janeiro 31, 2004

Um anjo em minha mesa

Li no jornal de ontem que a escritora neozelandesa Janet Frame morreu. Foi ela quem escreveu "Um Anjo em minha mesa". O livro, que faz parte de uma autobiografia escrita em forma de trilogia, virou filme nas refinadas mãos da Jane Campion, a mesma criadora do maravilhoso "O Piano".

Me lembro com carinho do filme "Um Anjo em minha mesa", apesar de nunca ter lido o livro. Acho a atriz Kerry Fox (uma versão mais rude da lindíssima Cate Blanchett) um verdadeiro achado. Foi ela quem interpretou Janet Frame. O cabelo vermelho alvoroçado é simplesmente maravilhoso.

Quando li a notícia da morte da autora, vários flashes do filme me vieram à cabeça, e olha que eu sou daquelas que esquece todos os filmes que assiste. Esqueço tudo, mas esse filme ficou. Depois da morte de duas irmãs - ambas morreram afogadas - ela foi internada no hospício Seacliff onde passou oito anos e quase sofreu uma lobotomia.

O médico não fez a cirurgia porque leu no jornal no último minuto que o primeiro livro de Janet havia ganho um prêmio para escritores iniciantes. Lembro de muitas partes do filme, como campos verdes da Nova Zelândia (nada a ver com O Senhor dos Anéis), mas principalmente de quando ela tentou dar aulas e, muito tímida e insegura, saiu correndo da sala de aula.

Mas o mais bonito do filme é mostrar a brutalidade das pessoas (professores, médicos etc) que não viam a delicadeza de alma da Janet e a julgavam apenas pelo que era evidente: uma pessoa com um certo desequilíbrio psicológico e uma timidez quase patológica. Lindo, lindo, lindo.

Matéria sobre a morte de Janet Frame no New York Times. (Em inglês)
Veja a matéria que li ontem de manhã. (Em sueco - Dagens Nyheter)
Leia mais sobre a trilogia autobiográfica de Janet Frame. (Em inglês, Amazon.com)
Site do filme "Um anjo em minha mesa". (Em inglês, IMDB)

Escrito por Maria às 09:34 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

janeiro 30, 2004

Relatividade

Se você algum dia resolver ter uma aula de análise de argumentação, recomendo que escolha bem o professor. Se for um filósofo, prepare-se para uma aventura no mundo das respostas indiretas e no universo do "tudo é possível". Nosso exercício consistia em analisar um texto e separar a tese dos argumentos, que deveriam ser organizados hierarquicamente. A tese era "T", os argumentos pro-tese chamavam-se "P" e os contra, "C".

professor -- O argumento A é a favor da tese, portanto chama-se P1.
alunos -- OK.
professor -- Já o argumento B não reforça a tese, mas o argumento A, por isso vamos chamá-lo de P1P1.
alunos -- OK.
professor -- O terceiro argumento, no entanto, é contrário tanto à tese quanto ao primeiro argumento, o que faz com que se chame C1P1.
um aluno -- Ah, mas eu o batizei de P2, porque mesmo sendo contrário, trata-se de um argumento novo...
professor -- É, você tem razão. Podemos entender a questão assim também.
outro aluno -- Mas eu acho que há uma terceira possibilidade: o terceiro argumento nada mais é do que uma segunda tese, portanto seria T2.
professor -- É, você está certo também.
alunos -- ... (todo mundo se entreolhando) ...

Criatividade - Existem três meninas chamadas Elin Ericsson na minha turma. TRÊS.

Escrito por Maria à s 03:36 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

janeiro 29, 2004

Livros

Acabei de ler ontem o "The King of Torts" do John Grisham e me decepcionei. É, pela primeira vez não gostei de um livro dele. Não que o tenha abandonado, muito pelo contrário. O livro é uma delícia de ler, até porque a principal característica do Grisham não é exatamente sua criatividade, mas o modo delicioso como ele escreve sobre as mesmas coisas.

O livro conta a história de um advogado (claro) que por uma razão ou outra começa a ganhar dinheiro defendendo consumidores de remédios cujos efeitos colaterais causam defeitos nas válvulas do coração ou tumores malignos nos rins. O Grisham descreve brilhantemente como nosso herói, Clay, começa a ganhar dinheiro e, deslumbrado, não consegue mais parar de gastar.

Acho que estaria de bom tamanho se o Grisham tivesse escrito uma matéria sobre esse tipo de prática legal, não um livro. A história do Clay é OK, mas parece um enredo auxiliar, criado para romantizar a verdadeira história do livro - uma crítica sutil ao sistema jurídico americano que permite que advogados persigam - a palavra certa é stalking - a indústria farmacêutica com ameaças de casos milionários.

Mesmo assim, você fica meio que enfeitiçado pelo redemoinho de acontecimentos, e, claro, nervoso de como se gasta dinheiro nos EUA. Sai como água. Não vou contar nada do livro porque desconfio que tem uma galera que é como eu, gosta que se enrosca de ler esse tipo de livro.

Esse outro livro que comecei ontem mesmo, "Tisdagarna med Morrie", de Mitch Albom é simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO. Quer ler uma prosa bem escrita, direta, inteligente e emocionante? Então você precisa ler esse livro. Se compra-lo em inglês, não se deixe enganar pelo título, "Tuesdays with Morrie: An Old Man, a Young Man, and Life's Greatest Lesson". Parece meio idiota, mas o livro, eu prometo, vale a pena.

Escrito por Maria às 10:39 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

janeiro 28, 2004

Respeito

Acho que preciso me explicar: quando escrevi o post abaixo estava me referindo ao meu prazer de estudar aqui. Acabei contando minha experiência no Brasil porque ela faz parte de mim, de minha vida, e por isso é relevante. Não quis, no entanto, dizer que sou melhor do que ninguém nem que a universidade sueca (seja ela qual for) é um luxo para poucos.

Não, se você entendeu isso, entendeu errado. O que quis dizer, e talvez não tenha conseguido expressar, foi meu encantamento com o curso que estou fazendo, com a universidade em geral e com os professores em particular. Isso porque apesar de ter tido muita sorte de ter estudado na UFRJ, tive azar com alguns dos educadores que encontrei por lá.

Cada um tem sua história e suas experiências. Peço que as pessoas compreendam que escrevo aqui do meu ponto de vista, uma mulher de 32 anos que se mudou pro outro lado do mundo e que está tentando dar uma guinada na sua vida. Nada mais. Não quero arrasar o ensino público brasileiro, até porque sou um produto dele.

Aliás, tem uma coisa que está me incomodando muito já tem um tempo. Há uma patrulha violenta que gira em blogs por aí e que ataca as pessoas que expressam suas opiniões sobre temas controversos, como cultura árabe, antisemitismo na Europa etc. Só para não criar uma onda de ódio dirigida à minha pessoa: não tenho nada contra árabes ou judeus.

Se tenho amigos judeus - um deles inclusive morando em Jerusalém - me faltam amigos árabes pura e simplesmente por falta de oportunidade. Cresci num país católico e no Rio de Janeiro, longe do pluralismo paulista, por exemplo. Mas tive uma amiga de colégio cujos parentes vinham da Síria, serve?

Olha, o que estou querendo dizer é que cada um tem direito a expor suas opiniões - sejam elas positivas ou negativas - em seus blogs. O que não dá é para ser atacado cada vez que você levanta um assunto polêmico e que é relevante para você como pessoa. Você está escrevendo no seu blog, que por mais que esteja na Internet, é ainda um território muito íntimo e sem qualquer peso político.

O que a patrulha que circula nos blogs escritos por brasileiros fora do país precisa entender é que aqui na Europa os pontos de vista são diferentes. A visão que se têm da política de Israel, por exemplo, é completamente diversa da visão brasileira. Sabem por que? Porque o Brasil espelha com alguns descontos a visão americana.

A Europa, até estar mais perto dos países árabes e dos conflitos no Oriente Médio, tem outra opinião sobre o assunto. E é sobre isso que nós, brasileiros que moram aqui, escrevemos. Posso falar apenas por mim, mas o que me interessa são os diferentes pontos de vista. Quero discutir e não defendo ninguém, até porque não tenho conhecimento suficiente para tanto.

Não quero criar caso com ninguém, sou uma criatura pacífica até porque não tenho vontade nem energia para ser polêmica e brigona. Queria apenas defender o meu direito de escrever sobre o que eu bem entender aqui. Minha opinião é só minha e ninguém tem nada a ver com isso. Clichê: respeito é bom e eu gosto.

Escrito por Maria à s 09:45 AM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

janeiro 27, 2004

Aprender e aprender

Sabe porque eu gosto tanto dessa universidade? Não é apenas porque as salas são lindíssimas, os aparelhos eletrônicos realmente funcionam (ou existem!), as pessoas são pontuais etc. Estou maravilhada com esse curso porque os professores são extremamente motivados, verdadeiramente amam o que fazem e, apesar de terem anos de experiência de campo, escolheram trabalhar na academia, atuando como pesquisadores em suas áreas de interesse. Apesar de terem conhecimento teórico avançado, suas aulas não são chatas nem repetitivas. Eles contam casos de pessoas que trataram, o que deu certo e o que deu errado, ilustrando a teoria o tempo todo. Fantástico.

Tanta diferença dos meus tempos de estudante da UFRJ!!!! Meu Deus, que diferença! O descontentamento dos professores era quase palpável. As aulas insuportavelmente teóricas e muitas vezes sem sentido. Sempre duvidei de educadores com pouca ou nenhuma experiência de campo, que pouco trabalharam em redações de jornais ou revistas. Tentava ter boa vontade para ouvir as teorias da comunicação e confiar de que aquilo, um dia, seria muito importante pra mim. Pois olha, não foi. Nunca. E professores engajados tanto como educadores quanto como professionais eram poucos.

Não gosto de comparar porque acho injusto com o Brasil, mas, sinceramente? Sinto que nunca estudei naqueles quatro anos de faculdade. Conquistei um diploma, só isso. Aprendi tudo o que precisava no trabalho e com as pessoas com que trabalhei. Hoje, sei que estou estudando e que o que leio hoje vai ter um peso na minha vida profissional futura.

Para ilustrar, uma historinha que aconteceu comigo no quinto semestre de jornalismo, lá por 1993. Tínhamos que escrever uma reportagem pra um dos cursos mais práticos da universidade. Como estudávamos perto do Rio Sul (shopping center no Rio) a professora nos mandou pra lá, para contar qualquer história que quiséssemos.

Não pude ir não sei porque, mas minha amiga Ana Flávia foi e me passou algumas anotações extras que ela tinha apurado com a moça que limpava um dos banheiros de lá. A partir de informações mínimas (nome, idade, quanto tempo trabalhava lá, quantas horas por dia, o que fazia mais etc) escrevi minha "matéria", que nada mais era do que uma história de ficcão, e que recebeu o nome de "O banheiro de Rosemary". Essa foi a única vez que a professora gostou tanto do meu texto que me fez ler alto pra toda a turma.

A partir daí, minha crença no curso dela em particular e no de jornalismo em geral acabou.

Escrito por Maria à s 05:43 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 26, 2004

Idílio e utopia

Hoje tivemos um seminário superinteressante lá na faculdade. Foi sobre a história do trabalho social na Suécia e cobriu do início do século XIX até hoje. Gosto demais dessas aulas porque me dão oportunidade de entender a história do país através da perspectiva local.

Falamos de muitas coisas, mas uma delas sempre me fascinou: a noção da Folkhem, ou literalmente a "casa do povo". Esse foi um conceito lançado pelos social-democratas no anos 30 para reformar a vida de todos os suecos. Todos teriam direito a um apartamento decente, com água, luz, esgoto etc.

A Folkhem era um ideal, uma visão do "Lar, Doce Lar" que, aliás, foi alcançado. Até porque a Suécia contava com uma série de circunstâncias favoráveis: povo homogênio, sem guerras externas ou internas e com altíssimo grau de controle das autoridades.

A idéia era cortar todos os excessos, tanto o luxo quanto a miséria. Oferecer àqueles que não têm nada um mínimo, que seria financiado pelos impostos altíssimos pagos por todos os outros cidadãos. A idéia do trabalho social apareceu aí ainda mais evidente, como uma necessidade de fazer valer a política do bem-estar (Well faire).

Foi nessa época que a Suécia foi reconhecida mundialmente como exemplo de bem-estar e educação; respeito às leis e progresso. O mais interessante disso tudo, no entanto, foi que a discussão não parou por aí. Fomos até o ponto em que se discutiu a morte da utopia da Folkhem.

Os social-democratas dominaram o poder na Suécia de 1932 até 1976, sem interrupções. Isso ajudou a implementar a idéia da "casa do povo", mas o sucesso não durou muito. Segundo a professora, a idéia da Folkhem morreu em 1969, no meio das revoluções e protestos socialistas.

Isso porque o mercado de trabalho sueco já não dava conta de absorver todas as pessoas que moravam aqui; imigrantes começaram a chegar em massa e a vida idílica, acabou. Logo depois veio o neo-liberalismo dos anos 80 e a débàcle da imagem de perfeição sueca nos anos 90, quando um escândalo de esterilizações em massa de pessoas com deficiência mental virou notícia no mundo todo.

Eu me lembro que fiquei chocada da Suécia, esse paraíso perfeito, ter práticas quase nazistas em seu dia-a-dia. Mal sabia eu que paraísos perfeitos não existem.

Escrito por Maria à s 09:16 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 25, 2004

A verdade

Stefan foi pra Boden hoje de manhã - por causa do horário insano do único trem do domingo. Acabei de falar com a minha mãe. Chamem o Guiness Book of Records! Foram os trinta minutos mais rápidos da história! Quero mais!!! Tinha tantas coisas pra dizer que eu parecia uma criança quando quer contar uma história e não tem tempo de detalhar e sai falando desenfreadamente, esquecendo palavras, inventando outras, rindo e chorando ao mesmo tempo e sentindo, durante todo o processo, o coração apertadinho no peito, a voz da pessoa ali no ouvido e o amor que nunca acaba.

Minha vida é mesmo uma montanha-russa. Todos os dias estou pra cima e pra baixo, em cima e em baixo, torta, assustada, feliz, exuberante, esperançosa, triste, saudosa. E quando falo com pai, mãe, irmão ao telefone tento manter a torrente abaixo do nariz. Bato os pés e não deixo de respirar. Nado e mantenho o ritmo pra não me "quebrar" totalmente. Tem dias mais fáceis, alguns mais difíceis e outros quase impossíveis. Bom, vou dormir porque amanhã é um outro dia. Amém.

Ave Maria cheia de Graça O Senhor é convosco Bendita sois Vós entre as mulheres Bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus,
Roguai por nós pecadores,
Agora e na hora de nossa morte,
Amém.

Ah, um dia essa saudade ainda acaba comigo.

Escrito por Maria às 10:36 PM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

janeiro 22, 2004

Ainda pensando nas mocréias

Tava me perguntando o porque de estar tão mobilizada pelo lance das mocréias. Com tanta coisa legal e interessante acontecendo, porque não paro de pensar/escrever sobre as infelizes que fazem parte do meu curso e que nem conheço direito? Depois de ponderar um pouco, acho que descobri a razão.

Minha primeira experiência na universidade (jornalismo na UFRJ) foi péssima em vários sentidos: professores desmotivados, livros antigos (ou inexistentes), cópias xerox generalizadas, falta de laboratórios para aulas práticas etc. Por outro lado, o da convivência social, foi um dos melhores períodos da minha vida.

Acho que isso é que está me chateando, essa falta de calor humano tão necessária quando se está dando um passo fenomenal assim, ainda mais "no estrangeiro". Mas não gosto de choramingar (apesar de adorar reclamar). Afinal, era exatamente isso o que eu queria.

E o mais engraçado, ou irônico, é que eu nem gosto tanto assim de trabalhos em grupo, nem de ficar andando de um lado pra outro com uma amiga a tiracolo. Acho que já passei dessa idade e, sinceramente, prefiro quase sempre a solidão a qualquer tipo de papo circunstancial.

E só pra defender - ou deixar de ser tão má com - as mocréias suecas: elas não são feias não. Algumas até são bonitas. Outras, lindas. Vai ver que são até gente boa e eu é que estou sendo implicante. Então, pra resumir, nada melhor do que um clichê: "Quem viver, verá".

Escrito por Maria às 08:40 PM | Mais: Vida de imigrante | Comente! (0)

janeiro 21, 2004

Notas

Almoçar é um luxo concedido apenas àqueles que sobreviveram ao primeiro semestre... São tantas providências práticas que precisam ser tomadas que eu precisaria de uma secretária para dar conta de tudo. Não almocei nenhum dia desde segunda-feira.

Hoje comprei os 11 livros obrigatórios para o curso introdutório. Vou começar a ler o primeiro hoje para poder dar tempo de entregar trabalhos, responder às perguntas por escrito, fazer trabalho de campo, pesquisa, relatório e ainda participar de seminários. Gastei uma nota. :c(

Até que não fez tanto frio hoje não, mas também estava tão agasalhada hoje que até suei! O que é horrível porque o suor congela com o frio e você acaba sentindo mais frio ainda. O segredo, me disse meu urso polar, é se vestir em várias camadas, mas evitar sair de casa completamente quentinha.

Ele diz que temos que sentir um pouco de frio mesmo com as roupas (dezenas delas) para que nosso corpo possa funcionar normalmente sem se aquecer demais e provocar o suor. Mas eu não quero saber de passar frio. Me enrolo toda, coloco duas calças, dois casacões enoooooormes e uma botina de respeito.

Nossa, quando mulher quer ser má não há quem agüente, né mesmo??? Nossa, tem cada mocréia na minha turma!!!! :c(

Escrito por Maria às 05:19 PM | Mais: Universidade | Comente! (0)

janeiro 20, 2004

"We must become the

"We must become the change we want to see" -- Gandhi

Pois é. Há quase dois anos escrevi essa frase lá em cima da coluna lilás do meu blog porque acredito que precisamos assumir nossa vida, aceitar limitações e descobrir possibilidades que nos permitam viver mais felizes. Precisamos literalmente fazer acontecer. E foi isso que eu fiz.

Queridos, escrevo para contar uma boa notícia: estou em Umeå, cidade mais ao sul e distante quatro horas de carro de Boden, onde se localiza uma das universidades mais importantes da Suécia, a Umeå Universitet. É lá que comecei a estudar nesta segunda-feira, dia 19, no curso de Socionom, que é uma mistura de sociologia com assistência social.

Sim!!! Conquistei minha vaga na universidade!!!!!!!!!

A razão de eu ter escolhido esse curso - sim, era a minha primeira opção! - é minha vontade de trabalhar com imigrantes. Pessoas que, como eu, chegam aqui nessa terra e precisam de ajuda para se adaptar aos costumes, às leis do mercado de trabalho etc. Quero ajudar essas pessoas cheias de valor e que não têm uma vida fácil aqui.

Ainda é tudo muito surreal; as coisas acontecem e eu meio que vou vivendo automaticamente, meio que num estado de graça e confusão. As pessoas me dizem que preciso comprar cartão para fazer cópias xerox, cartão para entrar nas salas de computadores, cartão da biblioteca, cartões, identificações, logins...

Finalmente, uma oportunidade, um break! Ainda estou confusa com todos os livros que preciso comprar: 11 publicações apenas para o curso introdutório, que termina em abril. Depois tem sociologia até junho e outros 13 livros. Parece que vou enlouquecer de tanta coisa que tenho que fazer, mas, sei lá, estou me sentindo tão bem!

Consegui alugar um apartamento pertíssimo da universidade, o que é um alívio no meio do inverno. Amanhã uma frente gelada vem do pólo norte e a temperatura aqui vai ficar em torno dos 20 graus negativos. Mas eu estou feliz feliz feliz! As pessoas com quem estudo - 98% mulheres - não são lá essas coisas, mas fazer o quê, né? Não se pode ter tudo.

Tenho pela frente três anos e meio de muito estudo, economia apertadíssima e, infelizmente, dias sem ver meu urso polar. Mas ele estava aqui até agora, porque conseguiu dois dias de licança do trabalho pra me ajudar com a mudança, os ajustes do computador e, claro, me auxiliar no reconhecimento da cidade. Em vão: já me perdi duas vezes... :c)

Nosso carro não agüenta as quatro horas de estrada nesse frio danado, então alugamos um carro pequeno - que pudéssemos pagar - mas que desse conta de carregar a mudança sem problemas. Involuntariamente acabei seguindo o destino de milhares de estudantes europeus, que se mudam pra cidade onde estudarão num fusca.

Nosso fusca, no entanto, era uma máquina de primeira linha. Juro que achava que iríamos ter que amarrar malas no teto mas incrivelmente não só as malas como nós dois coubemos perfeitamente no carrinho, que era amarelo - cor de taxi do Rio. Então viemos nós dois, cinco malas (não apenas de roupas, calma), computador, monitor, impressora e todos os meus dicionários (sete unidades).

As fotos aí de cima eu tirei no caminho. Volto amanhã ou quando conseguir um tempo. U-HU! :c)

Escrito por Maria às 10:25 PM | Mais: Conquistas | Mais: De bem com a vida | Comente! (0)

janeiro 17, 2004

Ser sueco é...

A Suyaen me emprestou um livro que eu já queria ler já tem tempo: "Xenophobe's guide to the Swedes", escrito por Peter Berlin. São 64 páginas de ironias sobre o que é "ser sueco". O livro já começa arrebentando, quando o autor tanta explicar como o suecos enxergam outros povos. "Os suecos são únicos porque não odeiam qualquer nacionalidade em particular. A postura condescendente que eles adotam no que diz respeito a seus vizinhos escandinavos (noruegueses, dinamarqueses e finlandeses) não nasce de rejeição, mas simplesmente da absoluta confiança de que a Suécia é superior".

Quando descreve os traços de personalidade de seu povo, Peter Berlin diz que todos os suecos são melancólicos e complacentes. "A melancolia sueca é causada por invernos longos, impostos altos e a sensação de estar isolado em um limbo geo-político e socio-econômico". (...) "A complacência é vista pelos suecos como uma arma para evitar disputas e conservar o equilíbrio. Trata-se de uma tendência/estratégia de vergar-se a qualquer pressão". Sobre o idioma, o autor é cruel: "A linguagem sueca é muito fácil de se aprender (!!!). Sueco é composto de palavras alemãs, arranjadas conforme a gramática inglesa e pronunciadas com uma inflexão digna de uma montanha-russa." Hohoho.

No capítulo sobre crenças e valores, o autor comenta a total devoção sueca ao comedimento. Tudo na vida de um cidadão sueco tem que ser "lagom", ou seja, "bom o suficiente". Nada exagerado é bem-vindo. (Isso, vocês já sabem, me irrita um bocado. Desde que descobri esse traço de personalidade dos suecos meio que exagero às vezes de propósito, para quebrar essa mesmice amarelada "da média". Com isso quero dizer que gosto da idéia do lagom - até porque tento, sem muito sucesso, diminuir minha dramaticidade - mas não aprecio a falta de entusiasmo com que as coisas da vida acontecem aqui. Ou seja: a única coisa que os suecos se permitem exagerar na vida é seu comedimento.)

Falando sobre imigrantes, o autor diz: "Os imigrantes adoram falar mal da Suécia. Reclamam do clima, dos impostos, da população. Os suecos consideram essa atitude muito deselegante, vindo a opinião de um estrangeiro. Mas quando quem manifesta seu descontentamento é sueco, todos concordam com as críticas." No subcapítulo Etiqueta, tive a confirmação de uma coisa que eu já desconfiava: aqui é considerado de mal gosto comer absolutamente tudo o que se oferece num jantar. Num prato de almôndegas, por exemplo, todo mundo come moderadamente mas nunca nunca nunca come-se a última bolinha de carne.

No capítulo sobre cinema, o autor se inspira e meio que define seu país em quatro linhas: "A Suécia tem muito em comum com a Disney World. Na superfície, as pessoas parecem levar uma vida sem preocupações em um paraíso semelhante a um conto de fadas. Mas na verdade, por debaixo dessa fachada, há um mundo completamente diferente, fora de alcance para a maioria dos visitantes." Na página 47, onde Berlin escreve sobre costumes e tradições, ele começa a descrever a alma sueca assim: "No fundo mais profundo do caráter sueco existe um urso." E eu, embevecida pelo meu insight, agradeço. :c)

Dei o livrinho para o meu urso polar ler e ele não gostou. Achou as definições exageradas demais, o que só me faz concluir que Peter Berlin acertou em quase tudo... hohoho. Outra conclusão que tirei foi essa: nossa senhora, quantas vezes eu paguei mico aqui sem saber de todas essas regrinhas! Comi a última almôndega várias vezes, vivo falando mal da Suécia (apesar de gostar de morar aqui) e acho mais fácil eu acreditar em papai noel do que devotar minha vida à aplicação do conceito lagom.

Escrito por Maria à s 08:26 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 15, 2004

...estou calma...estou calma...

Acabei de montar a minha parte de um móvel que compramos na IKEA e que chegou hoje. ...estou calma...estou calma... Não é que o tal do móvel tenha sido especialmente difícil de montar, mas deu um trabalho que vocês não acreditam! Fiquei tão de saco cheio que até gritei de irritação. Era pino pra tudo quanto era lado, tiras, rodelas, o diabo a quatro.

E eu aqui com TPM. Acho que a IKEA deveria suspender vendas de móveis complicados para mulheres que estejam sofrendo os horríveis efeitos da tensão pré-menstrual. Móveis de montagem complexa e nervosismo feminino simplesmente don't go together. Agora eu e meu urso estamos exaustos, de saco cheio um do outro e, claro, do tal do móvel. Que, aliás, ficou até bacana.

Agora vou lá tomar meus comprimidos de Prímoris (laboratório Herbarium, muito bom). Aliás, tenho que lembrar de pedir à mamãe pra me mandar a minha sexta-básica de produtos brasileiros: além da Prímoris para momentos de estress absoluto (montagem de móveis da IKEA, pentelhações genéricas do Urso, frio de menos 30 e TPM), preciso de Dietil, essência de baunilha, camisetas Hering, shampoo Seda e sabonetes Phebo.

Escrito por Maria à s 10:46 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

Sobre gatos

I'm catless, então copio fotos dos gatos dos outros. Essa coisa linda aí de cima é gato da Susanna, cujo Fotolog é um barato. Mas antes de ir dormir, uma explicação: não coloco a foto do gato aqui porque está na moda, mas porque sinto muita falta dos gatos lá da casa da minha mãe.

Resisti muito, jurei fidelidade às minhas cachorrinhas Luz e Alice, isso porque era idiota e pensava que quem gosta de cachorros não pode gostar de gatos. Até que um dia não agüentei mais e caí de quatro jurando amor eterno aos gatos mais lindos do planeta: Leonardo, Aurora, Antuak II e Ashtar, além de Mirna Jad e Antuak I, que estão dando com certeza um pega-pra-capá nos anjos.

Aurora é cinza-tigrada, uma pantera indiferente. E pontual. Todos os dias às 18hs ela faz que não quer nada, pula no sofá e se acomoda demoradamente na minha barriga, onde dorme até eu precisar ir ao banheiro. O ritual se repete até que minha mãe vá se deitar e a leve pro quarto. De manhã, sou mimada com iogurte de mel e cenoura e Aurora vem todos os dias pedir pra lamber a tampinha. Detalhe: ela nunca pede comida a ninguém, nem mesmo à mamãe.

Leonardo é uma loucura. Preguiçoso, louraço, peludíssimo. Não sei o que aconteceu entre nós mas desde que nos vimos pela primeira vez não conseguimos nos separar. Onde eu ia, lá ia Leo atrás; e onde ele ia, lá ia eu, hipnotizada. Quando eu ia ao banheiro de noite, lá ia ele. Sentava na minha frente e ficava olhando. Quando se cansava, pulava na pia e meio que dormia com a cabeça voltada pra mim. Leonardo tem uma tara por fios - assim como todos os gatos - mas se for o cordão da minha câmera fotográfica, uhmmm, ele enlouquece.

Ashtar é o tímido da turma. Exatamente como Leonardo, só que negro. Lindo. Foge de mim como o diabo da cruz. Sofreu muito e não teve uma infância fácil. Tolera apenas que minha mãe toque nele. Banhos eventuais, remédios (ele precisou de muitos) e até comida só podem ser dados pela mamãe e olhe lá. Às vezes ele desembesta até com ela. Mas, no que diz respeito aos irmãos, é uma doçura, principalmente com o Leo, que ele 'adotou'.

Antuak II eu ainda não conheço. Ele chegou depois da minha última visita ao Rio. Mas ele tem esse nome em homenagem ao Antuak I, que morreu em 2002 de Peritonite Infecciosa Felina. E que era uma cópia em temperamento do Leonardo, só que numa "embalagem" siamesa. Só de ouvir a voz da minha mãe quando ela descreve como Antuak II é exatamente como o I - amigo, doce, cuidadoso, amoroso - fico feliz porque sei que ela também está contente. A Mirna Jad era irmã da Aurora e também morreu, junto com o Antuak I. Ela era feia e mau-humorada. Mas, até mesmo por isso, era a preferida. A rabugice dela conquistou todo mundo, por incrível que pareça.

Escrito por Maria às 12:17 AM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

janeiro 14, 2004

Julgamentos

Em setembro escrevi aqui que a ministra do exterior da Suécia, Anna Lindh, foi morta a facadas num shopping center em plena Estocolmo. Hoje começa o julgamento do assassino, Mijailo Mijailovic, que já confessou que realmente foi ele quem atacou Lindh. Espera-se que ele seja condenado a tratamento psiquiátrico em regime fechado, porque não resta dúvidas de que trata-se de uma pessoa doente.

As provas contra ele são fortíssimas: a polícia encontrou a faca com a qual Mijailovic atacou a ministra e conseguiu DNA tanto do assassino quando da ministra. Além disso, achou roupas de Mijailovic sujas com sangue da Anna Lindh. A questão agora é provar que ele planejou o ataque. Isso porque ele vem dizendo que "ouve vozes" e que teria sido uma dessas vozes que comandou que ele atacasse uma pessoa.

Será a primeira vez que um julgamento vai ser transmitido ao vivo pela televisão sueca - tudo bem que por um canal a cabo, mas ainda assim. Infelizmente não tenho esse canal aqui. Pode-se acompanhar o desenrolar dos fatos pela Web, em sites de notícias. Confesso que sou uma daquelas pessoas que adora um julgamento, que lê livros e vê filmes com advogados e acha o máximo.

Estava em uma aula de psicologia na manhã do dia 11 de setembro (sim, esse dia mesmo!), quando recebemos a notícia da morte da Anna Lindh. Me lembro que fiquei com pena - ela era uma política séria, uma mulher de fibra e que tinha tudo pra ser a próxima primeira-ministra sueca. Logo em seguida pensei: tomara que o assassino não seja um imigrante.

Até agora não se fala sobre isso, até porque Mijailovic nasceu na Suécia, mas espero para breve algum tipo de reação contra os imigrantes por causa disso tudo. Primeiro porque a sociedade daqui ainda não sabe quem é imigrante. Isto é, crianças nascidas aqui são suecas no papel, mas às vezes, por terem pais estrangeiros - e por terem feito alguma besteira - são vistos como imigrantes também. Por incrível que pareça.

Os jornais daqui foram até Belgrado, na Sérvia, e entrevistaram o avô de Mijailovic. Ficou-se sabendo então que os pais do rapaz o levaram ainda menino pra estudar na Sérvia e quando ele voltou pra morar definitivamente na Suécia, já estava tudo meio estranho. Os problemas eram muitos. O pai, que bebia muito e batia na mãe, também foi atacado à facadas pelo filho, uns anos atrás. Sem dúvida nenhuma, one enchanted fella.

Veja aqui matéria da BBC sobre o julgamento.
E aqui, um perfil do acusado, Mijailo Mijailovic.

Escrito por Maria à s 12:37 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 13, 2004

Damn it! I've got the

Damn it! I've got the munchies! :c(

Escrito por Maria à s 01:39 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

janeiro 12, 2004

Segunda-feira...

... e estou cansaaaada. Acho que sou prima do Garfield. :c/

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janeiro 11, 2004

Livro

Nossa, o livro "Yttersta Domen", da P.D. James (foto à direita) é ótimo (título no original é "Death in Holy Orders", 2001). É a primeira vez desde que assisti "Sexto Sentido", do M. Night Shyamalan, que não faço a mínima idéia de como a história vai terminar. Muito bom. No entanto, demora-se um pouco pra se "entrar" na narrativa.

A P.D. James decreve tudo tão cuidadosamente, os detalhes são tantos, que às vezes irrita. Por outro lado, é evidente o prazer que ela teve em construir a história. Nada é repetido. O texto é longo, rico, porém enxutíssimo. O livro é muito bom... e o Dalgliesh é um charme! :c) Update: Agora já sei como terminou e me fez querer comprar outros livros da P.D. James.

Escrito por Maria às 10:43 AM | Mais: Livros | Comente! (0)

janeiro 10, 2004

Não-doenças

Janeiro é mês de listinhas nos jornais daqui. Aqui tem mais uma, vamos lá. Um dos grandes problemas da política de wellfaire sueca na atualidade é como fazer a economia funcionar com tantas pessoas que se dizem doentes e faltam ao trabalho todos os dias. Basta um resfriadinho pra nego ficar em casa sem que isso represente qualquer tipo de perda monetária para ele/ela, que continua a receber o salário.

É claro que existem casos de doenças sérias, óbvio, e é fantástico poder contar com um sistema que assegura a possibilidade ao trabalhador de ficar em casa quando a situação fica fora de controle. Mas, os suecos são humanos, e alguns humanos têm uma tendência a se aproveitar do sistema mesmo quando não precisam. É por isso que um time de pesquisadores em medicina europeus estabeleceu uma lista do que é considerado como "não-doenças".

Na lista das 20 não-doenças mais comuns, apresentada pela revista de pesquisa Forskning & Framsteg (Pesquisa & Avanço), os cientistas afirmaram que envelhecer, trabalhar e ficar entediado são três condições humanas que não podem ser vistas como doenças. Isso porque o conceito de doença muda com o passar do tempo. Quando uma lista semelhante foi organizada em 1979, apenas um médico em cada cinco aceitava depressão como doença.

A nova lista de não-doenças inclui: envelhecimento, trabalho (!!!), tédio, bolsas debaixo dos olhos, pouca cultura, ser careca, ter sardas (!!!), ter olhos grandes, ter orelhas grandes, ter cabelos brancos ou grisalhos, feiúra, gravidez e nascimento de crianças, tristeza com a mudança de século, jet lag, ser infeliz, ter celulite, estar de ressaca, pouca capacidade de localização geográfica (AH! Que bom!), solidão e, claro, ter pênis pequeno.

O mais incrível não é a organização da lista, mas a cara dura dos europeus em geral e dos suecos em particular em ir procurar um médico reclamando de qualquer uma dessas coisas. Não gosto de fazer isso, mas tenho que comparar com o Brasil. Acho que todos os meus chefes iriam rir da minha cara antes de me dar um pé na bunda se eu os procurasse dizendo: "Ah, estou entediada, tenho bolsas debaixo dos olhos, vivo me perdendo e ainda tenho sardas!" Hohoho. :c)

Imagem da MillanNet.

Escrito por Maria à s 08:24 AM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 09, 2004

Mais gente do que carneiros

Há seis vezes mais gente no mundo do que carneiros, porém existem 2,5 vezes mais galinhas do que humanos. Os suecos gostam de uma estatística e todos os anos eles lançam o Statistik Årsbok, onde, segundo eles, "nada é pouco importante para se analisar em cifras". Está lá, por exemplo, que a maior praia da Suécia fica em Kiruna - a cidade mais ao norte do país e onde o sol não nasce nos meses de inverno. A "praia" de Kiruna - formada com lagos e rios - tem 16.773 quilômetros.

O nome de família mais comum é Johansson, que faz parte dos 20 nomes mais populares que terminam com a partícula "-son", tipicamente sueca (Svensson, Hansson, Larsson etc). Os nomes mais comuns entre homens e mulheres continuam a ser Erik e Maria (até aqui!!!), seguidos de perto por Lars [pronuncia-se Láársh] e Anna. As crianças suecas nascem predominantemente às terças-feiras, enquanto que sábado e domingo são dias paradões nas maternidades.

Se todos os habitantes da Terra se mudassem para Gotland - uma ilha sueca no Mar Báltico - cada pessoa teria meio metro quadrado para si. Se todas as pessoas do mundo resolvessem se mudar para a Suécia inteira, seríamos 15.100 pessoas por quilômetro quadrado, muitíssimo menos do que no principado de Mônaco, onde a densidade demográfica é de 21.500 pessoas por quilômetro quadrado.

Se a colheita de trigo do mundo inteiro fosse igualmente distribuída para todos os humanos, cada um receberia 95 kg do produto - nada mal! O mesmo aconteceria com a colheita de arroz. Já sabemos que existem mais galinhas do que seres humanos, então ninguém passaria fome se conseguíssemos fazer essa divisão de forma exata. Já pensou?

Durante o ano de 2002 o número de assinaturas de serviços de telefonia celular na Suécia alcançou oito milhões. Em 1900, o número de telefones em todo o mundo era de dois milhões, sendo que 75 mil na Suécia. Além disso, o número de SMS enviados no mundo já em 2001 ultrapassou a barreira do bilhão. Pessoalmente acho divertido enviar SMS, mas o que dói é o preço: 1,50 coroa por SMS. Carérrimo.

O Statistika Centralbyrån, órgão governamental responsável pela análise de tudo aqui na Suécia, e que publica o Årsbok, informa ainda que cada pessoa (acho que na Suécia apenas) ingere cerca de três mil calorias por dia (!!!!!). Desse total, 29% das calorias vêm da ingestão de pão e de comidas rápidas, as chamadas fast foods.

Durante um ano, um sueco come em média quatro quilos de biscoito de fibra (chama-se knäckebröd), 44 quilos de pão, seis quilos de bolinhos variados para se comer com o café, sete quilos de pães doces e ainda seis quilos de biscoitos variados. Além disso, a igualdade entre os sexos ainda não é uma realidade. Em 1900, o salário de uma empregada doméstica era a metade do salário de um capataz. Hoje, os salários das mulheres são apenas 83,4% dos salários dos homens.

A matéria da qual copiei as informações desse post está aqui (em sueco).

Imagem da MillanNet.

Escrito por Maria à s 04:57 PM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 08, 2004

Desde cedo

Outro dia assisti a um documentário, acho que da BBC, no qual crianças eram entrevistadas por uma professora que lhes mostrava algumas fotos de outras crianças: uma magra e outra mais gordinha.

Aí se perguntava pras crianças quem era a mais inteligente, a mais bonita, a burra e a feia. As respostas foram inequívocas: todas responderam que a criança mais gordinha aparentava ser burra e feia, enquanto a magra era bonita e inteligente.

Tendo em vista que as crianças entrevistadas não conheciam as das fotos, eu pergunto: como é que elas "aprenderam" a diferenciar seres humanos assim? Como??? Os pais? A sociedade? A TV? Tudo bem que crianças normalmente são cruéis e não têm vergonha disso, mas não sabia que elas poderiam ser tão candidamente preconceituosas.

Fico triste só de lembrar desse programa, mas não posso negar que foi muito interessante perceber como o ser humano funciona. Às vezes mal, mas ainda assim. Pensei nisso depois de ler o post "Crianças do nosso tempo", lá na Marcinha.

Escrito por Maria às 10:57 AM | Mais: Cultura e comida | Comente! (0)

janeiro 07, 2004

Álcool e a mãe manipuladora

A sociedade sueca é profundamente organizada, cheia de leis (que são respeitadas na maioria das vezes) e de normas. Tudo é assunto para os políticos e a vida do cidadão médio é pontilhada por uma série de regulamentações estabelecidas pelo governo. Parece que a população inteira ainda vive na casa dos pais e respeita as opiniões e manias dos mais velhos sem questionar nada. Tal e qual um adolescente que sai à noite mas tem que voltar antes das 24 horas, a vida social de cada sueco é definida em uma série de políticas, como a política do imposto, do wellfaire e, claro, a política do álcool.

Sim senhor, aqui até a bebida alcoólica que os suecos consomem é uma questão governamental. Tanto que a política do álcool está sendo profundamente questionada atualmente por causa de mudanças feitas por Finlândia e Dinamarca, ambos países vizinhos, que cortaram pela metade os impostos pagos por cada garrafa de sprit. Além disso, a Comunidade Européia aumentou o limite de bebidas que podem ser transportadas entre os países, o que facilita a vida de quem traz verdadeiros carregamentos de sprit como souvenir de suas férias no exterior.

Isso coloca em cheque a política do álcool sueca porque dá outras possibilidades a quem quer beber e não consegue, devido às limitações daqui. Que não são poucas. Pra começar, a venda de todo e qualquer produto alcoólico é monopolizado pelo governo, que vende vinho, whisky, cerveja, cidra etc. em lojas próprias chamadas System Bolaget (já escrevi sobre isso aqui). Mas você só pode entrar na loja pra comprar alguma coisa depois de completar 20 anos. Antes disso nem pensar. Mesmo.

Além disso, as lojas do Systemet, como é "carinhosamente" chamado, têm um horário de abertura limitadíssimo e de uns tempos pra cá começaram a fechar nos finais de semana. E tem ainda o preço das bebidas, que é altíssimo. Minha falta de experiência na matéria me impede de comparar com outros países, mas li na matéria "Svensk alkoholpolitik är stendöd" (algo como "Política de álcool sueca está mortinha da silva"), do Dagens Nyheter, que a Suécia tem o álcool mais caro de toda a Europa.

Eu sinceramente não sei qual a saída desse problema. Isso porque sem dúvida os suecos bebem um bocado - dez litros de sprit por pessoa/ano - e uma política que tente evitar que tantas pessoas - cerca de 400 mil suecos são considerados alcoólatras - continuem a cair nas garras do alcoolismo é sempre necessária. Ao mesmo tempo, acho estranha essa intrusão governamental na vida alheia. Mas, tenho a impressão que consigo entender o porquê: aqui o estado é "pai e mãe" de quem não consegue se sustentar sozinho. Tem-se ajuda financeira para se pagar aluguel, para se ter filho, para se pagar comida, roupa etc, além, é claro do seguro saúde.

Em troca dessa ajuda total e quase irrestrita, tal qual uma mãe manipuladora, o estado exige algumas coisas. Com uma mão dá-se meios para o cidadão viver em seu próprio apartamento, estudar, tentar arrumar um emprego e enquanto não estiver empregado não passar fome nem frio. Com a outra, controla-se quase tudo na vida dele. O quanto gastou, quando, onde e porque. Saiu da linha, já viu. A maioria dos suecos, no entanto, já encontrou a saída pro problema: basta baixar os impostos aqui também, aí fica todo mundo bêbado e feliz. :c)

Escrito por Maria à s 10:29 AM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 06, 2004

Hoje é dia de Reis.

Hoje é dia de Reis. Se pudesse, minha avó estaria fazendo pequenos saquinhos de tecido branco nunca usado, enchendo-os de polvilho e colocando uma moedinha em cada um. Diz a tradição que não nos faltaria dinheiro se mantivéssemos os saquinhos nas nossas carteiras. Ela os destribuía por toda a família, ou por quem se interessasse. Ainda tenho o último que ela me deu há ("a" ?) mais de dez anos atrás.

E por falar em carteira, sonhei que tinha esquecido a minha num ônibus, com dinheiro e documentos (suecos!). Estava andando de ônibus no Rio, na linha 584 (Cosme Velho - Leblon), quando me levantei para descer. Já na rua (Voluntários da Pátria, perto do metrô) percebi meu esquecimento e saí correndo de volta. Pedi pro motorista me deixar subir, mas ele saiu dirigindo e ainda riu de mim. Que coisa.

Hoje é feriado aqui. Já não gostava de feriados - pra jornalistas brasileiros, que nunca param de trabalhar, feriados são um martírio: ninguém atende o telefone - mas aqui na Suécia ficou pior. Isso porque nenhum jornal é distribuído nos feriados, nem mesmo o DN. Resultado: estou sem jornal pra ler hoje. Ó tédio!

Está nevando. Não pesadamente, mas aqueles floquinhos bonitinhos, que fazem minha janela, toda prateada, parecer um cartão postal. Temperatura? Vinte e dois abaixo de zero. Brrr. Mas a moça do tempo da televisão diz que vai ficar mais quente (ou menos frio?) nos próximos dias. Tomara.

Amanhã é aniversário de 70 anos da minha sogra. A família inteira vem aqui pra casa. Estou fazendo pudim de leite em homenagem à Ursa Maior (ela adora), comprei um vale-presente de uma loja de roupas bem carinha e gastei o resto do dinheiro em flores. Meu urso comprará um móvel na Ikea para a mãe e dividirá a nota com a irmã.

Escrito por Maria às 10:12 AM | Mais: Variedades | Comente! (0)

janeiro 05, 2004

Ridículo

Sabe uma coisa que eu acho muito estranha? A tendência que certas pessoas têm de formar "panelinhas", ou seja "grupinhos exclusivos" que se bastam e não vêem a menor necessidade de incluir gente nova. Apenas quem é "alguém", ou, no caso dos blogs, aqueles que foram citados por "gente importante". Que coisa mais ridícula.

Escrito por Maria à s 04:36 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (0)

Jornal de verdade

Contei que ganhei de natal do meu urso polar uma assinatura do melhor jornal da Suécia? Pois é, depois de dois anos e meio lendo o "arremedo" chamado Kuriren - um dos periódicos locais - posso agora me deliciar com o jornalismo inteligente do Dagens Nyheter (DN) (= algo como "Notícias do Dia"). O jornal, tanto visualmente quanto no que diz respeito a conteúdo, parece com a Folha de S. Paulo, o que não é nada mal.

Uma das coisas que me deixa mais feliz é que além das notícias em geral, o DN oferece um suplemento diário de cultura que é fenomenal, com artigos especiais, resenhas de livros, shows, peças de teatro e filmes. A matéria especial de ontem, por exemplo, foi escrita por um ex-correspondente do DN nos EUA, que voltou a visitar Washington para escrever sobre o medo do país com relação a tudo e a todos - principalmente ao terrorismo.

Ele começa a escrever sua crônica na sala de espera de Newark, em Nova York, na qual aguarda para ser interrogado por agentes do departamento de segurança nacional antes de colocar os pés pra fora do aeroporto. O título do artigo é "O país que espera pelos bárbaros", num trocadilho direto com o título de um dos livros de J.M. Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel de literatura desse ano. Mas tem muitas outras coisas que são interessantes no jornal.

Numa das páginas internas do primeiro caderno, por exemplo, leio uma pequena matéria escrita por Clas Barkman sobre como a Suécia é vista pelo mundo. Ele conta que o jornal The Philadelphia Inquirer analisou o modelo de wellfaire sueco e estabeleceu: "Existe uma espécie de liberdade de alma na Suécia. Os suecos não precisam se preocupar com seus planos de saúde ou se terão dinheiro suficiente para mandar seus filhos para a universidade".

O The Business Times, de Singapura, descreve o baby boom que acontece hoje em dia por aqui. "Durante a crise econômica que aconteceu na Suécia nos anos 90, a maioria das mulheres decidiu não ter filhos. Agora, com o envelhecimento, elas começam a ter pressa em se reproduzir." Mesmo assim, a média de nascimentos não aumentou tanto assim: passou de 1,6 para 1,7 filhos por mulher. E as suecas têm filhos cada vez mais tarde. A média de idade de mães de primeira viagem aqui é 30 anos. (ôba)

Na retrospectiva do jornal The Berger, editado em Nova Jersey, aparece que foi na Suécia que aconteceram os maiores choques do ano, com a morte da ministra do exterior Anna Lindh, e o plebiscito que disse "Não" à adoção do Euro como moeda. E, por fim, o jornal International Herald Tribune entrevista os fabricantes de whisky escocês que dizem que 2004 será um ano pródigo - tudo isso porque todos os países escandinavos baixaram muito os impostos pagos por quem compra bebidas alcoólicas. Menos a Suécia, que cobra os impostos mais altos da Europa. Mas isso é assunto pra outro post.

Escrito por Maria à s 01:35 AM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (0)

janeiro 04, 2004

Imagens do cotidiano


Eu e meu Urso. Meu Urso e eu.


Vista da minha janela, com planta e estrela.


Brrrr... Em cima é a temperatura de fora. A de baixo é a de dentro de casa.
A bonequinha eu comprei quando visitei a Suécia pela primeira vez, em 1999.

Escrito por Maria às 01:20 PM | Mais: Variedades | Mais: Vidinha | Comente! (0)

janeiro 03, 2004

Olha que coisa chique

A Sarah Ivich sonhou comigo e escreveu no Agridoce no dia 20 de dezembro. Olha que legal:

Sonho Maluco

Jogo da Seleção Brasileira de futebol contra a Suécia, na casa do adversário. No gol brasileiro, Maria Fabriani. Finalzinho da partida. O Brasil não pode levar mais nenhum gol para vencer o campeonato. O juiz marca um pênalti para a Suécia. A goleira (que tinha sido especialmente convidada para a ocasião) faz uma defesa magistral. O jogo termina, a torcida canarinho comemora enfurecida, Maria Fabriani se torna heroína nacional. Foto na primeira capa de jornais, programas de TV.

Finalmente, eu acordo. Não é a primeira vez que eu sonho com alguém que escreve um blog que eu leio, mas dessa vez foi tão louco que eu tinha de contar.

O máximo, não? Êta sonho porreta! :c)

Escrito por Maria às 01:08 PM | Mais: De bem com a vida | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (0)

janeiro 02, 2004

HO HO HO

O ano novo começou perfeito. Ou quase. Isto é, estávamos a caminho de uma festinha de uns amigos do meu urso polar quando resolvemos parar no supermercadão aqui de Boden pra comprar mais alguns comis-e-bébis. Aí, senhoras e senhores, nosso carro morreu. Sim, morreuzinho da silva. Só que como somos um casal com muita sorte - amém, Nossa Senhora, amém - um colega de trabalho do Stefan que entende de carros também estava lá no estacionamento do ICA e nos deu uma mão.

E que mão! Depois de apenas ouvir como o carro tentava começar a funcionar e depois arriava, ele nos disse que tinhamos uma "obstrução" em algum lugar perto do tanque de combustível, o que impedia que a gasolina chegasse onde deveria. Bom, e você pergunta: que tipo de obstrução? Bem, os suecos estão acostumados com isso e têm até um nome próprio, que é ispropp, o que quer dizer literalmente "obstrução de gelo". Sim, queridos e queridas, o que nos prendeu em Boden no ano novo foi uma formação de gelo dentro do motor. A razão: 29 graus negativos.

Agora vou parecer a raposa da fábula que desdenha as uvas, mas não me importo. Fiquei foi feliz com o tal do ispropp. Eu não queria mesmo sair de casa no final do ano. Foi uma obstrução muitíssimo bem-vinda para essa canceriana que adora uma toca/apartamento. Voltamos pra casa rebocados mas felizes, depois de alugar três DVDs no posto Shell, ao lado do supermercado: "Terminator 3" (para Stefan), "Gangs de New York" (para mim) e "Kopps", filme sueco muito engraçado (para os dois). Bebemos todas as cidras que havíamos comprado e fizemos tacos. Sinceramente? Há muito tempo não passava um final de ano mais feliz. :c)

E pra terminar, vejam aí em baixo a cartinha que o meu vizinho, papai noel, recebeu por esses dias... :cD

Fonte: Guerrilla Girls.com
Escrito por Maria às 02:09 PM | Mais: De bem com a vida | Mais: Vidinha | Comente! (0)