abril 29, 2004
Passado, presente, futuro
Sabe uma das coisas que mais detesto? Alguém que me manda um email, um amigo ou conhecido que não veja há mais de três, quatro anos, e pergunta:
-- E aí, o que tens feito?
Como, eu pergunto como, posso explicar "o que tenho feito" nos últimos três anos em apenas dois parágrafos, corpo reduzido num email ligeiro? Não dá, a menos que eu queira intensionalmente ser rude e escrever: "Me mudei e mudei".
Sim, mudei muito. E quando digo isso - quero deixar beeeeeem claro - não estou me gabando, muito pelo contrário. Acho que agora é que estou conseguindo respirar pela primeira vez, depois de três anos de luta. Ainda estou me acostumando com tudo o que aconteceu, as mudanças de expectativa, de futuro. Acho estranho voltar atrás e lembrar de quem eu era, pra poder descrever minha "evolução".
Por isso, não levem a mal se algum de vocês me mandar um email me perguntando - por pura boa educação, eu presumo - o que tenho feito ultimamente. Simplesmente não dá pra explicar rapidinho. Posso resumir assim: "Estou bem. Feliz. Apesar da saudade. Beijo. Maria".
abril 28, 2004
Ontem
Muito chocolate + muita saudade = dor de barriga e na alma.
Hoje -- Estou vendo o amistoso Suécia X Portugal, como uma introdução do campeonato europeu que será realizado em Portugal no verão. Até agora, 1 a 1. Os suecos, lindos, são quase todos perna-de-pau. Portugal é menos ruim, mas não impressiona. O goleiro engoliu um frango fenomenal no primeiro gol sueco, que foi de bola parada. Até o Figo, que era um pão, está meio caidinho. Vejo imagens do banco português e penso: "Coitados!" Eu não sabia, mas o Luiz Felipe Scolari é o técnico deles.
Update - O jogo terminou 2 a 2, mas Portugal poderia ter ganho. O Figo - ó céus - perdeu um pênalti. Felipão na área... Já viu, né?
abril 27, 2004
Ana Cristina para jovens
"A rigor, ela é proibida para menores. Ou assim pensava eu. Mas não é que, para minha surpresa, quando organizei uma antologia para a Nova Fronteira, destinada a estudantes de ensino médio na coleção Novas Seletas, que a editora está lançando, vi que a minha querida Ana, mais viva do que nunca, é ampla, geral e irrestrita.
Sua poesia vai fazer o maior sucesso, seguramente, junto a essa galera que está começando a ir aos shoppings, sozinha, pela primeira vez. Creio que o sucesso se dará porque a poética de Ana Cristina pode ser apreciada por camadas, como um mirabolante sorvete. Os que têm paladar mais apurado vão poder degustá-la, sabor por sabor, gelada e ardente ao mesmo tempo.
Seu "doce mistério", como canta Marina, está justamente nessa combinação de opostos, que dá a sensação, engraçada e desconcertante, de que podemos ser dois leitores diferentes, cada um por si ou simultaneamente. O que quero dizer com isso é que dá o maior pé pegarmos a Ana pelos cabelos, assim, no susto, de passagem. Mas também tem jogo agarrar a cabeça dela, com unhas e dentes, para fazer a nossa.
Mesmo se dizendo "uma mulher do século XIX disfarçada em século XX", Ana C. é ultra-contemporânea, multiuso até a medula. Mas atenção: não é fashion, clubber, nem funciona no automático. Ao contrário, é de improviso: está sempre de mudança, como uma nuvem. Tem muitas interfaces, sua voz atravessa, incólume, todas as estações, há muitos anos.
Nem podemos nos dar ao luxo de sentir saudade. Quando menos se espera, aparece, "oblíqua e dissimulada", mas de olhos azuis, certeira, batendo no alvo, na mosca, na mufa, companheira para toda uma vida, inestimável, sempre essencial e surpreendente. Se você a quiser folhear, ela a princípio se presta - de repente, cobra. Não faz por menos, cobra mesmo, até o fim. Se você a quiser devorar, num fim de semana intenso, no quarto à luz de um spot ou ao ar livre, sob o sol, prepare-se: passe um bloqueador daqueles, senão você vai se queimar fundo, você vai doer, você vai sentir na pele a sua barra. A sua, sim, suando, e a dela também. Chego a ficar na dúvida: valerá a pena bloquear-se ? Não será melhor pagar para ver ? Cada um que escolha o seu destino diante de Ana Cristina César. Desfrutável e inescrutável está aí, aqui, ao alcance de todos. Definitivamente: ela é proibida para menores."
Armando Freitas Filho
Esse texto - prestem bem atenção, que finíssimo! - é a primeira contribuição do meu pai, o poeta Armando Freitas Filho, para o Montanha-Russa. Tudo bem que o texto foi publicado primeiro na revista Megazine, do Globo de hoje, mas nada na vida é perfeito. Hohoho. O texto diz respeito à poeta Ana Cristina César, cuja obra está ganhando um volume da coleção Novas Seletas, da editora Nova Fronteira.
Essa coleção tem como objetivo despertar nos jovens o interesse por autores consagrados como a Ana Cristina. E tem festa no pedaço! O lançamento dos livros será amanhã, às 20hs na Livraria Argumento, no Leblon (Rio de Janeiro). A organização do volume dedicado à Ana Cristina ficou a cargo do meu pai, que é curador da obra dela. Apareçam por lá e dêem um beijo no meu pai por mim! :cDDD
abril 26, 2004
Mulheres... homens...
Um dos livros mais interessantes dessa parte do curso de sociologia foi "Det kallas kärlek", ("Chama-se amor") de Carin Holmberg. O livro é na verdade uma tese de mestrado, na qual Holmberg pergunta como a inferioridade feminina e a superioridade masculina se reproduzem na relação entre um par.
Notem que ela sequer questiona se a mulher é vista como inferior ao homem. Isso porque, segundo a socióloga, não são apenas homens e mulheres que ajudam a manter as coisas como sempre, mas as estruturas sociais que não permitem uma igualdade de direitos e deveres entre os dois sexos.
Holmberg escreve ainda que vivemos numa sociedade masculina, que premia e favorece os homens implacavelmente. Ok, isso a gente já sabia. A diferença é que ela diz que toda e qualquer relação a dois (no caso ela estudou apenas casais heterossexuais sem filhos) é assimétrica, em favor do homem e em detrimento da mulher. Sempre. E tem mais: se antes do nascimento do pimpolho as coisas eram iguais, depois, pode esquecer. A mulher sai sempre sair perdendo - do ponto de vista social (não entro no mérito das maravilhas da maternidade).
Mas aí eu pensei: "Poxa, mas no meu relacionamento as coisas são mais equilibradas. Não sou eu que cozinho sempre, nem lavo a louça (temos lavadoura automática, amém). Meu urso me ajuda na limpeza da casa, cuida do carro etc". Mas de fato, depois de ler o livro, e os depoimentos das pessoas que ela entrevistou pra sua tese, comecei a perceber o desequilíbrio que até nós, mulheres liberadas e preparadas, não notamos.
Um exemplo é quando se discute a divisão de trabalho na casa. Tá lá no livro: "Ele exige que as tarefas domésticas sejam divididas. Ao mesmo tempo, ele acha que as exigências dela no que diz respeito à arrumação são muito exageradas". E ainda: "O ideal dele, quer dizer, a exigência de que as tarefas domésticas sejam divididas, não bate com a prática - no final das contas, ela ainda tem maior responsabilidade sobre o cuidado do lar".
Um dos exemplos é o clássico: "Ela tem uma tolerância muito baixa no que diz respeito à limpeza", dizem os homens (meu urso incluído aí no bolo). E nós, mulheres, ficamos aqui, querendo dividir o trabalho, mas ao mesmo tempo não agüentando quando eles fazem corpo mole e não realizam todas as tarefas designadas. Será que estamos erradas? Será que é pedir demais? Ou será que o que eles estão fazendo é um jogo de poder?
Um dos capítulos mais interessantes é o que discute exatamente a divisão de poder na relação a dois. E está lá uma coisa intererssante e polêmica: "O recurso de poder mais importante para as mulheres é ser a parte que ama menos". Se é verdade, eu não sei, mas essa é uma dessas afirmações que fazem a gente pensar.
Agora me lembrei de um episódio do "Sex and the City" em que a Carrie descreve uma relação que ela teve com um cara e que ela agiu pela primeira vez como um homem faria. Ela tava a fim do cara, levou pra cama, comeu e depois disse: "Tchau, baby! Agora tenho que voltar pro trabalho". Bateu a porta e esqueceu o cara. UHU!
abril 25, 2004
Saudades
Foto: Marizilda Cruppe, o Globo.
Hoje é domingo, pé de cachimbo,
o cachimbo é de ouro, bate no touro,
o touro é valente, bate na gente,
a gente é fraco, cai no buraco,
o buraco é fundo, acaba o mundo.
Respondendo à Ines, que perguntou quando irei ao Brasil. Não sei, Ines. Não sei mesmo. Mas sei que vai ser o maior barato quando eu for. Além da saudade que sinto da minha família e amigos, uma das coisas que mais sinto falta é de dar uma caminhada assim, perto da água da praia. Delícia.
(PS.: Não precisam me lembrar que corro o risco de ser assaltada ou de pegar uma micose na areia. Sei disso tudo. Mas a saudade é tanta que estou preparada para relevar esses "detalhes". Hohoho.)
abril 24, 2004
Neve em abril
Acredite se quiser, mas está chovendo/nevando hoje. No final de abril. Quando reclamo, tanto meu urso quando minha sogra, a ursa maior, riem e dizem que é sempre assim em abril. Um pouco de neve no chão e tempo chuvoso - pra ajudar a derreter de vez a neve. Típico de primavera.
Mas, sei lá o que acontece comigo (alguns chamam de velhice), mas não consigo me lembrar do mês de abril do ano passado (nem do de novembro, outubro ou julho, for that matter). Parece que sou uma criança: sempre me surpreendendo com o tempo, suas mudanças e esquisitices. Mesmo depois de quase três anos nessa terra.
Fico aqui, girando numa redoma gelada, com uma memória mais ligeira do que a de um peixe de aquário. Não sei porque, acho que ainda estou fixada na imobilidade do tempo no Rio, onde têm-se duas estações por ano: alto verão e veranico. Tudo está sempre verde e a quentura é permanente. Tão diferente.
abril 23, 2004
Finlandeses: vodka, SMS, sauna e tango
Nossos vizinhos do leste, os finlandeses, são um povo sério. Falam baixo, com voz cansada, sem sorrir e têm uma reconhecida dificuldade de expressar sentimentos em público. A sisudez é tanta que os finlandeses precisam encontrar um jeito para liberar tanta emoção reprimida. Uma saída é beber litros de vodka. Não tenho números, mas bebe-se muito em Helsinki.
As mensagens curtas por celular também ajudam. A Finlândia, orgulhosa pátria da Nokia - que é um orgulho nacional, assim como nós nos gabamos do Maracanã ou de Copacabana - é um dos campeões mundiais no envio de SMS. Jovens dizem que é mais "prático" mandar um SMS dizendo que está feliz/contente/magoado/apaixonado do que dizer isso ao vivo.
A terceira é uma mania nacional: sauna. Acho que a sauna é a praia dos finlandeses. Lá relaxa-se (peladões, peladões), todo mundo é igual e feliz em temperaturas que fariam um carioca se torcer de calor.
E a quarta maneira dos finlandeses se verem livre de emoções reprimidas é uma surpresa: grande parte da população se entrega noites a fio ao tango. Sim, finlandeses alimentam uma paixão nacional pelo ritmo apaixonado argentino e têm vários artistas que escrevem e cantam tango, tudo em finlandês, claro.
Veja essa página aqui, en inglês. Genial. Uma história do tango finlandês. Começa assim: "Finland has taken the potato from Peru - potato in Finnish is peruna, by the way - and the tango from Argentina. Both these South American imports are cultivated in these northern latitudes perhaps even more devotedly than in their countries of origin".
Ficou interessado? Vai estar em Helsinki em julho? Então dê uma olhada no Tango Festival.
Essa página é ótima. Conta tudo sobre a Finlândia. Vale a pena. Na página onde eles fazem uma lista dos finlandeses famosos está lá, entre escritores, artistas e músicos, nada mais nada menos do que o Papai Noel. Hohoho.
Veja aqui um guia rápido de como se aproveitar a sauna da melhor maneira possível.
Ouça aqui um poema dito em finlandês.
abril 22, 2004
Eu já sabia...
WASHINGTON (Reuters) -- Pessoas que se dizem viciadas em chocolate e pizza podem não estar exagerando, afirmam cientistas nos EUA. Um estudo com pessoas normais que estejam com fome mostra que seus cérebros "acendem" quando elas vêem ou sentem o cheiro de suas comidas favoritas. O processo é exatamente o mesmo que acontece nos cérebros de viciados em cocaína quando eles pensam em sua próxima cheirada.
"Comida aumenta o metabolismo no cérebro inteiro em até 24%, e essas mudanças são maiores na área temporal superior, insula anterior, e orbitofrontal cortices". São essas as áreas associadas com o vício. As pessoas que participaram do estudo descreveram suas comidas favoritas e como eles gostariam de comê-las. "As comidas favoritas mais comuns eram sanduíches de bacon, ovo e queijo, bolinho de canela, pizza, hamburguer com queijo, galinha frita, lasagna, churrasco, sorvete, brownie e bolo de chocolate.
Fonte: CNN
E o homem, hein? De necessidade a opção. Hohoho.
abril 21, 2004
Stigma
Mas não são apenas livros imcompreensíveis que tenho que ler pra universidade. Tem muitos que são interessantérrimos. Um deles é "Stigma", do sociólogo canadense Erving Goffman. É FE-NO-ME-NAL. Discute-se como as pessoas estigmatizadas, seja por problemas físicos, um passado questionável (prisão etc) ou, simplesmente por ser imigrante, são vistas como "não indivíduos". Aqueles que discriminam, que Goffman chama de "normais", têm uma série de rotinas pra se relacionar com quem é diferente. Mas, segundo Goffman, até mesmo quem é diferente tem dificuldade de se livrar de seus defeitos. Veja só:
"For years the scar, harelip or misshapen nose has been looked on as a handicap, and its importance in the social and emocional adjustment is unconsciously all embracing. It is the 'hook' on which the patient has hung all inadequacies, all dissatisfactions, all procrastinations and all unpleasant duties of social life, and he has come to depend on it not only as a reasonable escape from competition but as a protection from social responsability.When one removes this factor by surgical repair, the patient is cast adrift from the more or less acceptable emotional protection it has offered and soon he finds, to his surprise and discomfort, that life is not all smooth sailing even for those with unblemished, 'ordinary' faces. He is unprepared to cope with this situation without the support of a 'handicap', and he may turn to the less simple, but similar, protection of the behavior patterns of neurasthenia, hysterical conversion, hypochondriasis or the acute anxiety states".
Esse exemplo, com alguns ajustes, pode se aplicar a qualquer um que acha que está gordo demais (!!!), que o nariz é grande demais, que o cabelo é crespo demais etc etc etc. Impressionante. Não é apenas psicologia que nos ensina a respeito de nós mesmos.
abril 20, 2004
Vingança
Receita para se vingar de alguém:
1) Convença-a a entrar pra universidade.
2) Lá, inscreva-a num curso de social-psicologia.
3) Faça com que ela tenha que ler os textos "Como a sociedade é possível?", "A Metrópolis e a Vida Mental" ou "O Estrangeiro", do sociólogo alemão Georg Simmel. (Não a obrigue a ler todos os livros dele, senão é morte certa. Afinal, seu objetivo é apenas vingança e não assassinato).
4) Requisite que essa pessoa responda a duas perguntas que incluem temas como vazio existencial, modernidade, cultura objetiva e subjetiva.
5) Não permita que ela escreva sobre suas próprias experiências, e exija que ela se limite a escrever sobre conceitos teóricos sociológicos.
6) Faça com que a pessoa tenha que ler e escrever tudo isso em grego.
Aí você estará perto de entender pelo que estou passando. Apenas perto.
abril 19, 2004
abril 17, 2004
O pão nosso de cada dia, nos dai hoje
Matéria do caderno de cultura do Dagens Nyheter, jornal que leio aqui.
Americanos que fazem dieta pesam muito nas eleições
Nem guerra nem economia decidirão a eleição presidencial americana no próximo outono (primavera no Brasil). Segundo especulações do programa Headline News da CNN, serão as pessoas que fazem dieta e que não comem carboidratos que serão um fator decisivo. Graças à ingestão de alimentos ricos em carboidratos nos sentimos satisfeitos e nos mantemos de bom humor. Sem pães, batata, arroz ou massas, ficamos enraivecidos, insatisfeitos e vingativos.
As dietas Aktins e South Beach, que mantém milhares de americanos numa disciplina duríssima, banem exatamente os carboidratos. Os efeitos colaterais desse tipo de dieta são, além do mal hálito, uma ira que aguarda apenas uma possibilidade para explodir. E é aí que Bush pode sofrer. Isso porque pessoas raivosas e insatisfeitas tendem a votar contra quem está no poder. Apenas no estado da Flórida a CNN diz que existem cerca de 300 mil pessoas em dietas duríssimas, prontas para soltar os cachorros de sua irritação e insatisfação no presidente Bush.
abril 14, 2004
Protesto
Estava me preparando para escrever um post sobre uma notícia que li hoje no jornal daqui, mas recebi da Alê essa carta de protesto escrita pelo Silvio Reis e mudei de idéia. Mesmo atrasada, distante, acho que preciso publicá-la. É importante.
Não tive o desprazer de experimentar o governo Rosinha, mas leio O Globo e o JB todos os dias e fiquei de boca aberta com a indiferença da governadora. Uma guerra urbana se desenrolava nas ruas do Rio e ela se negou a dar declarações por estar de férias. Que vergonha!. Aqui está a carta do Silvio Reis.
Escreve um cidadão
"Prezada Governadora,
Eu não acredito que a senhora ou o seu marido sejam capazes de enfrentar o problema da segurança pública no Rio de Janeiro. Não digo resolver, afinal são muitos anos de descaso de governos anteriores como o do padrinho politico do seu marido, o Sr Leonel Brizola, digo enfrentar, mostrar trabalho.
Até o momento o seu marido só se apresenta para patetices como a do caso Staheli e agora na semana santa o que vemos? Uma guerra entre os narcotraficantes que simplesmente ignoraram a policia e a senhora e o seu marido estavam de folga em Angra dos Reis e mandaram dizer pela assessoria de imprensa que não iriam falar por estar de férias. O Rio explodindo, a imprensa só falou da Rocinha mas na Tijuca se ouviram tiros durante toda a noite também, e a senhora e o seu marido de férias.
É inadmissivel este desrespeito que a senhora e o seu marido tem pelo Rio de Janeiro. É insuportável, é irritante, é absurdo, é angustiante enfrentar esse seu despraro e do seu marido, é angustiante tê-los como governadores do RJ.
Todas as noites espero angustiado a minha mulher voltar do trabalho, corro angustiado para casa para acalmá-la, e só vejo meu sofrimento piorar como o do caso da vizinha que foi sequestrada (e dane-se as firulas dos seus advogados imorais, é sequestro!!!) e morta em São Gonçalo.
Estou cansado da sua cara de deboche e da cara de falsidade do seu marido. Estou cansado de vocês. E nunca pensei que fosse capaz de fazer algo em relação a isso mas eu vou fazer o todos devem fazer: Lutar politicamente para expulsá-los da vida politica para sempre. Quero o casal Garotinho longe do meu Rio de Janeiro, quero vocês longe daqui e vou fazer isso pelo meu voto e pelo voto de milhares de pessoas que como eu estão indignadas com essa situação vergonhosa.
EU VOU LUTAR POLITICAMENTE PELO ENTERRO POLITICO DO CASAL GAROTINHO!
SUMAM DA NOSSA VIDA.
Não quero saber o que vocês vão fazer, não quero saber do seu cabelo, da sua igreja, só que que vocês não ocupem nunca mais nenhum cargo publico.
BASTA!!!
E espero encontrar apoio em qualquer lugar, não me interessa saber de quem é o apoio, aceito apoio do DIABO para tirá-los da vida pública da minha Cidade Maravilhosa. Só temo que ele já seja aliado do casal Garotinho.
Os eventos da sexta-feira santa me deixaram atônito com o despreparo e com o perigo real de guerrilha urbana entre os grupos narcoterroristas.
Peço desculpas aos amigos para quem estou enviando uma copia (oculta) deste desabafo. Conto com o apoio de vocês.
ADEUS!
Atenciosamente,
Silvio Reis"
(carta retirada do blog da Cora)
abril 10, 2004
Uhmmmm...
Não sei como vivi 29 anos sem caviar. Mas, calma, não virei snob não. Aqui caviar é comida comum, assim como requeijão é no Brasil. Come-se caviar no café da manhã, no lanche, no almoço e no jantar. No piquenique, no trabalho, no bar. Come-se geralmente caviar num hårdbröd, que é um tipo de pão duro e seco, típico sueco (uma delícia).
Ouvi falar que o gosto de caviar se altera quando em contato com metal - por isso é que quem é realmente "fino" come caviar com faquinhas feitas em madrepérola (eu acho, ou coisa que o valha). Mas parece que isso não quer dizer nada pros suecos, que compram o caviar nosso de cada dia em tubos de alumínio. Custa mais barato do que requeijão.
Eu gosto do caviar mild, que é cor de salmão. O caviar preto vem da Rússia, é caríssimo e muito bom, mas o gosto é muito forte pra mim. O tubo de caviar que vocês vêem na foto é uma instituição sueca, assim como a smörgåsbord, que aliás, tem sempre caviar à mão. O Kalles é a marca mais famosa daqui e uma mania nacional. Eu também aderi.
Na página da Abba (uma empresa alimentícia, nada a ver com o grupo musical), detentora da marca Kalles Kaviar, pode-se ler uma série de histórias sobre o tubinho. Entre outras coisas, algumas curiosidades que confirmam a mania dos suecos:
Acredite se quiser, mas Kalles Kaviar está presente em 250 milhões de sanduíches todos os anos na Suécia inteira.
Num tubo de 190 gramas há cinco quilômetros de caviar.
Se você apertar todo o conteúdo de todos os tubos de caviar vendidos no ano 2000 terás 85 mil quilômetros.
abril 04, 2004
Minha primeira amiga sueca
Ontem fui à minha primeira festa sueca sem meu urso a tiracolo. Aniversário da Jenny (vocês já leram a respeito dela, em março), 25 aninhos. A festa foi na casa da Fatima (é um nome muito comum no mundo árabe, sabiam? Fala-se fatííma) e do namorado. Mais de 30 pessoas - na sua maioria mulheres - compareceram e foi o maior barato.
O mais legal é que eu nem ia à festa. Disse que estava cansada quando a Fatima me convidou. Eu nem sabia que era aniversário da Jenny e pensei que era apenas uma festinha comum. Aí, na noite de sexta-feira passada, recebi um SMS da Jenny dizendo: "Você tem que vir à minhas festa. I will not take no for an answer! Eu gosto muito de você, entende?" Fiquei tão feliz com o carinho da Jenny que lá fui eu pra festa. E não me arrependi.
Aqui cada um leva consigo o que vai beber e geralmente contribui com algum salgado (batatas chips, cheez doodles etc). Eu levei comigo duas coca-colas light e fiz canapés com queijo Philadelphia Light sabor ervas e um pedacinho de pepino em cima. O povo adorou. Aqui come-se muito mal em festas que não incluam jantares e o foco de qualquer reunião não é na comida, mas na bebida.
O modelito de todas as meninas, além de blusas coloridas e brilho nos lábios (a moda sueca está de volta aos anos 70 - tem até calças com bocas largas, um horror), inclui ainda uma sacola verde de plástico do System Bolaget, onde compra-se álcool. Todo mundo chega com uma. Eu e Linea, colega de turma, andamos até o apartamento da Fatima, que fica distante uns 15 minutos a pé daqui de casa.
Lá, depois que todo mundo chegou e a bebida começou a rolar solta, pude conhecer verdadeiramente algumas das pessoas da minha turma. Fiquei sabendo que o pai da Jenny não fala com ela há dois anos porque ela namora/vive junto com um rapaz do Marrocos. Fiquei sabendo que a Fatima também tem uma história semelhante: por ter mãe sueca e pai árabe (acho que do Iraque) ela, além de linda, fica dividida entre o modo de vida secularizado sueco e o pai, que ela não vê já tem alguns anos.
Depois de algumas cervejas, latinhas de cidra e vinho, elas comentaram sobre detalhes de suas vidas que eu nunca poderia imaginar. Fiquei impressionada com a força delas. Mas a festa foi divertida (não falou-se apenas de pais distantes). Todo mundo fez uma vaquinha e deu à Jenny um colar lindo, de prata, daqueles fixos tipo gargantilha. Lindo. Ela chorou e eu fiquei feliz de poder estar lá, presente em homenagem à minha primeira amiga sueca. :c)
Agora pensei na solução dos meus problemas: de agora em diante andarei sempre com uma garrafa de vodka na minha mochila/bolsa. Sempre que tiver um problema de comunicação com um sueco - seja homem ou mulher - oferecerei a garrafa. Quem sabe as coisas não ficam mais fáceis? Hohoho.


abril 03, 2004
Skindå, skindå
Illustration: Erica JacobsonMatéria no caderno de cultura do Dagens Nyheter de quarta (31/3):
"Nós devemos, apesar de tudo, dançar". O repórter começa dizendo que um show do Gilberto Gil foi cancelado porque o artista brasileiro teve de ficar no Brasil, já que é ministro da cultura e o governo Lula precisava dele lá, no meio de uma crise política. E depois: "Que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do mundo, todos nós sabemos porque vimos o filme 'Cidade de Deus'. A estatística é terrível: durante o final dos anos 90 matou-se quatro vezes mais crianças e jovens no Rio do que em Israel e Palestina". Parei aí e quis saber mais, de onde o cara tinha tirado essa estatística. Meu coração marcado pelas críticas européias que tive (e tenho) que agüentar calada, porque em sua maioria são a mais pura verdade.
Mas aí o repórter continua: "Essa realidade é difícil de entender/aceitar quando se ouve o maravilhoso CD "I love Brazil", que reúne música do Rio, como soa nos clubs, bares e praças*. Samba, bossa e choro em novas interpretações e misturas, onde as músicas sussuram e berram do jeito típico do Rio. Ou quando se escuta o incrivelmente divertido sambafunk do CD "Beleza!" do Trio Mocotó, grupo paulista que já nos anos 70 tocava com o genial Jorge Ben (não perca a oportunidade de vê-los em abril, quando virão a Estocolmo)."
Eu já estava mais felizinha. Aí, o repórter passa pra literatura: "O Brasil é a segunda 'terra prometida' das Américas, mas diferentemente dos EUA, que foi 'fundado', o Brasil foi 'descoberto'. A diferença denota uma diferenciação básica que existe na identidade nacional. Para Caetano Veloso, cuja brilhante auto-biografia 'Tropical Truth' está sendo lançada em pocket, o Brasil é 'um monstro católico tropical'." O repórter segue descrevendo a influência de Caetano e Gil, assim como de todo o movimento da Tropicália, teve na política nacional; bossa nova e novos ritmos baianos. No final, ele encerra explicando o início da matéria e o título: "O mundo é violento e é natural que duvidemos - mas devemos dançar mesmo assim."
* Saca só a lista de músicas do CD "I Love Brazil":
Rodrigo Lessa - Patifaria/Zeca Pagodinho - Quando Eu Contar (Iá Iá)/Trio Calafrio - Partido Em Três/Djavan - Alegre Menina/Conjunto Sarau - Minha Flauta de Prata/Maogani (feat. Joyce) - For Hall/Osvaldo Pereira - Lamentos de um Fissurado/Família Roitman - A Cabeça/Paulo Moura e os batutas - Um a Zero/Galo Preto - Sol e Chuva/Chico Buarque - Ela Desatinou/Aquilo del Nisso - Bananeira/Jorge Ben - Berenice/Fernando Moura - Paulo/Anna Lemgruber - Angélica/Carlos Malta e Pife Muderno - O Canto da Ema/Marquinhos de Oswaldo Cruz - Geografia Popular/Lui Coimbra - Astrologia (remix).
abril 02, 2004
Mulheres e direitos

Um dos livros que estou lendo para o curso de sociologia aborda vários aspectos da situação das mulheres aqui na Suécia. É interessantíssimo. Em linhas gerais o que entendi depois de ler o texto e comparar com o que leio nos jornais, ouço no rádio e vejo na TV, além do que vivo no dia-a-dia, é que apesar das mulheres suecas terem lutado muito durante os últimos 80 anos para se emancipar - e terem conseguido apoio numa das legislações mais liberais e feministas no mundo - muita coisa ainda é como no século passado. Isto é, a atitude das autoridades (advogados, cortes de justiça, polícia e até mesmo da população em geral) continua muito conservadora.
É incrível, mas está lá no livro "Det sociala landskapet - en sociologisk beskrivning av Sverige från 1950-talet till början av 2000-talet" ("A paisagem social - uma descrição sociológica da Suécia dos anos 50 até o início do século XXI") que as mulheres suecas conquistaram igualdade jurídica com os homens já em 1921. Apesar disso e de muitas mudanças sociais desde então, ainda há um descompasso enorme entre o que diz a letra da lei e o que a sociedade considera condenável ou não.
Exemplos? Essa semana dois julgamentos chamaram a atenção da mídia daqui. O primeiro caso é o julgamento de três rapazes acusados de violentar repetidamente uma mulher na cidade de Tumba, que é, se não me engano, um subúrbio perto de Estocolmo. A mulher estava muito bêbada e havia fumado haxixe, o que fez com que ela perdesse em duas instâncias. O problema é sutil: provar que os rapazes não entenderam que a mulher não queria fazer sexo. Isso porque ela estava tão alcoolizada que não conseguiu dizer nem que sim, nem que não. O caso está agora sendo julgado na corte suprema sueca.
O problema aqui é que as mulheres suecas alcançaram tanta igualdade perante à lei, mas na vida privada as coisas ainda são bem diferentes. Beber muito, por exemplo, não é visto como um problema, muito menos quando várias mulheres o fazem cada vez mais, numa tentativa (acho eu) de se aproximar ao ideal de liberdade que aprenderam a ver realizado por irmãos e pais. O problema é que a sociedade ainda não aprendeu esse sinal de liberdade e auto-determinação e ainda julga as mulheres com os olhos conservativos pertencentes a um cidadão dos anos 50.
Apesar dos rapazes terem feito o que fizeram e de terem, além disso, chamado mais dois amigos para "aproveitar" a mulher, dois juízes deram ganho de causa a eles. Impressionante. Outro caso foi de uma menina de 15 anos que foi violentada porque "usava roupas provocativas". Um outro caso, mais antigo e que levantou uma onda de protestos, foi o julgamento de uma jovem cujos pais, imigrantes da ex-Iugoslávia, a trancaram no quarto para que ela não saísse com rapazes suecos. O advogado dos pais em seu interrogatório em pleno julgamento, disse que a menina "parecia mesmo uma puta", fazendo referência às roupas que ela usava.
Apesar desses absurdos, a Suécia tem uma das legislações mais liberais do mundo. A lei do aborto, por exemplo, é vista como um direito claro das mulheres suecas desde os anos 60. A revolução sexual dessa época (introdução da pílula e do DIU) também aconteceu aqui, claro, mas com uma diferença: já em 1974 as mulheres suecas conquistaram o direito de interromper a gravidez até a 11o (ou o início da 12o). E aqui, num estado secularizado e onde não se confunde religião com noções morais, o direito de decidir sobre seu próprio corpo é respeitadíssimo.
As leis, como eu disse, são fantásticas e realmente funcionam e ajudam as mulheres a ter uma vida mais justa, mas se depender de julgamento, cujas normas são dominadas pelo L'Homme moyen (branco, por volta dos 50 anos e tradicionalista), estamos perdidas.
Leia aqui um artigo da jornalista Hanne Kjöller sobre a dificuldade que certas mulheres de "conduta duvidosa" têm para conseguir justiça. O título é "Algumas mulheres não podem ser violentadas", no sentido de que elas já estão tão abaixo de qualquer crítica moral que ninguém se importa se elas disseram não ao homem.

"A rigor, ela é proibida para menores. Ou assim pensava eu. Mas não é que, para minha surpresa, quando organizei uma antologia para a Nova Fronteira, destinada a estudantes de ensino médio na coleção Novas Seletas, que a editora está lançando, vi que a minha querida Ana, mais viva do que nunca, é ampla, geral e irrestrita.

Fonte:
