outubro 31, 2004
Fim de outubro
Vou te contar uma coisa: patrulha é uma coisa chatíssima. Mas sabe o que não é chatíssimo? Chegar em casa depois de um fim de semana ótimo e ainda encontrar um presente dado com muito carinho. Tack Luciane! Jag älskade boken om Per och Emma. E sabe o que é realmente muito bom? Outubro acabou!!! *pisc* *pisc* *pisc* *pisc* :c)
outubro 29, 2004
Recadinho
Só pra vocês saberem que estou viva, mas de "férias". E imagina só onde vou amanhã? A uma feijoada amiga, no meio da tundra sueca. Ah... Nem me lembro mais do gosto de um feijãozinho preto temperadinho... :c) Segunda-feira volto ao batente. Hoje vimos "Harry Potter and the chamber of secrets" no DVD, e mais tarde veremos "Gangs of New York". Tava baratérrimo, não deu pra resistir. Agora é aquela velha história: viver a pão e água o resto de novembro.
outubro 27, 2004
Estatísticas
A Suécia está entre os países menos corrompidos do planeta, segundo uma lista compilada todos os anos pela ONG Transparency International. O primeiro lugar foi garantido (mais uma vez) por uma nação escandinava, a Finlândia. Numa escala que vai no máximo até 10 CPIs (Corruption Perception Index, Índice de Percepção de Corrupção), a Finlândia alcançou incríveis 9,7. Em segundo lugar, com 9,6, está a Nova Zelândia, seguida da Dinamarca (9,5), Singapura (9,3) e Suécia (9,2).
O Brasil ficou em 59 lugar, com um índice de 3.9 pontos CPI. Ficamos atrás de El Salvador (4.2) e Namíbia (4.1), por exemplo. Mas estamos também à frente de uma série de países, como Colômbia, Polônia, China e até nossos hermanos argentinos (102 lugar na lista, 2.5 pontos). O país escandinavo com a posição mais baixa é a Noruega (oitavo lugar geral, com 8,9 pontos). Bangladesh e Haiti são os lanterninhas, com 1,5 pontos. O CPI é criado a partir da avaliação feita por homens de negócio e experts nativos.
Preste atenção se você é como eu, louco por uma estatística. Meu urso me deu a dica de um site que é um deleite. Passei horas na página de facts do Nation Master, onde, entre outras coisas, descobri que:
Um em cada três australianos já foram vítimas de algum crime.
Nove em cada dez mulheres da Etiópia começam a trabalhar aos dez anos de idade. O tempo gasto na escola é, em média, menos de dois anos.
0,7% da população americana está atualmente na cadeia.
É professor? Então vá trabalhar na Suíça. O salário de professores em início de carreira por lá chega a $33 mil dólares (deve ser por mês).
A página sobre o Brasil é interessantérrima, e tem uma porção de estatísticas sobre os pontos altos e baixos do país no mercado mundial. Está lá que somos os melhores em exportar suco de laranja pros EUA, temos o maior número de dioceses católicas e de católicos em geral, além de estarmos na liderança do ranking da FIFA (futebol). A página da Suécia está aqui.
outubro 25, 2004
UPDATE, 18h: Gente! O

UPDATE, 18h: Gente! O Gilberto Gil ganhou o Polar Music Prize, um prêmio chiquérrimo de música, concedido pelo governo da Suécia pra músicos do mundo inteiro. Paul McCartney, Bob Dylan, Bruce Springsteen, BB King, Steve Wonder e Ray Charles, entre outros, já ganharam esse prêmio. Gil receberá o prêmio das mãos do rei Carlos Gustavo! :c)
A motivação do prêmio foi essa: Gil ganhou por seu "inabalável engajamento em divulgar a rica alma da música brasileira por todo o mundo. Gilberto Gil é um compositor único, dotado com um enorme talento e curiosidade, um embaixador musical único que se desenvolve com uma forte noção cultural." Gil irá dividir o prêmio com Dietrich Fischer-Dieskau, cantor de ópera alemão. O prêmio será oferecido no próximo dia 23 de maio (lindo dia!!!! aniversário do meu irmão!), em Estocolmo. Legal, né? :c) Parabéns, Gil!
Estou aqui chorando, depois de assistir a notícia do prêmio do Gil na televisão. Que emoção! *snif* *snif* *snif* *snif* :c)
outubro 23, 2004
Aconteceu
Estão sentados? Então senta que a notícia é uma bomba: o primeiro-ministro sueco Göran Persson reformou seu cabinete e pela primeira vez convidou um imigrante para assumir um posto no governo. Ibrahim Baylan (foto), 32 anos, político ativo aqui em Umeå, é o novo ministro da educação. Ele veio pra Suécia ainda menino de um pequeno povoado no Curdistão da Turquia. Morou anos em Estocolmo, no subúrbio de Botkyrka, e há 11 anos se mudou pra Umeå, onde se formou na minha universidade em ciências políticas.
Acho essa notícia fe-no-me-nal. Isso porque são os órgãos públicos - de vital importância na vida econômica sueca - que devem dar o exemplo e empregar pessoas de outras culturas. Começa-se a ver gente de nome, aparência e sotaque diferentes e de competência comprovada na vida pública, fica mais fácil pra população como um todo aceitar imigrantes de uma forma geral. Mais legal ainda é que ele não foi escolhido pra ser ministro da integração, mas sim de educação, uma pasta importantíssima para os suecos. Mostra que ele não está lá porque é imigrante, mas porque é competente.
Ontem na hora do almoço dei um pulo na universidade para devolver um livro na biblioteca. Encontrei uma colega de curso, Mehrnosh (nascida em Teerã, veio pequenininha pra Estocolmo, os olhos amendoados mais lindos que já vi e gente boa pra caramba). Ela ia estudar pra prova da semana que vem com um bando de outras colegas. Lá fui eu, claro. Sentamos na sala, as meninas a discutir uma coisa ou outra sobre leis, divisão de bens (sabe-se que uma questão da prova incluirá isso) e eu simplesmente não consegui acompanhar o raciocínio. Olhava pras meninas e não dava pra contar com meus abusados neurônios. Pedi desculpas, saí de lá e vim pra casa. Cansada.
Ande de eu ir, uma das moças disse que precisaria sair às 14h30 porque tinha combinado com uma outra amiga de ir fazer ginástica com ela. Eu pensei (já que concentração no exercício eu não tinha mesmo) que acho impressionante a necessidade de certas pessoas em estar sempre acompanhadas. Eu sou uma criatura gregária, gosto de gente, de amigos, de grupos de trabalho (quando todo mundo se dá bem e faz seu trabalho), mas chega uma hora em que simplesmente preciso ficar sozinha, vir pra casa, ler, pensar etc. É legal estar bem acompanhada, mas caso isso não seja possível, prefiro a solidão. Sinceramente.
Terminei de ler o livro do Sven Lindqvist. Interessante, mas o cara é meio obsessivo (o que não é problema, já que também posso ser assim às vezes). Uma coisa, no entanto, achei muito legal (já copiei pro meu caderninho). Ele escreveu assim: "Talvez exista um ódio no amor, porque aquele que ama fica exposto." É ou não é verdade? Quem ama é fortíssimo e fraquíssimo ao mesmo tempo. Estar tão desnuda (não apenas no sentido corporal, mas principalmente no emocional) pra uma pessoa é uma felicidade real... e assustadora.
Um caçador foi morto no fim de semana passado por um urso nas florestas perto de Jokkmokk, cidade no extremo norte sueco. Essa foi a primeira vez desde 1902 que um ser humano perde a vida num ataque de um urso, que geralmente evita o contato com humanos. Agora os caçadores querem ter permissão pra matar mais ursos por época de caça e os órgãos de proteção da fauna nativa defendem os animais, que são cerca de 2 mil em todo território nacional. (Preciso dizer que acho o fim da picada essa coisa de caça? Não, né?)
Muitos me perguntam porque eu ainda permito comentários aqui no Montanha mesmo depois de ter tido tantas chateações com gente maluca. Uma das razões é que gosto da conversa, da troca de idéias cordial que acontece por meio dos comentários. Sem eles, fica meio que um monólogo menos interessante. Mas essa é apenas uma razão. A outra é que sem comentários, estaria me privando de acordar de manhã depois de uma noite com pesadelos horríveis e ter meu dia salvo com um comentário assim:
"Olá. Olha, eu vim aqui por uma recomendação de um amigo, sabia??? E se como você foi citada??? mais ou menos algo do tipo "referência" de alguém que escreve com amor. Achei impressionante a maneira como você se expressa. Ele estava certo. Muito boa sorte!!! Cesar- direto de São Paulo, BrasilObrigada César e um agradecimento especial ao seu amigo. Saibam que vocês salvaram o meu dia e me deixaram muito feliz.
outubro 21, 2004
Quinta-feira
Tô indo fazer prova. Ó céus, ó céus, ó céus! Estudei, sei tudo, mas ainda assim. Ó céus, ó céus, ó céus! Vim aqui só pra reclamar que meu jornal hoje não foi entregue (deixa-se a reclamação no site do jornal...). Agora veja você, no dia em que eu poderia pagar pra dar uma lida nas notícias, tirar minha mente da prova, dar uma relaxada lendo sobre assassinatos, fome no Sudão, guerra no Iraque, eleição americana... Bom, é a vida. Já são quase sete e meia da manhã e nada de amanhecer! Ó céus, ó céus, ó céus! Beijos. Fui.
Update, 12h26: A prova consistia num "jogo de julgamento", no qual alunos foram divididos entre advogados de defesa (eu), acusação, juiz, vítima etc. Correu tudo bem, fizemos bem nossas partes. Dei uma bola dentrérrima, outra forérrima. O cara que eu defendia foi condenado, ou seja, eu "perdi". Bom é que todo mundo que evidentemente fez seu trabalho para que o julgamento funcionasse bem - seja "perdedor" ou "ganhador" - recebeu pontos. A coisa mais engraçada foi que nos outros jogos anteriores (meu grupo era o último de cinco) os advogados de acusação não conseguiram condenar o ladrão. A professora, depois de tudo acabado, disse que "finalmente tinha conseguido uma condenação", de forma que as cartas estavam meio que marcadas. Estou cansada, mas o curso ainda não acabou. Semana que vem tem mais. E dessa vez pra valer: prova escrita das 9 da matina às três da tarde, com a ajuda do livro de leis e olhe lá. Ó céus.
Update, 19h42: Estudo em grupo terminou agora. Maria R. e Elin, companheiras de curso e de grupo, estavam aqui em casa discutindo questões de provas antigas. Estou MOOOOOOOOOOORRRTA. Mas feliz. Dia produtivo é isso aí. Respondo aos emails amanhã, ok? Beijocas.
outubro 19, 2004
Nariz pra neve
Quando era criança, sempre me maravilhava com os adultos dizendo que "estava cheirando à chuva". Quase sempre eles estavam certos e, à tarde, quando fazia calor o dia inteiro, chovia muito. Ainda acho uma coisa fenomenal essa possibilidade de prever o tempo com a ajuda do nariz. Mais tarde, já mais crescidinha, compreendi o mecanismo sensual de se poder prever a chuva, a humidade, o cheiro de terra e do concreto molhados, grama cortada.
Agora me vejo novamente na frente de mais um desafio. As pessoas aqui dizem: "Vai nevar em breve. Posso sentir no ar". No que eu prontamente me coloco a perguntar como a pessoa sabe, como sente, etc. Ninguém sabe me explicar. No inverno é invariavelmente seco aqui no norte, mas parece que a neve cai mais quando a temperatura está mais amena (ou menos fria). Mas neva também quando está 20 graus negativos... Ainda não descobri o mecanismo que os nativos usam pra prever a chegada da neve, mas um dia eu chego lá. (Imagem: Escher.)

Felicíssima: hoje recomeça um dos programas que mais adoro na TV sueca, chamado "Din Släktsaga" (mais ou menos "História dos seus antepassados"). Já escrevi sobre ele no dia 23 de outubro de 2003. É um show obrigatório pra qualquer canceriano que se preze, mesmo os enrustidos, como eu. Uma das histórias de hoje é a de um homem que foi tentar a sorte nos EUA nos anos 20 deixando noiva grávida pra trás. Disse que voltaria em cinco anos. Trinta e um anos depois, ele coloca os pés novamente na Suécia. Noiva e filho, já um homem, o aceitam de volta. A outra história é a de um casal que também queria tentar a sorte na América no início do século. Juntaram dinheiro pra pagar a passagem de navio, até que um dia conseguiram comprar o tíquete. O nome da embarcação: Titanic.
outubro 17, 2004
Cenas de um casamento
Ingmar e IngridAcordei 8h30, mas estava com sono. Levantei às 9h porque não consegui mais dormir. Café+leite+torrada+queijo+geléia de morango light. Rádio. Fui ler jornal às 10h. Na primeira página apenas uma coisa: o lançamento do livro de Maria van Rosen, filha de Ingmar Bergman, o famoso diretor sueco. O livro é composto por textos dos diários de Ingmar, Maria e sua mãe, Ingrid, que morreu de câncer no estômago há dez anos. Partes do livro vieram publicadas no caderno de domingo do jornal.
Comecei a ler e me deixei levar pelo texto íntimo. Fala-se de coisas cotidianas, amor e morte. Muito tocante. Lá pelo meio, me emocionei muito com a tristeza dos três (e demais membros da família) pela morte iminente. O livro foi escrito com a permissão de Bergman, dos irmãos de Maria e de toda a família. Não há mágoas, amarguras ou brigas. Há apenas um momento na vida de três pessoas sensíveis. Em tempo: Maria van Rosen não sabia que era filha de Bergman. Ficou sabendo aos 22 anos. A mãe, Ingrid, se separou do primeiro marido para casar com o diretor. A união durou 24 anos.
Trecho: "Ingmar: Segunda-feira, 15 de maio. Ingrid está mais ou menos como ontem, só que mais acordada. Mais preocupada, "sobreviverei esses dias?" Ela é de repente distante, quase dura. "Não pergunte tanto." Ela recebe doses progressivas de morfina. Pensei que ela fosse vomitar. Fortes arrotos. Não, não acho que pude ver qualquer paz hoje. Pelo contrário. De repente e quase inaudível: "Eu te amo." Lhe dou água. Ela tem uma má vontade incompreensível contra as pastilhas para criação de saliva. Tudo é de repente distante e estranho. Mas a mão é ainda conhecida."
>>>Me toquei que a morte de uma pessoa amada não pertence apenas à pessoa, por mais pessoal que a morte possa ser. Mas ela pertence principalmente à família ou, pelo menos, aos entes queridos mais próximos (sejam amigos ou familiares). A morte de quem morre não é dela/dele. Quem morre, morre. Quem fica é que paga a "conta", que precisa lidar com o que a morte representa - e é uma dor/perda contínua, ano após ano. O que vale é não deixar que a morte tome muito espaço da vida. Move on, move on.<<<

Oráculo: Uma moça chegou ao Montanha digitando isso aqui no Google: "eu o amo moro no brasil e ele nos estados unidos ele é casado e eu sou solteria" (sic). Meu comentário: SAI DESSA, MENINA!!!!
outubro 15, 2004
Amenidades
Não sou muito boa pra falar amenidades. Quer dizer, eu até que me esforço, mas só às vezes consigo desenvolver um papo sobre nada que dure mais do que umas duas perguntas e outras tantas respostas. Aqui o assunto pra se falar quando se precisa lançar mão das conversas de circunstância é o tempo, quente, frio. Chuva, neve ou sol. Mas garanto uma coisa: fazer small talk em língua estrangeira é uma arte.
Outro dia ia encontrar com a professora e, como sempre, cheguei mais cedo. Na porta, esperava uma menina da minha turma (que tem mais de 90 pessoas) e com quem nunca tinha trocado mais do que um "oi". Na verdade, nem isso. Naturalmente ficamos imediatamente sem graça e começamos a falar sobre o tempo. Eu: "Agora está começando a ficar realmente muito frio, não é?". E ela, com cara de espanto: "Não, agora ainda é temperatura de outono. Acho até confortável."
A conversa superficial sueca - necessariamente sobre o tempo - depende muito do que se entende como frio ou quente. E aí que eu me perco. Outra coisa que é engraçada é que todas as pessoas que nunca me ouviram dizer uma palavra quando vêm falar comigo levam um susto. Sim, um susto. Elas não estão preparadas para o fato de eu não ser sueca. Acredite se quiser.
Já aconteceu muitas vezes. Uma na rua, quando uma senhora velhinha veio falar comigo sem perceber que eu era estrangeira. Quando viu (ou melhor, ouviu) que eu era, ficou sem graça e saiu de fininho. Outra vez na fila da cantina da faculdade, a moça na minha frente, envergonhada de estar tomando muito tempo, explicou seu atraso colocando a culpa na menina que ficava na caixa, que era imigrante. Ela disse: "Ela tem problema em falar sueco".
A última vez aconteceu no fim de semana passado, quando eu e meu urso saímos pra dar uma volta num parque lindíssimo que tem aqui perto de casa (esqueci de levar a câmera). Vimos algumas pessoas na beira de um laguinho jogando migalhas de pão pros patos (aqueles de pescoço verde que só vemos nos filmes da Disney). O cuidador do parque veio conversar conosco e contou, entre risadinhas cúmplices, que se espanta todas as vezes que vê um imigrante dar de comer pros patos. "Eles jogam quase que o pão inteiro no lago", riu.
Eu ri também. E fiquei calada.



High Society
Te mete! Eu cheguei lá! Hohoho.
outubro 13, 2004
Remédios
Sexta passada, numa reunião de grupo lá na biblioteca da universidade, uma das moças do meu grupo disse que estava com dor de cabeça. Eu também estava. No nosso break, comprei uma garrafinha d'água, abri o bolso da minha mochila e tomei um Dorflex (enviado via Air Mamãe). A moça perguntou o que era aquilo e eu disse que era um remédio brasileiro. Ela achou estranho e eu expliquei que os remédios suecos são tão fracos que não dão conta dos meus raros porém fortes achaques. Só pra se ter uma idéia, se você precisar de um remédio equivalente ao Dorflex, por exemplo, tem que ir ao médico, pagar 250 coroas, explicar o que sente e torcer para que ele te dê o remédio que você quer - o que nem sempre acontece.
Os suecos dizem que isso é bom porque os protegem da automedicação e de infecções violentas. Quando eles realmente precisam, os remédios mais fortes e decisivos funcionam. Acho isso muito bom, mas, ao mesmo tempo, fico doida com essa proibição total de substâncias controladas... que na verdade não são assim tão perigosas. E as farmácias também são um show a parte (e falo isso sem ironia, acho realmente impressionante). Chamam-se Apoteket (foto acima) e são um conglomerado estatal. Você vai buscar seu remédio na Apoteket da sua região ou onde o médico do posto de saúde perto da sua casa mandou a receita por computador, depois da consulta.
Não é qualquer zé mané que pode trabalhar numa Apoteket. Pra ser apotecário a pessoa precisa ir pra universidade e estudar cinco anos (eu, pra ser assistente social, preciso de "apenas" três anos e meio). O lance é que o apotecário é quem recebe a receita do meu remédio lá na Apoteket é responsável pela dosagem e por me explicar tudinho sobre o remédio. Outro dia li uma matéria no meu jornal sobre um apotecário que estava sendo processado por ter feito um remédio a base de morfina com a dosagem errada. A dosagem era 10% e o cara fez as pílulas com 100%. A sorte foi que a pessoa viu o erro e não ingeriu as cápsulas. Senão, teria morrido.
A primeira vez que precisei de um remédio com receita fiquei uns dez minutos sentada na frente da apotecária, que me explicou tu-di-nho sobre o remédio, os possíveis efeitos colaterais, quando deveria tomar as pílulas etc. Fiquei muito espantada e realmente pensei que ela estava achando que eu era burra (esse complexo de imigrante me cansa às vezes). Em minha defesa, digo que isso aconteceu quando eu ainda dava meus primeiros passos em sueco, há uns três anos. Hoje sei que ela estava apenas fazendo o seu trabalho. Mas é sempre um choque esse novo sistema pra quem tá acostumado a ir numa drogaria povão ali da esquina e comprar qualquer coisa sem pensar duas vezes.
outubro 11, 2004
Afeganistão

Terminei de ler "The Kite Runner". Adorei. É a história de Amir e Hassan, dois amigos inseparáveis que cresceram nos anos 70 em um Afeganistão ainda não brutalizado pela invasão russa do início dos anos 80, ou pela tomada do poder pelos duríssimos Talibãs e depois pela invasão americana após o ataque terrorista. O autor, Khaled Hosseini, fugiu com sua família para os EUA em 1980, onde conseguiu asilo e se formou como médico. Foi interessante ler o livro exatamente agora, quando as primeiras eleições "livres" da história do Afeganistão aconteceram.
O que fica claro no livro - e também das imagens da TV sobre as eleições - é que a sociedade de classes é uma praga pior do que qualquer Talibã barbudo. As divisões entre muçulmanos shias e sunni, além das diferenciações entre Pashtun e Hazara - os primeiros mais "nobres", os últimos uma casta de pessoas com "menor valor" - me faz lembrar da relação de valores entre negros e brancos, europeus e imigrantes, primeiro e terceiro mundos. Foi bom entender um pouco mais sobre o Afeganistão, mesmo que por meio de uma obra de ficção.
outubro 09, 2004
100.000
Não costumo escrever sobre isso, mas agora é importante: o Montanha está perto de chegar acabou de chegar à marca das 100 mil visitas. Fico tão feliz de ser visitada por quem aprecia o que escrevo aqui, que deixa comentários (ou não). Acho isso incrível. Obrigada a todos. Ao visitante de número 100 mil prometo uma caixa de biscoitos suecos. :c)
Update => A vencedora foi a Dani. Querida, obrigada pela visita, pelo comentário e por ser você. Já te mandei um email (pro hotmail). Beijocas!



No jornal de hoje, muitas sobrancelhas suecas levantadas quando a queniana Wangari Maathai, ganhadora do Nobel da paz, disse que o vírus da AIDS foi criado em laboratório e usado como arma biológica. Ainda na matéria sobre Maathai, um comentário engraçado do ex-marido: "Ela é inteligente demais, forte demais, bem-sucedida demais, teimosa demais e difícil de ser controlada". Eles se separaram nos anos 80 por iniciativa dele. No wonder. Hohoho.
Fico cada vez mais interessada sobre Elfriede Jelinek (Nobel de literatura). Ela disse que não vem à cerimônia de recebimento, em 10 de dezembro desse ano. Horace Engdahl, secretário da academia sueca, disse que vai tentar convencê-la a vir. Jelinek, no entanto, diz que não pode vir por sofrer de fobia social. Ela diz que tem um desequilíbrio psíquico e que simplesmente não consegue fazer um discurso na frente de tantas pessoas. Que coisa.



Meu jornal começou a publicar aos sábados anúncios de mortes acontecidas no exterior. Hoje foi a vez de Janet Leigh (atriz de Hollywood), Nigel Nicolson (escritor inglês) e Renato Cleonício dos Santos Silva, 28 anos, jogador de futebol do Zürich, na Suíça, que foi morto com um tiro quando andava de carro em uma favela carioca. ... ...
outubro 07, 2004
Nobel
Quando os premiados pelo Nobel são anunciados nessa época do ano o rádio tá sempre lá cobrindo a parada (claro, sempre mais rápido do que a TV). É fascinante escutar a transmissão com os secretários do comitê de medicina ou de física da Fundação Nobel explicando o que/quem ganhou esse ano. O prêmio de física de 2004, por exemplo, foi pra David J. Gross, H. David Politzer och Frank Wilczeck, três americanos que descobriram a força dos quarks, a menor parte da matéria, em 1973.
Mais legal ainda é quando a redação consegue contactar um dos ganhadores, que ainda estava dormindo lá do outro lado do Atlântico. Quando a repórter perguntou a Frank Wilczeck, do M.I.T. em Boston, onde ele estava na hora do telefonema do comitê, ele respondeu: "Tomando banho". Acho muito bacana. Nunca gostei de física, aliás, "nunca gostei" é uma expressão fraca. Sempre odiei física e nunca entendi o por quê de precisar aprender em quantos metros por segundo um carro percorre a distância do ponto A ao ponto B. Mas fui me arrastando pelos anos, assim como o fiz com matemática e química.
Nunca tive sorte com meus professores nessas três matérias, apesar de ter tido muita sorte do meu pai ter podido pagar um bom colégio pra mim. Serei sempre grata a ele. Mesmo assim, os professores nunca conseguiram me inspirar pra gostar de átomos, substâncias ou equações. Gostaria de ter tido oportunidade de me sentir tão inspirada por uma idéia científica quanto por um texto bem escrito ou uma poesia. Queria entender e gostar de exatas, da poesia da matemática - a única verdadeira linguagem universal. Mas nunca consegui. Quem sabe numa próxima vida?



Hoje foi anunciado o Nobel de Literatura. A ganhadora (sim! é uma mulher!!!!) chama-se Elfriede Jelinek e é austríaca. Nunca ouvi falar (mais uma vez o comitê do Nobel surpreende com suas escolhas obscuras) mas é até bom. Acho bacana e estimulante conhecer autores novos que nunca teria ouvido falar se não fosse esse prêmio. Tem mais informações sobre Elfriede Jelinek aqui.



Update - 8/10 às 11h => O prêmio Nobel da Paz acabou de ser anunciado e foi para uma mulher africana (VIVA!!!), a queniana Wangari Maathai, que luta há anos pelo meio-ambiente em seu país e atualmente ocupa o posto de vice-ministra do meio-ambiente. Que legal!!!!! Leia aqui o press release sobre o prêmio oferecido pelo comitê norueguês do Nobel.
outubro 05, 2004
Foras, gafes e afins

A última vez que fui ao cinema foi no início de setembro, já aqui em Umeå. Não me lembro o que assistimos. Na bilheteria, sentava um rapaz bonitinho, loiro com um rosto interessante. Antes de pagarmos pelos ingressos ele nos perguntou se queríamos pagar um pouco a mais e ter direito a um cartão de desconto para três futuras visitas aos cinemas da mesma cadeia (SF). Eu, me adiantando ao meu urso, disse pro rapazinho com cara interessante: "Não, não... eu não vou ao cinema sozinha aqui, não. É muito escuro!" (Det är så mörkt!).
As reações do rapazinho e do meu urso foram idênticas: ambos cairam na gargalhada. E eu, claro, fiquei com cara de tacho sem entender bolhufas (humor de um povo é uma linguagem mais complicada do que a língua falada). Mais tarde, perguntei ao meu urso o porquê daquele auê com a minha explicação e ele disse que ambos haviam entendido que eu me referira à escuridão da sala de cinema, e não à escuridão do lado de fora, do inverno, de como eu não queria pegar ônibus sozinha à noite (breu breu breu, apesar da neve no chão) pra ver um filme sozinha etc. Eles estão acostumados com as mudanças do clima, eu ainda não.
Mais uma pro meu livrinho de foras... que cresce todos os dias. No verão encontrei no mercado perto da minha casa em Boden uma moça que veio sorridente falar comigo em frente à banca de tomates. Eu lembrava do rosto dela, mas nem por um decreto do nome nem do lugar de onde a conhecia. Aí perguntei: "O que é que você está fazendo agora?", em busca de uma pista. Ela disse que continuava no curso tal e que pretendia estudar para ser veterinária. Aí lembrei dela. Mas não do nome.
Nessa hora, meu urso chega com o pão e eu sou obrigada a apresentar os dois. Aí, eu digo do alto do meu corretíssimo sueco: "Jag glömte ditt hår", no que ela prontamente arregala os olhos e fica tão surpresa que nem consegue responder e/ou rir de mim. Também, pudera. Ao invés de dizer que havia esquecido o nome (namn) dela, disse que havia esquecido o cabelo (hår) dela. Ainda não sei de onde eu tirei isso, mas de uma coisa é certa. Ela nunca mais cometerá a tolice de me pegar desprevenida no meio dos tomates assim, sem mais nem menos. :c)

Mas o pior foi quando resolvi fazer um pão com receita em sueco há uns dois anos, quando meu sueco ainda era bem básico. Estressada, li na receita que teria de sovar a massa num ambiente dagfri (literalmente, sem dia/luz). Baixei todas as persianas da casa e deixei a cozinha numa escuridão completa, nem luz elétrica eu acendi. Aí veio meu urso, cenho franzido, perguntando o que é que eu estava fazendo na cozinha com tudo escuro. Expliquei que a massa precisava ser batida sem luz e ele foi ler a receita. Quando terminou, teve que se sentar no chão de tanto rir. Onde eu tinha lido dagfri estava escrito na realidade dragfri, que quer dizer num ambiente sem correntes de ar. Hohohoho. Virou anedota de família. Hohohoho.
outubro 03, 2004
Um sábado
Da esq. pra dir.: Ann (de lado), Mia (olhando pra câmera), Jenny (de óculos) e JensEstou aqui, no apartamento escuro e silencioso escrevendo no computador. Terminei um trabalho para ser entregue na quarta-feira (dei apenas uns retoques finais pois já o tinha feito na semana passada), renovei meus empréstimos na biblioteca e, entre dois bocejos, bebi um copo d'água. Ontem o dia foi ótimo e movimentadíssimo. A saber:
Acordei às sete. Banho, café, jornal e rua. No ponto do ônibus, um senhor com Sínd. de Down esperava sentado no banquinho. Começamos a conversar (ele puxou conversa) e falamos do meu casaco (fleece comum, azul marinho) que ele achou bonito; sobre fumar (eu não fumo e ele fumava cachimbo). Contei então que meu pai fumou cachimbo quando eu era criança e usou um tabaco com gosto/cheiro de cereja (körsbär). Desci no centro de Umeå (Vasaplan) e fui receber meu colete/casaco amarelo ovo das organizadoras do BRIS, para quem trabalhei a manhã inteira recolhendo donações em um edifício-garagem. Não custava nada pra se estacionar o carro, mas em compensação as pessoas eram estimuladas a doarem o preço da tarifa à instituição. Juntei um dinheirão. Muitos colocavam algumas moedinhas de uma coroa, outros notas de 100 coroas.
Com as pernas e pés ardendo, vim pra casa ao meio-dia e meio. Comi pão com queijo e caviar e comecei a preparar a cozinha para o jantar. Quatro amigos viriam comer aqui em casa e resolvi fazer a galinha antes e deixar o arroz pré-preparado. Claro que fiz tudo com muuuuuuuuita antecedência, mas deu certo. Ganhei plantinha, vinho e livro. Fiquei muito feliz. O menu foi wok de galinha com vegetais mais arroz branco, molho de curry e, de sobremesa, pudim de leite com essência de baunilha Dr. Oetker, diretamente do Rio de Janeiro (via Air Mamãe). Nada sofisticado, eu sei. Mas é o que consegui realizar (em termos financeiros e de talento). Tomamos vinho branco e tinto, além de água, pepsi light e, no final, junto com o café, Baileys.
Caos puro na cozinha. Mas resolvi lavar tudo ontem mesmo (a lavadoura automática daqui não funciona). Hoje de manhã me deu uma sensação de alívio e gratidão a mim mesma por ter lavado tudo ontem. :c) Agora estou aqui, no apartamento ainda escuro e silencioso, feliz com as coisas da vida, os amigos (que finalmente chegaram), a comida que estava "comível", o pudim apreciado, as anedotas dos meus primeiros tempos de Suécia com as quais todo mundo riu.
É, a vida é boa sim.
outubro 01, 2004
A semana que passou
Setembro acabou, graças. Semana corrida. Muitas aulas, muitos seminários, muitas reuniões de grupo. Mas tudo muito bom. E o sol ajuda muitíssimo. Todos os dias saio de casa e dou de cara com árvores lindas, das cores mais lindas do outono. Claro, sempre esqueço de trazer minha câmera. Mas também, se parasse pra tirar foto de cada canto gastaria o dobro do tempo pra ir de um ponto a outro de Umeå.
Aconteceu aqui: Christer Petersson, o único homem jamais julgado (e absolvido) pelo assassinato do primeiro-ministro sueco Olaf Palme em 1986, morreu na quarta-feira. O crime nunca foi esclarecido mas tudo indica que Petersson, que era viciado em drogas e álcool, foi contratado como hitman para matar Palme. Agora faltam apenas sete anos para o crime prescrever e as esperanças de conclusão são poucas. Olaf Palme é o Kennedy sueco.
Vi as cenas (não o filme, mas as fotos em seqüência) do arrastão na praia do Leblon (Zona Sul do Rio) que aconteceu também na quarta passada. Fiquei triste e revoltada. E com medo. Ainda bem que não preciso mais me preocupar com isso. O único problema é que minha família ainda mora lá e, sim, eu me preocupo por eles todos os dias. A notícia chegou à primeira página da versão online do Aftonbladet (tablóide mais lido daqui), mas graças a Deus ninguém que eu conheço veio comentar o acontecido. Sinceramente? Não saberia o que dizer.
Acabei de ler o livro da Helene Hanff e já estou com saudades.

Hoje estou TÃO feliz!
Lara-ri lá lá
