dezembro 21, 2005
Acabou!

ra não dizer que estou sem graça por estar me repetindo cada vez mais, escolho afirmar que o que faço aqui é estabelecer novas tradições. Uma delas é o post do dia de hoje. Todo o mês de dezembro, lá pro dia 21 ou 22, publico um post com o título "Acabou", fazendo referência ao final da escuridão do inverno. Isso porque hoje é o dia mais curto do ano e, paradoxalmente, o mais feliz, pelo menos pra mim. A partir de amanhã voltamos a ganhar minutinhos de luz todos os dias, sendo que aqui na região norte ganha-se muitos minutos... Espero esse dia como uma criança que espera a chegada do papai noel, ou o dia do seu aniversário, com um leve sorriso nos lábios e a certeza de que uma surpresa muito boa está pra acontecer. Viva!
Hoje o sol nasceu às 09hs30min e se porá às 13hs41min. Amanhã, nascerá às 09hs31min e assim por diante... :c)
A palavra em sueco do dia é Vintersolståndet, solstício de inverno.
dezembro 18, 2005
Último advento e o mico cinematográfico

inalmente, hoje é o quarto e último advento. Domingo que vem é dia de Natal e estaremos quase no fim de dezembro e desse ano. Não vejo a hora.

E ontem fomos assistir a "King Kong", do Peter Jackson. Em uma palavra: O-D-I-E-I. A expressão de tristeza dos olhos castanhos de encantos tamanhos de Kong é, disparado, a melhor coisa do filme, que é longuíssimo. Um verdadeiro mico cinematográfico (pun intendet). Não vou contar nada da trama, mas Peter Jackson se manteve fiel à história contada na primeira versão, dos anos 30. Naomi Watts chora bonitinho, Jack Black é o canalha escancarado de sempre e o narigudo Adrien Brody só tem mesmo aquela expressão de espanto no rosto o filme todo.
Talvez, imagino eu, tenha gostado mais do filme (ou desgostado menos) se o cinema fosse melhor. Compramos os tíquetes com antecedência, última fila, centro. Na entrada, uma fila gigantesca impedia que gente organizada como nós entrasse direto. Esperamos 20 minutos para percorrer os últimos dez metros do saguão até o caixa. E como estamos na Suécia, a terra do (des)serviço, a menina da caixa vendia ao mesmo tempo bilhetes e também pipoca, refrigerante, balas, e ainda tentava empurrar cartões de descontos pros cinéfilos mais aficcionados.
Quando finalmente conseguimos sentar na sala, reparamos a temperatura elevada. O normal em lugares públicos aqui na Suécia são agradáveis 20 graus. Juro que na sala de cinema estava, no mínimo, uns 30. Todo mundo, antes de sentar, tirava todos os casacos (estava 14 graus negativos na rua) e demorava pra sentar. Resultado: o filme começou com 20 minutos de atraso. Pude realmente me identificar com Kong, cansado, atacado por aviões. No final do filme estava ligeramente em pânico, sem conseguir respirar direito por causa do calor. (Quem diria! Logo eu, uma carioca da gema!)

Eu podia estar roubando... Não sei se vocês notaram, mas adicionei aqui à esquerda, na coluna lilás, um botãozinho do PayPal. Minha intensão é deixar uma porta aberta para doações de quem vem aqui e gosta do que lê. Agradeço antecipadamente e de coração. A quem não queira doar, ou não possa, agradeço também e compreendo.
A palavra em sueco do dia é apa, macaco.
dezembro 13, 2005
Mais luz!

oje é dia de Lucia (diz-se Lucíía) por aqui. E o que isso quer dizer? Como já escrevi antes, o dia de hoje é dedicado à memória de Santa Lúcia de Siracusa, morta em 304 d.C.
A imagem ao lado mostra a procissão que se faz em escolas e igrejas em toda a Suécia no dia de hoje. A moça da frente, com a coroa de velas na cabeça e a faixa vermelha na cintura, encarna santa Lucia. As outras são suas seguidoras. Aí vocês me perguntam: "Mas para um povo secularizado e pouco influenciado por religiões até que os suecos adoram festejar um santinho, né?".
É... e não é. A festa de Lucia é mais do que o lance da santa. A coisa é que a festa de Lucia acontece todos os anos no dia 13 de dezembro porque esse era o dia do solstício de inverno no calendário juliano, utilizado pelos nativos até o ano de 1753. Então, na verdade, a "santidade" louvada pelos suecos é, nada mais nada menos, a chegada da luz. :c)



E por falar em festa, acho que vocês se lembram que escrevi algumas vezes aqui que os nativos fazem de tudo para proteger sua política de consumo de álcool, sobre a qual escrevi nos posts "A praia sueca" e "Álcool e a mãe manipuladora". Pois é, acontece que a Suécia faz parte da União Européia, que tem uma visão com-ple-ta-men-te diferente da nativa sobre como o comércio de bebidas deve acontecer.
Agora, a empresa estatal que controla a venda de bebidas alcóolicas por aqui, o chamado System Bolaget, fez um site para "explicar" o modus operandi sueco no que diz respeito à regulamentação e venda da birita. Quer entender como as coisas funcionam por aqui? Clique em http://www.dearmrb.se e curta a historinha (contada em inglês pela adorável atriz Pernilla August, com um delicioso sotaque sueco).
Meu comentário: fico imaginando a reação de italianos e franceses, comedidos consumidores de biritas finas, com a mania nativa de encher a cara todos os finais de semana com o pior álcool possível. Nesse ponto, as referências se invertem e a nação sueca, tão conhecida por seu comedimento em absolutamente tudo, perde feio pros países de cultura euro-latina, reconhecidamente extremistas em quase tudo. Acho isso engraçado e paradoxal.
(Ao mesmo tempo, não posso deixar de me irritar um pouco com a vontade dos nativos de "explicar" para o Sr. Barroso (chefe da comissão européia) a política do álcool sueca. O tom da explicação me é bem familiar; aquela coisa de: "deixa eu te explicar bem de-va-gar-zinho porque você não entendeu", como quem fala com uma criança ou um retardado mental. Essa ironia de quem é - ou se acha - superior parece ser um cacoete nacional.)
A palavra em sueco do dia é fest, festa.
dezembro 11, 2005
Advento, Nobel e futebol
stamos quase lá, quase lá. Mais um domingo, mais um advento.
E ontem foi a entrega do prêmio Nobel, com jantar, festa e tudo o que se tem direito. Vi pequenos trechos da cerimônia (já vi uma vez, já sei o que acontece, tinha outros programas bacanas pra ver no mesmo horário) e deu pra achar tudo bonito e elegante. Pena o Harold Pinter, doentíssimo, não ter ido receber o nobel de literatura. O discurso dele, que passou na TV daqui na quarta-feira, foi fenomenal. Baixou o sarrafo no Blair, que chamou de cordeirinho que abana o rabo e segue Bush. Daí pra baixo. Ou pra cima.
Legal foi ver anteontem o sorteio da chave do Brasil na copa do mundo. O show alemão foi uma chavecada só, como manda a tradição. Os suecos suavam frio, com medo de cair no grupo do Brasil, mas acabaram pegando um grupo mediano. Me chamou a atenção a festa que a delegação australiana fez ao ser sorteada pro grupo brasileiro. Ou será que foram gritos de desespero? A verdade é que o Brasil precisa ter cuidado tanto com os aussies como com os croatas e a correria dos japoneses do Zico.
E ontem, pela primeira vez na minha vida, fiquei com pena dos argentinos.
A palavra em sueco do dia é lottning, sorteio.
dezembro 09, 2005
A mídia italiana através de olhos suecos

ntem à noite assisti a um programa semanal sobre mídia em um dos canais da TV estatal sueca, SVT. Gosto muito desse programa, que assisto desde que comecei a entender a língua. O assunto do dia era a imprensa mais ou menos livre da Itália. Vale explicar o background desse programa: há uns meses a TV estatal sueca iniciou uma campanha publicitária (veja imagem) dizendo que os canais do SVT eram completamente livres. Em oposição mostrava-se uma imagem do Putin na Rússia e do Berlusconi numa pose à la Benito Mussolini.
A campanha, lógico, deslanchou uma avalanche de protestos. Suecos mais em contato com seu bom senso se queixaram da falta de sensibilidade da campanha, que desmoralizava a imprensa de um país europeu para mostrar como a mídia local era boa. Mais uma vez os nativos lançavam mão da velha estratégia de mostrar as mazelas do outro para, em comparação, sobressair como melhor, puro, livre. Até mesmo a Itália se viu obrigada a reagir. Se não me engano o embaixador sueco foi chamado pra uma conversa em Roma.
Mas, voltando ao programa de ontem. Depois da correspondende sueca ter entrevistado jornalistas vetados pela censura de Berlusconi (que existe mesmo e é medonha), o apresentador iniciou uma entrevista com um sueco expert na mídia italiana. Aí, o cara diz assim: "A imprensa italiana pode não ter a mesma transparência da imprensa daqui, mas certamente tem muito mais abertura". Como assim, quis saber o apresentador, confuso. "É que cada vez que abria o jornal pela manhã", explicou o expert, "eu tinha arrepios em ler as acusações cruas e sérias escritas preto no branco. Parecia que uma guerra civil poderia acontecer todos os dias depois do café da manhã".
Veja nessa página italiana uma tradução da campanha sueca. Hohoho.
A palavra em sueco do dia é fri, livre.
dezembro 04, 2005
Segundo advento e tsunami

ais um domingo, mais um advento. E vamos seguindo com nossa corrida para acabar dezembro o mais rápido possível. Essa coisa do supermercadinho aqui da esquina ter fechado até que foi bom. Assim tenho uma desculpa para andar até o centro (distante uns dois quilômetros) ou até o supermercado no bairro adjacente ao meu (distante um quilômetro mais ou menos). Já abasteci meu estoque de docíssimas tangerinas natalinas. O problema é que acabo gastando mais dinheiro do que gostaria...

Na quinta-feira uma comissão criada pelo governo socialdemocrata sueco entregou suas conclusões sobre como o primeiro-ministro e seu staff agiu (ou deixou de agir) durante as primeiras horas da catástrofe da tsunami, na Tailândia, no últimos dias de dezembro do ano passado, quando quase 600 suecos morreram. A crítica, que é seríssima, é também inédita. Nunca um gabinete socialdemocrata recebeu crítica tão clara e considerada "não-sueca", no sentido de que identifica culpados poderosos e não distribui a culpa igualmente por todos os envolvidos. A situação é tão séria que o primeiro-ministro Göran Persson foi obrigado a pedir desculpas publicamente.
O problema é que a burocracia sueca, muito efetiva, também tem um problema sério (e bastante humano): ninguém quer assumir a responsabilidade caso uma decisão dê bode. Só que esse traço cultural (quem vive aqui sabe que os nativos não gostam de pedir desculpas) complicou a vida dos feridos nas praias da Tailândia, e de seus familiares aqui. A Suécia foi o último país a chegar às praias da Tailândia com times de ajuda. Cidadãos suecos foram ajudados por representantes de outros países mas principalmente pela população tailandesa, que acolheu muitos em suas próprias casas, lhes deu comida e descanso.
O problema maior é que a Suécia perde feio em comparação com a Itália e com a vizinha Finlândia, cuja ajuda foi quase imediata. Guido Bertolaso, responsável pela resposta em momentos de crises do governo italiano, decidiu no próprio dia 26 de dezembro, horas depois da tsunami, que fretaria um avião e voaria imediatamente para lá. No dia 26 o primeiro-ministro sueco não assistiu TV e a ministra do exterior, Laila Freivalds, foi ao teatro. Depois ela disse que nem sabia onde Phuket ficava (é uma das praias mais visitadas por suecos na Tailândia). A ajuda sueca, que depende do OK dessas duas pessoas, chegou apenas quatro dias depois.
Agora, a maioria dos suecos quer a demissão de algum membro do governo. O bode espiatório parece ser a antipática Laila Freivalds, cuja demissão é pedida por mais de 80% da população. Muitos querem que o primeiro-ministro também caia fora, mas a maioria parece entender que não é tão fácil fazer um fat cat como Göran Persson cair do trono. Até agora ninguém saiu do governo e parece que vai continuar assim até as eleições do ano que vem. "E o que é que isso tem a ver comigo?", você pergunta. "Nada", respondo. Mas queria apenas mostrar que até na Suécia, quem diria, as coisas podem sim acabar em pizza.
A palavra em sueco do dia é besvikelse, decepção.
novembro 27, 2005
Mais um primeiro advento

Post copiado, uma vez que já escrevi sobre o tal do primeiro advento diversas vezes aqui.
"E hoje é o primeiro advento, ou seja o primeiro dia do ano eclesiástico da igreja sueca. Os adventos são comemorados nos quatro domingos que antecedem ao Natal. A palavra advento, advent em sueco, vem do latim adventus e quer dizer espera ou chegada (depende da interpretação). Nesse domingo as igrejas daqui costumam ficar cheias, as missas são bonitas, com coral e tal. Eu não vou à igreja aqui (aliás, nem aqui nem em lugar algum), mas acho bacana essas tradições que incluem velas, orações, quietude, esperança. A cada domingo até o Natal acende-se uma vela, como na imagem aí de cima."Depois de uma semana difícil, fui dormir na sexta exausta e de saco cheio. Dormi direto (uma façanha) até às 9h30m da manhã de sábado, o que me encheu de alegria. Fui dormir tarde no sábado e acordei hoje também quase às 10h. Tava mesmo precisando de um descanso. Conto os dias para esse maldito mês de novembro acabar, para dezembro chegar - e voar - para eu poder descansar nos braços orfeísticos do meu urso, em casa.
Quem lê meus arquivos deve ter notado que a maioria das fotos desapareceu de seus respectivos posts. A razão é simples: o Montanha é um blog grande que chegou a ocupar cerca de 90% do espaço de disco que meu provedor me fornece. Dezenas de emails de alerta depois, resolvi resolver a questão: apaguei o grosso das fotos e deixei apenas as imagens menores (gifs variados etc). Fica menos legal mas é o jeito.
A palavra em sueco do dia é ljus, vela, luz.
novembro 07, 2005
A Europa da exclusão
A TV sueca não cansa de mostrar as cenas de guerra urbana que se espalham pelo território francês há mais de uma semana. Mostram carros queimados, pessoas desesperadas, políticos sérios mandando a polícia baixar o pau e assistentes sociais dizendo o que os revoltosos realmente querem: trabalho, respeito, aceitação, integração, cidadania.
Enquanto isso, sento e espero que a mídia sueca some dois mais dois e chegue à conclusão de que esse espetáculo de violência urbana motivada por preconceito pode acontecer aqui também. Os ingredientes são os mesmos, discriminação e a desesperança de quem mora nos subúrbios das grandes cidades daqui (Estocolmo, Malmö e Gotemburgo). Na última sexta-feira, finalmente, meu jornal escreveu em seu editorial:
"Quando as economias européias ficam pra trás, o desemprego cresce e o consumo diminui, os que estão na base da hierarquia social sofrem mais. As crianças e jovens que vêem seus pais de fora do mercado de trabalho não acreditam que eles próprios terão destino diferente ou que jamais deixarão esses mal-falados subúrbios. Para eles existe apenas as ruas, as gangues, o crime e o vício.Na Suécia, no entanto, não se vê a miséria absurda que os imigrantes franceses vivem. Os estrangeiros/novos suecos vivem em prédios enormes, as áreas onde moram não chegam nem perto do idílio típico nativo, a criminalidade é grande, a polícia já chega baixando o cacete, mas, ainda assim, o clima aqui é diferente. Talvez porque o sistema social salve da sargeta quem não tem nada.Para alguns deles, no entanto, abre-se uma outra saída: a crença e dedicação por uma Causa. É nesse meio que jovens são recrutados para pegar um ônibus ou um trem de metrô com uma mochila cheia de explosivos. O desespero das pessoas que moram na Europa sem se sentir parte dela ajuda a proliferar o islamismo radical.
Dessa forma unem-se subúrbios franceses, mesquitas inglesas, assassinos holandeses e estudantes de vôo sauditas com ódio dos EUA. Até as áreas habitadas por imigrantes na Suécia têm problemas semelhantes, lá também existe uma desesperança para com a sociedade. Em setembro último o prédio da polícia no bairro de Ronna, em Södertälje (região cheíssima de imigrantes ao sul de Estocolmo) foi alvo de tiros. (Já escrevi sobre isso aqui)
Mas isso não basta. Dinheiro é ótimo, mas esperança em uma vida interessante e decente é ainda melhor. Na minha opinião, o grande problema é que a Suécia ainda não acordou pros pequenos detalhes. O fato de gente com nome estrangeiro (leia-se árabe) ou pele escura não conseguir viver da mesma forma que qualquer outra pessoa nascida e criada aqui, por exemplo. É árabe ou africano, estudou aqui e quer trabalho? Muda de nome porque com nome árabe, você não chega nem à entrevista preliminar.
Se chama Mohammed e quer alugar um apartamento? Boa sorte no mercado negro, meu chapa. No mercado aberto, regulado por empresas públicas locais ou escritórios particulares, você só consegue um lugar em listas de espera que podem demorar anoooos, ou simplesmente não consegue sequer deixar seu nome. O cara da imobiliária diz logo que não há apartamentos pra alugar na área nobre da cidade. (Quando, 15 minutos depois, um sueco com nome comum liga, recebe três ou quatro opções de apartamentos na mesma área).
A matéria está aqui (apenas em sueco).
Aí vocês dizem: "Ihhh, lá vem a Maria com essa chatice de preconceito novamente". É, pois é. É chato mesmo. Aliás, chato foi para o embaixador do Peru (esse aí da foto acima), que foi barrado num restaurante chique de Estocolmo quando tentava tomar um drinque com colegas de trabalho. Os guardinhas disseram que o local estava cheio, quando os peruanos podiam ver pelas enormes janelas frontais que isso não era verdade. Enquanto discutiam, cerca de dez pessoas passaram por eles, todos de aparência escandinava, e foram curtir seu fim de noite. O embaixador disse que vai se queixar ao departamento de relações exteriores sueco.
A palavra em sueco do dia é förbannad, danada, furiosa.
outubro 26, 2005
A marvada chegou
O verbo em sueco do dia é att vurpa, cair, tomar em estabaco.
outubro 10, 2005
A falta de culpa e terremoto
Pois é, soa estranho aos nossos ouvidos essa "indiferença" dos filhos com relação aos pais daqui. Mas, na verdade, posso até compreender. Desde que a Suécia virou nação de primeiro mundo (depois da segunda guerra mundial) o tal do welfare foi construído de forma a tirar a carga de responsabilidade dos filhos para com os cuidados de seus pais. O estado disse: "Vão trabalhar! Nós cuidamos do resto!" Isso numa época em que a Suécia estava crescendo aceleradamente e faltava mão-de-obra pra tudo quando era lado. Foi quando chegou, nos anos 60, 70, a primeira leva de imigrantes em busca de trabalho. Na sua maioria finlandeses, mas também gregos, italianos, turcos etc.
Nessa época, o estado socialista sueco fez uma espécie de trato com a população: vocês pagam impostos exorbitantes mas, em compensação, não precisam se preocupar com nada além do seu trabalho. É claro que essa é uma visão um tanto quanto exagerada. Mas, em linhas gerais, foi isso mesmo que aconteceu. Centenas de creches e casas de repouso surgiram. Os jovens adultos podiam deixar seus filhos e seus pais aos cuidados do Estado e ir fazer a Suécia florescer. Essa idéia permanece até hoje. A culpa de não acompanhar sua mãe ao médico é um sentimento meio desconhecido por aqui. Por mais que isso seja difícil de entender.
Além do mais, as condições que a senhorinha de 75 anos tinha para ir fazer sua operação eram muito boas. O ônibus era muito confortável, com pessoal a bordo pra ajudar; no hospital há uma série de profissionais muito competentes a postos etc. Acho isso fenomenal, claro. Uma tranqüilidade saber que uma pessoa que você ama estará segura no ônibus, no hospital, em qualquer lugar (o que, por si só, é um luxo total no Brasil). Mas ainda assim sinto falta do toque pessoal, da possibilidade de ter uma pessoa da família com quem possa me sentir totalmente a vontade e com quem possa dividir minha angústia.

A dona do apartamento que alugo aqui em Umeå é uma barnmorska, o que equivale a um obstetra no Brasil (só que aqui não precisa ser médico para fazer nascer bebês, basta a formação geral em enfermagem - que é muito puxada - e mais a especialização em obstetrícia). Quando aluguei seu apartamento, ela havia decidido se mandar para o Afeganistão com a organização Médicos Sem Fronteiras. Passou seis meses. Depois, se mandou para o Sudão, onde passou mais nove meses. Veio pra Umeå, onde trabalhou o verão passado como substituta em seu antigo trabalho e se mandou novamente, dessa vez para a região de Kashmir, entre India e Paquistão.
Pois é, ela estava dormindo numa cidade mínima, nas vizinhanças de Islamabad (que está no epicentro do terremoto), quando o terremoto aconteceu. Foi jogada para fora da cama e uma parede caiu sobre ela. Suas pernas ficaram presas e seu rosto estava pressionado pela parede. Mas ela tinha ar. Durante duas horas e meia gritou, pediu ajuda pras pessoas que tentavam localizar os sobreviventes. Foi salva. Hoje ela contou no rádio (obviamente apenas em sueco) como foi e disse que estava bem. A cidade onde ela estava, Lamnian, foi totalmente destruída. Ela, no entanto, não quebrou nada, teve apenas arranhões e o susto. Talk about guardian angel!
a palavra em sueco do dia é änglavakt, anjo da guarda.
setembro 22, 2005
Doces contradições

Tô sempre por aqui, por mais que esteja complicado escrever muito. Ando meio cansada (aliás, muito cansada) e tenho a impressão que é um resfriadinho chato querendo me pegar. Bacana que vocês tenham gostado da tradução/versão do artigo. Continuo achando ótimas as idéias desse psiquiatra. E não apenas eu. Alguns dias depois que o artigo foi publicado, o editor da página de debate do meu jornal escreveu uma materinha contando do sucesso das idéias do psiquiatra.
Centenas de cartas, emails, telefonemas. Quase todas, conta o editor, a favor das idéias de David Eberhard. Pelo texto do editor, que descreveu algumas das palavras dos leitores que louvaram o artigo, há uma necessidade absurda dos nativos em sair dessa redoma protetora e encarar o mundo mais de frente. É claro, imagino eu, que não se defende aqui uma "brasilificação" do estado social sueco. Eles querem manter sim os privilégios de primeiro mundo que conquistaram.
Mas há, imagino, uma vontade de sair da mesmice. Uma necessidade de tentar algo novo, de fazer alguma coisa diferente do seu tempo, dos seus dias, da sua vida. Esse impulso, bem humano, pode ser visto, por exemplo, nas minhas colegas de universidade que resolveram se mandar pro Sri Lanka e pra Índia pra fazer seu trabalho de campo (semestre passado). Eu, que já esgotei minha cota de aventura, preferi ficar por aqui mesmo e estabelecer contatos no mercado de trabalho sueco (o que, em si, já é uma outra aventura, daquelas de meter medo. Mas isso é outra discussão).
O mais fenomenal nessa história toda, é que o que o psiquiatra escreveu pode ser observado pelo outsider mais atento, mas é difícil criticar o estado que fornece tanta "segurança" às pessoas. Na faculdade muitas vezes me vejo rindo internamente das críticas que colegas fazem do sistema social sueco. "Pelo menos vocês têm um sistema social", penso eu. Mas o problema não está aí. O problema é quando esse sistema que foi criado pra ajudar, acaba sufocando a pessoa, desarmando seu ímpeto de desafio e esvaziando sua autoconfiança para vencer obstáculos.
Acabei de ler no jornal de hoje a carta de uma professora desempregada que trabalha algumas horas aqui ou ali como substituta, mas nada certo. Quando ela viu que uma empresa privada de fornecimento de mão-de-obra procurava professores, se inscreveu logo. Conseguiu trabalho quase que imediatamente. Mas qual não foi sua surpresa quando foi informada pelo governo que se continuasse a trabalhar provisoriamente iria perder seus direitos à A-kassa, que é uma espécie de "salário" que quem está desempregado recebe enquanto procura trabalho.
(Aqui vale uma clarificação: ela não estaria trabalhando fixo, empregada em algum lugar, mas funcionaria ainda como substituta, uma temp. O problema é que o governo não reconhece o direito do cidadão em se registrar nos chamados "vikariepool" privados, ou seja, em empresas privadas de empregos temporários, apenas em suas equivalentes estatais.)
Ela se viu obrigada a largar o trabalho, sair da empresa privada, escrever uma carta "pedindo desculpas por sua ignorância" (palavras dela) ao órgão regulamentador e voltar a ser desempregada. Tudo isso para não perder seu direito constitucional de receber uma porcentagem do seu último salário enquanto procura outro emprego. É por isso que eu sempre digo, a Suécia é uma Disneylândia burocrática e muito contraditória.
A palavra em sueco do dia é motsägelse, contradição.
setembro 18, 2005
Segurança paralisante
A pedidos, o artigo:
"Segundo uma pesquisa publicada alguns meses atrás "um em cada três suecos quer criar um limite de 15 anos de idade para assistir a jogos de futebol". Dessa forma poderia-se, de acordo com quem participou da pesquisa, diminuir o risco de que essas crianças fossem recrutadas para as violentas gangues de times rivais. Esse é um exemplo do pânico nacional que se espalhou quando tentamos lidar com uma situação insegura ou a sedução que certos "rebeldes" sentem em fazer o que é proibido.
No início de junho foi publicada uma segunda pesquisa que, de pontos de vista distintos, é outro exemplo do mesmo fenômeno. De acordo com essa pesquisa, a maioria dos jovens que se forma na universidade escolhe o desemprego à possibilidade de se tornar pequenos-empresários, uma realidade repleta de riscos. Esses são, na minha opinião, apenas dois exemplos de um fenômeno que está tomando conta da Suécia por todos os lados: a síndrome nacional do pânico.
No meu trabalho como médico-chefe em psiquiatria em Estocolmo encontro diariamente pessoas completamente paralisadas por síndrome de pânico. Esse quadro psiquiátrico se caracteriza pela existência de um pânico irracional diante de situações normais. Uma conseqüência desse pânico é agorafobia, que por sua vez faz com que as pessoas não ousem fazer qualquer coisa fora da segurança de sua casa.
Essa é uma condição patológica, de acordo com os parâmetros psiquiátricos, mas infelizmente parece que ao invés de ser classificado como doença, o fenômeno tornou-se a base para quase todas as decisões de âmbito nacional. Nada pode ser perigoso ou inseguro. Durante as últimas décadas fomos inundados por decretos e proibições para tornar nossas vidas seguras e inofensivas.
Somos obrigados a usar cinto de segurança mesmo se ninguém além de nós mesmos se machuque caso deixarmos de usá-lo. Nossos filhos têm de usar capacete mesmo quando andam de bicicleta no jardim. Importamos leis contra qualquer fumacinha nos restaurantes e leis de proteção ao empregado que tornam quase que impossível demitir quem comete erros sérios no trabalho. Não há nada de errado em tentar cuidar de seus cidadãos. O problema é a proporção dos efeitos que acontecem quando perdemos a noção do que é razoável.
Exatamente como o paciente com pânico vê perigo em tudo o que realmente pode ser perigoso mas poucas vezes o é, a Suécia tem uma necessidade exacerbada de segurança e controle, quando o que realmente precisamos é de trabalho, um teto sobre nossas cabeças e amor.
Pedimos dispensa do trabalho e ficamos em casa por meses ou anos por causa de uma condição que apenas melhoraria caso tivéssemos uma ocupação interessante e pudéssemos voltar rápido ao trabalho (como por exemplo na maioria dos casos do esgotamento psicológico). Empregados de escritório são dispensados de forma regular por braços quebrados ou por outras lesões locais que não os impediriam de realizar muitas outras funções. De acordo com uma pesquisa publicada no início do ano, os trabalhadores ficam em casa 100% mais de tempo pelo mesmo diagnóstico do que há dez anos atrás. Dessa forma aprendemos que tudo pode ser evitado e nada precisa ser perigoso ou representar dor.
Um dos dogmas mais importantes na sociedade da segurança é que é perigoso competir, talvez o mais feio que podemos fazer. O fato de um aluno ser melhor do que um outro é tratado quase como uma mentira, mesmo quando nós todos sabemos que a realidade é exatamente essa.
E mesmo que todos nós saibamos disso, não podemos de jeito algum estimular o melhor aluno a competir. Pelo menos não nas matérias de colégio. A sociedade não quer mais que todos tenham as mesmas chances, mas que todos sejam igualmente bons, igualmente ruins, iguais. Se o pior não pode ser tão bom quanto o melhor então o melhor tem que ser tão ruim quanto o pior. Temos hoje em dia uma escola que, de acordo com vários relatórios científicos internacionais, não funciona. Os professores perderam todas as possibilidades de punir ou de premiar. Dessa forma, retiramos das crianças o direito básico de encontrar seus limites na vida e esquecemos que as elas amam competir. O ser humano não nasce na segurança. Segurança alimenta medo da mesma forma que a síndrome do pânico fortalece a necessidade de evitar perigos. Crianças conseguem viver com e devem enfrentar resistência, porque sem ela segue-se a lei do menor esforço e a vida perde seu sentido e objetivo.
A conseqüência disso é o que vemos quando as pessoas não agüentam ou querem trabalhar ou quando não ousam começar seus próprios negócios. Por que eles o fariam? O estado toma conta da gente da mesma forma.
Quando tudo desaparece por conta de uma tsunami ou de qualquer outra catástrofe, mostramos nossa incapacidade e paralisia nacional. Depois da Segunda Guerra Mundial a Suécia recebeu um grande número de refugiados dos campos de concentração. Eram pessoas que passaram pelo pior possível. Essas pessoas, apesar disso, se integraram muito rapidamente à sociedade e funcionaram no mercado de trabalho. Eles não eram enganados a acreditar em segurança. Eles tinham trabalho, comida, salário e um teto sobre suas cabeças. Eles nunca receberam um diagnóstico como PTSD (Post Traumatic Stress Disorder) e não foram recebidos por uma sociedade inexigente.
No meu trabalho encontro diariamente refugiados vindos de outros países. Em nenhum outro cenário a síndrome de pânico nacional fica tão evidente como quando essas pessoas são recebidas aqui. Eles vêm de ambientes inseguros e muitas vezes cheios de violência. Eles fogem da violência, mas encontram aqui, em contrapartida, uma segurança hiperexigente. Porque para aqueles que vêm pra cá é claro que o principal é ter trabalho, um sentido na vida.
Muitos dos que fugiram são pessoas engajadas politicamente e que têm uma força vital enorme. Algo que a inexigente sociedade sueca quebra rapidamente com sua bem-intensionada consideração.
Formalmente a conslusão é que a Suécia toma conta de seus cidadãos. Não somos maus, não exigimos nada demais, somos os mais bonzinhos de todos. Paradoxalmente, é essa sociedade sueca de pânico e igualdade que dirige a competição internacional para saber quem é o país mais bonzinho do mundo. Uma competição que leva à maior segurança possível para todos os participantes.
Muito se debateu sobre pais e mães submissos, que não dão limites aos filhos e fazem todas as suas vontades. Mas a sociedade submissa é um problema muito maior. A necessidade de se competir em segurança espalha a submissão como um vírus.
É claro que devemos proteger os nossos, mas viver é perigoso. Se não passarmos esse conhecimento aos nossos filhos eles crescerão dentro de uma bolha. Quando essa bolha estourar, tudo passará a ser duplamente perigoso. Se alguém nunca caiu e se machucou, a dor, quando ela vem, é insuportável. E a dor vem exatemente porque a segurança absoluta é irreal. Discute-se o aumento nos crimes de violência, dos casos de jovens que bebem e dirigem carros, além do consumo de drogas. Nos últimos anos enfrentamos uma série de crimes violentos que nos fizeram questionar como a psiquiatria funciona no país. Claro que podemos colocar a culpa pela violência dos últimos anos na falta de recursos para a psiquiatria, ou na Comunidade Européia ou ainda no fato de termos mais acesso a bebidas do que antigamente. Mas a questão é mais complexa do que isso.
A proibição à concorrência dá espaço à indiferença. Porque deixar de beber ou de usar drogas se nada do que se faz tem conseqüência? E caso haja conseqüências, temos sempre uma segunda chance porque a Suécia cuida de seus cidadãos.
Quem vai parar fora da sociedade sente o peso da exclusão. Vem daí a necessidade de procurar uma sociedade alternativa: a criminal. Lá a moral é "por que não vamos brigar se é brigando que conseguimos respeito?" Um respeito que é construído pelo medo. O único respeito que se pode conseguir na Suécia, já que a competição saudável de quem combina melhor com a sociedade é proibida. A única competição que existe hoje em dia é aquela em que quer descobrir quem pode dar as costas à sociedade.
Para nós outros não resta qualquer tensão. Somos todos seguros e nada pode nos trazer dor. Na sociedade sueca livre de dores começamos todos, exatamente como um paciente com pânico desenvolve agorafobia, a evitar tudo que é normal.
O país e seus habitantes precisam criar riscos grandes o suficiente, uma dose saudável de concorrência, porque a segurança é a falta de sentido. Nos transformamos todos em perdedores. Como um usuário de heroina aprende a amar sua droga, nos transformamos em viciados em segurança. Está na hora de combatermos nosso vício."
DAVID EBERHARD
Médico-chefe em psiquiatria em Estocolmo.
Publicado na página de debate do Dagens Nyheter em 11 de setembro de 2005.
A palavra em sueco do dia é fullträff, no alvo ou em cheio.
setembro 15, 2005
Prova e segurança
Dia óóóóóóóótimo. Acordei cedo, fui encontrar com Elin-amiga-da-universidade na frente da faculdade para ir fazer a prova do curso de psiquiatria. Vamos sempre juntas pras provas, que são feitas fora do campus, num prédio especial apenas para provas longas. Mas essa de hoje foi curta (apenas uma hora) e eu quase gabaritei! Acertei todas as respostas, menos uma. Sucesso total, merci beaucoup. Agora só falta passar nas demais etapas do curso, seminários de leitura e de leis. Ufa.
Estou aqui escrevendo (ou tentando escrever, mais precisamente) um post sobre a mania de segurança da sociedade sueca, uma característica que eu já havia reparado mas que não ousava criticar. Domingo passado li na página de debate do meu jornal um artigo bem escritérrimo de um psiquiatra criticando a mania sueca de tomar conta de tudo e de todos, o que cria uma sociedade distituída de força vital, incapaz de ultrapassar conflitos, conquistar sonhos e enfrentar a vida de peito aberto.
É claro que pra quem me lê do Brasil e precisa lutar pra exatamente tudo na vida, pode parecer que o que escrevi acima é delírio, besteira ou simplesmente burrice. Mas o fato é que as pessoas aqui são tratadas a pão de ló a vida inteira, e quando se vêem na frente do primeiro obstáculo, pânico. Um exemplo: Na escola não existem provas até a criancinha completar 15, 16 anos. Quando baby sai pra vida real, seja na universidade ou no mercado de trabalho, com as exigências de competição que isso representa, nego deprime e fica utbränd (desgastado, "queimado" no sentido psicológico)
O raciocínio é muito mais profundo do que esses dois parágrafos aí de cima, e diz respeito à cultura sueca como um todo, ao maravilhoso sistema público de saúde e toda uma política de cuidado com o cidadão que não existe em nenhum outro lugar do mundo (bem, talvez na Noruega). O que o psiquiatra diz (e que eu concordo) é que toda essa generosidade sufoca a iniciativa individual. O lado bom dessa sociedade é que quando alguém está mal, há sempre ajuda. Mas quando uma pessoa brilha, ela é muitas vezes impedida de ser melhor do que os outros - pelo bem do grupo.
Pensei em traduzir o artigo, mas putz, é longo pra caramba, viu? Será que tem interesse?
A frase em sueco do dia é Du ska inte tänka att du är något. Literalmente não pense que você é alguma coisa, que você é importante (no sentido de quem você pensa que é?). Essa é a essência da chamada Jantelagen, uma "lei" cultural, que permeia a sociedade sueca de cabo a rabo. Você, por mais brilhante que seja, não deve mostrar seu brilhantismo, mas deve sempre procurar ser lagom, ou seja, suficientemente boa/bom. Nada de mais, nada de menos.
agosto 15, 2005
Na floresta, a catar bagas
Clique e amplie.
E, depois de quase uma semana inteira com chuvas fortes, fracas, garoa, chuva de vento e todas as variações possíveis, o sol apareceu. Ontem. Hoje já tá tudo nublado de novo. Mas ontem, finalmente, colocamos o pé pra fora de casa para fazer outra coisa que não ir ao supermercado (eu) ou pro trabalho (urso). E fomos realizar uma das atividades mais essencialmente suecas que existe: pegar frutinhas selvagens na floresta.
Já contei aqui desse costume dos nativos e, na verdade, nunca havia saído de casa apenas com o intuito de achar as frutinhas e passar horas curvada, com as mãos no meio de arbustos fechados. Sempre aconteceu assim, meio que por acaso. Urso chegou ante-ontem do trabalho contando de um local onde havia visto muitos hallon - a nossa framboesa. Como era área de acesso restrito e ele tinha a chave, ninguém poderia entrar, a não ser nós.
Essa é, aliás, uma das regras da coletânea de frutinhas silvestres: você precisa descobrir locais únicos onde pegar suas frutinhas. Onde esses locais ficam é, em geral, informação Top Secret, não passível de divulgação. Todo pegador-de-frutinhas que se preza tem o seu spot e não diz onde fica nem sob tortura. Saímos de casa, então, com nossos recipientes de plástico (antigos pacotes de sorvete). Tem gente que escolhe um balde para a tarefa; nós não estávamos tão entusiasmados.
E, de fato, o local estava qualhado de hallon. Tão qualhado que a maioria das frutinhas já tinha meio que passado da época, mas mesmo assim, catamos um monte. É claro que nossa colheita não chega aos pés dos catadores-de-frutinhas-silvestres profissionais - geralmente poloneses e outros povos do leste europeu, que vêm pra Suécia durante o verão e o outono trabalhar com mão-de-obra barata - mas, foi o suficiente para nós. Até porque, o importante é o ato de colher as frutinhas, não a quantidade final.
Não, não é desculpa de "má-catadora" não. Esse tipo de atividade - assim como a colheita de cogumelos durante o outono - é reconhecidamente relaxante e tida quase como terapia pelos suecos. Uma das razões disso é o local onde a colheita acontece. As florestas daqui são uma mania nacional, onde os nativos andam para espairecer, colhem flores, cogumelos e frutinhas, as crianças constroem casas de brincadeira, as chamadas Koja [cóia], acampam etc.
Fotos novas, aqui.
A palavra em sueco do dia é bär [béérr], baga (Estranho, né? Pois é esse o sinônimo sim, está em todos os dicionários. Eu traduziria, no entanto, como "frutinha silvestre")
agosto 07, 2005
Monges salvadores

Foto:Elin Berge
As pequenas cidades do interior sueco estão "morrendo". A taxa de natalidade é inferior à de mortalidade, os jovens se mudam em massa para a cidade grande, poucos são os empregos e as esperanças de um futuro próspero. Um exemplo dessa realidade é Fredrika, um pequeno vilarejo fadado a desaparecer. Com 3400 habitantes e média etária de 55 anos, a pequena aldeia vinha sofrendo com a mudança de cerca de 100 pessoas por ano para cidades maiores. Isso, em sueco claro, significa perda de impostos e uma sociedade cada vez mais "pobre" (para os padrões suecos, mas ainda assim).
Até que um dia, um monge tailandês resolveu escolher a cidade, localizada no coração de Lappland (ou a terra dos lapões, ou same, veja o mapa ao lado), como centro do novo templo budista a ser construído do norte da Europa. Estudos da Universidade de Umeå estimam que Fredrika pode chegar a receber até 100 mil visitantes por ano, quando o templo estiver pronto. Ontem foi a cerimônia de bênção do terreno escolhido, que contou com a presença de monges budistas vindos da Tailândia, dos EUA, da Bélgica e da Inglaterra (veja foto acima).
Mas a instalação do templo não aconteceu sem vozes contrárias. A igreja se opunha à idéia, mas foi voto vencido. Uma prova é o depoimento de Örjan Dahlberg, que trabalha na igreja de Åsele: "Não existe concorrência entre religiões e um povo mais simpático [que os tailandeses]. Para nós em Fredrika o templo significa turismo e é disso que nós viveremos. Ericsson ou Volvo jamais virão pra cá nos salvar." Stellan Edling tem uma casa de veraneio perto do futuro templo e diz: "Os tailandeses são muito simpáticos e muito bem-vindos. Tenho a impressão que as pessoas estariam muito mais nervosas se fosse outro tipo de religião que resolvesse se instalar aqui."
Bom, só sei de uma coisa: Quando o templo estiver pronto, eu também vou lá na pequenina Fredrika dar uma olhada. E garanto que não serei a única. Há uma necessidade gritante de novidades no coração da "suequice", entocada em suas pequenas e idílicas casinhas vermelhas. O que é "diferente" causa, ainda, uma curiosidade muito grande no sueco médio (mesmo que, às vezes, essa curiosidade se transforme em preconceito depois).
Me lembro de um programa de comediantes stand up que passou na TV estatal daqui. Era um grupo de suecos e suecos com background imigrante (filhos de curdos, turcos etc). Quando o comediante sueco-imigrante (nascido aqui de pais curdos), engraçadíssimo, deixou o palco e entregou o público pro comediante sueco (loiro e olhos azuis), esse abriu seu número perguntando: "Como é que eu vou fazer vocês rirem? Contando piada sobre faxina* ou snus?"
* Pra quem nã




No meu trabalho como médico-chefe em psiquiatria em Estocolmo encontro diariamente pessoas completamente paralisadas por síndrome de pânico. Esse quadro psiquiátrico se caracteriza pela existência de um pânico irracional diante de situações normais. Uma conseqüência desse pânico é agorafobia, que por sua vez faz com que as pessoas não ousem fazer qualquer coisa fora da segurança de sua casa.
E mesmo que todos nós saibamos disso, não podemos de jeito algum estimular o melhor aluno a competir. Pelo menos não nas matérias de colégio. A sociedade não quer mais que todos tenham as mesmas chances, mas que todos sejam igualmente bons, igualmente ruins, iguais. Se o pior não pode ser tão bom quanto o melhor então o melhor tem que ser tão ruim quanto o pior. Temos hoje em dia uma escola que, de acordo com vários relatórios científicos internacionais, não funciona. Os professores perderam todas as possibilidades de punir ou de premiar. Dessa forma, retiramos das crianças o direito básico de encontrar seus limites na vida e esquecemos que as elas amam competir. O ser humano não nasce na segurança. Segurança alimenta medo da mesma forma que a síndrome do pânico fortalece a necessidade de evitar perigos. Crianças conseguem viver com e devem enfrentar resistência, porque sem ela segue-se a lei do menor esforço e a vida perde seu sentido e objetivo.
É claro que devemos proteger os nossos, mas viver é perigoso. Se não passarmos esse conhecimento aos nossos filhos eles crescerão dentro de uma bolha. Quando essa bolha estourar, tudo passará a ser duplamente perigoso. Se alguém nunca caiu e se machucou, a dor, quando ela vem, é insuportável. E a dor vem exatemente porque a segurança absoluta é irreal. Discute-se o aumento nos crimes de violência, dos casos de jovens que bebem e dirigem carros, além do consumo de drogas. Nos últimos anos enfrentamos uma série de crimes violentos que nos fizeram questionar como a psiquiatria funciona no país. Claro que podemos colocar a culpa pela violência dos últimos anos na falta de recursos para a psiquiatria, ou na Comunidade Européia ou ainda no fato de termos mais acesso a bebidas do que antigamente. Mas a questão é mais complexa do que isso.