março 25, 2005
Pausa
Estou de férias. Logo logo voltaremos à programação normal. Obrigada pelos cartões e boa páscoa a todos. Beijo, desligo.
março 21, 2005
Consolo

Quando eu era criança minha avó Celia me levava sempre à praia à tarde, depois que o pior do calor tinha passado. Ela sentava num banco no calçadão e eu ia brincar na areia. Essa é uma das memórias mais felizes da minha infância. Eu fazia castelos de areia com areia molhada, cavava buracos, molhava os pés no mar, dava estrelas na areia e trabalhava como gandula pros jogos de vôlei de marmanjos e moçoilas.
Além disso, me lembro que uma das coisas que mais adorava fazer era quebrar as "pedras" de areia espalhadas pela parte mais quente da praia, geralmente longe do mar e perto do calçadão. Na verdade não eram pedras, mas pequenos e macios ajuntamentos de areia em forma de pedra. Me lembro que quando as esfarelava, podia sentir o calor da areia da parte interna do ajuntamento.
A neve também forma as mesmas "pedras" macias, com neve esfarelenta e meio molhada. Só que agora ao invés de esfarelar com a mão ou com a sola do pé, o faço com a minha botina super reforçada. O efeito é o mesmo e a sensação quase a mesma. Me serve de consolo. E eu, marmanjona de 33 anos, saio por aí, pisando e esfarelando pedrinhas de neve pelas ruas de Umeå. :c)
março 20, 2005
Honra
Passei o dia de ontem num workshop promovido pelo BRIS, onde trabalho como voluntária. O tema do workshop era violência baseada em código de honra, o chamado Hedersrelateradvåld, que aqui na Suécia acontece geralmente em famílias de origem Kurda (partes da Turquia, do Iraque, do Irã etc). A palestrante, Hanna Cinthio, é sueca e inteligentérrrrrrrima. Ela é expert no Oriente Médio, fala árabe fluentemente, tem vários exames universitários ligados à região e anos de experiência local. Ela morou na Jordânia e nos territórios palestinos por muitos anos e é até casada com um palestino.
Uma das coisas mais interessantes que Hanna explicou é a estrutura da sociedade árabe, essencialmente coletivista, cuja menor unidade social é a família. Em sociedades individualistas, como a sueca, a menor unidade social é o indivíduo, a família não tem tanta importância. Até porque, o sistema de well faire daqui garante ao inidivíduo a possibilidade de não depender de nenhum familiar para sobreviver, o que não acontece em países da cultura árabe e do terceiro mundo. O estado é também menos importante; os problemas são resolvidos entre as famílias, onde o código de honra é importantíssimo.
E aquela história de que a cultura árabe (e dos países de terceiro mundo) seria inferior por ser baseada num sistema patriarcal? Hanna botou todo mundo pra pensar quando perguntou: "Onde no mundo inteiro há um sistema de governo ou politico-social que não seja patriarcal?" E, de fato, é a mais pura (e amarga) verdade. Seja rico ou pobre, burro ou inteligente, se tem uma coisa que une todos os povos da face da terra é que o poder é exercido por homens que estabelecem leis e criam sistemas baseados em suas próprias normas. O resto precisa se adaptar para poder sobreviver (foi interessante ver as caras dos suecos, que se acham o suprasumo da "igualdade", nessa hora).
Mais legal ainda foi quando Hanna disse que o código de honra se fortaleceu quando os nômades começaram a possuir terras. De repente, passou a ser de suma importância estabelecer quem é pai de quem e quem vai se casar com quem. Foi nessa época que a sexualidade feminina começou a ser limitada e vigiada. O casamento, aliás, foi e ainda é um acontecimento eminentemente pragmático. E aí a gente pensa: "Nossa, mas esses árabes são uns bárbaros!" Bom, se olharmos pra história européia (e brasileira por conseqüência) veremos comportamentos muito semelhantes, casamentos arranjados para garantir a sobrevivência de fazendas e de negócios.
Outro dia estava lendo jornal e vi uma coisa que me fez pensar. Os jornais suecos têm uma seção de "Família" que é lidíssima (paradoxal, não é?) onde, entre outras coisas, comemora-se aniversários (geralmente números redondos, 30, 40, 50...) com uma pequena matéria sobre o aniversariante. Ao lado, há sempre uma tabela informativa, com nome, idade e coisas variadas como livros, hobbies etc. Uma dessas perguntas é "Família". Um rapaz que estava comemorando seus 30 anos, respondeu assim: "Minha namorada, fulana". Aí eu pensei: puxa vida, e a mãe e o pai do cara? E os avós? E os irmãos?
Meu urso riu das minhas perguntas e disse que ele iria responder assim:
Nome: Stefan
Família: Sim
E eu: "Poxa, mas nem a mim você ia citar????" :c)
março 17, 2005
Neve, cromossomos e o resto
Neva sem parar há dois dias. De primavera, nem um cheiro. Mas, apesar de ainda estar tudo muito frio e muito branco, devo dizer que adoro acordar de manhã, abrir a persiana e ver a neve cair. É meio mágico (mesmo depois de quase quatro anos de centímetros e mais centímetros de neve).
E da série gastaram-milhões-em-pesquisa-pra-descobrir-o-óbvio: Cientistas decifram cromossomo que explica diferença entre sexos e estabelecem que as mulheres são mais complicadas do que os homens (Dããããããã).
"O cromossomo X é definitivamente o mais extraordinário no genoma humano em termos de seus padrões hereditários, de sua biologia única e da sua associação com doenças humanas", disse Mark Ross, do Instituto Wellcome Trust Sanger, da Grã-Bretanha, que liderou o consórcio. Os cromossomos, que são encontrados no núcleo de cada célula, contêm os genes que determinam as características de um indivíduo. As mulheres têm dois cromossomos X, enquanto os homens têm um X e um Y.A pesquisa, divulgada pela revista "Nature", mostra que o Y é uma versão "desgastada" do cromossomo X, com apenas alguns genes. O cromossomo X também é maior que o Y e, pelo fato de as mulheres possuírem dois deles, um dos X é, em grande parte, inativo. O grau de inatividade do segundo cromossomo X varia muito de mulher para mulher." (Reuters, copiado do Globon e da Alê)
Hahaha, ok, piadinha óbvia, mas pô, a gente merece: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino, é a versão "desgastada" do cromossomo X, que determina o sexo feminino. Hahahahahahahaha. E mais: imagina ativar esse cromossomo X adormecido? Nossa, não ia sobrar pra ninguém.
Conversa com uma conhecida:
Ela: E aí, continuas firme e forte?
Eu: Tô mais pra mole e fraca, mas eu continuo.
março 16, 2005
Trabalho e lazer
Estou exausta. Minha camarada de curso Elin acabou de sair aqui de casa depois de mais de quatro horas de trabalho, durante os quais consumimos litros de café e devoramos meio bolinho pão-de-ló (que era pequenininho mesmo). Estamos trabalhando juntas nesse curso de qualidade e avaliação e escrevendo a prova final, que é um plano para se fazer uma avaliação (utvärdering ou utredning). Não faremos a avaliação, mas temos que planejar tudo, desde escolher o objeto de nossa pesquisa (escolhemos uma clínica de tratamento de crianças com deficiência de atenção) até escrever um plano de entrevistas, enquetes, perguntas, objetivos etc etc etc. Haja paciência, mas é interessante.
Terminei ontem de ler "Blonde" de Joyce Carol Oates. Gostei mas achei o livro longo demais (quase 900 páginas), ainda mais sendo a autora tão intensa o tempo todo. Coincidentemente assisti ontem a uma entrevista com a escritora americana na TV e confirmei o que já suspeitava: ela só escreve sobre mulheres que tenham sido vítimas de injustiças variadas. O último livro dela a ser lançado aqui, "Rape: a lovestory", que é ficção, trata exatamente da problemática da violência sexual, com a culpa sendo colocada na vítima (que usou saia muito curta, que bebeu demais, que tem uma vida sexual ativa demais etc) e não no vilão. Oates diz até que a mulher que tem coragem de dar queixa da violência que sofreu é vítima de um segundo estupro, realizado pelo establishment que simplesmente se nega a acreditar na versão dela.
E agora, só pra aliviar, comecei a ler o "How To Lose Friends And Alienate People", do inglês Toby Young. Ele foi repórter da Vanity Fair em Nova York e conta no livro seus dias de glamour e decadência na capital do mundo. Ainda estou no início e ele já está quase entrando de penetra numa efterparty da entrega do Oscar. Uma leitura dessas é engraçada porque mostra o lado podre dos nossos "ídolos" (Tom Cruise é um babaca mesmo, né?) e nos faz rir. (Imagino que esteja precisando ler alguma coisa inspiracional depois desse show de cinismo inglês, mas sabe do que mais? Não tô a fim. Comecei a ler um livro sobre boas energias - supostamente coisa séria - e simplesmente não consegui passar da primeira página. Achei tudo uma babaquice sem fim).
março 15, 2005
março 14, 2005
Avaliações, avaliações, avaliações
E hoje começamos mais um curso: "Qualidade e Avaliação" (Kvalitet och Utvärdering), que durará duas semanas. Isso, mesmo, você leu certo, apenas duas semanas. Mas isso não impede que os professores aloprados viagem na maionese sueca. É incrível, mas está lá na lista de literatura que teremos de descolar cinco livros obrigatórios (dos quais já tenho três; um emprestado da biblioteca e outros dois copiados) e mais cinco livros auxiliares (que eu nem olhei que é pra não morrer de cansaço). É uma graça ou não é? Duas semanas, dez livros. Moleza. Melzinho na chupeta. Mamão com açúcar.
Começamos hoje com uma palestra infinitamente chata sobre qualidade nas avaliações feitas nas repartições públicas daqui. Essa coisa de utvärdering (mais conhecido como utredning), avaliação, é a expressão da alma burocrática sueca. TUDO se resolve por intermédio de uma avaliação. O serviço social não está satisfatório? Faz-se uma avaliação. O professor não atuou e o aluno deprimiu? Faz-se uma avaliação. Três presos fugiram da cadeia? Faz-se uma avaliação. O governo não atuou rápido o suficiente para acudir as vítimas da Tsunami na Ásia? Faz-se uma avaliação. E assim vai.
Em todas as empresas, sejam públicas ou privadas, faz-se avaliações para resolver todo e qualquer problema. Uma carta supostamente escrita por um empregado da Volvo andou circulando pela Internet, onde ele explicava como é o processo de decisão numa empresa sueca. Não posso dizer que o conteúdo da carta é verdadeiro, mas parece ser. É aquilo lá mesmo: reunião depois de reunião, muito café com bolinhos de canela nos intervalos, e mais blá-blá-blá. As decisões são tomadas depois de rodadas e mais rodadas de reuniões, planejamento, café e bolinhos.
março 13, 2005
Day out
Ontem passei o dia en Skellefteå (diz-se Schléfteô), duas horas ao norte de Umeå, com minha amiga Maria. Passeamos no centro, entramos em (quase) todas as lojas, compramos pouquíssimo (eu consegui não comprar nada), tomamos café com sanduíches e nos divertimos muito. O dia estava lindo, mas gelado: dez negativos com muito vento. Já viu, né? Mais tarde, jantamos na casa dos pais do marido da Maria, numa cidadezinha mínima, no meio do nada, chamada Ånäset (Ôônéset). O menu foi carré feito no forno, servido com doce de maçã, e batatas cozidas. Incrível: comi e gostei. Tô virando sueca.
Já em casa, liguei a TV pra ver a final do Melodifestivalen e me decepcionei. Caroline* não ganhou (apesar dos nossos votos, meu e do meu urso) e nem Nanne Grönwall, que era minha favorita. O vencedor foi um rapaz bonitinho chamado Martin Stenmark, que cantou uma música ridícula chamada "Las Vegas". Perdi a vontade de assistir à final do Eurovision, dia 21 de maio, quando Stenmark cantará pela Suécia junto com os representantes de quase todos os países europeus. É, acho que estou definitivamente "ensuecando", porque começo a levar essa coisa de Melodifestivalen muito a sério...
* Para compreender, leia o post "Sambinha à la Suède".
março 10, 2005
Sonho
Acordei à cinco da matina com dor de cabeça. Tomei um dorflex e, quando acordei horas depois, estava tontinha da silva xavier. Depois do café-da-manhã tentei estudar, mas continuava me sentindo meio funky, então resolvi dar uma volta. Fui à livraria e comprei um caderno novo (sempre gostei de inaugurar um caderno novo, canetas novas, borrachas novas...). Mas nem isso ajudou. Não consegui estudar muito. Estava me sentindo exausta e ainda tonta. Quando fui tentar dar uma dormidinha, os vizinhos resolveram mudar todos os móveis de lugar. Depois de muito twist-and-turn, dor de cabeça, mãos e pés gelados, consegui dormir por uns 20 minutos. Sonhei que eu e meu grupo (essa coisa de grupo na universidade me atazana até quando durmo) tentávamos subir uma montanha enoooorme, coberta de gelo. Enquanto escalávamos usando sapatos especiais com pequenos ganchos nas solas, máquinas raspavam o gelo e passavam de baixo pra cima jogando sal. E eu lembro do nó no meu estômago frente à parede quase intransponível, gelada e escorregadia.



A atriz Zilka Salaberry faleceu aos 87 anos. Ela fez parte da minha infância.
março 09, 2005
Paciência
"Se vc escreve 'olá!!!! lindo dia!!!!' nego murmura que há tanta desgraça que é deselegante acordar feliz assim. Além de reclamarem veementes das exclamações.
Se vc escreve 'acho isso ou aquilo feio' nego sai de onde estava pra vir comentar que isso ou aquilo é lindo, que só almas sebosas não enxergam.
Se vc escreve bem é esnobe, se escreve mal é burro, se quer ajudar é piegas, se quer que se danem é insensível, se transcreve letras de músicas é sem assunto, se não escreve nada cadê você que sumiu, se elogia é puxa saco, se critica é mal amada.
Ou seja, qual a principal qualidade que um blogueiro muito lido precisa ter? Hm?
Paciência, muuuuuuuuuuuuuuuuita paciência..." (Bia Badaud, copiado da Cora)
É perfeito, ou não é?
março 08, 2005
A Suécia na berlinda

O dilema do título diz respeito à escolha que o governo sueco precisa fazer entre ser uma potência com um dos sistemas de wellfaire mais generosos do mundo ou um país aberto aos refugiados que precisam de apoio. Ser ambos é impossível. A explicação, escreve Caldwell, é a dificuldade dos imigrantes em serem aceitos pela sociedade, que insiste em sustentar a xenofóbica noção "nós" contra "eles". Leia abaixo alguns dos trechos da reportagem.
"EVERYONE is welcome here," says Bejzat Becirov to a non-Muslim visitor. Becirov runs the Islamic Center of Malmö, on the outskirts of Sweden's third-largest city. When Becirov immigrated from his native Macedonia in 1962, Swedes used to say that kind of thing, too. But in the last two decades, Malmö has acquired a population that is almost 40 percent foreign. Most of the students in its public schools are of foreign parentage. Some immigrant neighborhoods in the city have (official) unemployment rates exceeding 50 percent. Malmö's mayor, Ilmar Reepalu, has pleaded for immigrants to be settled in other parts of Sweden. This has made Reepalu popular in Malmö, but not in those other parts of Sweden. Others uneasy about immigration are too impatient to work through official channels. Much of the Islamic Center was destroyed by a fire of suspicious origin in 2003.
(...)
"Modern Sweden has built its sense of identity on two pillars: its generous welfare state and its status as what Social Democrats used to proudly call a "moral superpower." (Non-Social Democrats still use the term, mockingly.) Indications are that the latter achievement is in the process of destroying the former.
(...)
But in a country where, as the sociologist Åke Daun puts it, "people like being like each other," there is evidence of profound exhaustion with immigration, whether the reasons for this exhaustion are rationally well-founded or not. In the moral-superpower context, it is the equivalent of "imperial overstretch." Swedes tell pollsters they want no more asylum-seekers. (A common complaint is that prospective arrivals have figured out how to "game" the rules of asylum applications, and that the best way to render one's story unchallengeable under the law is to destroy one's identity papers.) A very low rate of mixed marriage is an indication that Swedes may not have been crazy about this immigration in the first place.
(...)
"Many of us," says Masoud Kamali, an Iranian-born professor of ethnic studies at the University of Uppsala, "saw Sweden as the homeland of tolerance, solidarity, and democracy, based on the image of Sweden abroad." Yet foreigners find that the longer they live in Sweden, the more foreign they feel. Kamali, who directs studies on xenophobia and social exclusion for both the E.U. and the Swedish government, says, "Integration is a complete failure: No one can deny it." Kamali, a radical and controversial figure, speculates that a fear of getting segregated out of the society may be the reason that immigrants have shown themselves overwhelmingly in favor of European Union membership, both at the ballot box and in opinion polls. "They think: 'You are not going to be a Swede--or, at least, it's not you who's going to decide if you are a Swede.' But perhaps you can choose to be a European."
Já teve uma pessoa que respondeu ao artigo. Veja parte da resposta aqui.
março 07, 2005
Violência e as escolhas de uma mulher
Acabei de ler ontem "En riktig våldtäktsman", que pode ser traduzido como "Um estuprador de verdade" (segunda capa abaixo, à direita). O livro é o segundo da jornalista Katarina Wennstam, que escreveu antes "Flickan och skulden", cuja tradução é "A menina e a culpa" (primeira capa abaixo, à esquerda), que também trata da questão dos estupros na sociedade sueca. Li o primeiro pra meu curso de direito, lááá no início do outono, e adorei. Comprei o segundo, sobre o ponto de vista masculino, exatamente para ter a visão completa, e adorei também.
No primeiro livro Katarina Wennstam descreve como a culpa da violência sexual é colocada nas meninas/mulheres que se comportam de forma "arriscada". Isso quer dizer: usam saias curtas demais, bebem demais, têm parceiros sexuais demais, andam sozinhas em ruas escuras demais. Ninguém enxerga que é direito delas andar por onde quiserem, se vestir como quiserem e beber o quanto quiserem. Ninguém acredita numa menina assim, não importando sua idade, quando ela alega que sofreu um abuso sexual. Nos julgamentos pergunta-se às meninas como elas estavam vestidas, se beberam muito ou se têm muita experiência sexual e usam esses dados como prova de que a menina não é confiável. Nenhuma dessas perguntas é feita, claro, aos estupradores, que saem da situação como homens viris.
O segundo livro, que trata da problemática do ponto de vista masculino, continua essa discussão é inclui a visão de como a sociedade reforça a idéia de que certas mulheres simplesmente não podem ser violentadas porque elas "pedem" um tratamento violento, através de seu comportamento pouco casto. Incrível como na Suécia, um estado laico, um país onde cerca de 80% das mulheres trabalham, que dá passos gigantescos no que diz respeito à igualdade entre os sexos, ainda exista esse tipo de idéia fundamentalmente preconceituosa. Mas é verdade. Wennstam critica ainda a imagem que se faz do estuprador como um maluco que pula dos arbustos e ataca mulheres desconhecidas. Isso, acredite se quiser, apesar de ocorrer, é uma exceção.
Na verdade, explica Wennstam com ajuda de estatísticas atuais, a grande maioria dos estupros acontece em casa e é realizada por maridos, companheiros ou namorados que simplesmente não admitem receber um não. Nos EUA e Grã-Bretanha a violência sexual entre conhecidos tem até um nome, é o chamado Date rape*. Outro problema é a quantidade de casos de violência sexual nos quais o estuprador é um sueco e que não chegam ao conhecimento público - simplesmente porque as côrtes suecas têm a tendência de acreditar num homem de "bem", vestido luxuosamente, e que se comporta como um gentleman na frente do juiz. Quando os estupradores são imigrantes que deixam claro que as mulheres suecas são todas "putas" (por beberem, usarem saias curtas e terem muitos namorados), é mais fácil condenar (ainda bem, aliás). O problema aqui é dar ganho de causa aos homens suecos baseado apenas em sua boa aparência.
O mundo não é feito pras mulheres. Nós não podemos andar livremente à noite num local deserto e muito menos ter muitos namorados, nos vestir de forma sexy ou beber muito álcool. Se fizermos isso e alguma coisa horrível acontecer, a culpa é nossa, que nos expusemos a um perigo desses. Ninguém entende que o problema é o fato do perigo existir, dos atos criminosos de certos homens, e não da nossa necessidade de sair à noite pra uma caminhada ou de beber um copo de vinho a mais. Infelizmente, tudo o que nós, mulheres, fazemos no que diz respeito às escolhas sexuais, não é uma decisão de foro íntimo, mas sim uma decisão social, em que "tipo" de mulher você quer ser classificada. E se engana quem pensa que essa classificação é feita apenas por homens. Muitas mulheres também pensam assim sobre outras mulheres, geralmente vistas como rivais: "Ah, mas ela está pedindo pra ser chamada de puta, com essa saia! E como ela ri!" E coisas desse tipo.
*"Date rape" é quando a garota sai com alguém ou conhece alguém quando está numa festa, danceteria ou outro lugar, "fica" com o fulano e no final é forçada a fazer sexo, ou é drogada e então violentada. (Explicação do Mauro. Valeu!)
março 06, 2005
Sambinha à la Suède
E ontem foi a última semifinal do festival da canção Eurovision (na Suécia conhecido como Melodifestivalen). E sabem quem foi uma das artistas que foi direto pra final, sábado que vem em Estocolmo? Caroline Wennergren! Ué, vocês não sabem quem ela é? Pois é, eu também não sabia até ontem à noite, quando ela entrou no palco, nervosa, vestindo minisaia e top de plush roxo e vermelho com direito a capa do mesmo tecido e, acompanhada de quatro backing vocals masculinos vestidos em smokings brancos, cantou um sambinha-bossanova chamado "A Different Kind of Love".
Amigos, foi uma emoção. Caroline tem 19 anos, ainda está no ginásio e já vai lançar um CD début, incluindo a música apresentada ontem. Aí você me pergunta: e qual é a diferença entre ela e as outras pessoas que concorreram no festival? Ah, é, esqueci de contar. Caroline é adotada. Ela nasceu no Rio de Janeiro, veio pra Suécia já com cinco anos de idade e é linda de morrer. Negra, corpo perfeito, pele brilhante (de fazer branquelas sardentas como eu babar de inveja) e uma voz fantástica. Ela foi descoberta quando cantava no show da escola uma música de Ella Fitzgerald. É mole ou quer mais? Meu celular ainda está quente de tantos SMS com meus votos pra ela.
E o melhor é que Caroline lutou por um dos lugares na final contra Anne-Lie Rydé, uma artista suequíssima, conhecidíssima e que concorreu com uma música feita sob medida pra agradar ao público do Melodifestivalen. Ela brincou em cena com um gigantesco buá de plumas castanhas, a coisa mais linda e estravagante do mundo (adoro buás), mas mesmo assim Caroline ganhou no voto popular. Os suecos conseguiram me surpreender positivamente ontem. E como gosto muito de surpresas positivas, deixo aqui meu beijo tímido a todos os suecos. *puss* *puss* :c)
Aqui, Caroline chora ao lado dos pais adotivos. E se você lê em sueco, veja a matéria sobre a vitória de Caroline e de Nanne Grönwall (cuja música eu A-DO-RE-I), aqui.
março 05, 2005
Eu, Malu Mader
Sempre achei ridículo aquele papo de quem é famoso de que não é fácil ter sua vida aberta ao escrutínio público. Achava particularmente idiotas as entrevistas dadas por estrelinhas de novela da Globo, que se irritavam com pedidos de autógrafos no supermercado ou na pizzaria da esquina. Mas, tenho que reconhecer, estava enganada.
Tava conversando com a Marcinha outro dia e, entre outros assuntos, trocamos idéias sobre uma das coisas mais irritantes que acontecem nos nossos blogs: comentários íntimos feitos por pessoas totalmente desconhecidas, que nunca se deram ao trabalho de se apresentar e que já chegam escrevendo "Amiga, eu sei como é", ou "Fulaninha, quando é que você vai ter filhos?", ou ainda pior "Fulana, quero te perguntar umas coisas sobre o país onde você mora. Me manda um email, estou esperando".
Ha!
Isso me faz pensar novamente em uma das minhas idéias comerciais mais inteligentes, mas que infelizmente não é viável: patentear um spray de simancol, que iria vender horrores e me faria impressionantemente rica da noite pro dia. Sinceramente. Às vezes, guardadas as devidas proporções, me sinto uma estrela da novela das oito da Globo. Certas pessoas vêm aqui no Montanha, lêem dois ou três posts e acham que me conhecem e que sabem tudo da minha vida. A partir daí sentem-se livres pra se referir a mim como uma amiga antiga, a quem pode-se perguntar tudo, até mesmo decisões de foro muito íntimo.
Bom, de fato nesses três anos de Montanha, escrevi muitas das coisas que aconteceram comigo aqui, mas vejam bem: descrevi muitas das coisas que aconteceram, não todas. Minha vida é muito mais do que o que escrevo aqui, em corpo reduzido, em alguns parágrafos de texto. Não se engane, você que acha que me conhece a fundo, você conhece apenas uma pequena parte de mim. Não chegue entrando de sola, dizendo "amiga" isso, "amiga" aquilo. Se tem uma coisa que aprendi nesses 33 anos de vida é que chamar alguém de amigo deve ser um privilégio, não uma banalidade.
Com isso não quero dizer que não tenha feito ótimas amizades com a ajuda do Montanha. Fiz sim e muitas. Pessoas que começaram a ler meus textos, fizeram comentários interessantes, chamaram minha atenção e assim foi. Troco emails e até telefonemas com vários leitores, quatro moças na Suécia e quatro fora daqui, fora minhas camaradas no Brasil, muitas das quais conheço pessoalmente. Tenho orgulho de chamar essas pessoas de amigos.
E também quero fazer uma diferenciação aqui das pessoas que me escrevem dizendo que adoram o que lêem e que sentem como se "já me conhecessem há séculos". Tenho essa sensação também quando leio um livro (ou um blog) de que goste muito, o que não é raro. Adoro esses emails. Adoro também os comentários de pessoas que vêm aqui anonimamente e que um dia, sabe-se lá porque, resolvem se manifestar. Acho isso o máximo. E não importa o que escrevem nos comentários, basta saber que tem gente que gosta daqui que eu já fico feliz.
O problema, volto a destacar, não é fazer amizades, mas como essas são feitas. Sou uma criatura lenta nesse campo. Preciso de tempo para conhecer a pessoa, aceitar suas idiossincrasias - e saber se ela aceitará as minhas. Por isso, uma dica a quem vestir a carapuça (se bem que isso é impossível, visto que essas pessoas, como eu mesma disse, não têm simancol e muito menos entendem que é pra elas que estou escrevendo isso aqui) - well, você que veio aqui uma ou duas vezes e que na terceira já chega me chamando de "Amiga", vá com calma. Tenho certeza de que você não faz por mal mas te peço que observe regras básicas do bom convívio blogal.
* Sei que terá gente pensando assim depois de ler esse post: "Mas essa menina se acha mesmo muito importante, né? Se ela escreve essas coisas todas na Internet tem mais é que aguentar perguntas de desconhecidos sem reclamar". Bom, nem preciso dizer que concordo que, uma vez na Internet, está tudo aberto a quem quer que tenha um computador e acesso à rede. É até por isso que não escrevo aqui no Montanha nada sobre minha vida íntima. Às perguntas sobre minha capacidade reprodutiva, por exemplo, não respondo, ignoro, deixo cair no esquecimento pra ver se a pessoa se manca. Mesmo assim, volto a insistir, não é porque estamos na Internet, um local público, que temos que agüentar a falta de educação alheia.
março 03, 2005
Assim como no céu
Ontem fui ao cinema com minha amiga Maria assistir "Så som i himmelen", de Kay Pollak. Esse foi o filme sueco que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro recentemente com o nome em inglês "As It Is in Heaven". Confesso que ainda estou meio zonza com a experiência. A história é simples; conto pouco que é para vocês terem uma idéia, mas não quero estragar a experiência de ninguém que possa vir a assisti-lo um dia.
Daniel é um maestro internacionalmente famoso que volta à pequena cidade onde nasceu em busca da essência da vida, que para ele é "ouvir". Lá ele começa a dirigir um coro e uma série de descobertas internas e externas acontecem. O filme tem um ritmo ótimo e nem parece ter mais de duas horas de duração. O mais interessante é que o elenco funciona fantasticamente como um grupo - todos muito afinados.
O filme foi rodado aqui no norte, pertinho da cidade de Luleå. Tem muita neve, depois primavera e verão. O protagonista, Daniel, é interpretado por Michael Nyqvist, um ator famoso por aqui. Ele é o Antonio Fagundes sueco: feio e SUPER sexy ao mesmo tempo, não dá pra explicar. Ele é muito masculino mas mesmo assim consegue representar a delicadeza do filme, que se opõe à brutalidade da vida em geral e de algumas pessoas em particular.
Me emocionei muito com várias coisas durante o filme, chorei à beça, e quando acabou queria mais era ficar sentada lá, pensando, chorando, rindo. Mas as luzes se acenderam e todo mundo se levantou meio que sem jeito de ter chorado pra caramba (podia-se ouvir os *snifs* abafados dos vizinhos durante o filme todo). Eu, que tinha resolvido usar rímel pra dar uma melhorada geral no astral, me ferrei.
março 02, 2005
Humor de bibliotecário
Estou aqui no intervalo da aula de busca de livros e artigos científicos no sistema online da biblioteca. A bibliotecária, uma menina novinha e simpática, fala baixinho lá na frente e veste uma camiseta com os dizeres "Ej Hemlån", que quer dizer "Não disponível para empréstimo", fazendo gracinha com os livros que não podemos levar pra casa e têm de ser lidos na biblioteca - assim como ela.
Bem, até agora a aula foi cansativa. Todo mundo saiu da sala agora para a pausa do café e eu simplesmente não pude resistir à tentação de escrever um postzinho desse computador maneiríssimo, com monitor flatscreen e tudo. Pena que não trouxe minha camera digital, senão podia tirar uma foto pra mostrar aqui. Agora tenho pela frente mais duas horas de aula sobre database e coisas desse tipo. Podia ser pior. :c)
março 01, 2005
Os bunda-moles
Sabe aqueles dias em que qualquer aglomeração de duas ou mais pessoas é um perfeito exemplo de um congresso de bunda-moles? Pois é. Hoje apenas já tive ganas de esganar duas pessoas, depois de sandices ditas com a maior cara-de-pau (já até esqueci o que era, só a revolta ficou). É melhor nem dá exemplo da faculdade que é pra manter o nível disso aqui. Ó, céus, dai-me paciência para aturar os risinhos abafados, as sonsices alheias, a falta do que fazer, a língua ferina, a falta de ética, de compaixão e de inteligência.
Mas, de volta à vida.
O livro da dinamarquesa Hanne-Vibeke Holst, "Kronprinsessa", que li até ontem, é muito legal, apesar de longo e às vezes trabalhoso. É um romance sobre a vida de Charlotte, ministra do meio-ambiente da Dinamarca, que se vê dividida entre as obrigações da carreira e as de mãe e esposa. O livro é trabalhoso às vezes porque tem longas discussões sobre política do meio-ambiente eminentemente locais, o que me fez pular alguns parágrafos. Mas a impressão geral é muito boa.
O livro que estava lendo desde ontem, "Uppdrag: Mamma", que traduzido fica mais ou menos "Missão: Mãe" é interessante porque é uma coleção de histórias das vidas de várias mulheres e suas experiências com a mudança do corpo, adoção, dor, falta de sono, volta ao trabalho, angústia, depressão pós-parto, amamentação, em fim, tudo o que diz respeito à maternidade. Li até o final, mas pulei um monte de páginas (já tava meio de saco cheio de tanto babytalk no final das contas)
E abaixo à bunda-molice! HOHOHOHOHOHOHOH (Só rindo mesmo)

