março 30, 2004
Cabelo
Oi. Passei só pra dar um oi. Muito interessante os comentários do pessoal sobre o post das mulheres, abaixo. Pena que não tenho forças pra escrever mais sobre minha experiência aqui, de como as coisas realmente são. Ando lendo/estudando sem parar. Na segunda começamos uma nova fase do curso: sociologia. Tô que nem uma maluca, precisando ler mais de 500 páginas em uma semana. Sai meu Urso e entram Hobbes, Durkheim, Comte, Weber, Marx. Tô morta.
Mas fiz uma coisa boa essa semana (não que estudar seja ruim, muito pelo contrário, mas vocês catch my drift, né?). Então, cortei meu cabelo. Achei um salão dentro da universidade e a um preço exorbitante cortei meu cabelo. E, como sempre, em se tratando de Suécia, tem que ter alguma coisa especial. Pois é. Estava eu sentada esperando minha hora. Quando fui chamada pela cabelereira Agneta (a cara da cantora loira do ABBA de mesmo nome - quase perguntei se o nome dela, da cabeleireira, era artístico) disse que havia sim lavado minha cabeça no dia anterior.
Aí ela disse: tudo bem, mas vamos só dar uma lavadinha rápida, ok? Tá bom, disse eu, já pensando nas conseqüências econômicas (que não vieram porque lavagem e secagem são incluídos no preço do corte). Já sentada na cadeira, pronta pra lavar meus cabelos, Agneta me conta que é muito importante ter cabelos bem limpos quando se vai cortá-los. A razão foi uma surpresa pra mim: se você cortar um cabelo "sujo" e uma pequena pontinha cair nos pés da cabelereira, como sempre ocorre, ela pode desenvolver uma infecção seríssima nas unhas.
Fiquei boquiaberta. Nunca havia ouvido falar disso, mas Agneta me confirmou que uma companheira sua de salão cortou o cabelo de uma pessoa e logo depois descobriu que um pequeno pedacinho do cabelo havia se alojado debaixo da unha, causando uma infecção que custou à cabeleireira a sensibilidade da ponta do dedão. Se é verdade ou não, deixo aos cientistas descobrir. Eu vou pra cama com Thomas, Émile, Auguste, Max e Karl. Boa noite! :c)
março 26, 2004
Bicho papão
Hoje apresentamos nosso trabalho de grupo. Discutimos o chamado Kvinnojour, ou casa de amparo a mulheres submetidas à violência masculina. Aqui há casas como essa em todas as cidades e queríamos saber como é que funcionava. A primeira coisa que descobrimos é que, apesar de receber dinheiro de pessoas físicas e das kommuns (governo das cidades) onde se encontram, esses centros oferecem poucas informações à respeito de seus sucessos/fracassos. As estatísticas são furadas, entrevistas difíceis de se obter. Um perregue. Nem parece que estamos na organizadíssima Suécia.
Mesmo assim fizemos o trabalho e foi muito legal. A apresentação foi ainda melhor. Conseguimos despertar a curiosidade da turma que havia sentado calada durante quase todo o dia, em estado de torpor. Como não pude ir à entrevista com as mulheres do kvinnojouren (elas pediram que apenas duas pessoas do grupo fossem), li um livro que elas utilizam em seus cursos sobre a situação da mulher na sociedade e o apresentei.
E fiquei boba com o tom usado. Apesar de apoiar esse tipo de atividade e achar que, de fato, algumas mulheres precisam sim de muita ajuda, depois de ler o livro "oficial" considero os métodos desse kvinnojour um tanto quanto extremos. Há um ódio generalizado por todos os homens, sem diferença. Querem um exemplo? Imagine que uma mulher resolva se mudar para centro e quer levar consigo seu filho. Se o menino tiver mais de 13 anos, ele não pode ir morar com a mãe.
Isso porque aos 13 anos, dizem as mulheres de lá, já há sinais de que o menino começa a ser homem. Daí a proibição. Imagina o meu irmãozinho, que faz 13 anos agora em maio, sendo colocado na mesma categoria de homens violentíssimos? Um absurdo. Aí vocês se perguntam: "Imagina como elas não vêm homens de verdade". Pois é. Homens de verdade elas não vêm mesmo porque o medo é tão generalizado que não há chance. Mesmo quando o medo é plenamente justificado, a adaptação dessas mulheres na sociedade é dificultada pela pregação radical a que são sujeitas.
Sou uma feminista reservada, por assim dizer. Acho que a mulher é sim posta pra escanteio de propósito algumas vezes pela sociedade e outras vezes ela mesma escolhe uma posição menos proeminente. Mas isso é um assunto longo. Ao mesmo tempo que acho fantástica a existência desse tipo de ajuda na sociedade, discuto esse radicalismo. Se eu seguisse pela linha de pensamento do kvinnojouren, teria de afirmar que metade da população mundial é formada por bicho-papões.
Pra descontrair. Sexo na Inglaterra, na Nova Zelândia (hahaha) e... na Suécia. Essa é boa. (Valeu, Alê!)
março 25, 2004
Ah, esses hormônios...
Hoje sonhei que estava comprando roupas na loja de Ipanema da Dimpus (em frente à Chaika). Me acompanhando, um muchacho muito belo, sueco, que até bem pouco tempo fazia parte de um dos reality shows que assisto religiosamente. (Sorry, Urso! Foi mal aê!) As vendedoras eram lindas, loiras e magras. (Claro, o que esperar da Dimpus?)
Como eu estava demorando pra me decidir se comprava as roupas ou não, as vendedoras nos informaram que poderíamos guardá-las na loja e nos apontaram pruma porta. Lá dentro, quatro pessoas enoooormes de gordas dormiam em camas de prisão acorrentadas às paredes, cobertas de musgo e sujeira. Parecia um dungeon da idade média. Que coisa.
Ontem, andando na rua, escorreguei e caí, pela milésima vez, por causa do gelo que se forma no chão. Quando me levantei, com a ajuda de uma senhora que parou pra perguntar se estava tudo bem (eles estão acostumados com gente que, como eu, vive caindo pelas ruas por causa do gelo) e eu disse que sim. Aí, me veio à cabeça que deveria ter dito: "Esse aqui não é exatamente o meu ambiente", fazendo referência ao gelo no chão, frio etc.
Mas quando pensei nisso, não me vi dizendo isso, mas vi/imaginei minha mãe. A vi na minha frente rindo comentando mais uma derrapada no gelo. Aí, meus caros, comecei a chorar que nem um bebê pelas ruas de Umeå, lembrando da voz da minha mãe, da risada, do cheiro, da presença dela. Só digo uma coisa: o que esses hormônios da TPM não fazem com o nosso cêrebro? Gente...
março 24, 2004
Desculpem o transtorno!
Atenção rapaziada: o Mauro me chamou a atenção pra um detalhe que eu tinha esquecido: a preguiça alheia em mudar links repetidamente. Bom, se você acha um saco ficar mudando endereços de blogs, se não gosta de mexer muito na sua template porque tem medo de estragar tudo, se é preguiçoso(a) ou se simplesmente não está nem aí pra onde o Montanha-Russa esteja hospedado, um aviso!
Segundo a capitã Lu Misura, a tal troca do DNS já aconteceu. O que significa que em breve poderemos ver o Montanha também no endereço www.fabriani.com. Isso significa que o endereço fabriani.mundopequeno.com será desativado. Sim, eu sei, eu sei. É sacanagem com todos vocês que já mudaram. Me desculpem! Se pudesse estar aí perto de vocês daria uma balinha diet pra cada um como consolo. Sorry.
O único problema é que, pelo que me explica a Lu Misura, o tal do DNS ainda está "se propagando" pelo espaço cibernético, o que faz com que algumas pessoas, em alguns continentes, possam ver o Montanha-Russa 2.0 no endereco www.fabriani.com e outras (como eu) ainda sejam enviadas para o blog antigo, lá no Blospot. Mas tudo bem. A gente aguarda.
março 23, 2004
Tenda da tia Maria
Acordei hoje cedinho porque tenho dois trabalhos de grupo para fazer. Um às 9h30m e outro às 16hs, ambos na biblioteca da universidade. Depois de tomar café-da-manhã ouvindo rádio (problemas no Kosovo, reportagem direto da Faixa de Gaza etc) fui ler jornal. Li um artigo que confirmou o que eu já sabia: contato físico faz com que possamos viver.
Estudos feitos com crianças que vivem em orfanatos e recebem pouco ou nenhum toque humano mostram que a maioria morre. Sim, morre. O contato faz com que liberemos o hormônio Oxitocina, que entre outras qualidades, nos dá tranqüilidade, uma sensação de calma e, consequentemente de que somos amados. Além disso, quem não é tocado por ninguém tem dificuldades de absorver proteínas e, por isso, definha. Incrível, não?
O mais engraçado é que dependo mesmo do toque humano. Desde quando era bebê e mamãe fazia Shantala, uma massagem indiana para bebês, até agora, uma galaloa de mais de 30 anos. Quando converso com o pessoal da minha turma lá na faculdade vivo tocando braços, antebraços, ombros. No início eles ficavam um pouco surpresos, mas agora eles sabem que não quero dizer nada com isso (i.e. não tem nenhuma mensagem sexual sub-reptícia).
Mas nem sei porque comecei a falar disso. O que eu na verdade vim aqui pra contar é que depois de ter lido meu jornal, tomei um banho e liguei o computador. Queria saber se alguém ainda me visita e deixa comentários. (Esse tipo de contato também é muito importante, ok?) Aí, abri o outlook e notei um email standart da Susan Miller, uma astróloga de Nova York, que escreve relatórios mensais interessantes sobre planetas, influências, luas etc.
Pois bem, a Susan Miller me informou no email que era pra eu concluir todos os meus negócios o mais rápido possível porque Mercúrio está entrando em retrocesso. E todos vocês sabem o que isso quer dizer, não é? Pois é. Informação de utilidade pública: Mercúrio vai ficar de mau com a gente de 6 até 30 de abril, portanto tentem finalizar todos os projetos que ainda estejam pendentes antes dessa data. E eu só digo o seguinte: Lu, parece que essa coisa da mudança de DNS só vai mesmo sair lá pro final do mês que vem... :c(
março 22, 2004
Montanha-Russa 2.0
O Montanha-Russa está de cara nova, como vocês podem ver. É a versão 2.0 do meu blog. Além do trabalho pesado, feito pela equipe da Pixelzine, da Lu Misura, ainda tive o prazer de poder contar com a ajuda da Marcinha, que recriou sozinha, lá dentro dos códigos HTML do Movable Type, a atmosfera do Montanha.
E eu ainda a aluguei durante a tarde da terça-feira passada pra que ela me ensinasse como se mexe com as templates etc. Nossa! Marcinha, queridoca, eu já te disse isso, mas você é feeeeeeeerrrraaaaa! (além de ser um doce de pessoa). Obrigada!
Aí vocês perguntam: se você já estava com o blog pronto desde a terça-feira passada, por que só o inaugurou hoje? E por que o nome diferente? Por que você não manteve o endereço www.fabriani.com? Bem, a história é mais complicada do que parece. O problema é que pedi o redirecionamento de DNS pros caras da empresa que hospedava o www.fabriani.com para que ele pudesse ser acessável por intermédio dos servidores da Pixelzine. Isso, segundo a Lu Misura, poderia ser feito online e tudo deveria estar pronto em não mais do que dois dias.
Pois não é que dei de cara com a burocracia sueca? Depois de tentar TUDO pelos caminhos online (requisitado pela Carambole, a empresa), meu Urso mandou até fax pedindo o redirecionamento no último dia 15 de março. Nada. Hoje, já perdendo as estribeiras, liguei pros caras da Carambole (também, com esse nome não podia ser um treco sério!) e o seguinte diálogo se desenrolou:
Eu - O que que há, mermão?.
O cara - Ah, seu papel já foi encaminhado para o departamento comercial (pra verificar se está tudo pago) e ainda não voltou.
Eu, no depto. comercial - Está tudo pago, não é?
Outro cara - Sim, está tudo pago.
Eu - Então porque ainda não fizeram a mudança, cara pálida?
Outro cara - Ah, o cara que faz isso estava doente... Mas eu vou tentar acelerar o seu processo pra você, ok?
Tem que se ter muita paciência, viu? Mas isso, devo dizer, é típico sueco. A gente acha que a escandinávia é uma cópia loira dos EUA ou da Alemanha, onde tudo é feito rápido, eficientemente, mas neca. Aqui é mais parecido com o Brasil nesse ponto. Tudo muito lento. A única diferenca é que todos os caras com quem falei são extremamente bem educados.
Bom, sejam bem-vindos ao Montanha-Russa 2.0! E, por favor, atualizem o link do Montanha-Russa, ok? Agora nos chamamos http://fabriani.mundopequeno.com.
Sonho e realidade
Tenho sonhado muito. Ou melhor, tenho lembrado muito dos meus sonhos. Na noite de ontem pra hoje sonhei com meu Urso. Ele me olhava intensamente antes de me beijar e eu podia ver suas pupilas dilatadas e os olhos azuis. E, por isso, ficava feliz. Isso porque Stefan não toma drogas, nós não estávamos no escuro (e ele não tem olhos azuis). Então as pupilas estavam dilatadas por minha causa, por ele estar olhando para quem ama. Hohoho.
Outro dia sonhei um sonho menos feliz. Estava com minha mãe e minha avó numa espécie de bunker, onde minha avó estava deitada por estar muitíssimo doente (o que é verdade). Sabia que teria que dizer adeus à vovó e por isso chorava ao lado da minha mãe, sempre presente. Acordei com um nó na garganta. Havia chorado muito no sonho e continuei na realidade. E aí lembrei o que tinha acabado de ler na noite anterior.
Como vocês já sabem a Suécia tem um sistema de wellfaire fantástico, onde os impostos escandalosos descontados de todos os cidadãos realmente retornam em benefícios gerais, como escolas espetaculares, tratamento médico garantido e, quando o indivíduo ficar bem velhinho, o chamado äldreomsorg [éldreomsori], que fornece pessoal especialmente treinado, uma rede de clínicas ou apartamentos especialmente criados para os mais velhos.
Se você é cidadão sueco (mesmo tendo morado o primeiro terço da sua vida no Brasil, como eu) quando ficar velho você tem seu lugar garantido em uma dessas clínicas. É claro que às vezes existem problemas, muita gente velha para poucos apartamentos especiais ou vagas no sistema público de saúde. Mas, mesmo assim, em geral o sistema funciona bem.
Pois bem, o sistema realmente precisa mesmo funcionar bem porque segundo a lei sueca "filhos adultos não têm qualquer obrigação de cuidar nem sustentar seus pais no final da vida". Li isso no livro mostrado aí à esquerda, "Etik och Socialtjänst" ("Ética e Serviço Social"), de Ulla Pettersson. Alguém sabe se no Brasil os filhos são obrigados a tomar conta de seus pais? Ou se sequer existe uma legislação a respeito?
Confesso que fiquei meio chocada. Pensei imediatamente: "Esses suecos! São uns desalmados!" Mas, na verdade, faz sentido. O que se defende ali é que a pessoa não precisará se preocupar com a saúde dos pais se, por exemplo, não puder pagar um tratamento caro de saúde. O Estado está aí pra encarar a nota. O indivíduo trabalhou a vida toda (aqui aposentam-se homens aos 65 anos e mulheres aos 60) e fez mais porque merecer essa garantia.
março 21, 2004
Ironia
É... Cada vez mais me convenço de que os suecos estão mais é certos, sabe? Lagom är bäst... (Meio termo, moderação é melhor).
março 18, 2004
Extra! Extra!
A escritora brasileira Lygia Bojunga Nunes (foto) ganhou o prêmio Astrid Lindgren de Literatura Infantil! O prêmio é, segundo a imprensa e o governo sueco, um dos maiores prêmios de literatura do mundo, perdendo em importância apenas para o Prêmio Nobel. A notícia saiu na primeira página do Dagens Nyheter (DN). Muito legal!!!
Li "A Bolsa Amarela" quando era menina, e um dos livros que sobreviveram à minha limpa e me acompanharam na mudança Brasil=>Suécia foi "Na Corda Bamba", também da Lygia Bojunga Nunes. Quando li esse livro devia ter uns 13, 14 anos. Nunca esqueci. Que profundidade, que lirismo! (Além do mais, a personagem principal chama-se Maria!)
Na notícia do DN, a repórter diz que entrevistou Lygia Bojunga Nunes pelo telefone e que ela estava feliz e muito surpresa com o prêmio. Agora, ele pretende criar um centro de cultura para facilitar o contato das pessoas com livros. Para isso, ela poderá contar com cinco milhões de coroas suecas, o que dá (eu acho) cerca de 700 mil dólares.
UHU!!!!
Veja a matéria do DN aqui.
março 17, 2004
Sem comentários
Me abstenho de responder aos comentários do post "Fragilidade". A razão é simples: não me sinto capaz de responder de forma objetiva a alguns comentários em particular. Além do que, acho que a maioria não entendeu o que eu quis dizer com o post. Escrevi sobre uma sensação, algo subjetivo e portanto bastante pessoal. Avisei, inclusive, que estava generalizando em algum ponto e deixei bem clara minha posição com relação a isso.
A retórica ligeira do tipo "Bola pra frente", "é assim mesmo" ou "não pense assim senão você nunca será feliz" não me ajuda. Só faz reforçar minha impressão de que não consegui transmitir o que queria. Ou talvez os receptores não estejam abertos à minha mensagem. Não dou (nem sigo) receitas de felicidade na terra estrangeira porque sei que o caminho de cada um é diferente. Depende de muitas circunstâncias sociais, econômicas, emocionais etc.
Dito isso, quero deixar bem claro que não busco unanimidade de opiniões, nem no blog nem nos comentários, nem tão pouco quero fazer do Montanha um muro de lamentações contra os suecos. O que desejo é entender esse país, essas pessoas. E apenas conseguirei entendê-los se observar a influência que eles têm sobre mim. E puder falar/escrever sobre isso.
O que fiz no post "Fragilidade" foi escrever sobre um momento da minha vida, a partir das minhas idéias, da minha experiência pessoal e da minha personalidade. É CLARO que sempre digo pra mim mesma: "Deixa pra lá, essa pessoa não sabe de nada" quando me deparo com algum europeu ignorante. Se não relevasse na maioria das vezes o comportamento alheio era melhor me trancar num convento e jogar a chave pela janela.
Mas exatamente por morar aqui, estudar e viver no meio de gente tão diferente, é que percebo mais cruamente as reações de quem encontro e principalmente as MINHAS reações com relação a eles. Minha análise é válida porque faz sentido para mim, pessoalmente.
Na minha opinião, quem estuda (ou se interessa por) sociologia, comunicação, cultura etc tem que fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o seu papel na sociedade em que vive. E foi isso o que eu fiz. Não quero sentar em casa e pensar: "Tomara que dê certo essa coisa de se mudar pra Suécia". Não, eu quero fazer com que dê certo. E pra fazer com que dê certo preciso entender. E para entender preciso escrever. É isso.
março 16, 2004
Fragilidade
Quando estava tomando café com a Jenny lá na universidade semana passada, começamos a conversar sobre a fragilidade que todos os imigrantes sentem no país onde se encontram. Ela, que já morou três anos na França e namora um marroquino que enfrenta as mesmas dificuldades que eu aqui na Suécia (talvez até mais), se identificou com essa minha sensação de exposição máxima à opinião alheia.
Qualquer coisa, qualquer reação, um sorriso ou uma cara fechada, uma palavra de significado dúbio (o que não é incomum no idioma sueco) tem o poder de fazer seu dia muito melhor ou muito pior. Se não nos sentimos pessoalmente atacados, pelo menos reconhecemos uma sensação geral de desconforto, mágoa até. É horrível dar tanto poder assim pra gente que nem conhecemos, que não sabemos nada a respeito, mas é a pura verdade. Nós, imigrantes, definimos nosso bem-estar muitas vezes através da reação do povo com relação a nós.
E isso fica ainda pior quando você, pessoalmente, já está mais pra lá do que pra cá. Frágil, cansada, de saco cheio. Foi o que aconteceu no sábado passado, quando fui à cidade encontrar com a tia do Stefan para tomar um café. Quando cheguei ao stand dela - ela trabalha em um dos muitos sindicatos suecos e estava fazendo propaganda na praça principal daqui - perguntei a uma moça que estava lá no stand sobre a tia. Ela disse que era pra eu esperar lá que ela já já viria.
Enquanto esperava a tia que nunca chegava, conversei amenidades com a moça do stand, falamos sobre o tempo (estava um dia lindo, mas frio) e tal. Quando ela me ofereceu uma bala, recusei dizendo que estava começando a fazer a dieta da Vigilantes do Peso e queria manter a linha. Ela ficou interessada e perguntou o que eu achava. Eu disse que o método havia mudado muito desde a primeira vez que eu fiz, há 15 anos, lá no Rio. Nesse ponto, ela arregalou os olhos e perguntou: "Mas existe Vigilantes do Peso no Brasil?"
Senti imediatamente uma pontada de raiva e irritação. Para felicidade geral da nação, consegui manter a calma e dizer com um sorriso irônico: "Claro! O Brasil é um país muito grande, sabe?" Ela notou rapidamente sua gafe e emendou: "Ahn.. Nós, que moramos aqui no norte (da Suécia) não temos muita informação..."
Deixei pra lá porque por um lado não queria discutir com ninguém sobre isso num dia de irritação e fragilidade exageradas e, por outro lado, podia até entender a argumentação dela. Os suecos, por mais desenvolvidos e primeiro-mundistas que sejam, não têm essa visão universalista que eles gostam de dizer/pensar que têm. Eles viajam bastante, mas apenas pra lugares pré-determinados por vôos charter (Natal, RN, é um desses pólos turísticos) e não se esforçam muito pra saber da cultura local.
É claro que isso é uma generalização. Pode haver um caso ou outro (meu Urso, felizmente, é um deles) que se interessa verdadeiramente pelos países que visita. Mas a maioria é mesmo ignorante e não se encomoda em permanecer assim. Relendo esse post, acho que pareço amarga. Não é isso. Os suecos são gente boníssima, inteligentes etc. Mas, como qualquer outro povo europeu, têm uma capacidade ilimitada de se orgulhar de sua própria pátria (muito justamente, aliás). O problema é que eles esquecem que existe vida inteligente fora daqui. Só isso.
março 15, 2004
Tô quase mudando...
Bem, ainda não mudei, mas estou em processo de mudança. O Montanha-Russa resolveu ficar chique e assinou contrato com a Pixelzine da Lu Misura. Meu blog já está "montado" no Movable Type (ai, que chique!!!!) e eu nem me agüento de excitação. Estamos esperando apenas que o servidor ou seja lá quem for mude o DNS (parece que estou escrevendo em grego). Até lá, acho que vocês estarão visitando o Montanha cumum, do Blogger.
Queria, no entanto, perguntar uma coisa: estava pensando em fazer umas mudanças na template do Montanha. Nada radical, apenas umas mudancinhas ligeiras. Será que alguém tem dicas de onde posso buscar templates? Na verdade, gostaria de manter o blog mais ou menos como está, mas quero dar um toque um pouco mais arrumadinho à coluna lilás da esquerda. Obrigada pelo help eventual. A Marcinha - muito fera! - já está me ajudando. E está ficando LINDO.. Já já está na hora da première! :cD VALEU, Marcinha, queridoca!
Ó Vida
Não, sem brincadeira: desde que me mudei pra esse apartamento em Umeå quatro lâmpadas queimaram. Q-U-A-T-R-O. A quinta, no meu quarto, fica piscando e ainda não se decidiu se queima de vez ou me atazana um pouco mais. Como as instalações elétricas suecas costumam ser de boa qualidade, só posso dizer: sai pra lá olho gordo!
Está nevando. Sim, estamos no meio de março e está ne-van-do aqui. E eu já estou de saco cheio. Não sinto saudades de sol e calor de 40 graus, mas também isso já é demais. E o pior é que não posso seguir o conselho da Ana Maria e chutar o pau da barraca. Barraca? Aqui? Posso, no entanto, chutar uma pedra de gelo, serve? :c)
Vocês assistem ao seriado Six Feet Under? Sobre uma família que gerencia uma funerária na Califórnia? É impressionante como num seriado americano sexo, homossexualismo, morte, traição, loucura e drogas fazem parte do dia-a-dia dos personagens sem tabus. Ou apesar deles. Genial.
março 13, 2004
Vai passar
A irritação é passageira. Mas é chata mesmo assim. E o pior: não estou com TPM. Minha irritação é típica de menina mimada, que não está satisfeita com as coisas. Fico irritada por estar irritada por tão pouco. Meu cabelo está longo demais, minhas unhas crescem demais, a balança indica quilos demais, há neve e frio demais, meu urso está longe demais. A saudade da minha família é forte demais.
Mas, como disse, já já passa. Hoje fui ao centro da cidade tomar um café com uma tia do Stefan. Ela estava de pessagem por Umeå a trabalho e me ligou. Foi legal. Apesar da minha irritação. E o pior é que quando estou nesse estado de irritação generalizado, nada - nadinha mesmo - alivia. Dormir, não consigo, comer, não posso e beber, não gosto. Sexo? Como já disse, meu Urso está longe. :c(
E o pior é que preciso ler esse livro aí ao lado, "Grundbok i Normativ Etik", ("Livro básico de Ética Normativa") para uma prova que teremos na semana que vem. Estou irritada porque, na verdade, queria era ficar confortably numb com um romance da Danielle Steel ou do Sidney Sheldon. Ah! O fog entorpecente da superficialidade! Um elixir para uma alma doente. Boa noite!
Irritada. Muito irritada. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!
Irritada. Muito irritada. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!
março 12, 2004
março 11, 2004
Como ver o lado positivo das coisas
Se a situação de ser sabotada por alguém já é uma experiência desagradável, auto-sabotagem é ainda pior. Comecei hoje a fazer o regime da Vigilantes do Peso e, apesar de ter comido exatamente a mesma coisa do que normalmente ingiro, passei o dia inteirinho com uma dor de cabeça colossal. (Isso não dá, Maria. Pára com isso!)
E o problema é que precisava fazer compras porque tudo o que tinha em casa (pão, queijo, leite, iogurte, arroz e um peito de galinha congelado) não era suficiente/ ou adequado. Fui até a cidade de ônibus com minha mochila vazia para acomodar o máximo de coisas pesadas nas costas.
Fiz as compras e quando fui pagar com o cartão do supermercado, ele não foi aceito. Tentei novamente, nada. E eu tinha apenas metade da quantia na carteira. Mas quando já estava me preparando para largar alfaces e tomates lá e encher minha cara de chocolate em casa, a mocinha da caixa foi um anjo e guardou a nota pra que eu pudesse ir pegar o resto do dinheiro que faltava no caixa eletrônico.
Paguei com dinheiro, o que quase zerou minha conta corrente e rearrumei a pepsi light e o leite light e mais algumas coisas (todas lights) na minha mochila. Tinha ainda duas sacolas do supermercado, uma em cada mão, cheia de frutas, verduras e cositas más.
Mas claro que em se tratando de moi, a bruxa ainda estava soltíssima. Quando apertei o passo para pegar o ônibus (aqui os ônibus têm hora certa pra passar. Se perder o das 13:35, terá de esperar 20 minutos por outro) a mochila nas minhas costas abriu parcialmente e, quando olhei pra trás, só vi um pepino enooooorme rolando pela calçada.
Parei tudo, abri a mochila e reorganizei rapidamente as compras. Já no ônibus, quase no meu ponto, o celular dispara e eu vou ficando vermelha e suada a cada acorde da musiquinha caribenha. (Onde eu estava com a cabeça quando escolhi essa música? Vou trocar já!)
Agora, em casa, dois comprimidos contra dor de cabeça depois, acho que até posso dizer que tive sorte nessa confusão toda. Senão vejamos:
1) consegui me decidir a fazer dieta (viva!);
2) a mocinha da caixa foi um amoreco;
3) tinha dinheiro suficiente na conta para cobrir as compras;
4) consegui pegar o ônibus;
5) os pepinos aqui vêm enrolados hermeticamente em plástico. :c)
Moderníssima
Estou moderníssima, cutting edge. Desde que comecei a estudar em Umeå (já vai/vão fazer dois meses, uau) meu celular vem ganhando dia após dia status de objeto de primeira necessidade. Por uma razão, além da óbvia possibilidade de se falar ao telefone: mensagens de SMS.
Sou fã de Internet, AMO receber emails (apesar de ser muito preguiçosa para responder à maioria) e agora essa coisinha dos SMS me pegou de jeito. Uma mensagem rápida, de texto, sem a interrupção muitas vezes indesejável do celular. Perfeito! Os suecos são campeões mundiais de envio de SMS, juntamente com finlandeses, noruegueses e dinamarqueses.
Eu também aderi. Estou aqui em casa, lendo meu jornal, e escuto alguns acordes da musiquinha caribenha que escolhi pro meu celular. Uma colega de turma, Jenny, me convidou pra tomar um café na universidade hoje, às quatro da tarde, quando ela tiver terminado de estudar. Demorei meia hora pra digitar "Ok. Nos vemos às 4 horas no UB Café". Mas tudo bem. O treino leva à perfeição. Hohoho.
março 10, 2004
Rádio e livros
Fazia um pequeno almoço pra mim hoje quando decidi ligar o rádio. Acho que estava me sentindo meio sozinha e precisava o conforto da voz humana. Enquanto a água fervia (fiz uma sopa instantânea - muito boa) sintonizei na estação P1, uma das rádios públicas daqui (tem ainda P2, P3 e P4, cada uma com seu público alvo, jovens, velhos etc).
Imediatamente uma voz feminina me prendeu a atenção. Ela estava lendo um livro. Era uma tradução porque todos os nomes eram em inglês, mas a pessoa lia e eu fui entrando na narrativa. Quando mordia o pão não conseguia escutar o que era dito, de forma que várias vezes deixava a fatia entre os dentes sem mastigar, hipnotisada pela história.
Depois de meia hora, durante a qual consumi uma pequena cumbuca com sopa minestrone e um pedaço de pão com queijo e caviar (é barato aqui, não é luxo não), a leitura terminou. Fiquei sabendo que aquele programa era um Folhetim de Rádio (radioföljetongen), no qual lê-se um capítulo (ou um trecho) de um livro por dia. O livro era Foxfire, de Joyce Carol Oates.
Adoro ouvir histórias. Me dê um bom contador de aventuras e eu prometo atenção total. Chego a prender a respiração quando alguma coisa está pra acontecer. Vejo a narrativa na minha frente, como cenas de um filme. Mágico. Agora tenho que ouvir à continuação todos os dias. Ou então, preciso ter esse livro. Por que nunca li Joyce Carol Oates antes?
março 08, 2004
março 07, 2004
Oi
Viajei, meu urso estava aqui em casa e eu não pude escrever. Tenho alguns emails para responder também e prometo fazê-lo amanhã.
Então. Quinta e sexta fui para o hotel-fazenda com minha turma da faculdade. Foi um "internato" de dois dias e uma noite, no qual fizemos exercícios de desenvolvimento pessoal e pudemos interagir de forma mais informal. Foi interessante porque além do hotel-fazenda ser a coisa mais linda, deu pra se divertir.
O local, chamado Kronlund (foto), pertence à minha universidade. Muitas turmas de vários cursos vão pra lá pra formar grupos mais unidos e realizar seminários. A comida é uma delícia e o cenário parece de sonho. Kronlund fica num vale, no meio de montanhas e perto de um rio. Imaginem tudo isso coberto em neve branquinha... Lindo.
O mais legal de tudo foi no primeiro dia, quando fizemos um exercício corporal, para soltar as amarras (muito necessário em se tratando de suecos). Qual não foi minha surpresa quando a professora disse que faríamos um exercício criado por Augusto Boal, o dramaturgo brasileiro. Fiquei toda contente.
O exercício era assim: uma pessoa subia numa cadeira e dizia para as outras no chão, organizadas em pares, a tocar a outra pessoa com a parte do corpo pedida. Por exemplo, podia-se dizer: "Palmas das mãos juntas" ou "Toquem os joelhos". No meio de muitas risadas nervosas (incluindo as minhas), deu certo.
Gatos e amizade
Um dos exercícios lá em Kronlund pedia para que nós escrevessemos uma lembrança da nossa infância e discutissemos as circunstâncias da lembrança com um grupo. Eu e uma outra aluna, Anette, achamos um pouco demais e dissemos que não queriamos participar. Anette é bem mais velha do que eu e já tem dois filhos de mais de 20 anos cada um.
Assim como eu, ela escolheu recomeçar do zero com o curso da universidade, mesmo tendo trabalhado a vida toda como enfermeira - o que aqui na Suécia exige cinco anos de estudos universitários. Desde o início do curso achei que podíamos conversar bem, apesar da diferença de idade. Mas sabe do que mais? Me sinto mais próxima dela do que das garotinhas de 18 anos da minha turma.
Pois eu e Anette passamos uma hora conversando e nos divertindo enquanto as garotinhas lembravam de sua não tão longíncua infância. Ainda é muito diferente do que meus amigos no Brasil, mas acho que estou no caminho certo. Nessa altura da minha vida, conquistar uma amizade é um luxo.
Com meu urso aqui no fim de semana, fomos fazer uma visitinha à Anette e ao marido dela. Eles estavam colocando papel de parede na sala de estar (aqui faz-se tudo sozinho, um espanto!) e eu e Stefan chegamos para bater um papo rápido e beber um café.
O mais legal é que a Anette tem cinco gatos. Uma das fêmeas ela achou no meio da floresta, onde a gatinha foi deixada por alguém para morrer de fome e frio. Quando cheguei, Anette me explicou que essa gatinha era muito tímida e desconfiada, por razões óbvias. Não fiz nenhuma tentativa de chegar perto dela, mas sei lá porque, ela gostou de mim.
No meio da nossa conversa, a gatinha pulou no meu colo e se enroscou toda, ficou toda feliz, ronronou e fechou os olhinhos. Anette ficou de boca aberta e eu também. Mas, claro, estava era orgulhosa de ter sido aceita pela gatinha com tanto carinho. Se apenas os humanos suecos pudessem aprender com os animais, seria muito mais fácil morar aqui.
março 02, 2004
Tradução: Vad är det?

Tradução:
Vad är det? = O que é isso?
Dagsljus = Luz do dia.
Jag längtar till sommaren = Quero que o verão chegue logo.
março 01, 2004
Resposta e esclarecimento
Mauricéia, obrigada pelo seu toque e acho que você tem razão. Em parte. Realmente me excedi e critiquei em tom de desdém uma pessoa que nem conheço. Por isso, peço desculpas. Por outro lado, quero colocar minha crítica em contexto e, com isso, tentar me defender: desde que cheguei à Suécia tive que provar todos os dias que não sou estúpida nem faminta apenas porque vim de um país do terceiro mundo.
Sei que parece exagero, mas não é. Pergunte a qualquer brasileiro que more na Europa e ouvirás histórias mais ou menos semelhantes, muita luta principalmente no início. Quando finalmente sei falar a língua, conquistei uma ou duas coisas aqui, e encontro uma pessoa como essa bibliotecária, minha reacão é mesmo radical. Tendo mesmo a julgar logo, sem pensar "que a pessoa pode não conhecer tantas palavras como eu".
Acho que as feridas no meu orgulho ainda são profundas e tendo a fazer comédia de quem, em meus olhos, não alcança o "alto nível" que os suecos tanto prezam. Sei que pra você, que não me acompanha há tanto tempo assim, isso pode até parecer uma lógica meio esquisita. E é por isso que te peço: entenda que não critiquei as bibliotecárias do mundo inteiro, mas apenas aquela lá, sueca, exatamente por ela ser sueca e por, como integrante de uma sociedade ultra-exigente e bem instruída, exigir de mim nada menos do que a perfeicão.
Espero que compreenda meu ponto de vista também. Um beijo!



