maio 30, 2004
Francamente
Nova novela inglesa, importada pela TV sueca. O nome é: "Vassa Saxar", cuja tradução é "Tesouras Afiadas". Repito: o nome da novela é "Tesouras Afiadas". Acredite se quiser. Conta-se a história de dois salões de cabeleireiro (!!!!) que lutam entre si por clientes numa rua londrina (eu acho). No jogo há espaço para intrigas variadas, os obrigatórios triângulos amorosos e uma dramaturgia que dá vontade de chorar. Help! Ai que saudade de um bom Gilberto Braga! :c/
maio 29, 2004
Mulher ideal
Por que não sou como as mulheres ideais? Aquelas de revistas? (d'après Angélica) Sorrisos lindos, roupas adequadas à estação, without a worry in the world. Essas mulheres são tão... Comedidas! Odeio comedimento. Talvez porque nunca consiga alcançá-lo. Sempre como, falo, rio e questiono mais do que o que seria saudável.
Tenho arrepios quando encontro as tais pessoas zen... Será que elas existem mesmo ou são pura construção de quem, na verdade, é nervosíssimo mas não tem coragem o suficiente pra reconhecer isso? Sinceramente, a menos que você seja um monge tibetano em em retiro na Índia (sim, porque no Tibet não há mais paz) não dá pra ser zen. Não dá.
Essas pessoas comedidas, aparentam ser ainda educadas, dedicadas, seguras, sexys e nunca suam. O incrível é que eu sou educada, dedicada, até certo ponto segura e até um pouco sexy. Além do que, acho que a última vez que suei foi em agosto do ano passado. Mas comedida... Isso eu nunca fui.
Ainda me lembro quando assistia ao programa da Martha Stewart com a minha mãe no GNT (antes de eu vir pra cá e da Martha Stewart virar bandida). Sempre gostei das cores pastéis do programa dela, principalmente de uma louça verde-água que ela sempre mostrava quando preparava alguma receita. Aquela louça é um espetáculo.
Ver Ms. Stewart andar de um lado pro outro, consertando de tudo em sua casa fantástica e fazendo receitas deliciosas em sua cozinha incrível era um oásis de calma e serenidade. Mas, no final das contas, depois da orgia de "coisas boas", me sentia estranhamente insatisfeita, como que caída das nuvens, back to reality.
Sempre achei o máximo aquelas mulheres que pedem uma sobremesa fantástica, tipo o brownie do Outback chamado "Chocolate Thunder From Down Under", e fazem o inimaginável: o deixam pela metade. Ao mesmo tempo em que devoro o meu e a metade do delas, penso que deve haver uma felicidade incrível nesse controle - um verdadeiro rush - nessa capacidade de ficar em paz depois de se negar um carinho dos sentidos como o brownie do Outback, capaz de fazer seu cérebro boiar em serotonina.
maio 28, 2004
Hohoho
Mr Bush has got two sides on his brain:
the right side and the left side...
On his right side he hasn't anything right.
On his left side he hasn't anything left.
Valeu, Suyaen!
maio 27, 2004
Analisada a relação dos suecos com as vacas
A associação dos produtores de leite da Suécia realizou pela primeira vez um levantamento sobre a relação da população do país com as vacas. O que os suecos pensam dos ruminantes, com que freqüência entram em contato com elas, e o que pensam da capacidade das vaquinhas de aprender novas coisas, como distingüir novos tipos de plantas, por exemplo. A pesquisa baseou seus resultados nas respostas de 1 mil cidadãos escolhidos aleatoriamente.
A pesquisa mostrou que um em cada dez suecos não tem qualquer tipo de relacionamento com vacas, até porque eles nunca entram em contato com uma. Um em cada três afirma que vê através da janela do carro no máximo uma vaquinha passar de vez em quando. Cerca de dez por cento dos suecos acreditam que as vacas são burras. Outros dez por cento afirmam o contrário, que elas são na verdade inteligentes. O melhor é que dois por cento (20 entre 1000) acham que vacas são sagradas.
Ficou provado que os suecos têm os ruminantes em alta conta: a maioria absoluta afirmou que sentiria falta delas se elas sumissem. Essa mesma maioria disse que as vaquinhas suecas fornecem o melhor leite do mundo (Claro! Típico sueco!) e caso só existisse o produto estrangeiro para se comprar nos supermercados daqui, eles deixariam de beber leite. A maioria acredita que, com um pouco de treino as vaquinhas podem aprender algumas coisas, como a reconhecer quando chamadas pelo nome, andar em círculos e a se comunicar com o fazendeiro.
De acordo com a associação dos produtores de leite da Suécia, cinco por cento da população tem fobia de vacas, 17 por cento acham que as ruminantes fedem e outros cinco por cento acreditam que elas são aterrorizantes de forma geral.
A imprensa sueca é um espetáculo. :cD Particularmante, faço parte daqueles que vêem vaquinhas pela janela de vez em quando. Mas quando as vejo, ao longo da E4 (grande estrada que liga vários países do continente europeu), por exemplo, fico enternecida. "Aaaawwwwwww!!!!", digo eu, e meu urso só ri. Coisas de quem cresceu no Rio e nunca pode exercitar seu lado country. Apesar de nem saber se tenho um, hohoho.
maio 26, 2004
Eu sabia
Depois nego diz que não acredita em astrologia...
Cancer (June 21 - July 22) Your May horoscope by Susan MillerLife certainly has not been easy lately, dear Cancer (ja, tell me about it!). Saturn, the planet that brings hard life lessons, has finished almost half of its two-year orbit through your sign. By now you are coping with a range of new challenges and responsibilities, and undergoing a major life transition (Yesss!). The universe requires each of us to submit to a two-year tour of duty with Saturn every 29 years. Your period began in June 2003 and is set to end in July 2005.
Saturn is a little like a personal trainer. At first we don't like a thing he says. He seems pushy and annoying (Hahaha). Everything he makes you do seems to make you hurt a little. However, soon you start to look and feel completely different ... and better. You begin to see that all the hard work Saturn has done on your life was good and necessary.
For a long time, Saturn centered most of its harsh tests on those Cancers born in June, but that has recently changed. Saturn's orbit is speeding ahead and will now shift its attention to Cancers with birthdays from July 1 to 15 (!!!). If your birthday is named, you will be dealing directly with Saturn from May through September 2004.
Curso de verão
Hoje o correio veio com boas notícias (como sempre, aliás): fui aceita pra fazer o curso de verão "A sala de aula multi-cultural". BINGO!!!! As aulas começaram na segunda, dia 7 de junho, e irão até os primeiros dias de julho. Poderei, dessa forma, fazer o curso que eu mais queria e ainda ter dois meses de férias depois!!!!
Estou muito feliz!!! Lá-ra-ra-ra-rá :cD
E mais: fui pegar emprestado alguns dos livros que precisarei pro curso e tive uma ótima surpresa. Já tinha pensado em comprar alguns dos livros que constam na lista de literatura obrigatória, até porque o assunto é muitíssimo interessante. Mas a falta de dinheiro é um problema chato, vocês sabem.
Achei interessante, no entanto, o livro "Att bryta upp och byta land" (difícil de traduzir, por se tratar de uma expressão, mas é mais ou menos "Ir embora e trocar de país") e resolvi comprá-lo mesmo assim. Quando o achei na estante da livraria, o abri e dei de cara nas primeiras páginas com um poema de - nada mais nada menos - Dom Helder Câmara!!!
Om jag kunde // Se eu pudesse
skulle jag ge // eu daria
en jordglob // um globo terrestre
till varje barn // para cada criança
och allra helst // e ainda mais
en lysande sådan, // um globo terrestre iluminado
i förhoppning om // na esperança de que
att den skall öppna // ele pudesse abrir
varje barns ögon // os olhos de cada criança
och hos dem väcka // e despertar nelas
intresse för // interesse
och kärlek till // e amor por
alla folk, // todos os povos,
alla raser, // todas as raças,
alla språk // todos os idiomas
och alla religioner! // e todas as religiões!
maio 23, 2004
Parabéns, Carlos!
Hoje é aniversário do meu irmão Carlos, esse lindo aí da foto ao meu lado. Ele está fazendo 13 anos. Tenho muito orgulho do meu irmão. Além de ser um menino (rapaz?) lindo, ele é meigo, seguro, simpático e muitíssimo inteligente. Fiquei sabendo hoje, depois de falar com a mãe dele, Cristina, no telefone: meu irmão é o melhor aluno da sua turma, com média geral 92. É mole ou quer mais?
Nunca imaginei que teria um irmão. Carlos nasceu quando eu já era uma mulher feita, com mais de 19 anos. Mas, se tem uma coisa que posso dizer com o coração leve é: eu não poderia imaginar um irmão melhor, uma pessoa melhor. Penso sempre no meu irmão. Quando assisto a um programa dedicado a jogos de computador na TV, quando vejo crianças brincando na neve e meu maior desejo era poder fazer o mesmo com Carlos, quando entro numa loja e vejo os CDs radicais que queria poder comprar pra ele. Sinto muita falta de Carlos. Um beijo, irmão! Nos veremos ainda esse ano!
Salto mortal
Ter escrito o texto do post anterior me doeu. Ele não é diferente dos demais posts em que apresento os podres da Suécia de forma cínica e até certo ponto divertida - como que para mostrar que não existem paraísos na Terra. Mas, sei lá, isso não está me satisfazendo mais. Acho que esse "basta" interno aconteceu porque chegou o momento de fazer uma reavaliação. Estudar está sendo fundamental pra mim. Não apenas estou crescendo como gente e criando oportunidades para meu futuro profissional como tenho possibilidade de investigar uma série de questões íntimas minhas.
Uma delas é: por que tenho essa necessidade de escrever coisas negativas que acontecem na Suécia? Será que é pessimismo? Complexo de culpa por ter oportunidade de viver num país de primeiríssimo mundo? Ou uma necessidade subconsciente de renegar a Suécia, como quem renega e tenta se afastar de um amor que parece ser forte demais? (Afinal, todos nós sabemos que é mais fácil abandonar do que ser abandonado).
Acho que é de tudo um pouco. O Montanha-Russa nasceu por pura necessidade psicológica, cresceu como um blog de curiosidades da cultura sueca e virou, nos últimos tempos, um lugar onde escrevo sobre questões importantes pra mim, como racismo e discriminação. Isso eu não mudo porque acho que espelho minha situação aqui ao longo desses três anos. Além do que, não abro-mão de criticar, até porque não há nada mais chato de que ler blog cujos textos mais parecem propaganda de brochura turística.
Não. Escrevo aqui coisas que me tocam num nível pessoal e que me despertam interesse profissional. Sinto que, a medida em que me integro à sociedade sueca - vou à universidade, participo da vida cultural local e nacional, tenho amigos suecos etc - vou me intregando mais a mais e isso, pra mim, ainda é um pouco contraditório. Sinto que minha identidade se perde no caminho.
É difícil me sentir sueca e ao mesmo tempo brasileira. Até porque são identidades completamente distintas. Confesso que muitas vezes me sinto mais sueca do que brasileira. Outras vezes é exatamente o contrário. Isso me deixa perplexa, confusa e aflita. Me sinto numa espécie de limbo: não sou exatamente sueca (nem nunca serei) mas também não sou mais exatamente brasileira (nem nunca mais serei), entendem?
Seria muito difícil voltar a morar no Rio agora e ter de lidar com a violência desmedida, a total falta de respeito por regras e a diferença cada vez maior entre pobres e ricos. Sem falar na insegurança econômica, que devora a alma de quem precisa trabalhar para sustentar sua família. Aqui vive-se num universo paralelo, numa Disney World idílica. Acho que é até por isso que eu escrevo muito sobre os podres daqui. Para tentar tornar real essa realidade tão diferente.
Na Suécia, segurança é uma palavra ampla, que engloba vários níveis da vida do cidadão. Desde bebê até a terceira idade o cidadão é acompanhado, cuidado, educado, monitorado e ajudado de todas as formas possíveis. Para alguns isso pode parecer sufocante, um controle quase Orwelliano, mas digo por experiência própria - ainda que restrita a três anos - dá muita segurança saber que o fundo do poço nunca realmente é uma opção. O salto mortal é feito sempre com rede de proteção.



Hoje é aniversário do meu irmão, Carlos! Treze anos! Nossa, que saudade. Um beijo irmão! Te amo!
maio 21, 2004
Notícias do Primeiro Mundo VI
A notícia mais quente da semana não é o julgamento dos matadores de Knutby, que começou na terça-feira (leia post "Drama sob os olhos de Deus", do dia 13 de maio, logo abaixo), mas o furo que o programa de TV "Kalla Fakta" da TV4 deu na segunda-feira: dois egipcios, Ahmed Agiza e Muhammed Al Zery, que moravam na Suécia com suas famílias, foram mandados de volta pro Egito em 2001, onde foram presos e torturados.
O problema é que agentes da CIA levaram Agiza e Al Zery para o Egito sob suspeita de terrorismo. Deixa eu repetir: eles eram suspeitos e foram retirados daqui por agentes da CIA, em pleno solo sueco. O serviço secreto sueco, chamado - pasmem! - Säpo [séépo], apoiou os representantes da agência americana, numa ação que coloca em jogo a credibilidade sueca como país onde os direitos humanos são respeitados.
Cerca de oito agentes americanos mascarados revistaram cuidadosamente Agiza e Al Zery em uma sala no aeroporto de Bromma, perto de Estocolmo. Os dois tiveram suas roupas cortadas em pedaços para evitar que as algemas tanto das mãos quanto dos pés fossem retiradas. Os agentes colocaram então fraldas e macacões azuis nos dois homens.
O pior é que ninguém sabe o que aconteceu com Agiza e Al Zery. Quer dizer, ninguém sabe o que aconteceu com eles depois de terem sido presos e torturados. Disso não há dúvidas. Ambos haviam procurado asilo na Suécia e deixaram suas famílias pra trás. Organizações de direitos humanos, como a Amnesty International, criticam muito a decisão sueca de abrir suas portas para agentes americanos sem que nenhum tipo de julgamento tenha sido feito.
Está lá no relatório de 2002 da Amnesty International sobre tortura na Europa:
"In some countries asylum-seekers were forcibly returned after their asylum claims had been rejected in an unfair procedure. This was the case in Sweden when two Egyptian men were forcibly returned despite concerns that they would be at grave risk of torture and unfair trial in Egypt."
Tudo bem que o mundo mudou depois de setembro 2001. Não discuto a necessidade de que terroristas de todas as espécies sejam presos, mas esse tipo de ação num país de Primeiro Mundo como a Suécia é uma surpresa difícil de engolir. Será que alguém já ouviu falar de soberania? Que vergonha!
maio 20, 2004
O submarino
Ontem assistimos a "Das Boot", dirigido por Wolfgang Petersen (o mesmo de "Troia"). Muito bom. Pela primeira vez na minha vida me descobri torcendo pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. (Nota: Vejam o filme antes de me escrever emails ou deixar comentários enfurecidos.)
Hoje é feriado aqui, Kristi himmelsfärds dag (literalmente: dia da subida aos céus de cristo. Não é Corpus Christi, conforme eu pensava - valeu Inezoca!). Hoje também é dia de voltar pra Umeå. Sabe aquele ditado que diz: "Alegria de pobre dura pouco"? Pois é, a mais pura verdade.
maio 19, 2004
No trem
No trem Umeå-Boden, um senhor dormia a sono solto, esticado em três cadeiras. O trem estava vazio, apesar de ter viajado desde Gotemburgo e só parar por aqui, acima do círculo polar. E ele dormia. Nem os barulhos de gente passando, sentando e levantando o acordava. Fiquei impressionada apenas por uma razão: apesar de ser bem velhinho e meio barrigudinho, ele não roncava.
Também não estava morto, porque se mexia. Ele acordou pouco antes de descer do trem em Älvsbyn, uma parada anterior à minha. Quando olhei pela janela, vi que ele andava em direção a uma senhora que o esperava na estação. Ele chegou bem perto dela e colocou suas malas no chão. Enquanto isso ela não falava nada. Quando ele a olhou novamente e levantou as mãos, compreendi:
Ele não roncava porque era mudo.



Mais tarde, quando estava me preparando para saltar do trem, passei por dois homens negros lindos, que havia notado quando entrei, em Umeå. Um deles havia me olhado curiosamente a viagem toda, mas não de um jeito provocativo. Quando passei por eles, o que havia me olhado não se agüentou:
-- Are you american?
-- ... ahn, no...
-- Where do you come from?
-- Actually, from Brazil.
-- Aha. Nice to meet you!
-- You too.
Já me perguntaram se eu era italiana ou espanhola e não são poucos que acham que eu sou sueca (não sou loira, mas sou branquela, tenho olhos pequenos - os suecos acham que posso ser same, do povo que cria renas... imagina!) mas nunca, nunca poderia imaginar que seria comparada a uma americana. Nunca.
maio 17, 2004
Um dia na universidade

Aula no anfiteatro sobre cultura, discriminação e diferenças no trabalho social. Essa não é apenas a minha turma, mas outros dois grupos de estudantes de trabalho social com especialidades distintas.

Todas as salas de aula suecas, TODAS, tem um projetor de luz como o da foto. É um paradoxo: uma das sociedades mais tecnológicas da face da Terra e tudo é ainda feito com transparências.

A professora, Riitta, que é finlandesa-sueca, nos provoca: fala em estereótipos e experimenta xale da palestina (exatamente igual ao do Arafat). Logo depois, coloca um véu na cabeça, como uma mulher muçulmana, e nos pergunta: "Que tipo de imagem vocês fariam de mim se eu entrasse aqui com um xale na cabeça? Vocês diriam que eu sou reprimida?"

Mesa de almoço. Aí na frente vê-se minha colega Ann-Helène. Ela é timidíssima. :c)

Comida! (prato do dia, 38 coroas - baratinho) Macarrão colorido com molho de carne moída, salada, hårdbröd e suco. (Típico sueco comer salada junto com o prato principal).

Visão de cima da área da cantina. Esse é o prédio da formação de professores, adjacente ao meu prédio. Às vezes mudamos de cantina pra experimentar outros pratos e ambientes. Semana passada almoçamos aqui também e tinha uma pessoa tocando piano.

Visão aérea da Tornet (Torre), área geral para café rápido, estudos ou almoço do meu prédio. Gosto muitos dessas áreas quadradas isoladas. É muito bom sentar ali e tomar café. São três as áreas separadas, cada uma com quatro mesas, como na foto.

Visão da fila na cantina da Torre. Não deu pra tirar foto das bananas que eles vendem (estão escondidas atrás da coluna branca), mas se vocês vissem as frutas verdes que os suecos comem...

Os diversos andares com mesas e cadeiras da Torre.

Já em casa, quebrando a cabeça.
maio 16, 2004
Sueco
O texto que leio é um deserto de consoantes, tons fortes e quebradiços. Dói pra falar, pra ler e pra entender. É como andar descalça em cascalho.
maio 15, 2004
Puritana, eu?!
Tô estudando imigração, migração, discriminação e cultura. No livro "Sobre análises de imigração e trabalho social" li que cultura é tão profundamente enraizada em uma pessoa que suas manifestações mais atávicas são muitas vezes inconscientes. E mais: apenas reparamos nesses traços culturais quando saímos do nosso ambiente natural ou quando nos deparamos com algo totalmente adverso ao nosso modus operandi.
Acho que isso é a pura verdade. Nunca me senti mais brasileira do que agora (mas isso é outra discussão). Outro dia estava assistindo a um programa veterinário na TV4, um dos canais de TV mais legais daqui. A veterinária cuidava de um cavalo lindo que tinha uma espécie de curativo em uma das patas. Fiquei arrepiada quando ela arrancou a bandagem da ferida infeccionada e o pobre o cavalo soltou um guincho de dor.
No meio do procedimento, no entanto, outra coisa me chamou a atenção. Quando a imagem saía do close e voltava a mostrar o cavalo inteiro, podia-se ver ni-ti-da-men-te que o animal estava, hurrm, como dizer? Ele estava "feliz" com aquela atenção toda. Via-se toda sua, hurrm, virilidade de forma espetacular.
Como não havia fêmeas eqüinas por perto, tenho a impressão de que o cavalo foi enganado por eventuais cheiros humanos e/ou químicos usados pela veterinária. Ou então ele se amarra numa experiência sadô-masô. Só sei que fiquei envergonhadíssima ao ver aquele esplendor todo e, mesmo sabendo que estava sozinha, ainda olhei pros lados, meio que buscando alguém pra dividir minha sensação de embaraço. No final, tive de rir do meu puritanismo ridículo.
Não quero nem ver o tipo de gente que chegará ao Montanha por causa desse post depois de procurar as keywords mais cabeludas no Google. Saco.
Não vou comentar o incidente The New York Times versus Lula porque outros já o fizeram melhor. Quero apenas dizer que o governo brasileiro deveria ter se limitado ao processo jurídico. Expulsar o repórter foi demais. Além disso, tenho a impressão que a Casa Branca está perdendo a mão na guerra de influência para desestabilizar governos latino-americanos. Antes eles eram mais sutis. Por último: prefiro ter um presidente cachaceiro (se é que isso é mesmo verdade) a ter um líder assassino, corrupto, burro e moralmente falido. E tenho o dito.
maio 14, 2004
Sangue azul

A coisa mais linda o casamento do príncipe dinamarquês Frederik e de Mary Donaldson. O noivo começou a chorar quando Mary entrou na igreja e não parou durante boa parte da cerimônia. A coisa mais linda. Ele tem 36 anos e ela 32 e vem da Tasmânia, Austrália.
O discurso do bíscopo de Copenhagem foi muito tocante (tinha legendas em sueco), a cerimônia foi pontilhada por salmos da igreja luterana dinamarquesa e músicas de Mendelson e Hendel (se não me engano). Deu pra ver que os noivos realmente se amam, a emoção dos dois era evidente. Mas o melhor mesmo eu ouvi dos narradores da TV sueca.
Eles disseram que o casal se conheceu durante as olimpíadas de Sidney em 2002 e que durante todo esse tempo manteve contato com encontros eventuais, cartas, emails e telefonemas. Eles disseram ainda que Mary e Frederik se apaixonaram de verdade por intermédio de suas palavras. Sounds very familiar :c)
Não sou monarquista nem fixada em celebridades, mas devo admitir que adoro assistir a casamentos reais. Isso porque, além de bonitos, essas cerimônias me fazem lembrar da minha avó Celia, que ama esse tipo de coisa. Foi com ela que assisti ao meu primeiro casamento real, o da princesa Diana com o Charles.
Depois, já morando por aqui, assisti à união de outros três pares reais: o príncipe norueguês Håkan com Mette-Marit (que nome, cruz credo); o da irmã dele, Märtha Luise com Ari Behn; e o casamento do príncipe holandês Willem-Alexander com a argentina Máxima. Mas nenhuma dessas cerimônias chegou aos pés da de hoje. Que emoção!
To Do list
Escrever diário de leitura sobre o livro "I ensamhetens labyrint - invandring och svensk identitet", de Mauricio Rojas ("No labirinto da solidão - imigração e identidade sueca") para entregar na segunda. 
Fazer compras rápidas para o final de semana (não vou sair de casa, está chovendo, preciso estudar muito e tem muitos programas bons na TV). (Comprei Fil, um tipo de iogurte tipicamente sueco, só que com gosto de morango. Gente, é muito bom. Perguntinha pras meninas que já moram aqui a mais tempo que eu: o fil pode ser comparado com a nossa coalhada? 
Assistir pela TV a partir das quatro da tarde ao casamento do príncipe dinamarquês Fredrik com a australiana Mary Elisabeth Donaldson.
Ler "Om analyser av invandring och socialt arbete", de Willy Frick ("Sobre análises de imigração e trabalho social") para começar a escrever o segundo trabalho desse curso. (Contei que comecei um novo curso lá na universidade? Ainda dentro do bloco de sociologia estamos estudando agora identidade racial, etnicidade, preconceito, dircriminação etc. Estou me esbaldando. AMANDO. Mais tarde, quando tiver mais tempo, escreverei sobre isso)
Tirar um peitinho de frango da geladeira pra descongelar.
Ligar pra uma amiga pra desmarcar um encontro importante.
Ligar pro meu urso.
Apagar minha página no Orkut.
maio 13, 2004
Drama sob os olhos de Deus

Imagine uma pequena cidade do interior de um país europeu onde a violência não é comum. No vilarejo - semelhante à maioria das cidadezinhas do interior brasileiro - há igreja, fazendas, casas, escola e, no centro, um supermercadinho. Lá existe também uma comunidade religiosa independente, cujos membros moram e trabalham na região, numa espécie de idílio no paraíso - todo mundo se conhece e a vida é segura e feliz. De repente, uma catástrofe: um dos "cordeiros" da igreja, uma moça de 27 anos, mata com tiros na cabeça a esposa de um pastor da igreja e tenta assassinar um vizinho. A polícia descobre que a moça era amante do pastor e que aparentemente a matou a mando dele.
Parece enredo de livro da P.D. James, mas é a pura verdade e está acontecendo aqui na Suécia, mas especificamente no antes sonolento vilarejo de Knutby, perto da cidade de Uppsala (ao norte de Estocolmo). O assassinato de Alexandra ocorreu dia 10 de janeiro e desde então a Suécia inteira vem acompanhando ao desenrolar do caso, como quem não perde um capítulo de uma boa novela do Gilberto Braga.
Ninguém entende nada. "Como isso pôde acontecer?", pegunta-se a população abismada. Mas à medida em que a polícia vai investigando o caso, mais detalhes escabrosos aparecem e a imagem de perfeição da comunidade religiosa desaparece. Fica-se sabendo por exemplo que esse não foi o primeiro ato de violência de Sara, a moça de 27 anos que trabalhava como babá na casa do pastor, Helge. Meses antes, ela havia atacado a esposa do pastor, Alexandra, com um martelo na cabeça, um acontecimento que nunca foi comunicado à polícia. Sabe-se ainda que o pastor convenceu Sara a matar sua esposa sob o pretexto de estar fazendo um ato comandado por Deus.
E tem mais: fica-se sabendo ainda que Alexandra não era a primeira mulher do pastor, mas a segunda. Ele já havia "perdido" uma esposa antes, Helène, num acidente esdrúxulo no banheiro da casa do casal anos antes. O caso da primeira esposa, que foi encerrado pela polícia como acidente, é reaberto. Se por um lado confirma-se que Helène morreu mesmo quando "bateu" a cabeça na torneira da banheira, por outro lado descobre-se algo completamente novo: ela tinha uma dose altíssima de um preparado medicinal semelhante a morfina no sangue.
Ontem a côrte de Uppsala divulgou informações de como pretende processar o pastor e a babá no julgamento, marcado pra semana que vem. Sara passou por um exame médico que comprovou que ela estava sofrendo de sérios problemas psiquiátricos quando cometeu os crimes. E ela, que não nega nada, diz que foi o pastor quem a instruiu a matar Alexandra e atirar no vizinho, Daniel, que sobreviveu. "Fui vítima de uma lavagem cerebral", afirma Sara à imprensa.
E aí você pergunta: mas pra que atirar no vizinho? Ao que parece o pastor queria se casar com a mulher de Daniel - com quem também tinha laços extra-conjugais. Mas então por que ele não se separou? Porque ele perderia credibilidade junto à comunidade religiosa, onde pregava vidas imaculadas no sentido moral. O mais incrível é que esse cara tem filhos tanto com a primeira esposa, Helène, quanto com a segunda, Alexandra. Ele também passou por uma análise pra saber se se tratava de um doente mental, mas nada evidente foi constatado. Há suspeitas, no entanto, de que ele tenha um desvio sociopata de personalidade.
Agora o advogado de acusação quer provar o envolvimento do pastor em ambos os assassinatos, o da sua primeira mulher e o da segunda, assim como nas tentativas de assassinato perpetradas por Sara contra Alexandra e Daniel. Contra o pastor a polícia exibe a arma do crime e alguns outros detalhes, como o pesado tráfego de mensagens de texto enviadas entre os celulares de Sara e Helge por meses a fio e, mais especialmente, momentos antes e depois dos crimes. E o drama continua.
maio 12, 2004
Nevando nas flores

Não sou dessas pessoas que se deixam influenciar pelo tempo, mas hoje está difícil não ficar meio pra lá de Bagdá: poxa, está NEVANDO em plena primavera! :c(
A foto acima, tirada dez minutos atrás, é da vista que tenho da varandinha da sala. Sorry quem tem conexão discada - a imagem está pesada porque não consegui tratá-la no Photoshop. Isso porque estou sem "memória virtual". Eu não, claro, meu computador (mas a minha também já está rateando).
maio 11, 2004
Música e política
Sábado todos os suecos (e eu também) têm um compromisso intransferível. Todos sabem que ficarão em casa, assistindo televisão. Os preparativos - pipoca, bebidas, telefone na mão para votar - já estão a pleno vapor. Tudo por conta da final do concurso de músicas Eurovision, chamado Schlager [shhhhláger] por aqui.
A Suécia tem uma relação de amor e ódio com esse concurso, visto por muitos (né, Marina? :c)) como cafona e ultrapassado. Schlager é inclusive um estilo musical, assim como pagode ou bossa nova. Metade do país assiste alegremente porque gosta das músicas, a outra metade assiste porque acha tudo cômico e exagerado - o que por si só garante a diversão.
O mais legal pra mim não são as músicas, que às vezes são mesmo horríveis, mas como cantores dos mais diversos países europeus as interpretam. Tem cada figura que eu vou te contar! Morro de rir. A Suécia já venceu o campeonato um monte de vezes, sendo que a primeira, se não me engano, foi em 1974, quando o ABBA ganhou com "Waterloo".
Esse ano a festa será em Istambul, na Turquia, devido à vitória da música desse país no ano passado. Pelo que sei, o Eurovision foi criado para que os mais diferentes países pudessem cantar em sua própria língua, mostrar instrumentos folclóricos e ritmos nativos. O problema é que agora tudo isso é visto como ultrapassado já que as regras mudaram e todo mundo pode cantar em inglês. Por isso, ninguém mais se assusta ao ver uma intérprete da Albânia cantanto hip-hop, um francês se enrolando num jazz ou uma russa dando voz a uma balada country.
O engraçado é que uma grande parte das músicas esse ano tem o mesmo ritmo: o latino. Parece que a onda Ricky Martin ainda está a todo vapor no leste europeu. A contribuição sueca, que pode ser definida como um pop sueco clássico (se é que isso existe), chama-se "Det gör ont" ("Dói" - em inglês, "It hurts") e é interpretada por Lena Philipsson, uma cantora famosa por essas bandas. Não gosto da música, mas sou exceção. Os experts em schlager dizem que ela vai ganhar! (Veja a página oficial da Suécia no Eurovision - tudo em inglês)
Hoje tem uma matéria no caderno de cultura do Dagens Nyheter sobre o campeonato. Para os turcos, a vitória do ano passado não significou apenas que eles tinham uma música melhor, mas que eles foram aceitos pela comunidade européia como quase-membro. Isso porque a Turquia está na lista de países que pediram pra entrar na Comunidade Européia (CE) mas que até agora não conseguiram cair nas graças de Alemanha, França, Suécia etc. Os turcos não estão nem aí pra música. O que eles querem é mostrar que a Turquia pode e deve fazer parte da CE. O título do artigo é mais do que perfeito: "A Turquia compete por um lugar na CE".
maio 09, 2004
Três anos de Suécia
Hoje, dia 9 de maio, faço três anos de Suécia. Parei pra pensar na minha vida aqui, esses 1.100 dias em permanente descoberta, dor, experiências e muita evolução. Pensei nas coisas que conquistei, nas que abri mão e principalmente naquelas sobre as quais perdi o controle. Nas pessoas que sinto falta e nas pessoas que estou aprendendo a conhecer. Como minha vida mudou!
Não digo que tenha mudado pra melhor nem pra pior, mudou apenas. Ganhei e perdi. Em dias ruins acho que passei os últimos anos num estado permanente de privação de sentidos. Perplexa, me pergunto sem parar: "O que é você estava pensando?", "Endoidou?" e "Como foi que você fez isso com você mesma?"
Em dias melhores, arregalo os olhos e vejo com muito mais clareza tudo o que conquistei e descobri aqui: minha felicidade ao lado do meu urso, o domínio cada vez maior de um idioma interessante, as conquistas que colorem a minha existência, os livros incríveis que leio, a cultura e as pessoas que me desafiam diariamente.
E como era de se esperar, a viagem à Suécia se mostrou mais do que uma mudança de país. É, foi e continua sendo uma viagem interna. A cada coisa que descubro, como um folhetim de rádio, várias nuances de branco na neve, a aurora boreal, descubro coisas a meu respeito, meus limites e desmistifico barreiras que pensava que tinha.
Vim pra cá uma jornalista de 29 anos, já com sete anos de experiência na bagagem e a noção de que teria de dar um tempo na carreira para poder aprender o idioma. Hoje sou uma ex-jornalista e blogueira de 32 anos, que escreve por necessidade de alma e está tentando acreditar que ter uma vida profissional fora do jornalismo é possível. Estudo para ser assistente social e quero trabalhar diretamente com imigrantes e refugiados.
E nesse processo, o Montanha-Russa foi e é uma ferramenta fundamental. Pra escrever, preciso organizar meus pensamentos e, fazendo isso, entendo melhor tudo o que acontece comigo aqui. O país, as pessoas, as instituições, as idéias. Tudo passou a fazer mais sentido pra mim depois de aparecer nos quase 900 posts que escrevi aqui no Montanha.
O primeiro ano aqui, 2001, foi muito difícil. Talvez por isso mesmo não me lembre de quase nada. Mal conseguia mandar ou receber emails da minha família sem me descabelar de angústia. Minha vida se resumia a estudar sueco, amar meu urso e chorar de saudades. A única memória mais forte foi do infame 11 de setembro, e eu aqui, a um oceano de distância dos meus ex-colegas de trabalho. Nunca me senti tão fora de sintonia com minha vida no Brasil.
Em 2002 a angústia diminuiu e consegui respirar mais aliviada. Descobri as receitas deliciosas do livro de receitas da minha avó querida, percebi, logo depois, que gostava de cozinhar, vi a aurora boreal pela primeira vez na minha vida, aprendi e ensinei detalhes da gramática sueca, conheci gente de lugares tão diferentes quanto Afeganistão, Sri Lanka, Turquia e Iraque, visitei Estocolmo, discuti o crescimento do preconceito nos países nórdicos, especialmente na Dinamarca e chorei muito quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo.
Ainda em 2002 tive que fazer curso pra tirar uma carteira européia que prova que sei lidar com computadores, mesmo depois de quase dez anos lidando (e escrevendo sobre) informática, fui ao Brasil pra matar as saudades, fiz um estágio que não levou a nada, fui a Estocolmo especialmente para ajudar a eleger Lula presidente do Brasil, tentei ser professora, escrevi uma carta pra ministra da integração sueca criticando o racismo institucionalizado daqui e até ganhei um pedaço de chão na Lua.
Em 2003 tirei minha carteira de motorista sueca, chorei quando vi uma manga do Brasil no supermercado, descobri como é duro ser burguesa aqui, notei, depois de quase dois anos, que não existem ralos nos apartamentos, aprendi a fazer bolinhos típicos, tirei muitas fotos do verão e do outono, descobri a "praia" sueca e vi como esse povo ama uma estatística.
E o ano de 2004 começou muito bem: conquistei minha vaga na universidade e agora tenho mais esperanças no futuro.
Nesse meu mundo novo a saudade ocupa um espaço grande, está sempre ali, ao meu lado. É a minha companheira. Se no Brasil, sinto falta de tudo aqui. Se na Suécia, morro de saudades de tudo e de todos lá. Não adianta tentar fugir disso. É melhor aceitar, como uma das verdades universais. Depois da noite vem o dia. Sinto saudades todos os dias. Tudo bem.
Tal qual numa Montanha-Russa de verdade, subo e desço, grito de pavor e excitação, fico de pernas pro ar morrendo de medo ou achando tudo um barato. Descobri que o lance não é vencer o medo, mas existir apesar dele, ir fazendo sem dar muita bola pra eventual escuridão da alma.
E a vida continua. Stay tunned... :c)
maio 08, 2004
A fantástica literatura fantástica
Estou apaixonada por esse livro "Den vidunderliga kärlekens historia" (algo como "A fantástica história do amor"), de Carl-Johan Vallgren, que comecei a ler uns dias atrás. O livro ganhou o prêmio August como melhor romance sueco de 2002 - o que geralmente indica que a obra é boa (tanto do ponto de vista literário quando comercial) e, às vezes, meio estranha.
Digo isso porque me lembro que li um outro ganhador do Augustpriset, o "Aprilhäxan" (algo como "Bruxa de abril"), de Majgull Axelsson, que seguiu as mesmas linhas: interessante, boa literatura e com um toque de sobrenatural. Tanto o livro de Vallgren quanto o de Axelsson são histórias fantásticas, semelhantes a de Jorge Luiz Borges e Isabell Allende, por exemplo. ("A Casa dos Espíritos" é um dos meus livros favoritos de todos os tempos)
Ainda não li o suficiente para afirmar com toda a certeza, mas tenho a impressão de que a literatura sueca gosta de uma pitada "fantástica", de pessoas com poderes sobrenaturais, com experiências fora do corpo e coisas do tipo. O estranho - e inusitado - é que os suecos misturam a literatura fantástica com uma prosa mais comum, cotidiana. A mistura fica interessante, principalmente pra quem, como eu, aprecia a capacidade de autores de contar uma história incrivelmente bem estruturada e, ao mesmo tempo, totalmente permeada por pessoas e atos "fora do normal".
Em "Aprilhäxan" conta-se a história de Desirée, uma mulher que nasceu com uma falha cerebral que a impede de falar e se mover. Ela vive numa cama de hospital e se comunica com a ajuda de um computador. O que é diferente aqui é que Desirée tem a capacidade de sair do seu limitado corpo e encarnar em pássaros e pessoas, mais especificamente suas três irmãs - através das quais ela colhe experiências de vida fora do hospital. Parece meio esquisito - e é mesmo - mas o livro é muito bom. Recomendo.
Já o "Den vidunderliga...", conta a história de Hercules Barfuss, que nasceu totalmente deformado em um bordel na Alemanha do século XIX, mas que tem um dom especial: ele lê o pensamento das pessoas a sua volta e pode se comunicar em pensamento também, em qualquer língua. Ainda estou no início, mas tou adorando.
Fui procurar mais info sobre o Prêmio August e fiquei sabendo que ele foi criado em 1989 pelo clube de editoras daqui e premia livros suecos em três categorias: melhor livro de ficção, melhor livro de não-ficção e melhor livro para crianças e jovens. Ah, sim, o prêmio chama-se August em homenagem ao onipresente escritor sueco August Strindberg.
maio 07, 2004
Notícias do Primeiro Mundo V
Um terço dos suecos nascidos fora da Suécia sofre discriminaçãoUm terço dos cidadãos suecos nascidos fora do país sofre discriminação, principalmente no mercado de trabalho. Essa foi a conclusão de uma pesquisa realizada por escritórios anti-discriminação em quatro cidades suecas. Os mais discriminados são pessoas nascidas em países da África, da Ásia e da América do Sul.
- É trágico que tantas pessoas sejam discriminadas na Suécia de hoje. Tanto os políticos quanto a sociedade em geral deve reagir contra isso, afirma Jabar Amin, que trabalha no escritório anti-discriminação de Umeå. O relatório teve como base uma enquete com 25 perguntas que foi enviada para 4 mil pessoas nascidas fora da Suécia e que moram em Estocolmo (sudeste), Gotemburgo (sudoeste), Norrköping (centro) e Umeå (norte).
Nada menos do que 37% - pouco mais de um terço - afirma já ter se sentido discriminado pelo menos uma vez nos últimos três anos. Do total de respostas vindas de cidadãos suecos nascidos na África, 54% já se sentiram discriminados. Em outro grupo, o de suecos nascidos em outros países escandinavos (Noruega, Dinamarca, Finlândia ou Islândia), 14% afirmaram já terem sido objeto de discriminacão.
A forma mais comum de discriminação acontece no mercado de trabalho, seguida de perto pelo setor de entretenimento (restaurantes/pub/discotecas), por empresas de aluguel de apartamentos e, por fim, no segmento de saúde.



Preciso comentar?
Link pra matéria (em sueco).
PS.: Mas hoje eu estou bem. Fiquei sabendo de notícias de uma amiga muito querida e senti que ela está no caminho de volta, se recuperando depois de uma perda difícil. Fiquei feliz em ler o email da minha amiga, de sentir a vibração de uma das pessoas mais doces que conheço e que está se recuperando. Força, queridoca!
maio 06, 2004
Um dia de cada vez
Jag tar en dag i taget. -- Eu vivo um dia de cada vez. Devagar. Um passo pra frente. Estou cansada (em todos os níveis possíveis, não apenas no físico) e o que realmente gostaria de fazer é de deitar na cama e dormir debaixo das cobertas.
Mas hoje foi um bom dia. Limpei a casa, estudei e escrevi parte da prova. Escutei rádio. O folhetim de rádio agora é o livro "Brick Lane", de Monica Ali, escritora inglesa com raízes em Bangladesh. Terminei de ler "Ett öga rött". Fantástico. Quem puder ler, recomendo muitíssimo.
E pela primeira vez, desde setembro do ano passado, saí na rua hoje sem nenhum casaco. Sol e mais de 20 graus. Deu quase pra ficar feliz. Na universidade assistimos a um filme norueguês fantástico, chamado "Elling". Recomendo muitíssimo. Emocionante.
maio 05, 2004
Assim assim
Muitas coisas pra escrever:
- O fato de a Suécia ser "o melhor lugar para maternidade" no mundo, segundo relatório do grupo Save the Children (thanks Julia e Alêzoca). Poderia comentar como são as coisas aqui, mas fico mesmo pensando é em como as mulheres/meninas da Nigéria, de Burkina Faso e de outros cantos do mundo devem se sentir...
- Festa ontem com o pessoal da minha turma. Fomos pra um restaurante/bar/discotèque. Jantamos (a comida estava horrível), eu tomei duas cervejas e assistimos a um péssimo stand up comedian. Mesmo assim foi engraçado. Hehe.
- Hoje, às nove da matina, aula sobre conceitos de deficiência física.
- Cansada. De saco cheio. Meio amarga. Preciso de férias.
maio 03, 2004
Deficientes
Amanhã começo uma nova série de aulas na universidade, dessa vez direcionada ao estudo de deficiência física e mental. O livro do curso é "Handikapp: synsätt, principer, perspektiv" ("Deficiência: visão, princípios e perspectivas") e é bem legal. Ainda estou no meio (a prova é só no meio da semana que vem) mas já gostei do que li.
O primeiro capítulo, por exemplo, é um barato. Conta como os deficientes são vistos no mundo literário. Interessantérrimo. A autora, Barbro Saetersdal, cita desde Shakespeare até Camus, passando por livros escritos por pais de crianças deficientes, onde os deficientes são geralmente retratados como pessoas/crianças boas e amáveis.
Mas há um outro lado da moeda: a visão dos deficientes como a encarnação do mal. "Richard III não era deficiente físico, mas Shakespeare o fez assim como uma explicação para toda a maldade do personagem", escreve Saetersdal. Deformação é vista como sinal de malvadeza. E a lista não para por aí. Também estão lá Frankenstein, o corcunda de Notre Dame e o fantasma da ópera.
Mas o mais interessante foi ler o segundo capítulo, que descreveu a imaginação popular no que diz respeito ao nascimento de crianças deficientes. Acredite se quiser, mas aqui na Suécia as famílias pobres, que geralmente viviam no campo antes da modernização do Estado (depois da segunda guerra mundial), acreditavam que um troll trocava os bebês "normais" por pequenos bebês troll deficientes.
Isso sempre acontecia quando a mãe - sempre a mãe - colocava o bebê no berço por um momento e se ocupava com alguma outra tarefa. Há relatos formais de famílias que mataram seus filhos por suspeitarem que eles eram bebês troll - isso porque, claro, os bebês começaram a mostrar sinais de deficiência. Que coisa. Alguém sabe se há algum tipo de folclore semelhante no Brasil?
maio 02, 2004
Livros e preconceitos
Não consegui terminar de ler o "Chasing the Dime", do Michael Connelly. Totalmente desinteressante. O autor conseguiu me irritar com o desenrolar da história. Que coisa. Comecei agora esse "Ett öga rött", do Jonas Hassen Khemiri, que é sueco, nascido em Estocolmo, de mãe sueca e pai tunisiano. Tô adorando. Prosa svartskalle de primeira. Recomendo.
svartskalle = svart = preto/negro; skalle = cabeça. Usa-se essa palavra em um contexto racista, mas também como um adjetivo explicativo, cujo uso - se feito por imigrantes - é crescente e aceito. A situação é a mesma dos negros americanos que não toleram serem chamados de nigger por brancos, mas que se chamam assim entre eles próprios. Eu sou uma svartskalle aqui (por ser imigrante, mesmo sem ser negra), mas ficaria chocada e furiosa se um sueco me chamasse assim.
A propósito svartskalle, uma matéria no suplemento de cultura do DN de hoje me chamou atenção: show do Nelson Sargento em Estocolmo. O repórter, Martin Nyström, escreve com uma reverência comovente pelo velho sambista da Mangueira. Muito legal ler o texto, a apreciação das músicas, a descrição do background de Nelson Sargento e da cena cultural carioca.
Um detalhe triste. Escreve Nyström: "No início do show, Nelson Sargento não estava bem. Naquele mesmo dia, ele e a esposa haviam sido barrados na porta de um café em Götgatsbacken (em Estocolmo). Eles foram brutalmente relembrados de que estavam em uma Europa do Norte cheia de preconceitos e segregação. Mas Nelson Sargento faz de tudo para se animar com o show e começou a noite com um 'Goodnight!'"
maio 01, 2004
Choramingação
República Tcheca Europa enterra definitivamente a Guerra Fria com expansão para o Leste
BRUXELAS - Oito ex-nações comunistas e duas ilhas mediterrâneas entraram na União Européia neste sábado (sexta-feira no Brasil) em uma histórica reunificação da Europa Ocidental e Oriental, 15 anos após a queda do muro de Berlim. Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia, ilhas de Chipre e de Malta passaram a integrar oficialmente o bloco europeu a partir da zero hora deste sábado (horário centro-europeu; 19h horário de Brasília).
Essa expansão, a maior feita até hoje, transforma os 25 membros da UE no mais poderoso bloco comercial do mundo com uma população de 450 milhões de pessoas produzindo quase um terço de toda a riqueza mundial. Para os moradores do Leste Europeu, a expansão da UE é uma recompensa pelos esforços dos últimos 15 anos, quando reformas foram implementadas depois do colapso da União Soviética. (Matéria do Globo de hoje)
Para a Suécia, a expansão da Comunidade Européia (CE) é um assunto controverso. Primeiro porque os suecos em geral têm restrições à idéia da CE de união total, com muito poder delegado à Bruxelas. Segundo porque os políticos estão apavorados com a possibilidade de imigração em massa das antigas repúblicas do leste para aproveitar o doce wellfaire escandinavo.
Muito se discutiu nesses últimos meses sobre isso e até o primeiro-ministro Göran Persson - um socialista, diga-se de passagem - virou a casaca e pleiteou no congresso regras de transição, segundo as quais os imigrantes dos novos países europeus não teriam direito imediato ao sistema de pensão e hospitais sueco se viessem trabalhar aqui. Persson até lançou a expressão "turismo social", para ilustrar o que ele acha que os moradores das novas nações européias farão na Suécia.
"Racismo! Discriminação!", berraram os partidos de direita (sim! aqui é tudo ao contrário). Polônia e Hungria até ameaçaram adotar leis restritivas semelhantes caso a Suécia insistisse. Mas, graças ao bom senso geral, a proposta dos socialistas caiu e não haverá regras de transferência. Estudos indicam que alguns novos europeus deverão mesmo se mudar para a Suécia, mas esse total não chegará a mais de 10 mil pessoas. O que, aliás, é até bom pro mercado de trabalho sueco, que tem problemas em seduzir gente pra vir trabalhar aqui.
Eu particularmente acho que isso é um absurdo. Sabe como é que é: se tá na chuva, é pra se molhar. Se a Suécia faz parte da CE, então tem que aceitar as regras. Além do que, a maioria desses países tem taxas de crescimento econômico muitíssimo superiores à sueca, que estagnou em torno dos 4% ao ano. A Estônia, por exemplo, tem uma economia aquecidíssima e cresce a incríveis 10% ao ano. Foi até batizada "O tigre do báltico". Pra quê sair de lá, se é agora que a economia promete aquecer de vez?
Parece que não são os imigrantes que assustam os suecos, mas outra coisa. Na verdade, eles estão apavorados com a possibilidade de mudança de domicílio de empresas. A Electrolux, empresa sueca que fabrica refrigeradores, fogões etc, já transferiu toda sua produção de aspiradores de pó pra Hungria, onde tem-se mão-de-obra razoavelmente treinada a salários ridículos, se comparados aos padrões suecos. Isso sim é um problema. O resto é gnäll (=choramingação).


