junho 30, 2004

Tradução da tirinha Nemi:

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Tradução da tirinha Nemi:

-- Todos esses pesos são feitos de papier-marché?
-- Sim! Hoje estou treinando autoconfiança!

Hoje é meu primeiro dia de férias e está chovendo a cântaros desde ontem à noite. Por causa desse detalhe, eu e meu urso, que também está de férias, fomos "forçados" a ficar em casa. Oh, que desgraça. :c) Mas nós saímos da toca e fomos comprar umas cositas no supermercado. Guaraná pro urso e pepsi light pra mim, caviar e peito de galinha congelado (hoje vai ter jantar bom).

Mas, já na saída, vimos que o supermercado estava fazendo liquidação de dvds. Nosso frágil orçamento explodiu em mil pedacinhos quando levamos pra casa, "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", "O Senhor dos Anéis - o Retorno do Rei", "Os intocáveis" (com Sean Connery e Kevin Kostner) e um DVD chamado "Heavy Metal", de uma série em quadrinhos que meu urso já queria ter já faz um tempão.

Cada DVD custou meras 89 coroas (mais ou menos 11 dólares ou 33 reais - não sei se o câmbio está certo), a não ser o "Senhor dos Anéis", claro, que custou mais de 200 coroas. Agora é viver de pão e água o resto do verão. :c/

Escrito por Maria às 01:11 PM | Mais: De bem com a vida | Comente! (15)

junho 29, 2004

Papa-anjo

Fomos ontem assistir a Harry Potter and the Prisoner of Azkaban. A-do-re-i. Pena que o Ron aparece pouco. Contei que tenho um soft spot por ruivos? Hohoho.

Sabe porque eu gosto da história criada pela J.K. Rowling? Porque você vai ao cinema pruma tarde de diversão ligeira e acaba aprendendo a ridicularizar seus medos mais terríveis (o ator Alan Rickman, que faz Severus Snape, vestido com as roupas da avó do Neville é ge-ni-al).

Escrito por Maria às 11:13 PM | Mais: Vidinha | Comente! (11)

junho 28, 2004

So true, so true...

"Selfishness is not living as one wishes to live, it is asking others to live as one wishes to live."
Oscar Wilde (1854 - 1900) (copiado do meu querido amigo André)

Pra completar, comento apenas uma coisa do último livro que li para o meu curso de verão, que acabou hoje. No ma-ra-vi-lho-so livro "Kulturterrorismen" ("Terrorismo Cultural"), cujo autor é o professor de antropologia social na Universidade de Oslo Thomas Hylland Eriksen, lê-se uma definição ótima de fascismo:

"(...) fascismo é ter amigos íntimos, uma cidade natal e uma família, mas não ter capacidade de entender que outras pessoas, em outros locais, possam ter amigos, uma cidade natal e família - e ter uma vida rica e interessante, mesmo sendo diferente."
Como vocês sabem, intolerância me cansa, me deixa mal, deprê mesmo. E não apenas aquela vinda de suecos ou de povos que se julgam superiores. Mas até mesmo aquele ódio mal escondido de brasileiros que vivem por aqui e que, por conta dessa sensação de humilhação, se envolvem num colete de ódio contra suecos (e demais nacionalidades européias) que me deixa ainda mais cansada e deprê. Como o Oscar Wilde disse muito bem, não tô aqui pra ensinar ninguém a viver, mas só pergunto uma coisa: como é possível viver com tanto ódio?

Nota: não critico ninguém que se sinta no direito de odiar o povo do país europeu em que vive. Muito pelo contrário. Acho, inclusive, que há uma necessidade psicológica em se criticar a sociedade dominante. Eu mesmo tenho meus problemas com os suecos às vezes (cada vez menos, diga-se de passagem) mas ainda acontece uma vez ou outra. O que escrevi acima é uma tentativa de encontrar um "caminho do meio", onde eu possa viver em paz onde quer que esteja, seja aqui ou no Brasil. Por favor, não entendam o que escrevi acima como crítica ou repreensão. Estou apenas pensando alto (como faço sempre por aqui, aliás) e não quero ferir ninguém. Quero apenas poder escrever o que penso.

Escrito por Maria às 01:44 PM | Mais: Livros | Mais: Variedades | Comente! (22)

junho 27, 2004

Away

Queridos: esse post é só pra dizer que voltei. Estava em Piteå, na casa da minha sogra, sem acesso a um computador. As razões dessa ausência são duas, uma boa e outra ruim. A boa é que esse final de semana foi comemorado o Midsommar, um feriado tipicamente sueco, no qual marca-se o solstício de verão, o dia mais longo do ano. A partir de agora perdemos minutos de luz do sol dia a dia. O que não é mau, já que aqui no norte da Suécia nessa época do ano, chegamos a ter 17 horas de sol por dia. Haja cortina azul marinho.

A razão ruim é que Bob, pai de Stefan, morreu no dia 24 às 13hs. Estava publicando o post abaixo quando Stefan me ligou pra me dizer. Depois disso, joguei algumas coisas na mochila e fui pra estação de ônibus. Mesmo assim, a passagem de Bob já estava sendo esperada. Há mais de 20 anos ele estava numa clínica para pessoas doentes e/ou idosas depois de ter sofrido um acidente que o deixou com sérios problemas de saúde. Muito doente, nos últimos tempos precisou aliviar a dor com morfina. Ele se foi rodeado pela família, literalmente. Vera e três filhos de mãos dadas, ao lado dele, o tempo todo.

Bob teve uma vida cheia de mudanças, rica em acontecimentos. Enfrentou ocupação alemã em Amsterdam, foi soldado na Indonésia, imigrou para os EUA, onde conheceu minha sogra. De lá, eles voltaram pra Suécia em 1971, já com três filhos (meu urso entre eles). A família está bem, todos estão conformados. A irmã e as sobrinhas de Bob vêm da Holanda para o enterro, que deverá ocorrer na semana que vem. Veja a página In memoriam que Stefan fez em homenagem ao pai.

Queria ter escrito sobre a derrota sueca para a Holanda, mas agora isso já é old news. Só digo que de fato os holandeses jogaram melhor e mereceram ganhar. Agora só me resta torcer pra... quem? Talvez a República Tcheca. Que timaço! :c) Os dias aqui têm sido simplesmente fantásticos. Depois de um midsommar encoberto (o que é normal), o sol não pára de brilhar há dias. Céu azul, sol, "calor" de 25 graus, brisa fresca. Delícia.

Escrito por Maria às 07:25 PM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (28)

junho 24, 2004

Palavras, palavras

Saudade é a 7ª palavra mais difícil de traduzir

BBC, em Londres

Uma lista compilada por uma empresa britânica com as opiniões de mil tradutores profissionais coloca a palavra "saudade", em português, como a sétima mais difícil do mundo para se traduzir.

A relação da empresa Today Translations é encabeçada por "ilunga", uma palavra do idioma africano Tshiluba, falando no sudoeste da República Democrática do Congo. "Ilunga" significa "uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez".

Segundo a diretora da Today Translations, Jurga Ziliskiene, embora as definições sejam aparentemente precisas, o problema para o tradutor é refletir, com outras palavras, as referências à cultura local que os vocábulos originais carregam. Veja a lista completa das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:

1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.

2. Shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada.

3. Radioukacz (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.

4. Naa (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.

5. Altahmam (árabe) - um tipo de tristeza profunda.

6. Gezellig (holandês) - aconchegante.

7. Saudade (português)

8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres.

9. Pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais.

10. Klloshar (albanês) - perdedor.

Como você define saudade? Pra mim, é um sentimento de falta, de cheiros, imagens e tempos passados. Uma unidade de tempo e de vida que já passou e que, por mais que esteja feliz onde estou, ainda me deixa triste por não existir mais. São pessoas que não estão presentes. É, principalmente pessoas que eram importantes e que não estão mais por perto.

Valeu, Alê!

Escrito por Maria às 01:04 PM | Mais: Cultura e comida | Comente! (23)

junho 23, 2004

Trains, plains and automobiles

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Passei essa semana em Boden. Foi ótimo. Agora já estou de volta a Umeå para mais duas semanas de ralação. Depois, férias. No trem de ida, um "pequeno" imprevisto: o trem não veio a Umeå, passou direto por estar atrasado. Eu e mais alguns viajantes fomos de taxi até Vännäs, cidade mais ao norte, onde pegamos o trem.

Anteontem, na volta pra Umeå, outro imprevisto: o trem também não veio, dessa vez por causa de um incêndio na região onde os trilhos passam, que poderia até explodir (fogo perto de gás, ou coisa que o valha). Fomos de ônibus de Boden até Luleå, maior cidade do norte sueco, onde trocamos de ônibus. Dali seguimos para Umeå.

Vim ouvindo rádio a viagem inteira. Dá uma paz ouvir rádio vendo as paisagens mais lindas passarem pela janela. Campos verdinhos, casas vermelhinhas. Vaquinhas, carneirinhos, passarinhos. Rios, pedras, florestas. E o sol? Estava com sol alto até às 22 horas. Depois ele deixou de brilhar, mas nunca fica noite aqui nessa época do ano.

Em uma das minhas estações favoritas, a P3, tocou um programa em que grupos de rock apresentam durante uma hora suas músicas favoritas. Anteontem foi a vez do grupo sueco Sahara Hotnights (adoro esse nome). Dentre as músicas preferidas de Maria e Johanna estava "Angelina" de Harry Belafonte. Muito legal.

Angelina, Angelina, please bring down your concertina
And play a welcome for me 'cause I'll be coming home from sea
Yes it's so long since I've been home
Seems like there's no place to roam
Well I've sailed around the Horn
I've been from San Jose up to Baffin Bay
And I've rode out many a storm

Mais tarde, a P3 mostrou um show ao vivo do R.E.M., gravado em Oslo, Noruega, em outubro do ano passado. Foi emocionante ouvir os caras tocando e cantando "Loosing my religion" ao vivo. Tive que me segurar pra não sair me sacudindo no meio do ônibus (estava sentada na parte de baixo, então o vexame seria menor. :c)
Life is bigger It's bigger than you
And you are not me
The lengths that I will go to
The distance in your eyes
Oh no I've said too much
I set it up
(...)
Every whisper
Of every waking hour I'm
Choosing my confessions
Trying to keep an eye on you
Like a hurt lost and blinded fool
Oh no I've said too much
I set it up

Quer ouvir a P3? Vá até o site deles e clique na palavra "Lyssna" (= "Ouça"), localizada à direta da barra preta.

A foto acima, apesar de muito fiel ao que vi, não foi tirada por mim, mas por uma amiga quando ela e o marido viajaram ao sul da Suécia. Lindo, né?

Escrito por Maria às 12:21 PM | Mais: Vidinha | Comente! (24)

junho 22, 2004

HEJA SVERIGE!!!

sueca.jpg

Terminou agora o jogaço Suécia x Dinamarca. Dois a dois, resultado que classifica ambas as seleções nórdicas para as quartas de final da Copa Européia. Não foi mole porque os dinamarqueses jogaram muito melhor e mereciam ganhar, mas o oportunismo sueco se fez presente mais uma vez e conseguimos empatar no finalzinho da partida (gol de Mattias Jonson).

O mais engraçado é que esse resultado já estava sendo "cantado" pela seleção italiana desde o jogo passado. Isso porque esse placar seria suficiente para classificar Suécia e Dinamarca pra próxima etapa, seja qual fosse o resultado do jogo Itália e Bulgária. O jogo pode ter sido tudo, menos arranjado. Os dinamarqueses jogaram muito e os suecos correram atrás e conseguiram empatar - com muito esforço, diga-se de passagem.

Agora, posso afirmar sem qualquer sombra de dúvida que o resultado alegrou as populações da Suécia e da Dinamarca - países que se consideram "irmãos escandinavos". Os suecos são primeiros do grupo e os dinamarqueses, segundos. Eles ganharam a posição italiana, dada como certa por todos. Isso mesmo, a Itália está desclassificada! Hohoho. Arrivederci, bambini!

Escrito por Maria à s 10:49 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (12)

Morte e mudança cultural

A única coisa que tenho a dizer sobre a morte do Brizola é o que me lembro das primeiras eleições "livres", em 1982. Eu tinha 11 anos e fui com minha querida avó votar na Hebraica, em Laranjeiras. Ela, conservadora, votou no Moreira Franco. Minha mãe e um dos meus tios, no entanto, haviam escolhido votar no Índio Juruna (se lembram?), meu pai, no Brizola (eu acho). Coitada da vovó, o desgosto foi tanto que ela quase teve um treco.

Outra coisa que senti quando a Princesoca me avisou que o Brizola havia morrido foi uma certa melancolia. Isso porque sinto que as pessoas que fizeram do Brasil o que ele é pra mim durante os meus 29 anos de vida no Rio, estão desaparecendo aos poucos. Sejam elas boas, ou más. Estou perdendo pouco a pouco a base cultural em comum que sempre tive com amigos e família. Estranho.

Agora entendo o porquê de eu ficar meio deprê quando leio o blog do pessoal que mora no Brasil e não compreendo quem é fulano do Big Brother ou sicrano da novela tal. Estou, aos poucos, perdendo pedaços da cultural popular brasileira. O processo é inevitável, claro. Sei que é assim mesmo e não reclamo de não ser íntima dos participantes do BBB. Mesmo assim, sei lá. Me sinto mais uma vez "do lado de fora".

Hoje na aula apresentamos livros que lemos sobre vários temas ligados às questões dos imigrantes. Eu apresentei o "Ett öga rött", de Jonas Khemiri (foto à direita), do qual já falei aqui. Disse que o livro era interessantérrimo por lidar justamente com questões sérias como identidade de forma fácil, por se tratar da história contada em primeira pessoa de Halim, um adolescente nascido em Estocolmo de pais imigrantes.

Citei ainda a linguagem do livro como muito interessante. Trata-se de Rinkebysvenska, (sueco falado em Rinkeby, um subúrbio de Estocolmo onde é difícil encontrar um sueco "puro" pelas ruas). Há uma grande discussão sobre a importância de se reconhecer o sueco falado no "gueto" também como válido e não apenas rejeitá-lo como algo ruim. Eu disse que seria interessante dar esse livro para adolescentes e discutir não apenas sueco mas a própria questão social.

Nesse ponto uma menina, que está se formando para ser professora de sueco, diz que recomendar esse livro pros alunos é "um risco". "Só pra quem já sabe muito sueco é que pode ser, talvez, interessante", disse ela. Como resposta à minha pergunta do porquê dessa opinião, ela disse que o sueco do livro de Khemiri não é o sueco "correto", que deve-se evitar ensinar algo assim, tão cheio de figuras dialetais. Nesse momento, eu retruquei: "Aha, então podemos cortar da lista de livros didáticos os clássicos de Selma Lagerlöf?" (Foto à esquerda. Escritora sueca do início do século que escrevia exclusivamente no seu dialeto e que ganhou até Prêmio Nobel de literatura em 1909).

Esse tipo de ignorância misturada com preconceito me enoja.

Escrito por Maria às 04:05 PM | Mais: Vida de imigrante | Comente! (16)

junho 19, 2004

Futebol e crianças

E não é que ontem quase que a Suécia perde da Itália? Pois é, depois de uma semana de gritos de "já ganhou", a seleção sueca tomou um sustão. Eles estavam embalados com os 5 a 0 na Bulgária e achavam que a Itália não era lá essa coisa toda. Ainda mais quando o time italiano perdeu Totti, suspenso por três jogos depois de ter cuspido na cara de um jogador dinamarquês. Mas os italianos não deixaram a bola cair e, mordidos, tiveram um monte de chances de gol. Foi sorte da Suécia que o goleiro deles jogou muito.

O jogo estava quase terminando, 1 a 0 pra Itália e o time sueco parecia resignado com a derrota. Com a vitória sobre a Bulgária, eles ainda poderiam se classificar pras quartas de final caso ganhassem da Dinamarca no próximo jogo, terça-feira que vem. Mas foi aí que o oportunismo e o talento do Zlatan Ibrahimovic se fez presente. Num lance confuso na área italiana, ele marcou um gol de placa: de costas pro gol, ele tocou a bola pra dentro com o lado externo do pé direito. Todos os jornais suecos de hoje estão agradecendo a Zlatan. :c)

Não pude escrever antes porque hoje vieram aqui pra casa minha sogra, minha cunhada e as três filhas, 9 e 7 anos (uma mais velha e um par de gêmeas). Tenho que dizer pra vocês o seguinte: nego tem que ser mooooooooito macho pra ter três filhas. Elas vieram pra cá ao meio-dia e foram embora agora, depois das nove da noite. Meu, eu tô exausta, e olha que eu não fiquei sozinha com elas... Sinceramente? É mais fácil jogar 90 minutos de futebol contra a Itália... :c)

Escrito por Maria às 09:45 PM | Mais: Vidinha | Comente! (20)

junho 18, 2004

Eu googlo, você googla?

bartgoogle.gif

O pior é que as pessoas até aceitam o conselho do Bart, aí em cima, e vão mesmo ao Google, fazem as perguntas mais incríveis e acabam dando com os costados por aqui. Teve um gaiato que chegou ao Montanha procurando a "resenha do livro 'trabalhar pra que?'"; outro se inspirou nos últimos episódios de E.R. e resolveu procurar por "imagens fotos fraturas acidentes" (cruzes!); um terceiro, com interesses mais "normais", visitou o Montanha tentando encontrar "Ikea - horário de abertura". Alguns procuram textos sobre Lygia Bojunga Nunes e o meu querido livro "Na corda bamba" e muitos, muitos mesmo, querem saber tudo sobre montanhas-russas e/ou mulheres russas.

Imagem copiada daqui.

Escrito por Maria às 10:06 AM | Mais: Variedades | Comente! (14)

junho 17, 2004

As nuances do futebol

zatlan.jpgEstava aqui no meu canto achando ótima a cobertura do campeonato europeu de futebol pela imprensa sueca quando li o jornal de ontem e reparei que havia comido mosca. Feliz em ver um imigrante ser tratado como estrela da seleção principal, não reparei que Zlatan Ibrahimovic (foto ao lado) é, na verdade, nascido e criado na Suécia, mais especificamente na cidade de Malmö, extremo sul do país.

Aí você pergunta: ele é sueco, né? Nja*, diriam os suecos. Fui investigar na Internet pra ver se achava mais informações e vi que o que eu queria, não encontraria em documentos. Legalmente, sim, ele é sueco, mas socialmente ele AINDA é visto como imigrante de segunda geração (com um ou ambos os pais nascidos fora da Suécia). Isso apesar do sucesso que ele faz na seleção e no seu clube, o holandês Ajax, onde é artilheiro.

Nesse ponto me deu um certo desconforto, mas não o suficiente para reagir e reclamar. Hoje, no entanto, quando li o pequeno artigo de Henrik Berggren na página de opinião do meu jornal, vi que tinha mesmo engolido uma mosca. Berggren escreve no artigo Mångfaldens Zverige (literalmente "Zuécia da multiplicidade" - ele fez uma brincadeira com o "Z" em vez do "S" por causa do Zlatan):

"A Suécia ganha de 5 a 0 da Bulgária e a nação inteira dança na frente da TV. Zlatan Ibrahimovic tem um papel decisivo. Ele não apenas passa a bola para [Fredrik] Ljungberg fazer o importantíssimo primeiro gol, como faz um gol de pênalti. Mas quando Zlatan é entrevistado depois da partida, a pergunta mais importante é se ele roubou a cobrança do pênalti do artilheiro Henke Larsson"

O jornalista citou mais a baixo, no texto, uma análise feita pela pesquisadora Agneta Furvik, que escrutinou a cobertura que rádios, canais de TV, e mídia impressa fazem de Zlatan. Ela chegou à conclusão de que a imprensa em geral trata o artilheiro com raízes na ex-Iugoslávia mais duramente do que seus companheiros de time.

Berggren afirma em seu artigo que esse tratamento diferenciado não pode ser confundido com racismo, até porque, escreve ele, se assim fosse Henke Larsson (o mulato lindão da foto do post do dia 15) e a metade da selecão até 21 anos sueca seriam alvos constantes de criticismo. O que não acontece. Henke Larsson, pele escura e tudo, é idolatrado por todos, de norte a sul.

Não, não é racismo. A constante sensação de desconforto da imprensa sueca para com Zlatan acontece, segundo o jornalista, porque ele é essencialmente diferente do que todo mundo aceita como características máximas do que é "ser sueco": não se destacar nem chamar muita atenção pra si mesmo, não mostrar abertamente sua insatisfação e sempre estar preparado para obedecer às regras do grupo, ou seja, simplesmente não tomar muito espaço.

fredrik.jpgO problema - e aí é que a coisa fica interessante - é que Zlatan não é o único que quebra esse código de comportamento. Segundo Berggren, até mesmo um outro jogador-estrela, Fredrik Ljungberg (foto), meio-campo do Arsenal inglês, também tem dificuldades em personificar o ideal sueco de humildade e trabalho de equipe.

A diferenca é que Fredrik Ljungberg é sueco. Ponto final. Ninguém questiona isso. Nego pode odiar o cara - que é lindo de morrer e sabe disso - mas ninguém o desvaloriza por sua rebeldia ou ousa questionar sua convocação como titular absoluto. No caso do Zlatan, a medida é outra. Cada ato de rebeldia pesa mais.

Zlatan, apesar de nascido em território sueco, ter passaporte nacional e falar o idioma perfeitamente, ainda é visto como "quase" sueco. Quando ele se "comporta", tudo são rosas. Mas quando ele se rebela, quando "sai da linha" e deixa de ser lagom, sua condição de imigrante de segunda geração é sempre trazida à tona. É aí que o bicho pega.

* Nja é uma contração do Nej (Não) e do Ja (Sim). O resultado é esse vocábulo híbrido que, na verdade, quer dizer "Não". E pra que serve isso então? Pois é, se você fosse sueco, acharia a coisa mais sensata do mundo usar o Nja sempre que pode, para fazer o que para os suecos é um esporte nacional: evitar conflitos. Já cansei de perguntar coisas para suecos e sempre que eles me responderam com um Nja, eu sabia que a resposta pro meu pedido era negativa.

Escrito por Maria às 08:00 AM | Mais: Cultura e comida | Comente! (15)

junho 16, 2004

Luxo pra mim é...

tulip01.gif... feijão da mamãe
... narizinho gelado das minhas cachorrinhas
... amor da família
... amor do meu urso
... email dos meus amigos
... um dia de verão na Suécia
... ter esperança
... não ficar doente
... poder comprar os livros que gosto
... peace of mind
... me sentir em casa
... conhecer gente incrível por intermédio do meu blog
... comer sem precisar me preocupar em engordar (esse sim, é o ultimate luxury)

O que é luxo pra você?

PS.: Com isso não quero dizer que sou a reencarnação da Madre Tereza não, ok? Adoraria ter um carro novo (um Volvo, se possível), uma casa etc etc etc. Contudo, minhas prioridades realmente mudaram - e muito.

Escrito por Maria às 11:17 AM | Mais: De bem com a vida | Comente! (30)

junho 15, 2004

Sonho CSI, dicas e futebol

Hoje sonhei que estava no cinema com o Grissom (protagonista do CSI Las Vegas, uma das minhas séries de TV favoritas). Estávamos, claro, investigando algo ilegal e fomos a um computador onde podia-se comprar entradas para outros filmes. Grissom se movimentava agilmente pelas telas do computador e eu estava de olho, pra ver se vinha alguém.

Claro que veio. Os seguranças nos cercaram e nós saimos correndo da sala e nos vimos numa sacada, de frente para a parte interior do shopping onde o cinema ficava. Abaixo de nós, uma "garganta" de escadas, níveis de lojas, muito concreto e vidro. Grissom, cabelos grisalhos encaracolados, diz: "Temos que pular". Eu, apavorada, concordo. Ele pula. Eu o vejo aterrissar com a bunda numa escada, vejo sua cara de dor. Ao seu lado vejo a mulher que pulou com ele. Cabelos negros, compridos. Saia. Ela deveria ser eu.

Mas eu não pulei, que não sou boba nem nada. Continuei lá de cima, olhando o pobre do Grissom e tal da mulher estatelados lá em baixo.

Essa é para todos vocês que me mandaram emails me perguntando se existia uma edição em inglês do livro da Elsie Franzén: a Anlene comentou lá em baixo e deu dicas quentíssimas. Veja só:

"A Julia Kristeva, em 1987, lançou um livro que se converteu em um clássico sobre este tema [imigração]: "Étrangers à nous-mêmes". Tzvetan Todorov também publicou em 1996 "L'homme dépaysé", livro super interessante que analisa seu processo pessoal de adaptação ao país que elegeu para viver (a França)."

Aí agora você está dizendo: "Mas eu não leio francês!" AHA! Então veja aqui o livro da Julia Kristeva em inglês, "Strangers to Ourselves"! E aqui o livro do Todorov em espanhol, "El Hombre Desplazado".

Ontem foi dia de futebol aqui em casa. Eu AMO futebol, apesar de nunca ter sido uma boa jogadora no colégio (só era passável quando cobrava lateral. Por ser boa jogadora de queimado, meus laterais sempre encontravam as cabeças dos meus amigos de time e às vezes fazíamos gols assim).

Estamos no começo da Copa Européia (UEFA), em Portugal, uma espécie de Copa do Mundo sem o Brasil e a Argentina. Os jogos têm sido meio chatos, a não ser pela vitória impressionante da França contra a Inglaterra, com o Beckham perdendo pênalti e o Zidane fazendo dois gols decisivos em 1 minuto. Ontem a Suécia deu uma lição na Búlgária: 5 a 0, sendo dois gols do maravilhoso Henke Larsson (foto acima). E, sim, você viu certo: ele é mulato. Suequíssimo e lindo. Adivinhou, né? Ninguém tem problemas em vê-lo como sueco, apesar de sua "aparência".

Como não preciso dividir meu coração entre Brasil e Suécia, eu torço livremente pelos loirinhos do azul e amarelo (blå gult, como eles se chamam aqui). Grito "Gooooooooooooooooolllllllllllllll" e Stefan, que não gosta de esportes, ri às gargalhadas da minha emoção. Ele fica nervoso com minha demonstração de energia, sai correndo, rindo, pra me abraçar... Pra me calar? Diz que vai comprar uma bandeira sueca pra eu sair pulando pelo gramado aqui em frente de casa. :c)

É engraçado, mas parece que invertemos os papéis... Isso ficou evidente ontem, na hora do jantar. Eu, deitada no sofá assistindo ao final do jogo Dinamarca versus Itália (zero a zero) enquanto Stefan fazia o jantar e cantava na cozinha. O menu: macarrãozinho cabelinho-de-anjo com molho a bolognesa. Uma delícia! No final, ele ainda lavou a louça! E eu ainda esticada no sofá... hohoho.

Escrito por Maria às 09:33 AM | Mais: Livros | Mais: Saudade e sonhos | Mais: Variedades | Comente! (20)

junho 12, 2004

Sem legendas

Menina, não é que o Pedro Dória veio aqui e gostou do que viu? Que surpresa boa! :c)

Escrito por Maria às 06:27 PM | Mais: De bem com a vida | Comente! (13)

Um lanche sueco

lanche1.jpg
Hårdbröd = "pão duro", literalmente. Mais sueco impossível. (eu adoro)

lanche2.jpg
Com um queijinho magro...

lanche3.jpg
Com o meu querido caviar mild (pra crianças) Delícia!

lanche4.jpg
Toque final: pepino. Uhmmm.

lanche5.jpg
Café com leite instantâneo.

Escrito por Maria às 01:46 PM | Mais: Vidinha | Comente! (20)

junho 11, 2004

Crises e reflexões

No livro "Att bryta upp och byta land", de Elsie Franzén, psicóloga e psicoterapeuta além de docente em pedagogia, há uma série de coisas interessantérrimas, sobre as quais eu poderia escrever uns quinhentos posts. Não faço isso porque tenho a impressão que estaria abusando do interesse de vocês... :c) Então aqui vai apenas alguns destaques. Dentre as coisas que a autora descreve, uma delas me chamou mais atenção: o processo de crise passado pelos imigrantes.

Elsie Franzén faz um paralelo entre o processo de crise que qualquer pessoa pode sentir mesmo sem nunca sair da sua cidade de nascimento e a crise vivida por quem deixa seu país e vira imigrante numa terra desconhecida. Diz lá no livro: "Uma pessoa pode estar num estado de crise psíquica quando ela se encontra numa situação de vida em que suas experiências e modos de reação antigos não são suficientes para que ela possa entender e dominar psicologicamente de forma satisfatória sua nova situação".

Ou seja, você não sabe como reagir ou traduzir ações e reações de pessoas, lugares, costumes estrangeiros. Você entra numa espécie de vácuo cultural e emocional. É claro que esse processo tem uma série de variáveis e depende, por exemplo, do momento e até do background da pessoa em questão, além do lugar onde ela se encontra, se é muito diferente do país de origem etc. Mesmo assim, Elsie Franzén afirma que não importa se você é um refugiado ou um imigrante que veio pro país novo de livre e espontânea vontade (como eu). Há sempre um choque, uma mudança.

Eu senti isso muito nitidamente. No início era tudo um barato, apesar das saudades da minha família. Com o passar do tempo, no entanto, a novidade foi arrefecendo e eu comecei a ver a realidade. Foi um choque verdadeiro. Achei muitas vezes que não seria forte o suficiente para enfrentar o fato de, por exemplo, ter tanto problema pra arranjar um simples emprego. A imagem que alguns suecos fazem de mim é a de uma imigrante, com tudo o que isso representa (gente estranha, que fala mal sueco, que não é exatamente honesta nem gosta de trabalhar e vive do dinheiro do social).

Isso bate de frente com a imagem que eu sempre tive de mim mesma: uma moça trabalhadora, até certo ponto inteligente, esforcada e honesta. Esse impasse, que ainda existe, é difícil de se resolver. A crise de identidade está criada. Não percebi quando deixei de ser um recurso e passei a ser um problema. O lance é que os imigrantes na Suécia hoje são vistos como um grupo homogêneo, não importando se são turcos, iugoslavos, iranianos, chilenos ou brasileiros. Ninguém é visto como um indivíduo, mas como uma massa de gente diferente - e, muitas vezes, indesejável.

Alguns momentos do livro:

setinha01.gif "O migrante não volta nunca mais, mesmo quando ele retorna ao seu país. A viagem [de imigração, de ida] irá modificá-lo pra sempre". (Elsie Franzén, página 54)

setinha01.gif "Largar tudo e mudar de país em idade adulta é para a grande maioria das pessoas um acontecimento central na vida". (E.F., p. 54)

setinha01.gif "Independente da causa da vinda para o país novo, os primeiros tempos são descritos como uma experiência positiva e excitante. (...) quase como uma lua de mel." (E.F., p. 57)

setinha01.gif "[Mais tarde], as pequenas dificuldades do dia-a-dia finalmente aparecem. (...) E é esse mal-estar que aos poucos vai se instalando na surdina que pode iniciar uma crise." (E.F., p. 58)

setinha01.gif "Costuma-se dizer que a crise tem como motivo uma perda traumática. No caso dos imigrantes, não é apenas uma perda, mas muitas perdas." (E.F., p. 58)

setinha01.gif "Possuímos psicologicamente os lugares onde nos sentimos em casa - uma cidade, uma floresta, uma praia. Essas propriedades emocionais não podem ser vendidas ou trocadas por outras." (E.F., p. 59)

setinha01.gif "O idioma é perdido. (...) Aqueles que querem participar da sociedade sueca precisam aprender a falar sueco." (E.F., p. 60)

setinha01.gif "Por fim, a pessoa perde com a imigração uma parte do que ela entendia como sua identidade". (E.F., p. 61)

Completando o post, queria dizer que o livro dá uma visão otimista dessa crise passada pelos imigrantes. Elsie Franzén explica que construímos nossas identidades com a ajuda da interação que estabelecemos com outras pessoas, entidades, grupos. Quando isso desaparece, parte da nossa identidade some. Ao mesmo tempo em que a falta dessa definição nos deixa alquebrados, ela nos permite um processo de renovação. E é nesse sentido que Franzén também analisa a palavra "crise".

Ela diz lá no livro que a palavra "crise" vem do grego "krisis" (não sei se em grego é com "k" ou com "c" - no livro, em sueco, está com "k". Então, aos puristas gregos, minhas desculpas antecipadas) e que quer dizer "decisivo". É por isso que dizemos que "alcançamos o momento crítico do jogo". A partir dali, as coisas mudam. Cabe a nós trabalhar pra que a mudança ocorra ao nosso favor, né não?

Escrito por Maria às 12:12 PM | Mais: Livros | Mais: Vida de imigrante | Comente! (30)

junho 10, 2004

Textos interrompidos

Hoje não dá
Inteligente, eu?
Não. Toda a vaidade é useless
porque o que eu era, já não sou mais.
Eu luto pra entender
pra que minha vida volte a fazer sentido.
Só isso.
Nos falamos depois, ok?
Tá, tchau.

Deveria ser proibido ventar no norte da Suécia.

My race began as the sea began,
with no nouns, and with no horizon,
with pebbles under my tongue,
with different fix on the stars.

I began with no memory,
I began with no future,
but I looked for that moment
when the mind was halved by a horizon
(Derek Walcott: "Names" (1 e 3 strof.) em Collected Poems, 1948-1984, New York)

"O Apanhador no campo de centeio" é a minha bíblia. Não me preocupo com o fato de ter me identificado com um dos romances título do sonho decadente americano. Leio Salinger em geral, e o Apanhador em particular, porque no livro fala-se de sentimentos humanos. E humano todo mundo é, até os americanos.

O Holden fala o livro todo sobre solidão, estar perdido, não ser bom o suficiente, ser rebelde, amar, não ser amado em retorno, revoltar-se, querer morrer, sorrir, se enternecer com o amor de um irmäo mais novo. Em resumo, a minha vida.

Li o "Apanhador" aos 13 anos pela primeira vez e não vi nada ali. Depois, quando as coisas começaram a ficar mais difícieis, lá pela puberdade, li novamente e parece que as coisas entraram no eixo. Foi como se eu entendesse uma língua estrangeira, o "Salingerismo".

Nunca mais fui a mesma depois dessa experiência.

Sobre a solidão (papo com a nanda). As pessoas riem de nervoso, nanda. Solidão é aflitivo. Ainda mais quando as pessoas não sabem que sentem-se tão sozinhas. Ter consciência disso é doloroso. Ganhar consciência disso em público, mesmo que em pensamento, faz com que elas precisem rir, dizer pra si mesmas: "Também não é assim... tão ruim"... (imagem acima: nanda)

Uma lágrima pelo Ray Charles. :c(

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Eu também, assim como a Letícia (cujos cachorros são um espetáculo), will read for food :c)

Escrito por Maria às 01:13 PM | Mais: Variedades | Comente! (15)

junho 09, 2004

Visão histórica

Acabei de ler o que precisava pra amanhã. Os livros são fantásticos. O primeiro é "Tusen år av invandring - en svensk kulturhistoria" ("Mil anos de imigração - uma história cultural sueca"), de Ingvar Svanberg e Mattias Tydén. O segundo, que eu até já citei aqui, chama-se "Att bryta upp och byta land" (mais ou menos "Ir embora e trocar de país" ou "Largar tudo e trocar de país"), de Elsie Franzén.

No livro "Mil anos de imigração", os autores descrevem de um ponto de vista histórico a construção da sociedade sueca com a presença constante dos imigrantes. É fascinante e dá vontade de andar com o livro debaixo do braço cada vez que for procurar emprego e receber um não baseado no fato de eu ser imigrante, falar sueco com sotaque, enfim ser "diferente". Vou fazer um resumo das melhores partes aqui.

Alguns exemplos de imigrantes que ajudaram a construir a sociedade sueca são: os huguenotes franceses que vieram pra cá no século XVII; a imigração em massa de finlandeses e de povos do Báltico durante a grande guerra nórdica (1700 a 1721); a chegada de alemães protestantes no meio do século XVIII; refugiados poloneses por volta de 1860; refugiados judeus-russos na virada do século; judeus, povos dos países nórdicos e do Báltico durante a Segunda Guerra Mundial; refugiados advindos da Hungria em 1956; da Tchecoslovaquia em 1968; do Chile nos anos 70; os refugiados vindos de barco no início dos anos 80; do Irã também vindos nos anos 80; e os refugiados da antiga Iugoslávia nos anos 90.

Mas o mais legal é saber que muitas das tradições "essencialmente suecas" são, na verdade, importadíssimas! A saber: "Somos o único país no mundo que tem uma festa para comemorar Lucia (veja foto ao lado), uma santa italiana, da Sicília. Essa comemoração [dia 13 de dezembro] acontece com glögg, um vinho de origem alemã, servido com condimentos vindos do Oriente islâmico. Servimos ainda um pão feito com açafrão, colhido nas montanhas Atlas [no Morrocos]." Impressionante, né?

Fico feliz em ler isso porque me dá uma perspectiva diferente da sociedade em que me encontro agora. Cresci sabendo da mistura de culturas que parecem conviver em harmonia no Brasil (apesar do racismo). Aqui, a coisa é diferente. Os suecos são orgulhosíssimos de sua cultura e eu sempre quis saber de onde essa cultura nasceu. Dos vikings? Nasceu da terra, como uma planta? Tinha que ter vindo de algum outro lugar. Agora eu sei. Pra não sobrecarregar vocês, deixo pra amanhã o resto desse post, onde escrevo sobre o segundo livro.

Pra entender a tradição de se comemorar Lucia na Suécia, clique aqui. (Texto em inglês)

Escrito por Maria às 01:42 PM | Mais: Livros | Comente! (16)

junho 08, 2004

Só pra avisar...

Estou sempre por aqui lendo os comentários (já respondi aos últimos). Recomecei a estudar (no curso de verão) e estou sem energia pra escrever. Assunto é o que não falta, mas, entendam, estou acabada. Até quinta preciso ler dois livros e mais três artigos de revista. Um dos livros eu acabei de ler hoje à tarde. Os assuntos: identidade, imigração, racismo, perspectiva psicológica de quem muda de país e cultura etc. Muito interessante.

Segunda foi a primeira aula do curso "A sala de aula multicultural". A maioria dos alunos é de quase-professores. Um homem (estudando para ser professor de educação física) e aproximadamente 20 mulheres. Imigrantes na turma: uma moça da Finlândia, uma chilena, Monica, e eu. Claro, eu e Monica já ficamos "amigas". Estou tão feliz de finalmente conhecer uma chilena aqui! Ela imigrou pra Estocolmo no meio dos anos 80 e tem mais ou menos a minha idade.

Não agüentei e voltei (até porque dei um tempo nos livros pra jantar e ver os noticiários dos canais 2 e 4). Não lembro se falei disso aqui, mas a Suécia tem uma colônia grande de chilenos, que vieram pra cá fugindo dos anos de ferro da ditadura Pinochet. Segundo o órgão oficial de estatísticas sueco, até o ano passado moravam no país 9.147 chilenos (sem contar seus filhos nascidos aqui). Em 1990, ano de pico da imigração chilena, moravam aqui 19.874 refugiados advindos desse país. (Brasileiros na Suécia em 2003: 1.591)

Escrito por Maria às 04:14 PM | Mais: Livros | Comente! (13)

junho 05, 2004

Dia Nacional

svensk01.jpgAmanhã, dia 6 de junho, é dia nacional da Suécia e dia da bandeira. O mais engraçado é que os suecos não comemoram esse dia que, inclusive, não é feriado nem nada. Agora alguns políticos querem transformar o dia 6 de junho em feriado, para ver se conseguem espalhar o orgulho nacional pelo país. Mas essa é uma questão controversa. Pra ter mais um feriado no ano, os políticos estão propondo acabar com um outro feriado em compensação. São poucos os que aceitam a solução.

A história do dia nacional sueco é engraçada. Até 1983 a Suécia não tinha um dia nacional. Escolheram o dia 6 de junho porque já era dia da bandeira e por duas coincidências históricas: foi nesse dia que o rei Gustav Vasa, um dos líderes mais importantes da história sueca, foi escolhido para o trono em 1523, e em 6 de junho de 1809 foi criado o governo sueco, que instituiu liberdade de religião, de imprensa e de expressão como direitos dos cidadãos.

Comemora-se Gustav Vasa porque foi ele quem preparou o terreno para uma época grandiosa na história desse país, chamada aqui de Stormaktstid, ou uma época em que a Suécia era uma grande potência mundial, e conquistou Noruega, Finlândia, partes da Europa continental, até a Polônia.

Fiquei curiosa do porquê dessa indiferença toda e perguntei a três suecos, pertencentes a três gerações diferentes, o que eles achavam disso. Jenny, minha amiga da universidade, 25 anos; Stefan, meu urso, 38 anos; e Anette, também minha amiga da universidade, 45+, me disseram a mesma coisa: não se comemora o 6 de junho aqui porque simplesmente não faz sentido.

svensk02.jpgAo contrário de toda a Europa continental e de todos os vizinhos escandinavos, a Suécia nunca participou de nenhuma guerra moderna e nunca precisou se defender de super-potências. A última guerra em que os suecos participaram ativamente aconteceu em 1809, quando eles perderam a Finlândia para a Rússia. Depois disso, a Suécia se manteve "neutra".

O que, aliás, não é fácil de engolir. Todos os três suecos que entrevistei para a criação desse post me fizeram sentir que existe uma certa vergonha em comemorar o dia 6 de junho. Isso porque até hoje há um mal estar por parte dos suecos por não terem participado mais ativamente da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, quando a ocupação alemã na Noruega foi sustentada por ferro comprado da Suécia. Além disso, soldados alemães de folga eram enviados pra casa em trens que cortavam o território sueco e voltavam à Noruega ocupada do mesmo jeito.

A ausência dessa data em que o país foi liberado ou ganhou sua independência, faz com que os suecos sejam blasés com relação às festividades do 6 de junho (apesar da festa organizada em Estocolmo. No resto do país, o entusiasmo é mínimo). O que é um contraste absurdo com a alegria finlandesa, norueguesa e dinamarquesa. O lance é tão sério para os noruegueses, por exemplo, que a apresentadora do jornal da TV4 sueca, Tone Bekkestad, que é norueguesa, fez sua previsão do tempo vestida com um traje tradicional norueguês, no último dia 17 de maio.

E esse mal estar dos suecos em geral em comemorar seu dia nacional é piorado pela comemoração ostensiva do dia pelos naz**tas, que saem às ruas com bandeiras em punho, fazem discursos inflamados etc. Os suecos em geral ficam putos da vida por não poderem içar sua bandeira porque eles temem ser confundidos com os neo-naz**tas. Agora, veja que coisa.

Escrito por Maria à s 05:13 PM | Mais: Cultura e comida | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (23)

junho 04, 2004

Tudo de bom

Preciso dizer que o dia está lindo e quente? Dormi como uma pedra!!!! Ai, que delícia. Estava realmente precisando. Plano pra hoje à noite: assistir nosso novo DVD: "Finding Nemo".

Pela primeira vez em quase dois anos, estou de férias. Não preciso ler texto algum ou fazer exercícios de gramática. E o melhor é que o sol está brilhando! Está 20 graus lá fora e eu estou feliz! UHU!

Planos para depois do almoco: ir ao supermercado, dar uma volta por aí, curtir a vida. Estamos precisando de arroz, papel higiênico, frutas (Stefan vive de pão e carne) e alguns vegetais, batata, pasta de dente, fio dental.

Li esse texto da Carla Rodrigues (no mínimo) a uns dias atrás. Adorei. Aqui, alguns trechos:

30.05.2004 | Desde o boom de Bridget Jones, passando pelo sucesso de TV e livraria de "Sex and the City", a "literatura de mulherzinha" produz páginas e páginas de personagens femininas solteiras. Todas emancipadas, financeiramente independentes e insatisfeitas. Todas, como Madalena, a protagonista de "Sei lá" (Record, R$30, 272 págs), que padece entre a solidão de sua casa e a estabilidade da família (infeliz) da amiga. Primeiro livro da portuguesa Margarida Rebelo Pinto, segundo lançado no Brasil, "Sei lá" traz uma história exaustivamente contada: Madalena está sozinha e indisponível a novos relacionamentos afetivos, conhece um homem, dois homens, percorre árduos caminhos e coleciona desencantos, mas chega lá.

A portuguesa Madalena é como a inglesa Bridget Jones e a novaiorquina Carrie Bradshaw: oscila entre a satisfação da vida independente e emancipada e a infelicidade da falta de um homem bom ao seu lado. Todas essas personagens, embora sejam emblemáticas na discussão de um novo tipo de conjugalidade, na solução do dilema não conseguem libertar as mulheres desse pêndulo que balança entre dois lugares insuficientes.

Ao final de cada livro ou série de TV sobre as dificuldades da mulher solteira - e são muitos - , o que sobra é a exata sensação de que, por mais que a sociedade e a cultura ofereçam liberdade de escolha, a vida íntima da mulher sozinha é pobre, não passa de um estado temporário até que se cumpra a "necessidade natural" dela se unir a um homem em casamento. Aqui, vale recorrer ao psicanalista Benilton Bezerra Jr., em artigo no qual demonstra que a sociedade contemporânea experimenta o que ele chama de ocaso da interioridade.

"Ideologia, identidade, aparência, padrão moral de conduta, tudo parece depender de decisão individual, já que as antigas referências à tradição, classe, família, cultura local etc. tiveram sua legitimidade questionada e seu poder normativo esvaziado. Essa 'liberdade de escolha', porém, precisa ser sustentada de algum modo por algum ambiente que possibilite um sentimento de confiança mínimo", afirma.

O que a solteira universal da literatura parece demonstrar é que esse ambiente a que Benilton se refere é o casamento, fora do qual não há segurança possível. Assim, por outro tipo de necessidade de confiança - não mais a financeira, mas a de não se arriscar na independência total - o casamento se reatualiza como necessidade, sem nunca ter passado pela experiência de ser apenas mais uma opção no cenário. Enquanto isso, o debate entre o que é natural e o que é cultural no comportamento dos gêneros já data de pelo menos 30 anos, mas a força da "naturalização" ainda é grande. A cultura em vigor insiste em mostrar que existe algo de defensivo e melancólico na mulher solteira.

(...)

Escapar desse pêndulo é, na prática, a única maneira de romper com padrões restritivos de conjugalidade. Os exemplos de novos arranjos são muitos, mas a maioria supõe algum tipo de organização familiar que reserva à mulher solteira o velho lugar de "tia". Ainda falta oferecer à solteira universal da literatura e da TV a hipótese de uma vida íntima rica e satisfatória, capaz de estancar o movimento de pêndulo, extraindo de si mesma esse ambiente de confiança mínimo tão escasso nos tempos que correm.

Escrito por Maria às 12:15 PM | Mais: De bem com a vida | Comente! (22)

junho 03, 2004

Ensuecada

Acho que tou virando sueca, de pouquinho em pouquinho...

verificacao01.jpgAgora que a temperatura chega a quase 20 graus, o sol brilha, eu me sinto tão bem, quase como que renascida das cinzas do inverno. Tudo é verde, "quentinho", as flores estão lindas e eu fico mais feliz apenas por isso. No Rio, a gente tem tempo bom quase o tempo todo e literalmente não dá o devido valor. Sei que repito muito esse tre-lê-lê do tempo por aqui, mas, acreditem, se vocês passassem um inverno no norte da Suécia, me dariam razão de estar exultante. E depois, falar do tempo é mais um costume sueco: quando tá frio, nego reclama. Quando tá "calor", nego reclama menos.

verificacao01.jpgRecebi cartinha do meu banco. Sobre renovação de "investimentos" (leia-se uma magra conta de poupança). O mais bonitinho é que eles começam a carta assim: "Tack för lånet!" [ták foer lôônet], o que quer dizer - PASMEM! - "Obrigada pelo empréstimo!" Isso é que é civilização. O resto é Bradesco.

verificacao01.jpgDesde que o pré-verão começou, sonho com nosso grill (churrasqueira portátil) que compraremos mês que vem. Nada me parece mais certo do que se deliciar com um churrasquinho gostoso. O único problema são as calorias extras... :c/

verificacao01.jpgDescobri a delícia de andar nas florestas daqui. Sabia que todas as crianças suecas começam a fazer essas caminhadas na escolinha? Por isso é que todo mundo sabe nome de planta, flor e passarinho. Sempre achei isso estranho - parecia que eu só encontrava gente interessada em natureza! - mas agora eu entendo.

verificacao01.jpgJá estou preparando minha listinha de livros policiais para o verão - tradição sueca. Já fazem parte da minha lista: "Da Vinci Code" (Dan Brown), "Den som fruktar vargen" (Karin Fossum), "Bleachers" (John Grisham), "Svek: Psykologisk Thriller" (Karin Alvtegen) e "Patient 67" (Dennis Lehane), entre outros.

verificacao01.jpgTerminei o primeiro semestre na faculdade e PASSEI EM TODAS AS PROVAS!!!!!

verificacao01.jpgViajei quatro horas no trem Umeå-Boden, hoje de manhã, com um neo-naz**ta, acompanhado de dois pit bulls. O cara estava usando uma camiseta com alguns símbolos naz**tas (que por razões óbvias me abstenho de reproduzir aqui). Tudo estava bem até quando meu urso resolveu me ligar no celular. Nervosa, tentava batucar nas teclinhas minúsculas do telefone um SMS pra ele que dizia mais ou menos assim: "Não me ligue! Escreva SMS! Não posso falar!". Pra quê. Stefan ficou curiosíssimo e toca a telefonar sem parar. Eu não queria falar no telefone pro cara não ouvir que eu tinha sotaque estrangeiro. Quando saí do trem aqui em Boden, ele me seguiu com o olhar e eu fiquei gelada.

Agora tenho uma razão pra não apagar minha página no Orkut. Acabei de retomar contato com o Flávio, amigo dos meus tempos de Colégio Santo Inácio. O Flávio era uma das pessoas que tornava possível meu dia-a-dia naquele lugar. Que legal te encontrar, Flávio. Agora eu tô feliz. Beijoca!

Escrito por Maria às 04:07 PM | Mais: Cultura e comida | Comente! (24)

Sem sono

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Escrito por Maria às 12:16 AM | Mais: Variedades | Comente! (12)

junho 02, 2004

Choque cultural

Uma das vantagens de estar estudando o processo de integração de imigrantes e refugiados é poder se reconhecer em muitos momentos. Abaixo, traduzi um trecho do livro "Språk, kultur och social identitet" ("Idioma, cultura e identidade social"), de Seija Wellros, que retrata exatamente como me senti muitas vezes aqui, em épocas diferentes. O cansaço crônico a que a autora faz referência, por exemplo, ainda existe, ainda que reduzido.

Choque cultural é a sensação de um caos cognitivo ameaçador e contínuo que acontece graças à falta por parte dos imigrantes de confiáveis instrumentos de tradução e pontos de referência fixos. Esse choque é vivido por todos os que se mudam, durante longo ou curto período de tempo, para um novo ambiente, e pode ter intensidades variadas. (...) Aquele que se muda para um novo país sente ao mesmo tempo o choque de se tornar "surdo-mudo", quando não entende o que se diz nem pode se fazer entender no idioma local.

Me lembro como era complicado pra mim, nos primeiros meses, fazer coisas simples como ir ao supermercado, por exemplo. Ficava em pânico cada vez que a caixa me perguntava alguma coisa e eu não entendia nada. Todo mundo fala inglês, claro, e eu também, mas ainda assim me sentia mal por não poder me comunicar como qualquer outra pessoa na fila atrás de mim, esperando para eu andar rápido.

O fato de poder me comunicar em inglês ajudava, claro, mas, pra mim, não adiantava muito. Me sentia humilhada quando morava aqui e não sabia falar a língua. (Vale comentar que sentia essa humilhação quando já entendia o idioma mas ainda não conseguia falar direito). Os suecos, por outro lado, adoravam poder praticar seu inglês (que é muito bom) com alguém e falavam pelos cotovelos. E eu, minha maior crítica, me sentindo mal, achando que eu não estava me esforçando o suficiente.

Não conseguir diferenciar padrões conhecidos e entender as causas para os atos de outras pessoas a sua volta cria uma insegurança muito grande e quase sempre um cansaço crônico. A cognição está a toda, mas a pessoa mesmo assim não encontra nenhuma conexão entre o que se observa e o que já se sabia sobre as pessoas e o mundo. Não existe lógica e não se entende o que acontece ao nosso redor e dentro de nós.

É por isso que existem muitas coisas que provocam surpresa, nervoso ou medo. Tem-se dificuldade em diferenciar o trivial do essencial, o inofensivo do perigoso. Não se pode julgar as intensões de outras pessoas, motivos e características e por isso acaba-se tendo uma imagem não muito real dessas pessoas. O único instrumento de tradução que se tem, seu próprio quadro de referência [trazido do seu país de origem], não é suficiente para recriar e sustentar uma sensação de totalidade e sentido no mundo a sua volta, uma sensação cognitiva de ordem.

Me lembro que meu primeiro ano na Suécia foi o ano em que mais tive dores de cabeça na minha vida. Era uma dor de cabeça pelo menos todas as semanas. Achei até que estava com um tumor no cérebro. Cheguei a um ponto em que precisava desligar tudo, TV, rádio, não estudar nem (tentar) ler mais revistas, jornais ou sites na Web, para que meu cérebro pudesse descansar. A sobrecarga é realmente verdadeira. Fico feliz de saber que esses sinais de cansaço são completamente normais e não eram maluquice da minha cabeça.

O que costuma causar uma inseguranca ainda maior é que a pessoa não tem como saber como ele será julgado, isso porque não se sabe como a "norma" é e o que quer dizer "normal" na nova cultura. Muitas vezes tem-se uma dolorosa consciência de que somos vistos como "estranhos", chatos, provocadores ou problemáticos, mas não sabemos em que ponto ultrapassamos o limite quando a traducäo comeca e a imagem negativa comeca a se formar na cabeca das pessoas.

Pode ser problemas com o idioma, pode ser alguma coisa no nosso comportamento. Sentimos que sempre falhamos em nossa comunicacão, tanto verbal como não-verbal, mas não podemos fazer nada a respeito disso. Quando queremos ser educados parecemos metidos e formais. Quando dizemos uma piada, ninguém ri. Quando dizemos alguma coisa séria, os outros riem. Quando tentamos mostrar nossos sentimentos parece que somos patéticos ou dramáticos demais. É doloroso não poder controlar o processo de percepcão, e destrói nossa auto-confianca.

Isso é nítido. No início, nunca sabia o que os suecos pensavam de mim, até porque eles não são exatamente um povo que diz o que pensa. Muitíssimo pelo contrário. Todo mundo queria ser agradável e eu não sabia os limites (e ainda não sei às vezes) até onde ir, até onde me julgar engraçada, amiga, ou apenas uma conhecida que deve ter uma postura mais formal.

Volta e meia ia ao trabalho do meu urso tomar café e os colegas de trabalho dele soltavam umas piadas meio sem pé nem cabeça. Eu não sabia se ria ou não, sinceramente. Não queria ser estraga prazer, mas também não queria dar a impressão de ser muito amiga, até porque fui instruída assim: colegas de trabalho suecos não são como colegas de trabalho brasileiros. Ninguém é íntimo de ninguém. Aí, depois, fiquei sabendo que eles me achavam interessada e divertida. Não quero nem saber o que pensavam aqueles que discordaram deles...

A autora desse livro imigrou da Finlândia para a Suécia há mais de 30 anos e se tornou professora de sueco para imigrantes e, mais tarde, psicóloga. Os livros dela (além desse aqui, já li mais dois, "Kulturmöten till vardags" - "Encontro de culturas no cotidiano" e "Ny i klassen: om invandrabarn i svenska skolan" - "Novo na turma: sobre criancas imigrantes na escola sueca") são sensacionais.

Escrito por Maria às 12:00 PM | Mais: Livros | Mais: Vida de imigrante | Comente! (18)

junho 01, 2004

Amor, floresta, Pride e dúvida

Valjevikens natur reservat, cortesia Marcia BrittoOntem foi um dia mágico. Primeiro porque meu urso veio me visitar de surpresa (era feriado e ele estava de folga) depois de ter passado o dia com a mãe, em Piteå, pelo dia das mães, que aqui é comemorado por agora. Segundo, o dia estava lindo. Quente, ensolarado, digno de quase-verão no norte sueco. Pegamos o carro e fomos ao centro pra comprar umas coisinhas no supermercado.

Quando chegamos em casa, resolvemos sair novamente, dessa vez a pé. Andamos por mais de duas horas nas pequenas florestas aqui da área, ouvindo os pássaros, olhando as pedras e os troncos cobertos de musgos. Como sempre, esperei ver por dentre as árvores alguns elfos, mas eles se escondem bem. :c) Me senti em paz, pela primeira vez em semanas. Mais uma vez pude constatar como faz bem estar com quem se ama.

Aqui, a vida continua. Chegou no correio de hoje a revista das paróquias de Umeå da Igreja Sueca. Leitura muito interessante. Na página 16, por exemplo, numa seção chamada "Mellan Himmel & Jord" ("Entre Céu & Terra"), lê-se a seguinte notícia:

Bíscopa no Pride Festivalen
Casamento e amor. Esses são os temas do Pride Festival este verão em Estocolmo. A bíscopa da cidade, Caroline Krook, fará um discurso na abertura do festival, dia 28 de julho. Esse ano, quando o direito de partnership de pares homossexuais faz 10 anos, o festival quer destacar o direito dos homossexuais em expressar seu amor por meio do casamento. Leia mais sobre o Pride Festival.

Pra quem não sabe, o Pride é um festival que celebra a cultura e os direitos dos homossexuais na Suécia. É muito popular, apesar de não ser tão grande como o realizado em Berlin, por exemplo. O único problema é que quase todos os anos há desentendimentos, brigas e até ataques aos participantes, por parte de gangues de neo-naz**tas e que tais. Uma vergonha.

Mas o mais legal dessa nota sobre o Pride Festival, no entanto, é a participação de uma das figuras mais importantes da Igreja Sueca, que é, aliás, uma mulher! Não me canso de achar isso o máximo (leia mais informações em inglês, aqui). Ainda na mesma seção da revista, duas dicas de leitura: um livro de culinária e "O Alquimista", do nosso Paulo Coelho.

O livro, em sua versão pocket book, sai como água: está em terceiro nas listas dos mais vendidos do país, depois de vender mais de 30 milhões de exemplares (cifra válida pro mundo todo, eu imagino - a Suécia inteira tem apenas 9 milhões de habitantes). No entanto, a responsável pela resenha, Erika Magnusson, tem uma dúvida: "É realmente tão simples assim? Apenas seguir seus sonhos? A responsabilidade sobre minha vida descansa apenas em minhas mãos?"

Boa pergunta, Erika. Boa pergunta.

(Foto acima: Valjevikens Naturreservat, cortesia Marcia Britto. Obrigada, queridoca!)

Escrito por Maria às 11:40 AM | Mais: De bem com a vida | Comente! (15)