agosto 28, 2005
Hotel Rwanda
Assistimos ao filme Hotel Rwanda ontem à tarde e eu ainda estou pensando nas coisas que vi, na realidade que não fazia idéia existia. O filme é espetacular. Meu maior medo, de que veria a violência gráfica causada por facões e machadinhas, não se realizou. Mas, se por um lado quase não se vê sangue, por outro a violência e o ódio entre iguais são evidentes - e chocantes.
Agora, foi roubalheira o Don Cheadle não ter ganho o Oscar de melhor ator. Ele é fenomenal. Mas o melhor do filme é, além da história de solidariedade do protagonista, o retrato da ausência de interesse das Nações Unidas em ajudar o povo tutsi, que foi massacrado em dias pelos hutus no verão de 1994. Ficamos, eu e meu urso, boquiabertos com a atitude indecente dos europeus durante o conflito. Que vergonha!
Me lembro que estava estagiando no Globo nos primeiros meses de 94. No segundo mês trabalhei na editoria de Internacional. O trabalho se resumia a sentar na redação e a redigir, com a ajuda de notícias das agências internacionais, matérias completas e claras sobre os assuntos mundiais. Me lembro nitidamente que trabalhei muito em textos sobre o conflito em Rwanda, mas confesso, com vergonha, que para mim a carnificina africana não passou de um exercício estilístico.
A palavra em sueco do dia é att skämmas [att chémas], envergonhar-se.
agosto 08, 2005
No cinema e em casa
E, finalmente, ontem fomos assistir ao filme "The Hitchhiker's Guide to the Galaxy". Não posso dizer que adorei, até porque ainda não li os livros (é uma trilogia de cinco volumes), mas o filme é muito bem-feito e tem efeitos bacanérrimos. Meu urso, um fã antigo, a-m-o-u. Eu gosto pessoalmente do ator Martin Freeman, que interpreta Arthur Dent (ele bebe seu chá em xícaras Spode!). Quando estávamos em Londres fomos ao Museu de Ciências e vimos uma exposição sobre o filme, com os diversos monstros e os figurinos dos atores, além de um monte de detalhes fantásticos. Mas confesso que morri de rir com os Vogons, descritos como monstros burocráticos, e sua obcessão por formulários e horários de almoço. Se eles fossem loiros, até poderiam passar por... Ahn, deixa pra lá.



Mas antes do cinema, alugamos dois filmes no DVD do sábado pro domingo. Nos divertimos com "Ocean's Twelve" e achamos "Closer" moooooito estranho. Vi o DVD do filme "Hotel Rwanda" lá no posto Shell (onde vende-se de tudo e onde há a melhor seleção de filmes pra alugar, acredite se quiser). Fiquei com medo de alugar e ser violentíssimo. Será que alguém que vem aqui já viu e pode me dizer como é que é? Estou muito curiosa. Ouvi falar que é bom pra burro... Dicas nos comentários, merci. No mais, chove muito aqui, desde ontem. Por volta dos 16 graus, com nevoeiro. Eu não reclamo: meu livro tá ali, ao lado da minha cama, me esperando.
A palavra em sueco do dia é bio [bíu], cinema.
agosto 03, 2005
Bolo de tigre
E como sou uma criatura muito "prendada", fui me meter a fazer o que minhas avós sempre chamaram de bolo mármore, pão-de-ló com cacao (foto). Aqui na Suécia esse bolo chama-se Tigerkaka, literalmente "Bolo de tigre" - por causa dos padrões que a massa de cacao faz na massa do pão-de-ló (ou deve fazer, se der certo). Admito que gosto mais do nome em sueco, que soa meio infantil, bacana. Me lembro que não gostava muito desse bolo, que de quando em vez aparecia lá em casa. A razão é simples: apenas uma pequena parte dele era de chocolate! :c)
Me lembro ainda que ficava impressionada com a capacidade das minhas avós, em fazer um bolo incrível desses, cujas cores não se misturavam por algum milagre que apenas a capacidade culinária delas - ou pura feitiçaria - explicaria. Mas, agora, uma mulher crescida, aprendi a apreciar o tal do bolo mármore/de tigre.
A receita eu achei no meu jornal e é muito simples. Os ingredientes são 50 gramas de manteiga, 1 1/4 decilitros de leite, 2 ovos, 2 decilitros de açúcar, 3 decilitros de farinha de trigo, 1 1/2 colher de chá de pó de fermento em pó, 2 colheres de mesa de cacao em pó e 1 colher de mesa de água. Para dar um gostinho extra, eles recomendam 2 colheres de chá de açúcar de baunilha ou a casca raspadinha de 1/2 limão.
Mudei um pouco a receita para agradar ao meu paladar e pelo fato de não ter pó de cacao aqui em casa. Então usei achocolatado em pó (um pouco mais do que a medida do cacao) e essência de baunilha no lugar do açúcar de baunilha (uma coisa muito sueca) ou a casquinha de limão. Para fazer o bolo aqueça o forno em 175 graus. Passe manteiga numa forma redonda de mais ou menos 1,5 litros. Derreta a manteiga e misture com o leite. Bata os ovos com o açúcar até que a mistura fique esbranquiçada.
Junte manteiga+leite com ovos+açúcar e a baunilha. Coloque a farinha e o fermento em pó. Bata até que a mistura fique uniforme. Despeje 2/3 da receita na forma. Misture o cacao com a água e despeje no resto da mistura do bolo que você reservou. Misture um pouco e despeje na forma uniformemente. Asse o bolo por 35 ou 40 minutos (dependendo do seu forno). Deixe esfriar antes de servir.
Update :: O bolo ficou muito bom, exatamente como deve ser, como podem ver pela foto acima. Se bem que me lembro que os bolos mármores lá de casa eram mais "mármore". Acho que da próxima vez misturarei mais a massa de cacao com a de pão-de-ló...Ou misturarei menos... ainda não me decidi. :c)
A palavra em sueco do dia é trolleri, feitiçaria.
julho 28, 2005
Papos na Nigella
Absolutamente fascinada pelo fórum de discussão no site da Nigella, onde pessoas interessadas por comida em geral e tudo o que gira em torno de comida em particular, se encontram. Um dos meus favoritos: monica e seu tópico: "The Bitch is Back", sobre a irritação com a ignorância dos empacotadores dos supermercados britânicos, que praticam a heresia de colocar na mesma sacola galinha crua e salame. Oh, dear.
Os nomes são outro achado. Dustbunny, Wildrose, Cake eater e, claro, Domestic godess, fazem a festa no meio de muita piada, comentários do dia-a-dia de cada uma e receitas, muitas receitas. Mas tem mais diversão. Natasha g escreve no tópico "Just to be nice":
"Inspired by Clarebear's strand about the paella, I was wondering what other people have eaten just to be nice."Eu já comi várias vezes apenas para não fazer uma desfeita para a(o) dona(o) da casa. Afinal de contas, que tipo de canceriana seria eu se não tivesse feito isso? :c) (Mas de "canceriana bocó" eu tenho pouco. Me ajudam muito nessa empreitada minha lua em Áries e Urano, localizado na minha primeira casa. Ambos me demovem da necessidade quase patológica de agradar. Afinal, para coroar tudo, meu ascendente é libra! Vai agüentar uma coisa dessas! Thanks god for Aries!)
Sou fã da Nigella já tem tempo. Leia meu primeiro texto sobre ela, aqui.
A palavra em sueco do dia é mat [móót], comida.
maio 31, 2005
Filmes, livros, blog e coluna
No sábado fomos assistir a "Star Wars III - Revenge of the Sith", e adoramos. Eu AMO todos os filmes, especialmente os três primeiros. Mas sabe que esse é quase tão bom quanto os feitos nos anos 70/80? A-do-re-i.
Terminei de ler o livro do Leif GW Persson. Bacana, mas sem muitas surpresas. Pra quem me lê da Suécia e adjacências sabe que o Leif GW Persson är professor de criminologia, superrespeitado no meio policial e é até uma personalidade da TV. Ele faz parte do programa "Efterlyst", que caça ladrões e gente ruim de todos os tipos com a ajuda das pistas dos telespectadores.
O último livro que me surpreendeu completamente foi "Shutter Island", de Dennis Lehane (que li em sueco, com o título "Patient 67"). Espetacular.
Teve uma pessoa que me perguntou, nos comentários do post abaixo, sobre os "saami" - povo que habita partes do norte de Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Assim que a poeira baixar (estou no meio do processo final do semestre na faculdade), escreverei sobre isso, ok?
Tem coluna nova! Sobre medo de morrer e... celulares.
março 06, 2005
Sambinha à la Suède
E ontem foi a última semifinal do festival da canção Eurovision (na Suécia conhecido como Melodifestivalen). E sabem quem foi uma das artistas que foi direto pra final, sábado que vem em Estocolmo? Caroline Wennergren! Ué, vocês não sabem quem ela é? Pois é, eu também não sabia até ontem à noite, quando ela entrou no palco, nervosa, vestindo minisaia e top de plush roxo e vermelho com direito a capa do mesmo tecido e, acompanhada de quatro backing vocals masculinos vestidos em smokings brancos, cantou um sambinha-bossanova chamado "A Different Kind of Love".
Amigos, foi uma emoção. Caroline tem 19 anos, ainda está no ginásio e já vai lançar um CD début, incluindo a música apresentada ontem. Aí você me pergunta: e qual é a diferença entre ela e as outras pessoas que concorreram no festival? Ah, é, esqueci de contar. Caroline é adotada. Ela nasceu no Rio de Janeiro, veio pra Suécia já com cinco anos de idade e é linda de morrer. Negra, corpo perfeito, pele brilhante (de fazer branquelas sardentas como eu babar de inveja) e uma voz fantástica. Ela foi descoberta quando cantava no show da escola uma música de Ella Fitzgerald. É mole ou quer mais? Meu celular ainda está quente de tantos SMS com meus votos pra ela.
E o melhor é que Caroline lutou por um dos lugares na final contra Anne-Lie Rydé, uma artista suequíssima, conhecidíssima e que concorreu com uma música feita sob medida pra agradar ao público do Melodifestivalen. Ela brincou em cena com um gigantesco buá de plumas castanhas, a coisa mais linda e estravagante do mundo (adoro buás), mas mesmo assim Caroline ganhou no voto popular. Os suecos conseguiram me surpreender positivamente ontem. E como gosto muito de surpresas positivas, deixo aqui meu beijo tímido a todos os suecos. *puss* *puss* :c)
Aqui, Caroline chora ao lado dos pais adotivos. E se você lê em sueco, veja a matéria sobre a vitória de Caroline e de Nanne Grönwall (cuja música eu A-DO-RE-I), aqui.
março 03, 2005
Assim como no céu
Ontem fui ao cinema com minha amiga Maria assistir "Så som i himmelen", de Kay Pollak. Esse foi o filme sueco que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro recentemente com o nome em inglês "As It Is in Heaven". Confesso que ainda estou meio zonza com a experiência. A história é simples; conto pouco que é para vocês terem uma idéia, mas não quero estragar a experiência de ninguém que possa vir a assisti-lo um dia.
Daniel é um maestro internacionalmente famoso que volta à pequena cidade onde nasceu em busca da essência da vida, que para ele é "ouvir". Lá ele começa a dirigir um coro e uma série de descobertas internas e externas acontecem. O filme tem um ritmo ótimo e nem parece ter mais de duas horas de duração. O mais interessante é que o elenco funciona fantasticamente como um grupo - todos muito afinados.
O filme foi rodado aqui no norte, pertinho da cidade de Luleå. Tem muita neve, depois primavera e verão. O protagonista, Daniel, é interpretado por Michael Nyqvist, um ator famoso por aqui. Ele é o Antonio Fagundes sueco: feio e SUPER sexy ao mesmo tempo, não dá pra explicar. Ele é muito masculino mas mesmo assim consegue representar a delicadeza do filme, que se opõe à brutalidade da vida em geral e de algumas pessoas em particular.
Me emocionei muito com várias coisas durante o filme, chorei à beça, e quando acabou queria mais era ficar sentada lá, pensando, chorando, rindo. Mas as luzes se acenderam e todo mundo se levantou meio que sem jeito de ter chorado pra caramba (podia-se ouvir os *snifs* abafados dos vizinhos durante o filme todo). Eu, que tinha resolvido usar rímel pra dar uma melhorada geral no astral, me ferrei.
janeiro 14, 2005
Yahoo! É um menino!
BUCARESTE (Reuters) -- O jornal Daily Libertatea noticiou que um casal romeno decidiu batizar seu filho com o nome de um conhecido portal de Internet. Cornelia e Nonu Dragoman, ambos moradores da região da Transilvânia, se conheceram e decidiram se casar depois de um relacionamento online de três meses. Eles tiveram seu primeiro filho nesse Natal, e decidiram batizá-lo Lucian Yahoo. "Nosso filho se chama Lucian Yahoo por causa do nome do meu pai e da Internet, os pontos de referência mais importantes da minha vida," disse Cornelia Dragoman.Se a moda pega, a quantidade de Carlos ICQ Júnior da Silva Johansson, Antônio Big Foot de Oliveira Smith, Mariana Alta Vista da Rocha Marineau, Paulo Google Machado Campbell não vai estar no gibi... (A notícia original, em inglês, aqui.)
Eu, hein. Se for pra sacanear o próprio filho com um nome desses, sou mais isso aqui. Hohoho.
setembro 01, 2004
Variadas
Hoje ninguém me derruba, nem a chuva que cai insistentemente lá fora desde ontem, nem o resfriado que insiste em tentar se estabelecer. Ainda resisto. Faço exercícios de "Yoga para nervosos" (hohoho, adoro esse título), do professor Hermógenes e vou segurando as pontas até quando der. Mas tenho uma teoria: tal qual as crianças que começam na creche e "pegam" todos os tipos de bugs, o recomeço das aulas na universidade também pode facilitar resfriados e pentelhações variadas.
Quero mandar um beijo especial pra Pururuquinha. *smack!* :c)
Hoje tem filme maravilhoso na TV: "Tea with Mussolini", com a incomparável Judi Dench e com direção de Franco Zeffirelli. Tem alguma coisa especial em filmes de/sobre ingleses na Itália. Não sei o que é. Desde "A Room with a View", do fantástico James Ivory, que vi ainda adolescente, me amarro no estilo. Adoro o cinema inglês em geral, mas meus favoritos são todos aqueles com a Emma Thompson, o Antony Hopkings e até o Kenneth Branagh, tipo "Vestígios do dia" (também James Ivory) e "Muito barulho por nada". Isso sem falar na minha "queda" por Stephen Fry (o gordo-feio mais lindo do cinema) e, claro, John Cleese e a galera do Monty Python.
agosto 15, 2004
Filmes
O "Lost in Translation" é muito bonito, tanto do ponto de vista visual (Tóquio e a cultura japonesa são mesmo muito interessantes) quanto emocional. Fiquei meio apaixonada pelo Bill Murray no filme. (Ah, eu sei, ele é feio, mas isso nunca me incomodou). A Scarlett Johansson é uma versão mais harmônica da própria Sofia Coppola (reparem os meio-sorrisos que ela dá e comparem com os mesmos meio-sorrisos da Sofia no último "Poderoso Chefão"). Duas pessoas buscando a felicidade, lidando com suas próprias expectativas de vida e se perguntando "Is that all that is???", não é exatamente o mais criativo dos temas. Mas a execução é de primeira. Muito delicado.
Chorei e ri quando vi "Under the Tuscan Sun". Lindo assistir o que a traição fez com a personagem da Diane Lane (ótima), a maluquice de comprar uma casa aos pedaços e a ir reconstruindo, assim como à sua vida. AM-EI conhecer Positano (foto). Ri com o romance pela Internet da velhinha italiana e seu namorado equatoriano; da noite de tempestade; do operário polonês trêmulo de tesão, dos insetos e dos italianos mais lindos que adoram mexer com você nas ruas (e isso é verdade mesmo). Chorei com os reveses do amor; com o triste eletricista/operário que era professor de literatura na Polônia; com a chegada da amiga grávida; com o casal jovem que ousa acreditar; com a placa onde se lia "Polonia" que os trabalhadores colocaram no muro da casa já pronta; com o velhinho e suas flores diárias.
Mas, claro, o filme é americano, tinha que ter o tal do happy end. Não acho que tenha estragado tudo, mas é meio previsível. Poderia ter ficado sem. Mesmo que a gente, no fundo, no fundo, goste quando as coisas terminam bem. Agora fiquei com uma dúvida: alguém aí sabe me dizer qual era o nome do escritor polonês cujo livro a Diane Lane dá pro professor de literatura/eletricista??? É só curiosidade besta mesmo, mas queria saber (já entreguei o DVD).



Saiu no meu jornal: Tudo indica que "O amor nos tempos de cólera", de Gabriel Garcia Marquez vai virar filme nas mãos de um estúdio americano. O autor colombiano, muito doente com câncer, resolveu aceitar a proposta de Hollywood. Só nos falta torcer para que eles façam um filme decente e não um horror como "A casa dos espíritos", cuja versão cinematográfica é tão ruim que me deixa revoltada (eu amo o livro).
agosto 03, 2004
No rádio
Vocês sabem que os suecos têm suas tradições - algumas muito boas, outras nem tanto. Uma das melhores, no entanto, é o programa de rádio chamado "Sommar" ("Verão"), criado em 1959. Em junho, julho e agosto, durante 90 minutos todos os dias, uma série de pessoas conhecidas de uma forma ou de outra (atores, jornalistas, escritores etc) contam memórias, acontecimentos marcantes e tocam música que lhes marcou a vida.
É fascinante porque parece que estamos lendo o diário da pessoa em questão, ouvindo a voz dele/a contar isso e aquilo. Como trata-se de um programa bem íntimo - o que é surpreendente vindo de suecos - a sensação é incrível, como entrar numa área proibida. Escrevi esse post ontem, enquanto ouvia à história de Mikael Persbrandt, ator sueco e único homem capaz de me roubar do meu urso :c))) Primeira música escolhida por ele: The Clash, "Should I stay or should I go".
Mais cedo, ontem ainda, ouvi ao Jonas Hassen Khemiri, o escritor do livro "Ett öga rött" (sobre o qual já escrevi aqui) e fiquei emocionada com a história da vida dele. Entre as músicas que ele escolheu está "I get out", de Lauryn Hill, que diz assim: I get out, I get out of all your boxes//I get out, you can't hold me in these chains//I'll get out//Father free me from this bondage//Knowin' my condition//Is the reason I must change.



Terminei de ler ontem o "Historien om Michael K", do J.M. Coetzee. Muito bom. Parece que o cara não usa caneta pra escrever, mas um raio laser. A história de Michael K é tão enxuta e contida que dá até nervoso. Você acompanha Michael durante a primeira parte do livro (150 páginas) sem saber exatamente o que está acontecendo. Depois, nas partes II e III, tudo fica mais claro. Você entende o por quê da vida extrema vivida por ele. Ótimo livro sobre um outsider voluntário. Uma pessoa que se nega a ser objeto nas mãos alheias.

Falando em livros, quem estiver no Rio no dia 14 de setembro tem um programa ótimo pra ir: a noite de autógrafos do livro "Como fazer CDs de alta qualidade" (Ed. Campus), do meu amigo André Machado (jornalista do caderno de informática do Globo) e do Aroaldo Veneu. Vai ser na Livraria da Travessa, em Ipanema. Se eu estivesse no Brasil ia lá dar um beijinho no André. Deve ser fe-no-me-nal estar lançando seu primeiro livro. Parabéns, queridoco! Boa sorte! :c)
julho 21, 2004
Mais diferenças
No livro sobre o encontro de culturas (dia 17), a Birgit Öberg escreve sobre uma série fascinante de diferenças entre os países que ela conheceu. Além da coisa de falar sem parar, há ainda a idéia de distância corporal entre pessoas num encontro informal. Diz lá no livro:
"Em várias piadas contadas por sulamericanos, ri-se da chamada 'Dança de Cocktail' que acontece quando o sulamericano dá um passo adiante para poder conversar no que pra ele é uma distância amistosa (não-formal) e o norte-americano dá um passo pra trás, porque essa distância pra ele é demasiado pequena. A aproximação é entendida como ameaçadora ou familiar demais, principalmente em se tratando de dois homens".Noto isso aqui direto. Eu não desvio quando alguém se aproxima pra falar bem próximo a mim - a não ser quando a pessoa é completamente desconhecida ou cheira mal (hohoho). No capítulo em que Birgit Öberg fala do toque, confirmei o que eu já tinha observado entre casais suecos e brasileiros. Diz lá:
"Um pesquisador estudou casais em cafés de rua em cidades distintas. Um casal em San Juan, em Porto Rico, se tocou 180 vezes em 10 minutos de observação. Durante o mesmo tempo, casais franceses (em Paris) se tocaram 110 vezes, enquanto americanos de Gainsville, Flórida, e ingleses de Londres, tocaram-se duas vezes durante os dez minutos de observação".Isso é estranho. Pertenço à raça das pessoas que gostam de "se comunicar com as mãos". Porém, uma vez ultrapassei um desses limites culturais no que diz respeito ao toque. Foi numa entrevista coletiva com um executivo americano da Microsoft (pra quem não sabe, um dia fui uma jornalista de tecnologia). Eu tinha que voltar pro jornal pra fechar a matéria e precisei sair no meio do lance. Como nunca poderia deixar de me despedir do convidado principal e ele estava olhando para outro lado, o toquei de leve no ombro, como que para chamar sua atenção.
Pra que. O homem deu um pulo pro lado e me olhou como se eu estivesse me preparando para atacá-lo, escalpelá-lo (é assim?) e comer seu cérebro com um garfo. Nunca me esqueço da expressão de surpresa - e, porque não dizer, medo - nos olhos dele. Eu também fiquei surpresa, também fiquei insegura e acabei deixando pra lá a despedida. Sabe deus do que um americano é capaz quando acuado, certo? :c)))
julho 20, 2004
Pelos cotovelos
Conversei ontem no telefone com a Liza e reparei uma coisa ótima: ambas falamos ininterruptamente, puxando um assunto de dentro do outro. Essa é uma das coisas de que mais sinto falta no meu dia-a-dia: o ritmo da conversa brasileira (ou latina). Explico. Os suecos têm como hábito ouvir a pessoa que fala sem interromper. A grande diferença é que eu fui "treinada" na chamada conversa sem fim, onde se engatilha um assunto no outro e num fôlego só cobre-se desde política até culinária, passando por saúde, amor e as últimas fofocas.
Uma das coisas que tive de aprender quando vim morar aqui é colocar um ponto final evidente no que estou dizendo. Isso porque o sueco espera pacientemente que você pare de falar para que ele possa dizer o que pensa. Birgit Öberg (livro do dia 17) comenta sobre o desencontro de suecos e povos árabes e/ou sulamericanos quando conversam. Nós esperamos ser interrompidos com perguntas, mas como eles não as fazem, continuamos a falar. Eles esperam que paremos de falar para fazer suas perguntas.
Nós achamos que os suecos são mal-educados por não se interessarem em nada do que falamos (por não fazerem perguntas) e eles nos acham incrivelmente mal-educados por simplesmente não parar de falar! (Esse tipo de coisa não se aprende na escola, temos que conviver com eles pra reparar. Fazer essas descobertas é, pra mim, a parte mais fascinante de morar fora do Brasil.)
julho 18, 2004
Armas de destruição em massa
Ouvi a música abaixo no rádio e achei a letra fenomenal. Veja alguns trechos:
"Whether long range weapon or suicide bomberÉ ou não é o máximo? Adoro música e poesia porque com elas diz-se em algumas linhas (e num ritmo bom) tudo o que você leva milhares de letras pra explicar num texto. O grupo, que é inglês, chama-se Faithless. Clique aqui e veja o vídeo deles.
Wicked mind is a weapon of mass destruction
Whether you're soar away sun or BBC 1
Misinformation is a weapon of mass destruction
You could a Caucasian or a poor Asian
Racism is a weapon of mass destruction
Whether inflation or globalization
Fear is a weapon of mass destruction
(...)
Whether Halliburton or Enron or anyone
Greed is a weapon of mass destruction
(...)
We need to find courage, overcome
Inaction is a weapon of mass destruction
Inaction is a weapon of mass destruction
Inaction is a weapon of mass destruction"



Na busca pela letra da música, dei de cara com um discurso do candidato à presidência dos EUA Dennis Kucinich, que é democrata e tem até um blog. Olha que bacana o que ele escreveu:
"Once again the hopes of people of two nations are being smashed by weapons in the name of eliminating weapons. Let us abolish weapons of mass destruction at home. Joblessness is a weapon of mass destruction. Poverty is a weapon of mass destruction. Hunger is a weapon of mass destruction. Homelessness is a weapon of mass destruction. Poor healthcare is a weapon of mass destruction. Poor education is a weapon of mass destruction. Discrimination is a weapon of mass destruction."Bom, né? (Seria melhor ainda se ele e os outros políticos americanos realmente acreditassem nisso e fizessem alguma coisa pra melhorar a situação).



E, pra terminar, um post copiado do meu amigo Sérgio Maggi:
1) vá até o Google
2) Digite - weapons of mass destruction - (não digite ENTER)
3) Clique no botão "Estou com Sorte" (ou "I'm feeling lucky" ou "Jag har tur")
4) Leia a mensagem de erro atentamente, a página toda.
julho 12, 2004
100 anos de Pablo Neruda
Pablo Neruda - Discurso do Banquete do Prêmio Nobel de Literatura, em 1971. Hoje Pablo Neruda faria 100 anos se estivesse vivo. Ia colocar uma poesia aqui, mas, sem livro algum seria meio difícil escolher a melhor. Teria de confiar totalmente nas fontes da Internet. Por isso, pensei nesse discurso que os laureados do Prêmio Nobel fazem quando recebem a homenagem. Que coisa linda, não? (Aliás, só tem gente boa fazendo aniversário hoje :c)Suas Altezas Reais, Senhoras e Senhores,
Viemos de longe, do que é passado e do que está dentro de nós, de outros idiomas, de países que se amam. Aqui estamos nós, reunidos em Estocolmo, que esta noite é o centro do mundo. Viemos da química, dos microscópios, da cibernética, da álgebra, dos barômetros, da poesia para nos reunir aqui. Viemos da escuridão de nossos laboratórios para encontrar a luz que nos honra e, nesse momento, nos deslumbra. Porque para nós, os laureados, é uma questão tanto de paixão como de dor.
Mas antes de agradecer preciso me concentrar, se vocês me perdoam, para me levar para bem longe daqui, para retornar ao meu país e mais uma vez sair caminhando na noite e na madrugada da minha terra nativa.
Eu retorno às ruas da minha infância, aos invernos da América do Sul, aos jardins de lilás de Araucania, à primeira menina que tive em meus braços, à lama nas ruas que não conheceram pavimento, aos índios vestidos em luto deixados pelos conquistadores, a um país, um continente escuro procurando pela luz. E se os holofotes dessa sala festiva atravessarem o mar e iluminarem o meu passado, eles também iluminarão o futuro dos nossos povos americanos, que estão defendendo seu direito à dignidade, à liberdade e à vida.
Represento esse tempo e as batalhas atuais que enchem minha poesia. Vocês me perdoem se extendi minha gratidão para cobrir aqueles que me pertencem, até aos esquecidos dessa terra que nessa hora feliz da minha vida aparecem mais reais para mim do que minhas próprias frases, mais altos do que minha cadeia de montanhas, maiores do que o oceano. Sou orgulhoso de pertencer a essa grande massa de humanidade, não aos poucos mas a muitos, cuja presença invisível me cerca hoje aqui.
Em nome de todos esse povos e no meu próprio nome eu agradeço à Academia Sueca pela honra que me foi dada hoje pelo meu trabalho como poeta. Também agradeço a esse país com suas grandes florestas e suas neves profundas, cuja sensação de igualdade e amor à paz, cujo equilíbrio e generosidade impressiona o mundo. Eu agradeço e retorno ao meu trabalho, à página em branco que espera todos os dias nós poetas para que a preenchamos com nosso sangue e nossa escuridão, porque é com sangue e escuridão que poesia é escrita, que poesia deveria ser escrita.
Página oficial de Pablo Neruda.
julho 11, 2004
Filmes e despedidas
Ontem assistimos a dois DVDs alugados: "Kill Bill" e "Love Actually". A-MA-MOS os dois. Adorei ver finalmente o quarto filme do Tarantino (tô até vendo Angelique rindo e pensando como eu estou por fora). Morri de rir quando as cabeças (assim como braços e pernas) começaram a rolar pela espada samurai da Uma Thurman. Aqueles esguixos de sangue dignos de filmes B eram um sarro. Hohoho. E agora eu preciso, preciso, pre-ci-so ver a seqüência. :c)
O "Love Actually" é uma delícia. Tão bonito. Quando os ingleses decidem fazer uma comédia romântica a coisa fica tão melhor! Adorei o roqueiro em decadência ("Kids, don't buy drugs! Be a rock star and they will give them to you for free!!!) Hohoho; a esposa traída da Emma Thompson (também, é possível não gostar de alguma coisa que a Emma Thompson faz?); e mais o português mais lindo falado pelo delicioso Colin Firth (Nossa, que homem é esse?). Muito legal.



Sexta-feira passada, dia 9, foi o enterro do pai de Stefan. Havia fila para realização da cerimônia de despedida, por isso teve-se de esperar 15 dias. (Bem-vindos à Europa socialista!) A cerimônia foi muito bonita, sóbria e delicada. A capela era pequena, de madeira e tinha na parede do altar um painel de vidro, onde podia-se ver as árvores lá fora. Emocionante.
Tudo isso mexeu comigo, com meus sentimentos de perda pessoais, com a saudade que sinto de tudo e de todos, e me fez um pouco infeliz por não estar perto da minha família. No dia-a-dia esqueço a sensação de que algo está faltando - até por ser uma estratégia de sobrevivência - mas nesses 15 dias isso foi impossível. Stefan? Ele está bem. Muito melhor do que eu, inclusive. :c)



No jornal de hoje, matéria sobre a violência no Brasil (São Paulo e Rio). Comecei a ler com uma ponta de mau humor: "Que saco", pensei, "esses caras só mostram o lado ruim! Tenho que escrever pra eles e dizer que o Brasil não é só isso". Mas aí, li a matéria do correspondente da América Latina, Nathan Sachar, e... concordei com ele. Tudo o que está ali é a mais pura verdade.
Ele não descreve apenas o tráfico de drogas, a corrupção da polícia, a negligência do governo e os horrores de uma guerra civil desfarçada que mata 50 mil pessoas por ano. O correspondente fala principalmente do medo de ser viver à beira de tanta violência 24 horas por dia. Me lembro bem dessa sensação - que ainda vive dentro de mim, até aqui onde vivo um dia-a-dia seguríssimo.
"Os pedestres que andam pela Avenida Paulista em São Paulo têm uma expressão que denota despreocupação. No entanto, não é futebol, samba ou sexo que eles têm em suas mentes. Um estudo feito pelo jornal A Folha de S. Paulo no ano passado mostrou que o que mais dominava os pensamentos das pessoas é sua própria segurança". (Tradução livre minha)
julho 02, 2004
junho 24, 2004
Palavras, palavras
Saudade é a 7ª palavra mais difícil de traduzirComo você define saudade? Pra mim, é um sentimento de falta, de cheiros, imagens e tempos passados. Uma unidade de tempo e de vida que já passou e que, por mais que esteja feliz onde estou, ainda me deixa triste por não existir mais. São pessoas que não estão presentes. É, principalmente pessoas que eram importantes e que não estão mais por perto.BBC, em Londres
Uma lista compilada por uma empresa britânica com as opiniões de mil tradutores profissionais coloca a palavra "saudade", em português, como a sétima mais difícil do mundo para se traduzir.
A relação da empresa Today Translations é encabeçada por "ilunga", uma palavra do idioma africano Tshiluba, falando no sudoeste da República Democrática do Congo. "Ilunga" significa "uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez".
Segundo a diretora da Today Translations, Jurga Ziliskiene, embora as definições sejam aparentemente precisas, o problema para o tradutor é refletir, com outras palavras, as referências à cultura local que os vocábulos originais carregam. Veja a lista completa das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:
1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. Shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada.
3. Radioukacz (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
4. Naa (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
5. Altahmam (árabe) - um tipo de tristeza profunda.
6. Gezellig (holandês) - aconchegante.
7. Saudade (português)
8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres.
9. Pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais.
10. Klloshar (albanês) - perdedor.
Valeu, Alê!
junho 17, 2004
As nuances do futebol
Estava aqui no meu canto achando ótima a cobertura do campeonato europeu de futebol pela imprensa sueca quando li o jornal de ontem e reparei que havia comido mosca. Feliz em ver um imigrante ser tratado como estrela da seleção principal, não reparei que Zlatan Ibrahimovic (foto ao lado) é, na verdade, nascido e criado na Suécia, mais especificamente na cidade de Malmö, extremo sul do país.
Aí você pergunta: ele é sueco, né? Nja*, diriam os suecos. Fui investigar na Internet pra ver se achava mais informações e vi que o que eu queria, não encontraria em documentos. Legalmente, sim, ele é sueco, mas socialmente ele AINDA é visto como imigrante de segunda geração (com um ou ambos os pais nascidos fora da Suécia). Isso apesar do sucesso que ele faz na seleção e no seu clube, o holandês Ajax, onde é artilheiro.
Nesse ponto me deu um certo desconforto, mas não o suficiente para reagir e reclamar. Hoje, no entanto, quando li o pequeno artigo de Henrik Berggren na página de opinião do meu jornal, vi que tinha mesmo engolido uma mosca. Berggren escreve no artigo Mångfaldens Zverige (literalmente "Zuécia da multiplicidade" - ele fez uma brincadeira com o "Z" em vez do "S" por causa do Zlatan):
"A Suécia ganha de 5 a 0 da Bulgária e a nação inteira dança na frente da TV. Zlatan Ibrahimovic tem um papel decisivo. Ele não apenas passa a bola para [Fredrik] Ljungberg fazer o importantíssimo primeiro gol, como faz um gol de pênalti. Mas quando Zlatan é entrevistado depois da partida, a pergunta mais importante é se ele roubou a cobrança do pênalti do artilheiro Henke Larsson"
O jornalista citou mais a baixo, no texto, uma análise feita pela pesquisadora Agneta Furvik, que escrutinou a cobertura que rádios, canais de TV, e mídia impressa fazem de Zlatan. Ela chegou à conclusão de que a imprensa em geral trata o artilheiro com raízes na ex-Iugoslávia mais duramente do que seus companheiros de time.
Berggren afirma em seu artigo que esse tratamento diferenciado não pode ser confundido com racismo, até porque, escreve ele, se assim fosse Henke Larsson (o mulato lindão da foto do post do dia 15) e a metade da selecão até 21 anos sueca seriam alvos constantes de criticismo. O que não acontece. Henke Larsson, pele escura e tudo, é idolatrado por todos, de norte a sul.
Não, não é racismo. A constante sensação de desconforto da imprensa sueca para com Zlatan acontece, segundo o jornalista, porque ele é essencialmente diferente do que todo mundo aceita como características máximas do que é "ser sueco": não se destacar nem chamar muita atenção pra si mesmo, não mostrar abertamente sua insatisfação e sempre estar preparado para obedecer às regras do grupo, ou seja, simplesmente não tomar muito espaço.
O problema - e aí é que a coisa fica interessante - é que Zlatan não é o único que quebra esse código de comportamento. Segundo Berggren, até mesmo um outro jogador-estrela, Fredrik Ljungberg (foto), meio-campo do Arsenal inglês, também tem dificuldades em personificar o ideal sueco de humildade e trabalho de equipe.
A diferenca é que Fredrik Ljungberg é sueco. Ponto final. Ninguém questiona isso. Nego pode odiar o cara - que é lindo de morrer e sabe disso - mas ninguém o desvaloriza por sua rebeldia ou ousa questionar sua convocação como titular absoluto. No caso do Zlatan, a medida é outra. Cada ato de rebeldia pesa mais.
Zlatan, apesar de nascido em território sueco, ter passaporte nacional e falar o idioma perfeitamente, ainda é visto como "quase" sueco. Quando ele se "comporta", tudo são rosas. Mas quando ele se rebela, quando "sai da linha" e deixa de ser lagom, sua condição de imigrante de segunda geração é sempre trazida à tona. É aí que o bicho pega.
* Nja é uma contração do Nej (Não) e do Ja (Sim). O resultado é esse vocábulo híbrido que, na verdade, quer dizer "Não". E pra que serve isso então? Pois é, se você fosse sueco, acharia a coisa mais sensata do mundo usar o Nja sempre que pode, para fazer o que para os suecos é um esporte nacional: evitar conflitos. Já cansei de perguntar coisas para suecos e sempre que eles me responderam com um Nja, eu sabia que a resposta pro meu pedido era negativa.
junho 05, 2004
Dia Nacional
Amanhã, dia 6 de junho, é dia nacional da Suécia e dia da bandeira. O mais engraçado é que os suecos não comemoram esse dia que, inclusive, não é feriado nem nada. Agora alguns políticos querem transformar o dia 6 de junho em feriado, para ver se conseguem espalhar o orgulho nacional pelo país. Mas essa é uma questão controversa. Pra ter mais um feriado no ano, os políticos estão propondo acabar com um outro feriado em compensação. São poucos os que aceitam a solução.
A história do dia nacional sueco é engraçada. Até 1983 a Suécia não tinha um dia nacional. Escolheram o dia 6 de junho porque já era dia da bandeira e por duas coincidências históricas: foi nesse dia que o rei Gustav Vasa, um dos líderes mais importantes da história sueca, foi escolhido para o trono em 1523, e em 6 de junho de 1809 foi criado o governo sueco, que instituiu liberdade de religião, de imprensa e de expressão como direitos dos cidadãos.
Comemora-se Gustav Vasa porque foi ele quem preparou o terreno para uma época grandiosa na história desse país, chamada aqui de Stormaktstid, ou uma época em que a Suécia era uma grande potência mundial, e conquistou Noruega, Finlândia, partes da Europa continental, até a Polônia.
Fiquei curiosa do porquê dessa indiferença toda e perguntei a três suecos, pertencentes a três gerações diferentes, o que eles achavam disso. Jenny, minha amiga da universidade, 25 anos; Stefan, meu urso, 38 anos; e Anette, também minha amiga da universidade, 45+, me disseram a mesma coisa: não se comemora o 6 de junho aqui porque simplesmente não faz sentido.
Ao contrário de toda a Europa continental e de todos os vizinhos escandinavos, a Suécia nunca participou de nenhuma guerra moderna e nunca precisou se defender de super-potências. A última guerra em que os suecos participaram ativamente aconteceu em 1809, quando eles perderam a Finlândia para a Rússia. Depois disso, a Suécia se manteve "neutra".
O que, aliás, não é fácil de engolir. Todos os três suecos que entrevistei para a criação desse post me fizeram sentir que existe uma certa vergonha em comemorar o dia 6 de junho. Isso porque até hoje há um mal estar por parte dos suecos por não terem participado mais ativamente da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, quando a ocupação alemã na Noruega foi sustentada por ferro comprado da Suécia. Além disso, soldados alemães de folga eram enviados pra casa em trens que cortavam o território sueco e voltavam à Noruega ocupada do mesmo jeito.
A ausência dessa data em que o país foi liberado ou ganhou sua independência, faz com que os suecos sejam blasés com relação às festividades do 6 de junho (apesar da festa organizada em Estocolmo. No resto do país, o entusiasmo é mínimo). O que é um contraste absurdo com a alegria finlandesa, norueguesa e dinamarquesa. O lance é tão sério para os noruegueses, por exemplo, que a apresentadora do jornal da TV4 sueca, Tone Bekkestad, que é norueguesa, fez sua previsão do tempo vestida com um traje tradicional norueguês, no último dia 17 de maio.
E esse mal estar dos suecos em geral em comemorar seu dia nacional é piorado pela comemoração ostensiva do dia pelos naz**tas, que saem às ruas com bandeiras em punho, fazem discursos inflamados etc. Os suecos em geral ficam putos da vida por não poderem içar sua bandeira porque eles temem ser confundidos com os neo-naz**tas. Agora, veja que coisa.
junho 03, 2004
Ensuecada
Acho que tou virando sueca, de pouquinho em pouquinho...
Agora que a temperatura chega a quase 20 graus, o sol brilha, eu me sinto tão bem, quase como que renascida das cinzas do inverno. Tudo é verde, "quentinho", as flores estão lindas e eu fico mais feliz apenas por isso. No Rio, a gente tem tempo bom quase o tempo todo e literalmente não dá o devido valor. Sei que repito muito esse tre-lê-lê do tempo por aqui, mas, acreditem, se vocês passassem um inverno no norte da Suécia, me dariam razão de estar exultante. E depois, falar do tempo é mais um costume sueco: quando tá frio, nego reclama. Quando tá "calor", nego reclama menos.
Recebi cartinha do meu banco. Sobre renovação de "investimentos" (leia-se uma magra conta de poupança). O mais bonitinho é que eles começam a carta assim: "Tack för lånet!" [ták foer lôônet], o que quer dizer - PASMEM! - "Obrigada pelo empréstimo!" Isso é que é civilização. O resto é Bradesco.
Desde que o pré-verão começou, sonho com nosso grill (churrasqueira portátil) que compraremos mês que vem. Nada me parece mais certo do que se deliciar com um churrasquinho gostoso. O único problema são as calorias extras... :c/
Descobri a delícia de andar nas florestas daqui. Sabia que todas as crianças suecas começam a fazer essas caminhadas na escolinha? Por isso é que todo mundo sabe nome de planta, flor e passarinho. Sempre achei isso estranho - parecia que eu só encontrava gente interessada em natureza! - mas agora eu entendo.
Já estou preparando minha listinha de livros policiais para o verão - tradição sueca. Já fazem parte da minha lista: "Da Vinci Code" (Dan Brown), "Den som fruktar vargen" (Karin Fossum), "Bleachers" (John Grisham), "Svek: Psykologisk Thriller" (Karin Alvtegen) e "Patient 67" (Dennis Lehane), entre outros.
Terminei o primeiro semestre na faculdade e PASSEI EM TODAS AS PROVAS!!!!!
Viajei quatro horas no trem Umeå-Boden, hoje de manhã, com um neo-naz**ta, acompanhado de dois pit bulls. O cara estava usando uma camiseta com alguns símbolos naz**tas (que por razões óbvias me abstenho de reproduzir aqui). Tudo estava bem até quando meu urso resolveu me ligar no celular. Nervosa, tentava batucar nas teclinhas minúsculas do telefone um SMS pra ele que dizia mais ou menos assim: "Não me ligue! Escreva SMS! Não posso falar!". Pra quê. Stefan ficou curiosíssimo e toca a telefonar sem parar. Eu não queria falar no telefone pro cara não ouvir que eu tinha sotaque estrangeiro. Quando saí do trem aqui em Boden, ele me seguiu com o olhar e eu fiquei gelada.
Agora tenho uma razão pra não apagar minha página no Orkut. Acabei de retomar contato com o Flávio, amigo dos meus tempos de Colégio Santo Inácio. O Flávio era uma das pessoas que tornava possível meu dia-a-dia naquele lugar. Que legal te encontrar, Flávio. Agora eu tô feliz. Beijoca!
maio 15, 2004
Puritana, eu?!
Tô estudando imigração, migração, discriminação e cultura. No livro "Sobre análises de imigração e trabalho social" li que cultura é tão profundamente enraizada em uma pessoa que suas manifestações mais atávicas são muitas vezes inconscientes. E mais: apenas reparamos nesses traços culturais quando saímos do nosso ambiente natural ou quando nos deparamos com algo totalmente adverso ao nosso modus operandi.
Acho que isso é a pura verdade. Nunca me senti mais brasileira do que agora (mas isso é outra discussão). Outro dia estava assistindo a um programa veterinário na TV4, um dos canais de TV mais legais daqui. A veterinária cuidava de um cavalo lindo que tinha uma espécie de curativo em uma das patas. Fiquei arrepiada quando ela arrancou a bandagem da ferida infeccionada e o pobre o cavalo soltou um guincho de dor.
No meio do procedimento, no entanto, outra coisa me chamou a atenção. Quando a imagem saía do close e voltava a mostrar o cavalo inteiro, podia-se ver ni-ti-da-men-te que o animal estava, hurrm, como dizer? Ele estava "feliz" com aquela atenção toda. Via-se toda sua, hurrm, virilidade de forma espetacular.
Como não havia fêmeas eqüinas por perto, tenho a impressão de que o cavalo foi enganado por eventuais cheiros humanos e/ou químicos usados pela veterinária. Ou então ele se amarra numa experiência sadô-masô. Só sei que fiquei envergonhadíssima ao ver aquele esplendor todo e, mesmo sabendo que estava sozinha, ainda olhei pros lados, meio que buscando alguém pra dividir minha sensação de embaraço. No final, tive de rir do meu puritanismo ridículo.
Não quero nem ver o tipo de gente que chegará ao Montanha por causa desse post depois de procurar as keywords mais cabeludas no Google. Saco.
Não vou comentar o incidente The New York Times versus Lula porque outros já o fizeram melhor. Quero apenas dizer que o governo brasileiro deveria ter se limitado ao processo jurídico. Expulsar o repórter foi demais. Além disso, tenho a impressão que a Casa Branca está perdendo a mão na guerra de influência para desestabilizar governos latino-americanos. Antes eles eram mais sutis. Por último: prefiro ter um presidente cachaceiro (se é que isso é mesmo verdade) a ter um líder assassino, corrupto, burro e moralmente falido. E tenho o dito.
maio 11, 2004
Música e política
Sábado todos os suecos (e eu também) têm um compromisso intransferível. Todos sabem que ficarão em casa, assistindo televisão. Os preparativos - pipoca, bebidas, telefone na mão para votar - já estão a pleno vapor. Tudo por conta da final do concurso de músicas Eurovision, chamado Schlager [shhhhláger] por aqui.
A Suécia tem uma relação de amor e ódio com esse concurso, visto por muitos (né, Marina? :c)) como cafona e ultrapassado. Schlager é inclusive um estilo musical, assim como pagode ou bossa nova. Metade do país assiste alegremente porque gosta das músicas, a outra metade assiste porque acha tudo cômico e exagerado - o que por si só garante a diversão.
O mais legal pra mim não são as músicas, que às vezes são mesmo horríveis, mas como cantores dos mais diversos países europeus as interpretam. Tem cada figura que eu vou te contar! Morro de rir. A Suécia já venceu o campeonato um monte de vezes, sendo que a primeira, se não me engano, foi em 1974, quando o ABBA ganhou com "Waterloo".
Esse ano a festa será em Istambul, na Turquia, devido à vitória da música desse país no ano passado. Pelo que sei, o Eurovision foi criado para que os mais diferentes países pudessem cantar em sua própria língua, mostrar instrumentos folclóricos e ritmos nativos. O problema é que agora tudo isso é visto como ultrapassado já que as regras mudaram e todo mundo pode cantar em inglês. Por isso, ninguém mais se assusta ao ver uma intérprete da Albânia cantanto hip-hop, um francês se enrolando num jazz ou uma russa dando voz a uma balada country.
O engraçado é que uma grande parte das músicas esse ano tem o mesmo ritmo: o latino. Parece que a onda Ricky Martin ainda está a todo vapor no leste europeu. A contribuição sueca, que pode ser definida como um pop sueco clássico (se é que isso existe), chama-se "Det gör ont" ("Dói" - em inglês, "It hurts") e é interpretada por Lena Philipsson, uma cantora famosa por essas bandas. Não gosto da música, mas sou exceção. Os experts em schlager dizem que ela vai ganhar! (Veja a página oficial da Suécia no Eurovision - tudo em inglês)
Hoje tem uma matéria no caderno de cultura do Dagens Nyheter sobre o campeonato. Para os turcos, a vitória do ano passado não significou apenas que eles tinham uma música melhor, mas que eles foram aceitos pela comunidade européia como quase-membro. Isso porque a Turquia está na lista de países que pediram pra entrar na Comunidade Européia (CE) mas que até agora não conseguiram cair nas graças de Alemanha, França, Suécia etc. Os turcos não estão nem aí pra música. O que eles querem é mostrar que a Turquia pode e deve fazer parte da CE. O título do artigo é mais do que perfeito: "A Turquia compete por um lugar na CE".
abril 22, 2004
Eu já sabia...
WASHINGTON (Reuters) -- Pessoas que se dizem viciadas em chocolate e pizza podem não estar exagerando, afirmam cientistas nos EUA. Um estudo com pessoas normais que estejam com fome mostra que seus cérebros "acendem" quando elas vêem ou sentem o cheiro de suas comidas favoritas. O processo é exatamente o mesmo que acontece nos cérebros de viciados em cocaína quando eles pensam em sua próxima cheirada.
"Comida aumenta o metabolismo no cérebro inteiro em até 24%, e essas mudanças são maiores na área temporal superior, insula anterior, e orbitofrontal cortices". São essas as áreas associadas com o vício. As pessoas que participaram do estudo descreveram suas comidas favoritas e como eles gostariam de comê-las. "As comidas favoritas mais comuns eram sanduíches de bacon, ovo e queijo, bolinho de canela, pizza, hamburguer com queijo, galinha frita, lasagna, churrasco, sorvete, brownie e bolo de chocolate.
Fonte: CNN
E o homem, hein? De necessidade a opção. Hohoho.
abril 17, 2004
O pão nosso de cada dia, nos dai hoje
Matéria do caderno de cultura do Dagens Nyheter, jornal que leio aqui.
Americanos que fazem dieta pesam muito nas eleições
Nem guerra nem economia decidirão a eleição presidencial americana no próximo outono (primavera no Brasil). Segundo especulações do programa Headline News da CNN, serão as pessoas que fazem dieta e que não comem carboidratos que serão um fator decisivo. Graças à ingestão de alimentos ricos em carboidratos nos sentimos satisfeitos e nos mantemos de bom humor. Sem pães, batata, arroz ou massas, ficamos enraivecidos, insatisfeitos e vingativos.
As dietas Aktins e South Beach, que mantém milhares de americanos numa disciplina duríssima, banem exatamente os carboidratos. Os efeitos colaterais desse tipo de dieta são, além do mal hálito, uma ira que aguarda apenas uma possibilidade para explodir. E é aí que Bush pode sofrer. Isso porque pessoas raivosas e insatisfeitas tendem a votar contra quem está no poder. Apenas no estado da Flórida a CNN diz que existem cerca de 300 mil pessoas em dietas duríssimas, prontas para soltar os cachorros de sua irritação e insatisfação no presidente Bush.
abril 10, 2004
Uhmmmm...
Não sei como vivi 29 anos sem caviar. Mas, calma, não virei snob não. Aqui caviar é comida comum, assim como requeijão é no Brasil. Come-se caviar no café da manhã, no lanche, no almoço e no jantar. No piquenique, no trabalho, no bar. Come-se geralmente caviar num hårdbröd, que é um tipo de pão duro e seco, típico sueco (uma delícia).
Ouvi falar que o gosto de caviar se altera quando em contato com metal - por isso é que quem é realmente "fino" come caviar com faquinhas feitas em madrepérola (eu acho, ou coisa que o valha). Mas parece que isso não quer dizer nada pros suecos, que compram o caviar nosso de cada dia em tubos de alumínio. Custa mais barato do que requeijão.
Eu gosto do caviar mild, que é cor de salmão. O caviar preto vem da Rússia, é caríssimo e muito bom, mas o gosto é muito forte pra mim. O tubo de caviar que vocês vêem na foto é uma instituição sueca, assim como a smörgåsbord, que aliás, tem sempre caviar à mão. O Kalles é a marca mais famosa daqui e uma mania nacional. Eu também aderi.
Na página da Abba (uma empresa alimentícia, nada a ver com o grupo musical), detentora da marca Kalles Kaviar, pode-se ler uma série de histórias sobre o tubinho. Entre outras coisas, algumas curiosidades que confirmam a mania dos suecos:
Acredite se quiser, mas Kalles Kaviar está presente em 250 milhões de sanduíches todos os anos na Suécia inteira.
Num tubo de 190 gramas há cinco quilômetros de caviar.
Se você apertar todo o conteúdo de todos os tubos de caviar vendidos no ano 2000 terás 85 mil quilômetros.
abril 03, 2004
Skindå, skindå
Illustration: Erica JacobsonMatéria no caderno de cultura do Dagens Nyheter de quarta (31/3):
"Nós devemos, apesar de tudo, dançar". O repórter começa dizendo que um show do Gilberto Gil foi cancelado porque o artista brasileiro teve de ficar no Brasil, já que é ministro da cultura e o governo Lula precisava dele lá, no meio de uma crise política. E depois: "Que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do mundo, todos nós sabemos porque vimos o filme 'Cidade de Deus'. A estatística é terrível: durante o final dos anos 90 matou-se quatro vezes mais crianças e jovens no Rio do que em Israel e Palestina". Parei aí e quis saber mais, de onde o cara tinha tirado essa estatística. Meu coração marcado pelas críticas européias que tive (e tenho) que agüentar calada, porque em sua maioria são a mais pura verdade.
Mas aí o repórter continua: "Essa realidade é difícil de entender/aceitar quando se ouve o maravilhoso CD "I love Brazil", que reúne música do Rio, como soa nos clubs, bares e praças*. Samba, bossa e choro em novas interpretações e misturas, onde as músicas sussuram e berram do jeito típico do Rio. Ou quando se escuta o incrivelmente divertido sambafunk do CD "Beleza!" do Trio Mocotó, grupo paulista que já nos anos 70 tocava com o genial Jorge Ben (não perca a oportunidade de vê-los em abril, quando virão a Estocolmo)."
Eu já estava mais felizinha. Aí, o repórter passa pra literatura: "O Brasil é a segunda 'terra prometida' das Américas, mas diferentemente dos EUA, que foi 'fundado', o Brasil foi 'descoberto'. A diferença denota uma diferenciação básica que existe na identidade nacional. Para Caetano Veloso, cuja brilhante auto-biografia 'Tropical Truth' está sendo lançada em pocket, o Brasil é 'um monstro católico tropical'." O repórter segue descrevendo a influência de Caetano e Gil, assim como de todo o movimento da Tropicália, teve na política nacional; bossa nova e novos ritmos baianos. No final, ele encerra explicando o início da matéria e o título: "O mundo é violento e é natural que duvidemos - mas devemos dançar mesmo assim."
* Saca só a lista de músicas do CD "I Love Brazil":
Rodrigo Lessa - Patifaria/Zeca Pagodinho - Quando Eu Contar (Iá Iá)/Trio Calafrio - Partido Em Três/Djavan - Alegre Menina/Conjunto Sarau - Minha Flauta de Prata/Maogani (feat. Joyce) - For Hall/Osvaldo Pereira - Lamentos de um Fissurado/Família Roitman - A Cabeça/Paulo Moura e os batutas - Um a Zero/Galo Preto - Sol e Chuva/Chico Buarque - Ela Desatinou/Aquilo del Nisso - Bananeira/Jorge Ben - Berenice/Fernando Moura - Paulo/Anna Lemgruber - Angélica/Carlos Malta e Pife Muderno - O Canto da Ema/Marquinhos de Oswaldo Cruz - Geografia Popular/Lui Coimbra - Astrologia (remix).
março 11, 2004
Como ver o lado positivo das coisas
Se a situação de ser sabotada por alguém já é uma experiência desagradável, auto-sabotagem é ainda pior. Comecei hoje a fazer o regime da Vigilantes do Peso e, apesar de ter comido exatamente a mesma coisa do que normalmente ingiro, passei o dia inteirinho com uma dor de cabeça colossal. (Isso não dá, Maria. Pára com isso!)
E o problema é que precisava fazer compras porque tudo o que tinha em casa (pão, queijo, leite, iogurte, arroz e um peito de galinha congelado) não era suficiente/ ou adequado. Fui até a cidade de ônibus com minha mochila vazia para acomodar o máximo de coisas pesadas nas costas.
Fiz as compras e quando fui pagar com o cartão do supermercado, ele não foi aceito. Tentei novamente, nada. E eu tinha apenas metade da quantia na carteira. Mas quando já estava me preparando para largar alfaces e tomates lá e encher minha cara de chocolate em casa, a mocinha da caixa foi um anjo e guardou a nota pra que eu pudesse ir pegar o resto do dinheiro que faltava no caixa eletrônico.
Paguei com dinheiro, o que quase zerou minha conta corrente e rearrumei a pepsi light e o leite light e mais algumas coisas (todas lights) na minha mochila. Tinha ainda duas sacolas do supermercado, uma em cada mão, cheia de frutas, verduras e cositas más.
Mas claro que em se tratando de moi, a bruxa ainda estava soltíssima. Quando apertei o passo para pegar o ônibus (aqui os ônibus têm hora certa pra passar. Se perder o das 13:35, terá de esperar 20 minutos por outro) a mochila nas minhas costas abriu parcialmente e, quando olhei pra trás, só vi um pepino enooooorme rolando pela calçada.
Parei tudo, abri a mochila e reorganizei rapidamente as compras. Já no ônibus, quase no meu ponto, o celular dispara e eu vou ficando vermelha e suada a cada acorde da musiquinha caribenha. (Onde eu estava com a cabeça quando escolhi essa música? Vou trocar já!)
Agora, em casa, dois comprimidos contra dor de cabeça depois, acho que até posso dizer que tive sorte nessa confusão toda. Senão vejamos:
1) consegui me decidir a fazer dieta (viva!);
2) a mocinha da caixa foi um amoreco;
3) tinha dinheiro suficiente na conta para cobrir as compras;
4) consegui pegar o ônibus;
5) os pepinos aqui vêm enrolados hermeticamente em plástico. :c)
janeiro 10, 2004
Não-doenças
Janeiro é mês de listinhas nos jornais daqui. Aqui tem mais uma, vamos lá. Um dos grandes problemas da política de wellfaire sueca na atualidade é como fazer a economia funcionar com tantas pessoas que se dizem doentes e faltam ao trabalho todos os dias. Basta um resfriadinho pra nego ficar em casa sem que isso represente qualquer tipo de perda monetária para ele/ela, que continua a receber o salário.
É claro que existem casos de doenças sérias, óbvio, e é fantástico poder contar com um sistema que assegura a possibilidade ao trabalhador de ficar em casa quando a situação fica fora de controle. Mas, os suecos são humanos, e alguns humanos têm uma tendência a se aproveitar do sistema mesmo quando não precisam. É por isso que um time de pesquisadores em medicina europeus estabeleceu uma lista do que é considerado como "não-doenças".
Na lista das 20 não-doenças mais comuns, apresentada pela revista de pesquisa Forskning & Framsteg (Pesquisa & Avanço), os cientistas afirmaram que envelhecer, trabalhar e ficar entediado são três condições humanas que não podem ser vistas como doenças. Isso porque o conceito de doença muda com o passar do tempo. Quando uma lista semelhante foi organizada em 1979, apenas um médico em cada cinco aceitava depressão como doença.
A nova lista de não-doenças inclui: envelhecimento, trabalho (!!!), tédio, bolsas debaixo dos olhos, pouca cultura, ser careca, ter sardas (!!!), ter olhos grandes, ter orelhas grandes, ter cabelos brancos ou grisalhos, feiúra, gravidez e nascimento de crianças, tristeza com a mudança de século, jet lag, ser infeliz, ter celulite, estar de ressaca, pouca capacidade de localização geográfica (AH! Que bom!), solidão e, claro, ter pênis pequeno.
O mais incrível não é a organização da lista, mas a cara dura dos europeus em geral e dos suecos em particular em ir procurar um médico reclamando de qualquer uma dessas coisas. Não gosto de fazer isso, mas tenho que comparar com o Brasil. Acho que todos os meus chefes iriam rir da minha cara antes de me dar um pé na bunda se eu os procurasse dizendo: "Ah, estou entediada, tenho bolsas debaixo dos olhos, vivo me perdendo e ainda tenho sardas!" Hohoho. :c)
Imagem da MillanNet.
janeiro 09, 2004
Mais gente do que carneiros
Há seis vezes mais gente no mundo do que carneiros, porém existem 2,5 vezes mais galinhas do que humanos. Os suecos gostam de uma estatística e todos os anos eles lançam o Statistik Årsbok, onde, segundo eles, "nada é pouco importante para se analisar em cifras". Está lá, por exemplo, que a maior praia da Suécia fica em Kiruna - a cidade mais ao norte do país e onde o sol não nasce nos meses de inverno. A "praia" de Kiruna - formada com lagos e rios - tem 16.773 quilômetros.
O nome de família mais comum é Johansson, que faz parte dos 20 nomes mais populares que terminam com a partícula "-son", tipicamente sueca (Svensson, Hansson, Larsson etc). Os nomes mais comuns entre homens e mulheres continuam a ser Erik e Maria (até aqui!!!), seguidos de perto por Lars [pronuncia-se Láársh] e Anna. As crianças suecas nascem predominantemente às terças-feiras, enquanto que sábado e domingo são dias paradões nas maternidades.
Se todos os habitantes da Terra se mudassem para Gotland - uma ilha sueca no Mar Báltico - cada pessoa teria meio metro quadrado para si. Se todas as pessoas do mundo resolvessem se mudar para a Suécia inteira, seríamos 15.100 pessoas por quilômetro quadrado, muitíssimo menos do que no principado de Mônaco, onde a densidade demográfica é de 21.500 pessoas por quilômetro quadrado.
Se a colheita de trigo do mundo inteiro fosse igualmente distribuída para todos os humanos, cada um receberia 95 kg do produto - nada mal! O mesmo aconteceria com a colheita de arroz. Já sabemos que existem mais galinhas do que seres humanos, então ninguém passaria fome se conseguíssemos fazer essa divisão de forma exata. Já pensou?
Durante o ano de 2002 o número de assinaturas de serviços de telefonia celular na Suécia alcançou oito milhões. Em 1900, o número de telefones em todo o mundo era de dois milhões, sendo que 75 mil na Suécia. Além disso, o número de SMS enviados no mundo já em 2001 ultrapassou a barreira do bilhão. Pessoalmente acho divertido enviar SMS, mas o que dói é o preço: 1,50 coroa por SMS. Carérrimo.
O Statistika Centralbyrån, órgão governamental responsável pela análise de tudo aqui na Suécia, e que publica o Årsbok, informa ainda que cada pessoa (acho que na Suécia apenas) ingere cerca de três mil calorias por dia (!!!!!). Desse total, 29% das calorias vêm da ingestão de pão e de comidas rápidas, as chamadas fast foods.
Durante um ano, um sueco come em média quatro quilos de biscoito de fibra (chama-se knäckebröd), 44 quilos de pão, seis quilos de bolinhos variados para se comer com o café, sete quilos de pães doces e ainda seis quilos de biscoitos variados. Além disso, a igualdade entre os sexos ainda não é uma realidade. Em 1900, o salário de uma empregada doméstica era a metade do salário de um capataz. Hoje, os salários das mulheres são apenas 83,4% dos salários dos homens.
A matéria da qual copiei as informações desse post está aqui (em sueco).
Imagem da MillanNet.
janeiro 08, 2004
Desde cedo
Outro dia assisti a um documentário, acho que da BBC, no qual crianças eram entrevistadas por uma professora que lhes mostrava algumas fotos de outras crianças: uma magra e outra mais gordinha.
Aí se perguntava pras crianças quem era a mais inteligente, a mais bonita, a burra e a feia. As respostas foram inequívocas: todas responderam que a criança mais gordinha aparentava ser burra e feia, enquanto a magra era bonita e inteligente.
Tendo em vista que as crianças entrevistadas não conheciam as das fotos, eu pergunto: como é que elas "aprenderam" a diferenciar seres humanos assim? Como??? Os pais? A sociedade? A TV? Tudo bem que crianças normalmente são cruéis e não têm vergonha disso, mas não sabia que elas poderiam ser tão candidamente preconceituosas.
Fico triste só de lembrar desse programa, mas não posso negar que foi muito interessante perceber como o ser humano funciona. Às vezes mal, mas ainda assim. Pensei nisso depois de ler o post "Crianças do nosso tempo", lá na Marcinha.
janeiro 07, 2004
Álcool e a mãe manipuladora
A sociedade sueca é profundamente organizada, cheia de leis (que são respeitadas na maioria das vezes) e de normas. Tudo é assunto para os políticos e a vida do cidadão médio é pontilhada por uma série de regulamentações estabelecidas pelo governo. Parece que a população inteira ainda vive na casa dos pais e respeita as opiniões e manias dos mais velhos sem questionar nada. Tal e qual um adolescente que sai à noite mas tem que voltar antes das 24 horas, a vida social de cada sueco é definida em uma série de políticas, como a política do imposto, do wellfaire e, claro, a política do álcool.
Sim senhor, aqui até a bebida alcoólica que os suecos consomem é uma questão governamental. Tanto que a política do álcool está sendo profundamente questionada atualmente por causa de mudanças feitas por Finlândia e Dinamarca, ambos países vizinhos, que cortaram pela metade os impostos pagos por cada garrafa de sprit. Além disso, a Comunidade Européia aumentou o limite de bebidas que podem ser transportadas entre os países, o que facilita a vida de quem traz verdadeiros carregamentos de sprit como souvenir de suas férias no exterior.
Isso coloca em cheque a política do álcool sueca porque dá outras possibilidades a quem quer beber e não consegue, devido às limitações daqui. Que não são poucas. Pra começar, a venda de todo e qualquer produto alcoólico é monopolizado pelo governo, que vende vinho, whisky, cerveja, cidra etc. em lojas próprias chamadas System Bolaget (já escrevi sobre isso aqui). Mas você só pode entrar na loja pra comprar alguma coisa depois de completar 20 anos. Antes disso nem pensar. Mesmo.
Além disso, as lojas do Systemet, como é "carinhosamente" chamado, têm um horário de abertura limitadíssimo e de uns tempos pra cá começaram a fechar nos finais de semana. E tem ainda o preço das bebidas, que é altíssimo. Minha falta de experiência na matéria me impede de comparar com outros países, mas li na matéria "Svensk alkoholpolitik är stendöd" (algo como "Política de álcool sueca está mortinha da silva"), do Dagens Nyheter, que a Suécia tem o álcool mais caro de toda a Europa.
Eu sinceramente não sei qual a saída desse problema. Isso porque sem dúvida os suecos bebem um bocado - dez litros de sprit por pessoa/ano - e uma política que tente evitar que tantas pessoas - cerca de 400 mil suecos são considerados alcoólatras - continuem a cair nas garras do alcoolismo é sempre necessária. Ao mesmo tempo, acho estranha essa intrusão governamental na vida alheia. Mas, tenho a impressão que consigo entender o porquê: aqui o estado é "pai e mãe" de quem não consegue se sustentar sozinho. Tem-se ajuda financeira para se pagar aluguel, para se ter filho, para se pagar comida, roupa etc, além, é claro do seguro saúde.
Em troca dessa ajuda total e quase irrestrita, tal qual uma mãe manipuladora, o estado exige algumas coisas. Com uma mão dá-se meios para o cidadão viver em seu próprio apartamento, estudar, tentar arrumar um emprego e enquanto não estiver empregado não passar fome nem frio. Com a outra, controla-se quase tudo na vida dele. O quanto gastou, quando, onde e porque. Saiu da linha, já viu. A maioria dos suecos, no entanto, já encontrou a saída pro problema: basta baixar os impostos aqui também, aí fica todo mundo bêbado e feliz. :c)
janeiro 05, 2004
Jornal de verdade
Contei que ganhei de natal do meu urso polar uma assinatura do melhor jornal da Suécia? Pois é, depois de dois anos e meio lendo o "arremedo" chamado Kuriren - um dos periódicos locais - posso agora me deliciar com o jornalismo inteligente do Dagens Nyheter (DN) (= algo como "Notícias do Dia"). O jornal, tanto visualmente quanto no que diz respeito a conteúdo, parece com a Folha de S. Paulo, o que não é nada mal.
Uma das coisas que me deixa mais feliz é que além das notícias em geral, o DN oferece um suplemento diário de cultura que é fenomenal, com artigos especiais, resenhas de livros, shows, peças de teatro e filmes. A matéria especial de ontem, por exemplo, foi escrita por um ex-correspondente do DN nos EUA, que voltou a visitar Washington para escrever sobre o medo do país com relação a tudo e a todos - principalmente ao terrorismo.
Ele começa a escrever sua crônica na sala de espera de Newark, em Nova York, na qual aguarda para ser interrogado por agentes do departamento de segurança nacional antes de colocar os pés pra fora do aeroporto. O título do artigo é "O país que espera pelos bárbaros", num trocadilho direto com o título de um dos livros de J.M. Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel de literatura desse ano. Mas tem muitas outras coisas que são interessantes no jornal.
Numa das páginas internas do primeiro caderno, por exemplo, leio uma pequena matéria escrita por Clas Barkman sobre como a Suécia é vista pelo mundo. Ele conta que o jornal The Philadelphia Inquirer analisou o modelo de wellfaire sueco e estabeleceu: "Existe uma espécie de liberdade de alma na Suécia. Os suecos não precisam se preocupar com seus planos de saúde ou se terão dinheiro suficiente para mandar seus filhos para a universidade".
O The Business Times, de Singapura, descreve o baby boom que acontece hoje em dia por aqui. "Durante a crise econômica que aconteceu na Suécia nos anos 90, a maioria das mulheres decidiu não ter filhos. Agora, com o envelhecimento, elas começam a ter pressa em se reproduzir." Mesmo assim, a média de nascimentos não aumentou tanto assim: passou de 1,6 para 1,7 filhos por mulher. E as suecas têm filhos cada vez mais tarde. A média de idade de mães de primeira viagem aqui é 30 anos. (ôba)
Na retrospectiva do jornal The Berger, editado em Nova Jersey, aparece que foi na Suécia que aconteceram os maiores choques do ano, com a morte da ministra do exterior Anna Lindh, e o plebiscito que disse "Não" à adoção do Euro como moeda. E, por fim, o jornal International Herald Tribune entrevista os fabricantes de whisky escocês que dizem que 2004 será um ano pródigo - tudo isso porque todos os países escandinavos baixaram muito os impostos pagos por quem compra bebidas alcoólicas. Menos a Suécia, que cobra os impostos mais altos da Europa. Mas isso é assunto pra outro post.
dezembro 20, 2003
Ontem foi dia

Queria ser linda como Arwen e forte como Éowin. Lá pelo meio do filme, dá vontade de gritar "Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!" a plenos pulmões quando os cavaleiros de Rohan atacam o exército dos orcs em frente a Minas Tirith (não estou estragando a experiência. A história é essa, está no livro três do Tolkien e é apenas uma das aventuras desse terceiro episódio da saga do anel).
Nossa, li novamente o que escrevi aí acima e parece que me tornei uma nerd de primeira linha! Ainda bem que não me aventurei a comparecer ao cinema com roupas medievais... :c)
dezembro 17, 2003
Nós e os filmes
Acredito piamente que uma pessoa é uma combinação de fatores: genes, tendências naturais e históricas e das circunstâncias de vida em geral. Por isso lemos livros aos 11 anos que não nos interessam aos 22, mas que nos fazem entender como éramos então. Com filmes é a mesma coisa. Nesse Natal eu e Stefan fizemos nossa lista oficial de DVDs - aqueles clássicos que não podemos deixar de ter em casa. Tem muitos outros, mas esses são os que nos lembramos por enquanto.
O que me pareceu estranho é que a maioria dos meus filmes foi feita nos anos 90, enquanto que muitos filmes da lista do meu urso polar são mais antigos, lá dos anos 70 e 80. Como eu e Stefan pertencemos à mesma geração, nossas idades não são a causa. Acho que o fato de ele ser nerd, europeu/escandinavo e de gostar de filmes de guerra e eu uma romântica moderna sulamericana com um gosto especial por filmes tocantes, altera um pouco nossa linha de pensamento. :c)
Lista da Maria
2001 Uma Odisséia no Espaço
Absolutely Fabulous Box
Alien Quadrilogy
¡Átame!
Blade Runner
Billy Elliot
Caça ao Outubro Vermelho
Charlie Chaplin Box
Cidadão Kane
Cidade de Deus
City of Angels
Cor Púrpura, A
Encontros Imeadiatos de Terceiro Grau
Finding Nemo
Fantástica Fábrica de Chocolate, A
Fried Green Tomatoes
Gladiator
Godfather, The (Box)
Graben i Graven Bredvid
Grease
Hermans historia
Hitchcock Collection Box 1 e 2
Indiana Jones (caixa com os quatro filmes)
In the name of the father
Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain
Nome da Rosa, O
Outra, A
Pianist, The
Philadelphia
Room With a View, A
Saturday Night Fever
Simpsons (várias box...)
Tacones lejanos
Thelma and Louise
Todos os Homens do Presidente
Vestígios do Dia
When Harry met Sally
Lista do Stefan
2001 Uma Odisséia no Espaço
Abyss, The
Alien Quadrilogy
Apocalypse Now
Band of Brothers
Black Hawk Down - Deluxe Edition
Blade Runner
Braveheart
Caça ao Outubro Vermelho
Catch 22
Charlie Chaplin Box
Das Boot
Dogma
Fahrenheit 451
Fifth Element
Finding Nemo
Full Metal Jacket
Gladiator
Godfather, The (Box)
Green Mile, The
Hermans historia
Hitch hikers Guide to the Galaxy, The
Indiana Jones (caixa com os quatro filmes)
Kellys Heroes
Leon
Life of Brian
Lost in Space
Mad Max I, II e III
M*A*S*H (filme e caixa com seriado)
Men in Black I e II
Monty Python and the Holy Grail
Nome da Rosa, O
Pianist, The
Star Trek (todos os filmes existentes)
Starship Troopers
Terminator 2
Total Recall
X-Men 2
Não pensem que estou dando uma dica pra quem quiser me mandar presentes de natal não, ok? Os DVDs que funcionam aqui não funcionam em outros lugares do mundo, nem mesmo na Europa (continente) :c(((
dezembro 14, 2003
Celulares
Vocês sabem que foram os suecos que inventaram o telefonia celular, né? Pois então, esse povo é enlouquecido por celulares. Todo mundo tem pelo menos um e aqui em casa não somos diferentes: Stefan tem dois e eu acabei de ganhar o meu segundo. Quando cheguei aqui, ganhei do meu Urso Polar um Siemens pequenininho, que me serviu bem até agora. Mas a bateria foi pro espaço, então tivemos que tentar achar uma solução. Foi aí que tivemos uma grata surpresa.
Entramos na loja e fomos recebidos muito amigavelmente pelos vendedores. Todos conhecem Stefan, que leva seus telefones celulares lá como quem chega ao veterinário com seu cachorrinho ou gatinho amado. Perguntamos quanto custaria uma bateria nova e ficamos sabendo que poderíamos ganhar um celular novinho, caso continuassemos a ser assinantes do DOF, um serviço de telefonia celular. Alltså, o telefone sairia de graça!
Assinamos o papel, que não significa que teremos de pagar qualquer tarifa a mais, e escolhemos um celular bacanérrimo: um Sony Ericsson T230. E tem mais. Esse telefone vem com uma câmera e tem tantas possibilidades tecnológicas que eu ainda não consegui entender se quer como fazer ligações com ele. :c) Nem preciso dizer que quem está servindo de babysitter pro Ericssonzinho é meu Urso Polar, né? Fissurado! :cDDD
E o Saddam, hein? Preso num buraco no chão... A única coisa que não é muito boa nessa história toda é que agora os EUA e o mundo têm que agüentar o Bush por mais quatro anos... Sim porque agora ele não perde mais a eleição do ano que vem.
Hoje é o terceiro advento. Logo logo é o quarto e dezembro segue rapidamente para o seu fim. Amém!
dezembro 08, 2003
Televisão
Outro dia resolvemos ir ao cinema. Só que era um dia repleto de boas atrações na TV e eu comecei a programar o vídeo pra não perder nada. Meu Urso Polar estava ao meu lado e se espantou quando terminei de digitar todos os códigos dos programas, seis no total. "Jisses", disse ele de olhos arregalados. "Quando cê vai ter tempo de ver tudo isso?!". Aí, nesse momento, descobri nossa primeira diferença essencial: ele tem vergonha de assistir televisão.
Imediatamente perguntei: "Cê tem vergonha de gostar de TV?" e ele admitiu. Aqui, como no Brasil, as pessoas apenas "passam" pelos programas da moda, ninguém assiste. Tudo bem que gostar de Big Brother vai um pouco além da minha capacidade. Eu realmente nunca vi um capítulo sequer, nem aqui nem no Brasil. E quero permanecer ignorante no que diz respeito a isso. Mas a-d-o-r-o televisão e não tenho problemas em assumir.
Cresci com televisão e ainda me lembro quando ganhamos nossa primeira TV a cores. Foi no meio de uma copa do mundo, mas eu não consigo lembrar qual. Só recordo a delícia que foi olhar pra TV e ver o gramado verdinho... :c) Sempre soube cantar todos os jingles dos anúncios e, devo dizer, a televisão nunca me fez burra. É claro que minha cultura não se limita à TV. Leio livros, revistas e jornais diariamente. Vou ao cinema e ao teatro. Escuto rádio.
Tenho orgulho de ver programas interessantes, alguns menos informativos e mais, uhnn, digamos "leves", e outros puramente comerciais. Adoro. Já falei que a TV pública sueca é de primeira linha, né? Então, documentários internacionais não faltam o que me deixa feliz da vida. Assisto de tudo, desde a situação massacrante das crianças do Afeganistão, passando por um concurso infantil de Miss nos EUA até um programa inteiro dedicado ao império do Berlusconi.
Foi esse o último documentário que assisti semana passada. Uma hora de entrevistas com jornalistas de TV e mídia impressa italianos que contavam como o primeiro ministro domina 90% da mídia do país. Fantástico. Quando Berlusconi ganhou imunidade a ações na justiça todos os jornalistas italianos fizeram uma greve de protesto por causa da censura a que são expostos. Um importante jornalista com anos de experiência chorou de revolta numa reunião dos grevistas.
dezembro 02, 2003
Batatas
Quando ainda estava no início do meu aprendizado de sueco, lia tudo o que me parecia fácil. Anúncios simples de jornal, a editoria de família com retratos dos bebês recém-nascidos, seus pais e irmãos e um textinho mínimo, informando o nome da família e as medidas do pimpolho. Lia também receitas de comida, tanto que uma das primeiras coisas que consegui escrever sem erros em sueco foi a lista de compras aqui de casa.
Agora que å, ö e ä já não são mais problema, ainda fico encantada em poder ler sobre quem casou com quem, quem teve filho, se foi menino ou menina e qual o tamanho da criança. Devo admitir que nunca li sobre pessoas que conhecesse, mas isso não diminui minha curiosidade. Hohoho. E continuo lendo receitas, claro, mesmo não tendo mais tanto tempo pra fazê-las.
Pois estava lendo a revista "Buffé", editada pela maior cadeia de supermercados sueca, chamada ICA, e vi que a edição inteira era dedicada à batata. Tem até uma receita de uma torta de batatas com espinafre que me pareceu interessante. Mas, ao lado dessa receita, vi um tijolinho com informações sobre a batata na Suécia, explicando a importância do tubérculo pra eles. É bem legal.
Você sabia que...
cerca de um milhão de toneladas de batata são colhidos anualmente na Suécia.
cada sueco consome cerca de 56 quilos de batata por ano (eu não entro nessa estatística. Aqui em casa só comemos arroz)
a batata é o quarto produto mais produzido no mundo, ficando atrás apenas de trigo, milho e arroz.
a maior parte da colheita de batatas do mundo acontece na Rússia, na Polônia e nos EUA.
a batata-doce não é parente da batata comum (hummm, será mesmo?)
batata em sueco formal é potatis mas o tubérculo também é conhecido como pantofflor e pärer em alguns dialetos suecos.
uma única batata é o suficiente para suprir a metade da quantidade diária necessária de vitamina C por um adulto.
uma pessoa pode sobreviver por muitos anos com uma dieta composta por apenas batatas e leite (será?)
existem centenas de tipos diferentes de batatas. A mais popular na Suécia é a chamada bintje (nunca provei).
Fui pesquisar um pouco sobre a batata na Suécia e achei sites incríveis. Desde uma empresa em Gotemburgo que vende batatas semi-prontas, até esse site aqui, Allt Om Potatis (Tudo sobre Batatas), que é fenomenal. (O único problema é que o site é em sueco...)
novembro 30, 2003
Primeiro Advento

Hoje os suecos comemoram o Primeiro Advento com o Dia da Vitrine. Antigamente as lojas preparavam suas vitrines de Natal durante toda a semana por trás de proteções de papel. As surpresas eram desvendadas no domingo, mas as lojas permaneciam fechadas e as pessoas tinham que se contentar em apenas olhar e planejar o que comprar.
Hoje em dia a grana fala mais alto do que o desejo romântico coletivo e todas as lojas abrem - e vendem pra burro. Acabamos de voltar da cidade e eu nunca vi tanta gente no centro de Boden antes. Um milagre! A temperatura também está ajudando: dois graus positivos, sem vento! Maravilha!
Meu urso polar me lembrou que havíamos ido à cidade nesse mesmo dia, um ano atrás. Me lembrei que estava gelado, um vento frio horroroso e eu só queria ir embora dali, não vi vitrine nenhuma e voltei pra casa com os lábios azuis. Como nossa vida e nossas percepções mudam no espaço de um ano, hein?
São comemorados quatro adventos durante o mês de dezembro, todos os domingos, até o Natal. Comemora-se a chegada de Jesus, que como vocês sabem, acredita-se ter nascido dia 25 de dezembro. Há, então, uma série de rituais aqui, todos incluindo velas e luzes. Bem bonito. No primeiro advento pendura-se uma estrela na janela para significar a estrela que brilhou em Belém quando Jesus nasceu.
Há ainda o costume de se colocar quatro velas como centro de mesa e se acender uma delas em cada domingo. Eu não adotei esse costume porque tenho pânico de o apartamento começar a pegar fogo. Eu e Stefan não temos lá muito boa memória, então achei melhor me limitar à estrela, que vocês podem ver na foto acima. :c)

novembro 29, 2003
Brasil na mídia escandinava
Acho que deve ser a saudade, porque venho percebendo ultimamente uma verdadeira inundação de Brasil por todos os cantos. A revistinha distribuída nos cinemas daqui traz uma matéria super positiva sobre o filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Fico orgulhosa pelo filme, mas não pelo que se mostra nele (apesar de ainda não tê-lo visto).
Na quarta-feira estava assistindo ao programa do Jamie "The Naked Chef" Oliver e levei um susto quando ele começou a descrever os pratos que iria fazer: uma feijoada e pratos brasileiros. Parei no ato e não mudei de canal. Na cozinha toda enfeitada com bandeirolas do Brasil, ele cozinhou junto a "Sante" (deve ser uma variação do nosso "Santos"), um brasileiro - acho que carioca - que trabalha com o inglesinho há oito anos em Londres.
Eles fizeram de tudo: a feijoada me pareceu bem autêntica, apesar de o Jamie ter perguntado se não dava pra colocar uns tomates (!) ou umas batatas (!!!!!!) no feijão. O Sante quase caiu pra trás, claro, como qualquer brasileiro honrado. Mas o inglesinho não se deu por vencido e fez até bolinho de bacalhau, só que sem o bacalhau, mas com um outro peixe branco. E só pra sacanear o Sante, mudou a receita e botou chili no bolinho. Heresia! Heresia!!!!! :c)
Aí, no outro dia, estou eu assistindo à minha série dinamarquesa favorita "Nikolaj och Julie" e a Julie está jantando com a irmã, Søs, e um companheiro de trabalho dela. E o que está tocando de música de fundo? Sim, ele mesmo, João Gilberto. E não é a primeira vez que ouço música brasileira como background na TV. Um dos anúncios de um creme Nívea também tem música brasileira, dessa vez mais rápida, acho que da Daniela Mercury.
E como se isso já não fosse o suficiente, uma amiga que mora aqui perto me disse que a revista "Sköna Hem" [shôna rrem], algo como Casa Bonita ou Casa Confortável (o adjetivo skön é bem versátil) fez uma reportagem enorme sobre o Brasil. Comprei a revista e vi que não é apenas uma reportagem, mas uma edição inteira dedicada à arquitetura brasileira no Rio e em São Paulo.
O que é mais legal é que não se fala puramente de arquitetura, mas a matéria conta o que é ser brasileiro e tem insights muito bacanas. Diz lá: "Em São Paulo pergunta-se: 'Onde você trabalha?'. Enquanto que no Rio, a pergunta é outra: 'Onde você vai à praia?'". E olha, mesmo temendo as piadinhas dos meus amigos paulistas, devo dizer que isso é a mais pura verdade. :cD
Acreditem ou não, aqui está dois graus POSITIVOS. O maior presente de Natal pra uma carioca que não poderá ir derreter no verão do Rio esse ano. (Só pra esclarecer: a temperatura média dessa época do ano no local onde eu moro vai de 5 a 15 graus negativos. Por isso estou tão feliz.)
Essa semana foi complicada e não pude responder a emails nem visitar os blogs de vocês. Sorry. Logo, logo volto ao normal, ok? :c)
novembro 25, 2003
Bowling for Columbine
Acabei de voltar do cinema. Minha turma de sueco foi assistir ao documentário "Bowling for Columbine", do Michael Moore (foto), que ganhou o Oscar esse ano. Excelente! Que filmaço! A história do documentário é simples: como os americanos são amedrontados diante de tudo e de todos e como a relação deles com armas de fogo não ajuda em nada a acabar com esse medo.
O filme é legal porque fala de assuntos importantes como violência, racismo e política de forma simplificada e irônica, mas muito inteligente. A parte do documentário que mostra o massacre de Columbine é tocante. Mostram-se os filmes de segurança da escola, com os estudantes sendo mortos na biblioteca da escola e os matadores com armas nas mãos, procurando as vítimas.
Mas o filme é muito mais do que isso. Moore visita vários estados americanos e usa imagens jornalísticas para descrever o medo constante com qual a sociedade americana é obrigada a viver no seu dia-a-dia. O filme é mais uma reflexão sobre o poder dos EUA no mundo e de como esse poder muitas vezes é exercido com violência. Eu recomendo muitíssimo.
Só pra fechar o assunto do islamismo, queria dizer o seguinte: nunca fiz apologia de repressão às mulheres. Aliás, o exemplo das mulheres foi infeliz. O que tentei dizer mas não consegui expressar, é que admiro a total entrega que a fé islâmica prega. Para eles, Allah é o maior e isso não se discute. Queiram ou não, deve ser uma sensação incrível de liberdade saber que a resposta para todo e qualquer problema está ao seu alcance, no Corão.
Com isso, não digo que sou a favor nem contra o Islamismo. Estou apenas comentando minhas impressões depois do que li. Acho que deve ser uma delícia poder acreditar em alguma coisa tão totalmente e se ver livre de todas as dúvidas com as quais vivemos diariamente. Mas concordo que não poder questionar uma religião é errado, ou no mínimo duvidoso. É isso.
novembro 24, 2003
Post de segunda-feira

Não comerei da alface a verde pétala
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
Vinícius de Moraes, Los Angeles, 1947
novembro 04, 2003
A "praia" sueca
Sou carioca e cresci ouvindo que o ambiente mais democrático do Rio é o das praias - apesar desse conceito de democracia praiana ser bem polêmico, dependendo de quanta grana você tem, de onde você mora e até do seu corpo. Mas mesmo assim, os cariocas gostam de se iludir dizendo que o Rio é igualitário quando todo mundo fica semi nu estendido na areia. Pois eu acho que descobri a "praia" sueca.
Sexta-feira passada fomos comprar vinho para um jantarzinho que faríamos no sábado para amigos. Esqueci se já escrevi sobre isso, mas aqui a venda de álcool é monopólio do governo, que monta lojas, chamadas System Bolaget, em todas as cidades do país. Lá encontra-se vodka, cerveja, vinho do mundo inteiro e bebidas em geral. Enquanto esperavamos pela nossa vez, olhei em volta e tive um insight.
Os geralmente sérios e tímidos suecos conversavam animadamente entre si. Riam, sorriam. Falavam inclusive alto, o que é uma raridade. E todos ainda estavam sóbrios. Quando chegamos lá a senha que estava sendo atendida era 428. A nossa era 497. Esperamos por 30 minutos e eu percebi que tinha descoberto a praia sueca, onde todos são iguais e estão em busca de divertimento e relaxamento.
Esse fenômeno engraçado se deve ao fato da bebida fazer parte da cultura escandinava em geral e sueca em particular (assim como norueguesa, finlandesa e dinamarquesa). Enquanto na Itália e no Brasil a festa é em torno da mesa, aqui comida é detalhe. A festa só começa mesmo quando as garrafas de vodka são abertas. Acho que se encontrar no systemet - como as lojas são carinhosamente chamadas - é uma das atividades sociais mais expansivas daqui.
Passou um comercial na TV no Natal passado em que um senhor sueco teve um pesadelo e acordou gritando. A mulher perguntou o que era e ele descreveu um pesadelo horrível, o mundo iria acabar, as pessoas eram queimadas vivas e, por fim: "O systemet tinha fechado!" :c)
outubro 28, 2003
Palavrão
Outro dia estava ouvindo Stefan contar uma história e, no final eu disse: "Fy fan!", que é a versão sueca para o nosso "Que merda!". Depois de mais histórias e mais "Fy fans", meu urso polar franziu o senho e disse: "Você está falando um monte de palavrões!" Fiquei surpresa porque apesar de saber que a expressão é mesmo um palavrão (mesmo sem ser cabeludo), eu a estava usando quase como uma interjeição de surpresa.
Com o alerta de que estou por assim dizer com a "boca suja em sueco", fiquei mais atenta e notei uma coisa engraçada: quando digo "Fy fan!", saboreio as palavras, acho-as engraçadas, mesmo sabendo que são xingamentos. E isso acontece com quase todas as outras palavras que uso em sueco. Apesar de saber o que elas significam, meu pouco tempo de uso faz com que elas não tenham seu peso normal.
Acho que se invertessemos as posições e Stefan estivesse no Brasil aprendendo português e ficasse repetindo "Que merda!" o tempo todo eu também acharia estranho e impróprio. Mas, convenhamos, "Fy Fan" é muito mais bonitinho! Fy pode significar uma série de coisas, dependendo do contexto, como "cruz credo", "deus me livre", "que vergonha" ou ainda para expressar surpresa. Já fan é simples: quer dizer "diabo", "demo" ou "coisa ruim".
Esses suecos são ingênuos até quando xingam. Hohoho.
outubro 16, 2003
Habemos papam
Hoje João Paulo II faz 25 anos de pontifício. Gosto muito dele, apesar de discordar radicalmente com alguns pontos de vista tradicionais que ele defende, como a proibição ao uso de contraceptivos, principalmente camisinha. Gosto do Papa porque ele não se limitou a ser líder de uma igreja, mas atuou politicamente e ajudou muito na formação da nova ordem mundial, sem a guerra fria.
Li na BBC e gostei muito desse artigo relembrando do dia em que Karol Wojtila, um obscuro cardeal polonês, foi eleito líder espiritual de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Muito legal.
setembro 05, 2003
Sovinice
Outro dia tava pensado na causa da existência de dois traços culturais suecos: a sovinice e o orgulho do seu país. E acho que começo a entender. Primeiro a sovinice. A Suécia, acredite se quiser, sempre foi uma nação pobre, basicamente rural, até mais ou menos a metade do século XX. Não é a toa que quase um terço da população emigrou para os EUA no início do século. As condições de vida aqui não eram lá muito boas não. Depois da segunda grande guerra, no entanto, assim como no resto do mundo aliás, houve uma melhoria espetacular na vida dos cidadãos suecos, que saíram da pobreza direto para a vida burguesa.
Isso porque vocês sabem que a Suécia - o país onde o socialismo deu certo - é uma nação burguesa, né? Pois então. A partir daí, empresas de alta tecnologia começaram a prosperar e redirecionar seus negócios para mercados mais lucrativos. Hoje a Suécia é líder em ciências de ponta, que demandam muito tempo de estudo e expertise, como biotecnologia etc. A sociedade sueca saiu das plantações diretamente para os laboratórios. Muitas famílias enricaram muito rápido: conseguiram de uma hora pra outra empréstimos a juros baixíssimos e compraram casa-grande-com-jardim, carro, roupas novas para os filhos, que foram pra universidade cursar engenharia, direito ou medicina.
Toda essa rapidez fez com que os suecos não entendessem que os tempos difíceis tinham acabado e muitos ainda acham difícil dividir. Um exemplo: quando você vai visitar alguém e comete a indizível gafe de chegar na hora do jantar, não espere ser convidado para sentar à mesa, muito menos provar do jantar. A regra aqui é: chegou em hora imprópria, vai esperar na sala até os donos da casa terminarem de jantar. Depois você pode tomar café com eles. O mesmo se aplica às crianças, que passam a tarde brincando na casa dos amiguinhos e, na hora do jantar, são mandadas embora pra casa. Muitas vezes a criança até volta pra continuar brincando (isso porque os suecos típicos jantam cedíssimo, às cinco da tarde, mais ou menos).
Por mais que ainda ache meio estranha essa coisa de deixar os visitantes esperando na sala enquanto come-se na cozinha, parei de franzir o cenho para esse "traço cultural". Afinal, tudo nessa vida tem uma explicação. Até mesmo a sovinice. Mas o fato de eu aceitar não quer dizer que adotei o costume. Na minha casa é diferente: quem chega aqui na hora do jantar, senta à mesa e come (se quiser, ninguém é obrigado, claro).
Orgulho Nacional
Acho inclusive que esse crescimento espetacular fez com que o orgulho nacional sueco (por favor não confundir com orgulho nacionalista!) atingisse cada cidadão. De cabo a rabo do país a população se mostra extremamente orgulhosa do que a Suécia é hoje, de seu papel "neutro" na política internacional (isso merece um outro post), mas principalmente do Estado que propicia o bem-estar da população, o chamado Wellfare, que aqui é inacreditavelmente generoso.
Imagino que cada professor em cada escolinha das muitas cidadezinhas suecas repetiu para seus alunos as histórias de pobreza e o nascimento do Estado moderno sueco. Tenho certeza que essa sensação orgulhosa permeia todas as gerações pós-segunda guerra. Fiquei imaginando como seria o Brasil se tivéssemos o mesmo tipo de "educação de orgulho". Como cresci durante os anos 80 e me eduquei num colégio de classe média alta no Rio, nunca escutei muitas críticas ao governo. Mas hoje, pensando em tudo e com um tiquinho mais de experiência, reconheço no discurso de Lucas, um dos meus professores de História, críticas sérias ao processo democrático brasileiro.
Me lembro que estávamos estudando a Revolução Francesa (oitava série) e o Lucas descrevia com paixão o processo de luta, as conquistas, mas ainda mais intensamente, as artimanhas de Robespierre para manipular a populção. As chamadas "Massas de Manobra" eram tema central das nossas aulas e eu, meio tapada, só fui entender agora (Obrigada, Lucas!). Meu sonho é que na segunda-feira, a principal razão de piadas nas aulas em todas as escolas do Oiapoque ao Chuí não seja a vitória do time local no futebol, mas sim como a rede social brasileira funciona bem e como era antes, quando ainda existiam pessoas que não sabiam ler nem escrever e que passavam fome.
Anyway, agora vocês já sabem, os suecos são orgulhosos e sovinas, mas, pensando bem, e quem não é?
agosto 09, 2003
Eu vou pra maracangália eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou
13h17min -- Estava vendo um especial sobre a vida da Marguerite Duras. Muito tocante. Ela diz que todos os escritores começam a escrever por vingança, "para acertar as contas". Eu concordo. Conta ainda que a mãe trabalhou como professora por 20 anos na Indochina e, por ser muito pobre e humilde, se dava melhor com as mulheres chinesas do que com as européias. Já como viúva, a mãe comprou um pedaço de chão no Cambódia com as economias de duas décadas de magistério. Ela não sabia que tinha que subornar os oficiais cambojanos pra comprar terra fértil. Sua fazenda ficava debaixo d'água por seis meses por ano. Ela perdeu o dinheiro, a fazenda e o juízo.
14h57min -- Acabei de assistir a um outro documentário, dessa vez sobre Charles Chaplin, Hitler e o filme "O Ditador". Muito interessante. Não sabia da importância do filme, de como as vidas dessas duas personalidades caminharam paralelamente. O establishment judeu americano via Chaplin como um "David cômico", capaz de vencer o Golias germânico. Chaplin viu a monstruosidade de Hitler antes de muitas pessoas, que inclusive admiravam a administração do Führer no início da década de 30 por ter acabado com o desemprego e ter tirado a Alemanha do buraco. Claro, eles ainda não sabiam o que a loucura coletiva alemã estava fazendo com os judeus. O discurso final de Chaplin no filme, inspirado pela conquista da França pelos nazistas, é lindo. Uma curiosidade: Chaplin e Hitler nasceram no mesmo ano, mês e semana.
julho 30, 2003
Bulle, a receita
Atendendo a pedidos, aqui vai a receita do bulle sueco:
Ingredientes:
150 gramas de manteiga
50 gramas de fermento*
5 decilitros** de leite
1 decilitro*** de açúcar
1/2 colher de chá de sal
2 colheres de chá de kardemmuma (se tiver - não faço idéia do nome disso em português)
850 gramas de farinha de trigo
Recheio:
100 gramas de manteiga em temperatura ambiente
1 decilitro de açúcar
2 colheres de mesa de canela (pode colocar mais dos dois ou mudar o recheio pro que você quiser)
Para pincelar:
1 ovo
açúcar pérola (acho que chama "açúcar de confeiteiro" no Brasil)
Como fazer:
1) Derreta a manteiga numa panela. Adicione o leite e deixe esquentar até que atinja 37 graus (você pode verificar a temperatura mesmo sem termômetro. Basta sentir a mistura com o dedo. Quando estiver quente mas você ainda conseguir sentir com o dedo sem se queimar, está no ponto).
2) Esfarele o fermento numa tigela. Coloque a mistura de leite e manteiga e mexa até que o fermento se dissolva completamente. Adicione açúcar, sal e caso tenha, a Kardemmuma.
3) Meça a farinha. O importante aqui é despejar a farinha do pacote de forma a que ela caia direto na balança sem que você precise apertá-la por cima. É preciso que haja um pouco de ar no meio dos 850 gramas, senão fica farinha demais.
4) Adicione a farinha ao resto, mas guarde meio decilitro para trabalhar a massa depois.
5) Trabalhe a massa fortemente. Se tiver máquina, por cinco minutos. Se for na mão, dez minutos, até que a massa esteja lisa, fácil de se trabalhar.
6) Deixe a massa descansar por 30 minutos debaixo de um pano de prato.
7) Com o resto da farinha por sobre a mesa, divida a massa em quatro partes. Abra a massa com um rolo até que fique bem fininha.
8) Pincele com a manteiga por sobre toda a superfície da massa e logo depois coloque o açúcar e a canela em doses generosas.
9) Enrole a massa na forma de um rocambole e corte com uma faca as porções individuais.
10) Coloque os bulle já cortados num tabuleiro untado ou com papel especial para bakery. Deixe-os descansar por baixo de um pano de prato por mais 40 minutos.
11) Pincele com os ovos batidos e coloque o açúcar pérola por cima e asse no forno quente a 250 graus de cinco a oito minutos - ou até que eles fiquem com uma cor douradinha.
12) Deixe os bulle esfriar debaixo do pano de prato.
* Atenção pra esse ponto: uso 50 gramas de fermento fresco aqui na Suécia, com a temperatura e as condições atmosféricas daqui (humidade etc). Acho, no entanto, que essa quantidade de fermento pode ser demais se você estiver no Brasil, por exemplo. Isso porque tentei fazer um pão sueco pra minha mãe lá no Rio e, conforme a receita, tinha que colocar 50 gramas de fermento. O pão ficou uma pedra salgada.
** 1 decilitro = 100 ml (mililitros)
*** 1 decilitro de açúcar = mais ou menos 80 gramas.
julho 29, 2003
Jardins Abertos
No último domingo fui visitar quatro jardins aqui na região onde moro. É que foi o dia do "Jardim Aberto", ou Öppen Trädgård, no qual casas particulares espalhadas pelo país inteiro abrem seus portões aos visitantes que podem andar livremente pelos jardins e até comprar mudas de plantas. A casa em si, claro, fica fechada a visitação. Eu, câmera digital em punho, fiquei maluca com tantas plantas lindas, algumas exóticas, flores magníficas e as pedras cheias de musgo (mãe, essa é pra você!).
O impressionante desses jardins é que durante metade do ano eles ficam cobertos de neve e o solo, congelado. Me exaltei tanto que tirei quase 70 fotos. (!!!) Aqui estão algumas delas, divididas em categorias pra facilitar a visualização. Coloquei thumbnails leves para que vocês pudessem abrir o blog sem problemas e, apenas se quiserem, clicar nas fotos e vê-las maior. Espero que a página não fique muito pesada, mas se estiver, por favor, me avisem por email ou deixe um comentário, ok?
Imagens gerais dos jardins


Pequenas casas de jardim e outros detalhes




Hoje é aniversário da minha avó Celia. Parabéns, vó. Muitas dessas fotos eu fiz pensando em você.
julho 28, 2003
Bulle: uma instituição nacional

Mesmo no meio do frenesi de ler o Harry Potter até o final (não tenho tido tempo de ficar em casa sem fazer nada, acreditem se quiser), ainda arrangei tempo pra fazer bolinhos de café suecos. O nome original dos bolinhos é bulle, e eles são uma mania nacional. (A primeira foto mostra a massa antes de ir pro forno. A segunda, os bolinhos já prontos.)
Aliás, se você pensava que o Brasil era a nação do café, pode ir mudando de idéia. Isso porque Finlândia e Suécia respondem pela maior parte da ingestão de café do planeta - e não é aquela "água suja" que os americanos bebem não. O café fortíssimo é acompanhado pelo bulle - que na verdade são pequenos pães doces, recheados com açúcar e canela.
A combinação café+bulle é uma instituição social, cujo nome, fika, representa uma pausa institucionalizada em todos os locais de trabalho, órgãos públicos e casas particulares. Para-se tudo para se beber café e comer bulle. Todos os dias às 9h30m e às 14hs é considerado descortês fazer qualquer tipo de requisição profissional. Afinal, ir fazer a sua fika é fundamental para se formar contatos, relaxar do trabalho e conversar sobre o tempo (outra mania sueca).
Eu acho essa coisa de fika uma pentelhação, sinceramente. Apesar de gostar dos bulle, esse negócio de ficar interrompendo o trabalho toda a hora é um saco. Nos dois locais onde trabalhei era um suplício: mal chegava de manhã, sentava, lia emails e já eram nove e tanto. Pára tudo pra fika. Depois mais duas horinhas, pára tudo pro almoço. Volta, mais duas horinhas, fika novamente. Depois mais um pouco de trabalho e vai todo mundo pra casa.. jantar.
Não que eu não goste de conversar sobre o tempo ou de comer, mas sou uma criatura que precisa se concentrar no que está fazendo. Acho um saco ter que interromper a toda a hora. Mas reconheço que a fika tem seus méritos sociais. Sem esse espaço paralelo não sei como as pessoas conseguiriam se falar nesse país (nunca vi tanta gente tímida e inibida como aqui).
julho 17, 2003
Campanha
Cês viram que alguns colunistas do Globo estão fazendo blogs? Muito bacana a idéia, mas quero só ver se eles terão mesmo tempo pra atualizar as páginas. Tem gente muito interessante lá, como o João Ximenes Braga - que é um típico blogueiro - e o Cat, entre outros. Uma coisa, no entanto, deixou a iniciativa com gosto de quero mais: está faltando o blog da Ana Cristina Reis. Alô, alô Globon!!! Sem a Ana Cristina não dá!
junho 27, 2003
Cotidiano, Matrix e a Banda de Ipanema
Vou fazer um monte de coisas hoje. A saber:
pensar no que fazer pro fim de semana (minha sogra vem nos visitar);
deixar a bekräftelse no Komvux;
ir pegar meus óculos;
fazer compras;
ler o livro da Annie Holt (ótima escritora norueguesa, recomendo!);
esperar duas semanas pelo novo livro do Harry Potter.
Ah, no outro dia fui assistir Matrix Reloaded. Bom, né? Gostei muito das cenas de efeitos especiais. O filme em si, no entanto, é nada. Confesso que me perdi nas voltas e reviravoltas "intelectuais" de Morpheos, do Oráculo e do próprio Neo. Fiquei sem saber se o que era ainda é ou se já foi.
Como me perdi lá pelo meio do filme, achei melhor me concentrar nas cenas em que eles evitam as balas dos agentes. Gente, aquela cena da Trinity caindo do prédio em meio a estilhaços de vidro é tudo. Muito boa. Ah! E a festa de Zion? Não é a cara do baile da Banda de Ipanema??? Digam-me a verdade! :cDD
junho 20, 2003
Midsommar e o símbolo sexual masculino
Minha enxaqueca melhorou, mas ainda estou sentindo os after-shocks. E o pior é que é hoje que se comemora o Midsommar sueco, ou a chegada do verão de verdade (temperatura acima dos 20 graus) - o que normalmente se faz com amigos reunidos ao ar livre e muita bebida. Mas, apesar de ter os amigos e de ir pruma festa ao ar livre, não vou nem tocar num copo de cachaça. :c)
Aliás, essa coisa do Midsommar é engraçada. É, indiscutivelmente um dos feriados mais comemorados pelos suecos. É a época em que a maioria dos quase nove milhões de habitantes desse país está saindo de férias, pode relaxar e, claro, beber. A tradição manda que a família ou os amigos se reúnam no jardim da casa de alguém, com mesa posta e lugares sentados, onde serve-se um menu fixo.
A saber:
Salmão
Sill (que é
um peixinho que parece ser sardinhaarenque. Eu gosto muito, principalmente quando vem com molhos de mostarda, ervas, alho etc.)
Batatas cozidas
Presunto
Roast beaf
Salada de batatas
Tradicionalmente, o Midsommar é comemorado hoje, mas é amanhã que é a data do solstício de verão, o dia mais longo do ano. A partir daí, o número de horas de luz começa a descrescer até o equinócio de inverno, lá pertinho do Natal.
Além da comilança, a tradição também prevê a dança em volta do Midsommarstång, essa figura aí de cima, cuja introdução data do século XV e tem origem na Alemanha. O Midsommarstång é um símbolo de fertilidade e é visto, inclusive, como um símbolo do órgão sexual masculino. (Ha! Freud ia adorar essa...)
E depois de comer e beber a vontade, os suecos cantam. Isso mesmo. A bebida principal do Midsommar é snaps, ou o famoso aquavit. É fortíssimo. Fica todo mundo bêbado. Aí cantam-se as chamadas snapsvisor, ou as rimas de snaps. Meu Urso Polar fez uma pesquisa abrangente e escolheu várias para cantarmos hoje. Veja uma delas:
Namn: Drinking song
Melodi: When I m 64
When we get drunker
losing our minds
many beers from now.
Will we still be having us a real good time?
Whiskey, Gin and a bottle of Wine.
So fill up your glass now,
get drunk as a skunk
don't say you want no more!
We are the singers,
we are the swingers.
Join us, you won't get bored!!
maio 09, 2003
A vida como ela é
Então, aí você leu o post de baixo e pensou: "Que mamata! Essa garota deve estar se dando bem! Mas, péraí, li todo o bla-bla-bla dela aqui e acho que ela não tem filhos. Que burra! Para de choramingar e embuxa logo, menina, aproveita!". Parece meio grosseiro, né? Mas, acreditem, eu já ouvi isso. O problema é que não é tão simples assim.
Primeiro, o custo de vida na Suécia é um dos mais altos do mundo. Se por um lado tem-se quase tudo de graça (escola, saúde etc), por outro, diversos itens básicos, como comida e moradia por exemplo, saem caros para qualquer um. E não esqueçamos dos impostos, né?
Vamos analisar a situação de Anna Johansson, uma mulher sueca qualquer. Seu salário é de 10 mil coroas por mês (antes do imposto), mas ela irá embolsar apenas sete mil. Três mil são descontados na fonte. Se a nossa Anna mora de aluguel, ela precisa morar mal e pagar cerca de dois mil coroas por um quarto-e-sala. Os cinco mil restantes, têm que ser esticados para pagar as contas de luz e todos os impostos (aqui paga-se licença para tudo, até para se ter televisão e rádio), além de comida, roupas e transporte.
Pouco, né? Se a Anna for casada isso pode melhorar, caso o marido dela trabalhe (ou viva do social, como uma multidão de suecos faz). Aí o casal terá um pouco mais de grana para completar. Mesmo assim, os gastos são enormes, mesmo com a ajuda do Estado.
Uma matéria interessante foi publicada ontem no jornal que eu assino: faz as contas de quanto custa ter um filho. (Os suecos são engraçadíssimos: tudo é tão contabilizado, anotado, declarado. Essa organização me enternece). Bom, voltando. Diz lá na matéria:
Uma criança recém-nascida (0 anos) = 1.450 coroas
1-2 anos = 1.480 coroas
3 anos = 1.170 coroas
4-6 anos = 1.440 coroas
7-10 anos = 1.730 coroas
11-14 anos = 1.930 coroas (meninas) e 1.980 coroas (meninos)
15-18 anos = 2.060 coroas (meninas) e 2.220 coroas (meninos)
Primeiro é importante saber que um dólar é equivalente a sete coroas. Façam as contas se acharem necessário.
Essas contas todas levaram em consideração gastos com comida, roupas, sapatos, higiene, lazer, seguros de saúde e de acidentes pessoais. Segundo a reportagem, a razão dos meninos custarem mais do que as meninas é que os adolescentes homens comem mais.
Imaginem se a nossa Anna Johansson fosse mãe solteira (o que não é incomum aqui - apesar de aborto ser legal e aceito socialmente). Ter de viver e sustentar uma criança com apenas cinco mil coroas por mês é um sacrifício. É... o paraíso não existe, minha gente.
maio 07, 2003
O Estado sueco é uma mãe
Suécia é o melhor lugar do mundo para ser mãe
10:18 06/05 ReutersWASHINGTON (Reuters) - A Suécia, a Dinamarca e a Noruega são os melhores lugares do mundo para uma mulher ser mãe, enquanto os piores são os países pobres da África, como Níger e Etiópia, revelou um estudo divulgado na terça-feira.
No "Índice Maternal", publicado todo ano pelo grupo Salvem as Crianças, comparam-se as condições de vida de mães e filhos em 117 países, 43 dos quais sob guerra ou recém-saídos de conflitos armados. A Suécia, a Dinamarca, a Noruega, a Suíça e a Finlândia ficaram com as cinco primeiras posições, seguidos pelo Canadá, Holanda, Austrália, Áustria e Grã-Bretanha. Os EUA ficaram na 11a. posição.
O Brasil ficou com 44o. lugar, atrás de Cuba e Chile, ambos no 15o, da Argentina, no 19o. e da Colômbia, no 24o. Segundo o estudo, Níger, Burkina Fasso, Etiópia e Guiné-Bissau ficaram nas últimas posições, junto com Angola, Chade, Mali, Iêmen, Serra Leoa e Guiné.
"De cada 7 mulheres de algumas regiões da África, 1 morrerá durante os trabalhos de parto ou na gravidez. Na Suécia esse número é de 1 a cada 6.000", afirmou Mary Beth Powers, do grupo responsável pela elaboração do índice. O estudo comparou as condições de vida das mães em 19 países desenvolvidos e em 98 países em desenvolvimento, com base em 10 fatores relacionados com a saúde, a educação e o status político das mulheres e dos filhos delas.
Segundo o índice, o nível de educação da mãe e o acesso a serviços de planejamento familiar eram fatores bastante ligados à sobrevivência e ao bem-estar da criança. Na Suécia, 99 por cento das mulheres são alfabetizadas. Na outra ponta da escala, em Níger, apenas 8 por cento das mulheres sabem ler e escrever.
Só alguns comentários. Ser mãe aqui na Suécia é mesmo uma moleza. A única coisa que você precisa se preocupar é com a criança - o que não quer dizer que seja pouco - mas esqueça o estresse constante com médicos, dentistas, dispesas. Teve neném? O Estado te dá 950 coroas por mês. DÁ.
A criança tá com dor de barriga? Leva no médico porque é de graça. Ah, você trabalhava e ficou grávida? Não tem problema. Se você trabalhava há pelo menos dois anos no mesmo local tem direito a um ano de folga recebendo 90% do seu salário. Ah, e a moleza não se estande apenas às mamães não. Se os papais quiserem, podem tirar metade da licença maternidade.
Mas se você ainda se preocupa com o seu filhote e pensa nas contas de dentistas que essa criaturinha estará trazendo ao seu household, não se desespere. Aqui, seu filho tem direito a tratamento dentário de graça até o pimpolhinho completar 19 aninhos. Isso mesmo, dezenove anos.
E tem muito mais. Essa coisa de benefícios e wellfaire é realmente muito incrível. Acho que vou fazer uma série de posts sobre a moleza que é viver nessa terra... (a menos que você seja um imigrante, hohoho).
maio 05, 2003
Eles são ótimos
Nossa, tava lendo o post de baixo e reparei que critiquei a sociedade sueca sem parar. Que horror. Não, não, não. Não é tão ruim assim não, tá? Aliás, não é nada ruim. Eu é que exagerei. Eles, os suecos, são ótimos, muito queridos.
Eu, na ópera
Ah, esqueci de contar. Ainda em Umeå fomos à ópera. Pois é, pela primeira vez na vida fui assistir a um espetáculo desse tipo e tinha que ser aqui, na reservada, ascética e até certo ponto simplória Suécia. Explico meu descontentamento: ópera pra mim, desde que comecei a escutar os discos da minha mãe, contrabandeados da alemanha quando eu era uma meninota, é opulência, tons fechados de vermelho e emoção. A "Tosca" que eu vi na ópera de Umeå foi uma versão muderna e simplíssima - pobre, eu diria - da obra de Puccini.
Os cantores, todos suecos, com exceção da Tosca propriamente dita, que era italiana, eram bons, mas, sei lá, posso estar errada, mas onde sobrou técnica faltou emoção (o que pode ser um resumo da sociedade sueca como um todo, aliás). O enredo da ópera foi adaptado para os dias atuais, mas se você não tivesse lido o programa, não entenderia o que estava se passando. Acho que normalmente, lê-se o enredo geral, fica-se sabendo o que acontecerá no primeiro ato e depois espera-se que possa-se seguir a trama naturalmente.
Mas não foi isso o que aconteceu. Precisei ler o que compunham todos os três atos para poder entender o que estava se passando com aquelas pessoas todas na minha frente. O segundo ato, cujo enredo eu já esqueci completamente, foi um horror. Não sei se foi por causa do cenário (tudo creme. Um sofá no centro, duas mesinhas simetricamente posicionadas e uma TV, de costas para o público) ou se fui eu que sou burra, mas o fato é que dormi. DORMI.
O último ato, no entanto, quando a Tosca se mata, foi bacana. A cantora italiana (magrinha, alta, parecia uma sueca) se joga lá de cima do alto do palco e cai embaixo da orquestra, onde devia ter um colchãozão. Foi bacana porque é sempre lindo ver pessoas atuando ao vivo, além de ouvir vozes tão lindas. Mas achei que a Suécia precisa deixar de ser tão ascética para poder produzir um espetáculo tão cheio de emoções, traição, morte e mentiras.
Aqui tem um resumo da história da "Tosca". (Em inglês).
março 19, 2003
Que vença o melhor?
Matéria da BBC sobre a ausência de filmes excelentes da corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Exemplo recorrente: "Cidade de Deus", do Brasil.
Não vi o filme ainda, infelizmente. Pelo que todo mundo diz, deve ser mesmo interessantíssimo e muito tocante. Don't get me started pra falar sobre discriminação da galera de Hollywood. Como diz o repórter que fez a matéria, esse lance de Oscar é um "jogo de poker".
O que é estranho, uma vez que deveria premiar o melhores, certo? Mas sei que isso é discussão velha. Não fosse a Academia um lugar qualhado de interesses políticos, seria mais fácil esperar uma decisão justa.
Como disse, ainda não vi o filme, mas arrisco um palpite: é difícil para os americanos premiar um filme com uma carga trágica tão real. É melhor dar um prêmio para um Benigni da vida, que doura a pílula do extermínio de judeus com um filme bem legal, do que louvar a realidade brasileira, nua, crua, suada, violenta e dramática.
Explicar o sucesso do filme aqui na Europa é fácil: o paladar cinematográfico europeu é muito bem desenvolvido. Parece que eles precisam ver esses tipos de filmes para poder sentir alguma coisa.
março 18, 2003
Diferenças culturais na propaganda
Estava conversando com o Kibe Louco, que é publicitário, e retomei uma idéia antiga de escrever um post sobre um comercial que vi aqui e que me chocou - eu e minha idiossincrasia: ora sou puritana, ora muderna. O motivo de eu ter prestado atenção ao reclame é que ele mostra como duas culturas (no caso sueca e brasileira) podem ser tão diferentes. Na minha opinião, esse comercial no Brasil seria proibido no ato.
O anúncio mostra uma mulher que confere sua agenda de compromissos e vê que precisa estar na igreja no dia tal e hora tal para um casamento. Ela se olha no espelho do banheiro com uma expressão de desconforto no rosto. Abre o gabinete de remédios e retira um tubo de Canesten, uma pomada utilizada para se combater infecções por fungos, localizadas geralmente nas áreas pubianas.
A outra cena mostra uma noiva de costas, com o rosto coberto pelo véu, indo em direção ao altar. Nisso, todo mundo pensa: "Putz, mas a mulher vai se casar assim? Se coçando toda? Cruzes!" Aí, o inesperado spin sueco acontece e, tão logo a noiva chega ao altar, o noivo retira o véu e vê-se que a noiva não é a mulher do banheiro, mas outra pessoa.
Aí, a câmera muda de ângulo é mostra-se a padre, que é a mulher do banheiro. Ou seja, resumindo: o anúncio é sobre uma mulher padre que tratou de seus problemas ginecológicos com Canesten. O que você acha, esse comercial seria produzido e veiculado no Brasil?
Já escrevi sobre a igreja na Suécia. Veja aqui.
março 11, 2003
Na televisão
A SVT (Sveriges Television, TV estatal sueca) acabou de mostrar mais um documentário sobre a fauna e a flora da América do Sul. São seis programas, produzidos pela BBC e que mapearam literalmente os altos e baixos da natureza do nosso continente: dos Andes à bacia amazônica.
Já tinha ficado emocionada na semana passada, quando vi o primeiro programa da série, mas hoje foi demais. O programa inteiro foi dedicado ao Amazonas e aos sistemas de vida que mudam com a época de seca e de chuvas. Fantástico.
Fiquei emocionada ao ver uma família brasileira vivendo à beira do rio. Fazem-se imagens das Piranhas, rondando o pequeno pier onde a mãe lava os pratos do almoço. Farinha e arroz chamam atenção dos peixes. De repente, os filhos do casal caem na água e a apresentadora se apressa a explicar que as Piranhas são apenas perigosas quando presas em um reservado. Soltas no rio, elas têm medo de nós.
Que liberdade daquelas crianças! Senti necessidade de tomar banho de rio, mesmo sendo uma criatura da cidade.
Agora vou ver um dos meus programas favoritos na TV sueca: Värsta Språket [véstra sprôquet]. O programa é sobre a língua sueca, suas idiossincrasias, maluquices, manias etc. O assisto desde que começou e sou uma entusiasta da maneira como o apresentador trata do assunto: com um certo cinismo e achando tudo muito engraçado. Não sei não, mas esse país precisa de mais graça.
março 06, 2003
Quer saber mais sobre

Quer saber mais sobre Michelangelo? Escolha o seu link aqui.
O direito de todos os homens
A Marina duvidou, então resolvi escrever sobre isso. O direito de ir e vir em todas as terras suecas - inclusive aquelas que tem dono - é assegurado por uma das mais antigas leis desse país, a "Allemansrätten", ou "direito de todos os homens". E diz assim:
A Allemansrätten nos permite a movimentação livre em florestas e chão. Podemos caminhar, andar de bicicleta, andar de ski e cair na água quase que em qualquer lugar em toda a Suécia. Para poder aproveitar esse direito, precisamos mostrar respeito para com as plantas e os animais. Não podemos perturbá-los nem destruí-los. Além disso, podemos fazer:
andar por qualquer área, a não ser áreas perto de casas nas cidades, além de plantações.
passar qualquer tipo de cerca, desde que o façamos sem destruir a cerca para que nenhum animal se fira.
acampar uma noite sem pedir permissão ao dono do terreno, mas é educado ainda assim perguntar. Se for passar mais de uma noite ou se for um grupo maior de pessoas, fale sempre com o dono do terreno.
pegar flores selvagens, frutinhas e cogumelos.
fazer uma fogueira se isso não coloca em perigo a floresta.
pegar galhos de árvores que estejam caídos no chão e vegetações que ajudem a fazer fogo.
banhar-se em qualquer parte, a não ser perto de uma ponte particular.
nadar e passear de barco em qualquer água.
pegar água para beber de qualquer fonte ou rio.
pescar.
Não podemos:
destruir a natureza. O dono da área tem o direito de requisitar compensação.
danificar árvores vivas e arbustos (arrancar galhos, nozes, folhes etc).
andar por áreas plantadas.
arrancar flores e frutinhas no jardim de alguém (podemos pegar apenas nas áreas não-cultivadas)
andar de carro no terreno.
tirar ninhos e ovos de passarinhos.
caçar sem licança.
deixar lixo no chão ou nos rios (pode dar multa).
fazer fogueira quando há risco de o fogo se espalhar.
Ainda em dúvida? Acesse esse link aqui.
março 05, 2003
Para entender os suecos
A Lu me passou o link de texto muito bom sobre os costumes suecos. Não tem nada a ver com aquele primeiro texto que publiquei mês passado, mas é tão bom quanto. Enjoy!
Tirando o máximo de vantagem do moderno caminho do meio
por Dean Forster
A Suécia é a maior e historicamente a mais influente das três culturas escandinavas (Suécia, Noruega e Dinamarca). Hoje, a Suécia é um país que tenta preservar suas tradições enquanto se adapta às mudanças sociais e econômicas do cenário mundial. O conhecido Caminho do Meio sueco entre capitalismo e socialismo produziu uma classe média estável, cujos membros têm a maioria das necessidades da vida oferecidas de graça pelo governo, porém poucas oportunidades pessoais em uma economia difícil. Enquanto muitos suecos dão valor aos benefícios do sistema de assistência social, a geração mais nova se tornou pouco motivada, em uma sociedade na qual a vida de uma pessoa não é afetada não importa a quantidade de esforço pessoal de cada um.
Qualidade e cuidado por todos - Os suecos entendem que na vida nada deve ser em excesso. O melhor caminho é sempre o do meio, e isso quer dizer que negócios e sociedades empresariais devem ser organizadas e gerenciadas de acordo com as necessidades da maioria. É difícil para os suecos dizerem "Não". Por isso, eles desenvolveram várias maneiras mais educadas para indicar negatividade. Um exemplo é o vocábulo "Nja" - combinando as palavras suecas para sim (ja) e não (nej) - que quer dizer "isso pode ser meio difícil de fazer". O "Nja" é utilizado quando os suecos querem dizer que eles não farão, não podem fazer ou mesmo não querem fazer alguma coisa. Às vezes ouve-se um "Tja", que pode ser traduzido como o "well" do inglês e que na verdade quer dizer alguma coisa como "não sei se eu vou conseguir fazer isso".
Apesar de muitos suecos entenderam inglês, alemão é a segunda língua falada, e a maioria dos suecos fica surpresa se você souber falar algumas palavras de sueco. Devido à necessidade de consenso e de autoridade não tão destacada, chefes raramente mandam seus trabalhadores fazerem algo, mas antes os "convidam" para realizar certa tarefa. Discursos diretos, negativos e agressivos não são apreciados. (esse parágrafo contém pelo menos um erro: o inglês é sim a segunda língua daqui. O alemão é muito usado, mas o inglês é, sem dúvida alguma, predominante. Sobre o lance do chefe, infelizmente ainda não tive oprtunidade de verificar se é verdade ou apenas uma bela bull shit).
O primeiro entre iguais - Nos tempos dos Vikings, o rei era tradicionalmente chamado como "Primeiro Entre os Iguais", uma noção de autoridade interessante numa organização equalizada. Até hoje, não apenas dividem características físicas similares, mas também uma interpretação igualitária em responsabilidades de cada sexo. As mulheres podem atingir cargos importantes e os homens podem cuidar da casa. De fato, muitos suecos não se casam até que um filho esteja a caminho.
Uma Smörgåsbord de sabores - A smörgåsbord é uma das mais famosas tradições suecas. Você deve fazer várias visitas à mesa do smörgås [smôôrgôôs], cada vez para provar diferentes comidas, como peixes, carnes frias e quentes, e vegetais. Além de carne de rena.
A boa vida - Swedish Style - Os suecos adoram a natureza e muitos têm uma pequena casa no campo onde passam os verões. Com um sistema único de propriedade e uso público*, é comum para os suecos saírem das cidades em direção ao campo todos os anos. (*Esse é um conceito muito interessante. Aqui, você compra uma propriedade, constrói uma casa e tal, mas a área não construída da sua propriedade, que quase nunca é cercada por muros, pertence à todos. Pode-se, inclusive, acampar alguns dias no jardim de alguém, desde que chegue-se a um acordo com o dono da casa, lógico. Mas é direito garantido pela lei a possibilidade de andar livremente por campos, florestas e espaços. A lei que garante isso é antiquíssima e chama-se "Allemans Rätt", ou o direito de todos os homens).
Apreciar saunas é um passatempo tipicamente sueco, mas há certas regras de etiqueta a seguir: homens e mulheres geralmente fazem sauna em horas diferentes e é totalmente OK fazer sauna pelado. E sim, os verdadeiros profissionais de sauna dão um mergulho no rio congelado depois de sair do quentinho.
Mas a vida boa não é de graça - Não comente muito sobre impostos, serviços sociais e economia utópica. No entanto, os suecos irão discutir isso assim que ficarem mais íntimos. Aprecie o máximo o que todos os suecos trabalharam duro para criar e tente entender os novos conceitos. Na terra do sol da meia-noite, a vida boa é ainda melhor quando é boa para todos.
fevereiro 26, 2003
Uma noite na escandinávia
Imaginem a cena e tentem matar a charada.
Madrugada de segunda para terça-feira, 25 de fevereiro. Dez graus negativos. Mais de 200 pessoas fazem fila na porta de uma loja em Luleå, a maior cidade do norte da Suécia, onde há um certo "agito cultural". O quê essas pessoas estão fazendo?
a) Querem ir ao banheiro porque o frio faz com que sua bexiga fique contraída e você precise ir ao banheiro com maior regularidade. Os médicos dizem que é inclusive perigoso sentar em qualquer superfície fria aqui. A possibilidade de se desenvolver uma infecção urinária é grande.
b) Esperam para comprar ingressos para o show do Bruce Springsteen que vai tocar aqui no verão. Diferente de todos os outros anos, o artista americano não se reduzirá ao público de Estocolmo e Gotemburgo. Dessa vez ele tocará para as platéias do norte.
c) Vão comprar livros.

UPDATE UPDATE UPDATE - Faltou explicar, então lá vai. Esse bando de malucos estava na rua no meio da madrugada pra comprar livros porque começou à meia-noite de terça-feira, dia 25, a Bokrea, ou o saldão de livros em todo o país. E não é livro xumbrega não, aqueles que ninguém compra. São os últimos lançamentos, os best sellers, e que ainda assim têm seu preço bastante reduzido. É, como sempre, mais uma tradição sueca.
Livros aqui são muito caros - quer dizer, o que é caro hoje no mundo? Tudo depende do ponto de vista de quem fala. Ao mesmo tempo em que as moedas estão cada vez mais próximas, o custo de vida de diversos países difere tanto quanto possível. Por isso eu digo: para um sueco, um livro que custa 250 coroas é um livro caro. Dez coroas suecas equivalem mais ou menos a um dólar. Olhando friamente, 25 dólares não deveria ser um preço alto por um livro - que acho que vale muito mais do que isso - mas a diferença está no custo de vida. Duzentos e cinqüenta coroas não é nenhuma fortuna, mas já ajuda bastante no final do mês.
fevereiro 24, 2003
Como reconhecer um sueco típico
O sueco típico é alto, loiro e tem olhos azuis e usa gorro de lã no inverno. Ele é naturalmente tímido, introvertido, sério, empreendedor e não ri muito de si mesmo. Tem hábitos de vida que segue rigorosamente: todas as manhãs ele acorda às 5h30m para ter tempo de ler o jornal antes de ir pro trabalho. Isso indica que o sueco típico lê devagar porque geralmente o início do dia de trabalho é apenas às 8h da manhã.
Depois de si mesmo, são os maiores interesses do sueco típico: dinheiro, seu emprego, sua casa, hockey no gelo e sua família (nessa ordem). Ele ama animais em geral e em particular cachorros. Um dos passatempos favoritos do sueco típico é caminhar ou andar de bicicleta na natureza, perto de uma floresta, por exemplo. O ideal é quando ele tem consigo seu pastor-alemão.
O sueco típico preserva seus próprios dentes quando fica velho. É pontual, honesto, confiável, limpo e obedece às leis. Um exemplo disso é o que acontece na faixa de pedestres de qualquer rua. Não importando as condições climáticas, o sueco típico espera que o sinal fique verde para pedestres para atravessar a rua. Ele usa sempre o cinto de segurança, nunca dirige bêbado, paga sempre a licença da TV, declara o imposto de renda a tempo, tem sempre dois sacos plásticos no bolso quando passeia com o cachorro e nunca toma banho depois das 22h.
O sueco típico é muito cuidadoso e quase nunca faz alguma coisa impulsiva ou espontaneamente (única exceção possível é espirrar). Para o sueco típico qualquer opção representa uma escolha de vida ou de morte. Como a escolha do queijo no supermercado, por exemplo. Enquanto os outros europeus pegam o primeiro que lhes parece ser bom, o sueco prova pelo menos dez tipos de queijo antes de se decidir por 200g de Brie. É essa natureza cuidadosa que o impede de se jogar na aventura do casamento. Tipicamente ele escolhe uma mulher com a qual vive alguns anos, tem filhos, para somente então pedi-la em casamento.
No que diz respeito ao casamento, aliás, os homens suecos típicos não têm muito em comum com os outros homens europeus. Tudo o que uma mulher pode fazer, o sueco típico pode fazer melhor - de cozinhar e lavar louça até coser cortinas, pregar botões e consertar meias. É assim que tudas as tarefas na casa são divididas igualmente.
O sueco típico gosta de se manter bem informado. Ele está sempre procurando ouvir o noticiário e quer saber tudo sobre energia atômica, economia dos países do terceiro mundo, África do Sul e as preferências sexuais das centopéias.
A maioria dos suecos típicos é fanática em se manter em forma. Eles passam o final de semana correndo pelas florestas mais próximas ou em cima de uma bicicleta. Pensando na saúde, o sueco típico deixou de consumir nicotina, açúcar e café, além de não mais fazer contato com estranhos. Ele vai todos os dias pra cama antes das 22h.
Talvez a característica mais fascinante em um sueco típico é sua visão de igualdade. Todos têm de ser e fazer exatamente igual. Para facilitar essa busca pela igualdade, a maioria dos suecos tem o mesmo sobrenome, com apenas algumas variações - Svensson, Nilsson ou Persson. A maioria das mulheres suecas chama-se Ulla ou Inga. O sueco típico defende a igualdade inclusive no que se refere aos salários. Isso graças a uma política de impostos solidária, pela qual os suecos podem até ganhar de forma diferente antes do imposto, mas depois ganham exatamente a mesma coisa - pouco. Além disso, os suecos têm o mesmo gosto para roupas e móveis, pensam parecido, dirigem Volvo e tiram férias em Mallorca, na Espanha.
Um sueco genuino nega que tenha qualquer preconceito. Aos seus olhos não há diferenças entre os suecos e os imigrantes, e apesar de não conhecer nenhum iuguslavo, grego, turco, finlandês, polonês ou húngaro, o sueco típico está convencido de que não há diferenças entre si e os outros. As únicas exceções são que os imigrantes têm nomes diferentes, hábitos distintos, plantam vegetais na sala de visitas, têm sempre facas nos bolsos, assaltam bancos e aposentados, roubam empregos de outros suecos, se reproduzem como coelhos, batem em suas mulheres e falam sueco como quem tem um ovo na boca.
Por fim, o sueco típico gosta do silêncio do campo, odeia filas, adora ser o primeiro a subir no ônibus, não gosta de inverno, aprecia sexo, acredita no que dizem os social-democratas, não acredita em Deus, é patriótico (tem cuecas com a bandeira sueca), vai à loja de bebidas alcoólicas duas vezes na semana, passa o Natal com os pais, estuda inglês e fica ofendido com o artigo como esse
Esse texto, apesar de ser meio piadista, descreve muito bem o que é ser sueco. Acreditem, por mais que pareça meio irônico, muitas das coisas aqui descritas são verdades verdadeiras. :c)
Em VERDE estão as coisas que são verdade;
em VERMELHO, as que não são;
e em PRETO as que eu ainda não tive tempo de comprovar.
fevereiro 21, 2003
E por falar no assunto...
Hoje é dia Internacional da Língua-Mãe -- o português para nós, brasileiros e portugueses, o inglês para americanos e britânicos etc. A data, festejada pela UNESCO, está sendo comemorada com o lançamento de um estudo interessantíssimo: o Atlas das Linguagens do Mundo em Perigo de Desaparecer.
A conclusão final do trabalho é de que quase a metade das seis mil linguagens faladas hoje no mundo estão condenadas a desaparecer em um futuro próximo. Segundo a UNESCO, "o desaparecimento de qualquer linguagem é uma perda irreparável para a herança da humanidade".
Essa edição do Atlas, que vem sendo publicado continuamente desde 1996, vai dar uma imagem mais clara da magnitude de problema em várias partes do planeta. Na África, por exemplo, não por acaso o continente cujas linguagens são menos conhecidas, estão em processo de extinção 250 linguagens das 1.400 existentes, além de outras 600, muito ameaçadas.
O quadro não é muito melhor nas outras partes do mundo. Na América do Norte, os dialetos e os idiomas indígenas estão perdendo feio a guerra para o inglês e o francês. No Canadá ainda procura-se salvar cerca de 104 linguagens nativas já em vias de extinção. Já nos EUA, todas as 150 línguas ainda existentes estão ameaçadas ou já em processo de extinção.
Lá pras nossas bandas das Américas do Sul e Central, a massiva influência do português e do espanhol também ameaça seriamente as línguas indígenas restantes. Apenas no México, por exemplo, estão seriamente ameaçadas as 14 linguagens reminiscentes dos tempos antigos. No resto do continente, há problemas sérios na conservação de 375 idiomas indígenas.
Na Ásia, o chinês está ganhando cada vez mais terreno, principalmente nos territórios ao norte da China. A região do Pacífico - oriente, Nova Caledônia etc - é a mais rica em linguagens atualmente. Mas assim como no resto do mundo, lá também há crise. Dos 23 idiomas iniciais falados em Taiwan, 14 estão sendo esquecidos.
Na Austrália, o panorama também é bastante radical. Até os anos 70, os aborígenes australianos eram proibidos de falar sua própria língua. Imagina o efeito que isso teve? Pois é, das 400 línguas faladas originalmente, apenas 25 continuam a ser ouvidas. Incrível.
Aqui na Europa há 131 linguagens ameaçadas de extinção. Uma delas é a língua falada pelo povo Sami, aqui do norte de Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. E sabe as línguas Célticas? Estas então, estão pra lá de Marraquesh. A língua falada em Cornwall desapareceu já em 1777. Hoje, apenas 1000 pessoas ainda falam uma variante, o cornish. E só. Que coisa.
fevereiro 19, 2003
Árvore de línguas
Outro dia estávamos falando aqui de idiomas e suas particularidades. Nem preciso repetir que sou absolutamente apaixonada por esse assunto e pretendo num futuro próximo - se tudo der certo, ou errado - seguir esse meu interesse por idiomas, sons, origem de palavras etc. Então, depois de escrever sobre isso em vários posts, lembrei de que tinha uma xerox de uma explicação muito legal sobre idiomas do mundo inteiro.
E é aí que entra a tal da árvore. Aliás, são várias as árvores. A maior é a das línguas Indoeuropéias. São quatro os troncos mais importantes: os idiomas Célticos (galês, bretão e iriska); Romanos (italiano, romeno, francês, catalão, espanhol e português); Germânicos do Oeste (inglês, holandês, flamenco e alemão) e Germânicos do Norte (sueco, dinamarquês, norueguês, islandês e a língua falada nas Ilhas Faroe).
Temos ainda o tronco dos idiomas Indofranceses (persa e a língua falada pelos kurdos). Aqui há uma série de subdivisões, como no caso do idioma armênio, que fica sozinho na parada. E ainda no mesmo tronco mas em outro ramo encontramos hindu, urdu, bengali, punjabi, romani (língua dos ciganos). E tem mais: é a esse tronco que pertence a língua grega.
A última parte da árvore é composta pelas línguas eslavas. São relacionadas entre si: polonês e tcheco; russo e ucraniano; e búlgaro, macedônio, servo-croata e slovênio. Numa subdivisão ficam as línguas bálticas, que vêm da Lituânia e da Letônia. O albanês entra aqui sozinho, num ramo próprio.
Essa foi apenas a árvore maior. Existem outras tão fascinantes quanto. As línguas orientais (japonês, coreano e chinês) têm, cada, uma árvore própria. Estão próximas entre si no jardim, porém separadas. O finlandês é parente do húngaro, do idioma da Estônia e do sami (língua dos criadores de renas, falei deles num post aqui em baixo). Os laços de família também estão presentes entre o tailandês, o vietnamita e a língua do Laos.
As duas últimas árvores desse jardim da palavra humana (uhhhmmm, cafona isso, hein?) são a do idioma turco, que compreende além do turco propriamente dito, as línguas de Azerbaijão, Uzbequistão e Turkmenistão; e, last but not least, a árvore dos idiomas Semíticos. São todos irmãos: árabe, hebreu, assírio e amarinja e turabdisnka.
Todas as partes do texto que grafei em itálico são tentativas de tradução do sueco para o português ou então as palavras em sueco mesmo, como aparecem no meu texto. Fiz isso por não ter conseguido encontrar seus equivalentes em português.
fevereiro 18, 2003
Descobertas - Upptäckter
Estudando sueco. Texto sobre alma, religião etc. Primeira questão: procurar definições de alma no dicionário sueco-sueco. Segunda questão: procurar definições sobre alma em culturas diferentes.
Achei um site bacanérrimo chamado Wikipedia, com versões em várias línguas inclusive português.
Fiz umas buscas, batuquei umas palavrinhas em sueco, outras em inglês e achei a definicão de alma em várias religiões. Os judeus, muito organizados, dividiram a alma em três partes (Nefesh, Ruach e Neshamah). Para os hindus, a alma em sânscrito é "Atma"; já os budistas não acreditam na existência de alma.
O mais fascinante, no entanto, foi um texto em sueco sobre a religião Sami, o povo criador de renas que habita o norte de Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Segundo o texto, a religião sami está praticamente morta por força do cristianismo que se alastrou por aqui séculos atrás. Eles eram politeístas e acreditavam que a natureza tinha uma alma.
Que coisa linda!!! Estou enganada ou os índios da América do Sul também acreditavam na mesma coisa? Alguém sabe?
fevereiro 17, 2003
Paz, cinema e lirismo
Fim de semana foi ótimo. Estava "quentinho": a temperatura ficou positiva o tempo todo e chegou a maravilhosos sete graus positivos na tarde de ontem. Hoje está prometendo também. O mundo inteiro se mobilizou pra evitar a guerra que o Bush já dá por ganha. Aqui em Boden 100 pessoas saíram às ruas para protestar.
Vimos Denzel Washington em "The Hurricane", adoramos. Sempre gostei dele - lindo, lindo, lindo! - mas ao mesmo tempo em que gostava das atuações dele em filmes legais como "Malcom X" ou "Nova York Sitiada", só pra citar dois que me vêm imediatamente a mente, achava Denzel meio over.
Uma entrevista que ele deu ao David Letterman e que assisti aqui também não ajudou muito. Ele me pareceu cheio de si, meio "estrela". Mas aí, vocês vão dizer: "Sim, Maria, mas ele é uma estrela". É, é mesmo. Anyway, assisti ao filme que rendeu o Oscar a esse Deus do ébano e só digo uma coisa: ele mereceu!
Vimos também - não ao mesmo tempo, mas em dias alternados - "Amelie Poulin", mais uma vez porque eu gosto de ver filmes que amo quinhentas vezes; e ontem à noite "A Vida é Bela", do Roberto Benigni. Foi a primeira vez que assisti ao filme do italiano e confesso que não será a última.
Sim, eu nunca o havia visto antes. Devo ser provavelmente o único ser humano em toda a Terra a dizer isso, mas é verdade. A razão é simples: fiquei danada da vida quando a Sofia Loren gritou o nome do Benigni na cerimônia do Oscar ao invés do nosso Walter Moreira Salles e seu "Central do Brasil".
Mas agora, mais velha e menos implicante, só digo isso: o filme é lindo, lindo, lindo!!!!!!!.
fevereiro 11, 2003
Voltando atrás
Nunca me esqueço um documentário que assisti no Discovery sobre os ursos panda. Disseram que os ursinhos originários da China tiveram que involuir, voltar atrás na escala da evolução porque senão não sobreviveriam. E como os cientistas notaram que eles involuiram? Porque os ursinhos pretos-e-brancos deixaram de comer carne e voltaram a ser herbívoros. Fiquei chocada que isso seja sinal de involução e não o contrário, mas a razão de eu mencionar isso hoje é que tenho a impressão que o povo sueco está fazendo como os pandas e está involuindo, voltando atrás.
É que há muitos anos faz-se aqui a reciclagem de lixo em larguíssima escala. Há uma verdadeira cultura de reciclagem, assim como só vi na Califórnia, onde os lixeiros simplesmente não recolhem o lixo que não estiver separado. Saiu nos jornais hoje que um estudo foi feito sobre reciclagem em áreas menos povoadas e chegou-se à conclusão de que é muito caro fazer reciclagem nessas áreas devido às longas distâncias que são percorridas apenas para recolher os resíduos. O estudo diz que somente faz sentido economicamente reciclar em Estocolmo, mas não aqui.
Aí o jornal já vem dizendo que é pra gente aqui do norte esquecer o lance da reciclagem e deixar todo o trabalho para o povo de Estocolmo. Não dá pra reproduzir a ironia da frase no jornal mas, pra quem não sabe, há uma rixa enoooooorme entre as regiões do norte e as do sul. Eu, como filha legítima de uma cidade imensa como o Rio, me sinto meio deslocada aqui na pequenina Boden, apesar de me sentir em casa. Só pra deixar Stefan - um típico homem do norte - irritadinho, faço sotaque de Estocolmo quando falo sueco com ele. *Hohoho*
Anyway, voltando à vaca fria, a reciclagem é importante não apenas pelo cuidado que se tem com o meio ambiente, mas também porque é absolutamente necessário. Um exemplo: 38% de todo o lixo é transformado em energia e/ou calor. Os aquecedores aqui de casa são à água quente (não é muito comum encontrar aquecedores elétricos ou a gás aqui) e essa água é aquecida queimando-se lixo. Outros 29% são material que pode ser reutilizado, como papelões especiais etc. Dez por cento é o chamado lixo composto, que produz, entre outros, biogás. O resto é lixo que não pode ser reutilizado e é destruído.
Ah, já ia esquecendo! Este post é dedicado à minha mãe, minha ativista do Greepeace favorita. :c) Beijo, mãe. Te amo.
fevereiro 10, 2003
Tudo ok
Final de semana calmo, sem fazer nada de especial. A temperatura ajudou e ficou positiva! Nossa, nem acreditei. Ainda está, aliás. O máximo. Liguei pra minha mãe (oi, mãe!) e pro meu pai. Meu irmão está começando no colégio novo hoje e eu queria desejar tudo de bom.
Minha mãe me ensinou a fazer sua famosa torta-empadão de galinha e eu - pasmem! - acertei de primeira. Massa e recheio ficaram realmente muito bons. Para a massa, basta juntar 250 gramas de manteiga (à temperatura ambiente), duas gemas e farinha até que a massa comece a ficar esfarelenta. Não pode ficar muito esfarelenta mas também não pode ser muito húmida.
O recheio é livre, criatividade à solta. Desfiei dois peitos de frango, refoguei no óleo, sal, cebola picadinha e alho. Juntei dois copos d'água, deixei um pouco mais. Escorri a água e bati junto com um copo de leite e uma colher de sopa bem cheia de trigo. Botei tudo junto numa panela - água com leite+farinha+galinha - e dei o ponto. Botei ainda petit-pois, cenorinha e milho.
Depois de esticar a massa numa forma - pode ser aquela que tira-se as bordas e só fica o fundo - é preciso esperar para que o recheio esfrie um pouco. Eu, no entanto, não esperei muito não. Coloquei tudo lá e deixei no forno a 200 graus uns 35 minutos. Ficou muito boa. (valeu, mãe!)
A única coisa chata é que estou com dor de cabeça desde ontem à noite. Mesmo assim não podia deixar de escrever. Ô vício. :c)
fevereiro 04, 2003
Islândia
Tava lendo a revista Seleções daqui e vi um artigo muito interessante: descreve como o povo da Islândia conserva seu idioma. A matéria diz assim: "As sagas islandesas foram registradas em papel em 1200-1300 d.C. e as crianças islandesas de hoje as lêem no original. A leitura de algumas sílabas foi modernizada, mas no geral o idioma é o mesmo de mais de 800 anos atrás."
O intuito da matéria era entrevistar estudiosos da ilha para saber o que está sendo feito para defender o idioma islandês da invasão predadora do inglês. Para defender seu idioma, o governo da Islândia criou um instituto responsável em analisar cada neologismo, cada palavra emprestada, importada ou imposta culturalmente e achar um equivalente direto em islandês.
Existem palavras em islandês para tudo - tudo mesmo. Aí você pensa: "Sim, mas há também em português". Não, não há. O que em português é equivalente a "pager", aquele trequinho que existia antes dos celulares dominarem? Pois é, em islandês chama-se frioðþjófur, que quer dizer "ladrão de liberdade". Hahaha.
Mas por que esse povo luta tanto para manter seu idioma, pergunta o repórter da revista (obviamente americano ou inglês). "Porque essa é a nossa cultura", defende Ari Páll Kristinsson, chefe do Comitê de Terminologia. "Há inclusive um banco de palavras sustentado pelo governo e uma hotline para quem precise de ajuda para encontrar uma palavra em islandês", diz ele, em inglês perfeito.
Vivem na Islândia apenas 285 mil pessoas e a produção cultural é espetacular. Segundo a reportagem, um em cada dez islandeses escreve pelo menos um livro em sua vida. "Aqui, o ato de escrever é retratado quase como um dever nacional", escreve o repórter. Uma das editoras da ilha, a Eymundsson, funciona desde 1872 e publica cerca de 600 livros em islandês todo o ano.
Quero visitar a Islândia, mas preciso de patrocinadores, alguém se habilita? :cD
janeiro 30, 2003
Socialismo cultural
Apresentei hoje meu trabalho sobre o Brasil, com figuras de overhead (aquele aparelho que projeta na parede imagens impressas em folhas transparentes), e uma folha explicativa. Parece que as pessoas gostaram. Não fizeram muitas perguntas, mas ficaram impressionados pelo fato de o Brasil ter colônias de imigrantes da Ásia e da Europa. Eu disse que todo mundo na sala poderia ser brasileiro porque temos imigrantes da Ucrânia, do Japão, da Itália etc. Não sei se todos gostaram - o senhor que apresentou o trabalho sobre liderança na segunda sentiu falta do futebol - mas a professora disse ter sido "interessante".
Aliás, esse é um traço marcante dos suecos: o reconhecimento por um trabalho bem feito existe, mas é dado com muita reserva. Isso porque é mal-visto socialmente ser melhor do que os outros. Aqui, o socialismo é muito mais do que um sistema político-econômico. É um modo de vida. Perguntei ao Stefan e ele tentou me explicar: numa sala de aula (ou numa empresa, ou num grupo de amigos) você pode se destacar por ser mais capaz, porém é bom que você seja muito melhor do que os outros, assim uma liderança incontestável. Caso seja apenas um pouco melhor do que a média, você não é bem visto. Parece, segundo a ótica social sueca, que você está se mostrando.
Eu sinceramente não sei se aparento saber muito mais do que os outros, até porque ainda cometo muitos erros quando falo. Mas não deixo que isso me iniba e falo pelos cotovelos nas aulas. Participo de tudo, faço perguntas às pessoas que estão apresentando trabalhos e interajo com todos que consigo alcançar. Não sei se eles acham que eu sou metida (provavelmente sim), mas não posso fazer nada contra isso. O que faço para tentar prevenir esse mal estar é ser simpática com todos e, volta e meia, perguntar o que uma palavra quer dizer. Aí eles se lembram que eu não sou exatamente metida, mas apenas uma imigrante. Deixo eles pensarem assim. Quando menos esperarem, estarei falando a língua deles melhor do que eles próprios.
janeiro 23, 2003
Avanços
Ontem o dia foi cheio. Depois do almoço tinha hora marcada em um dos computadores da auto-escola para treinar. É que para poder fazer a prova teórica preciso passar em todos os sete exercícios da escola. Minha via-crucis com essa carteira de motorista sueca está apenas no começo, mas estou avançando: ontem passei nos dois primeiros exercícios, A e B. Agora só faltam mais cinco :c( E aí, claro, tem as outras provas (a de direção propriamente dita e a de controle de segurança).
Depois de lá fui finalmente para minha aula de sueco. Digo 'finalmente' porque estava sem aulas desde o início do ano. É que não há professores para o curso que estou fazendo e como é tudo pago pelo governo, o investimento em educação de imigrantes adultos não chega a ser uma prioridade. Uma pena. De todo modo, minha professora antiga se importa conosco e nos reuniu ontem excepcionalmente para nos emprestar um exemplo de uma prova nacional, que teremos de fazer na primavera.
Trata-se de um exame feito em toda a Suécia por jovens que estão saindo do colégio e indo para a universidade. Nada de múltipla-escolha ou coisinhas assim: a prova é composta por um caderno de 31 páginas recheado com matérias de jornais, excertos de livros e quadros de informações. Receberemos ainda um outro caderno com cerca de dez perguntas diferentes, cada uma fazendo referência a um assunto em particular. Devemos escolher uma das questões e escrever um ensaio de até 700 palavras sobre o tema, tendo os textos como ajuda.
Vai ser duro, mas o que não é duro nessa terra? A boa notícia é que provavelmente eu e minha turma (um rapaz da Áustria e uma moça do Uruguai, muito gente boa, aliás) deveremos nos juntar a uma turma de estudantes suecos que estão terminando seus estudos de sua língua antes de ir para a faculdade. É bom porque não teremos a moleza de uma professora que aceita nossas falhas como normais para um imigrante. Acho que já estava na hora da gente sair à luta, sem favores. Senão nunca vou aprender esse idioma do jeito que quero.
janeiro 22, 2003
Cinema na terra gelada
Ontem à noite estavam passando dois filmes interessantes na TV: um "meu" e outro "do Stefan". O meu era "Chocolat", do diretor sueco Lasse Hallström (o mesmo de "Minha vida de cachorro" = "Mitt liv som hund"). O do Stefan era "Enemy at the gates", um drama de guerra sobre a batalha de Stalingrado da Segunda Guerra Mundial, com Jude Law (uhmmmmm), Bob Hoskins e Ed Harris. Adivinha qual acabamos vendo? Well, eu já tinha visto "Chocolat" mesmo...
Aliás, falando em cinema, acho que a maioria de vocês sabe que o cinema sueco é muito bom, né? Pois é, é mesmo. A produção nacional é riquíssima, além dos diretores e atores que trabalham em Hollywood já faz tempo - sabiam que a Lena Olin é sueca? Cara, foi um choque vê-la num filme antigo que passou na TV umas semanas atrás falando sueco castiço. Mas o último filme sueco que vi na TV foi "Jalla, Jalla", do diretor sueco-libanês Josef Fares.
Trata-se de uma história sobre o amor entre suecos e imigrantes árabes. É muito engraçado e doce. O filme fez tanto sucesso que foi exibido em vários países europeus, mas não sei se chegou ao Brasil, essa terra tão distante... O fato é que um dos atores principais é o irmão do diretor, Fares Fares (deve ser o primeiro filho da família árabe) e que foi abençoado com um narigão capaz de chamar a atenção do mais distraído dos seres. Sem brincadeira, ô napa! (veja foto acima)
Mas, enfim, a trama do filme é simples: um rapaz sueco-libanês namora uma sueca típica mas a família do cara o quer casado com uma menina de sua cultura. Nenhum dos dois jovens quer se casar assim, arranjado, mas o problema é que se a garota não se casar, volta pro Líbano em desgraça. O cara, por pena, concorda em mentir pra família que em dias organiza o casamento, aluga apartamento e até encomenda móveis na Ikea.
Claro que dá tudo errado, mas todo mundo fica feliz no final. O original do filme é mostrar o choque das culturas (isso é um clichêzaço-aço-aço, mas é isso mesmo) sem cair na violência. O Josef Fares já lançou seu segundo filme, "Kopps", uma comédia-paródia com a polícia de uma pequena cidade sueca. Por quase não ter crimes, o posto policial seria fechado. Aí é que entra e engenhosidade dos homens da lei, que começam a fazer mil traquinagens pra mostrar que são necessários à comunidade. Já vou comprar meu bilhete. :c)
janeiro 21, 2003
Dialetos suecos
Vocês sabem que aqui na Suécia tem um montão de dialetos diferentes, né mermo? :c) Não é como na Itália, eu acho, onde um não entende o outro, mas às vezes um nativo daqui de Norrbotten, onde moro, tem dificuldades pra entender uma pessoa lá de Malmö, no extremo sul do país, porque ela fala o temido skånska, [skonska]. Mas não adianta ficar só escrevendo sobre como um é diferente do outro. Agora vocês poderão ouvir a diferença.
Nessa home page aqui, vocês verão uma série de links, com dialetos de três regiões suecas - Götaland, Svealand e Norrland, além do sueco que é falado na Finlândia - e de quase 100 localidades. Para ouvir o sueco da região de onde eu moro, procure Norrland --> Norrbotten --> Piteå. Vai abrir uma página onde lê-se: "Lyssna på Piteå", ou "Ouça Piteå". Note que há dois tipos de arquivos de som, MP3 e WAV. Há ainda a possibilidade de ouvir quatro tipos de pessoas falando: uma mulher velha (Äldre kvinna), um homem velho (Äldre man), uma mulher nova (Yngre kvinna), e um homem novo (Yngre man).
O texto que aparece quando você clica em Yngre kvinna é esse aqui (texto à esquerda):

A tradução é: "Esse é o dialeto sobre o qual nós temos tido aulas, quer dizer, ouvimos esse dialeto [na escola]. Então, foi tão legal, assim, mexer com isso. É legal, assim, porque, é... Nós viemos de todas as partes da Suécia, de Skåne e Jonköping och Karlstad, mas é da Suécia inteira. Então nós temos sempre essas disputas... Fala-se assim... É, eu digo hajna, hojna och häjna e eles não entendem também, então eu digo... Você fala assim mesmo? Sim, sim, falo sim. Eu tenho umas expressões assim como "Olha hajna" [que quer dizer, "Olhe isso aqui"], eu digo isso sempre. Então eles dizem "Hajna Que legal! Não se fala hajna". Hänna [här, aqui]. Etc...
Se estiverem curiosos, cliquem em Skåne (primeira coluna à esquerda, sexto nome, logo depois de Halland). Escolha, por exemplo, a cidade de Löderup. É engraçado.
janeiro 19, 2003
Cinema desscontrollll
Tô melhorzinha. Acordei ontem bem tarde (10h30m), assisti "Spy Game" com o Robert Redford e o Brad Pitt no Pay Per View. Stefan e eu tomamos brunch e descobrimos um filme do Arnold Schwarzenegger pra ver. É um que ele é piloto de helicópteros e é clonado. Por incrível que possa parecer, foi interessante. Depois vimos "Final Fantasy", um filme totalmente animado em computadores. A história sucks, mas as animações são fenomenais.
Demos uma paradinha. Fomos descansar. Stefan dormiu até às sete da noite, enquanto eu assistia o noticiário (todos, o do SVT 2 e o da TV4, BBC e CNN). Quando ele acordou, fomos fazer o jantar: ravioli de espinafre com ricota e molho de queijo. Não tínhamos vinho, infelizmente, nem disposição pra sair de casa e ir comprar, então tomamos Pepsi Light e Sprite. Mas a noite ainda era uma criança. :c)
Às 20h começou "Lara Croft", com a Angelina Jolie. Muito bacana. Quem me dera ser rica assim, morar num castelo cheio de gadgets e ainda ser linda de morrer. Bom, depois da Lara, demos um tempo para ver a revista da TV e saber o que escolher. No Discovery vimos um especial na linha dos "Detetives Médicos" ou coisa que o valha. Aí, interrompemos o lance do luminol e das pistas dos assassinos para ver "Billy Elliot", às 22h25m.
Vi esse filme com o meu irmão Carlos no Brasil e passei o filme inteiro lembrando dele. Lindos, lindos, lindos! Carlos e o filme. Stefan disse que se eu poderia ficar assim meio down todos os finais de semana que ele não iria se importar em ficar em casa, descansando. Hehe. Assim, ele não precisaria escutar "Vamos andar! Vamos fazer exercícios senão fico gorda, mais gorda! Ai, meu Deus! A calça num cabe mais! Ai, estou horrível", e assim por diante.
Terminamos a noite vendo um filme islandês chamado "Djävulsön", ou a Ilha do Diabo. Não, não era filme de terror não. Era sobre a falta de perspectivas dos islandeses na década de 50. Achei fascinante ouvir islandês e, para os meus ouvidos, trata-se de um sueco trespassado de sons mais bruscos, como finlandês. Stefan disse que era assim que os vikings falavam. Fascinante.
Fui dormir e sonhei com a minha mãe, conversando com uma amiga dela. Eu estava sentada no colo da minha mãe, olhando pro céu. Vi uma linha de estrelas andar devagar pelo céu e quando vi eram os personagens do Maurício de Souza - Monica, Magali, Chico Bento, Cascão - desejando feliz natal. Acordei com meu amor fazendo French Toast para o nosso brunch. :c)))
janeiro 13, 2003
Romance, Nova York e (falta de) sexo
Ontem fomos visitar minha sogrinha, em Piteå, porque foi aniversário dela na terça passada. Escolhemos o presente num supermercado bacanérrimo que tem aqui, o Robin Hood (e que eu, ainda me debatendo para me adaptar, só chamo de Peter Pan). Stefan, pra variar, não sabia o que comprar pra mãe, então entrei no circuito. Compramos um vídeo (que vimos junto com ela) e a obrigatória caixa de bombons (que a ajudamos a consumir). O filme era "Kate and Leopold", com a Meg Ryan e o ator que fez o Wolverine no X-Man, Hugh Jackman.
O filme não é bom, a Meg Ryan está com os lábios como duas almofadinhas de tanto silicone, mas mesmo assim é "bonitinho". É que adoro Meg Ryan (claro, nada mais mulherzinha), mas gosto dela por uma razão: ela atua em filmes que me aquecem o coração de tempos em tempos, como "Sleepless in Seattle", "When Harry met Sally" e "You've Got M@il". Além disso, em todos esses filmes, ela mora em apartamentos lindos, geralmente em Nova York - tirando o "Sleepless..", no qual ela morava na desinteressante Baltimore, mas acabava indo encontrar o Tom Hanks no topo do Empire State Building, na era pré-Bin Laden, quando isso ainda era romântico e não um ato de desamor à vida.
Escolhi esse filme pra sogrinha porque ela adora a Meg Ryan como eu e vive lendo aqueles romances água com açúcar no estilo "Julia". Eu costumava ler esses livros também, confesso, mas apenas quando tinha 13 anos ou 14, 15, talvez. Quem sabe 16? Bom, isso não é importante, o importante é que era leitura divertida. A mocinha era sempre "arrebatada" pelo mocinho, eles faziam amor numa choupana mas, ao raiar do dia, a mocinha descobria que era tudo mentira e então voltava pro seu apartamento na Quinta Avenida, arrasada.
Me lembro um dia em que fui passar um feriado em Petrópolis, na casa da minha tia-avó, que era leitora voraz desse tipo de livro. Pedi um para ler e ela me deu. Passei a noite toda procurando pela ação, mas o livro que ela me deu não tinha sequer uma cena de sexo. Uma decepção. Devolvi o livro na manhã seguinte e ainda tive o topete de reclamar à minha tia-avó, que estava às gargalhadas.
janeiro 05, 2003
Foto de Elliott Erwitt
Foto de Elliott Erwitt / Magnum Photos. USA. California. 1955.Já visitou o Picto Blog? É muito legal.
A lei do carma
Lei universal de causa e efeito, o que, de acordo com a visão budista, se expressa da seguinte forma: "O feito (carma) produz um fruto sob certas circunstâncias que, quando maduro, cai sobre a pessoa responsável. Para produzir seu fruto, a ação precisa ser boa ou má e estar condicionada a um impulso volátil, o que faz com que deixe um traço na psique do feitor e dirija seu destino na direção determinada por seu efeito.
O efeito de uma ação, o qual pode ser de natureza do corpo, da fala ou da mente, não é determinado primariamente pelo ato em si, mas particularmente pela intenção da ação. É a intenção da ação que causa o surgimento de um efeito cármico. Apenas uma ação realizada independente de desejo, ódio e desilusão não tem efeito cármico."*
*(excerto da "The Encyclopedia of Eastern Philosophy and Religion", Shambhala Books, 1994) - Copiei daqui.
janeiro 03, 2003
Inversão das coisas
Aliás, falando em energia etc, acho que esse tipo de curso (leia post abaixo) só emplaca mesmo em países de primeiro mundo e de cultura ocidental. Isso porque todo e qualquer cidadão indiano sabe o que é energia negativa e positiva, carma, capacidade de lidar com os reveses da vida e tal. Nunca me esqueço de uma entrevista que a Patricia Travassos fez com um casal de professores de Yoga no programa dela, o Alternativa Saúde, no GNT. O casal fazia viagens regulares à Índia e voltava trazendo um monte de objetos lindos, lembranças e até mesmo tapetes.
O cara contou que um dia eles estavam em uma cidade indiana vendo tapetes lindos num mercado de rua. Pararam numa barraquinha, admiraram um tapete mas ficaram sabendo que o preço, mesmo depois de muita pechincha, não cabia no orçamento deles. O vendedor, muito naturalmente, disse: "Levem o tapete. Quando chegarem ao seu país, vocês me mandam o dinheiro". Estarrecidos com a "ingenuidade" do indiano, aceitaram a oferta, sem antes deixar de perguntar: "Mas e se nós não mandarmos o seu dinheiro?". E o cara respondeu: "Aí, o problema é de vocês".
Incrível como o indiano inverteu o que nós, ocidentais, costumamos considerar óbvio. Nós pensamos: não pagar o tapete seria uma sacanagem e causaria um problema para o pobre homem. Já o vendedor, seguro de suas crenças acima de suas necessidades materiais, jogou a batata quente pro outro lado.
Sorte
Materinha da BBC News: O psicólogo Richard Wiseman (bom nome, eh?), responsável por uma unidade de pesquisa na Universidade de Hertfordshire, criou a "Escola da Sorte", na qual ensina a como ter sorte na vida. De acordo com ele, não adianta ser inteligente nem possuir habilidade psiquica. O que define a sorte de alguém é como essa pessoa encara a vida, ou seja, um positivo approach to life é essencial.
Para ajudar seus 70 alunos, Wiseman estabeleceu quatro princípios básicos de como se ter sorte: esperar sempre boa fortuna; agir rapida e decisivamente quando oportunidades se apresentam; ouvir aos chamados gut feelings e agir segundo seus palpites; e ainda analisar objetivamente os insucessos e ver que tudo poderia ter sido pior.
Eu acredito em tudo isso. Sigo meus gut feelings já faz tempo, mas acredito em uma coisa que não foi citada no artigo. Acredito que as pessoas sortudas entram numa zona energética favorável aos sucessos. Acredito piamente em energia pessoal e em ondas cerebrais capazes de fazer com que duas pessoas tenham respostas diferentes da vida no sentido geral.
Com isso, não estou falando de nada sobrenatural, mas de simples empatia, da capacidade do ser humano de simplesmente estar mais aberto à positividade. Não precisa ser gênio nem professor em Hertfordshire pra saber que estando deprimido ou de saco cheio, irritado, é muito provável que você não obterá um resultado muito positivo da próxima vez que procurar um emprego.
Sei lá, às vezes acho essas pesquisas meio fajutas.
dezembro 30, 2002
Reveillon à brasileira
Ah, tô tão feliz!!! É que vamos passar o reveillon na casa da minha amiga Sonia, médica brasileira que mora aqui pertinho de mim com o marido sueco. Hurra! Hurra! Hurra! Hurra! Vou fazer o brownie da Nigella pra levar pra reunião, que incluirá ainda outro casal sueco-brasileiro que eu não conheço. Ai, que bom! :cD
Aliás, falando em reveillon, tem uma coisa que me deixa muito estressada no final do ano. É que aqui na Suécia a compra e venda de fogos de artifício é liberada para qualquer um. Dependendo do tipo, até mesmo crianças de 15 anos podem adquiri-los em qualquer supermercado.
Acho isso um absurdo sem tamanho. Ainda não consigo entender como, numa terra onde tudo é reguladíssimo, os cidadãos podem falar no celular enquanto dirigem - mesmo com gelo na pista - e podem comprar brinquedos de final de ano que incluem a mistura literalmente explosiva pólvora + fogo + bebida.
dezembro 29, 2002
"...E.T. phone home..."

Já estamos nos preparando para mais uma noite com filme novo no DVD. Ces acreditam que Stefan nunca viu "E.T." por inteiro? Gente, acho que esse é um dos filmes mais marcantes de toda a minha geração. O Steven Spielberg é um gênio inspiradíssimo e eu sou fã dos filmes dele (até "Tubarão" acho bacana). Ainda me lembro quando o E.T. aparece pela primeira vez, no meio dos arbustos, depois de ter sido esquecido por sua nave. Estava tão extasiada com o filme que, na excitação, levei um susto e estalei as mãos no rosto para cobrir os olhos. Doeu pacas. :cD
Aliás, esse era o lance do lançamento do E.T.: a imagem do extraterrestre não foi mostrada na campanha de marketing exatamente para que todas as crianças não soubessem como seria esse "monstro". Gente, eu tinha 11 anos recém-completos, e fui pro Leblon 1 na sessão das duas da tarde com medo. Mas foi uma revelação. Claro que choro até hoje com a cena das flores que voltam a nascer quando o E.T. desperta e, no final do filme, quando ele diz: "I'll be right here" e aponta para o coração do Elliot... Nossa, já estou aos soluços.
dezembro 28, 2002
O aprendizado de Stefan
Acabamos de assistir ao DVD do Moulin Rouge, que Stefan me deu de Natal. Para a minha surpresa, ele A-M-O-U o filme. Cantarolamos as músicas - Nirvana, U2, Elton John etc - rimos das cenas engraçadas e nos encantamos com o visual. Já tinha visto o filme uma vez. Pedi o DVD naquela minha listinha só de sacanagem, mas ele leu e comprou. Além do MR, ganhei também a edição de luxo do E.T.. O máximo!
Agora Stefan está aqui do meu lado assoviando "the hills are alive with the sound of music" e eu achando o maior barato. Outro dia vimos na TV Muito Barulho por Nada, com Denzel Washington, Kenneth Branagh e Emma Thompson. Leitor de Shakespeare, ele amou. Meu próximo passo é fazer com que meu amor largue de vez Bruce Willis, Silvester Stallone e entregue-se à poesia imortal de Jane Austen, O Piano, Corrina, Corrina, e todos os filmes da Nora Ephron+Meg Ryan+Tom Hanks. Hahahahahahaha. {Risada diabólica}
dezembro 19, 2002
Feminismo sueco
A minha amiga Ines, que mora perto de Gotemburgo, no sul da Suécia, publicou um post sobre isso e eu achei simplesmente perfeito. O grupo feminista Mulheres sem Fronteiras (Kvinnor utan Gränsen), criou uma campanha para rebater anúncios da cadeia sueca de roupas Hennes & Mauritz - uma gigante multinacional com lojas em todas as grandes cidades européias, Nova York, Los Angeles etc - que mostra sempre modelos impossivelmente perfeitas posando apenas com langerie.
A idéia das feministas foi tirar fotos de pessoas "normais": gordas, velhas, homens vestidos de langerie feminina e espalhar por toda Estocolmo. Segundo a Ines, a campanha está fazendo o maior auê. Não tenho meios de saber desse bochicho porque, como alguns de vocês sabem, moro mais perto do Papai Noel do que as renas. As fotos são estranhíssimas, mas muito engraçadas e acho que atingem seu objetivo: mostrar que coisa imbecil essa de escravizar a humanidade a um padrão de beleza impossível de ser alcançado, a menos que você tenha sido abençoado com um lote perfeito de DNA, o que é raro, vamos e venhamos.
Inezoca diz que gosta desse aspecto da suecada: essa rebelião contra os padrões famélicos de mulheres e homens. Concordo com ela. Não sei explicar exatamente por que, mas o povo desse país é muito mais tolerante e receptivo às, digamos, formas alternativas de beleza. Em português claro: pessoas que não são perfeitas. Ah, na foto aí ao lado, lê-se a palavra "Oretuscherad", que quer dizer "Sem retoques".
Junto às fotos há declarações das pessoas que fizeram parte da campanha. Essa moça aí em cima disse que leu em algum lugar que são apenas oito as mulheres consideradas perfeitas, ideais. Em todo o mundo. Gente!!!! O mais estranho nessa história toda é que "normal" virou sinônimo de defeituoso, repararam? Que coisa.
dezembro 18, 2002
Peculiaridade dessa terra
A Priscila perguntou lá nos comentários o que é snus e achei legal explicar mais longamente. É que nunca falei disso aqui e trata-se de uma coisa que só existe aqui na Suécia. Snus é um tipo de tabaco molhado, que é vendido em pequenas latinhas redondas e colocado sob o lábio superior, em contato direto com a gengiva. O lance de se usar snus é evitar que o cidadão fume.
Acho essa coisa de snus meio nojenta, mas sem dúvida é menos invasivo do que o cigarro. Quem usa esse treco - que vem soltinho ou em porções separadas em saquinhos - fica com uma aparência estranha. Nunca me esqueço de quando encontrei um amigo de Stefan na primeira semana que vim morar aqui. Estávamos conversando e lá pelas tantas o sujeito se vira para o lado. Pensei: "O cara vai espirrar". Quando ele volta a olhar pra mim, está com um calombo no lábio de cima, que o faz ficar a cara do Grinch.
Quase morri de rir. E o pior é que eu não conhecia o cara. Foi horrível! Tive que explicar que do lugar de onde eu vim esse negócio de colocar saquinho na boca (em público) é meio estranho. Mas o cara é gente boa e riu de tudo. Que mico.
dezembro 17, 2002
Mania nacional
Os suecos adoram cozinhar. Meninas e meninos aprendem na escola, em aulas de economia doméstica, como preparar receitas básicas, que os ajudam a evoluir para pratos mais complicados quando se tornam adultos. E o interesse nunca morre. Por isso, a TV sueca está repleta de programas de culinária.
O Kanal 5, tem dois diferentes. O Jamie Olivier - gato! miau! - e um sueco metido a muderno chamado Anders Gabrielsson, que mais canta e dança do que cozinha. Esse programa, chamado "Kocken", não é bom.
A SVT 1 tem a Tina Nordström com o seu programa "Mat" ("Comida"), que faz o maior sucesso. O livro dela está vendendo horrores e eu estou esperando ter dinheiro para poder comprar. Meu único problema com a Tina é que ela vem da região Skåne [skoone] e fala com um acento muito próximo do dinamarquês - isso porque Skåne fica no extremo sul da Suécia, e sua principal cidade, Malmö, é ligada por uma ponte à Dinamarca. Dificílimo de entender.
Todos esses programas não são diários, mas aparecem em dias alternados, de forma que tem sempre alguma coisa interessante acontecendo nas cozinhas desse país. Diário mesmo só o "Köket" ("A Cozinha"), programa de culinária rápida veiculado pela TV 4 e que vai ao ar um pouco depois da hora do almoço. O programa da Nigella também é veiculado pela TV 4, o meu canal sueco favorito. Acho todos os programas bacanas, o Jamie Olivier é definitivamente uma gracinha, mas a Nigella, pra mim, é imbatível.
Snow Flecked Brownies da Nigella
Ingredientes
375 g de chocolate amargo de melhor qualidade
375 g de manteiga sem sal em temperatura ambiente
1 colher de mesa de extrato de baunilha
6 ovos
350 g de açúcar
1 colher de chá de sal
225 g de farinha de trigo
250 g de botõeszinhos de chocolate branco (de preferência Montgomery Moore), mas você pode apenas cortar a quantidade necessária de um bloco de chocolate branco comum
Como fazer
- Pré-aqueça o forno a 180 C.
- Coloque papel de assar no fundo e nas laterais de um tabuleiro
- Derreta a manteiga e o chocolate amargo juntos em uma panelona (não fala nada sobre banho-maria)
- Separadamente, bata os ovos com o açúcar e a baunilha
- Coloque a farinha dentro de outro recipiente e adicione o sal
- Quando a mistura de chocolate tiver derretido por completo, deixe esfriar um pouco antes de juntar os ovos, bater tudo junto, e depois juntar a farinha
- Finalmente coloque os chocolatinhos brancos na massa e despeje tudo no tabuleiro
- Asse por cerca de 25 minutos
- Os brownies estarão prontos quando sua parte de cima mostrar manchas mais claras, mas o interior estiver escuro, denso e bastante molengo. Lembre-se que eles continuarão a cozinhar enquanto esfriam.
Sem culpa
Ontem vi um especial de Natal da Nigella Lawson (foto), uma inglesa que faz um programa maravilhoso de culinária. Ela é linda, fala rápido do jeito que os chefs de TV fazem, mas o programa dela tem um charme diferente.
Primeiro porque é gravado na casa dela. Além da cozinha, aparecem paredes e mais paredes cobertas por estantes qualhadas de livros de receita, mesas repletas de papéis e até o monitor do computador aparece apoiado em três livros grossos. Um deles é um tomo amarelo, onde lê-se a palavra "culinária", assim em português mesmo, na lombada.
Tem também vezes que ela vai buscar conservas e condimentos em uma dispensa que é simplesmente um luxo. Muitos vidrinhos, temperos indianos, frutas secas, uma viagem.
O bacana da Nigella é que ela tem uma filosofia: ela gosta de comer. Quem a assiste precisa esquecer as horas que passou malhando na esteira ou a saladinha com frango grelhado que comeu no almoço. O lance da Nigella é volúpia por comida. É preciso estar preparada para receitas que incluem, por exemplo, 375 gramas de manteiga, 375 gramas de chocolate ao leite, 350 gramas de açúcar etc.
Diz lá no site dela: "I am not a chef. I am not even a trained or professional cook. My qualification is as an eater." Não é o máximo? E pensam que ela é magra? Nãnãninãnão. Ela tem bundão, um quadril de respeito e barriga. Não é a toa que vive de preto nos programas. Mas isso só me deixa ainda mais fascinada.
É uma luxúria que te faz feliz porque ela aparece comendo as coisas que faz, que são invariavelmente deliciosas, e não é aquela papagaiada de passar de baixo da mesa e de tocar porquinho na porta da geladeira. É um contentamento verdadeiro.
Aliás, esses ingredientes citados aí em cima fazem parte de uma receita m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a de brownies. Tem alguém interessado? :c)
dezembro 16, 2002
Família, família! Papai, mamãe, titia...
Fui a Piteå fazer bolinhos suecos com minha sogra e a irmã do Stefan. Cozinhamos a tarde de sábado inteira e eu ainda estou cansada. Mas foi bom porque falamos muito, rimos etc. Aliás, falamos tanto que, no final do dia, meu cérebro já tinha dado tudo o que tinha que dar e eu não conseguia mais colocar Å e Ä juntos. Nenhuma palavra em sueco saiu da minha boca depois de cinco horas de conversa ininterrupta. Tentei apelar pro inglês, a escolha lógica, mas mesmo assim, no final das contas, só conseguia mesmo emitir sons parecidos com português. No Natal tem mais.
Aliás, saiu uma coisa interessante hoje no jornal sobre Natal. Um instituto de pesquisa fez um levantamento e descobriu que um em cada três suecos gostaria de não precisar trocar presentes no próximo feriado. Achei magnífico porque é assim que eu sinto também. O instituto ouviu mil suecos a partir de 15 anos de idade entre 26 de novembro e 2 de dezembro e perguntou se eles estavam ansiosos pelo Natal e pela troca de presentes. Sinceramente? Eu estou ansiosa sim. Estou ansiosa porque quero que acabe logo.
Se pudesse, reuniria as pessoas pelas quais realmente sinto carinho - apesar de saber que isso me custaria uma penca de dinheiros porque bilhetes aéreos estão pela hora da morte - e faria um Natal simples. Um jantar, muita conversa, um filme no DVD, um vinho, mais conversa e pronto. Se bem que, levando em consideração minha família, teria de fazer vários jantares em noites alternadas. E isso também seria cansativo. Ainda não consigo deixar de mandar coisas pra mãe, pai, irmão. Queria chegar a um acordo comigo mesma e com eles de um pacífico e mútuo não-envio de presentes. Sem angústias ou culpas.
É, vou voltar pra debaixo do edredon.
dezembro 12, 2002
Racismo
Luis Fernando Veríssimo - 14/5/75
- Escuta aqui, ó criolo...
- O que foi?
- Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.
- E não existe?
- Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca... É, não adianta. Negro quando não faz na entrada...
- Mas aqui existe racismo.
- Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia... E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.
Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!
- Eu insisto, aqui tem racismo.
- Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra branco?
- Não, mas...
- Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregadoza de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?
- Eu sei, mas...
- Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.
- É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.
- Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.
- Mas isso é racismo.
- Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.
- Sim, mas...
- Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.
- Pois é, mas...
- Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.
- Pois então. O ...
- Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.
- Mas...
- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.
- É, mas...
- E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.
- Sim, mas...
- E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.

Nem ia escrever mais nada hoje mas estava passeando pela Web quando entrei no maravilhoso Porta Literal e encontrei este texto do Veríssimo. Reparem na data: 1975. O texto é atualíssimo e, eu diria, internacional. Infelizmente.
dezembro 09, 2002
O suficiente é satisfatório... Será?
Essa discussão sobre o racismo na Suécia está mesmo pegando fogo. Semana passada (ou até um pouco antes, não me lembro mais), a Sveriges Television (SVT) - uma TV Cultura melhorada e com muito mais audiência - vetou a participação de uma apresentadora em um problema. A razão? Ela é muçulmana e usava chador, aquele véu cobrindo toda a cabeça, só deixando a mostra seu rosto.
Foi uma grande discussão aqui e, bem ao estilo sueco - todo mundo é igual a todo mundo etc - a presidente da SVT foi explicar o por quê da discriminação no ar, em um programa chamado Mosaik, criado para imigrantes.
A explicação dela - essencialmente sueca - foi que tudo tem que ter o seu limite, ou seja, a sociedade está aberta a qualquer manifestação cultural e religiosa, mas deve resguardar seus telespectadores de uma visão excessivamente parcial do noticiário. Ou seja: "Aceitamos de tudo, mas só um pouco de tudo".
Há uma palavra que define o que é ser sueco: lagom [lóogom]. Lagom quer dizer, suficiente, o bastante, moderadamente. Tudo na Suécia, para ser satisfatório, tem que ser lagom. Não fica bem ser mais nem menos. E, nesse contexo, o chador da moça estava um pouco excessivo.
Acho esse conceito do lagom muito bonito. Até mesmo um pouco espiritual, se olhado de perto. Mas como explicação por uma ação discriminatória é um pouco demais. Às vezes, fico até irritada com tanto comedimento e me dá vontade de soltar os bichos e botar pra quebrar com essa suecada chata. Mas a vontade passa logo. Achei essa charge aí ao lado em um dos jornais daqui, bacana, né?. Mas bom mesmo é isso aqui (lembrado pela Ana e resgatado imediatamente pela Andrea): "Moderation is a fatal thing, Lady Hunstanton. Nothing succeeds like excess." - Oscar Wilde, "A Woman of No Importance".
U-HU!
dezembro 06, 2002
Amor ao branquinho
Conversando com a Andrea sobre comidas européias, tive a idéia de escrever sobre arroz. Aqui na Suécia se come arroz com parcimônia, já que o principal alimento do grupo dos carboidratos é a batata. Mas, de vez em quando, o arroz aparece.
Uma dessas oportunidades é agora no Natal, quando os suecos comem uma gororoba chamada "Arroz a la Malta". A receita é simples e inclui pourrage de arroz com açúcar (!!!!), creme de leite (!!!!!!!!!) e laranjas (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!).
Eu já provei - sogrinha me deu uma colherona Natal passado - e não gostei. Arroz pra mim é salgado e deve ser servido com pratos salgados, sempre. De preferência todos os dias, acompanhado de um franguinho grelhado, um feijãozinho, couve... hummm.
Quem disse que eu só falo de comida? :cD
dezembro 04, 2002
NHAM! NHAM! NHAM!
Estou aqui com os preparativos para o Natal (pois é, não gosto mas me curvo às tradições para a felicidade geral da nação). Já comprei os presentes da mamãe, do meu pai e da mulher dele, mais ainda preciso comprar o do meu irmão. Já sei o que é mas não vou escrever não porque ele baixa por aqui de vez em quando. Então estragaria a surpresa.
Um dos preparativos é ler o livro de receitas da minha avó para escolher um bolo ou mousse ou sei lá o quê para levar pro Natal com a família do Stefan. Já escolhi duas receitas bem simples que, acho, não terei problema em executar. A primeira é um mousse de chocolate e sorvete de creme e a outra é um pudim de leite comum.
O pudim de leite acho pouco para Natal, mas eles não sabem que é pouco, de forma que seria engraçado. Mas uma "especialidade brasileira". Mas a tal da mousse me parece muito boa e, tenho a impressão que cairia mais no gosto da suecada. A receita é simples:
Mousse de chocolate com sorvete de creme da vovó Celia
Ingredientes:
- 8 colheres de sopa de açúcar refinado;
- 300 gramas de chocolate meio-amargo;
- 8 ovos (temperatura ambiente);
- 1 litro de sorvete de creme;
- pitada de sal;
- 3 gotas de limão.
Modo de fazer:
- Bata bem na batedeira as gemas, no ponto de gemada.
- Adicione aos poucos o açúcar refinado e pare a batedeira.
- Desmanche o chocolate em banho-maria no fogo baixo (viu Marcinha! :c)
- Deixe esfriar.
- Misture o chocolate frio com a gemada.
- Bata as claras em neve com o sal e o limão.
- Acrescente as claras batidas à gemada e mexa l-e-v-e-m-e-n-t-e com uma colher de pau.
- Arme a mousse numa forma de torta, de fundo removível, da seguinte maneira: uma camada da massa e outra de sorvete de creme sucessivamente. Termine com uma camada de mousse.
- Leve ao congelador (ou à varanda :c)
- No dia seguinte, 1 hora antes de servir, retire o aro da forma, ponha-a num prato e decore com chocolate peneirado por cima. Se precisar, leve à geladeira antes de servir.
novembro 27, 2002
Navegando na merda gigante germânica
Os comentários de vocês no post abaixo me fizeram escrever mais sobre palavras, idiomas, expressões etc. A Andrea, mestra em alemão, me lembrou de outros dois vícios que, admito, até eu mesma tenho em sueco. Ela disse que os alemães colocam "um scheiß - ou um sau - na frente de qualquer coisa (o que seria "de merda". Sauwetter é "esse tempo de merda".) A tradução literal de Sau é porca. A coitada tem mil funções aqui...". Hohoho.
Acho que "merda" é uma fixacão européia e germânica porque aqui também é a mesma coisa. Os suecos colocam o skit [shit] na frente de tudo. O sorvete é skitgod [shit gud], muito bom, delicioso, ou o filme foi skitdålig [shit dôlig], muito ruim, péssimo.
Além desse tem o tal do jätte [iéte], que quer dizer gigante. Coloca-se jätte na frente de qualquer adjetivo para dar ênfase à qualidade indicada, por exemplo: O sorvete é jättegod [iéte gud], muito bom, delicioso. O mais doido é que eles (e eu também, mea culpa, mea culpa!!!) empregam o tal do gigante até em situacões logicamente duvidosas, como no vocábulo jätteliten, que quer dizer muito pequeno, mínimo. Afinal, é gigantesco ou mínimo?
O fato é que eu concordo com a Patty, que já está aqui na Suécia há dez anos e sabe muito melhor do que eu como é que são as coisas por essas bandas: é difícil encontrar pessoas que falem um sueco rico o suficiente para te ensinar palavras não tão comuns. Ela escreveu: "quando eu pergunto palavras como: essencialmente, negligente, versátil etc, eles se espantam porque é tudo limitado no "en sak" (uma coisa), "den" (isso), "det" (isso), "bra" (bom), "dålig" (ruim), como a gente vai aprender se eles mesmos não falam direito????".
Boa pergunta.
novembro 26, 2002
Jag är liksom förbannad så att säga
Quando se aprende uma língua estrangeira in loco - cursinhos são bons mais perde-se muitos detalhes - seu ouvido fica afiado para dialetos, palavras estranhas ou bonitas. Além disso, percebe-se com mais facilidade aqueles vocábulos repetidos ad nauseum: os chamados vícios de linguagem.
No pouco tempo em que estou aqui pude identificar dois vícios chatérrimos mas que parecem estar entrando goela a dentro do sueco médio via programas jovens de TV. Por exemplo, usa-se muito o vocábulo liksom, que é o like americano ou o tipo brasileiro. Então, fala-se: "Estou assim, tipo meio cansado". Ou: "I'm, like, sort of tired". Ou ainda: "Jag är liksom trött". A diferença é que usa-se o tal do liksom como uma vírgula, intercalando todas as frases que saem da boca do indivíduo.
Então fica assim: "Eu tava, tipo, cansado. Aí tentei, tipo, sair d'ali e, tipo, ir pra casa pra, tipo, dormir um pouco". A versão sueca é: "Jag var liksom trött. Då försökte jag liksom fara därifrån och liksom går hem och liksom sova lite, liksom". Grrrrrrrrrrrrrrrr....
O outro vício de linguagem que identifiquei é uma expressão: så att säga [sô at seia], que quer dizer por assim dizer. Os suecos empregam essa expressão no final de frases nas quais explicam uma situação ou quando dão sua opinião sobre algo que aconteceu. Por exemplo: "Det snöar idag så att säga", ou "Está nevando hoje, por assim dizer". Não faz sentido né? Pois é, eu sei. Mas parecem que os suecos não sabem.
novembro 22, 2002
Na Cozinha Maravilhosa da Ofélia
Hoje vou fazer o petit gateau da Marcinha pra ver se fica ao gosto da suecada. Se ficar, vai ser minha contribuição para a festa de final de ano na escola e para o Natal da minha sogrinha. Já escrevi isso aqui, mas como faz alguns meses e nenhum de vocês deve ter lido (e quem leu já esqueceu), uma das minhas grandes descobertas sobre mim mesma desde que vim morar aqui é que adoro cozinhar. É um processo criativo que faz todos os meus sentidos interagirem.
Até quando faço um arroz branco fico animada com os grãos se abrindo, se modificando, bebendo a água que eu coloco na panela e absorvendo o sabor do alho amassadinho. Outra coisa legal sobre cozinhar é que você agrada a quem ama. E isso é bacana pra chuchu. Vou fazer ainda para o jantar uns croquetinhos de milho, invenção de mamy. São super fáceis e gostosos. A receita é essa aqui:
Ingredientes:
-- 1 lata de milho
-- 2 latas de leite (mesma quantidade da lata de milho)
-- 1 colher de manteiga ou de azeite
-- 4 colheres de sopa bem cheias de farinha de trigo
-- pitada de sal
Modo de fazer
-- Bata tudo no liquidificador;
-- Ponha numa panela até cozinhar. Se ficar mole, coloque um pouco mais de trigo dissolvido no leite;
-- Deixe esfriar e enrole;
-- Passe as bolinhas no ovo e na rosca e frite.
(Eu, mamãe e vovó costumávamos assistir ao programa da Ofélia na Bandeirantes, quando eu era adolescente. Minha mãe, cujo apelido é "generala", era a Ofélia e eu, claro, era a Maria Aparecida, a ajudante muda (alguém se lembra das rosas de cascas de tomate que ela fazia?). Nos divertíamos à beça, porque eu reclamava sem parar que minha mãe pegava no meu pé, me mandava fazer todas as "piores coisas", como descascar batatas (ainda tenho trauma), lavar a louça já utilizada etc. Minha avó só olhava e não dizia nada. Quando eu e mamãe acabávamos de discutir a comida já estava toda pronta. Minha avó detestava discussões. Ai que saudade.)
novembro 19, 2002
Biritasssshhhh
Ontem, na aula de auto-escola, tivemos palestra de um cidadão da Sociedade Nacional de Seguranca das Estradas (NTF, da sigla em sueco), e fiquei sabendo de umas coisas engracadas sobre as leis de trânsito desse estranho país. Bom, nem preciso repetir que a tolerância sueca para pessoas pegas bêbadas ao volante é zero, né? Pois é, vocês sabiam que é proibido ter mais de 0,2% de álcool no sangue até para dirigir esse cortador de grama aí do lado?
E tem mais! A polícia tem o poder de requisitar a sua carteira de motorista mesmo se você não estiver dirigindo, mas andando pela rua torto de tanta birita. O fato de você ter bebido muito e ter perdido a linha indica, aos olhos da lei sueca, que você não tem capacidade de parar de beber e pode vir a dirigir alcoolizado. Então tchau carteira. Legal, né?
Agora, se isso realmente fosse feito como eles dizem que é (não sei se nas cidades maiores acontece mas aqui eu nunca vi), acho que um terco da populacão sueca não poderia guiar. Esse povo bebe muito!
novembro 16, 2002
'Sex and the city' por
'Sex and the city'
por Ana Cristina Reis, O Globo
Vira e mexe alguém me pergunta "E aí, tá vendo 'Sex and the city'? ". Sim, não perco um episódio no Multishow, mas acho que não gosto do programa - ele é inteligente demais e chato demais. E não vá pensar que é dor-de-cotovelo não, viu? A personagem que narra os encontros e desencontros de quatro mulheres em Nova York é jornalista, solteira e escreve sobre o cotidiano das mulheres solteiras. Eu também. Só que é ela é loura e magra e anda com uma sandália Ferragamo como se estivesse de Havaianas. Ai, que raiva.
Carrie é a jornalista cuca-fresca, uma contradição em si. Samantha é a relações-públicas quarentona que adora sexo e pratica muito - ela é o ídolo da minha irmã do meio, que mora na Flórida, nunca foi muito de acompanhar séries na TV e hoje tem todas as fitas do seriado.
Charlotte é a dona de galeria de arte que não gosta de sexo oral. Miranda é a advogada que vive namorando caras mais novos.
Existe um ponto em comum entre essas moças e a maioria das outras, reais, que eu conheço: é o detalhe bobo que mata a relação. No caso de Charlotte, o noivado com um belo rapaz de família terminou na hora de escolher os pratos para casa - ela queria louça no estilo provençal, ele preferia o clássico americano. Amiga minha não marcou um segundo encontro porque o homem não sabia como era a bandeira do Canadá. "Se fosse a Polícia Montada do Canadá, tudo bem. Mas a bandeira?", argumentou.
- Acho o programa a sua cara - ouvi de uma colega de trabalho.
A minha cara?
Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda só aparecem bebendo. Não têm que se preocupar se os figos estão maduros, se falta presunto na geladeira ou se deixaram de pagar ao porteiro o combinado para lavar o carro. Carro? Elas andam de metrô de dia e de táxi à noite. O único carro que apareceu no seriado foi um conversível usado para levá-las à casa da amiga rica no subúrbio. Como se eu fosse daqui a Itaipava com vento nos cabelos - passando na ida e na volta pela Linha Vermelha.
Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda saem todas as noites para bares de pé-direito alto, mármore no chão e homens de mais de um metro e oitenta nos sofás. Pode até lembrar São Paulo, mas meus amigos são cariocas e vão ao Jobi.
A única preocupação de Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda é encontrar o homem ideal para se casar. Elas não têm a revisão dos 15 mil quilômetros do carro chegando. Não precisam decidir qual é a melhor lâmpada para instalar em cima do espelho - individual, tubular, quente, fria, móvel, fixa? Não sofrem com a questão premente e latente que dá insônia constante: começar um regime sério amanhã, se não daqui para frente vai ser ladeira abaixo. Suas roupas para sair já não cabem, o queixo duplo é ponto forte na família, você já está sendo olhada com aquela simpatia íntima que os gordos atraem.
Antes e durante, o regime é acompanhado de dúvida massacrante, e se eu emagrecer mas o mundo não ficar cor-de-rosa? E tome remédio para depressão.
Depressão? Para elas dura um segundo, afinal tem tanto homem alto e solteiro em Nova York dando sopa, não é mesmo? E mais não sei porque os homens do seriado não se manifestam, o falatório é todo de Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda. Aliás, falta amizade com homens em "Sex and the city". Estranho. E triste. O que seria da gente se não houvesse o Pedro para avisar que abriu um bar ótimo perto de casa? O Flávio, convidando para uma festa com bela pista de dança no Alto da Boa Vista? O Márcio, que vai a todos os lançamentos de filmes e avisa o que vale a pena ver e o que não vale? O João, para tirar sua insegurança sobre unhas pintadas?
Porque os homens têm uma bondade, uma filosofia e um humor só deles. Por mais que Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda sejam liberadas, companheiras, espirituosas e desbocadas, nada se iguala às tiradas masculinas. Como a da unha pintada... Perguntei para o João se ele achava feio mulher com unha pintada, a exemplo de um conhecido meu que disse que unhas com esmalte pareciam dez baratinhas indo em sua direção. João pensou um pouco, comentou que ia repetir o que ouviu certa vez do nosso amigo Dapieve, olhou para os lados para se certificar de que não chocaria ninguém, e respondeu:
- Quem f... com esmalte é acetona.
novembro 15, 2002
Dando nome aos bois
Mais uma esquisitice sueca que esqueci de colocar na minha mais recente listinha: o Nanmdag, ou o dia do nome. É que todos os dias se comemora, ou se lembra, um ou dois nomes suecos. É a coisa mais estranha. Tudo é oficial, com lista editada dos nomes a serem distribuídos pelo calendário e tudo. Os adultos da minha idade não prestam muita atencão nisso, mas criancas e idosos, sabe-se lá porque, gostam de saber que por exemplo hoje, dia 15 de novembro, é dia de Leopold. Querem a lista completa? Está aqui. Documento em .pdf, ok? Seguro, sem vírus, feito aqui na minha máquina.
Não acredito que seja apenas mais uma estratégia para se vender coisas, como os dias das mães e dos pais. Mas de repente é um correspondente ao dia das criancas, que aqui não tem. Bom, são muitos os nomes estranhos, mas tem outros normais, como Maria, dia 28 de fevereiro, Alice, dia 23 de junho, Andrea, dia 10 de julho, Inez, dia 6 de agosto, Marina, dia 20 de novembro e Stefan, dia 26 de dezembro. Tá tudo muito normal pra ser sueco, certo? Então veja essa listinha:
Frideborg [fridebóri] (12 jan.); Sigfrid (15 fev.); Torbjörn [Torbiórn] (9 mar.);
Engelbrekt (27 abr.); e Ingeborg [Inguerbórg] (28 maio); Germund (19 jun);
Ragnhild e Ragnvald (15 julho); Brynolf (16 agosto); Åsa [Ôssa] (12 set.);
Erling (11 out.); Gudrun (24 nov.); e Gottfrid (15 dez).
Alguém conhece a Glória Perez? Pode dizer pra ela que aceito ser consultora de nomes estranhos pras novelas dela, ok? :D
novembro 13, 2002
Observacões
Sabia que os carros daqui andam com os faróis acessos 364 dias do ano à noite mas também de dia? Ainda não descobri o por quê. Vou perguntar na minha próxima aula de auto-escola.
Os suecos têm um método gozado de planejar: eles contam o ano em semanas. Isso mesmo. São 52 semanas por ano. O meu aniversário, por exemplo, cai na semana 28 ou na 29. O Natal, claro, é semana 51 ou 52. Stefan diz: "vou ter folga na semana 34", como se eu soubesse quando isso cai. Saio correndo pra consultar a folhinha.
Mais uma tradicão sueca: dia de Natal, família reunida, muita comida e bebida. Tudo pára às três da tarde para que todos possam assistir a desenhos animados do Pato Donald (Kalle Anka, em sueco). Não há variacões, como Mickey ou Pateta. Só dá Kalle Anka. Claro que quis saber como surgiu mais essa esquisitice, mas ninguém soube me explicar.
Os suecos comem bolo de colherinha e não com garfinhos. Coisa mais estranha da paróquia. Já tentei introduzir os garfos que ganhei de vovó mas minha iniciativa não foi bem recebida. :c/
Ao invés de tratar com cloro, a água de piscina aqui é purificada com ozônio. Stefan me explicou isso dizendo que é menos perigoso para o organismo. Eu só pensei como seria se eles tratassem a água com cloro: a Suécia seria o país de gente com cabelo verde.
novembro 07, 2002
Neve, snow, snö
A Tone Bekkestad, norueguesa meteorologista da TV4 - que tem um dos melhores noticiários daqui - disse que hoje ia nevar aqui no norte da Suécia.
Cadê???
Bom, vou ao supermercado antes que comece porque quando nevar quero sentar na janela com uma xícara de chá pra ver cair.
Aliás, essa coisa dessa Tone ser apresentadora é estranha. Ela fala um sueco norueguisado estranhíssimo. Parece que tem um ovo quente na boca. Até alguns suecos já disseram que entendem pouco o que ela diz.
É mais ou menos como se um argentino apresentasse o tempo no Jornal Nacional em bom portunhol, entendem? Imaginem que absurdo! Civilidade sueca: coisa mais estranha!!!!!
Exatidão sueca
Sueco é maluco por estatística. Tudo aqui é minuciosamente analisado; todas as pessoas e suas vidas devidamente classificadas. Quantos nasceram, quantos morreram, onde e até porque. Saiu hoje no jornal: até o terceiro trimestre do ano 788 pessoas saíram de Norrbotten - região do extremo norte da Suécia - onde moro. Em Boden, há atualmente 28.293 habitantes; 87 a menos do que no mesmo período do ano anterior. Os nascimentos foram 201, enquanto 238 pessoas morreram, o que causa um déficit de 37 almas.
Exatas 794 pessoas se mudaram para Boden, enquanto 842 saíram da cidade. São menos 48 pessoas morando e pagando impostos aqui. No que diz respeito à migracão e à imigracão, os números são assim: 12 pessoas advindas das cidades vizinhas se mudaram para Boden, enquanto 143 advindas de outras partes da Suécia saíram daqui. São 83 os estrangeiros em geral com visto de permanência no país que moram em Boden, como é o meu caso. Os imigrantes sem visto não entram na estatística.
Imagina essa organizacão minuciosa no Brasil??? :c)
O controle sobre o cidadão é tão intenso que qualquer um aqui se sente paranóico. Eu mesma, quando cheguei fiquei meio desconfiada. É que poucas semanas depois de fazer 30 anos recebi uma cartinha do hospital mais próximo me convidando para um exame de rotina para o controle de câncer uterino. Achei aquilo meio estranho e liguei pra minha sogra - que é uma ótima pessoa quando não nos metemos com os Tupperwares dela - pra perguntar se isso era correto ou se as autoridades suecas estavam me tratando como uma imigrante de saúde duvidosa.
Claro que a explicacão foi simples: assim que completam 30 anos, todas as mulheres são convidadas a fazer esse exame de quando em vez, exatamente para evitar o aparecimento de problemas. É a tal da medicina preventiva que escutamos tanto falar mas que nunca vimos funcionar, sabe? Gracas a Deus estava tudo bem comigo e esse meu primeiro encontro com o sistema de saúde sueco, apesar de confuso no início, foi satisfatório.
Um site muito bacana é que demonstra bem como os caras são organizados é o do Statistiska Centralbyrån. O link é da página em inglês. Sempre que eu o visito minha alma jornalístisca treme de prazer. :c)
outubro 17, 2002
Rapidinhas
Vejo dois meninos brincando de andar de bicicleta na neve fininha e já quase toda derretida pelo sol. Agora não sei se quero um deles ou se prefiro me juntar a eles.
Comprei minha passagem de trem até Estocolmo para poder votar pelo Lula. Quero ver chegar, Lula lá, brilha uma estrela...
Não sei que livro comecar para ler no trem. O que leio agora Paradiset, Liza Marklund, está no final.
Encontrei na rua com um conhecido que nos convidou para a festa de lancamento do CD da banda de heavy metal dele. Lamentou que não poderíamos ir. Eu disse que estaria em Estocolmo votando e Stefan vai trabalhar o fim de semana inteiro. Mas eu poderia ter respondido que preferia martelar um prego na cabeca a ir a uma festa de heavy metal. Adoro esse meu lado Dragon Lady.
Vou fazer peitinho de frango a parmegiana (sem a parmegiana, só com queijo) pro meu amor jantar.
Vi Apocalipse Now Redux no Pay Per View. Bonito pra burro. Por outro lado, uma depressão. Nunca mais.
A prova ontem foi difícil, bem difícil. Sei que perdi seis pontos, pelo menos, porque ao contrário do que costumo fazer, deixei uma questão em branco.
Quem vai ser a alma boa que dará o primeiro Prozac à Regina Duarte?
outubro 11, 2002
Quem Matou o Leão?
Terminei de ler o "Bröderna Lejonhjärta", da Astrid Lindgren. O livro, como disse num post logo aqui em baixo, é muito lindo porque é a narrativa de aventuras vividas por dois irmãos. Quem conta a história é o irmão mais novo, Karl, que é uma gracinha.
Mas, apesar de lindo, o livro tem um problema, na minha opinião: o final. É que no final do "Bröderna...", o Karl se suicida. Sim, o menino se suicida.
Putz, lendo assim, é dramático pra burro, né? Bom, mas o livro não é tão pesado assim como parece. A Astrid realmente escreve bonitinho e a história é bacana, mas... sinceramente? Ainda prefiro Maria Clara Machado. :c)
EXTRA EXTRA!!! -- Querem saber mais sobre a Maria Clara Machado? Inclusive seu novo visual? Cliquem aqui para ver a foto que a galera do IG colocou numa biografia da escritora e teatróloga mineira...É brincadeira?
outubro 09, 2002
Assassinaram a gramática
Estou fazendo o dever para a aula de sueco de hoje e queria escrever sobre uma mulher com vastos cabelos castanhos. Tasquei lá no papel: "Mörk hårig kvinna". Mörk quer dizer "escuro(a)"; hårig significa "cabeludo(a)"; e kvinna, "mulher".
Só que está errado. A razão? Se você não juntar as palavras mörk e hårig, o sentido fica totalmente alterado.
Então: Mörk hårig kvinna = Mulher escura e cabeluda; e Mörkhårig kvinna = Mulher de cabelos escuros.
O adjetivo mörk, no segundo caso, se junta e altera hårig. No primeiro caso, ambos adjetivos dizem respeito ao sujeito, kvinna.
Ô linguinha marvada! :c)
setembro 19, 2002
Vermelhos no poder
A Suécia teve eleicões gerais no último domingo e o governo "vermelho" dos Socialdemokraterna (Sociais Democratas) levou o cargo de primeiro ministro novamente - Göran Persson [ióran pérssson] -, apesar de ter perdido forca em algumas regiões. Os Sossans, como eles são chamados por aqui, tiveram nada menos do que 39,9% dos votos gerais. Contando com os 8,3% conseguidos pelos comunistas do Vänster Partiet - que quer dizer literalmente Partido de Esquerda - o bloco socialista vai a 48,2% e está quase com a maioria no parlamento assegurada. O bloco de centro-direita foi bastante votado também e alcancou 43,7% dos votos (contabilizadas aí as votacões dos quatro partidos, Kristdemokrat (Democrata Cristão), Centerpartiet (Partido de Centro), Folkpartiet (Partido do Povo) e Moderaterna (Moderados)).
O fiel da balanca vai ser o Miljö Partiet - de Gröna (Partido Verde), que conquistou 4,5% dos votos e decidirá quem terá maioria. Isso porque os verdes não têm coligacão automática com nenhum dos blocos de poder. Agora estão sendo cortejados pelos partidos de centro-direita que entenderam o recado popular de que o radicalismo na política está com os dias contados. Os mais extremistas - tanto o Partido de Esquerda como os Moderados - perderam muito terreno nessas eleicões. Eu achava que era mais do que lógico que os verdes se coligassem aos socialistas, mas eles pensam diferente. O argumento para sequer considerarem uma união com os representantes da direita é que eles teriam mais possibilidade de exercer influência sobre a política do que dissolvidos no mar de sociais-democratas. É esperar para ver.
Não pude votar (localmente pode-se votar apenas depois de morar aqui por pelo menos dois anos e para o Parlamento, somente com cidadania) mas se pudesse, votaria ou nos sociais-democratas, ou no Partido de Esquerda ou nos verdes. Esses três partidos têm políticas claras com relacão aos imigrantes e, afinal de contas, é isso o que me interessa. Já nos partidos de centro-direita há um movimento de endurecimento com relacão a quem vem de outros países para cá. Propõem desde testes de competência na língua sueca até transformar a ajuda de custo que o governo dá aos imigrantes em empréstimo. É como um sueco vindo claramente de uma família imigrante disse na TV: "São os infelizes ecos da política hard core da Dinamarca". Ai ai ai.
Fiquei analisando as possibilidades e pensei: se o problema for apenas uma prova de sueco, bring it on, porque nisso eu me garanto, mas essa coisa de transformar a ajuda monetária em empréstimo é um total e completo absurdo. Os imigrantes já saem na traseira de qualquer possibilidade de um emprego decente e bem-pago: precisam aprender o idioma primeiro, e isso demanda tempo, depois precisam viver, morar, se vestir e comer em um dos países mais caros da Europa, e ainda teriam de pagar de volta a grana que receberam do governo? Desumano. Se é pra ser assim, que fechem-se as comportas e que nenhum outro imigrante seja permitido aqui. Não adianta sair da guarra pra vim passar fome (e frio) na Suécia.
Não defendo moleza pra ninguém porque fico irritada quando vejo um imigrante que nitidamente se aproveita da seguranca que o estado sueco oferece a quem chega aqui de outras partes do mundo. Mas quero é justica e igualdade de oportunidades. E isso decididamente não é perdir muito.
julho 31, 2002
Uutiset
Vou contar pra vocês: dei um pulinho à Finlândia, quando estávamos em Haparanda e visitamos o estado-irmão Torneo. Quando voltamos à Suécia me senti em casa. Mas quero aprender finlandês. :c)
...e julho, hein? Nada de acabar...
julho 28, 2002
In Sauna Veritas
A outra coisa que descobri é que a sauna é a praia dos suecos. Explico: todo mundo faz sauna (ou bastu) aqui. A maioria nu, mas alguns pobres coitados pudicos - como eu, por exemplo - de maiô ou de toalha. Mas o que é interessante é o que o Stefan me contou: "Aqui na Suécia não sentamos num banco de praca e conversamos com qualquer um", disse ele. "Até porque quem se aventurasse congelaria", contribui. "Pois é", continuou ele. "Aqui, sentamos na sauna e conversamos com qualquer um que estiver lá. Na sauna é todo mundo igual". Aí fiquei pensando e perguntei: "Mesmo com todo mundo pelado?". "Claro, isso é normal".
Normal??? Normal???...
E o pior é que não é apenas com estranhos pelados que se faz sauna aqui, mas com amigo(a)s e seus respectivos namorada(o)s. Sim. Eu não sabia, mas todas as amigas do Stefan já o viram nu e ele já viu todas elas peladas. Eu posso com isso?
Bem, amanhã vou pra Haparanda, cidade mais ao norte daqui (daqui a pouco apareco lá no Canadá :c) conhecer uma universidade que oferece um curso para tradutores. Vou de ônibus de manhã com os meus coleguinhas do curso especial para os imigrantes e volto na tarde de terca. Aliás, quem quiser ver no mapa onde fica Boden, Piteå e até Haparanda, clique aqui tá? Um beijo.
julho 13, 2002
Falar e viver
O Tom Moore, do Mostly Music (que é feito também pela Laura Ronai), escreveu esse post aqui que eu achei interessante por ter sido uma das minhas descobertas mais recentes:
Language and personality
I found this in a page on the Czech language today: As the Czech saying goes: "You are as many times a person as many languages you speak." The English rendering is not quite idiomatic, but you get the idea.
And I guess it must be common, because it only took a few more seconds to find the Czech... Kolik jazykù znáš, tolikrát jsi člověkem. (As many languages as you know, that many times you are a man). I studied enough Czech to read it slowly with a dictionary, but speaking it is another matter entirely.
Comentei que eu sentia isso na pele, todos os dias. Falando português sou uma pessoa; sueco, outra. E não tem apenas a ver com falta de vocabulário, mas com mudancas mais drásticas, como o próprio ritmo da fala. Notei que quando falo sueco, minha fala fica "ondulada" - no sentido de altos e baixos; sons novos e combinacões meio ilógicas. Não sei explicar direito. Mas é estranho. O Tom Moore respondeu ao meu comentário dizendo que quando ele, que é americano (eu acho), fala português até sua voz fica diferente.
Repito aqui um trecho do "Diário de Viagem", do Camus, que escrevi aqui no dia 14.05.02: "Quando se fala uma língua estrangeira, segundo Huxley, há alguém dentro de si que diz não com a mão".
Aliás, como a linguagem é importante! Outro dia estava vendo um dos documentários do Discovery e assisti um especial sobre um "cientista" que havia separado criancas de suas famílias e feito com que nenhuma linguagem lhes fosse ensinada. Ele queria saber se as criancas criariam um idioma próprio para se comunicar. Ele nunca soube porque todas as criancas morreram. Infelizmente não lembro o nome desse criminoso, mas acho que a experiência aconteceu na Rússia, mas não tenho certeza.
julho 11, 2002
Cacadores de andróides em missão impossível: fazer relatório minoritário do ataque dos clones
Fui ver "Minority Report" ontem. Gostei dos efeitos especiais e fiquei impressionada com a influência que o Kubrik teve nos últimos Spielbergs. Enquanto via o filme, pensava que "A.I.", que o Kubrik comecou e o Spielberg acabou, segue a mesma linha estética. Só que a história do menino-robô é mais pungente visualmente - principalmente quando ele fica imerso no oceano que invade Nova York. O sentido de tempo em "A.I." e em "Minority Report" é interessante, mas nada demais, na verdade. Uma discussão mais elaborada caberia num filme europeu, tenho a impressão.
Tive a sensacão de que estava vendo um "Missão: Impossível" mais requintado porque todos sabem que o Tom Cruise é o herói-que-cai-numa-armadilha-e-tenta-se-salvar. Aliás, se ele não tivesse feito os dois "Missão: Impossível" sua performance estaria mais palatável nesse "Minority...". Sabemos quem é o vilão lá pelo meio do filme e, a partir daí, só nos resta curtir os efeitos especiais. As imagens de carros e da cidade me fizeram lembrar um outro filme, de um companheirão do Spielberg: "Guerra nas Estrelas - O Ataque dos Clones". É muito parecido mesmo.
Uma coisa eu gostei no "Minority...": aqueles monitores transparentes da Nokia (dá pra ver o merchandising em uma das primeiras cenas do Max Von Sydow). Bacanérrimos.
Aliás, quem for ver não pode perder a parte em que o Tom Cruise se submete a uma cirurgia. Prestem atencão ao "médico" e à "enfermeira". Os dois são atores suecos e falam sueco entre si, muito legal. O cinema inteiro caiu na gargalhada enquanto eles trocavam "amabilidades", do tipo: "Cala a boca, querida", e ela, quando via o Tom Cruise e apertava a bunda dele (!), cantava uma das músicas de crianca mais antigas daqui: "Små grodorna, små grodorna, så lustiga att se" [smô grudurna, smô grudurna, sô listiga at sê; os pequenos sapinhos, os pequenos sapinhos, tão bonitinhos de se ver - tá aí a fixacão desse povo por sapos que eu já comentei aqui antes. Vai entender.]
Aliás, essa parte da cirurgia se parece com outro filme, um dos favoritos de toda a minha vida: "Blade Runner". "Minority..." não é nada maravilhoso, mas é bacana. Cópia é uma palavra muito forte para caracterizar esse Spielberg. Prefiro acreditar que ele se inspirou em todos os filmes que eu citei aqui. O que não é nada mau, né não?
Update: o meu amigo Tom Taborda, sempre atento, foi lá no site do Francis Strand (já comentei aqui e há link aí ao lado) e pescou essa explicacão dele sobre o "Minority...": [There is] An extremely bizarre part, which includes a nurse with a huge mole on her upper lip singing "Små grodorna." But she changes the words, which are in Swedish in the movie, singing: "small frogs, small frogs are funny to see. No eyes, no eyes, no tails have they..." (The real words are no ears, rather than no eyes.). Aliás, clique aqui se você quer saber mais sobre o filme -- num oferecimento de Tom Taborda Contribuicões Preciosas S.A..
julho 03, 2002
Hi-Fi
Vi ontem, mais uma vez, o filme "Alta Fidelidade", com o John Cusack. Já tinha lido o livro do Nick Hornby antes de ter visto o filme do Stephen Frears e amei os dois. O livro é simplesmente delicioso de se ler, além de ter uma série de dicas de como nós, mulheres, podemos tentar entender os outros seres com os quais dividimos o planeta e nossas camas.
Resolvi fazer um pequeno investimento em educacão interna, comprei o livro aqui, em sueco, e dei para o Stefan ler. Ele amou. Vimos o filme e ele amou também. Ainda tenho que conferir se todos os toques foram entendidos corretamente. Acho que vou preparar um pop-quiz :c)
Anyway, adoro o John Cusack, que faz brilhantemente o desgracado-coitadinho Rob. Apesar de meio ensebado - acho que faz parte da construcão do personagem - ele arrasa. O filme é ótimo, divertidíssimo. Está definitivamente entre os Top 5 da minha lista de melhores comédias-dramáticas modernas.
O ideal vermelho do Zé Rodrix
Veja nas fotos as tais das casinhas vermelhas, símbolo aqui do topo do mundo. Desde que visitei a Suécia pela primeira vez, em 1999, quis saber o por que dessa cor quase unipresente. E realmente tem uma explicacão. Antigamente, depois de construídas, as casas não eram pintadas, mas deixadas com a madeira aparente. A partir de 1800, no entanto, descobriu-se a capacidade de protecão do óxido de ferro, de cor vermelha, e que faz com que as paredes das casas suportem melhor os rigorosíssimos invernos e os verões com sol 24 horas por dia. A tinta, batizada de Falurödfarg [falúrôdféri = cor vermelha Falu], é a mais popular ainda hoje. Clique aqui para saber mais sobre a tradicão de construcão das casas suecas. Ah! Faltou dizer que essas fotos também foram tiradas no Skansen.
julho 01, 2002
Curiosidades sobre o "pecado" na Suécia
-- Sabia que a educacão sexual foi permitida nas escolas suecas pela primeira vez na década de 40?
-- Tinha idéia de que a educacão sexual tornou-se obrigatória em todas as escolas suecas em 1955?
-- Podia imaginar que o filme "Sommaren med Monika", do Ingemar Bergman, lancado em 1952-53, foi um marco da liberacão sexual daqui, por mostrar uma mulher jovem, solteira e naturalmente em paz com o seu corpo e com os desejos que ele provocava?
-- Sabia que a pílula anticoncepcional comecou a ser distribuída de graca por aqui em 1963?
-- Tinha idéia que é devido a esses fatos que a Suécia ficou conhecida no mundo inteiro como uma sociedade super-sexualizada e até certo ponto permissiva, de onde se criou a expressão "Swedish Sin" ("Pecado Sueco")?
-- Podia imaginar que a pata do elefante é construída de uma forma que permite que o animal se locomova de forma totalmente silenciosa?
junho 29, 2002
Minhas aventuras em Estocolmo: Skansen
O Skansen é uma espécie de museu a céu aberto, onde pode-se ver como a sociedade sueca viveu séculos atrás. Há casas toscas, estábulos, lareiras e fogões a lenha, jardins lindos, roseiras e gramados. É o típico local familiar, onde é normal se fazer piqueniques com muitas criancas correndo ao redor. É lindo e, o melhor, não é gigantesco, ou seja, pode-se passar uma tarde lá, conhecer boa parte do parque e ainda voltar pra casa animado. No Skansen tem várias atracões interessantíssimas, como a feitura de vidro (amei!) e diversos cafés, restaurantes e lojinhas que imitam os tempos antigos. Por exemplo, lá podemos comprar um pão feito na hora e com a receita das camponesas suecas de mil setecentos e lá vai pedrada. Um delícia!
Amanhã tem mais Skansen. Avisem se as fotos estiverem pesadas, ok? Só não coloco o resto porque sei que pode dar bode carregar demais o blog.
junho 28, 2002
Minhas aventuras em Estocolmo: o acidente
Stefan e eu estávamos procurando uma vaga no centro da cidade. Pra quem me lê do Rio ou de São Paulo sabe que essa não é uma tarefa fácil. Bom, conseguimos encontrar um edifício-garagem, entramos e, quando estávamos saindo (não havia vagas), ficamos parados em uma curva. O carro de servico do exército, um Volvo maravilhoso, era também enoooorme. Pra sair dali comecamos a dar ré quando escutamos o característico "plóc" e uma buzina.
Claro, haviamos dado ré no carro de trás, que estava simplesmente colado na nossa traseira, um horror. Mas o pior foi que o fulano saiu enlouquecido do carro, xingou até a quinta geracão de todos os militares da Suécia e ainda chutou o Volvo. Stefan, perfeito, impassível, controladíssimo, como poucos suecos - e poucos seres humanos em geral, for that matter - ouviu todos os xingamentos, diretos e indiretos, em silêncio.
Eu, em pânico, só sentia as pernas tremendo de adrenalina e minha cabeca só pensava que se o cara tivesse uma arma ele teria atirado na gente ali, na hora. Fiquei tão nervosa que chorei todo o caminho de volta pro hotel. O acontecimento foi a história preferida da viagem e Stefan já fez milhões de piadas a respeito. Não precisamos pagar nada porque o seguro do exército cobre, mas mesmo assim foi um susto.
Ah, sim: o carro do fulaninho era um Jaguar. :cO
Amanhã tem Skansen e Vasamuseet.
junho 27, 2002
Minhas aventuras em Estocolmo: Gamla Stan
A parte de Estocolmo da qual mais gostei é a chamada Gamla Stan, ou cidade antiga. O bairro foi criado há exatos 750 anos, ao redor do castelo, que nasceu no século XIII como uma casa de comércio. Estocolmo cresceu e se expandiu a partir desse pedaco de solo sueco. Cheio de laguinhos e ruas estreitas pavimentadas com pedras, o bairro é um dos mais glamurosos (e caros) para se morar. Hoje é também uma grande atracão turística, com seus pequenos cafés e restaurantes, mesinhas na calcada e lojinhas de souvenirs. Tem também a Catedral de Estocolmo, onde o Carlos Gustavo se casou com a Silvia, e onde tem uma estátua linda de St. Göran [ióran] - o nosso São Jorge - em seu cavalo sendo desafiado pelo dragão. Recomendo demais a visita. Tudo, absolutamente tudo é lindo.
Avisem se as fotos estiverem pesadas demais, ok? Bredband é ótimo, mas a gente perde a nocão.
junho 26, 2002
Minhas aventuras em Estocolmo: Ikea
Depois de passar 13 horas em um trem, meu humor já tinha ido pro espaco. Stefan, sentindo o perigo de morte, resolveu me levar à Ikea. Salvou o dia, né? Depois ainda perguntam porque eu amo tanto ele :c)
Chegando lá, tentei fotografar o nome da loja, que ocupa um prédio inteiro em um subúrbio de Estocolmo. Estava no carro (adoro fotos de dentro do automóvel em movimento) e mirei no nome. Saiu isso aqui. Gostei mesmo assim. Adoro essas surpresas.
Bom, a Ikea per se não é nada demais. Quem já foi à Tok & Stok já foi à Ikea. Eu, que sempre amei praticidade, design bonito e bons precos, adorei mesmo assim. Claro que não pude comprar nenhum móvel - como é que eu ia carregar o treco de volta, no trem? Nem pensar. Mas fiz compritas sim: levei pra casa um bowl de madeira para saladas (lindo!) e uma luminária de teto no feitio japonês, redondo, feito com papel de arroz, e que eu já tinha tido no meu apartamento no Rio.
PS.: A placa, Vägarbetsområde [végarbetsomrôde], quer dizer "área com obras na pista".
Amanhã tem mais sobre Gamla Stan e um acidente que hoje, quase uma semana depois, já está até parecendo engracado.
junho 23, 2002
Folkdräkt fast food
As roupas típicas de cada região sueca, os chamados folkdräkt, são muito bonitos e coloridos. Os trajes foram criados pelos camponeses séculos atrás e são utilizados em todas as festas nacionais, como dia da bandeira (6 de junho) e, claro, durante o Midsommar. Leia mais aqui sobre isso (site em inglês).
Mas estou falando disso porque ouvi uma historinha interessante aqui. Depois de descobrir que eu não era sueca e, mais impressionante, era brasileira, um amigo do Stefan contou que visitou o Brasil quando ele tinha uns dez anos. Ele participava de um programa da ONU que levava criancas para conhecer diferentes realidades em diferentes países. No final das duas semanas do evento houve uma festa. Cada crianca deveria vestir um traje típico, para mostrar tracos de sua cultura.
O suequinho, muito a contra gosto, foi vestido com o seu folkdräkt, mas foram os africanos, segundo ele, os mais bonitos: cheios de cores e tecidos incríveis. Mas um país em especial chamou a atencão de todo mundo. As criancas americanas, na falta de qualquer tipo de história - a não ser os clichês hollywoodianos de cowboys e que tais - foram vestidos (pasmem!!!) com uniformes de empregados do McDonald's. Será que é verdade mesmo?
junho 21, 2002
Verão, elfos e morangos
Esqueci de contar que estaríamos passando o feriado de meio do verão, Midsommar aqui em Estocolmo. O Midsommar é uma das maiores festas da Suécia. O feriado cai sempre em uma sexta-feira, no final de junho. Para quem gosta da tradicão religiosa, o Midsommar comemora o nascimento de João Batista. A festa é mais velha do que o cristianismo, acontece há mais de mil anos aqui na Suécia e comemora também o dia mais longo e a noite mais curta do ano. É normal se vestir bem para comemorar o Midsommar. Há até quem festeje vestido com as roupas típicas de cada região da Suécia, os chamados folkdräkt [folkdrékt].
Os suecos comemoram o Midsommar com muitas flores e folhas, que são trançadas na forma de coroas vivas e colocadas na cabeça de crianças e adultos. Muito bonitas. Há também a tradição de se dançar em torno do midsommarstång, um poste que se cobre com folhagem. Os suecos cantam músicas antigas, acompanhados por músicos e exaltam uma coisa que acho engraçada: os sapos. Pois é, ainda preciso investigar um pouco mais isso, mas há uma paixão nacional por sapos, que estão presentes em canções e na forma de decorações variadas. Prometo me informar mais a respeito e contar aqui.
Diz-se que a natureza ganha poder extra durante o Midsommar. Antigamente as pessoas costumavam visitar fontes de água límpida e beber para se sentir mais saudável. Além disso, acreditava-se que a noite de sexta para sábado, a chamada Midsommarnatten seria mágica: os elfos dançariam e os trolls se esconderiam atrás das árvores. Há tradições que ainda permanecem, claro. Uma delas é a coleta de nove tipos de flores selvagens para que sejam colocadas debaixo do travesseiro na noite de sexta para sábado. Apenas as meninas cumpriam essa tradição. O motivo? Com as flores debaixo do travesseiro elas poderiam sonhar com seus futuros maridos. :c)
Outra parte importante da comemoração do Midsommar é a comida. A tradição manda que haja batatas frescas, um peixe delicioso chamado "Sill", gräddfil, que é uma espécie de creme de leite, cebolinha e queijo, entre outros ingredientes. Depois disso vêm os morangos. Sim porque no Brasil morango só no inverno, né? Aqui, morango é fruta de verão.
junho 17, 2002
Time out em Estocolmo
Estou indo hoje para Estocolmo passar uma semana. Stefan vai trabalhar lá, como chefe da guarda que vai proteger o castelo da família real - posto de honra mais do que de necessidade, uma vez que ninguém, a não ser os paparazzi, tem interesse em atacar Carlos Gustavo, Silvia e seus três filhos. A guarda trabalhará por dois dias, sábado e domingo, enquanto Stefan e eu teremos uma semana inteira pra nos esbaldar na capital.
Nossos planos ainda estão em aberto, mas nos prometemos considerar uma série de alternativas. Stefan estudou e morou em Estocolmo por anos, já está cansado de saber de tudo lá, mas eu não. Então quero andar pela cidade, entrar num café e planejar visitas com calma. Ver as pessoas nas ruas, sentir o ritmo da cidade. Quero ir até Gamla Stan (foto acima, mais fotos aqui), a parte antiga da cidade, que é como em outras grandes metrópoles européias: ruas apertadinhas, casas antigas, lindas, lindas, lindas (nunca mais me esqueci dos jardins internos madrileños da parte antiga da cidade). Quero matar as saudades de grandes livrarias e, por que não, visitar a Ikea :c).
Além disso, estamos planejando visitar uma série de museus interessantíssimos. A saber: vamos ao Vasamuseet ver a nau Vasa, que afundou em 1628 e que 333 anos depois foi retirada do mar, reconstruída nos mínimos detalhes e posta em exibicão. Leia todos os detalhes sobre a nau aqui (em inglês).
Ainda está nos nossos planos conhecer o Skansen, um museu ao ar livre e um zoológico especializado na fauna nórdica. Vamos ver lá o urso marrom, focas, renas e todos os animais que só existem nas regiões mais frias do mundo. No Skansen tem um aquário também, que eu faco questão de ir visitar. O que é engracado é que eles colocaram uma exposicão de macacos lá no aquário. Acho que os bichinhos não ficam dentro d'água não, mas que é esquisito, isso é.
No aquário há cerca de 200 espécies exóticas de animais: peixes, corais, crocodilos, tartarugas, cobras (urrghhttt!!!), lagartos, o nosso mico-leão dourado, babuínos, lêmures, aranhas, insetos, morcegos e papagaios. A-D-O-R-O zoológicos, então acho que esse vai ser um programão! Queremos ir também ao Gröna Lund, um parque de diversões com várias atracões, entre elas uma montanha-russa radical!!! U-A-U!!!
E vamos ainda fazer um passeio de barco pelo skärgård [shérgôrd - arquipélago] de Estocolmo, que é formado por cerca de 26 mil pequenas ilhas. Não sei se vamos dar conta de tudo isso, afinal ainda precisamos dormir, respirar, ir ao banheiro e comer, mas acho que podemos tentar. Ah, sim. Vamos levar o laptop do Stefan, que é mais rápido do que o meu, além da Mavica do trabalho dele. Vamos tirar um montão de fotos e espero poder atualizar o Montanha-Russa lá da capital, ok? Até a volta!
junho 11, 2002
Fã
Sou fã de carteirinha da Ana Cristina Reis, colunista do caderno ELA, do Globo, e que está escrevendo sobre a Copa também. Já até escrevi um e-mail pra ela dizendo que sou leitora assídua e que é um prazer lê-la. Ela me respondeu super-simpática! E olhem o que ela escreveu na sua última coluna:
Maridão sueco
Ana Cristina Reis
Esta Copa está me engordando e empobrecendo. Se o jogo está mais ou menos, fazer o quê? Não dá para telefonar para a irmã e acordar o cunhado boa-praça. Aproveitar para ler não resolve - se o livro for bom vou me envolver e corro o risco de perder um gol. Então, fazer o quê? Comer. E não é qualquer coisa, não. É salmão dinamarquês, queijinho francês, presunto espanhol.
:: Ai, eu também Ana, eu também! E não é qualquer coisa não: queijinho sueco, leitinho sueco, pãozinho sueco... :c)
Esta Copa também está me enlouquecendo. Descobri que dormir picadinho tem para mim efeito devastador. Só a esquizofrenia, que é a assintonia das funções psíquicas, disto decorrendo fragmentação da personalidade e perda de contato com a realidade, pode explicar meus sonhos ultimamente. Um deles, em particular, foi cheio de detalhes - o do maridão sueco.
A Suécia do meu sonho não é high tech, campeã de uso de celulares, de produção de energia nuclear, de gente conectada à internet, a nação que é 85% urbana. Nem é a da monarquia prafrentex de Carlos Gustavo e Sílvia, que adoram pescar na Amazônia e enfrentam, com garbo, cavalgadas, feijoada ao ar livre e caipirinhas. Minha Suécia é a do campo e das cabanas de troncos.
:: Tem de tudo aqui. Do mais high tech ao mais rústico. É só escolher. E é tudo bonito. E a família real é considerada "cool" pelos súditos.
No sonho, sou casada com um madeireiro, mãe de três filhinhos remelentos e encantadores, subo montanha para tirar leite das vacas, faço o pão, coleciono presilhas para o cabelo (na cena é vasta cabeleira ruiva-acastanhada, sempre cheirando a alfazema, sempre refletindo os raios de sol, igualzinho aos romances de banca de jornal), não tenho TV em casa e o meu passatempo favorito - e único - é fazer amor com meu marido, senhor peludo e pesado, que tem a cara do capitão do time da seleção sueca nesta Copa: o barbado zagueiro Johan Mjallby, camisa número quatro.
:: Ele tem cara de ser bem rústico mesmo... Mas essa selecão sueca é um prato cheio pra quem gosta de homem bonito...
Johan usa camisa de flanela com estampa quadriculada, prefere carne a peixe - apesar dos cem mil lagos da Suécia - e, quando chega suado da floresta, seus cabelos têm cor de leite queimado e suas mãos, cheiro de bosque úmido.
:: É assim mesmo: apesar de ter água por todos os lados, as pessoas preferem carne e salsicha a qualquer tipo de peixe. Eu me delicio com salmão e eles torcem a cara... :c)
Meu maridão é do tipo calado, mas não pense que ele é profundo ou deprimido como os personagens dos filmes de Ingmar Bergman e Lasse Hallström. Ele apenas não é muito de falar, mas sei que se orgulha dos antepassados vikings. Aliás, segundo Johan seus parentes não eram os vikings piratas, mas os comerciantes e conquistadores. E acredito, é claro, porque estou sonhando e estou apaixonada. Não fosse isso, talvez perguntasse se é mito a imagem de vikings com capacetes enfeitados com chifres.
:: Essa coisa de capacetes com chifres é lenda. Stefan também já me disse que não tinha muito disso não e que apesar de existir, claro, os guerreiros, a maioria dos vikings tinha como profissão o comércio, não o barbarismo.
Só duas coisas tiram Johan do sério: meias de lã molhadas e gravlax . Hum, parece nome de remédio, mas gravlax é salmão fresco prensado, temperado com sal, mostarda, aneto e aguardente. Não me pergunte como isso surgiu no sonho, talvez os tempos reais de leitura do "The world atlas of food" tenham me marcado. O fato é que outro prato típico, bem distinto, é o preferido do maridão sueco nesse devaneio em tecnicolor: ganso assado servido com ameixas e maçãs cozidas. Mas o melhor você não sabe. Imagina o que vem antes desse ganso? Sopa de miúdos com sangue de ganso. Johan pode ser caladão, mas que saúde.
***
Amanhã tem Suécia e Argentina... Penso nas boas lembranças que guardo de Buenos Aires: o melhor sorvete de doce de leite do mundo, a melhor salada de centolla (caranguejo gigante) do mundo, carnes memoráveis e um show do Nestor Marconi Trio, no Club del Vino, que me levou às lágrimas. No hotel, gente competente e simpática. No bar em Porto Madero, homens que olhavam para as mulheres. Ops, é a nostalgia tomando conta. Mas por fidelidade ao marido do sonho, amanhã é Suécia.
:: Preciso explicar por que gosto tanto dela? Quero escrever assim quando crescer!
junho 06, 2002
Festa nacional low profile
Hoje é dia da bandeira e dia nacional na Suécia. Há festas em todas as cidades e a família real se veste com seus trajes típicos. Mas tem algumas coisas engracadas sobre o dia seis de junho: apesar de haver festa, não há ufanismo. Não há paradas - como no Brasil - nem fogos de artifício - como nos EUA. De fato, até bem pouco tempo atrás a Suécia não tinha um dia nacional.
Na verdade, as pessoas comecaram a festejar de forma privada, em casa, com suas próprias bandeirolas (como disse aqui antes, no post do sol da meia-noite em Kiruna) e aí o Estado adotou o dia como oficial. Isso aconteceu somente durante a Primeira Guerra Mundial, no início do século XX. O seis de junho foi escolhido porque relembra a data em que a Suécia se livrou de pertencer à Dinamarca, em 1523, e no qual foi promulgada uma das constituicões do país, em 1809.
Mas (pasmem!) hoje não é feriado aqui. Pois é, o dia é normal e todo mundo trabalha. Pesquisa feita por um dos jornais mais lidos aqui na Suécia, o Aftonbladet, perguntou o que era mais importante, o seis de junho ou o jogo da Suécia contra a Nigéria (que vai ser amanhã, dia 7). Deu Copa do Mundo na cabeca. Mesmo assim, há comemoracões, mas nunca tão inflamadas como as de noruegueses ou dinamarqueses, por exemplo. Os suecos são contidos até nisso.
Aliás, seguindo a linha não-ufanista dessa terra, o hino nacional sueco é meio desconhecido. Não tem essa coisa de cantá-lo nas escolas e nem mesmo nas forcas armandas. O low profile é tanto que precisei pesquisar na Internet para descobrir a letra toda da música. Se você tiver interessado, dê uma olhada aqui. O hino, chamado "Du Gamla, Du Fria" (algo como "Você Velha, Você Livre", se referindo à Suécia, claro) é curtinho, apenas quatro estrofes. Acho que sou uma das poucas pessoas que moram na Suécia que se preocuparam em decorá-lo.
:: Atualizacão: tem festa sim, mas só agora depois do expediente e apenas em Estocolmo. Uma das razões também pra festa na capital estar sendo maior esse ano é que Estocolmo está fazendo 750 anos. A família real recebe o povo (uma parte pequena dele) no estádio olímpico, onde está acontecendo um show com diversos artistas suecos. Nas outras cidades, pequenas e grandes, há comemoracões, mas nada como estamos acostumados.
maio 29, 2002
Mais curiosidades
Mais um pouquinho de curiosidades aqui dessa terra fria porém hospitaleira. (Tom, estou trabalhando na sua pauta. Assim que ficar satisfeita com minha apuracão publico aqui, ok?)
-- Sabia que não existem preposicões em finlandês?
-- Fazia idéia de que os finlandeses não fazem o som do "g"?
-- Podia imaginar que ter olhos castanhos aqui é considerado cool?
-- Imaginava que a rainha Silvia sabe falar sete idiomas? (português - a mãe dela, Alice, era paulista - alemão; sueco; espanhol; francês; inglês; e linguagem sueca de sinais)?
maio 28, 2002
Sol da meia-noite
Hoje vai ter sol da meia-noite em Kiruna, no extremo norte da Suécia. O sol simplesmente permanecerá acima da linha do horizonte e só comecará a descer depois do Midsommar, ou meio do verão, 23 de junho, dia com maior quantidade de luz do ano. A partir daí e até dia 21 de dezembro, a luz vai desaparecendo pouco a pouco.
O link que eu coloquei aí na palavra "Midsommar" é de uma página em sueco, sorry. Mas mesmo assim é interessante visitar. Há quatro fotos lá que retratam fielmente como as pessoas festejam aqui na Suécia a chegada do sol e do "calor". As duas primeiras são do jardim e da casa, que é uma sommarstuga (sommar = verão, stuga = casa de veraneio). Reparem na cor vermelha da casinha (quase todas as casas aqui são dessa cor, lindo) e na bandeira da Suécia no mastro. É muito comum isso aqui, mas não quer dizer que os suecos sejam ufanistas não. É só costume mesmo. Eu, se fosse sueca, também colocaria a bandeira na frente da minha casa. Acho essa combinacão do azul com o amarelo super fashion. :c) As outras duas fotos são da família reunida no jardim, comendo em volta da mesa, e o gato da família, meio contrariado.
maio 27, 2002
Amiga do rei
Acabei de assistir a uma matéria sobre o prêmio Polar (não sei se há uma traducão mais correta em português, mas o original sueco é Polarpriset), conferido pela Suécia à compositores que se destacaram em todo o mundo. Cada um tem direito a receber 1 milhão de coroas suecas (mais ou menos 100 mil dólares).
A emocão foi assistir à Miriam Makeba, uma senhora negra, com rosto redondo e olhos de quem já viu muito e de quase tudo, receber a placa do rei Carl Gustaf, com uma deferência profunda. É dela aquela música bacana chamada "Pata pata". São sempre dois músicos que ganham. Além da Miriam, a compositora russa Sofia Gubaidulina ganhou também a honraria este ano.
O bispo Desmont Tutu também estava lá e fez discurso sobre os sons que Miriam apresentou ao mundo, entre eles, um som feito pelo estalar da língua no céu da boca. No discurso de agradecimento Miriam disse: "Nunca podia imaginar que uma menina das Townships na África do Sul pudesse receber um prêmio assim. Nunca pensei que eu fosse conhecer nenhum rei!".
Quem já ganhou um Polarpriset:
1992: Paul McCartney e Estônia, Letônia e Lituânia.
1993: Dizzy Gillespie e Witold Lutoslawski.
1994: Quincy Jones e Nikolaus Harnoncourt.
1995: Elton John e Mstislav Rostropovitch.
1996: Joni Mitchell e Pierre Boulez.
1997: Bruce Springsteen e Eric Ericson.
1998: Ray Charles e Ravi Shankar.
1999: Stevie Wonder e Iannis Xenakis.
2000: Bob Dylan e Isaac Stern.
2001: Burt Bacharach, Karlheinz Stockhausen e Robert Moog.
maio 22, 2002
Curiosidades
-- Você sabia que Japão e Suécia são os únicos países do mundo nos quais é costume retirar-se os sapatos antes de entrar em casa?
-- Sabia que foram os Samis - povo que vive da criacão de renas no norte de Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia - que inventaram os esquis?
-- Tinha idéia de que Alfred Nobel, sueco criador da dinamite, causou uma explosão séria quando experimentava com nitroglicerina e acabou por causar a morte de um de seus irmãos?
-- Imaginava que até logo ali no século XIX Suécia e Noruega eram um só país? Por isso é que o Prêmio Nobel é dividido entre os dois países.
maio 19, 2002
Sangue na comida e birita no cérebro
Ontem teve festinha aqui na casa-dos-amigos-do-Stefan. Agora que a primavera parece estar de fato aqui, as pessoas aproveitam cada minutinho pra fazer festa com churrasco etc. Eu, sempre meio diferente, não levei nenhuma carne porque prefiro comer as saladas e as outras cositas más, como as sobremesas (humm!). Stefan sabe que gosto de "comida de coelho", mas as pessoas aqui ainda ficam muito sem saber o que fazer comigo. (Hehehe)
Mas, claro, tive de me dobrar às necessidades deles. Tive de experimentar uma carne senão eles não sossegavam. Então depois de comer a minha salada verde com tomate e um bocadinho de queijo gorgonzola, e a salada da Lena com batatas (sem maionese), alecrim, basílica e molho vinagrete, ainda tive de provar uma salsicha feita com sangue... Um horror!!!!
Sorte é que depois tivemos bolos variados e até um bolinho com café, uma maravilha.
Mas o pior é que não se faz nada aqui socialmente que não envolva álcool. E, claro, não gosto de bebida. Bebo coisas doces, como Piña Colada e coquetéis de fruta, mas só. Só que quando vou a um evento social desses, sinto-me forcada a beber. Nego não larga do pé. É meio chato, inclusive.
Para combater isso, desenvolvi uma estratégia. Um dos amigos do Stefan gosta de me dar pra beber uma mistura de vodka Absolut com refrigerante de limão. É até gostoso, tenho de admitir, mas prefiro sem a vodka. Quando o cara não está olhando - ou está muito bêbado pra notar qualquer coisa - eu encho o meu copo de refrigerante e não coloco nem um pingo de birita. E fico lá rindo mais do que todo mundo. E todo mundo acha que eu sou muito divertida bêbada! Hahaha.
maio 17, 2002
Leve
Adoro gente que consegue rir de si mesmo, como eu aprendi a fazer muito recentemente. A Woopi Goldberg é uma dessas pessoas, ao que parece. Vejam o que ela disse nessa matéria aqui da BBC:
"I'm being stalked by my ass - it's gotten bigger since I hit 45 and there's nothing I can do about it - no amount of exercise will change it."
Adorei.
Aliás, a matéria inteira é bacana. Conta do documentário da Rosanna Arquette, chamado "Searching for Debra Winger", que está sendo mostrado em Cannes. O filme, que trata da mania da indústria cinematográfica de mostrar apenas corpos e rostos perfeitos, contou com a participacão de 25 atrizes de primeira-linha, como Jane Fonda, Whoopi Goldberg, Sharon Stone e Vanessa Redgrave. O título é referência direta à Debra Winger, atriz americana de lindos olhos verdes que abandonou Hollywood seis anos atrás porque queria ficar mais com a família mas também porque não conseguia achar papéis que aproveitassem toda sua capacidade dramática.
maio 11, 2002
Vincent Price
Acabei de assistir a um programa sobre a vida do ator Vincent Price. Como não gosto de assistir a filmes de terror, sempre o enxerguei com olhos preconceituosos. Mas ele, além de ser um homem lindo, era inteligentíssimo. Sabia tudo sobre arte moderna e poesia. Fez muito teatro antes de descobrir o seu nicho no cinema, interpretando personagens maus-que-nem-pica-paus.
Não sabia que ele tinha uma colecão enorme de arte nem que tinha ido à Londres estudar para ter o seu masters (pós-graduacão?), quando ainda era novo, e acabou descobrindo o teatro. O mais legal ainda é que a filha dele participou do programa, e falou com tanto carinho do pai! Descreveu a vida dele como sendo a de uma pessoa que se divertiu o tempo todo, apesar de tudo. Bom isso, não?
Agora, o que me deixa meio chateada nessa história toda é que a gente nem se incomoda com a história que a indústria cinematográfica nos vende. O cara era um ator de filmes "B", portanto meio engracado e sem muito requinte e nada mais. A gente perde tanto por ignorância!
maio 08, 2002
Listas, listas
A BBC quer saber qual a melhor cancão de todos os tempos. A lista?
-- Angels - Robbie Williams
-- Bohemian Rhapsody - Queen
-- Dancing Queen - Abba
-- Hey Jude - The Beatles
-- Imagine - John Lennon
-- Let It Be - The Beatles
-- Like A Prayer - Madonna
-- Penny Lane - The Beatles
-- Wannabe - Spice Girls
-- Yesterday - The Beatles
Vocês vão me desculpar, mas colocar Spice Girls e Robbie Williams nessa lista tão diminuta e ainda comparando-os automaticamente com os Beatles é um absurdo total. Quase uma heresia.
Meu voto? "Yesterday", Beatles. Mas fiquei muito na dúvida entre ela, "Imagine", do John Lennon, "Peny Lane" e "Let It Be", dos Beatles e a minha Madonna querida. Para votar, clique aqui.
maio 03, 2002
Dias da semana
Estava conversando com Stefan outro dia e não sei porque fiquei curiosa sobre os nomes dos dias da semana em sueco. De fato, a história é bem bacana (bom, pelo menos eu acho).
Segunda-feira = måndag [môndag]: o dia da lua;
Terca-feira = tisdag [tisdag]: dia de Tyr, deus da guerra;
Quarta-feira = onsdag [unsdag]: dia de Oden, deus da sabedoria;
Quinta-feira = torsdag [tursdag]: dia de Tor, esse aqui da foto, deus do trovão;
Sexta-feira = fredag [frêdag]: dia de Freia, deusa da fertilidade;
Sábado = lördag [lôrdag]: dia em que todo mundo deveria se lavar, tomar banho; ---->Isso mudou. Hoje em dia os suecos tomam banho todos os dias. Não tem essa de 'afrancesar' a raca não, ok?;
Domingo = söndag [sôndag]: dia do sol.
Tem umas coisas bacanas sobre alguns deuses. O Oden tinha um cavalo chamado Sleipner, que era o mais rápido de todo o mundo. Pudera! O bichinho tinha seis pernas! Mais velho dentre os deuses, Oden ofereceu um olho em troca de mais sabedoria. Por conta disso, ele dividia seu tempo com dois corvos, chamados Hugin e Mumin, que ficavam pousados em seus ombros contando tudo o que se passava.
Já Tor botava pra quebrar com uma carruagem que ele dirigia pelos céus, enquanto cacava trols. O som do martelo de Tor era o trovão e quando ele o jogava, apareciam raios. Freja, que é o equivalente a Afrodite, era casada com Oden. Aliás, se você gosta de mitologia, dê uma olhada aqui. E tem mais. Nesse endereco aqui tem os dias da semana em sueco, inglês, alemão, finlandês, latim, italiano, francês, espanhol, português, grego e russo.
Boa idéia
"Apóio a política 'a França para os franceses' do candidato a presidente da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen. Acho, inclusive, que ela deveria começar a ser implantada pelo grande símbolo nacional no momento: a seleção de futebol. A limpeza étnica de Le Pen tem de começar por restituir a verdadeiros franceses, rosadinhos, os postos de trabalho tomados por árabes (Zidane), negros (Henri, Anelka, Vieira, Thuram, Trezeguet, Makelele etc.) e até bascos (Lizarazu). Assim purificada, a França poderá voltar a jogar aquele futebolzinho de bosta que sempre jogou, Fontaine e Platini à parte. Melhor pra gente."
Nada como uma dose de inteligência pra mostrar como é ridículo esse Le-Pen. O Dapieve é o m-á-x-i-m-o!
abril 29, 2002
Dicas de um chocólatra de primeira
Essas dicas foram enviadas pelo Tom Taborda e achei que deveria publicá-las aqui porque há muita gente como eu: chocólatra sem muita organizacão. Um pouco de disciplina e informacões corretas fazem muito bem à saúde. As dicas dizem respeito à receita do "kladdkaka", que publiquei um pouco abaixo.
"Oi gente! Não confundam: 'Cacau em Pó' é 'cacau em pó' e está escrito assim na embalagem, não é 'Chocolate em Pó'; nas receitas, misturo 1:1 com açúcar demerara (não o mascavo), fica delicioso.
O chocolate em pó já tem açúcar; e os 'achocolatados' (Nescau) têm ainda mais açúcar.
A Nestlé tem apenas uma enorme caixa industrial do cacau em pó (acho q de 4kg), ela é marrom. A Garoto tem a caixinha pequena, mas é difícil achar. O mais prático é comprar o pacotinho embalado a vácuo nas lojas do Mundo Verde. Lá tem Cacau em Pó.
Chocolate em pó é 'chocolate em pó'. A caixa da Nestlé é vermelha (com os dois frades, que herdou da antiga embalagem do 'Chocolate em pó Gardano', que me lembro da minha infância); tem a industrial e a pequena; a pequena, tanto da Nestlé quanto da Garoto são facilmente encontráveis nos supermercados. Mas não é 'cacau'.
E, mais uma dica:
1 decilitro = 100 ml (mililitros)
10 decilitros = 1000 ml = 1 litro
basta usar um copo graduado, daqueles de plástico com as marcações.
Beijocas chocólatras a todas,
Tom"
Não é um luxo? Pois é, cacau é cacau que não é chocolate em pó. A embalagem a que eu me referia era definitivamente a de chocolate em pó, porque me lembro vividamente de minha avó comprar pra casa e era vermelha com os dois frades gordinhos na capa.
Anyway, ainda continuo achando a minha receita torta melhor do que a receita sueca correta. Usei o equivalente sueco do Nescau e menos manteiga. Fiz quase um brownie do Chez Belle. Uma gostosura. :c)
abril 28, 2002
Cozinha da Ofélia
Pois é, preciso contar pra vocês o seguinte: todo esse tempo vinha fazendo a receita do brownie errada. Pois é. Não há nada de errado com a receita aí de baixo mas eu, no afã de aproveitar o que eu tinha em casa, sempre utilizei ao invés de cacau (ou chocolate em pó) um produto chamado O'Boy, o equivalente sueco ao nosso Nescau (ou Toddy). Além disso, por pura falta de atencão, todas as vezes que fiz a receita antes só colocava 50 gramas de manteiga.
A boa notícia, no entanto, é que o resultado desse meu bolo torto é muito mais próximo do brownie do Chez Belle do que a receita verdadeira. Até porque "Kladdkaka" quer dizer literalmente "sticky cake". O interior do bolo, se feito como manda o figurino, com 100 gramas de manteiga e cacau, deve ficar meio cru mesmo, mole, quase como um ponto bala, como dizia minha avó.
O meu fica com a consistência de bolo mesmo, com menos gordura. Tenho que dizer que prefiro o meu bolo torto ao Kladdkaka original. Descobri a minha "falha" porque minha sogra veio nos visitar ontem e copiou minha receita do Kladdkaka. Enquanto eu fazia os dois bolos (foi uma festa grande ontem) ela ria de como eu tinha escrito a receita em meu sueco ainda precário e observava que eu estava colocando apenas a metade da manteiga necessária. Tsk, tsk, tsk.
Portanto, facam o seguinte: ao invés de colocar cacau um pó, usem Nescau. Ao invés de 100 gramas de manteiga, coloquem 50 gramas. Vamos ver que bicho dá :c) Mas uma coisa eu prometo: ruim não vai ficar.
abril 27, 2002
O segredo do brownie de chocolate
Quem se lembra da época em que eu ainda trabalhava na Barra não deve ter problemas em saber do que estou falando. Sempre íamos almoçar em um restaurante no Downtown que, além de um feijão muito bom e de saladas ótimas, servia um brownie de chocolate sensacional. Quase pedimos a receita pra dona várias vezes. Mas nunca o fizemos de fato. O nome do restaurante é Chez Belle (obrigada Fernanda, amiga).
Pois bem, acho que descobri o segredo, galera. Aqui na Suécia tem uma receita de um bolinho de chocolate chamado "Kladdkaka" que é muito parecido com o brownie carioca. Fiz já algumas vezes e é muito bom. Hoje tem festa de novo aqui na casa-de-um-casal-amigo-do-Stefan e eu ofereci pra fazer o bolinho. Vou servir com uma bolinha de sorvete de creme e, pra colorir, frutinhas de hallon em cima. Hallon é raspberry, em inglês (veja a foto ao lado). Elas são vermelhas e lindas, típicas aqui do pico do mundo. Adoro essas berries.
Bom, à receita, shall we?
Ingredientes - 100g de manteiga; 1,5 decilitro de farinha de trigo; 3/4 de decilitro de cacau; 2 decilitros de açúcar; 1 colher de chá de açúcar de baunilha; 1 pitadinha de sal; 2 ovos.
Como fazer - Coloque o forno a 175 graus. Derreta a manteiga, reserve. Misture em uma tigela o trigo, o cacau, o açúcar comum e o de baunilha e o sal. Junte a manteiga à mistura. Junte os ovos à mistura e faça uma massa. Estique a massa em uma forma untada. Deixe assar por cerca de 40 minutos (dependendo do forno).
Já notaram que coloquei as medidas aqui da Suécia, né? Pois é, só sei cozinhar em decilitros agora, galera... ;c))) Não, mas sério. Fui procurar e achei isso aqui:
1 decilitro de cacao = 40 gramas
1 decilitro de farinha de trigo = 60 gramas
1 decilitro de açúcar = mais ou menos 80 gramas.
Depois me contem se ficou bom.
abril 25, 2002
Essência
Não me canso de reproduzir aqui textos do Veríssimo. Me desculpem se às vezes me torno repetitiva, mas é porque o cara é muito bom!!!!! Vejam o parágrafo final da crônica dele de hoje, do Globo:
"(...)
Fiquei pensando em como o maravilhoso pode nos pegar desprevenidos. Era como se um marajá e seu séquito tivessem batido na nossa porta e só o que tínhamos para lhes oferecer era, sei lá, Coca diet. Perdemos uma oportunidade, não sei bem de quê. Podíamos ao menos tê-lo fotografado, nem que fosse para uma hipotética futura biografia da pereira, em cuja longa vida o único acontecimento notável até ontem tinha sido a orquídea misteriosa que lhe nasceu numa forquilha. Agora é tarde. Duvido que o visitante volte. Nós o decepcionamos. Nós não estávamos preparados para ele."
Uma verdade verdadeira: "como o maravilhoso pode nos pegar desprevenidos". Tão simples, tão óbvio e, ao mesmo tempo, tão transcendental.
abril 24, 2002
Igreja
Ando feliz com a atitute do papa João Paulo II sobre esse escândalo de pedofilia na igreja católica. Tem que ter muito peito para vir a público dizer que é mesmo pecado e que padre nenhum pode abusar de criancas. O problema é o papa ter de vir a público para confirmar um fato tão óbvio.
Aqui na Suécia, a igreja oficial é Luterana, a chamada Svenska Kyrkan, mas há, claro, representacões católicas, muculmanas, judias etc. Apenas a dois anos atrás a igreja sueca deixou de ser estatal. Agora, quem quiser que seus filhos sejam batizados na igreja luterana ou deseje participar das oracões aos domingos tem de pagar uma taxa mensal.
E tem mais: os pastores - que podem ser mulheres ou homens - são incentivados a casar, ter filhos. O entendimento geral por aqui é que só pode ser um bom pastor quem tem uma vida normal, organizada e com todas as angústias, problemas e alegrias de uma vida em família. Com menos culpa e frustracão o pastor pode ajudar muito mais ao próximo.
Isso deveria ser evidente, né?
abril 23, 2002
Um país vermelho... Amém!
Na Suécia o equivalente à Frente Nacional, partido do Jean-Marie Le Pen, é o Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna). Em entrevista ao Aftonbladet, um dos jornais mais populares daqui, representantes do partido disseram que a surpreendente votacão do Le Pen "nos dá coragem para lutar".
Perguntei ao Stefan se esse partido, do qual nunca havido ouvido falar, era representativo. Ele disse que não, que é um partideco mínimo. No entanto, os nazistas também eram mínimos no início da década de 30.
O poder na Suécia hoje é exercido por dois partidos de esquerda: os sociais-democratas (Socialdemokraterna), que têm cerca de 56% dos votos do país, e o Partido da Esquerda (Vänsterpartiet), dono de 10% do eleitorado. Quando puder votar para o parlamento sueco (Riksdag), meu voto vai ser de um desses dois, ou vai para alguém dos Verdes (Miljöpartiet).
O que é legal aqui é que tanto os sociais-democratas quanto os de esquerda trabalham juntos (ao contrário das esquerdas brasileira e francesa). Isso não acaba, infelizmente, com a ameaca de direita. Mas há partidos menos piores do que os "Democratas": os Moderados e o partido de Centro, são exemplos. A imprensa sueca comenta que eles têm chances de eleger o próximo primeiro-ministro, que vai substituir o social-democrata Göran Persson nas eleicões do próximo mês de setembro. Mas isso é pouco provável.
abril 12, 2002
Frase
Como sei que vocês adorariam ter uma aula de gramática a essa altura do campeonato, ainda mais de gramática sueca, aqui vou eu, satisfazê-los, como sempre. Vejam a frase a seguir:
"Hanssons häftiga hund hämtade häromdagen en hamburgare åt husse, som var hörbart hungrig. Den hade hårdstekts av hustrun."
--> "Hanssons häftiga hund" é sujeito da primeira frase (que vai até a vírgula);
--> "Hanssons" é também Genitivo, ou, segundo o Aurélio: [S. m. 1. Gram. Caso de declinacão de certas línguas, que representa, por via de regra, complemento possessivo, limitativo, e algumas vezes circunstancial];
--> "häftiga" é também um atributo adjetivo, que completa o sentido do sujeito, mas não é adjetivo;
--> "hämtade" é o predicado (particípio passado do verbo att hämta, buscar, pegar);
--> "häromdagen" é o advérbio de tempo e quer dizer algo como no outro dia;
--> "en hamburgare" é o objeto direto;
--> "åt husse" é o objeto indireto.
Voltando à frase original:
--> "som" é sujeito da frase depois da vírgula e remete ao objeto indireto imediatamente anterior, "åt husse";
--> "var" é predicado (particípio passado do verbo att vara, ser, estar);
--> "hörbart" é uma coisa chamada Gradadverbial e representa um advérbio que explica o quanto, qual o grau que o sujeito está/é/sente-se etc.;
--> "hungrig" é um tal de Predikat Fyllnad, o que quer dizer um complemento essencial ao predicado. Por exemplo, em sueco você pode dizer "Han kom." (Ele veio/vem.) e não escrever mais nada. Mas não pode dizer "Han var." (Ele estava.) e parar. Você precisa ter mais informacão. Daí a necessidade do tal de complemento, fyllnad;
À última frase:
--> "Den" é o sujeito ("Den" e "Det" são utilizados como artigos ou pronomes neutros, como o "it" do inglês);
--> "hade hårdstekts" é o predicado;
--> "av hustrun" é o chamado Agent, ou a parte ativa que aparece em uma frase passiva. Se transformada em frase ativa, "av hustrun" se transformaria em sujeito.
Fascinante, não?
Gramática
Queridos, estou aqui escrevendo correndo porque preciso ir estudar. Hoje tive uma aula cabeluda com gramática pura. Digo que foi cabeluda porque foi longa e meus neurônios ainda estão se recuperando. Mas o fato é, depois dessa aula de hoje, cheguei a uma conclusão: quem estudou decentemente português no colégio e continuou na faculdade pode perfeitamente aprender sueco. É que ambas as línguas têm uma gramática complicada, porém com alguns tracos similares.
O esforco para se aprender português ou sueco é quase o mesmo, porque aqui eles também têm mil-e-uma coisas para serem levadas em consideracão quando se analisa uma frase. E até outras que não temos em português. Mas, no geral, é o mesmo desespero, digo, complicacão.
Ri muito da americana que estuda na minha sala. A mulher estava perdidinha da silva. Quando a minha professora - uma bonequinha barbie de tão linda, já com três filhos, uma paciência de elefante e que tem um nome absolutamente nórdico, Åsa [fala-se Ôôssa] - comecou a explicar Apposition, o nosso aposto, a americana quase desistiu. Eu, mesmo cansada, estava mais animada. E pensar que todas aquelas aulas massacrantes que tive no Santo Inácio realmente não foram em vão!
abril 10, 2002
Simpsons no Rio
Acabei de assistir ao episódio dos Simpsons passado no Rio e posso dizer que amei tudo!!! Vale a pena dar uma olhada. Para baixá-lo, clique aqui. (Mas atencão para o tamanho do arquivo! É grande, hein!)
Aqui vão as três coisas que mais gostei no desenho:
1 - Adorei quando o Homer vê a estátua do Cristo Redentor e diz, enternecido: "É como se o Cristo estivesse no painel (do carro) da cidade inteira!";
2 - Os ratos coloridos correndo na favela (hahaha);
3 - Impagável: Homer e Bart andando no calcadão de Copacabana de sunga. Gente, é h-i-l-á-r-i-o.
Alguém manda o presidente da Riotur calar a boca, por favor.
abril 09, 2002
Sintonia
Lá vamos nós novamente, Serginho Maggi: vi, ontem, "O Brother, Where Art Thou?" (EUA, 2000), dos irmãos Coen, com John Turturro, Tim Blake Nelson, George Clooney e o meu querido John Goodman. Amei.
É baseado livremente no poema "Odisséia" de Homero, e conta a história de três fugitivos da cadeia, na década de 30 nos EUA. Ri pra caramba e a música é muito legal. Não sabia que o George Clooney podia cantar...
O John Turturro está bem, mas quem dá show é o John Goodman. É apenas uma ponta, na qual ele interpreta um charlatão-ladrão-membro-da-Klu-Klux-Klan. Mau que nem um pica-pau, ele representa o ciclope da "Odisséia". Um barato.
abril 05, 2002
Diabo sapeca em alta na Suécia
Dia desses, depois de comentar alguma nota do Não é Caldo... fiquei com vontade de escrever sobre como se xinga em sueco. Hoje, decidi fazê-lo, ainda mais depois de ler os jornais e me deliciar com a coluna do Dapieve no Globo. Li que de fato há palavrões em alemão, como schwule, cujo significado ainda é um mistério para mim.
Anyway, quando vim para cá fui informada que sueco tem muito a ver com alemão e uma das minhas preocupacões era que soasse tão horrível quanto. Mas aí é que está a diferenca. Sueco é muito mais doce do que alemão. Tem um ritmo próprio, ondulante. Há a necessidade, por exemplo, de se prolongar as vogais seguidas de apenas uma consoante, enquanto as vogais seguidas de duas consoantes devem ser mais curtas, e por aí vai. Em resumo, sueco é complicado (sofro com seis declinacões, divisão das palavras em duas classes etc) mas mais bonito e agradável do que eu jamais poderia imaginar.
Sim, estou aqui para xingar. Pois bem, aprendi que os suecos xingam evocando deuses e demônios. Referências às eventuais atividades noturnas das mães dos sujeitos não existem (estranho, né?). Um bom exemplo pra comecar é Fy fan!, que quer dizer, "Shame on you devil!" (tenho apenas dicionários de sueco-inglês, sorry). Fy pode ser traduzido como "phew!; oh!; shame!; naughty!", e fan é o coisa-ruim mesmo. Uma variacão muito aceita é Fan också, que se pronuncia fããn óksô e cujo significado literal é "Diabo também"...(acreditem, apesar de ser estranhíssimo, faz sentido... às vezes). Há ainda o djävla, pronuncia-se djéévla, e significa "bloody; damn[ed]; goddamn[ed]; fucking [idiot]". Sendo que o substantivo djävel é o próprio "bastard; fucker etc".
Outro muito bacana, e que eu uso muito, é Herregud, que é o nosso "Ai, meu Deus do céu", tudo em uma palavra só, como manda a cartilha dessas línguas de origem anglo-saxônica: reducão em nome da simplicidade. Quer dizer, simplicidade para eles, anglo-saxões, que já nascem berrando tudo junto, como läkemedelsmissbruk que quer dizer "abuse of medicines (pharmaceutical preparations)". E a gente que pensava que inconstitucionalissimamente era o máximo da complicacão.
Bom, mas já chega de aula por hoje. O Blogger nem está no ar - na Califórnia é ainda noite (23hs) de quinta-feira, dia 04 de abril, enquanto já são 9 da manhã de sexta, dia 5 de abril, aqui na Suécia. Estão fazendo mais um upgrade ou coisa que o valha. Tomara que o Victor não esteja certo e eles continuem a nos deixar acessar o servico de graca, sem nos forcar a migrar para o servico pago.
Ahn? Ingênua, eu? Nehhh.
abril 04, 2002
Roubo bem intencionado
Ontem estava à cata de um poema que ouvi pela primeira vez em um filme, "Quatro Casamentos e um Funeral", mas não o encontrei. Não sabia seu nome, nem seu autor. Desconfiava ser de algum escritor inglês (o filme é uma producão ótima inglesa), sabia que comecava com um lance de relógios, mas não tinha outras pistas. Pois bem, eis que hoje estava fazendo minha ronda matinal pelos sites de notícias e pelos meus blogs queridos - os quais estão listados aqui em baixo, à esquerda - quando me deparei com o poema, reproduzido pelo meu amigo Sérgio Maggi, que reformulou todo o seu blog e, nas horas vagas, deu uma paradinha para ler a minha mente lá do Rio. Então, aqui vai:
Funeral Blues
W. H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.
março 29, 2002
Receita do bolo de amendoim da vovó Celia
Ingredientes:
2 xícaras de chá de acúcar refinado
2 colheres de sopa de farinha de rosca
1/2 quilo de amendoim torrado e moído
6 ovos (na temperatura ambiente)
1 pitadinha de sal
3 gotinhas de limão
Modo de fazer:
Bata na batedeira as claras em neve, com o sal e o limão; adicione as gemas, uma a uma, e o acúcar peneirado devagar. Pare a batedeira.
Junte o amendoim que deve estar bem moído, a farinha de rosca peneirada e misture tudo com uma colher de pau.
Asse em uma forma untada com manteiga no forno pré-aquecido a 175 graus.
Dicas
Notaram que o bolo não leva farinha ou manteiga? Pois é, essa é uma das razões que faz com que ele seja realmente leve, apesar de todo esse amendoim. Aqui na Suécia o equivalente ao acúcar refinado é um tal de "Florsocker", que é como um acúcar em pó, de tão fino (parece talco). Já tentei fazer o bolo com acúcar comum e não deu certo, de forma que é importante mesmo fazer com acúcar refinado.
Não se preocupe tanto com o tipo de amendoim para o bolo. Digo isso porque as pessoas me perguntam se uso um tipo de amendoim sem sal etc. Não. Compro um amendoim comum, torrado e salgado. E é exatamente essa mistura do salgadinho do amendoim com o doce do acúcar que dá o charme à receita.
Nas instrucões da vovó não diz quanto tempo o bolo deve ficar dentro do forno. Mas já fiz algumas experiências e, aqui na Suécia, com o meu fogão, o bolo tem de ficar pelo menos 40 minutos dentro do forno pré-aquecido para ficar bom. Se a parte superior comecar a queimar um pouco, diminua a temperatura nos dez minutos finais, só pra garantir que a massa cozinhe por dentro.
Por fim, como disse antes, sem farinha, sem fermento, o bolo não cresce muito, de forma que essa quantidade dá para uma forma redonda comum.
Boa sorte!!!! Espero que gostem!!!!
Reality Shows
Pois é, estava eu ontem na festa e o assunto degringolou para essa coisa de Reality Shows. Aqui na Suécia tem muitos. Além do Big Brother e do Temptation Island, há um outro chamado Baren, no qual os participantes precisam viver na mesma casa e administrar um bar juntos (???), além do Popstars, e de um tal de Wannabe. Aliás, há uma página que reúne todos os programas e informa sobre as novidades de cada um, como quem foi votado para ser eliminado de um, quem brigou com quem em outro e assim vai. O nome do site é Dokusåpa. Não costumo assistir a nenhum deles e não é por nenhum tipo de escrúpulo intelectual ou qualquer outro motivo. Simplesmente acho que existem coisas mais interessantes para se ver na TV.
Mas estou escrevendo isso porque descobri ontem que aqui eles não colocam o "piiii" no lugar de cada palavrão que é dito. Nego deixa rolar solto os "diálogos". Quando disse na festa que no Brasil havia essa censura, recebi como resposta: "Aqui na Suécia não temos esse tipo de dupla moral". Bom, fiquei sem saber o que dizer, até porque não conhecia as palavras necessárias em sueco para dar uma resposta à altura. Não queria discutir, claro, mas apenas dizer que a criatura podia pegar a moral única sueca e... Mas como sou uma pessoa pacífica, graciosa e, sobretudo, evoluída, finalizei a discussão com um conciliador "Ah é? Então tá".
março 28, 2002
Vikings

Aliás, fiquei curiosa sobre essa coisa dos vikings. Fui saber mais, e encontrei essa página, da PBS, na qual pode-se saber tudo sobre esses conquistadores escandinavos.
Entre outras descobertas, fiquei fascinada quando visitei a página das runas. O que você está lendo acima, como título desse post, é o meu nome escrito no alfabeto das runas.
A primeira letra é Mannaz e significa homem (no sentido universal da palavra) ou raca humana; a segunda e a última letras são Ansuz, que pode ser utilizada para se fazer referência a qualquer divindade, mas era associada na maioria das vezes a Odin, o equivalente viking de Zeus; a terceira letra é Raido, uma runa importante para os vikings e cujo significado é longa jornada; e a quarta é Isa, que significa gelo (detalhe: gelo em sueco é "is").
Bom, agora que já tenho meu nome escrito nas runas, só falta pintar o cabelo de loiro e mudar meu nome para Maria Andersson.
Festa com bolo de amendoim e chocolate
Hoje tem festa aqui na casa dos melhores amigos do Stefan, Michael e Lena. Serão umas 12 pessoas e é aquele sistema: cada um traz uma coisa de comer e o que vai beber. Eles oferecem a casa (e têm de limpar tudo depois, claro). Bom, a Lena me pediu para que eu fizesse o bolo de amendoim da minha avó Celia, que ela provou aqui em casa, em setembro passado, no aniversário do Stefan, e amou.
Pra vocês que estão torcendo o nariz e pensando: "Como é que é? Bolo de amendoim???!!!! Irrrccc!". Não é bem assim. Uma comparacão talvez ajude a esclarecer a gostosura da receita: acho que meus seis leitores já provaram o chocolate Snickers, né? Pois então, o bolo da vovó é um "bolo Snickers". Você pode ainda recheá-lo com baba de moca ou, como eu prefiro porque não suporto ovos, com chocolate.
Dessa vez Stefan e eu compramos uma cobertura de chocolate fudge da Betty Croker e adornamos com amendoins em volta dos bolos (são dois). Alguém quer a receita? Não me importo de dar não, só pesso que quem fizer, diga que é o "Bolo de Amendoim da Dona Celia". Já estarei feliz por isso.
março 27, 2002
Enlevo
Figos mornos
Luis Fernando Veríssimo
Estávamos em Cannes, hospedados na casa de amigos. É a única maneira de estar em Cannes, onde os aluguéis não são para assalariados brasileiros. Dizem que o que mais dá em Cannes é batida de Mercedes, porque elas são muitas e porque só param para Rolls Royce. Andávamos a pé pela Croisette, não arriscando nem entrar em ônibus para evitar baques no orçamento. E desconfiados que cedo ou tarde alguém ia nos cobrar pelo uso da calçada.
:: Parece tão fácil escrever com humor.
Os amigos nos levaram a passear, de carro, pelas redondezas da cidade. Passamos por Grasse, que fica nas montanhas atrás da Côte D'Azur. Grasse produzia artigos de couro, principalmente luvas, mas descobriu sua verdadeira vocação quando luvas perfumadas tornaram-se moda no século XVI. Trocou o odor dos curtumes pelo aroma das flores cultivadas e das essências que até hoje fornece às grandes perfumarias francesas. Grasse tem muitos atrativos mas o melhor programa turístico da cidade é respirar fundo.
:: Pára tudo. Esse parágrafo é uma lindeza. Ai, como eu queria poder escrever assim! A frase é: "Grasse tem muitos atrativos mas o melhor programa turístico da cidade é respirar fundo." UAU!
Nosso objetivo principal ficava acima de Grasse. Os amigos franceses tinham uma missão a cumprir. Encarregados por amigos ausentes de ficar de olho em sua propriedade nas montanhas, precisavam ir até lá colher os figos e evitar que apodrecessem nas figueiras. Fomos recrutados para a tarefa também e chegamos na casa no fim da tarde. Uma típica casa provençal de pedra amarela, um tom que parecia ter absorvido do sol de verão cujo expediente agora chegava ao fim. As figueiras cresciam num quintal em declive. O vale lá embaixo já estava cheio de sombras. Ao longe via-se o mar, e os únicos sons à nossa volta eram os das abelhas e dos sinos de cabras invisíveis. Comemos alguns figos enquanto enchíamos os cestos. Eram doces, suculentos e - seu principal encanto, já que estávamos na Côte - de graça. E estavam mornos do sol. Era disso que eu queria me lembrar, a crônica foi só para isso. Os figos estavam mornos do sol da Provence.
:: Ai, Veríssimo, que coisa linda. Eu também! Só transcrevi (mais) uma das suas crônicas porque não queria esquecê-la. E olha que nem gosto de figos!
março 22, 2002
Å Ä Ö
Hoje estou meio sem energia pra nada. Acho que é porque, mesmo sem trabalhar, estou estudando como uma maluca essa língua cretina. E isso, sem dúvida, deve valer como um tremendo trabalho cerebral. Atualmente estou estudando preposicões, o que está me deixando louca. Como em todas as outras línguas que sei, não há regras exatas para a maioria dos casos. Você precisa decorar mesmo. Aliás, só pra dar um exemplo: vocês sabiam que sueco tem NOVE vogais e não apenas as nossas cinco? É que aqui eles resolveram inovar...%&¤##&%%"#... e além do conhecido a, e, i, o, u temos ä (pronuncia-se "é"), ö (ê), å (ô), e y.
...%&¤##&%%"#...(piiiiiiiii)
março 20, 2002
"E.T. The Extra Terrestrial" vinte anos depois
Meu, Deus, estou chorando. Acabei de ver o preview da versão de aniversário de um dos melhores filmes que eu já vi na minha vida: "E.T.". Depois de 20 anos (!!!), todas as emocões came rushing in again! Choro quando o ET diz pro Eliott "I´ll be right here", antes de embarcar na nave de volta pra casa.
Ahn, como eu queria assistir esse filme com o meu irmão! Tenho certeza de que ele iria amar. Ainda mais porque eu tinha exatamente a idade dele, 11 anos, quando o filme foi lancado pela primeira vez. Não que Carlos já não tenha assistido ao filme antes. Mas, sei lá, é mais emocionante poder assistir junto, né?
Ainda me lembro do cinema Leblon 1, ali do lado da casa da vovó, lotado com pais e criancas (e olha que aquele cinema é grande). Fui com uma tia e minhas primas. Nunca tinha visto a carinha do ET porque isso fazia parte da estratégia de marketing de lancamento do filme, descobri anos depois.
No início, acompanha-se a vida da família do Eliott e temos apenas glances do ET. Não tenho certeza, mas acho que vemos a carinha dele pela primeira vez só mesmo quando a Drew Barrymore entra sem avisar no quarto do irmão e se depara com ele (e comeca a gritar :c)
Não, não, vemos a carinha dele antes sim: quando ele ainda está perdido na floresta e os caras do governo comecam a procurar por ele (com cachorros farejadores e tudo) e, de repente, um deles (acho que o Peter Coyote), abre um arbusto e damos de cara com o ET, mais assustado do que todos nós sentados nos cinemas em todo mundo. Me lembro da cena porque o susto foi tão grande que, involuntariamente, bati com as palmas das minhas mões nos meus olhos, de medo. Doeu, mas o filme foi uma experiência.
Bom, estarei indo assistir a essa edicão de aniversário sem a menor dúvida. Chorarei, mesmo aqui, no pico do mundo. Não sinto saudades de ter dez anos, mas sinto saudades das pessoas (e dos filmes) que povoavam minha vida então.
PS.: Já baixei duas skin pro meu ICQ com o E.T...
PS 2.: Esse Steven Spielberg é o M Á X I M O!!!!
Experiência
No seriado, a personagem de Kim Cattrall, Samantha, é a mais ativa sexualmente das quatro amigas. Em um dos episódios ela disse: "I´m trysexual. I like to try everything at least once". Pois bem, criador e criatura parecem estar em sintonia porque a atriz escreveu o livro "Satisfaction: The Art of the Female Orgasm". Interessante, não? Se eu tivesse um cartão de crédito já tinha encomendado o livro na Amazon há séculos.
março 13, 2002
Veríssimo
Homem, mulher, essas coisas
Luis Fernando Veríssimo
O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso nós, homens, temos mamilos, e não sabemos o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente o inverso do seu principal mito de criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas um desmentido do fato, e do feto, como uma apropriação masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro homem para dormir e retirar sua costela e produzir a primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto, reivindicando para os homens, no caso Ele e Adão, a primazia do ato de dar vida. E com anestesia, um detalhe que não deve escapar às mulheres, depois condenadas por Ele a padecer de todas as dores da procriação enquanto o homem, responsável por tudo, só era condenado a folhear "Caras" antigas na sala de espera. Todos os mitos desde os inaugurais, como toda a cultura humana, têm sido masculinos, num contraponto ressentido com a história biológica, verdadeira, feminina, da espécie. Pura inveja.
Freud, que (sendo homem) era suspeito, inventou que a mulher tem inveja do pênis. O homem é que não agüenta a idéia de não estar aparelhado, como a mulher, para se integrar aos grandes dramas reincidentes da Natureza, ovulando de acordo com as fases lunares, gestando, parindo e amamentando filhos e identificando-se com os ciclos de fertilidade da Terra, sentindo as variações de clima e de idade com mais intensidade, e ainda encontrando tempo para ir ao cabeleireiro e dirigir empresas. Enfim, participando. Enquanto ele fica de lado, como um penetra, esperando em vão que a vida o chame para as suas graves verdades e obrigado a inventar uma história paralela de fantasia. Se você concordar que o pênis é o órgão que rege esta história paralela, e que a civilização se explica como uma angústia de potência, o que Freud quis dizer era que a mulher invejava o poder falocrata, ou justamente o que o homem inventou para compensar o fato de não ser mulher. Outro mito usurpador.
Esta manifestação não é paga, não é encomendada e não, não estou pensando em mudar para o outro sexo. É que sempre fui simpatizante.
Vai pro trono ou não vai?????
março 06, 2002
Eu e o Veríssimo
Babo todos os dias diante do computador quando leio a coluna do Luis Fernando Veríssimo, no Globo. A de hoje, por exemplo, é tão legal que vou tomar a liberdade de reproduzir aqui (pelo menos em parte). Quero tê-la nos meus arquivos. Aqui vai:
'Fingerspitzengefühl'
Luis Fernando Veríssimo
"Li num texto sobre o Enrico Fermi, o físico italiano que foi um dos pais da bomba atômica (nunca, estranhamente, uma criança tão assustadora teve tantos pais), que ele um dia resolveu fazer uma alteração no processo que usava para induzir a radioatividade usando nêutrons (ou coisa parecida, sou meio fraco em física, na verdade sou contra). O chumbo não estava dando certo, em vez de chumbo usaria outra coisa. Parafina, decidiu, sem pensar. Foi a decisão mais importante da sua vida, até ali. A colisão com o núcleo de hidrogênio da parafina fazia diminuir a velocidade dos nêutrons, e todos sabem o que isso significa. Espero que saibam, porque eu não sei. O importante é que os nêutrons vagarosos foram os responsáveis, entre outras descobertas, pelo Prêmio Nobel que Fermi ganhou em 1938. E Fermi não tinha a menor idéia de por que pensara em parafina para substituir o chumbo! Ele era, segundo o texto, "o mais racional e o menos impulsivo dos cientistas", mas escolhera a parafina num impulso. Tivera a intuição da parafina.
A história da ciência está cheia de sacadas do mesmo tipo, de manifestações do que outro cientista, Michael Polanyi, chama de "conhecimento tácito", ou o que nós sabemos sem saber que sabemos. Albert Einstein - outro que intuiu e "inventou", muito mais do que deduziu racionalmente - tinha um nome para o fenômeno. Fingerspitzengefühl, um sentimento na ponta dos dedos, que substitui a percepção convencional e a racionalização.
Muitas vezes é a ponta dos dedos que sabe o que nós não sabemos que sabemos. Einstein, aparentemente, consultava a ponta dos seus dedos com freqüência."
Genial, né?
fevereiro 28, 2002
Uma palavra
Linda. "Kalabalik" é uma palavra que os suecos utilizam para expressar caos, confusão, loucura. Já vi, inclusive, impressa em jornais. Aliás, "kalabalik" foi emprestada pelos suecos, que a incorporaram ao seu vocabulário depois de uma guerra contra a Rússia, na qual Suécia e Turquia lutaram juntas. "Kalabalik" é de origem turca e apimenta o falar ritmado desse povo do norte. Se você quer saber mais sobre essa palavra, vá até o site Ordbruket. Ah, detalhe, o texto está em sueco.

Suas Altezas Reais, Senhoras e Senhores,
























