junho 30, 2005

Notícias do mundo virtual na Suécia

cao_no_computador.gifBlog :: Está a maior discussão sobre o fenômeno dos blogs, que só agora explodiu por aqui. Todos os jornais lançaram diários online de jornalistas cobrindo eventos especiais (festivais de música, shows, eventos esportivos, feminismo e dia-a-dia politico), o que, segundo os críticos, é uma chatice sem fim. "O mainstream da mídia ocupou mais um espaço editorial", dizem uns. Colunas e artigos nos cadernos de cultura consideram o fenômeno dos blogs como um acontecimento inevitável - e nem sempre bem-vindo.

O último artigo que li a respeito foi escrito pelo jornalista Ola Larsmo, no jornal que assino. Ele desfia seu desgosto para com os blogs e cita até o filósofo e crítico teórico alemão Jürgen Habermas. Larsmo escreve que as novas mídias digitais mudam as circunstâncias para o que Habermas descreveu como a "esfera pública" e a "esfera privada". Uhm, eu concordo. Mas será que isso é necessariamente algo negativo?

Tudo bem que o tablóide mais vendido do país exagerou e botou um reporter pra escrever um blog sobre seu desejo de parar de fumar. O deadline para o último cigarro seria dia 1 de junho. Não sei se ele conseguiu - achei o blog tão chato que deixei de ler. Mas a coisa era séria. O jornal lançou inclusive uma campanha para que os leitores também parassem de fumar (o que não é nada ruim). Eu acho engraçada essa discussão, apesar de ter uma visão muito pessoal do fenômeno bloguístico. Pra mim, blog é sinônimo de interação e, na maioria das vezes, prazer. Não uma exibição de poder.

Música :: A Suécia criminalizou a troca de música online. A partir de amanhã é formalmente proibido baixar e trocar música e filmes pela Internet. A lei, discutidíssima aqui, encontra muita resistência. Os serviços de armazenamento de arquivos criticam os métodos de combate ao "crime", que envolvem blitzes e apreensão de servidores. Os usuários dizem que a lei serve apenas aos interesses das grandes gravadoras, que perdem grana com quem deixa de comprar o CD ou o DVD por ter acesso ao arquivo de graça, pela Internet.

A polêmica atingiu até o ministro da justiça, Thomas Bodström. Ele defende a lei, claro, mas juristas afirmam que a lei é ilegal. Isso porque está lá no texto que os pequenos usuários que tiverem baixado músicas e filmes online podem ser presos. O problema é que eles seriam localizados e identificados com a ajuda do número do seu IP, que funciona como uma espécie de identidade do computador. Acontece que esse número de IP é considerado um personuppgift, uma informação pessoal, cujo acesso é regulado por uma outra lei, que não permite o uso de informações pessoais para esse fim.

Nessa confusão jurídica, todo mundo continua baixando horrores, pirateando tudo quanto é filme e espalhando pela Web. A arma das gravadoras e dos estúdios de cinema é o chamado Spoofing: arquivos aparentemente genuínos mas que não contêm música ou filme são lançados nos servidores mais acessados. Em minutos, os arquivos se espalham pelo mundo todo. A gravadora da Madonna lançou uma série de arquivos fantasmas juntamente com o lançamento do último disco da cantora. Quando o usuário abria o arquivo, lá vem a voz da Madonna dizendo: "What the hell do you think you're doing???". Hohoho. Acho esse até mais legal do que as últimas músicas dela.

A palavra em sueco do dia é frihet [frirret], liberdade.

Escrito por Maria à s 01:55 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (16)

junho 29, 2005

Ganhamos!

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Onde está Waldo? Alguém adivinha qual é a nossa varandinha?

Confesso uma coisa: não assisti ao jogo Brasil x Argentina. Não, não consegui sentar na sala e sofrer durante mais de 90 minutos. Mesmo ganhando de quatro a um. Mesmo com os maravilhosos Adriano, Ronaldinho e Cicinho. Depois de conversas emocionantes com a família de meu pai e de minha mãe, acontecidas no início da semana, estava sem condições emocionais pra me descabelar pela seleção.

Resolvi, por isso, sentar no escritório/quarto de hóspedes, onde temos nossos computadores. Meu urso, vestido a caráter, torcia sentado na frente de seus computadores. Eu corria pra sala a cada gol, feliz. Mas nervosa. Ele diz que só assiste aos jogos pra ficar olhando pra mim, porque sou um "show à parte". Sei que essa copa das confederações não vale nada, mas me fez um bem danado ganhar dos hermanos.

(Aliás, um adendo: não consigo entender como os argentinos continuam, ano após ano, mostrando suas jubas revoltas nos campos do mundo. Me dá nervoso aqueles cachos todos colados na testa suada dos jogadores, que insistem em prender o cabelo com pequenos pedaços de pano envelhecido. Tenho a honesta vontade de ir assistir a um jogo da seleção argentina, invadir o campo e sair correndo atrás dos cabeludos com uma máquina-zero em punho.)

No intervalo, fui dar uma volta pra tirar a foto acima, porque simplesmente não agüento ouvir às "considerações" dos experts suecos (que foram muito melhores hoje, admito). Como já escrevi aqui, não consigo ser objetiva nesse campo. Pode até ser uma espécie de ufanismo tosco, de patriotismo enferrujado, mas fico genuinamente feliz em ver a alegria dos jogadores em campo. Não, não me cobrem uma análise elegante sobre o jogo. Quero mais é gritar "Brasiiiiiiiilllll!!!!!"

A segunda palavra em sueco do dia é mål [môôl], gol.

Escrito por Maria às 10:39 PM | Mais: De bem com a vida | Comente! (22)

Bem-vindo Antônio!

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Hoje nasceu Antônio, um meninão de 52 centímetros e 4 quilos, filho da minha querida amiga Karenin e do Holandês. Parabéns pra nova família multinacional! Um beijo nos três e muita saúde!

A palavra em sueco do dia é födelse [fôôdelse], nascimento.

Escrito por Maria à s 06:52 PM | Mais: Aniversários | Comente! (8)

junho 28, 2005

Que coragem!

Quem me lê há algum tempo sabe que eu escrevo às vezes sobre a discriminação sofrida por imigrantes na Suécia. Num post escrito em setembro do ano passado, comentei sobre a iniciativa de quatro repórteres do meu jornal - dois com nomes suecos e dois com nomes estrangeiros - que fizeram uma experiência interessante. Um sueco e um "imigrante" (está entre aspas porque a pessoa em questão nasceu e cresceu na Suécia, mas tem nome árabe) se candidataram ao mesmo emprego. O "imigrante" vai primeiro e é negado o trabalho, com a desculpa de que a vaga já foi preenchida. Quando o sueco liga pra se informar sobre a mesma vaga, marca-se uma entrevista de emprego na hora.

Pois ontem li uma notícia que me chamou a atenção: Sandra Backlund (foto), uma moça sueca de 27 anos que estuda para se tornar cientista política (statsvetare) na Universidade de Estocolmo, resolveu radicalizar e mudar seu sobrenome - eminentemente sueco - para Baqirjazhid, que ela criou com a ajuda da Internet. "Trata-se de uma ação política", diz ela. "Pra mim é importante que todos os que se candidatam a um emprego compitam nas mesmas condições. As pessoas não são chamadas para entrevistas de emprego apenas por ter um sobrenome estranho. Isso mostra o quão bizarra é a base de dicisão de quem é empregador. [O nome] não diz nada sobre qual a formação acadêmica ou a experiência que a pessoa tem."

Sandra sabe que terá de soletrar seu nome todas as vezes que entrar em contato com pessoas desconhecidas e órgãos públicos, mas isso não é um problema. "[O nome] é mesmo estranho. Mas não tem nada demais perguntar como alguém se chama e como se soletra. Está na hora que aprendamos a falar nomes diferentes", diz ela. Eu concordo. Os suecos mesmo têm a mania de mudar seus sobrenomes para ficar diferente dos eternos Svensson, Johansson, Andersson. Achei a atitude dessa moça admirável e fico até certo ponto comovida. Imagino que a Suécia será um país muito mais justo de se viver num futuro não muito distante, quando a geração de pessoas nascidas nos anos 80 e 90 atingir postos chaves na sociedade.

Até porque, segundo a Integrationsverket, um órgão estatal que estuda a integração de imigrantes no país, nada menos do que oito em cada dez suecos acham que imigrantes sofrem discriminação aqui. No artigo publicado na página de opinião do meu jornal ontem, Andreas Carlgren, diretor do órgão, afirma que a quantidade de pessoas conscientes desse fenômeno aumentou muito. Hoje 43% das pessoas perguntadas concordam totalmente com a existência de discriminação. Três anos atrás, essa cifra estava por volta dos 25%.

A palavra em sueco do dia é likaberättigad [likaberétigad], ter direitos iguais. (Tack, Peter!)

Escrito por Maria à s 09:29 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Mais: Vida de imigrante | Comente! (16)

junho 27, 2005

Mais uma vez, fora do ar

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A palavra em sueco do dia é Irritation, irritação.

Escrito por Maria à s 06:45 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (6)

junho 26, 2005

Obsessão

marvin.jpgVocê sabe quando o seu companheiro chegou a um ponto crítico em sua obsessão pelo The Hitchhiker's Guide to the Galaxy quando:

bolinhazinha01.gif Ele passa horas investigando os sites do filme;

bolinhazinha02.gif Ele não repara (ou finge não reparar) quando a namorada, de saco cheio, tenta fazer outra coisa num domingo de sol;

bolinhazinha03.gif Ele clica sem parar na figura de Marvin, o robô deprimido, pra ouvir as réplicas hilárias na voz do magnífico Alan Rickman. "Here I am, a brain the size of a planet and they ask me to help you navigate. Do you call that job satisfaction? I don't" ou "Oh well, if you really must, press there. But you won't like it";

bolinhazinha04.gif Ele assiste a um musical cantado por golfinhos que nadam no espaço;

bolinhazinha05.gif Ele assiste dezenas de vezes ao trailer do filme online;

bolinhazinha06.gif Ele passa horas se divertindo com um game chamado "Towel Toss", ou jogando memória com as imagens dos personagens do filme;

bolinhazinha01.gif Ele marca no calendário o dia do lançamento do filme na Suécia e, logo em seguida, visita os sites dos cinemas daqui pra saber se já é possível reservar duas entradas.

bolinhazinha02.gif E, por fim, quando lê as 880 páginas do livro em tempo recorde, pela milésima vez.

bolas_malucas.gif

A palavra em sueco do dia é fantast, aficionado.

Escrito por Maria às 01:25 PM | Mais: De bem com a vida | Comente! (7)

junho 25, 2005

Viva!

brasilien_medicin.jpg

E o governo brasileiro está de parabéns. Li na manhã de hoje a notícia de que o Brasil pretende quebrar a patente do remédio Kaletra, contra a AIDS, caso o laboratório Abbot não corte o preço em até 40%. A decisão é tão sensacional, que deu até aqui no meu jornal (imagem acima). Humberto Costa afirmou que um laboratório estatal brasileiro pode fazer uma cópia do Kaletra por 68 centavos de dólar por pílula, o que é muito bom comparado com o preço que o governo paga hoje ao laboratório americano: 1 dólar e 17 centavos.

Aí o ministro da saúde disse que essa é a "primeira vez que o governo brasileiro quebra a patente de um remédio", numa entrevista coletiva. Mas eu tenho cá pra mim a vaga lembrança de que o Serra, quando ainda era ministro da saúde do FHC, fez a mesma coisa, não foi? Anyway, gostei muito da notícia. Ainda mais porque ela foi tomada numa situação política complicada, quando os EUA ameaçam acabar com os privilégios de comércio brasileiros, se o governo não atuar mais fortemente contra a pirataria de CDs e DVDs.

Ao mesmo tempo, o The New York Times publicou um artigo de opinião na quinta-feira não apenas apoiando a decisão do governo Lula, como exortando Bush a fazer o mesmo. "O Brasil tem o melhor programa de combate à AIDS dos países em desenvolvimento", escreve o jornal na abertura do editorial. "O representante do comércio americano precisa vir a público garantir que não haverá ações de retaliação contra o Brasil porque o país pratica seu direito de salvar vidas".

A palavra em sueco do dia é liv, vida.

rosinha_linda.jpgrosinha_linda.jpgrosinha_linda.jpg

E hoje é aniversário da minha querida amiga, Marcinha! Viva!!! Parabéns, queridoca! Que todos os seus sonhos se tornem realidade! Um beijo enoooorme!

A palavra extra em sueco do dia é grattis, parabéns. :c)

Escrito por Maria à s 10:47 AM | Mais: Aniversários | Mais: Pra frente é que se anda | Comente! (10)

junho 24, 2005

Uma rapidinha

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Rápido, antes que o servidor da Pixelzine caia de joelhos novamente, vamos lá. E o pior é que nem tenho muitas novidades pra contar, mas me sinto meio que obrigada a escrever, já que não sei quando o Montanha vai estar online novamente... Exatamente como uma criança esfomeada come mais do que deveria só pra garantir que não passará fome.

Estou aqui ouvindo uma rádio anos 80, que é um escândalo. Tocando agora, Madonna: "Get into the groove/Boy you've got to prove/Your love to me, yeah". Acabou de tocar uma música do The Cure, um grupo que eu amava quando era adolescente (vai entender). Fui até ao show deles no maracanazinho (a pior acústica do mundo) e sabia todas as letras das músicas!

Me lembro que fomos muitos amigos do colégio e nos sentamos no fiofó do judas, lááá na última arquibancada. Na confusão, um dos rapazes caiu da arquibancada de concreto e quebrou o braço. Foi aquele alvoroço! Ficamos todos com muito medo de que ele precisasse de uma transfusão de sangue e que, por causa disso, pegasse AIDS. Paranóias dignas do meio dos anos 80.

Hoje é o tal do midsommar. As festividades aqui em casa estão resumidas a um churrasco pra duas pessoas (carne pro urso e salmão pra mim), batatas (salada com maionese pro urso, batatas cozidas na água e sal pra mim) e salada com muita cebola (uhm, adoro). Conseguimos nos abster das sobremesas doces. Temos bananas e chiclete sem açúcar, caso os munchies resolvam nos infernizar muito.

A frase em sueco do dia é Glad midsommar!, Feliz solstício de verão!

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Escrito por Maria à s 02:51 PM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (5)

junho 23, 2005

Diazinho

O que fazer hoje? Ginástica? Nehh... tô cansada de me sentir desproporcional todos os dias. Mas pelo menos fiz uma coisa útil hoje: limpei o banheiro, o que sempre me satisfaz, incrivelmente. Parece que preciso realizar uma tarefa simples como essa para ter uma experiência de bem-estar interior. Lave o seu banheiro e poupe dinheiro de duas sessões de análise! Ajudaria ainda mais se tirasse o aspirador de pó e desse uma ronda no apartamento, mas ainda estou me decidindo nesse aspecto.

Hoje no jornal: críticas à política de imigração sueca; jornalista de um dos jornais mais populares do país foi preso por ter pornografia infantil em seu computador no trabalho; o escândalo do Lula/Dirceu/Jefferson chegou aqui e eu, finalmente, compreendi o fio da meada graças à capacidade do correspondente do jornal na América Latina, Nathan Shachar; e achei uma receita deliciosa de um tiramisu de morangos, feito com mascarpone que eu simplesmente tenho que provar.

Não tenho visto mais futebol porque a seleção conseguiu me irritar depois daquele jogo mixuruca contra o México. Ontem eu "esqueci" de assistir à batalha contra o Japão (meu deus, a que ponto chegamos?). Freud explicaria esse meu "esquecimento" com gosto. Alguém sabe me dizer se essa Copa das Confederações vale alguma coisa? Tipo uma vaga na Copa do Mundo de 2006? Não, pensando melhor, é melhor não saber de nada e continuar nessa feliz ignorância que me protege contra ataques de irritação mais fortes.

A palavra em sueco do dia é: ro [rúú], paz, tranquilidade, sossego, calma.

Escrito por Maria às 01:36 PM | Mais: Vidinha | Comente! (8)

junho 22, 2005

Fundamentalismo

Não sei se vocês sabem, mas nasci católica, assim como 89% da população brasileira. Mas, mesmo sendo, não o sou, na verdade. Sou, o que o Orkut inteligentemente classifica como spiritual but not religious. Perfeita definição. As razões para meu cetisismo são muitas, controversas e bastante particulares, de forma que não pretendo discutí-las aqui.

Mas, na verdade, comecei a escrever esse post pensando em fundamentalismo, que sempre ligamos aos muçulmanos, mas que é um fenômeno cada vez mais comum no cristianismo. Meu contato com xiitas-cristãos se resume à simpatia por Ned Flanders, dos Simpsons. Nada mais. Até porque, fujo de tudo que é exagerado nesse campo. Fanatismo nem pensar.

Comecei a pensar nisso tudo quando li sobre a manifestação na Espanha contra a legalização do casamento gay. Sinceramente, não consigo entender o porquê de querer proibir um ato de amor. Mesmo não sendo homossexual, dou graças à sorte por estar morando hoje em dia num país onde o estado é totalmente independente da igreja. Aqui homossexuais podem ter sua união reconhecida formalmente e, agora passaram a ter direitos de adotar ou, no caso de casais femininos, tentar a fertilização artificial. Há inclusive uma análise sendo feita pelo governo para transformar a lei de casamento sueca em neutra no que diz respeito ao sexo dos cônjuges. Mais info, aqui.

Pensei ainda mais nisso quando me deparei com o blog de Zach, um rapaz americano de 16 anos, que contou pros pais que era homossexual e que por isso acabou sendo mandado para um boot camp fundamentalista cristão para (recuperação de) gays. É leitura impressionante e não é a toa que o pobre menino já recebeu mais de 1000 comentários em seu último post.

Estão lá no blog as regras do "programa". É uma loucura atrás da outra, um assustador desvairio de devoção misturado com ignorância. Diz lá que "One of the core functions of the Refuge is the common pursuit of corporate sobriety from sin". A sobriedade dos pecados a que se faz referência é o fato do jovem em questão ser homossexual. A lista de coisas estapafúrdias é longa e até certo ponto dolorosa de se ler. E pra justificar os métodos do "programa" são citados vários parágrafos de textos bíblicos, como carta aos coríntios, evangélio segundo Lucas e vários salmos.

Mas abaixo no blog, lemos um post em que Zach escreve que contou pros pais que era gay. A reação foi uma conversa em que o rapaz ouviu dos pais que havia alguma coisa "psicologicamente errada" com ele e que os pais o haviam "criado errado". Posso até tentar entender esse fundamentalismo besta americano (que se repete em outros lugares do mundo, infelizmente) mas não consigo perdoar essa falta de visão de adultos que deveriam pensar e não apenas obedecer (a deus, às leis, aos costumes, à tradição etc).

Acredito piamente que é melhor ser gente decente (e aí não coloco qualquer condição religiosa na palavra "decente"), do que ser bem ajustado ao que a sociedade comanda. Não adianta nada ser heterossexual e espancar a esposa. Não adianta ser heterossexual e odiar cada minuto da sua vida. Podia dar mil exemplos de machos e fêmeas perfeitamente ajustados mas que deveriam ser presos pra sempre para impedir que a humanidade fosse obrigada a lidar com eles.

A palavra em sueco do dia é kärlek [cháárlek], amor.

Escrito por Maria à s 09:19 AM | Mais: Irritação e ironia | Comente! (13)

junho 21, 2005

Solstício de verão

Kent e Turid Lundblad, moradores de Keinovuopio, o povoado mais ao norte da Suécia, fazem um lanche sob o sol da meia-noite.

mapa_solsticio.jpgEssa semana é uma das mais esperadas do ano, quando nós, suecos, uhrrmmm, comemoramos o Midsommar, o dia mais longo do ano. Hoje é o tal do solstício de verão, a partir do qual passamos a perder minutinhos de luz todos os dias. Já escrevi sobre isso em 2002 e em 2003 (Caramba, estou me repetindo que nem disco quebrado...).

A foto aí de cima, publicada na edição de hoje do meu jornal, é de Kent e Turid Lundblad, que todos os verões vivem durante seis semanas sem noite. Isso mesmo, o sol em Keinovuopio não se põe por um mês e meio, fica apenas dando voltas no céu (o que é uma idéia muito poética). No mapa à direita, mostra-se o chamado sommarsolstånd, ou sol da meia-noite, em Keinovuoio, que vai de 31 de maio a 12 de julho. Em Kiruna, a segunda bolinha preta de cima pra baixo, o sol também não se põe. Boden faz parte da terceira bola, mais pro litoral, onde o sol brilha no céu durante 22 horas 30 minutos, todos os dias. A quarta bola, se não me engano é Östersund, sol no céu por 20 horas 15 minutos do dia; depois vem Estocolmo (na costa leste), 18 horas 30 minutos de sol diários, Gotemburgo (na costa oeste), com 18 horas de sol todos os dias, e por último Malmö, láááá no extremo sul, com 17 horas 30 minutos de sol no céu todos os dias.

A palavra em sueco do dia é: ljus [lius], luz.

Dos comentários: Maria e Marcia K. querem saber como consigo dormir quando se tem tanto sol durante tanto tempo. Olha, a saída que encontramos foi essa cortina azul marinho, dobrada na parte de cima da janela, que funciona que é uma beleza. Compramos na Ikea por uma merreca. No início, tenho que dizer, foi mesmo complicado. Ficava completamente alerta até às duas, três da matina, minha melatonina provocando o maior samba-lelê no meu organismo. Agora, dá dez e meia da noite eu já tô meio que capotada, mesmo estando claro lá fora. A cortina ajuda muitíssimo. Adoro esse sol todo, essa luz maravilhosa que não desiste de iluminar. Acho que essa paixão é uma reação à escuridão do inverno, que é igualmente insistente. A Marcinha tá aí de prova e não me deixa mentir: fica-se tão cansado quando o inverno chega que a nossa vontade é só de entrar debaixo do edredon e ali ficar. Nunca tive depressão, mas cansada eu fico sim, todos os anos.

Escrito por Maria à s 09:34 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (16)

junho 18, 2005

Kafka's blog

Depois de confessar uma falha de caráter, a de ter pavio curto, volto aqui, bato no peito e digo: tenho uma outra que é ainda pior. Nunca li um livro sequer de Kafka. Se vale alguma coisa, li muito da the next best thing, que é a sua, a minha, a nossa Clarice Lispector. Alguém aí já encarou "A paixão segundo GH"? Pois é. Clarice disse e eu repito:

"Foi assim que fui dando os primeiros passos no nada. Meus primeiros passos hesitantes em direção à Vida, e abandonando a minha vida. O pé pisou no ar e entrei no paraíso ou no inferno: no núcleo". (Lispector, 1979, página 77)
Mas, então, voltando ao escritor tcheco. Nunca li e nem sei por onde começar. Por isso fiquei feliz em descobrir o site The Diaries of Franz Kafka 1910-1923, que mostra em forma de um blog, as anotações do escritor. Ainda está bem no início, mas já delicia.

A palavra em sueco do dia é metamorfos, metamorfose (se é que precisava traduzir).

E hoje está quentíssimo aqui. Vinte e três graus! Depois do café fomos até o posto de gasolina comprar aqueles tabletes contra mosquitos, tipo Baygon. Meu urso não gosta e chama os tabletes de nerve gas. Eu acho ótimo porque os mosquitos daqui são digníssimos representantes de bestas sanguinárias de tempos idos. Principalmente no que diz respeito ao meu sangue.

Escrito por Maria às 11:49 AM | Mais: Livros | Comente! (23)

junho 17, 2005

No gramado

Ontem compreendi porque fico tão aflita quando assisto aos jogos da seleção brasileira na TV daqui. É que é muito difícil escutar aos comentários dos comentaristas esportivos estrangeiros. A maioria desses profissionais adora o Brasil, mas ao mesmo tempo, cobra muitíssimo dos jogadores. E muitas vezes com razão. Isto é, os comentaristas têm toda a razão do mundo para exigir mais dos nossos jogadores, que eles vêem jogar nos melhores times europeus. Mas às vezes essa exigência beira o absurdo. Por mais gols que façamos, parece que nunca jogamos bem!

Mas, antes de eu me inflamar completamente, vou logo avisando que tenho uma falha de caráter: sou daquelas que não consegue ver futebol de forma fria e distante. Até tento discutir numa boa, mas o sangue me ferve e perco as estribeiras. Sabendo dessa minha infeliz característica, são muitos os idiotas, digo, provocadores que me perguntam sobre a última vitória da Argentina contra o Brasil, por exemplo. Acho melhor deixar pra lá, até porque quando fico irritada todas as palavras de sueco que aprendi nesses quatro anos desaparecem como que por encanto e as únicas coisas que lembro são os palavrões e insultos pessoais às mães dos indivíduos.

Ontem, no jogo contra a Grécia pela Copa das Conferedações, os caras disseram o jogo todo que o ataque brasileiro precisava melhorar. Ok, o Ronaldinho não estava feliz ontem, mas e o resto? E o chute do Adriano? O oportunismo do Robinho? A beleza do Roque Jr.? A rapidez do Cicinho? O apoio do Zé Roberto e do Gilberto? A segurança do Dida? Acho que o que eu queria era mesmo ir pro Brasil cada vez que a seleção entrasse em campo valendo alguma coisa. Se bem que, pensando bem, ouvir o Galvão Bueno também não é uma boa pra minha saúde mental... Assim como a convocação de Emerson e Lucio, que continuo sem entender.

A verdade é que dói ver o time do seu país criticado por estrangeiros. Minha vontade é de sentar na frente do computador e mandar emails desaforados para todos, ou enviar SMS dizendo que eles todos estão equivocados e que não entendem nada de futebol. Mas não paguei esse mico por aqui. Ainda.

A palavra em sueco do dia é: passionerad, apaixonada.

Escrito por Maria às 10:21 AM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (17)

junho 16, 2005

Ufa!

Então, acabei de voltar da ginástica. Primeiro dia. Ó céus, o que três anos parada não fazem com a gente? Mas exatamente por isso, fui com calma. Vinte minutos de bicicleta ergométrica e só. Saudades dos meus tempos de aeróbica diária, quando tinha um fôlego de nadadora russa. Hohoho. Quando saí da bicicleta me concentrei pra não dar uma de Bridget Jones e desabar no chão.

A palavra em sueco do dia é: träningsvärk [trééningsvérk], dor de treino.

Escrito por Maria às 02:18 PM | Mais: Vidinha | Comente! (15)

junho 15, 2005

Palavras, palavras

Aprender um novo idioma é um processo. Entender é o primeiro passo. Depois vem falar. E num terceiro lugar bem distante vem escrever. Já escrevo bem, mas volta e meia cometo cada barbaridade que cruz credo. Se algum dia você aprender a escrever em sueco fique alerta para verdadeiras armadilhas linguísticas. Vou te contar, esse idioma não é mole não. Senão vejamos:

bol.gif Se você escreve uppmaning, você estará pedindo insistentemente a alguém para fazer alguma coisa. Mas, cuidado! Não troque os dois "p" por um "t", porque quem faz um utmaning está lançando um desafio.

bol.gifVocê é tímido e não gosta de aparecer muito. Você quer permanecer okänd, desconhecido. Mas se colocar duas bolinhas em cima do "o", de desconhecido você passará a ser ökänd, infame.

bol.gifVocê é uma pessoa cheia de espiritualidade. Sua alma, själ, é pura. Mas preste atenção quando for escrever isso! Se trocar o "j" por um "k", sua alma vira um motivo, skäl. E tem mais: se colocar um "t" no meio do "s" e do "j", você estará roubando, stjäl. E o pior é que pronuncia-se essas três palavras praticamente da mesma forma.

Complementando: O truque do sueco é pronunciar as palavras da forma mais correta possível. Isso porque sueco não é um idioma literal, como o português ou o italiano. Aqui você escreve kjol fazendo referência a uma saia, mas diz shuul. Outro exemplo: sempre confundo glas, vidro ou copo, com glass, sorvete (valeu pela dica, marinovsky!). O primeiro, por ter apenas uma consoante depois da vogal, é pronunciado com um "a" longo e fechado, glóóss. O segundo, com duas consoantes depois da vogal, é pronunciado de forma curta, o "a" aberto, tipo glás. Antes de pedir um copo d'água ou um sorvete preciso pensar para não dizer besteira. É por essas e por outras que "Me dá um copo d'água!" foi uma das primeiras frases em português que meu urso aprendeu. Hohoho.

E por falar em palavras, vou introduzir uma mudancinha aqui no Montanha: no final de todos os posts de agora em diante apresentarei uma palavra em sueco (com tradução) que esteja ligada ao texto. Essa não é uma idéia original minha, mas uma cópia do blog do Francis, um jornalista americano que escreve (muitíssimo bem) a partir de Estocolmo.

bol.gifA palavra em sueco do dia é: ord [úurd], que quer dizer palavra.

Escrito por Maria às 10:53 AM | Mais: Vida de imigrante | Comente! (23)

junho 14, 2005

Prazeirosa rotina

lily02.gifAdoro acordar de manhã. Adoro levantar da cama, verificar o relógio digital com luz azul de fundo. Adoro abrir as persianas da sala, da porta da varandinha, da cozinha, enquanto a cafeteira faz café. Adoro dar uma olhada no jornal, em cima da mesa da cozinha (meu urso o coloca ali todas as manhãs, quando sai pro trabalho). Adoro tomar café da manhã ouvindo rádio. Adoro terminar o café e ir pra sala. Adoro abrir a porta da varandinha, e me sentar no sofá pra ler o jornal. Adoro o silêncio das manhãs. Adoro ver o janitor cortando a grama. Adoro assistir aos treinos de (des)obediência de um cachorro da raça collie chamado Otto, no gramado em frente ao apartamento. Otto nunca obedece à dona, uma menina que sempre sai correndo pelo gramado gritando "Oooootto!". Hehehe.

Por outro lado, rotina era uma coisa que Cazuza sempre odiou. No livro "Só as mães são felizes", de Lucinha Araújo e Regina Echeverria, que ganhei da Grace, a quem agradeço muito, a mãe do cantor conta exatamente isso. Estava cansada do Vilhelm Moberg (que retomo agora pra ler até o final), por isso peguei o livro pra dar uma olhada ontem à tarde. Não parei mais.

Li o livro inteiro ontem, numa urgência de saber como Lucinha Araújo passou pela loucura de perder seu filho único para a AIDS. Eu já sabia o resultado, mas ainda assim li o livro à jato, impulsionada pela história escrita urgentemente - tão urgente quanto a vida que Cazuza viveu. Tudo tinha que ser o mais intenso possível, o mais desafiador, o mais transgressor. Ao mesmo tempo em que ele provava todos os limites, a mãe e o pai sempre ali, ao lado, apoiando. Deve ter sido muito difícil. Mas, que amor!

Escrito por Maria às 01:29 PM | Mais: Livros | Mais: Vidinha | Comente! (19)

junho 13, 2005

Anistia e responsabilidade

A boa notícia do mês (ou talvez do ano) é a anistia econômica no valor de US$ 40 bilhões concedida pelos países mais ricos do mundo, pertencentes ao G-8, às nações mais pobres do mundo. A maioria dos países beneficiados fica na África, além de Bolívia, Honduras e Nicarágua, na América Central. Segundo agências internacionais, o plano anunciado pelo ministro da fazenda do Reino Unido, Gordon Brown, cancela dívidas de 18 países com o Banco Mundial, o FMI e o Banco Africano de Desenvolvimento.

Brown disse que quer ter garantias dos países anistiados de que o dinheiro inicialmente dirigido a pagar os juros das dívidas, agora seja investido em obras de infraestrutura, escolas e bem-estar geral da população mais pobre. Acho isso tudo muito nobre, além da anistia ser uma ótima notícia. Porém, esses 40 bilhões de dólares são apenas uma parte da dívida desses países e não resolve muita coisa. O problema é não deixar o dinheiro desaparecer no meio da burocracia corrupta.

Uma prova disso é o que aconteceu em Uganda. O país, que é um dos anistiados pelo G-8, já teve sua dívida externa cancelada em 1998. Mas pouco mudou para a população paupérrima. O correspondente da rádio estatal sueca na África conta que apenas a metade do dinheiro "economizado" pelo estado ugandês beneficiou a população. O resto desapareceu na chamada "máquina administrativa". O problema, diz o correspondente, é que essas nações têm poucos produtos interessantes para o mercado exportador internacional. E o que produzem, não conseguem vender por falta de incentivos.

Sinceramente, acho que é aí que está o problema. Os países ricos não podem ser tão ingênuos em achar que apenas uma anistia resolve todos os problemas. O que é preciso é investimento para que empresas se estabeleçam nesses países, empregos sejam criados e a nação tenha uma produção capaz de fomentar crescimento econômico. Mas, claro, tudo se complica quando guerras civis arriscam investimentos dos milionários do G-8. Esse problema é sério e influencia inclusive a onda de imigrantes que tentam uma vida melhor na Europa.

Bom ver que as nações européias estão aceitando parte de sua responsabilidade histórica, mas, ao mesmo tempo, sei que essa anistia não vai adiantar muito. O problema da pobreza crônica é tão complexo que esses 40 bilhões de dólares pouco ajudam. Se os líderes do mundo rico quizessem realmente ajudar, teriam facilitado por exemplo a exportação das safras agrícolas africanas para seus mercados. Hoje, a África não tem como se sustentar. Aí, fica difícil, com anistia ou sem anistia.

Escrito por Maria à s 08:36 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (14)

junho 12, 2005

Que dia!

Acredite se quiser: está fazendo 22 graus aqui em Boden e eu não pretendo ficar em casa nem mais um minuto sequer. Fui! :c)

Escrito por Maria às 02:15 PM | Mais: Vidinha | Comente! (4)

junho 11, 2005

Esquilo, cabeça de vento e chocolate

Hoje, no café da manhã às seis e meia da matina, vi um esquilo marrom-avermelhado subir pela parede externa do meu prédio, olhar com interesse para minha mesa, para mim, e continuar andando em direção ao telhado (o prédio tem apenas três andares, moramos no terceiro).

No carro, ontem à tarde, sei lá porque, me veio à cabeça que não leio (livros) há dois dias. Logo em seguida lembrei de uma entrevista que a atriz Linda Hamilton deu na Oprah dizendo que passou por uma depressão braba, durante a qual ela pouco saía de casa e só lia, lia, lia...

Ontem fui ao supermercado comprar pasta de dente, creme hidratante e sabonete. Não achei o creme, esqueci a pasta de dente e o sabonete, mas saí de lá feliz: comprei um pão francês liiiiindo que ainda estava quentinho, saído do forno. Quem não tem padaria, caça com supermercado.

Já faz tempo que não dou receita aqui no Montanha, essa vale a pena.

zrg011.jpgPequenos pudins quentes de chocolate

Ingredientes:
50 g de manteiga
100 g chocolate meio-amargo
1 ovo
1 gema
2 colheres de mesa de açúcar
4 colheres de mesa Baileys irish cream

Modo de fazer
1) Forno elétrico aquecido até 210 graus. Selecione quatro formas refratárias pequenas.

2) Bata na batederia o ovo, a gema e o açúcar até que a mistura fique enbranquecida e volumosa.

3) Derreta o chocolate junto com a manteiga (eu faço isso em banho-maria pra não queimar) e adicione o Baileys.

4) Adicione o chocolate à mistura dos ovos, misture bem e coloque tudo nas forminhas - mas não as encha completamente até a beira, deixe um espaço porque o treco sobre.

5) Deixe ficar no forno mais ou menos uns 10 minutos (eu sempre deixo mais tempo, até que os pudins cresçam bastante).

6) Tire do forno e sirva imediatamente, acompanhado de sorvete de creme. É um absurdo de bom.

Dica: faça a receita com chocolate de primeira linha. Já tentei fazer com aqueles chocolates meio-amargos comprados em bloco, meio vagabond. Não serve não. O lance tem que ser bom.

Escrito por Maria às 08:09 AM | Mais: Vidinha | Comente! (10)

junho 10, 2005

Marcas e nações

A Suécia é a melhor marca registrada (trademark) do mundo. Quem diz isso não sou eu, recém-convertida, mas Simon Anholt, responsável pelo índex de marcas nacionais da empresa GMI, localizada em Seattle, EUA. A pesquisa leva em consideração aspectos como população, cultura, clima de investimentos, política, exportação e turismo em cada país. Cerca de 10 mil pessoas (consumidores) responderam à pesquisa em todo o mundo, mas não puderam votar em seu próprio país.

O ranking:
Suécia
Reino Unido
Itália
Alemanha e EUA
Japão
China
Índia
Coréia do Sul
Rússia
Turquia
Simon Anholt explicou o primeiro lugar sueco assim: a Suécia é admirada por ser "uma combinação rara de governo estável e responsável, uma população honesta e confiável, uma exportação cultural bem-sucedida e muito boas possibilidades de investimento", diz ele. "Quando dizemos que gostamos de sair de férias na França, dirigir um carro alemão, assistir a uma ópera italiana, acreditamos na política interna sueca, admiramos a ambição japonesa, a franqueza americana ou a educação inglesa, estamos reagindo a marcas internacionais, exatamente como fazemos com produtos".

Ainda mais interessante do que isso, é o barômetro da União Européia que mede o quanto os cidadãos europeus são orgulhosos de seus próprios países. Nada menos do que 91 % dos suecos se dizem "muito orgulhosos" de pertencerem à nação de IKEA, Volvo e Ericsson. Vale dizer que a média européia para os "muito orgulhosos" fica em torno dos 86%.

Aí a gente pensa no Brasil, o eterno país do futuro. Sinceramente, estou por fora de todas as confusões dos governos federal e estadual, de CPI dos correios, de escândalos de garotinhos e rosinhas. Quando abro o Globo todos os dias não tenho vontade de ler todas as matérias sobre o que acontece por lá/por aí. Não, não é indiferença não. Nem vergonha. Simplesmente estou cansada de ver a ferida aberta, pus saindo por todos os lados, pra quem quiser ver. Os fracassos brasileiros à flor da pele.

Nas últimas eleições pra presidente, viajei 13 horas de trem até Estocolmo, pra votar no Lula (pela terceira vez). E voto novamente, se tiver a oportunidade (e o dinheiro necessário pra passagem de trem). Respeito quem pensa diferente, mas acredito que o Lula é a pessoa certa no cargo certo. Não quero ficar aqui fazendo análise política porque não tenho competência para tanto, mas sinto que no Brasil queremos resultados rápidos, imediatamente - JÁ. Quando os problemas socio-econômicos existem e foram perpetuados desde o século retrasado.

(O engraçado é que, nesse ponto, sou MUITO sueca, que quer dizer: não gosto de discutir política assim, como quem fala de cinema ou do tempo. Minha falta de vontade em fazê-lo se deve a experiências muito desagradáveis com radicalistas, tanto de esquerda como de direita, que não ouvem, não discutem, apenas gritam palavras de ordem. Estou aprendendo aqui que a melhor tática quando se encontra uma pessoa assim é se calar, ir embora e tentar encontrar alguém que possa discutir de forma civilizada.)

Escrito por Maria à s 09:19 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (12)

junho 09, 2005

Novidade


bandeira_sueca_tremulando.jpgSeguinte: agora sou cidadã sueca. A decisão do órgão de imigração demorou cinco dias úteis. Dia 26 de maio recebi a confirmação que meus documentos chegaram e que meu caso estava sendo analisado. Ontem recebi meu diploma, que havia sido assinado dia 2 de junho.

Nós, suecos, somos muito eficientes, né? HOHOHOHOHOH

Quando o correio de ontem veio, vi um aviso pra eu ir buscar uma encomenda no posto de gasolina. Aqui o correio racionalizou tanto para poupar dinheiro, que os pacotes maiores ficam a espera de seus destinatários no posto de gasolina mais próximo.

Fui, achando que era alguma coisa do Brasil. Feliz em receber farinha, shampoo Seda e sabonete Phebo, dei o papel pro rapazinho no caixa. Mas ele não veio com uma caixa. Em troca de uma assinatura minha, me deu um envelope branco tamanho A4. Abri ali mesmo e vi meu diploma.

hus.jpgFiquei lá, em pleno posto de gasolina, com meu diploma atestando que eu era sueca na mão, meio que sem saber o que fazer. Bem low profile, assim como nós, suecos, gostamos. Hohoho.

PS.: Sim, continuo sendo brasileira, claro.

Escrito por Maria à s 09:39 AM | Mais: Conquistas | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (33)

junho 08, 2005

Eu sou fã

ann_bancroft.jpg

ann_bancroft02.jpg

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Ann Bancroft (1931-2005)

Trade mark
In most of her films, she habitually removes an earring before answering a telephone.

Personal quotes
"I was at a point where I was ready to say I am what I am because of what I am and if you like me I'm grateful, and if you don't, what am I going to do about it?"

"The best way to get most husbands to do something is to suggest that perhaps they're too old to do it."

"When Mel told his Jewish mother he was marrying an Italian girl, she said: 'Bring her over. I'll be in the kitchen - with my head in the oven'."

Fonte: IMDB

Escrito por Maria às 01:18 PM | Mais: Saudade e sonhos | Comente! (7)

junho 07, 2005

Saindo e chegando

Estou totalmente envolvida na leitura de Utvandrarna ("Os emigrantes"), de Vilhelm Moberg (foto). O livro, escrito em 1949, é a primeira parte de uma trilogia que se completa com Invandrarna ("Os imigrantes"), escrito em 1952, e Nybyggarna (algo como "Os pioneiros"), de 1956. Moberg escreveu ainda um quarto livro, que é também visto como parte da trilogia, chamado Sista brevet till Sverige ("A última carta à Suécia"), de 1959.

Moberg descreve a saga de Karl-Oscar e Kristina, dois camponeses de Småland (ismôôland, região do centro sul sueco) que, assim como milhões de outros suecos do século passado, emigraram pros EUA em busca de uma vida melhor. Durante o século XIX e até no início do século XX, a Suécia tinha uma economia predominantemente rural. Invernos prolongados, verões curtos e população pobre. O resultado dessa mistura foi uma emigração em massa pros EUA: cerca de 1.3 milhão de suecos (1/5 da população) abandonaram suas terras.

Estou no fim do primeiro livro e morrendo de curiosidade pra ler a continuação. O que mais me fascina, além da história em si, é o retrato dos camponeses do meio do século XIX que Moberg consegue fazer. Ele, que era jornalista e escritor, tinha uma capacidade incrível de contar histórias e descrever pessoas, lugares e situações. Esses livros, apesar de romances, são a primeira descrição da emigração sueca pros EUA. Num trabalho quase que antropológico, Moberg baseou sua história em diários de viagens, cartas e logs de navios que transportaram os emigrantes suecos até Nova York.

Queria ler esses livros há um tempão, mas tava com medo de não entender, por se tratar de sueco antigo. Tomei coragem, comprei os dois primeiros volumes da trilogia e tive uma agradável surpresa. Moberg escreve de forma contemporânea e até os poucos diálogos que aparecem em dialeto são ótimos, muitos até engraçados (Tipo: "Töst, pojk!", numa grafia fonética utilizada por Moberg pra ilustrar o dialeto de Småland. O correto seria "Tyst, pojke!", ou "Cala a boca, menino!").

Dá pra sentir que Moberg teve grande prazer em escrever o livro. Em 1949, imagino, tinha-se mais tempo para se fazer qualquer coisa. Acho que a cabeça de um escritor era menos acelerada, mais paciente, até porque a maioria ainda escrevia a mão, poucos eram os que já haviam adotado sequer uma máquina de escrever. Mais tempo pra ir e voltar ao texto, fazer correções extensas, mudar o rumo da história... (Eu, hein, tenho nostalgia de uma época em que sequer era nascida.)

:: Pra você, que como eu, sempre confunde as bolas: emigrante é aquele que sai de um país; imigrante é aquele que chega a um país. Então eu sou emigrante no Brasil e imigrante na Suécia.

:: Os livros de Vilhelm Moberg existem em inglês! VIVA!

:: Link ótimo explicando tudo sobre a emigração sueca para os EUA (em inglês).

A Patrícia tinha toda a razão: é hoje que os noruegueses comemoram os 100 anos de independência da Suécia. Valeu!

Escrito por Maria à s 10:31 AM | Mais: Europa & Escandinávia | Mais: Livros | Comente! (9)

junho 06, 2005

6 de junho

Pela primeira vez na história, os suecos fizeram de seu dia nacional um feriado. Hoje é a primeira vez em que a maioria dos nativos não trabalha por causa da data. O feriado de hoje acontece graças a uma troca feita pelo governo: perde-se um dia no feriado de pentecostes (esse ano 16 de maio) e ganha-se dia 6 de junho. Digo a "maioria dos nativos" porque um ou outro sindicato não aceitou a troca, tirou folga no meio de maio e trabalha normalmente hoje.

Desde o início da semana passada as rádios fazem programas engraçadinhos, nos quais perguntam a seus entrevistados o que eles farão hoje, para comemorar o dia nacional. O intuito é fazer graça dessa necessidade de comemorar o que, pra grande maioria, não precisa ser comemorado: a democracia e soberania suecas. Já escrevi sobre isso no ano passado, o texto está bem explicativo.

A maioria diz que vai passar o dia com amigos, outros tantos que vão cuidar do jardim, alguns pretendem ir ao Skansen, parque em Estocolmo, ver a festa que contará com a presença da família real vestida em trajes típicos. O mais interessante, é que quando o noticiário da TV4 perguntou a um sueco-imigrante o que ele faria hoje, ele abriu um sorriso e disse que iria comemorar o dia da pátria. :c) Geralmente são os "novos-suecos" os que mais fazem festa pelo dia de hoje...

Aí me lembro dos 28 dias 7 de setembro que passei no Brasil. Quando foi que fui às ruas comemorar nossa independência? Bom, teve uma vez, quando estava estudando pra me tornar jornalista, e recebi como tarefa uma descrição do desfile da Avenida Rio Branco (no Rio). Nem me lembro mais do que escrevi, mas claro, só serviu pra aumentar minha indiferença pela data. E olha que de fato temos razões para comemorar, com independência de Portugal and all that.

O bom do dia de hoje é, por exemplo, a programação de uma das minhas rádios favoritas, que estará tocando o dia inteiro apenas rock-pop-hip-hop-baladas suecas. O ruim do dia de hoje é que uma série de grupos neo-naz***as farão demonstrações em várias partes da Suécia. É essa, aliás, uma das razões dadas pelos nativos quando eles explicam porque se sentem "desconfortáveis" em comemorar o dia de hoje. Acham que os neo-naz***as se apoderaram da bandeira e ficam com medo de serem confundidos com um deles se festejarem demais. Pode?

Escrito por Maria à s 10:20 AM | Mais: Aniversários | Comente! (10)

junho 05, 2005

Um dia na minha vida

Sento aqui na minha sala e penso. Às vezes olho pra TV, a Suécia joga contra Malta, numa eliminatória da Copa do Mundo do ano que vem. Abaixo o som e começo a escrever no meu caderno preferido.

Meu urso está finalmente em casa, depois de ter trabalhado o sábado todo. Ele dorme. Está cansado. Também estou cansada, mas não durmo (pelo menos não de dia!).

Na minha cabeça, no meio dos afazeres do dia, passam mini-slides do Brasil, flashbacks rapidíssimos. Me lembro das coisas mais esdrúxulas. Meu carro numa rua, uma esquina, um cheiro.

Não é saudade, é quase como uma purificação do sistema. Como um dependente de drogas, álcool ou chocolate que tenta deixar o vício. Pequenas pontadas no meio do peito.

Me lembro, por exemplo, de um dia em que tentei aprender a fazer crochê com minha avó paterna. Ela fazia as coisas mais inacreditáveis - todas com lãs de lamê prateado (ou é assim que me lembro, pelo menos).

Nunca consegui aprender.

Penso no que uma querida amiga me disse, quando nos encontramos pela primeira vez. Ela é uma dessas pessoas que observa mais do que fala. O que ela me disse, assim, en passant, ficou gravado na minha memória.

Ela disse que dá pra sentir no texto de alguém quando essa pessoa está em paz consigo mesma. Querida amiga, tens razão. Ainda não cheguei lá, mas estou à caminho.

A Suécia venceu Malta (jogaço - seis a zero), meu urso acordou e está aqui do meu lado olhando curioso pro texto em português nas páginas do caderno, adornado com imagens de maçãs, e nesse momento não penso em nada, apenas sou.

Escrito por Maria às 12:18 PM | Mais: Vidinha | Comente! (10)

junho 04, 2005

Os same

O Bicu perguntou e eu respondo: o povo same é o equivalente aos índios que habitavam as Américas antes da dominação européia. Mas, até onde sei e li, os povos escandinavos não eliminaram os sames para tomar conta de suas terras. O método de conquista foi e ainda é um lento porém contínuo processo de assimilação cultural. Na home Saami.info há muitas informações interessantes, mas infelizmente a página é escrita apenas em sueco, sem traduções. Farei aqui um resumo.

O povo Same habita o norte da península escandinava, desde a Noruega, passando por Suécia e Finlândia, e chegando até a Rússia, conforme o mapa ao lado. Não há cidades importantes, uma vez que os same são, em essência, nômades. O território em vermelho no mapa é chamado de "Sápmi" pelos sames, que têm um idioma próprio. A TV estatal sueca mostra todos os dias um noticiário em samisk (o idioma deles) e, aos meus ouvidos, soa como um derivado do finlandês. O que é correto, já que o samisk é um idioma da mesma árvore da lingual finlandesa, a finsk-urgiskt. É difícil saber exatamente quantos são os sames. O número está entre 50 mil e 80 mil. A maioria, 40 mil, mora na Noruega; 20 mil na Suécia; 10 mil na Finlândia; e 2 mil na Rússia.

Na home eles informam ainda que o povo same é hoje uma minoria, no sentido politico do termo, o que quer dizer que eles foram reconhecidos pelos governos escandinavos como um grupo com cultura e idioma próprios, e ganharam um certo estatus - ou, melhor, deixaram de ser tão desprezados. Mas escreverei sobre isso um pouco mais adiante. No início, continua o texto do site, os same eram caçadores e pescadores, mas a partir do século XVI eles começaram a cuidar de renas, o que hoje em dia é sua principal fonte de renda.

A partir do século XVII o governo sueco (a página conta apenas a história daqui) começou a incentivar famílias a sair da área de Estocolmo e se estabelecer mais ao norte, para que a nação estivesse povoada em seus limites. Foi nessa época que os sames começaram a perder território e, mais e mais, ser assimilados à cultura sueca. Agora, no que diz respeito às características raciais dos same, que era aliás a pergunta do Bicu, não há muita informação. O que eu sei, no entanto, não deixará o Bicu feliz. Os sames são muito parecidos com os suecos: muito brancos, loiros, olhos muito azuis.

A religião dos same é semelhante à dos nossos índios: a natureza tem uma alma que cuida de fauna e flora. Entre os símbolos mais importantes da cultura same está o kolten, um traje típico. Cada região tem um detalhe diferente que identifica de onde as pessoas vieram. A música tradicional dos same é o chamado Jojk (fala-se ióik) e não tem como objetivo divertir, mas funciona como um instrumento oral de transmissão de legado cultural. A música é cantada sem acompanhamento musical, geralmente em contato com a natureza. Os same são muito competentes criadores de ferramentas de trabalho, como facas, cuidadosamente adornadas com símbolos da natureza (lindas!).

Hoje o povo same é muito mais bem organizado e tem inclusive um governo e uma bandeira próprios, que une todos os sames, distribuídos pelos quatro países. A bandeira (aqui ao lado) tem as cores do traje nacional. O círculo simboliza o sol (meio-círculo vermelho) e a lua (meio-círculo azul). Há uma certa má-vontade com os same aqui na Suécia, pra não dizer aqui no norte da Suécia. A idéia geral (e cheia de preconceito) é que os same são um povo preguiçoso e que gosta de viver de ajuda financeira do governo. Eu não digo que sim nem que não, já que não sei quase nada a respeito dessa relação entre sames e suecos, mas acho tudo isso muito interessante.

Leia mais sobre os same, aqui (em inglês).

Escrito por Maria à s 01:16 PM | Mais: Europa & Escandinávia | Comente! (6)