They share with "The Catcher in the Rye" and "The Bell Jar" a fuzzy Christian thematics about salvation, redemption, and rebirth, and they draw heavily on the Salinger and Plath catalogue: mummies, fetuses, comas, sensational headlines, perversions, botched sex, suicide attempts, suicides, death fantasies, deaths. The narrators have a mordant contempt for everyone and everything, including themselves. The books are funny, but they are about loss and frustration and defeat. And each one seemed to hit a generational nerve, as though no one had ever told that story, or sounded those notes, before. What makes their melancholy so irresistible?
We think of nostalgia as an emotion that grows with age, but, like most emotions, it is keenest when we are young. Is there any nostalgia more powerful than the feelings of a third grader revisiting his or her kindergarten classroom? Those tiny chairs, the old paste jars, the cubbies where we stuffed our extra sweaters-we want to climb back into that world, but we're third graders now, much too large. We've fallen off the carrousel. Although "youth" is supposed to mean an enthusiasm for change, young people don't want change any more than anyone else does, and possibly less. What they secretly want is what Holden wants: they want the world to be like the Museum of Natural History, with everything frozen exactly the way it was the first day they encountered it.
A great deal of "youth culture"-that is, the stuff that younger people actually consume, as opposed to the stuff that older people consume (like "Lord of the Flies") in order to learn about "youth"-plays to this feeling of loss. You go to a dance where a new pop song is playing, and for the rest of your life hearing that song triggers the same emotion. It comes on the radio, and you think, That's when things were truly fine. You want to hear it again and again. You have become addicted.Youth culture acquires its poignancy through time, and so thoroughly that you can barely see what it is in itself. It's just, permanently, "your song," your story. When people who grew up in the nineteen-fifties give "The Catcher in the Rye" to their kids, it's like showing them an old photo album: That's me.
It isn't, of course. Maybe, in fact, the nostalgia of youth culture is completely spurious. Maybe it invites you to indulge in bittersweet memories of a childhood you never had, an idyll of Beach Boys songs and cheeseburgers and convertibles and teen-age crushes which has been constructed by pop songs and television shows and movies, and bears very little relation to any experience of your own. But, whether or not the emotion is spurious, people have it. It is the romantic certainty, which all these books seduce you with, that somehow, somewhere, something was taken away from you, and you cannot get it back. Once, you did ride a carrousel. It seemed as though it would last forever.
Visto permanente
Fomos hoje ao departamento de imigração sueco, chamado Migrationsverket, para pedir meu visto permanente aqui. Depois de renovar o visto anualmente por dois anos, pode-se pedir essa permissão prolongada, que vale por cinco anos, durante os quais não preciso mais me preocupar em ir lá e pagar 500 coroas por ano.
Fomos agora em março, apesar do meu visto ser válido até maio, porque nos foi informado que haveria uma demora grande para que conseguíssemos uma entrevista com um dos representantes do Migrationsverket. Essa pessoa me entrevistaria sobre minha vida aqui, o que eu faço e como é que vão as coisas comigo e Stefan.
Não sei o que aconteceu, acho que a moça que nos atendeu gostou de mim, porque consegui o visto na hora. :c) Conversamos um pouco, eu, ela e Stefan, ali mesmo no guichê. Ela me perguntou se eu estava estudando, elogiou muito o meu sueco e perguntou meio que sussurrando: "Como estão as coisas com vocês dois?", se referindo a mim e ao meu urso polar.
É engraçado como essas coisas são relativas. Acho também que esse pessoal tá acostumado a lidar com um monte de fugitivos de guerra, que vêm pra Suécia pra ter uma vida melhor e que não necessariamente se esforça para aprender o idioma. Acho que ela foi com a minha cara, sei lá. :c)
março 24, 2003
Energias
Tem uma pessoa que conheço e que considero como sendo uma amiga minha aqui na Suécia. Ela é latina, mas não é brasileira. Gosto muito dela porque ela é doce, aberta e amorosa, além de já morar aqui há 14 anos, ter filhos, marido, casa, cachorro, trabalho etc.
O único porém, é que às vezes quando estamos juntas estudando ou conversando, sinto que a melancolia que ela sente - relacionada à sua vida, às escolhas que ela fez, às demandas que uma mãe sofre etc - meio que passa pra mim. Eu começo às vezes a sentir uma tristesa enooooorme depois de tê-la encontrado.
Tenho certeza absoluta que ela não faz isso de propósito. Sei que isso acontece porque há uma confiança da parte dela com relação a mim; ela não se censura, diz como é, como sente. E isso é um privilégio sem tamanho: ter uma amiga que confia em você. Mas, mesmo assim, às vezes o peso é muito grande.
Nunca disse nada a ela, claro, até porque nossa amizade é muito nova. E nem acho que vou dizer porque acredito que uma pessoa possa "se defender" da energia negativa alheia por seus próprios meios. Há ainda todo o componente externo: minhas próprias dúvidas, insatisfações, frustrações e angústias que nascem em mim, não vêm de ninguém.
Seria inclusive injusto e sintomático do ponto de vista psicológico culpar alguém por uma dor existencial sua. Estou convencida que troca de energia - positiva e negativa - acontece em vários níveis. É possível sentir-se bem quando se recebe um email lindo, por exemplo, mas essa influência irrestrita não existe.
Para contrabalançar a dispersão de energia que por vezes acontece, realizo uma série de atividades. Desde ler algum livro interessante, escrever aqui, cozinhar (descobri recentemente as propriedades curativas dessa atividade) e rezar.
Ave Maria, cheia de graça...
Em claro
Estou quebrada. Passei a noite em claro assistindo à cerimônia do Oscar. Valeu a pena, apesar de eu não ter visto a maioria dos filmes que concorreram. Gosto de ver o Oscar, gosto de ver aquelas pessoas todas e acho que volta e meia faz-se justiça a artistas verdadeiramente sensacionais.
Aqui o show começou a ser transmitido às 2h30m da manhã e foi até às seis da matina. Fui dormir às 6h05m, assim que o Steve Martin - ótimo - deu boa noite. Gostei muito do Adrian Brody ter ganho; adorei o discurso dele, inclusive quando ele mandou a musiquinha parar pra que pudesse dizer o que quisésse.
Gostei do Michael Moore, que é feio, gordo, incomoda e faz bem. Um homem assim é necessário à humanidade, ainda mais quando se trata de americanos. Susan Sarandon estava linda, como sempre (adoro ela). Muito chic, fez um sinal de paz e amor e disse tudo.
E o Caetano Veloso? Gostei do número dele, mas achei a cantoria com a artista mexicana meio confusa. Estava torcendo por ele, mas achava que o U2 ia levar o troféu. Até eu fiquei surpresa com o sucesso do Eminem. Quem diria. Acordei às 11h45m e me preparei para ir pra escola - aula de sueco. Só voltei agora.
Estou com muita saudade da minha mãe. Acho que é o cansaço.
Sinto muita falta de um aspecto da minha vida no Brasil: o acesso à uma vida cultural mais movimentada. Não apenas pelo fato de ter meu próprio dinheiro, mas ainda por morar simplesmente numa cidade grande. A essa altura do campeonato já teria visto quase todos os filmes premiados.
Esse deserto cultural é difícil de preencher. Há outras coisas me chateando também, não é só isso. Mas são mais complicadas. Me pergunto se eu morasse em outra cidade, por exemplo, Estocolmo, se eu estaria indo mais ao cinema. Acho que sim, mas tudo depende do dinheiro. Uma pena.
Já perceberam que não está dando pra comentar, né? O YACCS sumiu e o Falou & Disse tá com problema. Aparece aqui em baixo mas não abre. Bom, vamos ver como fica. Não quero mudar mais uma vez, até porque tenho um monte de comentários lá no F&D, mas se precisar eu mudo pra outro. O que eu queria mesmo era migrar pro Movable Type e não precisar me preocupar mais com isso. Mas confesso que não tenho sanidade mental suficiente no momento para fazer isso sozinha.
março 20, 2003
A guerra começou, né?
Acordei às 6h30m, não conseguia mais dormir. Até que a dor nas costas nem está tão problemática, mas simplesmente despertei. Stefan já estava se preparando para ir trabalhar e me avisou: "Deixei a TV ligada. Está na CNN, ok?".
Claro que não consegui segurar a curiosidade, me levantei e fui ver TV antes das sete da matina. Nossa... Assisti a uma parte da transmissão da CNN America, com o Aaron Brown, que deu a notícia, creditada à edição de hoje do Washington Post, de que a CIA tinha localizado um "importante líder" iraquiano em fuga. A agência foi perguntar ao Jorje Moita o que fazer e ele mandou atacar.
Agora, uma coisa que o Aaron Brown disse e que achei interessante é que o Saddam teria ordenado que suas tropas de elite se concentrassem em Bagdá, o que poderia representar uma guerra mais suja do que a de 1991. Para conquistar a capital, os americanos, segundo a CNN, teriam de lutar "a pior forma de guerra": a guerrilha urbana. Onde nenhuma arma de alta tecnologia funciona, mas sim o combate homem a homem.
Acho estranho como é diferente a percepção de guerra aqui e no Brasil. Muitas pessoas não sentem todo esse interesse no que está acontecendo aqui no Oriente Médio - o que acho normal, uma vez que essa parte do mundo parece tão longe! Não me lembro de me sentir apreensiva quando era criança, quando logo ali na esquina a Guerra das Malvinas se desenrolava.
Aqui na Europa só se fala disso. Jornalistas suecos estão em Amã, na Jordânia, e ontem o cara, Rolf Pörseryd - que está em todas as guerras, e até sofreu um atentado no Afeganistão e teve um cinegrafista da sua equipe morto - lamentou em cadeia nacional de televisão não poder ter ficado em Bagdá com os outros jornalistas da CNN, da BBC etc.
Para ser sincera? Cada átomo do meu corpo jornalístico gostaria de estar agora em uma redação - ou então lá, no meio da ação - cobrindo essa guerra. Seria o máximo.
*Criação do Mauro... *hohoho*
março 19, 2003
Ai!
Tô com muita dor nas costas. Dei um jeito hoje de manhã, quando trocava os lençóis. Essa vida de creuza ainda me mata.
Que vença o melhor?
Matéria da BBC sobre a ausência de filmes excelentes da corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Exemplo recorrente: "Cidade de Deus", do Brasil.
Não vi o filme ainda, infelizmente. Pelo que todo mundo diz, deve ser mesmo interessantíssimo e muito tocante. Don't get me started pra falar sobre discriminação da galera de Hollywood. Como diz o repórter que fez a matéria, esse lance de Oscar é um "jogo de poker".
O que é estranho, uma vez que deveria premiar o melhores, certo? Mas sei que isso é discussão velha. Não fosse a Academia um lugar qualhado de interesses políticos, seria mais fácil esperar uma decisão justa.
Como disse, ainda não vi o filme, mas arrisco um palpite: é difícil para os americanos premiar um filme com uma carga trágica tão real. É melhor dar um prêmio para um Benigni da vida, que doura a pílula do extermínio de judeus com um filme bem legal, do que louvar a realidade brasileira, nua, crua, suada, violenta e dramática.
Explicar o sucesso do filme aqui na Europa é fácil: o paladar cinematográfico europeu é muito bem desenvolvido. Parece que eles precisam ver esses tipos de filmes para poder sentir alguma coisa.
março 18, 2003
Ahn?
Li direito, ou o mesmo ministro francês que fez aquele discurso espetaculoso no conselho de segurança da ONU disse, agora, que as coisas estão mudando de figura? Que a França poderá sim mandar tropas para a guerra já praticamente declarada?
Paris: We may help in chemical war. L'avidité est une merde, hein Chirac?
Deixe-me ir, preciso andar/

Deixe-me ir, preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar/ E se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Quando eu me encontrar.
Para Craudinha, queridoca.
Diferenças culturais na propaganda
Estava conversando com o Kibe Louco, que é publicitário, e retomei uma idéia antiga de escrever um post sobre um comercial que vi aqui e que me chocou - eu e minha idiossincrasia: ora sou puritana, ora muderna. O motivo de eu ter prestado atenção ao reclame é que ele mostra como duas culturas (no caso sueca e brasileira) podem ser tão diferentes. Na minha opinião, esse comercial no Brasil seria proibido no ato.
O anúncio mostra uma mulher que confere sua agenda de compromissos e vê que precisa estar na igreja no dia tal e hora tal para um casamento. Ela se olha no espelho do banheiro com uma expressão de desconforto no rosto. Abre o gabinete de remédios e retira um tubo de Canesten, uma pomada utilizada para se combater infecções por fungos, localizadas geralmente nas áreas pubianas.
A outra cena mostra uma noiva de costas, com o rosto coberto pelo véu, indo em direção ao altar. Nisso, todo mundo pensa: "Putz, mas a mulher vai se casar assim? Se coçando toda? Cruzes!" Aí, o inesperado spin sueco acontece e, tão logo a noiva chega ao altar, o noivo retira o véu e vê-se que a noiva não é a mulher do banheiro, mas outra pessoa.
Aí, a câmera muda de ângulo é mostra-se a padre, que é a mulher do banheiro. Ou seja, resumindo: o anúncio é sobre uma mulher padre que tratou de seus problemas ginecológicos com Canesten. O que você acha, esse comercial seria produzido e veiculado no Brasil?
Já escrevi sobre a igreja na Suécia. Veja aqui.
março 17, 2003
Mesmo no meio da minha alegria...
Cowboy maluco é homem mais poderoso do mundo.
Cowboy maluco vai declarar guerra a uma nação por seu petróleo.
Nação a ser atacada apóia ações terroristas contra país do cowboy maluco e seus aliados.
Bactéria mortal misteriosa circula pela Ásia e já já chegará a todos os continentes da Terra.
Economia mundial está indo pro beleléu.
Alguém aí, por favor, manda parar porque eu quero descer!
PASSEI, PASSEI, PASSEI!!! Passei

PASSEI, PASSEI, PASSEI!!! Passei na prova teórica de auto-escola!!!! Meu Deus, que maravilha!!! Meses de preparação, estudos, horas na frente do computador resolvendo exercícios nem sempre congruentes. PASSEI!!!!!!
Agora é esperar pela prova prática e pelo teste de segurança, no qual precisamos saber onde fica a bateria do carro, temos de acender os pisca-alertas etc. Ainda não está nada certo. A carteira de motorista sueca ainda não é minha.
Mas o pior já passou. :cD

março 16, 2003
Domingo - dia de falar português
Agora todo o domingo aqui em casa é dia de se falar português. É bom porque estamos relaxados e não há um clima de aula no ar, mas sim situações do dia-a-dia, o que torna mais fácil o aprendizado. Hoje no café da manhã comecei por dar os nomes de objetos simples, como mesa, cadeira ou bolo de côco (ainda não expliquei a importância de se colocar o circunflexo no "o" certo, mas essas sutilezas ficam para mais tarde).
Uma coisa, no entanto, me chamou a atenção depois de uma pergunta que Stefan fez. Disse a ele que aquele pedaço de papel que usamos para limpar a boca quando comemos chama-se guardanapo. Ele achou a palavra complicada para lembrar assim de primeira e me perguntou o que "napo" queria dizer. Aí, entendi. Em sueco fica sempre mais fácil entender uma palavra quando a "quebramos" e entendemos as palavras que a formam.
E não falo de prefixos ou sufixos não. Aqui cria-se uma palavra que descreve uma situação ou uma coisa a partir de duas ou três outras palavras completamente diferentes. A tigelinha de comida do gato é um exemplo clássico: gato chama-se katt, comida é mat e a tigelinha em si chama-se burk. Então o que em português é "tigelinha da comida do gato", em sueco vira kattmatsburk.

Aliás, pensando nisso e analisando outros traços culturais suecos que não me canso de discutir aqui, acho que até a língua desse povo espelha sua obsessão por especialistas. Tudo tem de ser preciso, perfeito, na mosca. Kattmatsburk foi criada para descrever uma única coisa e não pode ser utilizada para nenhum outro objeto.
Por outro lado, há palavras (em geral, verbos) que quebram essa tradição. Um exemplo que me veio à cabeça ontem, quando fazia os deveres, é o verbo att fatta, que se diz exatamente como se escreve. Esse verbo tem nada mais nada menos do que quatro significados totalmente distintos. A saber: decidir, pegar, entender e faltar. Fattar du? :cD
março 15, 2003
Solzinho bom

Está um solzinho bom aqui, apesar da neve que caiu todos esses dias. A temperatura é positiva até mesmo à noite. Já temos quase 12 horas de sol todos os dias. Hoje o sol se levantou às 5h55m e se porá às 17h27m.
Meu urso polar trabalhou o dia todo, o que me deu oportunidade de fazer os exercícios de sueco para a semana que vem e descansar do computador - sem Stefan aqui fica mais fácil ignorar a máquina.
Fiz um bolo de côco pra depois do jantar. Comprei as camadas de bolo branco já prontas no supermercado (super crocantes e muito gostosas) e recheei com um doce de côco da fazenda, que trouxe do Brasil. É surpresa. :c)
Minha dor de cabeça passou.
março 14, 2003
Encontro de blogueiros
A Sam tomou a iniciativa de promover um jamboree de brasileiros que moram no exterior. Como nossa organizadora mora atualmente na Bélgica, o encontro será em algum país da Europa. Aliás, Sam, muito democrática, está aberta a opiniões. Para dar a sua, mande um email pra ela em
Quem sabe não teremos a chance de visitar a Bélgica? Seria uma ótima conferir o carnaval da Wallonia ou então vestir-se em roupas medievais para participar da festa da Tonnekensbrand, em Geraardsbergen, ao sul de Flanders do Leste.
Ou, quem sabe, poderíamos passar uns dias na França? Nos intervalos do encontro blogueiro, poderíamos escolher entre um show eqüestre em Versailles ou o Banlieues Bleues - Jazz Festival, no subúrbio de Saint Denis. Tudo muito chique.
Mas também há possibilidade de nos reunirmos na Suécia, certo? :cD Afinal, esse país lindo de morrer, cheio de gente inteligente e bonita merece uma visitinha, mesmo estando por grande parte do ano imerso em temperaturas abaixo de zero. Uma dica: depois de encontrar os amigos de blog, saia em Estocolmo e visite a próxima Feira de artigos eróticos. Mas ninguém deixa o país antes de provar a famosa smörgårsbord. Todos os tipos de peixes possíveis, molhos, maioneses, pães, uma festa. :cD
Se nos decidirmos pela Inglaterra, nosso encontro vai ser uma delícia. Entre um papo e outro, daremos uma passadinha em Glasgow, na Escócia, para visitar o Glasgows First Comedy Festival. (Se conseguirmos entender alguma coisa, já será lucro.) Para os mais tradicionalistas, há uma exposição interessante em Londres: "Art Deco 1910-1939", no Victoria & Albert Museum.
Mas se todo esse tradicionalismo não faz o seu estilo, que tal a animada Holanda? Vamos até Madurodam, ver uma cidade inteira em miniatura? Vamos comemorar o aniversário de 150 anos de Vincent van Gogh? Vamos curtir a parada das flores entre Noordwijk e Haarlem? Ah, sim, vamos nos encontrar também... :cD
Que tal? Já se decidiu?
março 13, 2003
Sobre o post de baixo
Aqui vale um comentário. Fico com muita pena quando vejo o sucateamento do conhecimento humano por conta de um ditador maluco, como Saddam. Não sei a qualidade desse professor e nem se ele estava sendo controlado para responder apenas o que era permitido. Provavelmente sim. Acho um desperdício que a inteligência dos iraquianos seja submetida à incompetência socio-cultural de alguns indivíduos que chegam ao poder sabe-se lá como.
O mesmo digo sobre os EUA, porque a nação mais poderosa do planeta também tem suas peculiaridades, além de ter eleito democraticamente o Bush como líder. Um exemplo de que a capacidade humana de cometer atos de suprema ignorância é mesmo indistinta - não vê raça, credo ou fronteira - é a recusa de algumas escolas públicas americanas em ensinar a teoria da evolução das espécies de Darwin aos seus alunos. No final, é tudo maluquice contra maluquice.
Intolerância burra
Li uma matéria que me impressionou. Foi em um dos jornais editados aqui do norte da Suécia. A matéria, feita pela agência de notícias sueca TT, é uma entrevista com um doutor em línguas da Universidade de Bagdá. O professor Sabah Naji Sheikhly diz que eles precisam "conhecer o inimigo" e por isso oferecem estudos em todas as línguas ocidentais, como inglês e alemão, assim como hebraico.
A peculiaridade está em como os estudantes chegam aos cursos. Diz a matéria: "É contra a lei se interessar por hebreu, então como pode haver estudantes? A resposta está no modo de distribuição dos alunos. Daqueles que se inscrevem no departamento de línguas da universidade, os que têm as melhores notas estudam inglês, os segundos melhores lêem francês e daí pra baixo: alemão, espanhol, russo, turco, hebreu ou farsi (acho que a língua iraniana)".
Notaram? Nem sombra de português...
O repórter constata que aqueles que chegam para fazer o curso do professor Sheikhly são em tese os piores alunos. Ele concorda e completa: "O objetivo dos quatro anos de estudos de hebreu não é falar com ninguém, já que é proibido por lei fazê-lo, mas ler e traduzir textos em hebreu". O repórter não pode entrevistar nenhum aluno, naturalmente todos impedidos pelo departamento de política externa, onde trabalham como espiões.
A maluquice é maior quando se compara o acesso a material didático. Apesar de contar com os piores alunos, o curso de hebreu tem farta oferta de artigos de jornais e até mesmo um raro e restrito acesso à Internet. Já os 600 alunos do curso de francês, por exemplo, não têm acesso nem mesmo a jornais franceses.
Mas o mais engraçado é dito mesmo pelo professor Sheikhly. Em seu doutorado, ele estudou a obra de Yosef Agnon, um escritor judeu. Perguntado pelo repórter se ele gostava do escritor, Sheikhly disse: "Não posso lhe responder. Agnon vive em um ambiente judeu o qual eu nem sequer conheço". E o cara é doutor, hein?
março 12, 2003
Que coisa!
Fazendo exercício pra aula de sueco de amanhã. Ler poemas da Edith Södergran, responder a algumas perguntas de compreensão e mais outras tantas de gramática. No final, traduzir um poema da minha língua pro sueco (como se isso fosse tarefa fácil) e, pior, escrever um poema de amor. Em sueco, lógico.
O poema que escrevi eu não mostro aqui de jeito nenhum, mas a "tradução" que fiz foi a de um poema do meu pai. Acho que é o que mais gosto de toda a obra dele. O original é:
VERBETE PARA WEBERN 2*
Lágrimas gargalhantes
tantas quantos são
os brilhantes pisados
*****Minha "tradução"*****
VERBETE PARA WEBERN 2*
Skrattande tårar
så många som
söndertrampade diamanter
*Armando Freitas Filho, Paissandu Hotel, 1986.
março 11, 2003
Na televisão
A SVT (Sveriges Television, TV estatal sueca) acabou de mostrar mais um documentário sobre a fauna e a flora da América do Sul. São seis programas, produzidos pela BBC e que mapearam literalmente os altos e baixos da natureza do nosso continente: dos Andes à bacia amazônica.
Já tinha ficado emocionada na semana passada, quando vi o primeiro programa da série, mas hoje foi demais. O programa inteiro foi dedicado ao Amazonas e aos sistemas de vida que mudam com a época de seca e de chuvas. Fantástico.
Fiquei emocionada ao ver uma família brasileira vivendo à beira do rio. Fazem-se imagens das Piranhas, rondando o pequeno pier onde a mãe lava os pratos do almoço. Farinha e arroz chamam atenção dos peixes. De repente, os filhos do casal caem na água e a apresentadora se apressa a explicar que as Piranhas são apenas perigosas quando presas em um reservado. Soltas no rio, elas têm medo de nós.
Que liberdade daquelas crianças! Senti necessidade de tomar banho de rio, mesmo sendo uma criatura da cidade.
Agora vou ver um dos meus programas favoritos na TV sueca: Värsta Språket [véstra sprôquet]. O programa é sobre a língua sueca, suas idiossincrasias, maluquices, manias etc. O assisto desde que começou e sou uma entusiasta da maneira como o apresentador trata do assunto: com um certo cinismo e achando tudo muito engraçado. Não sei não, mas esse país precisa de mais graça.
Lista
Resultado da pequena enquete informal do post aí de baixo: o Montanha-Russa entrou na adolescência. Vamos ficar testando os limites e ver até onde podemos ir. :cD
Está nevando. Preciso mudar a posição do computador e colocá-lo perto da janela para poder ver os floquinhos caindo enquanto escrevo.
Sei que posso passar na prova teórica de direção. Não tenho dúvidas disso. Tenho apenas receio de freak out na hora agá.
Tomei suco de svartvinbär (black current, em inglês. Não faço idéia de como é em português) e lembrei do meu irmão, que gosta de sucos Del Valle.
Procuro emprego e em quase todas as descrições pede-se carteira de motorista. Dá raiva não poder fazer cruzinha no Ja.
Enquanto fazia os exercícios no computador da auto-escola, sentou do meu lado um rapazola com um walkman tocando heavy metal aos gritos (dava pra escutar tudo, apesar dos fones de ouvidos).
Preciso reler "O Apanhador no Campo de Centeio" para minha prova de inglês. Será a oitava vez que leio a obra-prima do Salinger desde que o descobri, aos 14 anos.
Amo Stefan.
Minha mãe diz que essa "nuvenzinha" que às vezes fica estacionada em cima da minha cabeça não é minha. Que eu posso fazê-la ir embora. Basta rezar.
Vontade de escrever umas coisas que estão rondando a minha cabeça, mas não sei por onde começar.
março 10, 2003
Montanha em expansão
Queria dizer que estou feliz pelas visitas de vocês todos. Ando meio em entresafra, mas não deixo isso aqui de jeito nenhum. Fico feliz que os amigos de sempre venham e perguntem como é que estão as coisas e fico ainda mais contente quando gente nova, como o Mauro, vem cada vez mais aqui deixar seus comentários. Obrigada!
Estou estudando horrores. Li dois livros em sueco de sexta-feira passada até hoje de manhã e fiz um trabalho sobre um deles. Além disso, estou lendo pela quarta vez o livro de regras de direção porque minha prova teórica se aproxima.
Além do que, uma questão tem me atazanado as idéias nos últimos dias. Sinto necessidade às vezes de ser um pouco mais pessoal aqui no meu blog, mas ao mesmo tempo sei que não posso me expor assim. Não, não pretendo escrever nenhum segredo escabroso ou mostrar os esqueletos nos armários, mas sim coisinhas do dia-a-dia, mais particulares, que não sejam textos sobre os suecos nem piadinhas.
Sei como cada um de vocês funciona em seus respectivos blogs, uns mais abertos, outros mais formais. Eu nunca me perguntei qual a linha editorial do Montanha-Russa porque sempre achei que ele seria como um diário mesmo, onde eu poria as coisas que me interessam sobre minha vida. Ele é isso e muito mais.
Agora não sei o que fazer. Parece que um dia a gente tem mesmo que fazer uma escolha editorial não apenas no blog mas em tudo na vida: no que acreditamos, o que defendemos. Eu sempre desconfiei, mas agora posso afirmar: neutralidade não existe. Acho até que quem é neutro é chato.
Uma coisa engraçada é que adoro escrever aqui, mas não suporto ninguém bancando o smart ass com as coisas da minha vida, me perguntando de furos que eu dei ou de coisas pessoais. Sei lá, incongruência mesmo. A pergunta é: até que ponto ir?
Falando nisso - quer dizer, quase nisso - leia esse artigo do No Mínimo sobre a (falta) de privacidade na Era Google.
março 09, 2003
Os bons tempos acabaram
Acho que os meninos do Blogger esqueceram de colocar alguns pontos no FAQ que criaram para explicar o que mudaria com a compra da Pyra pelo Google. Deixaram de botar lá:
- que a edição a partir de agora é feita precariamente, com letras acentuadas mudando para caracteres em chinês;
- que volta e meia não temos apenas um, mas dois banners, um em cima do outro, em nossas páginas;
- que o help simplesmente não funciona...
Talk about pressure to pay...
Tic tac... tic tac... tic tac...
Hoje, 9 de março de 2003 = 1 ano e 10 meses de Suécia. Felicidade agridoce.
março 06, 2003
O direito de todos os homens
A Marina duvidou, então resolvi escrever sobre isso. O direito de ir e vir em todas as terras suecas - inclusive aquelas que tem dono - é assegurado por uma das mais antigas leis desse país, a "Allemansrätten", ou "direito de todos os homens". E diz assim:
A Allemansrätten nos permite a movimentação livre em florestas e chão. Podemos caminhar, andar de bicicleta, andar de ski e cair na água quase que em qualquer lugar em toda a Suécia. Para poder aproveitar esse direito, precisamos mostrar respeito para com as plantas e os animais. Não podemos perturbá-los nem destruí-los. Além disso, podemos fazer:
andar por qualquer área, a não ser áreas perto de casas nas cidades, além de plantações.
passar qualquer tipo de cerca, desde que o façamos sem destruir a cerca para que nenhum animal se fira.
acampar uma noite sem pedir permissão ao dono do terreno, mas é educado ainda assim perguntar. Se for passar mais de uma noite ou se for um grupo maior de pessoas, fale sempre com o dono do terreno.
pegar flores selvagens, frutinhas e cogumelos.
fazer uma fogueira se isso não coloca em perigo a floresta.
pegar galhos de árvores que estejam caídos no chão e vegetações que ajudem a fazer fogo.
banhar-se em qualquer parte, a não ser perto de uma ponte particular.
nadar e passear de barco em qualquer água.
pegar água para beber de qualquer fonte ou rio.
pescar.
Não podemos:
destruir a natureza. O dono da área tem o direito de requisitar compensação.
danificar árvores vivas e arbustos (arrancar galhos, nozes, folhes etc).
andar por áreas plantadas.
arrancar flores e frutinhas no jardim de alguém (podemos pegar apenas nas áreas não-cultivadas)
andar de carro no terreno.
tirar ninhos e ovos de passarinhos.
caçar sem licança.
deixar lixo no chão ou nos rios (pode dar multa).
fazer fogueira quando há risco de o fogo se espalhar.
Ainda em dúvida? Acesse esse link aqui.
março 05, 2003
Para entender os suecos
A Lu me passou o link de texto muito bom sobre os costumes suecos. Não tem nada a ver com aquele primeiro texto que publiquei mês passado, mas é tão bom quanto. Enjoy!
Tirando o máximo de vantagem do moderno caminho do meio
por Dean Forster
A Suécia é a maior e historicamente a mais influente das três culturas escandinavas (Suécia, Noruega e Dinamarca). Hoje, a Suécia é um país que tenta preservar suas tradições enquanto se adapta às mudanças sociais e econômicas do cenário mundial. O conhecido Caminho do Meio sueco entre capitalismo e socialismo produziu uma classe média estável, cujos membros têm a maioria das necessidades da vida oferecidas de graça pelo governo, porém poucas oportunidades pessoais em uma economia difícil. Enquanto muitos suecos dão valor aos benefícios do sistema de assistência social, a geração mais nova se tornou pouco motivada, em uma sociedade na qual a vida de uma pessoa não é afetada não importa a quantidade de esforço pessoal de cada um.
Qualidade e cuidado por todos - Os suecos entendem que na vida nada deve ser em excesso. O melhor caminho é sempre o do meio, e isso quer dizer que negócios e sociedades empresariais devem ser organizadas e gerenciadas de acordo com as necessidades da maioria. É difícil para os suecos dizerem "Não". Por isso, eles desenvolveram várias maneiras mais educadas para indicar negatividade. Um exemplo é o vocábulo "Nja" - combinando as palavras suecas para sim (ja) e não (nej) - que quer dizer "isso pode ser meio difícil de fazer". O "Nja" é utilizado quando os suecos querem dizer que eles não farão, não podem fazer ou mesmo não querem fazer alguma coisa. Às vezes ouve-se um "Tja", que pode ser traduzido como o "well" do inglês e que na verdade quer dizer alguma coisa como "não sei se eu vou conseguir fazer isso".
Apesar de muitos suecos entenderam inglês, alemão é a segunda língua falada, e a maioria dos suecos fica surpresa se você souber falar algumas palavras de sueco. Devido à necessidade de consenso e de autoridade não tão destacada, chefes raramente mandam seus trabalhadores fazerem algo, mas antes os "convidam" para realizar certa tarefa. Discursos diretos, negativos e agressivos não são apreciados. (esse parágrafo contém pelo menos um erro: o inglês é sim a segunda língua daqui. O alemão é muito usado, mas o inglês é, sem dúvida alguma, predominante. Sobre o lance do chefe, infelizmente ainda não tive oprtunidade de verificar se é verdade ou apenas uma bela bull shit).
O primeiro entre iguais - Nos tempos dos Vikings, o rei era tradicionalmente chamado como "Primeiro Entre os Iguais", uma noção de autoridade interessante numa organização equalizada. Até hoje, não apenas dividem características físicas similares, mas também uma interpretação igualitária em responsabilidades de cada sexo. As mulheres podem atingir cargos importantes e os homens podem cuidar da casa. De fato, muitos suecos não se casam até que um filho esteja a caminho.
Uma Smörgåsbord de sabores - A smörgåsbord é uma das mais famosas tradições suecas. Você deve fazer várias visitas à mesa do smörgås [smôôrgôôs], cada vez para provar diferentes comidas, como peixes, carnes frias e quentes, e vegetais. Além de carne de rena.
A boa vida - Swedish Style - Os suecos adoram a natureza e muitos têm uma pequena casa no campo onde passam os verões. Com um sistema único de propriedade e uso público*, é comum para os suecos saírem das cidades em direção ao campo todos os anos. (*Esse é um conceito muito interessante. Aqui, você compra uma propriedade, constrói uma casa e tal, mas a área não construída da sua propriedade, que quase nunca é cercada por muros, pertence à todos. Pode-se, inclusive, acampar alguns dias no jardim de alguém, desde que chegue-se a um acordo com o dono da casa, lógico. Mas é direito garantido pela lei a possibilidade de andar livremente por campos, florestas e espaços. A lei que garante isso é antiquíssima e chama-se "Allemans Rätt", ou o direito de todos os homens).
Apreciar saunas é um passatempo tipicamente sueco, mas há certas regras de etiqueta a seguir: homens e mulheres geralmente fazem sauna em horas diferentes e é totalmente OK fazer sauna pelado. E sim, os verdadeiros profissionais de sauna dão um mergulho no rio congelado depois de sair do quentinho.
Mas a vida boa não é de graça - Não comente muito sobre impostos, serviços sociais e economia utópica. No entanto, os suecos irão discutir isso assim que ficarem mais íntimos. Aprecie o máximo o que todos os suecos trabalharam duro para criar e tente entender os novos conceitos. Na terra do sol da meia-noite, a vida boa é ainda melhor quando é boa para todos.
Que dia mais feliz!!!
O carteiro passou aqui em casa ontem e deixou um aviso. Tinha um pacote de mais de oito quilos me esperando lá no correio. E o pacote veio do Brasil!!!! Mamãe!!!!! :cD Vejam o que minha mãe me mandou:
um par de sandálias da Tribo dos Pés, loja que amo de paixão;
oito sabonetes Phebo, quatro Amazônia pro Stefan e quatro comum, pra mim;
três garrafinhas de Dietil e mais três de essência de baunilha;
dois shampoos Seda Citric Fresh, os meus preferidos;
um potinho de goiabada cascão (uhmmmm);
um creme de mentol Ox, para massagear os pés cansados do meu urso polar;
uma massageador de bolinha;
dois dos meus pirex lindos, desenhados, que tinha na minha casa e que deixei com a mamãe por não ter mais lugar na mala;
meu baralho de cartas com imagens de quadros do Klimt;
uma caixinha de pílulas de Prímoris, minhas salvadoras quando a TPM está me matando;
um ralador tudo-em-um da Moulinex, muito lindo;
revistas e receitas do Celidônio que sairam no Globo (uma delas veio junto com uma matéria do Jornal da Família cujo título é: Teste seu QI sexual. Uhmmm, o que será que mamãe quis dizer com isso?)
um "pão-duro" (ferramenta de borracha, para tirar até a última migalhinha da panela);
um chocolatinho Nestlé com Leite de Moça dentro... uhhhhhmmmmmm
...e dois pingüins de geladeira, com cartola e tudo, comprados na Luvaria Gomes. *hohoho*... Só a mamãe mesmo. :cD
março 04, 2003
O mico da manga

Como Stefan é um orgulhoso consumidor de gorduras, batatas fritas e que tais (sem nunca engordar uma grama), tentei desviar (minha) rota engordativa e adicionar legumes, verduras e frutas à nossa lista. Fui à parte de hortifrutigranjeiros procurar por algo interessante. Foi aí que tudo aconteceu.
Parei na parte das frutas "exóticas" e vi uma manga. Amarelinha, com uma linda cor avermelhada em um dos lados. Perfeita. Pensei: "Manga! Que delícia! Há quanto tempo que não como uma!". Quando fui ver quanto teria de pagar por minha extravagância, olhei para cima, onde ficam as plaquinhas de preços e procedências. E lá, li: "Mango - från Brasilien" (Manga - do Brasil).
Larguei manga, sacos plásticos, lista, caneta, carrinho e homem e comecei a chorar ali mesmo. O maior mico, diria meu irmão, mas absolutamente irremediável.
Terra de especialistas
Procurando emprego de verão, ou emprego comum mesmo. Vou nos sites de empresas de recrutamento e faço meu cadastro. Problema: quando vou descrever que tipo de trabalho fazia em cada um dos meus empregos anteriores, apenas uma palavra não é capaz de descrever tudo. Sou jornalista, repórter, editora, mas além disso já fiz textos pra anúncio, já fui secretária, redatora, tradutora e até chefe. Já fiz quase de tudo nesse ramo. Como é que posso me restringir à escolha limitada de um formulário eletrônico?
Essa é outra diferença entre a Suécia e o Brasil. Na minha terra, a gente estuda alguma coisa como base e acaba fazendo muito mais, dependendo da necessidade, da nossa capacidade, lógico, mas principalmente da exigência do trabalho. Aqui as coisas são diferentes. Você quer ser farmacêutico (vender remédios nas farmácias estatis)? Tem que estudar cinco anos. Quer ser médico? Pode se preparar pra passar seis anos na universidade. Quer ser trabalhador de fábrica? Vai ter que passar mais alguns anos estudando pra isso. E por aí vai.
Não condeno a exigência de educação apropriada, mas confesso que é complicado pra mim pensar em investir mais alguns anos da minha vida numa carreira e saber que não poderei fazer nada além daquilo. Se estudar para ser assistente social, por exemplo, só poderei trabalhar com aquilo. Não há mobilidade alguma aqui.
Pode ser que eu esteja mal acostumada, já que tive sorte na minha vida profissional no Brasil e raramente ficava chateada, fazendo a mesma coisa sempre. Mas o que me intriga é uma pergunta que me veio a cabeça há algum tempo atrás, quando comecei a entender a sociedade sueca e como ela funciona: aqui cria-se orgulhosamente uma sociedade de especialistas. Gente que faz "A" e somente "A" pelo resto de suas vidas. Para poder fazer "B" ou "C" ou "D", precisa-se voltar para a universidade e passar anos estudando.
março 03, 2003
Glamour da vida na Europa
Estava eu, tranqüilinha da silva, arrumando a montanha de papéis que eu e o urso polar com quem divido o apartamento juntamos, quando ouço uma sirene grave, como um apito super forte de barco que chega no cais. E o lance não era apenas aqui perto do meu apartamento, mas na cidade toda.
Tocou uma vez. Duas, três, quatro vezes. Períodos longos, outros curtos. Pensei: "Fudeu, ou é incêndio na cidade inteira ou os russos resolveram ocupar a Suécia de uma vez por todas". As coisas aqui são calmas e é raríssimo aumentar o volume, fazer bagunça.
Nervosa, liguei para o Stefan. "O que é essa barulheira?", perguntei. "Ah", disse ele rindo, "é o alarme geral que vai tocar toda primeira segunda-feira de cada mês. Um sinal longo quer dizer 'fiquem em casa e liguem o rádio para instruções'. Vários toques mais curtos significam 'desçam para o porão porque haverá ataques aéreos'".
Ataques aéreos? Ãnh?
Bem de perto, ninguém é perfeito
Tem uma coisa que acho fundamental no ser humano: a capacidade de ouvir a si próprio; às barbaridades que se diz sem nenhuma idéia de que muito certamente irá ferir alguém. Aprendi isso muito cedo, nas sessões de análise sem fim e em conversas com meus mudernos pais. Se as conversas não foram tão interessantes - mexia-se sempre em alguma coisa que me era dolorido - certamente aprendi muito e hoje em dia sei como é fundamental escutar a si mesmo.
Ter a consciência de que o que você diz para alguém pode ter a ver com você mesmo, é importante. Mesmo assim a gente mete os pés pelas mãos às vezes e fala coisas que não deveria. Ou então escuta coisas que outras pessoas nos dizem na maior ingenuidade. O incrível é que essas pessoas, que gostam da gente, que nos querem bem, não notam como o assunto é impróprio, como chateia, como nos deixa nervosos. O silêncio é sagrado mesmo.
Impessoal
Fazendo um exercício novo para o curso de sueco. Tinha que ler um livro e fazer uma espécie de diário sobre a leitura. Anotar partes mais importantes, explicar por que; dizer quais os personagens que mais nos marcaram etc. Interessante. Li "Liten Ida", de Marit Paulsen, sobre uma menina nascida na Noruega ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, filha de uma norueguesa e de um soldado alemão.
Trouxe comigo outros dois livros pra experimentar. Um sobre um casal que vive separado por força do trabalho do marido - mergulhador em uma plataforma de petróleo na Noruega - e que deixa toda a responsabilidade dos filhos com a mulher, que também trabalha. O outro livro é a tragetória de uma escrava nos tempos do Império Romano.
Na verdade queria comentar uma coisa que vi na TV, um documentário sobre Arquimedes, mas estou sem saco. Mas já já eu volto ao normal. Volta e meia me sinto meio felina. Fechada dentro de casa, sentada perto do radiador, olhando pra fora da janela, vendo o tempo passar. Não, não estou triste nem nada. Estou ok. Mas é o que estou sentindo sinceramente.
março 02, 2003
Sem palavras
Acho que estou ficando velha. É que volta e meia interrompo a frase que estava dizendo no meio e só penso o resto. Isso geralmente acontece quando estou concentrada em alguma coisa. Stefan, minha "vítima" mais usual, fica maluco: "Cadê o resto da frase? Cadê o resto?", pergunta ele.
Acho que é cansaço. Até porque as frases que corto pelo meio são quase todas em sueco. O lance é que as continuo na minha cabeça, em sueco também, mas tenho preguiça de falar. Já aconteceu também em inglês e até em português. Mas na minha língua é mais raro, claro.
Em sueco, volta e meia digo assim: "Jag vill ha..." (Eu quero...) e não completo. Aí, Stefan: "Quer o quê? Me diz o que você quer?".
Acho que é cansaço. Só pode ser.
O problema fica pior quando eu quero perguntar alguma coisa. Como no inglês, em sueco inverte-se a posição de sujeito e verbo quando formula-se uma pergunta. Então fico eu lá dizendo: "Vill..." ("Quer..."). E perco o interesse em dizer o quê. Fico imaginando as pessoas mudas. Deve ser uma ginástica incrível falar com as mãos o tempo todo. Quero mais é telepatia.
março 01, 2003
No Círculo Polar Ártico
No Círculo Polar Ártico
Ontem, depois do trabalho, Stefan me levou até perto de Jokkmokk, cidade ainda mais ao norte daqui. É que é no caminho dessa cidadezinha que fica a placa que indica que você passou o Círculo Polar Ártico. O marco consiste em algumas placas em diversas línguas e em uma típica cabana em madeira e vidro, construída exatamente onde a linha imaginária do Pólo passaria.
É uma viagem de duas horas, a partir de Boden, até o local, que fica à beira da estrada. Se algum dia eu receber algum visitante (amigos ou família) do Brasil, esse será um passeio certo. Não há muito o que ver no local em si, mas a natureza em volta é linda. O caminho, apesar de ainda cheio de neve, já mostrava as Evergreens todas felizinhas, batucando os dedinhos impacientes à espera da Primavera.
Fiquei cansada de sentar mais de duas horas pra ir e pra voltar. Mas tenho uma explicação. Não consigo dormir e nem relaxar. Parece maluquice mas tenho que ficar atenta ajudando o Stefan a "navegar". É que além da pista cheia de gelo, há sempre o perigo de encontrar alces e renas nas estradas. E só Deus sabe o estrago que um alce atropelado faz num parabrisa.
Anyway, tirei minhas fotos na placa do Círculo Polar Ártico. Assim que revelar e se eu não estiver muito horrível, eu mostro aqui.
Carnaval? Hã? What? Vad då?


