novembro 02, 2005
Ian McEwan
Comecei a ler "Kärlekens raseri" (no original "Enduring Love") do Ian McEwan ontem à noite. A dona do apartamento que alugo deixou seus livros nas estantes (a meu pedido) e eu me divirto com a variedade de autores que nunca li ou que ainda não li (por falta de tempo, dinheiro ou informação). O Ian McEwan é um desses. Li sobre ele no meu jornal, quando seu último livro, "Saturday", foi lançado aqui.
Estou adorando. A linguagem dele é intrincada, sem ser complicada. Um acontecimento trágico serve de introdução do livro, que é qualhado de pensamentos e considerações filosóficas abstratas sobre a vida, as escolhas que fazemos, tudo. No final, a história faz sentido, mas é um sentido mais rico, mais aprofundado. Tive que me obrigar a parar de ler ontem, depois da meia-noite, quando terminei o capítulo dois.
Na verdade, sou uma criatura simples (sem ser simplória). Fico feliz em descobrir que a cor das varandas do prédio vizinho é lilás. Fico com lágrimas nos olhos quando canto uma música que amo (geralmente Rita Lee). Sou capaz de ficar muito feliz (muito mesmo) quando ouço/leio/assisto a uma música/livro/filme que gosto.
A palavra em sueco de hoje é övning, exercício.
agosto 17, 2005
Livroslivroslivros
E finalmente terminei de fazer o site com a lista dos livros que li. Apesar do trabalhão, foi muito legal listar todos os títulos, ainda mais porque o "projeto editorial" (errrhhmmm) previa que eu escrevesse um parágrafo sobre cada um. Não queria apenas escrever sobre o enredo do livro, mas principalmente sobre minhas lembranças de como foi lê-lo, porque gostei, porque não gostei, curiosidades a cerca do escritor etc.
O site ainda está em construção; quando acabei de colocar os livros da minha lista e dei o trabalho por terminado, comecei a lembrar que havia lido certos títulos por empréstimo e que eles não poderiam ficar de fora, como João Gilberto Noll, por exemplo, um dos meus escritores brasileiros favoritos. Bom, para facilitar o entendimento do novo site, explico algumas opções que fiz durante sua criação:
Tendo isso em mente, convido os curiosos para uma visita em http://livroslivroslivros.blogspot.com. Ficarei feliz em ler seus comentários por lá, sobre a página, os livros, possíveis melhoras, qualquer coisa. É importante dizer que essa página não é pra uma "elite intelectual", até porque, se fosse assim, eu mesma não poderia freqüentá-la. A página é um divertimento. :c)Antes de mais nada, é importante dizer que minhas opiniões escritas no site são eminentemente pessoais e subjetivas. Não tenho a menor intensão de ser crítica literária, até porque não tenho competência para tanto. Mais uma vez: os textos são opiniões particulares.
As capas apresentadas são cópias das edições dos livros que li. Há, claro, exceções, geralmente quando não consegui encontrar a edição exata. Coloquei, então, a capa de outras edições do livro.
Há dias com dois ou mais livros. Isso acontece porque a maioria dos títulos foi citada de acordo com as datas que aparecem no Montanha, que pode ser tanto a data de início da leitura, de seu final, ou simplesmente o dia em que comprei o livro. Além do mais, quando estou estudando, sou forçada a ler não-ficção, mas nem por isso deixo de ler ficção. O faço de forma paralela.
Criei um sistema de cotação dos livros, onde atribuo cinco corações para livros que amei de paixão; quatro para os que são ótimos mas que não conseguiram me emocionar (tanto afetiva quanto intelectualmente); três pros livros legais em geral; dois para os que são apenas passáveis; e um coração partido pros realmente péssimos. Esse sistema, assim como minhas opiniões, é essencialmente subjetivo e depende do meu gosto. Portanto, discussões do tipo, "Você não pode dar apenas dois corações pra esse livro!", não serão respondidas.
Alguns dos textos do site novo são copiados dos posts do Montanha. Isso aconteceu quando achei que o que havia escrito no blog estava legal e não tinha outras idéias para modificar o texto. A maioria dos textos, no entanto, é inédita.
A lista do site não é completa. Listei com mais acurácia os livros lidos nos últimos três anos, por ter escrito sobre eles aqui. Além do mais, com minhas mudanças constantes quando ainda morava no Brasil, muitos volumes acabaram sumindo e/ou sendo esquecidos.
Escrevo, depois de cada texto, qual o idioma em que li o livro. Essa informação é interessante apenas pra mim. Quem gosta de ler sabe que ler clássicos no original é um dos grandes baratos de se aprender outras línguas. Mas, não precisa me escrever dizendo o quão vaidosa eu sou. Não responderei a emails ou comentários desse tipo. O motivo: quem pensa assim está coberto(a) de razão. :cD
A palavra em sueco do dia é lista. Preciso traduzir?
agosto 13, 2005
a palavra em sueco do dia é serie, história em quadrinhos.
agosto 09, 2005
Henning Mankell
Fellow bloggers Ana Maria e Ana Lucia descobriram o escritor sueco Henning Mankell (foto abaixo) e estão adorando. Eu também o adoro. Já li muitos livros dele, ainda quando estava me aproximando do idioma e queria livros fáceis, que não exigissem demais dos meus neurônios. Comecei, no entanto, a ler Mankell em inglês, com o livro "Faceless Killers". Gostei tanto, que resolvi arriscar e comprar em sueco.
Aí, não parei mais. Li Hundarna i Riga ("The Dogs of Riga"), um dos meus preferidos; Den vita lejoninan ("The White Lioness"); Mannen som log ("The Man Who Smiled"); Villospår ("Sidetracked"), que peguei emprestado na biblioteca do colégio onde estudava sueco; Steget efter ("One Step Behind"); Brandvägg ("Firewall"); Pyramiden ("The Pyramid") e Danslärarens återkomst, ("The Return of the Dancing Master"), que tem como protagonista o detetive Stefan Lindman.
Em quase todos, o protagonista é Kurt Wallander, um policial de meia-idade, meio deprimido, um pouco gordo e quase alcoolista. Ele está sempre mau humorado, suado (ou com frio), cansado e parece atravessar a vida a contemplar seus problemas ou o tempo chuvoso da cidade onde mora. Ele resolve casos de assassinato de forma metódica ("Temos que virar todas as pedras"), com milhares de reuniões com seus colegas, depois de resolver disputas burocráticas com seu chefe e no meio de muita confusão afetiva. Separado, Wallander tem romances esporádicos e uma filha, Linda, de 20 e poucos anos, que, aliás, acaba aparecendo no Innan Frosten ("Before the Frost"), que também li e gostei.
Mas, não tem como não gostar do Wallander. O estilo do Mankell é claro e a fórmula bem trabalhada. Tanto é assim que ele é um sucesso de vendas em toda a Europa e, me parece, está começando a ser apreciado nos EUA. Mankell vive em Moçambique, onde escreve peças e participa de projetos culturais. Vi uma entrevista dele há um tempo e ele disse que, apesar de morar lá já faz tempo, ainda não sabe falar português... :c/ Ele é particularmente conhecido na Alemanha, onde seus livros são best sellers. A cidade sueca de Ystad, onde todos os livros se passam, recebe anualmente muitos turistas - em sua maioria alemães - procurando pelos locais descritos nos livros.
Artigo muito bom (e até certo ponto engraçado) sobre Henning Mankell e seus livros. (The Guardian, em inglês.)
A palavra em sueco do dia é kriminalroman, romance criminal.
agosto 04, 2005
Stupeur et tremblements
Já faz tempo que quero reavivar meu francês, dormente durante os últimos dez anos. Comecei a aprender em 1990 por influência da minha amiga de faculdade Ana Flavia (somos amigas até hoje) e só parei em 1994 porque não dava pra coordenar com o trabalho. Graças a uma professora miraculosa, Cristina, ao meu pai e à própria Aliança, que me forneceu uma meia-bolsa de estudos, cheguei quase até o final do segundo ano do Nancy.
Em 1993, quando viajei pela Europa de mochilão, parei quase duas semanas em Paris, exatamente para poder "gastar meu francês". Um dia, lavava minhas roupas numa lavanderia perto do albergue, quando a minha máquina, claro, parou de funcionar. Tive de procurar a responsável pelo estabelecimento e esclarecer a situação. Depois de resolvido, duas senhoras francesas ali presentes me perguntaram de onde eu vinha. Elas tinham visto uma calça minha de veludo preto e queriam saber onde comprar igual. "No Brasil", disse eu. "Ah, eu jurava que você era italiana", disse uma delas. "É, por causa do sotaque", completou a outra.
Nem preciso dizer que fiquei deprimida o resto do dia. Depois de três anos de estudos quase diários do idioma (eu ainda estava na faculdade então), tinha conseguido falar bem, mas com um dos sotaques mais carregados da Europa. :c/ Acabei me consolando com o fato de poder ler Camus e Flaubert no original - mas que não me façam ler em voz alta! Dentro da minha cabeça mon français est parfait! :c)
Portanto, minha experiência com o idioma de Victor Hugo nos últimos dez anos tem sido muito limitada. Desde que vim morar aqui, então, ainda mais diminuta. Quando em vez ouço alguns segundos de discursos do Jacques Chirac, geralmente nos noticiários suecos, com legendas. Me esforço, então, para não ler o texto e tentar entender. Não gosto do Chirac e não concordo com quase nada que ele diz com sua cara comprida, mas que ele sabe falar bem o francês, ah, isso ele sabe.
Foi aí que escrevi para a minha "francoparlante"-mor, a grande Tetê, e perguntei se ela tinha dicas de livros fáceis em francês pra me sugerir. Qual não foi minha surpresa quando Tetê não apenas me escreveu um email com muitas dicas, como me mandou de presente dois livros: "Stupeur et tremblements", de Amélie Nothomb (que aliás já me havia sido sugerido pela Angelique) e "L'enfant de Noé", de Eric-Emmanuel Schimitt. Merci, merci! :c)
Estou me deliciando com as aventuras de Emélie na empresa japonesa Yumimoto. Como um samurai diminuto, ela se ocupa em virar as páginas dos calendários de toda a empresa, contempla o nada, serve café e chá, distribui cartas, "ajuda" o departamento de contabilidade (com resultados catastróficos), faz relatórios sobre o consumo de manteiga na Bélgica, admira a beleza de sua chefe direta, Fubuki Mori, troca papel higiênico nos banheiros da companhia e é continuamente humilhada por chefes e chefes dos chefes. O livro é um barato. O mais legal é que Nothomb consegue fazer um divertidíssimo tratado sobre a sociedade japonesa, especialmente as mulheres nipônicas. Comecei a ler ontem e já estou quase acabando. Recomendo!
O livro da Amélie Nothomb já virou filme. Veja também o site em inglês.
A palavra em sueco do dia é, claro, Frankrike, França.
julho 27, 2005
Chatô e o trabalho
Estou me divertindo muitíssimo com o livro do Fernando Morais, "Chatô, rei do Brasil" (obrigada, Ka!). Leio agora sobre a conspiração que envolveu a eleição de 1930, além da revolução, com Chatô apoiando Getúlio Vargas. É muito interessante reafirmar o que nós, soldados-rasos da imprensa brasileira, já sabíamos: o jornalismo brasileiro nasceu de necessidades políticas. Nada mais. Essa coisa de reportar o que acontece, é puro romantismo.
Confesso que sempre fiz pirraça contra esse livro - visto que o estou lendo dez anos depois de seu lançamento! A explicação é simples: a obra era o livro de cabeceira dos meus colegas de turma na ECO, Escola de Comunicação da U.F.R.J., o que me fez, por rebeldia, nunca querer tocar num volume. A galera da ECO, a maioria gente muito boa, era ainda assim fundamentalmente diferente de mim (vários fatores que não vêm ao caso aqui).
Mudando de assunto: Li um artigo de opinião no meu jornal de hoje dizendo que a lei sueca de proteção aos empregados, o sonho dourado de qualquer país socialista, está ajudando a enterrar o país numa recessão seríssima. A situação é complicada. É difícil demitir uma pessoa com emprego fixo, o que, aliás, é muito positivo. O problema é quando essa pessoa está de saco cheio de trabalho dela e não tem coragem de pedir demissão porque aí perde todos os direitos trabalhistas, sem contar na dificuldade de encontrar um outro trabalho fixo.
A taxa de desemprego bateu os 5,6% em 2005, o que é muito para um país pequenino como a Suécia. Ninguém contrata, poucos são os que investem. Empresas suecas, como Electrolux, demitem seus trabalhadores aqui e se instalam em países onde a mão-de-obra é mais barata e os impostos menores. O Banco Central sueco, totalmente independente do governo, resolveu baixar ainda mais a taxa de juros para tentar acelerar a economia. Sem muito sucesso.
É grande o número de pessoas que ficam "doentes" por conta dessa paralisia. A palavra está entre aspas porque na verdade as pessoas ficam é deprimidas com a situação que não muda e sentem-se impotentes para alterar sua vida de forma decisiva. Aí é que aparece um fenômeno muito sueco, o chamado sjukskrivning, ou quando a pessoa vai ao médico pedir para ficar em casa por estar "doente". Essa "doença" pode ser corporal (gripe, perna quebrada etc) ou mental (desânimo, depressão, ansiedade). O problema aqui é que são governo e empregadores que arcam com as despesas desse processo, o que causa um ônus terrível para ambos os lados.
Há uma tentativa dos partidos de esquerda, especialmente o partido verde, de dar um ano livre, durante o qual a pessoa receberia apenas uma parcela de seu salário e poderia tirar folga ou tentar iniciar seu próprio negócio. Nesse meio tempo, o trabalho dela seria feito por um estagiário. Isso ajudaria a quem precisa mudar de ares e também a quem está à margem do mercado de trabalho. Mas esse projeto, assim como tantos outros, é financiado pelo governo, o que limita seu alcance.
Em comparação com o mercado de trabalho do Brasil, o único que conheço, o mercado de trabalho sueco parece um muro altíssimo e intransponível para quem não tem os contatos certos. Quem está dentro do terreno protegido pelo muro, está seguro, mas morre de chatice e depressão - porque mudanças não são admitidas, em nome da segurança! A quem está do lado de fora simplesmente não é permitida a entrada, porque as empresas não estão a fim de pagar impostos exorbitantes ao governo por cada pessoa empregada.
A Dinamarca, país-irmão, tem um mercado de trabalho semelhante ao americano (e ao brasileiro). É mais fácil perder o emprego, mas também muitíssimo mais fácil achar outro. Por outro lado, trata-se de um mundo muito mais selvagem. Quantas são as pessoas com mais de 55 anos que conseguem empregos decentes no Brasil? E nós, imigrantes, como é que ficamos? Sim porque tenho a impressão de que a situação dos imigrantes na Dinamarca não é melhor do que aqui do outro lado do Öresund... Ou será que é?
A palavra em sueco do dia é arbete, trabalho.
julho 21, 2005
Mais uma vez?

Mudando de assunto. Terminei de ler The Curious Incident of the Dog in the Night-time, de Mark Haddon, e ainda estou com a voz do protagonista, Christopher Boone, na minha cabeça. Quem escreve é o próprio Christopher, que tem 15 anos e Asperges (uma forma de autismo). Ele detesta ser tocado e precisa se lembrar como são faces felizes e tristes. Quando o mundo fica muito confuso, ele pensa em problemas matemáticos, para ficar calmo. Ele ama padrões, ritmo e fala sempre a verdade.
O livro é delicadíssimo. Seguimos Christopher em suas aventuras e nos malabarismos que precisa fazer para realizar seu projeto (não conto o que é pra não estragar a experiência de quem quiser ler o livro depois). Christopher entende o mundo de forma muito diferente e sua imaginação é transcendental. O autor, Mark Haddon, que escreve livros para crianças e adolescentes, ganhou uma série de prêmios por essa obra. No meio da leitura me vi contemplando várias coisas lá escritas como verdadeiros pensamentos filosóficos. Recomendo muitíssimo.
Agora começo a ler "Chatô: o rei do Brasil", do Fernando Morais, que ganhei de presente da minha querida Karenin. Valeu, queridoca! :c)
A segunda palavra em sueco do dia é bok [búúk], livro.
junho 18, 2005
Kafka's blog
Depois de confessar uma falha de caráter, a de ter pavio curto, volto aqui, bato no peito e digo: tenho uma outra que é ainda pior. Nunca li um livro sequer de Kafka. Se vale alguma coisa, li muito da the next best thing, que é a sua, a minha, a nossa Clarice Lispector. Alguém aí já encarou "A paixão segundo GH"? Pois é. Clarice disse e eu repito:
"Foi assim que fui dando os primeiros passos no nada. Meus primeiros passos hesitantes em direção à Vida, e abandonando a minha vida. O pé pisou no ar e entrei no paraíso ou no inferno: no núcleo". (Lispector, 1979, página 77)Mas, então, voltando ao escritor tcheco. Nunca li e nem sei por onde começar. Por isso fiquei feliz em descobrir o site The Diaries of Franz Kafka 1910-1923, que mostra em forma de um blog, as anotações do escritor. Ainda está bem no início, mas já delicia.
A palavra em sueco do dia é metamorfos, metamorfose (se é que precisava traduzir).

E hoje está quentíssimo aqui. Vinte e três graus! Depois do café fomos até o posto de gasolina comprar aqueles tabletes contra mosquitos, tipo Baygon. Meu urso não gosta e chama os tabletes de nerve gas. Eu acho ótimo porque os mosquitos daqui são digníssimos representantes de bestas sanguinárias de tempos idos. Principalmente no que diz respeito ao meu sangue.
junho 14, 2005
Prazeirosa rotina
Adoro acordar de manhã. Adoro levantar da cama, verificar o relógio digital com luz azul de fundo. Adoro abrir as persianas da sala, da porta da varandinha, da cozinha, enquanto a cafeteira faz café. Adoro dar uma olhada no jornal, em cima da mesa da cozinha (meu urso o coloca ali todas as manhãs, quando sai pro trabalho). Adoro tomar café da manhã ouvindo rádio. Adoro terminar o café e ir pra sala. Adoro abrir a porta da varandinha, e me sentar no sofá pra ler o jornal. Adoro o silêncio das manhãs. Adoro ver o janitor cortando a grama. Adoro assistir aos treinos de (des)obediência de um cachorro da raça collie chamado Otto, no gramado em frente ao apartamento. Otto nunca obedece à dona, uma menina que sempre sai correndo pelo gramado gritando "Oooootto!". Hehehe.



Por outro lado, rotina era uma coisa que Cazuza sempre odiou. No livro "Só as mães são felizes", de Lucinha Araújo e Regina Echeverria, que ganhei da Grace, a quem agradeço muito, a mãe do cantor conta exatamente isso. Estava cansada do Vilhelm Moberg (que retomo agora pra ler até o final), por isso peguei o livro pra dar uma olhada ontem à tarde. Não parei mais.
Li o livro inteiro ontem, numa urgência de saber como Lucinha Araújo passou pela loucura de perder seu filho único para a AIDS. Eu já sabia o resultado, mas ainda assim li o livro à jato, impulsionada pela história escrita urgentemente - tão urgente quanto a vida que Cazuza viveu. Tudo tinha que ser o mais intenso possível, o mais desafiador, o mais transgressor. Ao mesmo tempo em que ele provava todos os limites, a mãe e o pai sempre ali, ao lado, apoiando. Deve ter sido muito difícil. Mas, que amor!
junho 07, 2005
Saindo e chegando
Estou totalmente envolvida na leitura de Utvandrarna ("Os emigrantes"), de Vilhelm Moberg (foto). O livro, escrito em 1949, é a primeira parte de uma trilogia que se completa com Invandrarna ("Os imigrantes"), escrito em 1952, e Nybyggarna (algo como "Os pioneiros"), de 1956. Moberg escreveu ainda um quarto livro, que é também visto como parte da trilogia, chamado Sista brevet till Sverige ("A última carta à Suécia"), de 1959.
Moberg descreve a saga de Karl-Oscar e Kristina, dois camponeses de Småland (ismôôland, região do centro sul sueco) que, assim como milhões de outros suecos do século passado, emigraram pros EUA em busca de uma vida melhor. Durante o século XIX e até no início do século XX, a Suécia tinha uma economia predominantemente rural. Invernos prolongados, verões curtos e população pobre. O resultado dessa mistura foi uma emigração em massa pros EUA: cerca de 1.3 milhão de suecos (1/5 da população) abandonaram suas terras.
Estou no fim do primeiro livro e morrendo de curiosidade pra ler a continuação. O que mais me fascina, além da história em si, é o retrato dos camponeses do meio do século XIX que Moberg consegue fazer. Ele, que era jornalista e escritor, tinha uma capacidade incrível de contar histórias e descrever pessoas, lugares e situações. Esses livros, apesar de romances, são a primeira descrição da emigração sueca pros EUA. Num trabalho quase que antropológico, Moberg baseou sua história em diários de viagens, cartas e logs de navios que transportaram os emigrantes suecos até Nova York.
Queria ler esses livros há um tempão, mas tava com medo de não entender, por se tratar de sueco antigo. Tomei coragem, comprei os dois primeiros volumes da trilogia e tive uma agradável surpresa. Moberg escreve de forma contemporânea e até os poucos diálogos que aparecem em dialeto são ótimos, muitos até engraçados (Tipo: "Töst, pojk!", numa grafia fonética utilizada por Moberg pra ilustrar o dialeto de Småland. O correto seria "Tyst, pojke!", ou "Cala a boca, menino!").
Dá pra sentir que Moberg teve grande prazer em escrever o livro. Em 1949, imagino, tinha-se mais tempo para se fazer qualquer coisa. Acho que a cabeça de um escritor era menos acelerada, mais paciente, até porque a maioria ainda escrevia a mão, poucos eram os que já haviam adotado sequer uma máquina de escrever. Mais tempo pra ir e voltar ao texto, fazer correções extensas, mudar o rumo da história... (Eu, hein, tenho nostalgia de uma época em que sequer era nascida.)
:: Pra você, que como eu, sempre confunde as bolas: emigrante é aquele que sai de um país; imigrante é aquele que chega a um país. Então eu sou emigrante no Brasil e imigrante na Suécia.
:: Os livros de Vilhelm Moberg existem em inglês! VIVA!
:: Link ótimo explicando tudo sobre a emigração sueca para os EUA (em inglês).
A Patrícia tinha toda a razão: é hoje que os noruegueses comemoram os 100 anos de independência da Suécia. Valeu!
maio 05, 2005
Chuva, feriado e preguiça
Quer ler as más ou as boas notícias antes? Bom, a má notícia é que chove há três dias sem parar. A boa é que hoje é feriado e poderemos passar o dia sem sair de casa! E tem mais: os suecos - pasmem! - também dão uma enforcada básica na sexta-feira que sobrou da semana e eis que temos um super-feriado de quatro dias. :c)
Ontem partimos para uma expedição exploratória do Willy:s (se lembra, Marcinha?), hipermercado barateco distante 20 minutos de carro daqui de casa, já que estávamos a zero no quesito alimentos. Na volta, não resistimos e paramos na loja de eletrônicos (vulgo "Ursos playground"). Saímos de lá quase ilesos: compramos o DVD do "Nome da Rosa". :c)))
Acabei de ler "Brick Lane" e... gostei. Assim, assim. Tem partes muito emocionantes e bem escritas, mas eu cortaria umas 100 páginas do meio que mais me parecem a boa e velha encheção de linguiça. O mais interessante é que a Monica Ali escreve de forma bem descritiva, sem muita análise subjetiva de emoções. As emoções estão lá no livro sim, mas são descritas, não sentidas. Dá pra entender?
Bom, enquanto você senta aí na frente do computador e pensa na profundidade da minha análise escrita no parágrafo acima, vou ali na sala me esticar no sofá, ver a chuva cair e me entreter com as aventuras do lindão do William de Baskerville, ok?
Tatá!
março 16, 2005
Trabalho e lazer
Estou exausta. Minha camarada de curso Elin acabou de sair aqui de casa depois de mais de quatro horas de trabalho, durante os quais consumimos litros de café e devoramos meio bolinho pão-de-ló (que era pequenininho mesmo). Estamos trabalhando juntas nesse curso de qualidade e avaliação e escrevendo a prova final, que é um plano para se fazer uma avaliação (utvärdering ou utredning). Não faremos a avaliação, mas temos que planejar tudo, desde escolher o objeto de nossa pesquisa (escolhemos uma clínica de tratamento de crianças com deficiência de atenção) até escrever um plano de entrevistas, enquetes, perguntas, objetivos etc etc etc. Haja paciência, mas é interessante.
Terminei ontem de ler "Blonde" de Joyce Carol Oates. Gostei mas achei o livro longo demais (quase 900 páginas), ainda mais sendo a autora tão intensa o tempo todo. Coincidentemente assisti ontem a uma entrevista com a escritora americana na TV e confirmei o que já suspeitava: ela só escreve sobre mulheres que tenham sido vítimas de injustiças variadas. O último livro dela a ser lançado aqui, "Rape: a lovestory", que é ficção, trata exatamente da problemática da violência sexual, com a culpa sendo colocada na vítima (que usou saia muito curta, que bebeu demais, que tem uma vida sexual ativa demais etc) e não no vilão. Oates diz até que a mulher que tem coragem de dar queixa da violência que sofreu é vítima de um segundo estupro, realizado pelo establishment que simplesmente se nega a acreditar na versão dela.
E agora, só pra aliviar, comecei a ler o "How To Lose Friends And Alienate People", do inglês Toby Young. Ele foi repórter da Vanity Fair em Nova York e conta no livro seus dias de glamour e decadência na capital do mundo. Ainda estou no início e ele já está quase entrando de penetra numa efterparty da entrega do Oscar. Uma leitura dessas é engraçada porque mostra o lado podre dos nossos "ídolos" (Tom Cruise é um babaca mesmo, né?) e nos faz rir. (Imagino que esteja precisando ler alguma coisa inspiracional depois desse show de cinismo inglês, mas sabe do que mais? Não tô a fim. Comecei a ler um livro sobre boas energias - supostamente coisa séria - e simplesmente não consegui passar da primeira página. Achei tudo uma babaquice sem fim).
março 07, 2005
Violência e as escolhas de uma mulher
Acabei de ler ontem "En riktig våldtäktsman", que pode ser traduzido como "Um estuprador de verdade" (segunda capa abaixo, à direita). O livro é o segundo da jornalista Katarina Wennstam, que escreveu antes "Flickan och skulden", cuja tradução é "A menina e a culpa" (primeira capa abaixo, à esquerda), que também trata da questão dos estupros na sociedade sueca. Li o primeiro pra meu curso de direito, lááá no início do outono, e adorei. Comprei o segundo, sobre o ponto de vista masculino, exatamente para ter a visão completa, e adorei também.
No primeiro livro Katarina Wennstam descreve como a culpa da violência sexual é colocada nas meninas/mulheres que se comportam de forma "arriscada". Isso quer dizer: usam saias curtas demais, bebem demais, têm parceiros sexuais demais, andam sozinhas em ruas escuras demais. Ninguém enxerga que é direito delas andar por onde quiserem, se vestir como quiserem e beber o quanto quiserem. Ninguém acredita numa menina assim, não importando sua idade, quando ela alega que sofreu um abuso sexual. Nos julgamentos pergunta-se às meninas como elas estavam vestidas, se beberam muito ou se têm muita experiência sexual e usam esses dados como prova de que a menina não é confiável. Nenhuma dessas perguntas é feita, claro, aos estupradores, que saem da situação como homens viris.
O segundo livro, que trata da problemática do ponto de vista masculino, continua essa discussão é inclui a visão de como a sociedade reforça a idéia de que certas mulheres simplesmente não podem ser violentadas porque elas "pedem" um tratamento violento, através de seu comportamento pouco casto. Incrível como na Suécia, um estado laico, um país onde cerca de 80% das mulheres trabalham, que dá passos gigantescos no que diz respeito à igualdade entre os sexos, ainda exista esse tipo de idéia fundamentalmente preconceituosa. Mas é verdade. Wennstam critica ainda a imagem que se faz do estuprador como um maluco que pula dos arbustos e ataca mulheres desconhecidas. Isso, acredite se quiser, apesar de ocorrer, é uma exceção.
Na verdade, explica Wennstam com ajuda de estatísticas atuais, a grande maioria dos estupros acontece em casa e é realizada por maridos, companheiros ou namorados que simplesmente não admitem receber um não. Nos EUA e Grã-Bretanha a violência sexual entre conhecidos tem até um nome, é o chamado Date rape*. Outro problema é a quantidade de casos de violência sexual nos quais o estuprador é um sueco e que não chegam ao conhecimento público - simplesmente porque as côrtes suecas têm a tendência de acreditar num homem de "bem", vestido luxuosamente, e que se comporta como um gentleman na frente do juiz. Quando os estupradores são imigrantes que deixam claro que as mulheres suecas são todas "putas" (por beberem, usarem saias curtas e terem muitos namorados), é mais fácil condenar (ainda bem, aliás). O problema aqui é dar ganho de causa aos homens suecos baseado apenas em sua boa aparência.
O mundo não é feito pras mulheres. Nós não podemos andar livremente à noite num local deserto e muito menos ter muitos namorados, nos vestir de forma sexy ou beber muito álcool. Se fizermos isso e alguma coisa horrível acontecer, a culpa é nossa, que nos expusemos a um perigo desses. Ninguém entende que o problema é o fato do perigo existir, dos atos criminosos de certos homens, e não da nossa necessidade de sair à noite pra uma caminhada ou de beber um copo de vinho a mais. Infelizmente, tudo o que nós, mulheres, fazemos no que diz respeito às escolhas sexuais, não é uma decisão de foro íntimo, mas sim uma decisão social, em que "tipo" de mulher você quer ser classificada. E se engana quem pensa que essa classificação é feita apenas por homens. Muitas mulheres também pensam assim sobre outras mulheres, geralmente vistas como rivais: "Ah, mas ela está pedindo pra ser chamada de puta, com essa saia! E como ela ri!" E coisas desse tipo.
*"Date rape" é quando a garota sai com alguém ou conhece alguém quando está numa festa, danceteria ou outro lugar, "fica" com o fulano e no final é forçada a fazer sexo, ou é drogada e então violentada. (Explicação do Mauro. Valeu!)
março 01, 2005
Os bunda-moles
Sabe aqueles dias em que qualquer aglomeração de duas ou mais pessoas é um perfeito exemplo de um congresso de bunda-moles? Pois é. Hoje apenas já tive ganas de esganar duas pessoas, depois de sandices ditas com a maior cara-de-pau (já até esqueci o que era, só a revolta ficou). É melhor nem dá exemplo da faculdade que é pra manter o nível disso aqui. Ó, céus, dai-me paciência para aturar os risinhos abafados, as sonsices alheias, a falta do que fazer, a língua ferina, a falta de ética, de compaixão e de inteligência.
Mas, de volta à vida.
O livro da dinamarquesa Hanne-Vibeke Holst, "Kronprinsessa", que li até ontem, é muito legal, apesar de longo e às vezes trabalhoso. É um romance sobre a vida de Charlotte, ministra do meio-ambiente da Dinamarca, que se vê dividida entre as obrigações da carreira e as de mãe e esposa. O livro é trabalhoso às vezes porque tem longas discussões sobre política do meio-ambiente eminentemente locais, o que me fez pular alguns parágrafos. Mas a impressão geral é muito boa.
O livro que estava lendo desde ontem, "Uppdrag: Mamma", que traduzido fica mais ou menos "Missão: Mãe" é interessante porque é uma coleção de histórias das vidas de várias mulheres e suas experiências com a mudança do corpo, adoção, dor, falta de sono, volta ao trabalho, angústia, depressão pós-parto, amamentação, em fim, tudo o que diz respeito à maternidade. Li até o final, mas pulei um monte de páginas (já tava meio de saco cheio de tanto babytalk no final das contas)
E abaixo à bunda-molice! HOHOHOHOHOHOHOH (Só rindo mesmo)
janeiro 23, 2005
Estresse do estatus
Você já se sentiu em estranho descompasso com o que a sociedade em geral pensa de você? Com o valores expressos por todos? Já sentiu uma angústia de não estar à altura de seus amigos (geralmente por sentir inveja), de seu namorado (por ciúme), de seu trabalho (por duvidar de sua competência)? Perdeu noites de sono tentando descobrir o motivo de não ser tão amiga daquela pessoa importante e/ou popular? Se você respondeu sim a uma dessas indagações, então você sofre do que o filósofo e escritor Alain de Botton descreve como "estresse de estatus".
Por mais certos de nós mesmos que possamos ser, às vezes baixa uma insegurança básica, uma angústia, nascida sabe-se lá do quê, mas que demora a desaparecer. Tenho a impressão que esses ataques de estresse diminuem com o tempo, ou com o fato de acharmos nosso caminho na vida, independente do que acham família, amigos e conhecidos. O estatus ao qual de Botton faz referência é o valor que o círculo de conhecidos nos infere dependendo de nosso "sucesso" na vida, de acordo, claro, com o que eles chamam de sucesso.
De Botton afirma que quem diz estar "em paz", que diz não se importar com o que os outros dizem de sua pessoa, mente. Ou então, tem um senhor ego. Está lá na página 4: "Se nossa posição na escada social nos dá motivo para desconforto, isso significa que nosso entendimento de nós mesmos depende em alto grau do que os outros pensam de nós. Tirando alguns raros indivíduos, como Sócrates e Jesus, nós confiamos nos sinais de respeito dados pelo mundo à nossa volta para que possamos nos tolerar".
É claro que a visão acima descrita é dura de engolir, ainda mais depois de anos e mais anos de análise, algumas experiências muito boas e outras más, muito choro e vela. Gostamos (eu gosto, pelo menos) de nos sentir livres das amarras do que os outros pensam de nós. E muitas vezes conseguimos. Mas a cobrança, as comparações, a inveja, o desentedimento, a raiva (tudo o que sentimos de vez em quando), tudo isso nos mostra que a disputa por estatus aos olhos dos outros é uma constante em todos nós. É melhor não negar e aceitar sua condição de humano.
O escritor lista cinco causas do estresse do estatus e cinco soluções para o problema. Entre as causas estão:
Falta de amor - o fato de permanecer descasado numa sociedade que presa a vida em família é uma "mostra" do pouco estatus da pessoa em questão, que não teria conseguido fisgar um par;
Esnobismo - precisa-se conquistar além de um parceiro, certa riqueza material para que possamos nos locupletar de coisas, nos mostrar caros e raros, exclusivos;
Expectativas - o aumento impressinante das possibilidades de consumo do pós-guerra forneceu uma possibilidade inédita em toda a história mundial de consumo e satisfação. O problema é que quanto mais se consume, menos feliz se fica;
Meritocracia - o valor de uma pessoa, seu mérito, era julgado a partir do efeito que essa pessoa tinha sobre outras pessoas, não de seu "valor de alma"; e
Dependência - somos subjulgados continuamente durante nossa vida; dependemos de um eventual talento, de um chefe que o descubra, dependemos da sorte, da inteligência de nossos patrões, e até da economia mundial (em tempos globalizados).
Entre as soluções, de Botton lista:
Filosofia - O surgimento da filosofia fez com que tudo o que o mundo ao nosso redor nos sinalisa como sendo nosso valor seja reconsiderado, trabalhado, mastigado dentro de nós, e filtrado através da razão, do juízo, do senso comum. Se o joãozinho acha que eu sou chata, posso dizer, com a ajuda da perspectiva fornecida pela filosofia, que ele está errado. Meu racicínio seria: posso "estar" chata, mas não "sou" chata o tempo todo.
Arte - Arte é a crítica da vida. Pode-se fazer graça com uma situação política, pode-se sugerir dramaticidade a uma condição sócio-econômica, pode-se criticar com um riso.
Política - Cada sociedade tem seus padrões de respeito. Dependendo da cor da sua pele, da sua origem, do seu modo de falar e do seu temperamento, te colocam na categoria "alto estatus" ou "baixo estatus". Mas esses padrões mudam com o passar da história. Os seres humanos de maior estatus em Esparta, Grécia, em 400 a.C. eram homens enormes, brutais e bissexuais. Na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, a história é bem outra, assim como nos dias atuais, certo?
Cristianismo - A morte, com tudo o que traz consigo, é um senhor acorda-leão, nos dá perspectiva para organizar nossas prioridades terrenas. O pensamento sobre a morte dá autenticidade às coisas da vida.
Vida boêmia - Uma tendência ao básico, às felicidades mais evidentes da vida, uma revolta aos valores propagados pela burguesia, uma necessidade de ir contra a corrente e afirmar que é possível sim ser muito feliz sendo fiel à literatura, à arte e ao amor. ("Moulin Rouge", se lembram? Pois é.)
O livro é o maior barato, eu recomendo muitíssimo. Até porque é uma viagem por autores desconhecidos, escritores de 1600, publicidade atual, pensamentos e idéias originalíssimos. Eu li o livro em sueco (veja aqui). Mas o autor, Alain de Botton, que mora em Londres, escreve em inglês. O livro chama-se "Status Anxiety" no original. Veja o site do autor, onde tem todas as informações sobre seus livros. (Como sou uma criatura estressada por natureza, simplesmente preciso comprar mais livros desse homem. Estou de olho nesse aqui e nesse aqui.)
dezembro 06, 2004
Luto, um processo
m dos melhores livros que li até agora pra universidade chama-se "Hur man möter människor i sorg", ou "Como se lida com pessoas em luto", de Gurli Fyhr. O livro foi a base pra um seminário que durou um dia inteiro nesse curso que fizemos de psicologia. O luto ao qual a escritora se refere não é apenas aquele que sentimos quando perdemos uma pessoa amada para a morte, mas pode siginificar qualquer tipo de perda, uma doença, o fim de um casamento, até mesmo a perda de raízes, de seu país.
A parte mais interessante do livro é a que trata do processo de oscilação que todos nós passamos quando estamos "trabalhando" essa perda. Oscilamos entre o mundo real, no qual temos de lidar com a notícia concreta e todas as suas conseqüências, e o mundo de sonho, onde a pessoa se refugia temporariamente para reunir forças e emergir novamente pro mundo real. Uma pessoa que recebeu o diagnóstico de uma doença incurável, por exemplo, têm a tendência a achar que logo logo a ciência vai encontrar uma cura (mundo do sonho), mas volta e meia ela percebe que essa possibilidade, ainda que real, é remota e que a coisa mais certa é a que ela vai mesmo morrer (mundo real).
Essa oscilação ajuda a trabalhar o luto, a sensação de perda, de uma maneira saudável emocionalmente. É um processo lento, muitas vezes demora anos para se aceitar perdas mais complicadas. Cabe aos outros em volta não tentar acelerar o processo, não querer mostrar pra pessoa que insiste em ficar no mundo dos sonhos, que a realidade é outra. Na maioria das vezes, a pessoa sabe muito bem qual é a realidade, mas ela precisa de tempo para aceitá-la completamente. A única exceção é quando a pessoa em luto entra em um processo auto-destrutivo, depressivo prolongado. Aí sim, claro, há necessidade clara de ajuda psicológica.
Isso aliás é uma agonia para parentes e amigos que vêm a pessoa se nutrindo de fantasias impossíveis no mundo dos sonhos. A tentação em chacoalhar a pessoa e dizer "umas verdades" é grande, mas o resultado é sempre o oposto do esperado. A pessoa em luto acaba se fechando ainda mais em seus sonhos e esperanças vãs, sem condições emocionais de encarar a realidade da perda. Aí é que entram profissionais como assistentes sociais e psicólogos, cuja obrigação é saber distingüir entre um processo de luto saudável e o auto-destrutivo.
O mais interessante do livro é que a autora não minimiza qualquer perda, seja ela importante ou insignificante aos olhos alheios. Doeu na pessoa em questão, começou um processo de luto que precisa ser vivido até o fim. O respeito ao processo de luto alheio é essencial para que a pessoa possa ter tempo e espaço para se ver livre da dor da perda. E quem pressiona mais, critica e até ridiculariza a sensação de perda prolongada da pessoa, não compreende o desfavor que está fazendo.
À patrulha chata que rola por aí: o fato de eu escrever sobre luto não quer dizer que esteja deprimida. Li o livro pro curso que acabei de fazer na sexta passada e resolvi escrever sobre ele aqui. Se você acha que "eu tô me achando a intelectual" etc etc etc, só porque escrevi sobre um livro interessante, sugiro uma coisa. Sabe aquele "x" que fica no canto superior direito do seu monitor? Pois é, vai com a setinha do seu mouse lá e clica, vai.
novembro 27, 2004
A Suécia em números
A pedidos, vou fazer aqui uma pequena fichinha de informações sobre a Suécia, junto com o mapa ao lado. A Suécia é uma monarquia parlamentarista. O rei é o chefe de estado, mas não tem poder executivo algum. Estocolmo é a capital, e lá moram 1,8 milhões de pessoas. As maiores cidades depois da capital são Malmö, no extremo sul, e Gotemburgo (Göteborg), na costa oeste. Em 449.964 quilômetros quadrados espalham-se nove milhões de habitantes, numa densidade populacional de 20 pessoas por quilômetro quadrado. A taxa de natalidade daqui é de 1,03% e a de mortalidade é maior, 1,05%, dados de 2001. Absolutamente todos os suecos sabem ler e escrever em sueco, que é o idioma oficial. Oitenta e dois por cento dos habitantes pertencem à igreja luterana, os demais são católicos, ortodoxos e muçulmanos. O BNP per capita daqui é 33.585 dólares (2003). (Dados retirados daqui.) Eu moro em Umeå (fala-se umeôô), que é uma das maiores cidades do norte do país, com mais de 100 mil habitantes. Boden (fala-se búúden) fica pertíssimo de Luleå (fala-se luleôô), lááááá ao norte. A cidade de Kiruna (fala-se kííruna) é especial: no verão, o sol não se põe; no inverno, ele não aparece por seis meses. Pode-se viajar de norte a sul da Suécia em pouco mais de uma hora de avião, ou cerca de 15 horas de trem ou ônibus. Tudo dependendo de onde você veio e pra onde vai. As estradas são excelentes e até utilizadas pelos noruegueses, que cruzam a fronteira para viajar de carro pela Suécia por esse motivo e também pelo custo de vida mais em conta.



Se você estará no Rio na próxima terça-feira, dia 30 de novembro, marque aí na sua agenda um programa imperdível: a Marina W, a super cool dona do Blowg, estará lançando seu livro "O caderno de cinema de Marina W." (editora Nau) na Livraria da Travessa (Visconde de Pirajá 572, Ipanema). Se estivesse no Rio eu ia lá comprar o livro, pedir autógrafo e (tentar) bater um papo com a Marina W., que é o alter ego da jornalista Maria Adriana Rezende. Ela já foi redatora da TV Globo e hoje mantém um dos blogs mais acessados da internet.
O livro da Marina W. é, como o título diz, uma reunião de textos sobre cinema, atores, fofocas e informações absolutamente essenciais pra quem ama cinema. Nas críticas que escreve, ela dá suas notas com recomendações do tipo "Tire o telefone do gancho", "Até o lanterninha chorou", "Mais clássico que Fla-Flu" e "Ah, o amor...". E como quem é chique é chique mêêêrrrmo, a apresentação de "O caderno de cinema da Marina W." é assinada nada mais nada menos por Manoel Carlos, e o prefácio por Mario Prata. Não perca e dê um beijo na autora por mim :c)
outubro 17, 2004
Cenas de um casamento
Ingmar e IngridAcordei 8h30, mas estava com sono. Levantei às 9h porque não consegui mais dormir. Café+leite+torrada+queijo+geléia de morango light. Rádio. Fui ler jornal às 10h. Na primeira página apenas uma coisa: o lançamento do livro de Maria van Rosen, filha de Ingmar Bergman, o famoso diretor sueco. O livro é composto por textos dos diários de Ingmar, Maria e sua mãe, Ingrid, que morreu de câncer no estômago há dez anos. Partes do livro vieram publicadas no caderno de domingo do jornal.
Comecei a ler e me deixei levar pelo texto íntimo. Fala-se de coisas cotidianas, amor e morte. Muito tocante. Lá pelo meio, me emocionei muito com a tristeza dos três (e demais membros da família) pela morte iminente. O livro foi escrito com a permissão de Bergman, dos irmãos de Maria e de toda a família. Não há mágoas, amarguras ou brigas. Há apenas um momento na vida de três pessoas sensíveis. Em tempo: Maria van Rosen não sabia que era filha de Bergman. Ficou sabendo aos 22 anos. A mãe, Ingrid, se separou do primeiro marido para casar com o diretor. A união durou 24 anos.
Trecho: "Ingmar: Segunda-feira, 15 de maio. Ingrid está mais ou menos como ontem, só que mais acordada. Mais preocupada, "sobreviverei esses dias?" Ela é de repente distante, quase dura. "Não pergunte tanto." Ela recebe doses progressivas de morfina. Pensei que ela fosse vomitar. Fortes arrotos. Não, não acho que pude ver qualquer paz hoje. Pelo contrário. De repente e quase inaudível: "Eu te amo." Lhe dou água. Ela tem uma má vontade incompreensível contra as pastilhas para criação de saliva. Tudo é de repente distante e estranho. Mas a mão é ainda conhecida."
>>>Me toquei que a morte de uma pessoa amada não pertence apenas à pessoa, por mais pessoal que a morte possa ser. Mas ela pertence principalmente à família ou, pelo menos, aos entes queridos mais próximos (sejam amigos ou familiares). A morte de quem morre não é dela/dele. Quem morre, morre. Quem fica é que paga a "conta", que precisa lidar com o que a morte representa - e é uma dor/perda contínua, ano após ano. O que vale é não deixar que a morte tome muito espaço da vida. Move on, move on.<<<

Oráculo: Uma moça chegou ao Montanha digitando isso aqui no Google: "eu o amo moro no brasil e ele nos estados unidos ele é casado e eu sou solteria" (sic). Meu comentário: SAI DESSA, MENINA!!!!
outubro 11, 2004
Afeganistão

Terminei de ler "The Kite Runner". Adorei. É a história de Amir e Hassan, dois amigos inseparáveis que cresceram nos anos 70 em um Afeganistão ainda não brutalizado pela invasão russa do início dos anos 80, ou pela tomada do poder pelos duríssimos Talibãs e depois pela invasão americana após o ataque terrorista. O autor, Khaled Hosseini, fugiu com sua família para os EUA em 1980, onde conseguiu asilo e se formou como médico. Foi interessante ler o livro exatamente agora, quando as primeiras eleições "livres" da história do Afeganistão aconteceram.
O que fica claro no livro - e também das imagens da TV sobre as eleições - é que a sociedade de classes é uma praga pior do que qualquer Talibã barbudo. As divisões entre muçulmanos shias e sunni, além das diferenciações entre Pashtun e Hazara - os primeiros mais "nobres", os últimos uma casta de pessoas com "menor valor" - me faz lembrar da relação de valores entre negros e brancos, europeus e imigrantes, primeiro e terceiro mundos. Foi bom entender um pouco mais sobre o Afeganistão, mesmo que por meio de uma obra de ficção.
outubro 07, 2004
Nobel
Quando os premiados pelo Nobel são anunciados nessa época do ano o rádio tá sempre lá cobrindo a parada (claro, sempre mais rápido do que a TV). É fascinante escutar a transmissão com os secretários do comitê de medicina ou de física da Fundação Nobel explicando o que/quem ganhou esse ano. O prêmio de física de 2004, por exemplo, foi pra David J. Gross, H. David Politzer och Frank Wilczeck, três americanos que descobriram a força dos quarks, a menor parte da matéria, em 1973.
Mais legal ainda é quando a redação consegue contactar um dos ganhadores, que ainda estava dormindo lá do outro lado do Atlântico. Quando a repórter perguntou a Frank Wilczeck, do M.I.T. em Boston, onde ele estava na hora do telefonema do comitê, ele respondeu: "Tomando banho". Acho muito bacana. Nunca gostei de física, aliás, "nunca gostei" é uma expressão fraca. Sempre odiei física e nunca entendi o por quê de precisar aprender em quantos metros por segundo um carro percorre a distância do ponto A ao ponto B. Mas fui me arrastando pelos anos, assim como o fiz com matemática e química.
Nunca tive sorte com meus professores nessas três matérias, apesar de ter tido muita sorte do meu pai ter podido pagar um bom colégio pra mim. Serei sempre grata a ele. Mesmo assim, os professores nunca conseguiram me inspirar pra gostar de átomos, substâncias ou equações. Gostaria de ter tido oportunidade de me sentir tão inspirada por uma idéia científica quanto por um texto bem escrito ou uma poesia. Queria entender e gostar de exatas, da poesia da matemática - a única verdadeira linguagem universal. Mas nunca consegui. Quem sabe numa próxima vida?



Hoje foi anunciado o Nobel de Literatura. A ganhadora (sim! é uma mulher!!!!) chama-se Elfriede Jelinek e é austríaca. Nunca ouvi falar (mais uma vez o comitê do Nobel surpreende com suas escolhas obscuras) mas é até bom. Acho bacana e estimulante conhecer autores novos que nunca teria ouvido falar se não fosse esse prêmio. Tem mais informações sobre Elfriede Jelinek aqui.



Update - 8/10 às 11h => O prêmio Nobel da Paz acabou de ser anunciado e foi para uma mulher africana (VIVA!!!), a queniana Wangari Maathai, que luta há anos pelo meio-ambiente em seu país e atualmente ocupa o posto de vice-ministra do meio-ambiente. Que legal!!!!! Leia aqui o press release sobre o prêmio oferecido pelo comitê norueguês do Nobel.
setembro 28, 2004
TV, livros e eu
Ontem o dia foi realmente cheio. Cheguei em casa às nove horas da noite. Falei no tel com Suyaen e meu urso. Tomei um banho e fui assistir TV pra relaxar. Pra quê. Tinha um especial sobre um acidente seríssimo com o navio Estônia, que fazia a rota Estocolmo-Talinn. A tragédia aconteceu há dez anos e causou a morte de 800 pessoas nas águas geladas do Báltico. Fiquei pregada no sofá e não consegui nem ir ao banheiro fazer pipi.
Quando o documentário acabou, às 00h25 de hoje, estava a-ca-ba-da. Mas, como eu sou mesmo estranha, ao invés de dormir, comecei a ler o "84 Charing Cross Road", da Helene Hanff (só tinha visto o filme milhões de vezes, mas nunca lido o livro). Claro, não consegui parar até a metade da segunda parte, lá pras duas da matina. A primeira parte é formada pelas cartas trocadas entre Helene e todos os empregados da Mark's & Co. Quem viu o filme, sabe do que estou falando. A segunda parte, no entanto, que não tem no filme, é a viagem que a Helene fez em junho-julho de 1971 à Londres.
*Enquanto eu nascia lá no Rio, a Helene realizava um sonho de mais de 20 anos, em Londres*
Fiquei hipnotizada pelas descrições dela, as ruas, as pessoas; me maravilhei com os comentários bem humorados que ela faz sobre tudo. É tão refrescante ler um texto de uma pessoa que não se leva muito à sério e até por isso mesmo escreve sem compromisso, em tom de confissão. Parece que ela escreve com um meio sorriso, achando tudo elegantemente cômico. A segunda parte do livro foi editada como o diário de viagem de Helene.
Ah, como eu AMO livros/diários de viagem! Alguém aqui leu o diário de viagem do Camus, quando ele foi até ao Brasil de navio? O modo como ele descreve o mar é simplesmente maravilhoso. Ainda estou no final de junho no livro, mas já entrei na angústia costumeira de quando encontro um livro que AMO: quero ler tudo e, ao mesmo tempo, quero economizar tudo para que dure mais. Oh doce indecisão. :c)
setembro 23, 2004
Perdas e ganhos
Tô sem tempo de fazer social nos blogs queridos e amigos. Me desculpem. Meu tempo online é curtíssimo e o que tenho, divido entre responder emails e escrever aqui. As visitinhas precisam ficar pra depois, infelizmente. Mas estou sempre por aqui, quando levanto o nariz dos livros e me dou recreio.



Ainto tô lendo o "Perdas e Ganhos" da Lya Luft. Leio um pouquinho de cada vez, aí interrompo pra ler um livro ou um texto pra universidade. Mas é até bom, sabia? Esse livro da Lya Luft merece ser degustado com cuidado. Teve uma moça que veio aqui e deixou um comentário perguntando o que eu estava achando do livro.
Olha, estou gostando. Até porque a Lya Luft tem uma qualidade que me agrada horrores: ela escreve com raiva. (Hehehe.) Eu leio os textos dela e a imagino totalmente envolvida, dedicada e concentrada a dizer o que pensa sobre seus temas. Parece que ela tem uma idéia, senta na cadeira e escreve de uma vez só. Quando crescer, quero escrever como ela. :c)



Acabei de voltar de nossa segunda "visita de estudos" do curso. Hoje fomos a um julgamento, pra ver como as coisas são feitas, os procedimentos e tals. O caso era da misshandel, ou seja, violência física entre duas (ou mais pessoas). Estava lá a vítima, um rapaz que foi a uma discoteca comemorar sua festa-de-solteiro e que levou socos e tabefes de um outro, também presente no tribunal.
O cara que deu os socos e tabefes (ele já tinha sido condenado em primeira instância mas apelou para pegar uma pena mais branda) é um típico "pitboy". Baixo, bem treinado, fortinho, cabelo curto. Só faltou o pitbull ao lado. Ele chegou ao prédio algemado, o que me deixou nervosa. Mas, nada demais aconteceu. Não ficamos sabendo o resultado (tivemos que vir embora mais cedo) mas foi uma experiência interessante.
Já tinha visto um julgamento antes, em Nova York, quando morei lá pra estudar inglês em 1998. Foi um caso simples, de roubo. O ladrão era latino (não sabíamos exatamente de onde) e precisava de tradutor. Eu e muitos dos alunos da minha turma entendiamos espanhol e ficamos impressionados com a quantidade de erros que a tradutora cometeu. Bom, a experiência foi muito interessante, ainda mais porque o advogado de acusação (ou procurador público?) era um gaaaaato. Hohoho.
setembro 10, 2004
Imaginary Homelands
Imagem: EscherSalman Rushdie sobre si mesmo e asiáticos na Inglaterra:
"Somos hindus que cruzaram as águas negras; somos muçulmanos e comemos carne de porco. Consequentemente pertencemos atualmente em parte ao mundo do leste. Às vezes nos sentimos na fronteira de duas culturas (...). Pelo fato de termos sido transportados através de meio mundo, somos pessoas traduzidas. Normalmente imagina-se que algo sempre se perde numa tradução; eu sustento teimosamente que algo também pode ser ganho... Somos ao mesmo tempo insiders e outsiders nessa sociedade. Essa visão estereoscópica é o que podemos oferecer no lugar de uma visão completa." (Rushdie 1992, páginas 15, 17, 19 - Trecho retirado do livro I ensamhetens labyrint: invandring och svensk identitet, de Mauricio Rojas)
setembro 04, 2004
zum zum zum...
Eu e a abelha estamos bem, mas cansadas. Sim, ela ainda está aqui em casa, zunindo como nunca. E eu tentando evitá-la a qualquer custo. Fui pra cidade. Comprei um vinho branco chileno que parece ser ótimo, chamado Terra Andina (o site é show!). Encontrei com colegas de turma, vi gente na praça da cidade, vi o preço de um casaco de inverno e quase caí pra trás. É exatamente o preço do sofá que eu quero comprar. Fui ao supermercado, comprei biscoitos recheados dinamarqueses Bisca e voltei pra casa. Li. Vi TV. Escrevi SMS, falei ao telefone. Escrevi.



Terminei de ler o livro do Günther Wallraff, um alemão que nos anos 80 se transformou em turco (com ajuda de lentes de contato negras, peruca e bigode postiço) e foi procurar emprego. O livro é interessante inicialmente, quando ele descreve diversos empregos que conseguiu, como fritador/faxineiro no McDonalds, provador de medicamentos para indústria farmacêutica etc.
O preconceito e a noção de que os turcos (ou outros não-alemães) não são gente fica evidente o tempo todo, o que causa muito desconforto. O livro é, no entanto, muito interessante porque mostra, além disso, como uma série de indústrias funcionam, como a das empreiteiras que contratam pessoal para obras civis. Impressionante.
No final o livro vai ficando chato, chaato, chaaaato. Fui pulando uma série de coisas porque é como se apenas um alemão ou uma pessoa que more na Alemanha pudesse entender. Nesse ponto, fiquei meio frustrada. Mas o livro é bacana mesmo. Agradeço à Marcia de Souza pela dica.
agosto 29, 2004
Da vinci e o esquilo (que não é Ésquilo!)
Matéria no caderno de cultura do meu jornal de hoje sobre "Código Da Vinci", o fenômeno que dominou as listas dos mais vendidos na Suécia e no Brasil (e em muitos outros países desde o seu lançamento em 2003). Depois de muitas considerações, o jornalista chega à conclusão de que livros com o de Dan Brown satisfazem uma necessidade básica do ser humano/leitor, que ele chama de sense of wonder (assim em inglês mesmo).
Para o repórter, o sense of wonder é "um efeito estético que equivale a um orgasmo, só que nos planos intelectual e existencial. O que o leitor procura é uma experiência que faça o chão tremer. Porém, sem as preliminares (foreplay) que um pensar próprio representa". Acho que eu não poderia explicar melhor, de forma mais completa e enxuta o que achei do livro do Dan Brown. Se vale a pena ler? Sem dúvida, mas se prepare para se sentir enganado(a) pela propaganda.

Ontem, debaixo de chuva, fui comprar fio dental no supermercado aqui perto de casa. Não tinha. Como me acostumei a ter dentes, engoli a preguiça, peguei o carro e me mandei pra um outro supermercado, maior. Na volta, dirigindo por uma das ruas mais movimentadas de Boden (quando eu digo "movimentadas" imaginem uma rua normal do Rio ou São Paulo e descontem 95% do tráfego) quase atropelei um esquilo, daqueles vermelhinhos, com rabo peludo.
Ele saiu correndo de uma árvore pra frente do meu carro. Sorte que deu tempo de freiar não muito bruscamente, afinal a velocidade máxima das ruas de Boden é 50 Km (e eu obedeço). Sorte também que nenhum carro vinha atrás de mim, senão ia ser chateação certa. Contei pro meu urso que ficou com pena de mim. "Devia ficar com pena do pobre do esquilo, coitado", retruquei. "Ah", disse meu urso, "é inevitável que você atropele algum bichinho desses por aqui. É melhor se acostumar com a idéia".
Oh, céus.
agosto 23, 2004
Conquistadores e conquistados
Foto copiada daqui.Ainda estou no começo do livro (escrito no início dos anos 90 em capítulos rápidos, com uma linguagem muito fácil) mas já passei por trechos interessantérrimos, como a evolução dos rifles no final do século XIX, o que auxiliou muitos povos europeus em suas conquistas. Os belgas se fizeram em casa no Congo (cuja história é pano de fundo para o clássico de Joseph Conrad), os ingleses na África do Sul (+ Gambia, Serra Leone, Nigéria etc), os franceses na Argélia (+ Tunísia, Senegal, Sudão, Benin etc), os alemães no Togo (+ Camarões, Rodésia etc), os portugueses na Ilha da Madeira (+ Cabo Verde, Guinéa, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique), os italianos na Eritréia e Somália (antes Absínia), e os espanhóis nas Ilhas Canárias etc.
Trechinho do livro:
"Grande parte do mundo habitado ainda estava fora do alcance da artilharia de guerra no início do século XIX. Por isso, a descoberta de Robert Fulton, que cruzou o rio Hudson no primeiro barco a vapor, foi uma das mais importantes do ponto de vista militar. Muito em breve existiam centenas de barcos a vapor cruzando os rios da Europa. E no meio do século XIX os barcos a vapor começaram a transportar os canhões europeus para os recantos mais profundos da África e da Ásia. A partir daí deu-se início a uma nova era na história do imperialismo. E também iniciou-se uma nova era na história do racismo. Muitos europeus interpretavam sua superioridade militar/bélica como superioridade intelectual e, por que não dizer, superioridade biológica."
Segundo as resenhas que li sobre o livro, Lindqvist quis mostrar que a idéia de extermínio étnico, baseado em argumentos que não condenam o massacre de povos não-civilizados (sem alma etc) não foi criação de Adolf H.. Lindqvist afirma que a história de conquistadores e conquistados é beeeem mais antiga do que a "solução final" alemã na Segunda Guerra Mundial.
Esse livro existe em inglês. Clique aqui e veja.
Veja um mapa da África conquistada, no início do século XX.
agosto 11, 2004
Quer me dar um presente?
Então compre esse livro pra mim: "Living with books", de Alan Powers. É um livro de arte no qual o autor fotografou dezenas de bibliotecas de gente famosa, como Mario Vargas Llosa, para mostrar como livros e estantes são utilizados como decoração. Mas ele afirma que onde há livros, tem de haver leitores. Não basta comprar um metro de brochuras no sebo da esquina e empilhar no chão, assim, como quem não quer nada.
(D'après Nanda)
agosto 08, 2004
Bruxas, pragas e eu
Acordei com dor no pescoço. Dormi tão profundamente que nem mudei de posição na cama. :c) Fui dormir tarde da noite ontem porque fiquei vendo TV até quase às duas da matina pra rever um dos filmes de que mais gosto (em se tratando de comédias americanas): "As Bruxas de Eastwick", com Cher, Susan Sarandon, Michelle Pfifer e Jack Nicholson. Adoro o filme, a história, os atores, o clima do filme. Adoro. E o melhor eu nem sabia: o filme é baseado num livro de John Updike! Do Updike eu li os quatro livros do Harry "Coelho" Angstrom (curioso, noto agora que ele tem um nome sueco!) e "Couples", que foi minha primeira experiência com o escritor americano.
A história de Harry "Coelho" Angstrom é genialmente comum (Updike ganhou o Prêmio Pulitzer com a tetralogia). Ele é um vendedor de carros japoneses que vive em um EUA em constante transformação. Rabbit leva uma vidinha média, tem um emprego médio, com um salário médio, com um carro médio, com uma família média e com uma satisfação cada vez menor. O "Couples", editado em 68, é um livro sobre sexo, traição e amor nos subúrbios americanos, onde tudo é aparentemente perfeito (sabe cumé, gente que nunca diz: "estou de saco cheio disso!")



Estou em guerra. Desde ontem de madrugada alguém vem deixando spams aqui no Montanha pra vender Viagra e outras porcarias. Nesse exato momento, esse indivíduo já deixou mais de 20 mensagens em posts diferentes e usou pelo menos 12 IPs diferentes (bani todos, claro). Será que apenas no Montanha que essa praga atua? Alguém já reparou isso em seu blog?
agosto 07, 2004
A psicologia do racismo
Um dos livros mais interessantes que li nessas férias foi "Não como nós! Aspectos psicológicos de xenofobia e racismo" ("Inte som vi! Psykologiska aspekter på främlingsfientlighet och rasism"), do psiquiatra sueco Tomas Böhm. Entre as milhares de coisas interessantes que ele escreve, uma das mais legais é sua descrição psicológica de como a xenofobia se instala da nossa vida.
"Quando mostro minha xenofobia contra uma pessoa, meu ódio pode ser tão evidente que me faz consciente dele. Se por outro lado meu ódio for inconsciente, posso me assustar com a reação do outro, até que ele/a me chame atenção por minhas opiniões xenofóbicas. Posso, então, me defender, negar minha xenofobia e achar que o outro é ultra-sensível e ridículo. Pergunto a outras pessoas que estavam presentes e elas dizem que eu, de fato, expressei idéias bastante radicais".Isso, segundo Böhm, leva as pessoas a sentir culpa e a refletir como sua xenofobia se manisfesta inconscientemente. "Muitas pessoas jovens, no entanto, não conseguem chegar ao estágio da culpa e da reflexão, da consciência moral, cujo resultado é uma proibição interna ao ódio às diferenças. Freud afirmava que muitas pessoas não têm sentimento de culpa, mas angústia social. Essas pessoas não deixam de mostrar sua xenofobia por consciência, mas por medo de serem descobertas".
Mais abaixo, Böhm escreve que o crescimento significa uma desilusão gradual. "Quando somos crianças, nos vemos dentro de uma grande ilusão. Não temos ideais, nós somos nossos ideais. Uma criança de quatro anos é a pessoa mais forte do mundo". O crescimento é a desilusão; precisamos aprender a lidar com as frustrações da forma mais harmônica possível. Isso, no entanto, não acontece todas as vezes. Escrevendo sobre o "líder" neo-naz**ta, Böhm explica o intrincado jogo psicológico que ele coloca em ação.
"Quando o líder brilhante entra em cena, ele ativa novamente o antigo desejo de que o ego e o ideal sejam uma só pessoa. Ele promete que o sol vai brilhar, que nossas necessidades serão satisfeitas, que a raça ar*ana dominará o mundo etc. (...) O líder é quem passa ao grupo a ilusão ideológica, e por trás da ideologia há sempre a grandiosa fantasia. A ideologia nos faz acreditar que o impossível é possível".Fiquei fascinada pelo livro, editado pela primeira vez na Suécia em 1993. Pensei sobre minha própria xenofobia, minha intolerância (interna e externa), minhas dificuldades de aceitação e, claro, me dei parabéns por nunca ter gostado de seguir "líderes iluminados", nem mesmo depois de 10 anos de escola católica de padres (o que, talvez, tenha até contribuído para meu ceticismo).
agosto 03, 2004
No rádio
Vocês sabem que os suecos têm suas tradições - algumas muito boas, outras nem tanto. Uma das melhores, no entanto, é o programa de rádio chamado "Sommar" ("Verão"), criado em 1959. Em junho, julho e agosto, durante 90 minutos todos os dias, uma série de pessoas conhecidas de uma forma ou de outra (atores, jornalistas, escritores etc) contam memórias, acontecimentos marcantes e tocam música que lhes marcou a vida.
É fascinante porque parece que estamos lendo o diário da pessoa em questão, ouvindo a voz dele/a contar isso e aquilo. Como trata-se de um programa bem íntimo - o que é surpreendente vindo de suecos - a sensação é incrível, como entrar numa área proibida. Escrevi esse post ontem, enquanto ouvia à história de Mikael Persbrandt, ator sueco e único homem capaz de me roubar do meu urso :c))) Primeira música escolhida por ele: The Clash, "Should I stay or should I go".
Mais cedo, ontem ainda, ouvi ao Jonas Hassen Khemiri, o escritor do livro "Ett öga rött" (sobre o qual já escrevi aqui) e fiquei emocionada com a história da vida dele. Entre as músicas que ele escolheu está "I get out", de Lauryn Hill, que diz assim: I get out, I get out of all your boxes//I get out, you can't hold me in these chains//I'll get out//Father free me from this bondage//Knowin' my condition//Is the reason I must change.



Terminei de ler ontem o "Historien om Michael K", do J.M. Coetzee. Muito bom. Parece que o cara não usa caneta pra escrever, mas um raio laser. A história de Michael K é tão enxuta e contida que dá até nervoso. Você acompanha Michael durante a primeira parte do livro (150 páginas) sem saber exatamente o que está acontecendo. Depois, nas partes II e III, tudo fica mais claro. Você entende o por quê da vida extrema vivida por ele. Ótimo livro sobre um outsider voluntário. Uma pessoa que se nega a ser objeto nas mãos alheias.

Falando em livros, quem estiver no Rio no dia 14 de setembro tem um programa ótimo pra ir: a noite de autógrafos do livro "Como fazer CDs de alta qualidade" (Ed. Campus), do meu amigo André Machado (jornalista do caderno de informática do Globo) e do Aroaldo Veneu. Vai ser na Livraria da Travessa, em Ipanema. Se eu estivesse no Brasil ia lá dar um beijinho no André. Deve ser fe-no-me-nal estar lançando seu primeiro livro. Parabéns, queridoco! Boa sorte! :c)
julho 25, 2004
"Budapeste", o livro do Chico

"Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira".Assim começa "Budapeste", do Chico Buarque, que terminei de ler ontem. Acho que gostei do livro. Eu apenas acho que gostei porque o achei muito frio, um livro assim distante, com um personagem egocêntrico e obcecado por seu anonimato/celebridade. É, como o Caetano escreveu na resenha que ilustra a orelha do livro, "Budapeste é um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não na trama, mas nas palavras, como os poemas".
É exatamente isso que eu senti quando li o livro. Não quero bancar a crítica literária não, essa é minha opinião pessoal, ok? "Budapeste" é um exercício estilístico bem-sucedido, mas, na minha opinião, falta alguma coisa. O estilo é claro, sem complicações - o que é um alívio - mas mesmo assim é difícil se aproximar de José Costa (ou Zsoze Kósta), o protagonista-narrador. Mas, pensando bem, de repente era exatamente esse o objetivo do Chico. Li o livro aflita, esperando pra ver o que é que o tal de José Costa iria aprontar.
Gostei, no entanto, da presença de Budapeste (a cidade) e húngaro (o idioma) no livro. Nunca fui lá, mas tenho muita vontade. Sei que húngaro é um dos idiomas mais difíceis do mundo. Sei disso porque tive um professor de história na quinta série chamado Carlos Alberto que sabia falar russo e disse numa aula (sei lá porque) que havia tentado aprender húngaro, mas que tinha desistido por ser difícil demais.
Não sei porque, nunca esqueci isso. Abaixo, um trecho de "Budapeste":
"Para algum imigrante, o sotaque pode ser uma desforra, um modo de maltratar a língua que o constrange. Da língua que não estima, ele mastigará as palavras bastantes ao seu ofício e ao dia-a-dia, sempre as mesmas palavras, nem uma a mais. E mesmo essas, haverá de esquecer no fim da vida, para voltar ao vocabulário da infância. Assim como se esquece o nome de pessoas próximas, quando a memória começa a perder água, como uma piscina se esvazia aos poucos, como esquece o dia de ontem e se retêm as lembranças mais profundas. Mas para quem adotou uma nova língua, como a uma mãe que se selecionasse, para quem procurou e amou todas as suas palavras, a persistência de um sotaque era um castigo injusto." (página 128)
julho 21, 2004
Mais diferenças
No livro sobre o encontro de culturas (dia 17), a Birgit Öberg escreve sobre uma série fascinante de diferenças entre os países que ela conheceu. Além da coisa de falar sem parar, há ainda a idéia de distância corporal entre pessoas num encontro informal. Diz lá no livro:
"Em várias piadas contadas por sulamericanos, ri-se da chamada 'Dança de Cocktail' que acontece quando o sulamericano dá um passo adiante para poder conversar no que pra ele é uma distância amistosa (não-formal) e o norte-americano dá um passo pra trás, porque essa distância pra ele é demasiado pequena. A aproximação é entendida como ameaçadora ou familiar demais, principalmente em se tratando de dois homens".Noto isso aqui direto. Eu não desvio quando alguém se aproxima pra falar bem próximo a mim - a não ser quando a pessoa é completamente desconhecida ou cheira mal (hohoho). No capítulo em que Birgit Öberg fala do toque, confirmei o que eu já tinha observado entre casais suecos e brasileiros. Diz lá:
"Um pesquisador estudou casais em cafés de rua em cidades distintas. Um casal em San Juan, em Porto Rico, se tocou 180 vezes em 10 minutos de observação. Durante o mesmo tempo, casais franceses (em Paris) se tocaram 110 vezes, enquanto americanos de Gainsville, Flórida, e ingleses de Londres, tocaram-se duas vezes durante os dez minutos de observação".Isso é estranho. Pertenço à raça das pessoas que gostam de "se comunicar com as mãos". Porém, uma vez ultrapassei um desses limites culturais no que diz respeito ao toque. Foi numa entrevista coletiva com um executivo americano da Microsoft (pra quem não sabe, um dia fui uma jornalista de tecnologia). Eu tinha que voltar pro jornal pra fechar a matéria e precisei sair no meio do lance. Como nunca poderia deixar de me despedir do convidado principal e ele estava olhando para outro lado, o toquei de leve no ombro, como que para chamar sua atenção.
Pra que. O homem deu um pulo pro lado e me olhou como se eu estivesse me preparando para atacá-lo, escalpelá-lo (é assim?) e comer seu cérebro com um garfo. Nunca me esqueço da expressão de surpresa - e, porque não dizer, medo - nos olhos dele. Eu também fiquei surpresa, também fiquei insegura e acabei deixando pra lá a despedida. Sabe deus do que um americano é capaz quando acuado, certo? :c)))
julho 20, 2004
Pelos cotovelos
Conversei ontem no telefone com a Liza e reparei uma coisa ótima: ambas falamos ininterruptamente, puxando um assunto de dentro do outro. Essa é uma das coisas de que mais sinto falta no meu dia-a-dia: o ritmo da conversa brasileira (ou latina). Explico. Os suecos têm como hábito ouvir a pessoa que fala sem interromper. A grande diferença é que eu fui "treinada" na chamada conversa sem fim, onde se engatilha um assunto no outro e num fôlego só cobre-se desde política até culinária, passando por saúde, amor e as últimas fofocas.
Uma das coisas que tive de aprender quando vim morar aqui é colocar um ponto final evidente no que estou dizendo. Isso porque o sueco espera pacientemente que você pare de falar para que ele possa dizer o que pensa. Birgit Öberg (livro do dia 17) comenta sobre o desencontro de suecos e povos árabes e/ou sulamericanos quando conversam. Nós esperamos ser interrompidos com perguntas, mas como eles não as fazem, continuamos a falar. Eles esperam que paremos de falar para fazer suas perguntas.
Nós achamos que os suecos são mal-educados por não se interessarem em nada do que falamos (por não fazerem perguntas) e eles nos acham incrivelmente mal-educados por simplesmente não parar de falar! (Esse tipo de coisa não se aprende na escola, temos que conviver com eles pra reparar. Fazer essas descobertas é, pra mim, a parte mais fascinante de morar fora do Brasil.)
julho 19, 2004
Filmes, siri e Budapeste
O final de semana foi tããããããoooo bom! Minha sogra estava aqui em casa, vimos mooooooooitos filmes ("Calendar Girls", "Mystic River" (Sean Pean... be still my beating heart), "Skenbart" e "Tillfällig fru sökes" (suecos) e "Catch me if you can" ... impressionante quando o Leo DiCaprio deixa de lado o glamour de ser lindo, ele até funciona bem como ator. O mesmo acontece com o Brad Pitt, que estava fenomenal como o maluco Jeffrey Goines de "12 Macacos", do fantástico Terry Gilliam.)
Mas o melhor veio depois, na noite de sábado pra domingo. É que ganhei um jantar especial oferecido por uma amiga brasileira que mora aqui perto de mim. Comemos salmão feito no forno com sal grosso (uma delícia! desmanchava na boca), batatas com molho béarnaise e, de entrada, - saquem o luxo! - casquinhas de siri! Nham nham nham, como diz Marcinha. :c) E, claro, bolo Prestígio de sobremesa. Nossa, bebi tanto vinho branco que cheguei a ficar tipsy...
Mas o melhor foram os presentes! (Oh! Hoje eu não estou educada... ainda é o vinho) É que minha amiga, que sabe bem como eu sou, me deu de presente "Budapeste", do Chico Buarque (e ainda juntou ao pacote massa de pão de queijo e café brasileiro). Quase chorei quando vi o livro (foi o vinho! foi o vinho!). A noite seguiu até tarde, eu e minha amiga falando português num ritmo alucinante até o fim. Maridos e sogra deixados ao léu, em suas santas suequices. :c)
julho 17, 2004
A relatividade da vida
Acabei de ler anteontem à noite o livro "Diferentes pontos de vista - sobre encontro de culturas e diferenças culturais" ("Olika syn på saken - om kulturmöten och kulturella skillnader"), de Birgit Öberg. A autora é casada com um embaixador sueco e morou em postos tão diferentes como Tailândia, Algéria e Polônia. Uma coisa em particular me chamou atenção no livro de Öberg: a noção - até certo ponto evidente - de que o mundo é repleto de normas, que se diferenciam uma da outra dependendo de onde você vive.
"Quão quente é quente? Quão frio é frio? Quão escuro é escuro? Apenas depois do primeiro ano vivido em um país estrangeiro é que alguém que tenha vindo de um clima diametralmente oposto pode entender a relatividade dessas perguntas. O que é ser rico ou pobre, o que é ser caro ou barato? Não é suficiente aprender apenas a tradução de um adjetivo em uma outra língua. É necessário tomar conhecimento de qual é a norma de uso desse adjetivo. Quantos minutos querem dizer que você 'Tem de esperar um pouco'? São cinco minutos, meia-hora ou mais? Se é 'difícil' encontrar com o diretor, quão difícil é difícil? Para nós [suecos] 'impossível' é uma resposta definitiva. Já para pessoas vindas do sul da Europa ou da cultura árabe, isso é apenas o início de uma negociação".Esse livro é, na verdade, um estudo da relatividade da vida. Tudo pode ser visto por ângulos diferentes. As pessoas têm vidas distintas, experiências próprias e reagem a cada acontecimento de uma maneira especial - nem sempre, aliás, de acordo com o estereótipo de sua cultura. No livro discute-se nossas crenças mais enraizadas que, na verdade, não são nada mais do que exatamente disso, crenças. O mundo está aí pra ser experimentado livremente e, ainda bem, continua cheio de surpresas.
Tô sem poder escrever muito mais nem visitar a galera porque minha sogra está aqui em casa. Ele é muito gente boa e está lá na sala a fazer palavras-cruzadas enquanto vim aqui, escrever (já estava com sinais de abstinência). Já já volto ao normal. Beijo.
julho 07, 2004
Os EUA de Moore
Comecei a ler ontem o "Stupid white men", do Michael Moore (mais um presente da Princesoca :c) e estou a-do-ran-do. O livro é de fato muito ousado e traz informações estarrecedoras, não apenas sobre o presidente Bush júnior mas inclusive sobre os EUA em geral. Algumas delas:
31% dos negros no estado da Flórida foram impedidos de votar na eleição presidencial de 2000 (quando Bush júnior concorreu com Al Gore) por ter um crime em sua folha de antecedentes. Não importa se eles já haviam pago pelo que fizeram e tiveram seus direitos de cidadania restabelecidos.
A contagem das cédulas de votação advindas do exterior da eleição de 2000 inclui uma série de irregularidades, inclusive cédulas com evidentes traços de fraude (gente votando duas vezes, cédulas do exterior enviadas de dentro dos EUA, votos chegando atrasados, com assinaturas não reconhecidas etc).
Líbia, Ilhas Maurício e Seicheles - todos os três países africanos - têm taxa de mortalidade infantil inferior a da cidade de Detroit.
Na verdade, Al Gore venceu as eleições de 2000. Bush júnior contou com a máquina política do pai e com a ajuda fundamental do irmão mais novo, Jeb, governador da Flórida, para que o estado lhe desse a "vitória". Mas Moore não fica apenas por aí. Ele pergunta se Bush júnior pode ler, isso porque é de conhecimento geral que o homem mais poderoso do mundo não lê nada, nem mesmo o resumo das reuniões dos seus secretários ou o clipping de notícias feito pela sua equipe.
No capítulo "Matem os branquelas", Moore descreve sua raiva pelos homens da raça branca e diz nunca ter tido problemas com homens negros. O legal é que ele é direto e diz:
"Da próxima vez em que estiver conversando com um dos seus 'amigos negros', em vez de dizer a ele como você realmente está adorando o novo Cd do Jay-Z, porque não colocar o braço no ombro dele e dizer: 'Te amo, cara, você sabe disso, e por isso te contarei um pequeno segredo que nós brancos temos: nunca vai ser tão bom para o seu povo quanto é para a gente. E se você acha que dar duro e tentar se encaixar vai te dar um assunto no conselho de diretores quando já preenchemos nosso assento negro - bem, amigo, se você busca igualdade e avanço, tente a Suécia'".HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH. Quase morri de rir. Aí, eu ia ser obrigada a abraçar esse mesmo cara e dizer a ele assim: "Olha, igualdade e avanço nem mesmo na Suécia. Não importa se você nasceu aqui e sabe falar a língua. Tem a pele escura, vai penar. Fala a língua com sotaque, chama-se Kareem ou Mohamad, pode se preparar pra encarar tanto preconceito como em qualquer outro país do mundo. Quem diz isso é uma "branca", que aqui é vista como mörk (=escura)".
Fiquei morrendo de vontade de escrever um email pro Michael Moore contando que na verdade ele está equivocado no que diz respeito à Suécia. Mas acho que o cara tem outras coisas com que se preocupar. Aliás, ele é capa da edição de julho da Time Magazine. É mole? (Se alguma boa alma achar que pode me mandar um exemplar de presente, tô agradecendo muito e prometo uma caixa de biscoitos suecos de gengibre de presente. Podemos trocar endereços por email).
junho 28, 2004
So true, so true...
Pra completar, comento apenas uma coisa do último livro que li para o meu curso de verão, que acabou hoje. No ma-ra-vi-lho-so livro "Kulturterrorismen" ("Terrorismo Cultural"), cujo autor é o professor de antropologia social na Universidade de Oslo Thomas Hylland Eriksen, lê-se uma definição ótima de fascismo:
"(...) fascismo é ter amigos íntimos, uma cidade natal e uma família, mas não ter capacidade de entender que outras pessoas, em outros locais, possam ter amigos, uma cidade natal e família - e ter uma vida rica e interessante, mesmo sendo diferente."Como vocês sabem, intolerância me cansa, me deixa mal, deprê mesmo. E não apenas aquela vinda de suecos ou de povos que se julgam superiores. Mas até mesmo aquele ódio mal escondido de brasileiros que vivem por aqui e que, por conta dessa sensação de humilhação, se envolvem num colete de ódio contra suecos (e demais nacionalidades européias) que me deixa ainda mais cansada e deprê. Como o Oscar Wilde disse muito bem, não tô aqui pra ensinar ninguém a viver, mas só pergunto uma coisa: como é possível viver com tanto ódio?
Nota: não critico ninguém que se sinta no direito de odiar o povo do país europeu em que vive. Muito pelo contrário. Acho, inclusive, que há uma necessidade psicológica em se criticar a sociedade dominante. Eu mesmo tenho meus problemas com os suecos às vezes (cada vez menos, diga-se de passagem) mas ainda acontece uma vez ou outra. O que escrevi acima é uma tentativa de encontrar um "caminho do meio", onde eu possa viver em paz onde quer que esteja, seja aqui ou no Brasil. Por favor, não entendam o que escrevi acima como crítica ou repreensão. Estou apenas pensando alto (como faço sempre por aqui, aliás) e não quero ferir ninguém. Quero apenas poder escrever o que penso.
junho 15, 2004
Sonho CSI, dicas e futebol
Hoje sonhei que estava no cinema com o Grissom (protagonista do CSI Las Vegas, uma das minhas séries de TV favoritas). Estávamos, claro, investigando algo ilegal e fomos a um computador onde podia-se comprar entradas para outros filmes. Grissom se movimentava agilmente pelas telas do computador e eu estava de olho, pra ver se vinha alguém.
Claro que veio. Os seguranças nos cercaram e nós saimos correndo da sala e nos vimos numa sacada, de frente para a parte interior do shopping onde o cinema ficava. Abaixo de nós, uma "garganta" de escadas, níveis de lojas, muito concreto e vidro. Grissom, cabelos grisalhos encaracolados, diz: "Temos que pular". Eu, apavorada, concordo. Ele pula. Eu o vejo aterrissar com a bunda numa escada, vejo sua cara de dor. Ao seu lado vejo a mulher que pulou com ele. Cabelos negros, compridos. Saia. Ela deveria ser eu.
Mas eu não pulei, que não sou boba nem nada. Continuei lá de cima, olhando o pobre do Grissom e tal da mulher estatelados lá em baixo.



Essa é para todos vocês que me mandaram emails me perguntando se existia uma edição em inglês do livro da Elsie Franzén: a Anlene comentou lá em baixo e deu dicas quentíssimas. Veja só:
"A Julia Kristeva, em 1987, lançou um livro que se converteu em um clássico sobre este tema [imigração]: "Étrangers à nous-mêmes". Tzvetan Todorov também publicou em 1996 "L'homme dépaysé", livro super interessante que analisa seu processo pessoal de adaptação ao país que elegeu para viver (a França)."
Aí agora você está dizendo: "Mas eu não leio francês!" AHA! Então veja aqui o livro da Julia Kristeva em inglês, "Strangers to Ourselves"! E aqui o livro do Todorov em espanhol, "El Hombre Desplazado".




Estamos no começo da Copa Européia (UEFA), em Portugal, uma espécie de Copa do Mundo sem o Brasil e a Argentina. Os jogos têm sido meio chatos, a não ser pela vitória impressionante da França contra a Inglaterra, com o Beckham perdendo pênalti e o Zidane fazendo dois gols decisivos em 1 minuto. Ontem a Suécia deu uma lição na Búlgária: 5 a 0, sendo dois gols do maravilhoso Henke Larsson (foto acima). E, sim, você viu certo: ele é mulato. Suequíssimo e lindo. Adivinhou, né? Ninguém tem problemas em vê-lo como sueco, apesar de sua "aparência".
Como não preciso dividir meu coração entre Brasil e Suécia, eu torço livremente pelos loirinhos do azul e amarelo (blå gult, como eles se chamam aqui). Grito "Gooooooooooooooooolllllllllllllll" e Stefan, que não gosta de esportes, ri às gargalhadas da minha emoção. Ele fica nervoso com minha demonstração de energia, sai correndo, rindo, pra me abraçar... Pra me calar? Diz que vai comprar uma bandeira sueca pra eu sair pulando pelo gramado aqui em frente de casa. :c)
É engraçado, mas parece que invertemos os papéis... Isso ficou evidente ontem, na hora do jantar. Eu, deitada no sofá assistindo ao final do jogo Dinamarca versus Itália (zero a zero) enquanto Stefan fazia o jantar e cantava na cozinha. O menu: macarrãozinho cabelinho-de-anjo com molho a bolognesa. Uma delícia! No final, ele ainda lavou a louça! E eu ainda esticada no sofá... hohoho.
junho 11, 2004
Crises e reflexões
No livro "Att bryta upp och byta land", de Elsie Franzén, psicóloga e psicoterapeuta além de docente em pedagogia, há uma série de coisas interessantérrimas, sobre as quais eu poderia escrever uns quinhentos posts. Não faço isso porque tenho a impressão que estaria abusando do interesse de vocês... :c) Então aqui vai apenas alguns destaques. Dentre as coisas que a autora descreve, uma delas me chamou mais atenção: o processo de crise passado pelos imigrantes.
Elsie Franzén faz um paralelo entre o processo de crise que qualquer pessoa pode sentir mesmo sem nunca sair da sua cidade de nascimento e a crise vivida por quem deixa seu país e vira imigrante numa terra desconhecida. Diz lá no livro: "Uma pessoa pode estar num estado de crise psíquica quando ela se encontra numa situação de vida em que suas experiências e modos de reação antigos não são suficientes para que ela possa entender e dominar psicologicamente de forma satisfatória sua nova situação".
Ou seja, você não sabe como reagir ou traduzir ações e reações de pessoas, lugares, costumes estrangeiros. Você entra numa espécie de vácuo cultural e emocional. É claro que esse processo tem uma série de variáveis e depende, por exemplo, do momento e até do background da pessoa em questão, além do lugar onde ela se encontra, se é muito diferente do país de origem etc. Mesmo assim, Elsie Franzén afirma que não importa se você é um refugiado ou um imigrante que veio pro país novo de livre e espontânea vontade (como eu). Há sempre um choque, uma mudança.
Eu senti isso muito nitidamente. No início era tudo um barato, apesar das saudades da minha família. Com o passar do tempo, no entanto, a novidade foi arrefecendo e eu comecei a ver a realidade. Foi um choque verdadeiro. Achei muitas vezes que não seria forte o suficiente para enfrentar o fato de, por exemplo, ter tanto problema pra arranjar um simples emprego. A imagem que alguns suecos fazem de mim é a de uma imigrante, com tudo o que isso representa (gente estranha, que fala mal sueco, que não é exatamente honesta nem gosta de trabalhar e vive do dinheiro do social).
Isso bate de frente com a imagem que eu sempre tive de mim mesma: uma moça trabalhadora, até certo ponto inteligente, esforcada e honesta. Esse impasse, que ainda existe, é difícil de se resolver. A crise de identidade está criada. Não percebi quando deixei de ser um recurso e passei a ser um problema. O lance é que os imigrantes na Suécia hoje são vistos como um grupo homogêneo, não importando se são turcos, iugoslavos, iranianos, chilenos ou brasileiros. Ninguém é visto como um indivíduo, mas como uma massa de gente diferente - e, muitas vezes, indesejável.
Alguns momentos do livro:
"O migrante não volta nunca mais, mesmo quando ele retorna ao seu país. A viagem [de imigração, de ida] irá modificá-lo pra sempre". (Elsie Franzén, página 54)
"Largar tudo e mudar de país em idade adulta é para a grande maioria das pessoas um acontecimento central na vida". (E.F., p. 54)
"Independente da causa da vinda para o país novo, os primeiros tempos são descritos como uma experiência positiva e excitante. (...) quase como uma lua de mel." (E.F., p. 57)
"[Mais tarde], as pequenas dificuldades do dia-a-dia finalmente aparecem. (...) E é esse mal-estar que aos poucos vai se instalando na surdina que pode iniciar uma crise." (E.F., p. 58)
"Costuma-se dizer que a crise tem como motivo uma perda traumática. No caso dos imigrantes, não é apenas uma perda, mas muitas perdas." (E.F., p. 58)
"Possuímos psicologicamente os lugares onde nos sentimos em casa - uma cidade, uma floresta, uma praia. Essas propriedades emocionais não podem ser vendidas ou trocadas por outras." (E.F., p. 59)
"O idioma é perdido. (...) Aqueles que querem participar da sociedade sueca precisam aprender a falar sueco." (E.F., p. 60)
"Por fim, a pessoa perde com a imigração uma parte do que ela entendia como sua identidade". (E.F., p. 61)



Completando o post, queria dizer que o livro dá uma visão otimista dessa crise passada pelos imigrantes. Elsie Franzén explica que construímos nossas identidades com a ajuda da interação que estabelecemos com outras pessoas, entidades, grupos. Quando isso desaparece, parte da nossa identidade some. Ao mesmo tempo em que a falta dessa definição nos deixa alquebrados, ela nos permite um processo de renovação. E é nesse sentido que Franzén também analisa a palavra "crise".
Ela diz lá no livro que a palavra "crise" vem do grego "krisis" (não sei se em grego é com "k" ou com "c" - no livro, em sueco, está com "k". Então, aos puristas gregos, minhas desculpas antecipadas) e que quer dizer "decisivo". É por isso que dizemos que "alcançamos o momento crítico do jogo". A partir dali, as coisas mudam. Cabe a nós trabalhar pra que a mudança ocorra ao nosso favor, né não?
junho 09, 2004
Visão histórica
Acabei de ler o que precisava pra amanhã. Os livros são fantásticos. O primeiro é "Tusen år av invandring - en svensk kulturhistoria" ("Mil anos de imigração - uma história cultural sueca"), de Ingvar Svanberg e Mattias Tydén. O segundo, que eu até já citei aqui, chama-se "Att bryta upp och byta land" (mais ou menos "Ir embora e trocar de país" ou "Largar tudo e trocar de país"), de Elsie Franzén.
No livro "Mil anos de imigração", os autores descrevem de um ponto de vista histórico a construção da sociedade sueca com a presença constante dos imigrantes. É fascinante e dá vontade de andar com o livro debaixo do braço cada vez que for procurar emprego e receber um não baseado no fato de eu ser imigrante, falar sueco com sotaque, enfim ser "diferente". Vou fazer um resumo das melhores partes aqui.
Alguns exemplos de imigrantes que ajudaram a construir a sociedade sueca são: os huguenotes franceses que vieram pra cá no século XVII; a imigração em massa de finlandeses e de povos do Báltico durante a grande guerra nórdica (1700 a 1721); a chegada de alemães protestantes no meio do século XVIII; refugiados poloneses por volta de 1860; refugiados judeus-russos na virada do século; judeus, povos dos países nórdicos e do Báltico durante a Segunda Guerra Mundial; refugiados advindos da Hungria em 1956; da Tchecoslovaquia em 1968; do Chile nos anos 70; os refugiados vindos de barco no início dos anos 80; do Irã também vindos nos anos 80; e os refugiados da antiga Iugoslávia nos anos 90.
Mas o mais legal é saber que muitas das tradições "essencialmente suecas" são, na verdade, importadíssimas! A saber: "Somos o único país no mundo que tem uma festa para comemorar Lucia (veja foto ao lado), uma santa italiana, da Sicília. Essa comemoração [dia 13 de dezembro] acontece com glögg, um vinho de origem alemã, servido com condimentos vindos do Oriente islâmico. Servimos ainda um pão feito com açafrão, colhido nas montanhas Atlas [no Morrocos]." Impressionante, né?
Fico feliz em ler isso porque me dá uma perspectiva diferente da sociedade em que me encontro agora. Cresci sabendo da mistura de culturas que parecem conviver em harmonia no Brasil (apesar do racismo). Aqui, a coisa é diferente. Os suecos são orgulhosíssimos de sua cultura e eu sempre quis saber de onde essa cultura nasceu. Dos vikings? Nasceu da terra, como uma planta? Tinha que ter vindo de algum outro lugar. Agora eu sei. Pra não sobrecarregar vocês, deixo pra amanhã o resto desse post, onde escrevo sobre o segundo livro.
Pra entender a tradição de se comemorar Lucia na Suécia, clique aqui. (Texto em inglês)
junho 08, 2004
Só pra avisar...
Estou sempre por aqui lendo os comentários (já respondi aos últimos). Recomecei a estudar (no curso de verão) e estou sem energia pra escrever. Assunto é o que não falta, mas, entendam, estou acabada. Até quinta preciso ler dois livros e mais três artigos de revista. Um dos livros eu acabei de ler hoje à tarde. Os assuntos: identidade, imigração, racismo, perspectiva psicológica de quem muda de país e cultura etc. Muito interessante.
Segunda foi a primeira aula do curso "A sala de aula multicultural". A maioria dos alunos é de quase-professores. Um homem (estudando para ser professor de educação física) e aproximadamente 20 mulheres. Imigrantes na turma: uma moça da Finlândia, uma chilena, Monica, e eu. Claro, eu e Monica já ficamos "amigas". Estou tão feliz de finalmente conhecer uma chilena aqui! Ela imigrou pra Estocolmo no meio dos anos 80 e tem mais ou menos a minha idade.
Não agüentei e voltei (até porque dei um tempo nos livros pra jantar e ver os noticiários dos canais 2 e 4). Não lembro se falei disso aqui, mas a Suécia tem uma colônia grande de chilenos, que vieram pra cá fugindo dos anos de ferro da ditadura Pinochet. Segundo o órgão oficial de estatísticas sueco, até o ano passado moravam no país 9.147 chilenos (sem contar seus filhos nascidos aqui). Em 1990, ano de pico da imigração chilena, moravam aqui 19.874 refugiados advindos desse país. (Brasileiros na Suécia em 2003: 1.591)
junho 02, 2004
Choque cultural
Uma das vantagens de estar estudando o processo de integração de imigrantes e refugiados é poder se reconhecer em muitos momentos. Abaixo, traduzi um trecho do livro "Språk, kultur och social identitet" ("Idioma, cultura e identidade social"), de Seija Wellros, que retrata exatamente como me senti muitas vezes aqui, em épocas diferentes. O cansaço crônico a que a autora faz referência, por exemplo, ainda existe, ainda que reduzido.
Choque cultural é a sensação de um caos cognitivo ameaçador e contínuo que acontece graças à falta por parte dos imigrantes de confiáveis instrumentos de tradução e pontos de referência fixos. Esse choque é vivido por todos os que se mudam, durante longo ou curto período de tempo, para um novo ambiente, e pode ter intensidades variadas. (...) Aquele que se muda para um novo país sente ao mesmo tempo o choque de se tornar "surdo-mudo", quando não entende o que se diz nem pode se fazer entender no idioma local.
Me lembro como era complicado pra mim, nos primeiros meses, fazer coisas simples como ir ao supermercado, por exemplo. Ficava em pânico cada vez que a caixa me perguntava alguma coisa e eu não entendia nada. Todo mundo fala inglês, claro, e eu também, mas ainda assim me sentia mal por não poder me comunicar como qualquer outra pessoa na fila atrás de mim, esperando para eu andar rápido.
O fato de poder me comunicar em inglês ajudava, claro, mas, pra mim, não adiantava muito. Me sentia humilhada quando morava aqui e não sabia falar a língua. (Vale comentar que sentia essa humilhação quando já entendia o idioma mas ainda não conseguia falar direito). Os suecos, por outro lado, adoravam poder praticar seu inglês (que é muito bom) com alguém e falavam pelos cotovelos. E eu, minha maior crítica, me sentindo mal, achando que eu não estava me esforçando o suficiente.
Não conseguir diferenciar padrões conhecidos e entender as causas para os atos de outras pessoas a sua volta cria uma insegurança muito grande e quase sempre um cansaço crônico. A cognição está a toda, mas a pessoa mesmo assim não encontra nenhuma conexão entre o que se observa e o que já se sabia sobre as pessoas e o mundo. Não existe lógica e não se entende o que acontece ao nosso redor e dentro de nós.É por isso que existem muitas coisas que provocam surpresa, nervoso ou medo. Tem-se dificuldade em diferenciar o trivial do essencial, o inofensivo do perigoso. Não se pode julgar as intensões de outras pessoas, motivos e características e por isso acaba-se tendo uma imagem não muito real dessas pessoas. O único instrumento de tradução que se tem, seu próprio quadro de referência [trazido do seu país de origem], não é suficiente para recriar e sustentar uma sensação de totalidade e sentido no mundo a sua volta, uma sensação cognitiva de ordem.
Me lembro que meu primeiro ano na Suécia foi o ano em que mais tive dores de cabeça na minha vida. Era uma dor de cabeça pelo menos todas as semanas. Achei até que estava com um tumor no cérebro. Cheguei a um ponto em que precisava desligar tudo, TV, rádio, não estudar nem (tentar) ler mais revistas, jornais ou sites na Web, para que meu cérebro pudesse descansar. A sobrecarga é realmente verdadeira. Fico feliz de saber que esses sinais de cansaço são completamente normais e não eram maluquice da minha cabeça.
O que costuma causar uma inseguranca ainda maior é que a pessoa não tem como saber como ele será julgado, isso porque não se sabe como a "norma" é e o que quer dizer "normal" na nova cultura. Muitas vezes tem-se uma dolorosa consciência de que somos vistos como "estranhos", chatos, provocadores ou problemáticos, mas não sabemos em que ponto ultrapassamos o limite quando a traducäo comeca e a imagem negativa comeca a se formar na cabeca das pessoas.Pode ser problemas com o idioma, pode ser alguma coisa no nosso comportamento. Sentimos que sempre falhamos em nossa comunicacão, tanto verbal como não-verbal, mas não podemos fazer nada a respeito disso. Quando queremos ser educados parecemos metidos e formais. Quando dizemos uma piada, ninguém ri. Quando dizemos alguma coisa séria, os outros riem. Quando tentamos mostrar nossos sentimentos parece que somos patéticos ou dramáticos demais. É doloroso não poder controlar o processo de percepcão, e destrói nossa auto-confianca.
Isso é nítido. No início, nunca sabia o que os suecos pensavam de mim, até porque eles não são exatamente um povo que diz o que pensa. Muitíssimo pelo contrário. Todo mundo queria ser agradável e eu não sabia os limites (e ainda não sei às vezes) até onde ir, até onde me julgar engraçada, amiga, ou apenas uma conhecida que deve ter uma postura mais formal.
Volta e meia ia ao trabalho do meu urso tomar café e os colegas de trabalho dele soltavam umas piadas meio sem pé nem cabeça. Eu não sabia se ria ou não, sinceramente. Não queria ser estraga prazer, mas também não queria dar a impressão de ser muito amiga, até porque fui instruída assim: colegas de trabalho suecos não são como colegas de trabalho brasileiros. Ninguém é íntimo de ninguém. Aí, depois, fiquei sabendo que eles me achavam interessada e divertida. Não quero nem saber o que pensavam aqueles que discordaram deles...
A autora desse livro imigrou da Finlândia para a Suécia há mais de 30 anos e se tornou professora de sueco para imigrantes e, mais tarde, psicóloga. Os livros dela (além desse aqui, já li mais dois, "Kulturmöten till vardags" - "Encontro de culturas no cotidiano" e "Ny i klassen: om invandrabarn i svenska skolan" - "Novo na turma: sobre criancas imigrantes na escola sueca") são sensacionais.
maio 26, 2004
Curso de verão
Hoje o correio veio com boas notícias (como sempre, aliás): fui aceita pra fazer o curso de verão "A sala de aula multi-cultural". BINGO!!!! As aulas começaram na segunda, dia 7 de junho, e irão até os primeiros dias de julho. Poderei, dessa forma, fazer o curso que eu mais queria e ainda ter dois meses de férias depois!!!!
Estou muito feliz!!! Lá-ra-ra-ra-rá :cD
E mais: fui pegar emprestado alguns dos livros que precisarei pro curso e tive uma ótima surpresa. Já tinha pensado em comprar alguns dos livros que constam na lista de literatura obrigatória, até porque o assunto é muitíssimo interessante. Mas a falta de dinheiro é um problema chato, vocês sabem.
Achei interessante, no entanto, o livro "Att bryta upp och byta land" (difícil de traduzir, por se tratar de uma expressão, mas é mais ou menos "Ir embora e trocar de país") e resolvi comprá-lo mesmo assim. Quando o achei na estante da livraria, o abri e dei de cara nas primeiras páginas com um poema de - nada mais nada menos - Dom Helder Câmara!!!
Om jag kunde // Se eu pudesse
skulle jag ge // eu daria
en jordglob // um globo terrestre
till varje barn // para cada criança
och allra helst // e ainda mais
en lysande sådan, // um globo terrestre iluminado
i förhoppning om // na esperança de que
att den skall öppna // ele pudesse abrir
varje barns ögon // os olhos de cada criança
och hos dem väcka // e despertar nelas
intresse för // interesse
och kärlek till // e amor por
alla folk, // todos os povos,
alla raser, // todas as raças,
alla språk // todos os idiomas
och alla religioner! // e todas as religiões!
maio 08, 2004
A fantástica literatura fantástica
Estou apaixonada por esse livro "Den vidunderliga kärlekens historia" (algo como "A fantástica história do amor"), de Carl-Johan Vallgren, que comecei a ler uns dias atrás. O livro ganhou o prêmio August como melhor romance sueco de 2002 - o que geralmente indica que a obra é boa (tanto do ponto de vista literário quando comercial) e, às vezes, meio estranha.
Digo isso porque me lembro que li um outro ganhador do Augustpriset, o "Aprilhäxan" (algo como "Bruxa de abril"), de Majgull Axelsson, que seguiu as mesmas linhas: interessante, boa literatura e com um toque de sobrenatural. Tanto o livro de Vallgren quanto o de Axelsson são histórias fantásticas, semelhantes a de Jorge Luiz Borges e Isabell Allende, por exemplo. ("A Casa dos Espíritos" é um dos meus livros favoritos de todos os tempos)
Ainda não li o suficiente para afirmar com toda a certeza, mas tenho a impressão de que a literatura sueca gosta de uma pitada "fantástica", de pessoas com poderes sobrenaturais, com experiências fora do corpo e coisas do tipo. O estranho - e inusitado - é que os suecos misturam a literatura fantástica com uma prosa mais comum, cotidiana. A mistura fica interessante, principalmente pra quem, como eu, aprecia a capacidade de autores de contar uma história incrivelmente bem estruturada e, ao mesmo tempo, totalmente permeada por pessoas e atos "fora do normal".
Em "Aprilhäxan" conta-se a história de Desirée, uma mulher que nasceu com uma falha cerebral que a impede de falar e se mover. Ela vive numa cama de hospital e se comunica com a ajuda de um computador. O que é diferente aqui é que Desirée tem a capacidade de sair do seu limitado corpo e encarnar em pássaros e pessoas, mais especificamente suas três irmãs - através das quais ela colhe experiências de vida fora do hospital. Parece meio esquisito - e é mesmo - mas o livro é muito bom. Recomendo.
Já o "Den vidunderliga...", conta a história de Hercules Barfuss, que nasceu totalmente deformado em um bordel na Alemanha do século XIX, mas que tem um dom especial: ele lê o pensamento das pessoas a sua volta e pode se comunicar em pensamento também, em qualquer língua. Ainda estou no início, mas tou adorando.
Fui procurar mais info sobre o Prêmio August e fiquei sabendo que ele foi criado em 1989 pelo clube de editoras daqui e premia livros suecos em três categorias: melhor livro de ficção, melhor livro de não-ficção e melhor livro para crianças e jovens. Ah, sim, o prêmio chama-se August em homenagem ao onipresente escritor sueco August Strindberg.
maio 03, 2004
Deficientes
Amanhã começo uma nova série de aulas na universidade, dessa vez direcionada ao estudo de deficiência física e mental. O livro do curso é "Handikapp: synsätt, principer, perspektiv" ("Deficiência: visão, princípios e perspectivas") e é bem legal. Ainda estou no meio (a prova é só no meio da semana que vem) mas já gostei do que li.
O primeiro capítulo, por exemplo, é um barato. Conta como os deficientes são vistos no mundo literário. Interessantérrimo. A autora, Barbro Saetersdal, cita desde Shakespeare até Camus, passando por livros escritos por pais de crianças deficientes, onde os deficientes são geralmente retratados como pessoas/crianças boas e amáveis.
Mas há um outro lado da moeda: a visão dos deficientes como a encarnação do mal. "Richard III não era deficiente físico, mas Shakespeare o fez assim como uma explicação para toda a maldade do personagem", escreve Saetersdal. Deformação é vista como sinal de malvadeza. E a lista não para por aí. Também estão lá Frankenstein, o corcunda de Notre Dame e o fantasma da ópera.
Mas o mais interessante foi ler o segundo capítulo, que descreveu a imaginação popular no que diz respeito ao nascimento de crianças deficientes. Acredite se quiser, mas aqui na Suécia as famílias pobres, que geralmente viviam no campo antes da modernização do Estado (depois da segunda guerra mundial), acreditavam que um troll trocava os bebês "normais" por pequenos bebês troll deficientes.
Isso sempre acontecia quando a mãe - sempre a mãe - colocava o bebê no berço por um momento e se ocupava com alguma outra tarefa. Há relatos formais de famílias que mataram seus filhos por suspeitarem que eles eram bebês troll - isso porque, claro, os bebês começaram a mostrar sinais de deficiência. Que coisa. Alguém sabe se há algum tipo de folclore semelhante no Brasil?
maio 02, 2004
Livros e preconceitos
Não consegui terminar de ler o "Chasing the Dime", do Michael Connelly. Totalmente desinteressante. O autor conseguiu me irritar com o desenrolar da história. Que coisa. Comecei agora esse "Ett öga rött", do Jonas Hassen Khemiri, que é sueco, nascido em Estocolmo, de mãe sueca e pai tunisiano. Tô adorando. Prosa svartskalle de primeira. Recomendo.
svartskalle = svart = preto/negro; skalle = cabeça. Usa-se essa palavra em um contexto racista, mas também como um adjetivo explicativo, cujo uso - se feito por imigrantes - é crescente e aceito. A situação é a mesma dos negros americanos que não toleram serem chamados de nigger por brancos, mas que se chamam assim entre eles próprios. Eu sou uma svartskalle aqui (por ser imigrante, mesmo sem ser negra), mas ficaria chocada e furiosa se um sueco me chamasse assim.
A propósito svartskalle, uma matéria no suplemento de cultura do DN de hoje me chamou atenção: show do Nelson Sargento em Estocolmo. O repórter, Martin Nyström, escreve com uma reverência comovente pelo velho sambista da Mangueira. Muito legal ler o texto, a apreciação das músicas, a descrição do background de Nelson Sargento e da cena cultural carioca.
Um detalhe triste. Escreve Nyström: "No início do show, Nelson Sargento não estava bem. Naquele mesmo dia, ele e a esposa haviam sido barrados na porta de um café em Götgatsbacken (em Estocolmo). Eles foram brutalmente relembrados de que estavam em uma Europa do Norte cheia de preconceitos e segregação. Mas Nelson Sargento faz de tudo para se animar com o show e começou a noite com um 'Goodnight!'"
abril 27, 2004
Ana Cristina para jovens
"A rigor, ela é proibida para menores. Ou assim pensava eu. Mas não é que, para minha surpresa, quando organizei uma antologia para a Nova Fronteira, destinada a estudantes de ensino médio na coleção Novas Seletas, que a editora está lançando, vi que a minha querida Ana, mais viva do que nunca, é ampla, geral e irrestrita.
Sua poesia vai fazer o maior sucesso, seguramente, junto a essa galera que está começando a ir aos shoppings, sozinha, pela primeira vez. Creio que o sucesso se dará porque a poética de Ana Cristina pode ser apreciada por camadas, como um mirabolante sorvete. Os que têm paladar mais apurado vão poder degustá-la, sabor por sabor, gelada e ardente ao mesmo tempo.
Seu "doce mistério", como canta Marina, está justamente nessa combinação de opostos, que dá a sensação, engraçada e desconcertante, de que podemos ser dois leitores diferentes, cada um por si ou simultaneamente. O que quero dizer com isso é que dá o maior pé pegarmos a Ana pelos cabelos, assim, no susto, de passagem. Mas também tem jogo agarrar a cabeça dela, com unhas e dentes, para fazer a nossa.
Mesmo se dizendo "uma mulher do século XIX disfarçada em século XX", Ana C. é ultra-contemporânea, multiuso até a medula. Mas atenção: não é fashion, clubber, nem funciona no automático. Ao contrário, é de improviso: está sempre de mudança, como uma nuvem. Tem muitas interfaces, sua voz atravessa, incólume, todas as estações, há muitos anos.
Nem podemos nos dar ao luxo de sentir saudade. Quando menos se espera, aparece, "oblíqua e dissimulada", mas de olhos azuis, certeira, batendo no alvo, na mosca, na mufa, companheira para toda uma vida, inestimável, sempre essencial e surpreendente. Se você a quiser folhear, ela a princípio se presta - de repente, cobra. Não faz por menos, cobra mesmo, até o fim. Se você a quiser devorar, num fim de semana intenso, no quarto à luz de um spot ou ao ar livre, sob o sol, prepare-se: passe um bloqueador daqueles, senão você vai se queimar fundo, você vai doer, você vai sentir na pele a sua barra. A sua, sim, suando, e a dela também. Chego a ficar na dúvida: valerá a pena bloquear-se ? Não será melhor pagar para ver ? Cada um que escolha o seu destino diante de Ana Cristina César. Desfrutável e inescrutável está aí, aqui, ao alcance de todos. Definitivamente: ela é proibida para menores."
Armando Freitas Filho
Esse texto - prestem bem atenção, que finíssimo! - é a primeira contribuição do meu pai, o poeta Armando Freitas Filho, para o Montanha-Russa. Tudo bem que o texto foi publicado primeiro na revista Megazine, do Globo de hoje, mas nada na vida é perfeito. Hohoho. O texto diz respeito à poeta Ana Cristina César, cuja obra está ganhando um volume da coleção Novas Seletas, da editora Nova Fronteira.
Essa coleção tem como objetivo despertar nos jovens o interesse por autores consagrados como a Ana Cristina. E tem festa no pedaço! O lançamento dos livros será amanhã, às 20hs na Livraria Argumento, no Leblon (Rio de Janeiro). A organização do volume dedicado à Ana Cristina ficou a cargo do meu pai, que é curador da obra dela. Apareçam por lá e dêem um beijo no meu pai por mim! :cDDD
abril 26, 2004
Mulheres... homens...
Um dos livros mais interessantes dessa parte do curso de sociologia foi "Det kallas kärlek", ("Chama-se amor") de Carin Holmberg. O livro é na verdade uma tese de mestrado, na qual Holmberg pergunta como a inferioridade feminina e a superioridade masculina se reproduzem na relação entre um par.
Notem que ela sequer questiona se a mulher é vista como inferior ao homem. Isso porque, segundo a socióloga, não são apenas homens e mulheres que ajudam a manter as coisas como sempre, mas as estruturas sociais que não permitem uma igualdade de direitos e deveres entre os dois sexos.
Holmberg escreve ainda que vivemos numa sociedade masculina, que premia e favorece os homens implacavelmente. Ok, isso a gente já sabia. A diferença é que ela diz que toda e qualquer relação a dois (no caso ela estudou apenas casais heterossexuais sem filhos) é assimétrica, em favor do homem e em detrimento da mulher. Sempre. E tem mais: se antes do nascimento do pimpolho as coisas eram iguais, depois, pode esquecer. A mulher sai sempre sair perdendo - do ponto de vista social (não entro no mérito das maravilhas da maternidade).
Mas aí eu pensei: "Poxa, mas no meu relacionamento as coisas são mais equilibradas. Não sou eu que cozinho sempre, nem lavo a louça (temos lavadoura automática, amém). Meu urso me ajuda na limpeza da casa, cuida do carro etc". Mas de fato, depois de ler o livro, e os depoimentos das pessoas que ela entrevistou pra sua tese, comecei a perceber o desequilíbrio que até nós, mulheres liberadas e preparadas, não notamos.
Um exemplo é quando se discute a divisão de trabalho na casa. Tá lá no livro: "Ele exige que as tarefas domésticas sejam divididas. Ao mesmo tempo, ele acha que as exigências dela no que diz respeito à arrumação são muito exageradas". E ainda: "O ideal dele, quer dizer, a exigência de que as tarefas domésticas sejam divididas, não bate com a prática - no final das contas, ela ainda tem maior responsabilidade sobre o cuidado do lar".
Um dos exemplos é o clássico: "Ela tem uma tolerância muito baixa no que diz respeito à limpeza", dizem os homens (meu urso incluído aí no bolo). E nós, mulheres, ficamos aqui, querendo dividir o trabalho, mas ao mesmo tempo não agüentando quando eles fazem corpo mole e não realizam todas as tarefas designadas. Será que estamos erradas? Será que é pedir demais? Ou será que o que eles estão fazendo é um jogo de poder?
Um dos capítulos mais interessantes é o que discute exatamente a divisão de poder na relação a dois. E está lá uma coisa intererssante e polêmica: "O recurso de poder mais importante para as mulheres é ser a parte que ama menos". Se é verdade, eu não sei, mas essa é uma dessas afirmações que fazem a gente pensar.
Agora me lembrei de um episódio do "Sex and the City" em que a Carrie descreve uma relação que ela teve com um cara e que ela agiu pela primeira vez como um homem faria. Ela tava a fim do cara, levou pra cama, comeu e depois disse: "Tchau, baby! Agora tenho que voltar pro trabalho". Bateu a porta e esqueceu o cara. UHU!
abril 21, 2004
Stigma
Mas não são apenas livros imcompreensíveis que tenho que ler pra universidade. Tem muitos que são interessantérrimos. Um deles é "Stigma", do sociólogo canadense Erving Goffman. É FE-NO-ME-NAL. Discute-se como as pessoas estigmatizadas, seja por problemas físicos, um passado questionável (prisão etc) ou, simplesmente por ser imigrante, são vistas como "não indivíduos". Aqueles que discriminam, que Goffman chama de "normais", têm uma série de rotinas pra se relacionar com quem é diferente. Mas, segundo Goffman, até mesmo quem é diferente tem dificuldade de se livrar de seus defeitos. Veja só:
"For years the scar, harelip or misshapen nose has been looked on as a handicap, and its importance in the social and emocional adjustment is unconsciously all embracing. It is the 'hook' on which the patient has hung all inadequacies, all dissatisfactions, all procrastinations and all unpleasant duties of social life, and he has come to depend on it not only as a reasonable escape from competition but as a protection from social responsability.When one removes this factor by surgical repair, the patient is cast adrift from the more or less acceptable emotional protection it has offered and soon he finds, to his surprise and discomfort, that life is not all smooth sailing even for those with unblemished, 'ordinary' faces. He is unprepared to cope with this situation without the support of a 'handicap', and he may turn to the less simple, but similar, protection of the behavior patterns of neurasthenia, hysterical conversion, hypochondriasis or the acute anxiety states".
Esse exemplo, com alguns ajustes, pode se aplicar a qualquer um que acha que está gordo demais (!!!), que o nariz é grande demais, que o cabelo é crespo demais etc etc etc. Impressionante. Não é apenas psicologia que nos ensina a respeito de nós mesmos.
abril 20, 2004
Vingança
Receita para se vingar de alguém:
1) Convença-a a entrar pra universidade.
2) Lá, inscreva-a num curso de social-psicologia.
3) Faça com que ela tenha que ler os textos "Como a sociedade é possível?", "A Metrópolis e a Vida Mental" ou "O Estrangeiro", do sociólogo alemão Georg Simmel. (Não a obrigue a ler todos os livros dele, senão é morte certa. Afinal, seu objetivo é apenas vingança e não assassinato).
4) Requisite que essa pessoa responda a duas perguntas que incluem temas como vazio existencial, modernidade, cultura objetiva e subjetiva.
5) Não permita que ela escreva sobre suas próprias experiências, e exija que ela se limite a escrever sobre conceitos teóricos sociológicos.
6) Faça com que a pessoa tenha que ler e escrever tudo isso em grego.
Aí você estará perto de entender pelo que estou passando. Apenas perto.
abril 02, 2004
Mulheres e direitos

Um dos livros que estou lendo para o curso de sociologia aborda vários aspectos da situação das mulheres aqui na Suécia. É interessantíssimo. Em linhas gerais o que entendi depois de ler o texto e comparar com o que leio nos jornais, ouço no rádio e vejo na TV, além do que vivo no dia-a-dia, é que apesar das mulheres suecas terem lutado muito durante os últimos 80 anos para se emancipar - e terem conseguido apoio numa das legislações mais liberais e feministas no mundo - muita coisa ainda é como no século passado. Isto é, a atitude das autoridades (advogados, cortes de justiça, polícia e até mesmo da população em geral) continua muito conservadora.
É incrível, mas está lá no livro "Det sociala landskapet - en sociologisk beskrivning av Sverige från 1950-talet till början av 2000-talet" ("A paisagem social - uma descrição sociológica da Suécia dos anos 50 até o início do século XXI") que as mulheres suecas conquistaram igualdade jurídica com os homens já em 1921. Apesar disso e de muitas mudanças sociais desde então, ainda há um descompasso enorme entre o que diz a letra da lei e o que a sociedade considera condenável ou não.
Exemplos? Essa semana dois julgamentos chamaram a atenção da mídia daqui. O primeiro caso é o julgamento de três rapazes acusados de violentar repetidamente uma mulher na cidade de Tumba, que é, se não me engano, um subúrbio perto de Estocolmo. A mulher estava muito bêbada e havia fumado haxixe, o que fez com que ela perdesse em duas instâncias. O problema é sutil: provar que os rapazes não entenderam que a mulher não queria fazer sexo. Isso porque ela estava tão alcoolizada que não conseguiu dizer nem que sim, nem que não. O caso está agora sendo julgado na corte suprema sueca.
O problema aqui é que as mulheres suecas alcançaram tanta igualdade perante à lei, mas na vida privada as coisas ainda são bem diferentes. Beber muito, por exemplo, não é visto como um problema, muito menos quando várias mulheres o fazem cada vez mais, numa tentativa (acho eu) de se aproximar ao ideal de liberdade que aprenderam a ver realizado por irmãos e pais. O problema é que a sociedade ainda não aprendeu esse sinal de liberdade e auto-determinação e ainda julga as mulheres com os olhos conservativos pertencentes a um cidadão dos anos 50.
Apesar dos rapazes terem feito o que fizeram e de terem, além disso, chamado mais dois amigos para "aproveitar" a mulher, dois juízes deram ganho de causa a eles. Impressionante. Outro caso foi de uma menina de 15 anos que foi violentada porque "usava roupas provocativas". Um outro caso, mais antigo e que levantou uma onda de protestos, foi o julgamento de uma jovem cujos pais, imigrantes da ex-Iugoslávia, a trancaram no quarto para que ela não saísse com rapazes suecos. O advogado dos pais em seu interrogatório em pleno julgamento, disse que a menina "parecia mesmo uma puta", fazendo referência às roupas que ela usava.
Apesar desses absurdos, a Suécia tem uma das legislações mais liberais do mundo. A lei do aborto, por exemplo, é vista como um direito claro das mulheres suecas desde os anos 60. A revolução sexual dessa época (introdução da pílula e do DIU) também aconteceu aqui, claro, mas com uma diferença: já em 1974 as mulheres suecas conquistaram o direito de interromper a gravidez até a 11o (ou o início da 12o). E aqui, num estado secularizado e onde não se confunde religião com noções morais, o direito de decidir sobre seu próprio corpo é respeitadíssimo.
As leis, como eu disse, são fantásticas e realmente funcionam e ajudam as mulheres a ter uma vida mais justa, mas se depender de julgamento, cujas normas são dominadas pelo L'Homme moyen (branco, por volta dos 50 anos e tradicionalista), estamos perdidas.
Leia aqui um artigo da jornalista Hanne Kjöller sobre a dificuldade que certas mulheres de "conduta duvidosa" têm para conseguir justiça. O título é "Algumas mulheres não podem ser violentadas", no sentido de que elas já estão tão abaixo de qualquer crítica moral que ninguém se importa se elas disseram não ao homem.
março 18, 2004
Extra! Extra!
A escritora brasileira Lygia Bojunga Nunes (foto) ganhou o prêmio Astrid Lindgren de Literatura Infantil! O prêmio é, segundo a imprensa e o governo sueco, um dos maiores prêmios de literatura do mundo, perdendo em importância apenas para o Prêmio Nobel. A notícia saiu na primeira página do Dagens Nyheter (DN). Muito legal!!!
Li "A Bolsa Amarela" quando era menina, e um dos livros que sobreviveram à minha limpa e me acompanharam na mudança Brasil=>Suécia foi "Na Corda Bamba", também da Lygia Bojunga Nunes. Quando li esse livro devia ter uns 13, 14 anos. Nunca esqueci. Que profundidade, que lirismo! (Além do mais, a personagem principal chama-se Maria!)
Na notícia do DN, a repórter diz que entrevistou Lygia Bojunga Nunes pelo telefone e que ela estava feliz e muito surpresa com o prêmio. Agora, ele pretende criar um centro de cultura para facilitar o contato das pessoas com livros. Para isso, ela poderá contar com cinco milhões de coroas suecas, o que dá (eu acho) cerca de 700 mil dólares.
UHU!!!!
Veja a matéria do DN aqui.
março 10, 2004
Rádio e livros
Fazia um pequeno almoço pra mim hoje quando decidi ligar o rádio. Acho que estava me sentindo meio sozinha e precisava o conforto da voz humana. Enquanto a água fervia (fiz uma sopa instantânea - muito boa) sintonizei na estação P1, uma das rádios públicas daqui (tem ainda P2, P3 e P4, cada uma com seu público alvo, jovens, velhos etc).
Imediatamente uma voz feminina me prendeu a atenção. Ela estava lendo um livro. Era uma tradução porque todos os nomes eram em inglês, mas a pessoa lia e eu fui entrando na narrativa. Quando mordia o pão não conseguia escutar o que era dito, de forma que várias vezes deixava a fatia entre os dentes sem mastigar, hipnotisada pela história.
Depois de meia hora, durante a qual consumi uma pequena cumbuca com sopa minestrone e um pedaço de pão com queijo e caviar (é barato aqui, não é luxo não), a leitura terminou. Fiquei sabendo que aquele programa era um Folhetim de Rádio (radioföljetongen), no qual lê-se um capítulo (ou um trecho) de um livro por dia. O livro era Foxfire, de Joyce Carol Oates.
Adoro ouvir histórias. Me dê um bom contador de aventuras e eu prometo atenção total. Chego a prender a respiração quando alguma coisa está pra acontecer. Vejo a narrativa na minha frente, como cenas de um filme. Mágico. Agora tenho que ouvir à continuação todos os dias. Ou então, preciso ter esse livro. Por que nunca li Joyce Carol Oates antes?
fevereiro 21, 2004
Livros
Acabei de ler agora o "Skipping Christmas", do John Grisham. Adorei o livro até o capítulo 13, mais ou menos. A história estava tão interessante que eu simplesmente não consegui parar de ler. Mas o final me decepcionou muito. Acho que o John Grisham é muito bacana, mas essa coisa americana de que tudo acaba sempre bem, que as tradições são sempre respeitadas e uma lição é dada naqueles que tentam fugir ao mainstream me irrita profundamente. Comecei a ler o Tony Parsons em busca da acidez britânica, onde o mundo não é sempre cor-de-rosa e a gente pode rir das desgraças do nosso cotidiano mais livremente.
fevereiro 10, 2004
Pedagogia e puritanismo
Li muito nesses dias inóspitos (leia-se: com gripe e sem computador). Se bem que minha capacidade de concentração foi grandemente reduzida pela febre e pelo mal-estar que essa gripe maledeta me deu. Mesmo assim, as provas estão aí e eu não posso ceder à pressão. O lance é achar o equilíbrio entre o estresse e capacidade de se acalmar.
No livro "Den svårtfångade socialpedagogiken" (mais ou menos "A difícil arte de definir a Socialpedagogia"), li sobre a vida e o trabalho de Paulo Freire, nascido em (no???) Recife em 1921. Já tinha ouvido falar dele, mas nunca tinha ido além disso. Tenho que dizer que estou feliz e orgulhosa de ter descoberto um brasileiro que serve de padrão para estudos em todas as faculdades importantes de pedagogia. O máximo.
Não vou descrever teorias pedagógicas aqui, mas resumindo, Paulo Freire defendia que todas as pessoas têm uma capacidade interna que precisa ser liberada. O desenvolvimento humano, para ele, depende em primeiro lugar da alfabetização da pessoa. Tem muito mais, mas ficaria escrevendo aqui até amanhã pra explicar em que contexto ele disse isso. Leia mais sobre o pedagogo pernambucano na página do Instituto Paulo Freire.
Em outro livro, "Konsten att argumentera" ("A Arte de argumentar"), li uma coisa que adorei. É o tipo da cultura inútil, mas até por isso mesmo, legal. Na Inglaterra da Era Vitoriana mostrar partes do corpo era impensável. Se o pé de uma dama não podia ser visto descoberto, muito menos as pernas. E, como vocês sabem, tudo o que é reprimido de um jeito, acaba aparecendo de outro.
Aparentemente a libido masculina vitoriana não precisava de pernas femininas humanas para desencadear pensamentos impuros. O desespero por cobrir pernas era tanto que até as cadeiras começaram a ter suas pernas cobertas por brocados e franças. Quando nego começa a sentir tesão por uma cadeira é sinal de que a situação já foi um pouco longe demais, concordam?
janeiro 31, 2004
Um anjo em minha mesa
Li no jornal de ontem que a escritora neozelandesa Janet Frame morreu. Foi ela quem escreveu "Um Anjo em minha mesa". O livro, que faz parte de uma autobiografia escrita em forma de trilogia, virou filme nas refinadas mãos da Jane Campion, a mesma criadora do maravilhoso "O Piano".
Me lembro com carinho do filme "Um Anjo em minha mesa", apesar de nunca ter lido o livro. Acho a atriz Kerry Fox (uma versão mais rude da lindíssima Cate Blanchett) um verdadeiro achado. Foi ela quem interpretou Janet Frame. O cabelo vermelho alvoroçado é simplesmente maravilhoso.
Quando li a notícia da morte da autora, vários flashes do filme me vieram à cabeça, e olha que eu sou daquelas que esquece todos os filmes que assiste. Esqueço tudo, mas esse filme ficou. Depois da morte de duas irmãs - ambas morreram afogadas - ela foi internada no hospício Seacliff onde passou oito anos e quase sofreu uma lobotomia.
O médico não fez a cirurgia porque leu no jornal no último minuto que o primeiro livro de Janet havia ganho um prêmio para escritores iniciantes. Lembro de muitas partes do filme, como campos verdes da Nova Zelândia (nada a ver com O Senhor dos Anéis), mas principalmente de quando ela tentou dar aulas e, muito tímida e insegura, saiu correndo da sala de aula.
Mas o mais bonito do filme é mostrar a brutalidade das pessoas (professores, médicos etc) que não viam a delicadeza de alma da Janet e a julgavam apenas pelo que era evidente: uma pessoa com um certo desequilíbrio psicológico e uma timidez quase patológica. Lindo, lindo, lindo.
Matéria sobre a morte de Janet Frame no New York Times. (Em inglês)
Veja a matéria que li ontem de manhã. (Em sueco - Dagens Nyheter)
Leia mais sobre a trilogia autobiográfica de Janet Frame. (Em inglês, Amazon.com)
Site do filme "Um anjo em minha mesa". (Em inglês, IMDB)
janeiro 29, 2004
Livros
Acabei de ler ontem o "The King of Torts" do John Grisham e me decepcionei. É, pela primeira vez não gostei de um livro dele. Não que o tenha abandonado, muito pelo contrário. O livro é uma delícia de ler, até porque a principal característica do Grisham não é exatamente sua criatividade, mas o modo delicioso como ele escreve sobre as mesmas coisas.
O livro conta a história de um advogado (claro) que por uma razão ou outra começa a ganhar dinheiro defendendo consumidores de remédios cujos efeitos colaterais causam defeitos nas válvulas do coração ou tumores malignos nos rins. O Grisham descreve brilhantemente como nosso herói, Clay, começa a ganhar dinheiro e, deslumbrado, não consegue mais parar de gastar.
Acho que estaria de bom tamanho se o Grisham tivesse escrito uma matéria sobre esse tipo de prática legal, não um livro. A história do Clay é OK, mas parece um enredo auxiliar, criado para romantizar a verdadeira história do livro - uma crítica sutil ao sistema jurídico americano que permite que advogados persigam - a palavra certa é stalking - a indústria farmacêutica com ameaças de casos milionários.
Mesmo assim, você fica meio que enfeitiçado pelo redemoinho de acontecimentos, e, claro, nervoso de como se gasta dinheiro nos EUA. Sai como água. Não vou contar nada do livro porque desconfio que tem uma galera que é como eu, gosta que se enrosca de ler esse tipo de livro.
Esse outro livro que comecei ontem mesmo, "Tisdagarna med Morrie", de Mitch Albom é simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO. Quer ler uma prosa bem escrita, direta, inteligente e emocionante? Então você precisa ler esse livro. Se compra-lo em inglês, não se deixe enganar pelo título, "Tuesdays with Morrie: An Old Man, a Young Man, and Life's Greatest Lesson". Parece meio idiota, mas o livro, eu prometo, vale a pena.
janeiro 11, 2004
Livro
Nossa, o livro "Yttersta Domen", da P.D. James (foto à direita) é ótimo (título no original é "Death in Holy Orders", 2001). É a primeira vez desde que assisti "Sexto Sentido", do M. Night Shyamalan, que não faço a mínima idéia de como a história vai terminar. Muito bom. No entanto, demora-se um pouco pra se "entrar" na narrativa.
A P.D. James decreve tudo tão cuidadosamente, os detalhes são tantos, que às vezes irrita. Por outro lado, é evidente o prazer que ela teve em construir a história. Nada é repetido. O texto é longo, rico, porém enxutíssimo. O livro é muito bom... e o Dalgliesh é um charme! :c) Update: Agora já sei como terminou e me fez querer comprar outros livros da P.D. James.
dezembro 28, 2003
Feminismo na madrugada
Ainda nem são seis da matina e cá estou eu, acordadona, depois de ter ido dormir à meia-noite. Fui acordada às cinco da manhã pelo trator que retira neve das ruas, que resolveu nos premiar com ruas sem neve nesse domingo de manhã. Claro. Nevou pra burro ontem e anteontem, mas porque retirar a neve na noite de sábado pra domingo? Num dava pra esperar mais um pouco não? Ó céus...
Bom, já que estou aqui... Durante o feriado de natal eu li o livro "Min mosters migrän" (= "A enxaqueca da minha tia"), da escritora dinamarquesa Hanne-Vibeke Holst. Não sabia quando comprei o livro, mas estava começando a ler uma obra feminista. Gostei muito de várias coisas, de outras nem tanto, mas a narrativa é tão pessoal (e universal) que é impossível não se identificar.
O livro conta a história da escritora, uma jornalista dinamarquesa moderna, que desde sempre lutou pela total igualdade entre homens e mulheres. Em todos os sentidos, mesmo depois de ter tido filhos e virado mulher de fulano, em vez de uma pessoa com identidade própria. Aliás, isso é um tema recorrente no livro inteiro, a coisa da identidade e da integridade como indivíduo.
Queria ver até onde o feminismo escandinavo me levaria e não me decepcionei. Há uma percepção de que as mulheres daqui lutam sem parar desde o século retrasado e ainda assim há muito mais pelo que se lutar. Apesar da aparente igualdade que as mulheres gozam nos países nórdicos, a coisa ainda não é como deveria. E a culpa? É dos homens, certo? Well, não exatamente.
Passamos a vida inteira - assim como a escritora - querendo ser one of the boyz e não nos damos conta de que isso, por si só, já é um indício de que as coisas não são como deveriam. Pra que precisar ser aceita pela elite se essa elite não nos representa? É quase que totalmente formada por homens que são "levados a sério" por nós, mulheres. Nós alimentamos a roda da desigualdade.
Mas não vou ficar aqui discutindo minhas idéias sobre isso. Pelo menos não hoje porque está muito cedo pra ficar p*** da vida. O livro tem partes engraçadas. Uma delas é quando a autora diz que estava tão infeliz na sua luta por igualdade que simplesmente queria que a tal da sua integridade como pessoa fosse pras cucuias, tudo em troca de um amor. :c)
Uma parte do livro descreve com precisão como me sinto às vezes aqui não apenas com relação às dificuldades como mulher, mas como pessoa em geral mesmo: "Styrka, ja! Vi är starka, var och en. Men alla känner vi dessutom väl till känslan av att gå i vatten. Av motståndet man inte ser." ("Força, sim! Nós [mulheres] somos fortes, cada uma de nós. Mas todas nós conhecemos a sensação de caminhar debaixo d'água. A resistência que não se vê".)
Aliás, o livro chama-se a "enxaqueca da minha tia" porque a tia da autora foi casada por mais de 30 anos e sempre sofreu de uma enxaqueca crônica que a impedia de comparecer às funções de família etc. Quando ela decidiu se separar do marido - helás! - a enxaqueca desapareceu... Ho ho ho
dezembro 05, 2003
Tudo diferente
Quando comecei a estudar sueco não sabia que teria de aprender também um novo sistema de pontuação. Mas foi o que aconteceu. Sim, vírgula, ponto e vírgula, dois pontos e até aspas são usadas de forma com-ple-ta-men-te diferente do que estou acostumada no Brasil, em português.
Aqui, diz-se assim: "Ela passou por dois três quarteirões, até chegar lá". Não se coloca vírgula entre os numerais. Além disso, a construção das orações é tão diferente que a vírgula, pasmem, só atrapalha. Explico: Em sueco, escreve-se assim: "Ontem convidou Carlos Maria para um café", ou seja, o Carlos convidou a Maria para um café. Mas em sueco a frase é exatamente assim, um atrás do outro sem qualquer interrupção rítmica. Complicado.
No caso de ponto e vírgula, a situação não fica melhor. Confesso que o ponto e vírgula nem sempre era bem-vindo em jornalismo. Ou coloca-se ponto ou vírgula. Mas aqui, parece que o coitado do ponto e vírgula não existe. É raríssimo vê-lo num texto. Se não se pode separar com vírgula ou não se coloca nada ou coloca-se um ponto.
Os dois pontos também são diferentes. Não na sua utilização, mas no que vem depois. Se depois dos dois pontos você escrever uma frase completa, com sujeito, verbo, objeto etc, terá necessariamente que iniciar a frase com letra maiúscula. "Eu disse a ela: Nós não vamos fazer isso!" E, pra terminar, as aspas. Foi uma das primeiras coisas que notei nos textos impressões daqui, a maior maluquice: quando se coloca aspas no início de uma frase elas não são viradas para dentro, como em português, mas para fora. (Veja na imagem ao lado)
novembro 23, 2003
Domingo
Acabei de ler o Coetzee. Muito bom, viu? Seco, direto e profundo. Bom mesmo. Mas da próxima vez, leio em inglês. Só digo mais uma coisa pra vocês: não sei porque existe cólica na vida. É uma dor totalmente desnecessária e estressante. Abençôo o criador do Ponstan e da bolsa de água quente. Até amanhã.
novembro 13, 2003
Biscoito fino
Prestem bem atenção que chique: o tradutor dos livros do meu pai na Catalunha (ou seria Espanha?), Josep Domènech Ponsa, já traduziu um dos poemas para o catalão do novo livro do meu pai. Não tenho como analisar o poema (quem sou eu) mas posso dizer que saboreio o idioma e noto traços de francês, italiano, espanhol e até português. Logo abaixo o poema no original. Enjoy!
19
Escriure el pensament a mà.
Reescriure passant en net
passant la pinta gruixuda, ratllar
guixar a la interlínia, copiar
aguantant-se el cap, pels cabells
escrivint a màquina, passant la pinta
fina furiosa, corregint, suant
i escoltant el temps de la respiració.
Després, teclejar sense dolor, esborrant
absolutament l'error, errar.

19
Escrever o pensamento à mão.
Reescrever passando a limpo
passando o pente grosso, riscar
rabiscar na entrelinha, copiar
segurando a cabeça, pelos cabelos
batendo à máquina, passando o pente
fino furioso, corrigindo, suando
e ouvindo o tempo da respiração.
Depois, digitar sem dor, apagando
absolutamente o erro, errar.
novembro 01, 2003
Sobre livros
Terminei de ler o "Five Quarters of the Orange" (Joanne Harris) ontem e tenho que dizer que gostei muito. Adorei a coisa da mãe escrever um diário em seu livro de receitas. Ela faz confissões entre listas de ingredientes e modos de fazer. Muito bom. É uma literatura mais feminina, devo dizer. Mas a história propriamente dita - o que aconteceu com uma família numa cidadezinha do Vale do Loire na França durante a Segunda Guerra Mundial - é interessante para homens também. Acho que vou comprar mais livros da Joanne Harris. Além de Chocolat, alguém já leu mais algum que valha a pena?
Ontem à noite comecei a ler "Lasermannen : En Berättelse Om Sverige". O título pode ser traduzido como: "O homem do laser - uma história sobre a Suécia". Peguei o livro às 23hs e não consegui mais largar. Fui dormir tardíssimo. O livro é, na verdade, uma reportagem-livro do jornalista Gellert Tamas na qual ele reconstrói a Suécia de 1991-92, quando John Ausonius matou um homem e feriu outros dez com sua arma com mira a laser. Todos os homens feridos eram imigrantes. Detalhe: Ausonios era ele próprio filho de imigrantes. O livro é fenomenal.
Tamas constrói a narrativa perfeitamente, dando todos os detalhes importantes de background de cada participante da trama, desde Ausonius, cuja mãe era alemã e o pai suíço, até as vítimas (imigrantes da Eritréia, do Irã etc), como fugiram de seus países e seus planos em ter uma vida melhor na Suécia, passando por políticos que à época construíram mais um partido político de extrema-direita e conseguiram inclusive assentos no parlamento.
Além de contar uma história eletrizante de uma mente que enlouquece aos poucos no meio da pacífica Suécia, Tamas constrói um cenário social interessantíssimo, de como seu país funciona. Estou encantada. O livro me lembra muito "A Sangue Frio" de Truman Capote (que meu pai me emprestou anos atrás). Alguém aqui leu? É simplesmente M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O.
UPDATE => Tem até um brasileiro entre as vítimas do "Homem do laser" sueco. Herbeson Vieira da Costa, de São Bernardo dos Campos, foi a quarta vítima do maluco em Estocolmo. Ele foi atingido por três tiros mas conseguiu sobreviver (pelo menos até a página 121, onde parei de ler ontem à noite)
outubro 10, 2003
Gripe, Grisham e o impossível
Estou gripada, sem febre mas entupida. Ainda estou às voltas com provas e que tais. Sem tempo pra flanar na Internet, infelizmente. Mas meu ombro agradece. Vi ontem uma entrevista com o John Grisham que me deixou supresa. Não sabia que ele era mal-visto nos EUA pelos críticos, que dizem que seus livros são "comerciais". (Cada um tem o Paulo Coelho que merece)
Eu adoro os livros do John Grisham. São muitíssimo bem escritos. Tenho sempre a sensação que estou sendo conduzida por uma viagem minuciosamente programada pelo guia, que sabe exatamente quando soltar uma informação e quando deixar que eu tire minhas próprias conclusões.
Essa patrulha crítica me enche o saco, aliás. E posso falar isso porque leio de tudo um pouco, desde Paulo Coelho até Dostoiévski, passando por Machado de Assis e as novelas "Julia" de banca de jornal (ou Danielle Steell - já leram? É viciante! Morro de raiva das heroínas, mas não consigo largar o diabo do livro.)
Essa coisa me cansa: você precisa ser inteligente, linda, jovem, camarada, animada, enturmada, capaz, boa mãe, boa filha e boa amante, adorar fazer ginástica, se preocupar com a moda, limpar, passar e cozinhar e ainda ter um corpo perfeito e cheirar a lavanda todos os dias. E, no final, não pode nem sequer escolher o livro que quer ler para relaxar de todas essas coisas. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
E amanhã, mais fotos de outono. Aguardem! :cD
outubro 02, 2003
Nobel
Viram quem ganhou o Nobel de literatura esse ano? Foi o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee. Alguém já leu alguns de seus livros? Pode me indicar algum pra ler?
Fiquei curiosa para lê-lo depois que li a materinha da Reuters, publicada no Globo, sobre o prêmio e o escritor. Está lá escrito: "Seu estilo contido e alegórico rendeu-lhe comparações com Franz Kafka e Samuel Beckett."
Nada mal, né? Mas ainda tenho esperanças que os suecos um dia hão de olhar mais ao oeste da África e descobrirão João Cabral de Mello Neto, Ferreira Gullar etc. Já pensou que legal?:c)
agosto 22, 2003
Vírus

Finalmente, depois de dias de resistência, o vírus SoBig se fez presente na minha vida. Estou sem conseguir baixar emails e nem consigo entrar no site da Telia, onde poderia verificar minhas mensagens online. Então, se você me mandou um email e ainda está esperando uma resposta, das duas uma: ou eu ainda não o recebi ou a lerdice tomou conta e eu ainda não o respondi. Sorry.
Já resolvi. O problema era mesmo com os servidores da Telia que, gentilmente, não permitiu que os emails poluídos chegassem a mim. Agora só falta arranjar forças pra responder aos emails que chegaram. Já já faço isso, ok? Obrigada pela compreensão!

Devaneio
Está tudo nublado aqui, do céu à cabeça das pessoas. Mas não está frio, engraçado. O livro que estou lendo - mais um da série do inspetor Wallander - inclui o personagem principal de um outro livro do Henning Mankell. Acho interessante quando escritores fazem isso: combinam pessoas/personagens de livros distintos.Falando em personagens que voltam à vida, alguém viu um filme antigaço (1940) chamado "O Pássaro Azul", com a Shirley Temple ainda criança? Eu vi esse filme muitas vezes e é um dos que eu mais gosto (junto com a "Maravilhosa Fábrica de Chocolate", "E.T.", "Todos os homens do presidente", etc.) No filme, a Shirley Temple é triste porque é pobre e acaba saindo em busca do pássaro azul - aquele que traz alegria.
No caminho, se depara com gente má (a gata Tylette) e com gente boa (o cachorro Tylo), passa por incêndios e todo o tipo de aventura. Mas uma parte me faz particularmente feliz: quando ela e o irmão menor chegam ao céu - ou o lugar para onde vão as pessoas que morrem. Eles encontram seus avós que ainda cuidam da antiga casinha deles, como se ainda fossem vivos.
O mais legal é que o avô conta pra Shirley Temple que ele e a avó "voltam à vida" quando os netos se lembram deles. Basta lembrar pra eles deixarem de "dormir" e voltarem a "viver". A primeira vez que vi esse filme eu tinha uns nove anos mais ou menos e ninguém da minha família havia morrido. Nunca mais me esqueci disso e hoje sempre que penso no meu avô e avó paternos, lembro desse filme.
Que coisa, como é que eu comecei a falar disso??? Eu hein...
agosto 15, 2003
Perfeito
Copiado da Ana Maria.
No original
Copiado da Marina.
julho 26, 2003
Vou te contar uma coisa...
... Deveria ser proibido lançar qualquer livro do Harry Potter no verão. É uma tremenda sacanagem. Explico: o dia está lindo, lindo, lindo. Quente, delicioso. E eu aqui, em casa, capaz apenas de vir aqui ao computador para respirar... Mas o que eu quero mesmo é meter a cara no livro e ler as mais de setecentas páginas até acabar... Ó, céus.
Atualização às 23hs - Estava esvaziando minha maquininha digital e achei fotos passáveis da casinha de descanso onde ficamos no nosso piquenique, sobre o qual escrevi logo ali no dia 22/07. Vejam que coisa mais linda:

julho 20, 2003
Livros
Comecei a ler o quinto livro do Harry Potter dia 16, logo depois do meu aniversário. Pra variar, estou mais do que viciada. Cada vez que pego livro pra ler (todos os dias antes de dormir) tenho uma sensação ao mesmo tempo boa e ruim. Boa porque estou lendo um livro maravilhoso, divertido, bem escrito, delicioso. E ruim porque a cada página que leio, o livro vai chegando ao fim.
Tenho essa sensação sempre que leio os livros da JK Rowling, desde quando comprei meu exemplar de "Harry Potter and the Sorcerer's Stone", em 1999. Mas já senti isso antes. Foi quando fiz 15 anos e ganhei da minha tia Alaíde "A Casa dos Espíritos", da Isabel Allende.
Nunca vou me esquecer desse livro. O trouxe pra Suécia, como um dos poucos sobreviventes da minha bibliotequinha que me acompanharam por sobre o Atlântico. Cada página que eu lia sentia uma deliciosa sensação de prazer ao mesmo tempo em que me angustiava com o inevitável fim do livro. (Não julgue a história se você viu apenas o filme, com Glenn Close e Jeremy Irons. O livro é muito melhor.)
Outro dia estava mergulhada nas aventuras do Harry quando pensei: "Imagina quando eu terminar de ler o sétimo livro... Como é que vai ser?" Bom, nem quero pensar nessa possibilidade... ainda :c(
março 25, 2003
"Apanhador no Campo de Centeio"
Sou maluca pelo "Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger. O estou relendo porque vou fazer uma prova oral de inglês amanhã e preciso ter lido um livro para poder comentar a história (mostrar que entendi e que sei fazer um resumo dos acontecimentos). Lógico, fui ver o que se escreveu sobre esse livro maravilhoso na Internet e achei um site ótimo, com análises interessantíssimas e ainda links fundamentais. Um deles é o artigo abaixo, escrito por Louis Menand para a The New Yorker quando a publicação do livro completou 50 anos. Sei que é longo, mas resolvi reproduzi-lo abaixo porque "explica" maravilhosamente bem o "Apanhador.." e toda a mística construída em torno de seu personagem principal, Holden Caufield, e do autor do livro, J.D. Salinger, que vive em reclusão desde o fim dos anos 40.
Ao contrário do que Menand diz no seu artigo, não foram meus pais que me indicaram o "Apanhador.." pra ler, mas o comprei porque havia lido "Feliz Ano Velho", do Marcelo Rubens Paiva e lá ele cita o livro do Salinger. A primeira vez que li, aos 14 anos mais ou menos, achei bacana mas não entendi muito. Numa segunda leitura, quando já era mais adolescente, me identifiquei com a rebeldia do Holden. Hoje, o que me toca é a profunda tristeza dele com relação à morte do irmão, Allie, um acontecimento recorrente na história e que faz de Holden o que ele é. Seja como for, Holden é um dos melhores personagens da literatura universal jamais criados - parece clichê, e até é, mas é verdade. Parece até um contrasenso, mas mesmo sendo um jovem sem ambigüidades, Holden tem uma personalidade tão complexa que é apaixonante.
HOLDEN AT FIFTY
by LOUIS MENAND
"The Catcher in the Rye" and what it spawned.
Issue of 2001-10-01
Posted 2001-09-27 at The New Yorker Magazine
"The Catcher in the Rye" was turned down by The New Yorker. The magazine had published six of J. D. Salinger's short stories, including two of the most popular, "A Perfect Day for Bananafish," in 1948, and "For Esmé-with Love and Squalor," in 1950. But when the editors were shown the novel they declined to run an excerpt. They told Salinger that the precocity of the four Caulfield children was not believable, and that the writing was showoffy-that it seemed designed to display the author's cleverness rather than to present the story. "The Catcher in the Rye" had already been turned down by the publishing house that solicited it, Harcourt Brace, when an executive there named Eugene Reynal achieved immortality the bad way by complaining that he couldn't figure out whether or not Holden Caulfield was supposed to be crazy. Salinger's agent took the book to Little, Brown, where the editor, John Woodburn, was evidently prudent enough not to ask such questions. It was published in July, 1951, and has so far sold more than sixty million copies.
The world is sad, Oscar Wilde said, because a puppet was once melancholy. He was referring to Hamlet, a character he thought had taught the world a new kind of unhappiness-the unhappiness of eternal disappointment in life as it is, Weltschmerz. Whether Shakespeare invented it or not, it has proved to be one of the most addictive of literary emotions. Readers consume volumes of it, and then ask to meet the author. It has also proved to be one of the most enduring of literary emotions, since life manages to come up short pretty reliably. Each generation feels disappointed in its own way, though, and seems to require its own literature of disaffection. For many Americans who grew up in the nineteen-fifties, "The Catcher in the Rye" is the purest extract of that mood. Holden Caulfield is their sorrow king. Americans who grew up in later decades still read Salinger's novel, but they have their own versions of his story, with different flavors of Weltschmerz-"Catcher in the Rye" rewrites, a literary genre all its own.
In art, as in life, the rich get richer. People generally read "The Catcher in the Rye" when they are around fourteen years old, usually because the book was given or assigned to them by people-parents or teachers-who read it when they were fourteen years old, because somebody gave or assigned it to them. The book keeps acquiring readers, in other words, not because kids keep discovering it but because grownups who read it when they were kids keep getting kids to read it. This seems crucial to making sense of its popularity. "The Catcher in the Rye" is a sympathetic portrait of a boy who refuses to be socialized which has become (among certain readers, anyway, for it is still occasionally banned in conservative school districts) a standard instrument of socialization. I was introduced to the book by my parents, people who, if they had ever imagined that I might, after finishing the thing, run away from school, smoke like a chimney, lie about my age in bars, solicit a prostitute, or use the word "goddam" in every third sentence, would (in the words of the story) have had about two hemorrhages apiece. Somehow, they knew this wouldn't be the effect.
Supposedly, kids respond to "The Catcher in the Rye" because they recognize themselves in the character of Holden Caulfield. Salinger is imagined to have given voice to what every adolescent, or, at least, every sensitive, intelligent, middle-class adolescent, thinks but is too inhibited to say, which is that success is a sham, and that successful people are mostly phonies. Reading Holden's story is supposed to be the literary equivalent of looking in a mirror for the first time. This seems to underestimate the originality of the book. Fourteen-year-olds, even sensitive, intelligent, middle-class fourteen-year-olds, generally do not think that success is a sham, and if they sometimes feel unhappy, or angry, or out of it, it's not because they think most other people are phonies. The whole emotional burden of adolescence is that you don't know why you feel unhappy, or angry, or out of it. The appeal of "The Catcher in the Rye," what makes it addictive, is that it provides you with a reason. It gives a content to chemistry.
Holden talks like a teen-ager, and this makes it natural to assume that he thinks like a teen-ager as well. But like all the wise boys and girls in Salinger's fiction-like Esmé and Teddy and the many brilliant Glasses-Holden thinks like an adult. No teen-ager (and very few grownups, for that matter) sees through other human beings as quickly, as clearly, or as unforgivingly as he does. Holden is a demon of verbal incision. He sums people up like a novelist:
"You had to feel sort of sorry for her, in a way." The secret to Holden's authority as a narrator is that he never lets anything stand by itself. He always tells you what to think. He has everyone pegged. That's why he's so funny. But The New Yorker's editors were right: Holden isn't an ordinary teen-ager-he's a prodigy. He seems (and this is why his character can be so addictive) to have something that few people ever consistently attain: an attitude toward life.
The moral of the book can seem to be that Holden will outgrow his attitude, and this is probably the lesson that most of the ninth-grade teachers who assign "The Catcher in the Rye" hope to impart to their students-that alienation is just a phase. But people don't outgrow Holden's attitude, or not completely, and they don't want to outgrow it, either, because it's a fairly useful attitude to have. One goal of education is to teach people to want the rewards life has to offer, but another goal is to teach them a modest degree of contempt for those rewards, too. In American life, where-especially if you are a sensitive and intelligent member of the middle class-the rewards are constantly being advertised as yours for the taking, the feeling of disappointment is a lot more common than the feeling of success, and if we didn't learn how not to care our failures would destroy us. Giving "The Catcher in the Rye" to your children is like giving them a layer of psychic insulation.
That it might end up on the syllabus for ninth-grade English was probably close to the last thing Salinger had in mind when he wrote the book. He wasn't trying to expose the spiritual poverty of a conformist culture; he was writing a story about a boy whose little brother has died. Holden, after all, isn't unhappy because he sees that people are phonies; he sees that people are phonies because he is unhappy. What makes his view of other people so cutting and his disappointment so unappeasable is the same thing that makes Hamlet's feelings so cutting and unappeasable: his grief. Holden is meant, it's true, to be a kind of intuitive moral genius. (So, presumably, is Hamlet.) But his sense that everything is worthless is just the normal feeling people have when someone they love dies. Life starts to seem a pathetically transparent attempt to trick them into forgetting about death; they lose their taste for it.
What drew Salinger to this plot? Holden Caulfield first shows up in Salinger's work in 1941, in a story entitled "Slight Rebellion off Madison," which features a character called Holden (he is not the narrator) and his girlfriend, Sally Hayes. (The story was bought by The New Yorker but not published until 1946.) And there are characters named Holden Caulfield in other stories that Salinger produced in the mid-forties. But most of "The Catcher in the Rye" was written after the war, and although it seems odd to call Salinger a war writer, both his biographers, Ian Hamilton and Paul Alexander, think that the war was what made Salinger Salinger, the experience that darkened his satire and put the sadness into his humor.
Salinger spent most of the war with the 4th Infantry Division, where he was in a counter-intelligence unit. He landed at Utah Beach in the fifth hour of the D Day invasion, and ended up in the middle of some of the bloodiest fighting of the liberation-in Hürtgen Forest and then in the Battle of the Bulge, in the winter of 1944. The 4th Division suffered terrible casualties in those engagements, and Salinger, by his own account, in letters he wrote at the time, was traumatized. He fought for eleven months during the advance on Berlin, and by the summer of 1945, after the German surrender, he seems to have had a nervous breakdown. He checked himself into an Army hospital in Nuremberg. Shortly after he was released, and while he was still in Europe, he wrote the first story narrated by Holden Caulfield himself, the real beginning of "The Catcher in the Rye." It was called "I'm Crazy." (It was published in Collier's in December, 1945.)
"A Perfect Day for Bananafish," published a little more than two years later, is, of course, the story that both introduced Seymour Glass, the oldest and most improbably gifted of the improbably gifted Glass children, and finished him off, since Salinger has Seymour kill himself on the last page. If we know Seymour only from the later stories in the Glass saga, in which he appears as a kind of saint-"Franny" and "Raise High the Roof Beam, Carpenters" (both published in The New Yorker in 1955), "Zooey" (1957), "Seymour: An Introduction" (1959), and "Hapworth 16, 1924" (1965), Salinger's last published work-we are likely to assume that he killed himself because the world's stupidity had made him crazy. But in "A Perfect Day for Bananafish" it is clear that Seymour kills himself because the war has made him crazy. He has just been discharged from an Army hospital, and his behavior in the story isn't saintly or visionary or engagingly eccentric; it's nutty and, in the end, psychotic. Seymour is a war casualty. So, much more obviously, is the unnamed protagonist of "For Esmé-with Love and Squalor," an American soldier who is befriended by a thirteen-year-old English girl just before he goes off to take part in the D Day invasion. "The Catcher in the Rye" was a best-seller when it came out, in 1951, but its reception as some sort of important cultural statement didn't happen until the mid-fifties, when people started talking about "alienation" and "conformity" and "the youth culture"-the time of "Howl" and "Rebel Without a Cause" and Elvis Presley's first records. It is as a hero of that culture that Holden Caulfield has survived. But "The Catcher in the Rye" is not a novel of the nineteen-fifties; it's a novel of the nineteen-forties. And it is not a celebration of youth. It is a book about loss and a world gone wrong.
By the mid-nineteen-fifties, Salinger had disappeared down his New Hampshire rabbit hole. The New Yorker's rejection of "The Catcher in the Rye" plainly had no effect on him as a writer. Criticized for creating a family with four precocious children and for writing in a style that drew attention to itself, he proceeded to create a family with seven precocious children, and to produce, in "Zooey" and "Seymour," works of supreme literary exhibitionism.
"Zooey" and "Seymour" are exhibitionistic because the emotional current driving the characters has become unmoored from anything that has actually happened to them. They are not thrown into a state of higher intensity by trauma or by grief. They are just in a state of higher intensity. In "Franny," Franny Glass's spiritual crisis is a kind of screen shielding the rather mundane circumstance that she has been made pregnant by a man who she realizes will remain, all his life, a pompous English major. But in "Zooey," published two years later, Franny's spiritual crisis is genuine, because, apparently, having spiritual crises is the price one pays for being a Glass in this lousy world. There is no suggestion of pregnancy. We get Seymour's Fat Lady instead. After 1955, Salinger stopped writing stories, in the conventional sense. He seemed to lose interest in fiction as an art form-perhaps he thought there was something manipulative or inauthentic about literary device and authorial control. His presence began to dissolve into the world of his creation. He let the puppets take over the theatre.
The New Yorker had no trouble publishing "Zooey" (which remains the longest piece of fiction it has ever run) and "Seymour." The magazine seems to have got over its anxiety about credibility and transparency. Salinger changed The New Yorker's aesthetic, at a time when The New Yorker's aesthetic was the gold standard for short fiction, and that is one testament to the impact he has had on American writing. There are many more. Philip Roth's early stories, collected in "Goodbye, Columbus," have something of Salinger's voice and comic timing, and it is hard to read Roth's later funny, kvetchy, mournful monologuists without imagining Holden Caulfield and Zooey Glass as ancestral presences.
Still, Roth was not trying to rewrite "The Catcher in the Rye"; Salinger's complete lack of irony could hardly have appealed to him. But other writers have tried, at least one in every decade since it appeared. Sylvia Plath made a version of it for girls, in "The Bell Jar" (1963); Hunter Thompson produced one for people who couldn't believe that Nixon was President and Jim Morrison was dead, in "Fear and Loathing in Las Vegas" (1971). Jay McInerney's "Bright Lights, Big City" (1984) was the downtown edition; Dave Eggers' "A Heartbreaking Work of Staggering Genius" (2000) is the MTV one. Many books featuring interestingly unhappy young people have been published since "The Catcher in the Rye," of course, and some of them were written by people who no doubt regarded Salinger as a model and an influence. But that doesn't make those books "Catcher in the Rye" rewrites. The bar is set a good deal higher than that, and the reason has to do with the Salinger mystique.
Why Salinger chose to drop out of sight and then out of print is his own business, and it probably ought to have nothing to do with the way people read the work that he did publish. But it does. Readers can't help it. Salinger's withdrawal is one of the things behind, for example, Holden Caulfield's transformation from a fictional character into a culture hero: it helped to confirm the belief that Holden's unhappiness was less personal than it appears-that it was really some sort of protest against modern life. It also helped to confirm the sense, encouraged by Salinger's own later manner, that there was no distinction between Salinger and his characters-that if you ran into Salinger at the Cornish, New Hampshire, post office (which is where his stalkers generally seem to have run into him) it would be exactly like running into Holden Caulfield or Seymour Glass. By dropping out, Salinger glamorized his misfits, for to be a misfit who can also write like J. D. Salinger-a Holden Caulfield who publishes in The New Yorker-must be very glamorous indeed.
This is why the narrator in a "Catcher in the Rye" rewrite is always a magazine writer. So, of course, is the author of the "Catcher in the Rye" rewrite, and the author and the narrator are separated by barely a hair. The model for the narrator is no longer Holden Caulfield. And it is not J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. It is the author imagined as J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. You can't, in other words, rewrite "The Catcher in the Rye" simply by telling the story of an unhappy teen-ager and updating the cultural references, or transposing the events to a different city, or changing the sex of the protagonist. You have to reproduce the Salinger mystique, because the mystique has become part of what "The Catcher in the Rye" is. The end product of the ideal Salinger rewrite isn't a Salinger story. It's Salinger. To rewrite the story of Holden Caulfield you have to become a melancholy genius, too. You have to be your own sorrow king.
The book that seems, in some ways, closest to Salinger's is Plath's. Plath belonged to the first generation of "Catcher in the Rye" readers. She read it sometime before 1953, when she spent part of a summer in New York City as a twenty-year-old intern at Mademoiselle. (When she arrived at the magazine, she asked to be assigned to interview Salinger, whose "Nine Stories" had just been published. She got Elizabeth Bowen instead.) That internship and her subsequent breakdown and hospitalization became the basis, ten years later, for "The Bell Jar."
Reviewers noticed the similarity to "The Catcher in the Rye" immediately, and there are echoes of Holden's voice and story in the voice and story of Plath's heroine, Esther Greenwood. But Plath was not merely borrowing. She must have felt that an aspiring magazine writer in New York City in 1953, when Salinger was in his prime, would naturally see life in a Salingeresque way. When Esther says, for example, "I'm stupid about executions" (1953 is the year the Rosenbergs were executed), she is adopting a Caulfield attitude. Esther's vague loathing of sex is a loathing learned partly from "The Catcher in the Rye"; her obsession with madness and suicide is partly the obsession of an admirer of "Teddy" and "A Perfect Day for Bananafish." In other ways, though, "The Bell Jar" and "The Catcher in the Rye" are very different books, and the difference can be summed up by saying that no reader has ever wanted to be Esther Greenwood. Holden (despite the confusion of the Harcourt Brace executive) is not crazy; he tells his story from a sanatorium (where he has gone because of a fear that he has t.b.), not a mental hospital. The brutality of the world makes him sick. It makes Esther insane.
"The Bell Jar," too, has become a staple of ninth-grade English, an officially approved text for adolescents, a book about the culture of youth. The later "Catcher in the Rye" rewrites-Thompson's and McInerney's and Eggers'-are not yet canonical in this way. People don't read them because their parents recommended them. They read them for the same reason they listen to alternative rock or go to see "Pulp Fiction" six times-because these are things that teach them an attitude. They are sensibility manuals; they show what sort of unhappiness is in style this decade.
"Catcher in the Rye" rewrites are all constructed on roughly the same pattern: a trauma triggered by a death (in Thompson's book, it's the death of the sixties), followed by an episode of emotional regression and a kind of shadow war, mostly in the head, with the rest of the world. They share with "The Catcher in the Rye" and "The Bell Jar" a fuzzy Christian thematics about salvation, redemption, and rebirth, and they draw heavily on the Salinger and Plath catalogue: mummies, fetuses, comas, sensational headlines, perversions, botched sex, suicide attempts, suicides, death fantasies, deaths. The narrators have a mordant contempt for everyone and everything, including themselves. The books are funny, but they are about loss and frustration and defeat. And each one seemed to hit a generational nerve, as though no one had ever told that story, or sounded those notes, before. What makes their melancholy so irresistible?
We think of nostalgia as an emotion that grows with age, but, like most emotions, it is keenest when we are young. Is there any nostalgia more powerful than the feelings of a third grader revisiting his or her kindergarten classroom? Those tiny chairs, the old paste jars, the cubbies where we stuffed our extra sweaters-we want to climb back into that world, but we're third graders now, much too large. We've fallen off the carrousel. Although "youth" is supposed to mean an enthusiasm for change, young people don't want change any more than anyone else does, and possibly less. What they secretly want is what Holden wants: they want the world to be like the Museum of Natural History, with everything frozen exactly the way it was the first day they encountered it.
A great deal of "youth culture"-that is, the stuff that younger people actually consume, as opposed to the stuff that older people consume (like "Lord of the Flies") in order to learn about "youth"-plays to this feeling of loss. You go to a dance where a new pop song is playing, and for the rest of your life hearing that song triggers the same emotion. It comes on the radio, and you think, That's when things were truly fine. You want to hear it again and again. You have become addicted.Youth culture acquires its poignancy through time, and so thoroughly that you can barely see what it is in itself. It's just, permanently, "your song," your story. When people who grew up in the nineteen-fifties give "The Catcher in the Rye" to their kids, it's like showing them an old photo album: That's me.
It isn't, of course. Maybe, in fact, the nostalgia of youth culture is completely spurious. Maybe it invites you to indulge in bittersweet memories of a childhood you never had, an idyll of Beach Boys songs and cheeseburgers and convertibles and teen-age crushes which has been constructed by pop songs and television shows and movies, and bears very little relation to any experience of your own. But, whether or not the emotion is spurious, people have it. It is the romantic certainty, which all these books seduce you with, that somehow, somewhere, something was taken away from you, and you cannot get it back. Once, you did ride a carrousel. It seemed as though it would last forever.
março 12, 2003
Que coisa!
Fazendo exercício pra aula de sueco de amanhã. Ler poemas da Edith Södergran, responder a algumas perguntas de compreensão e mais outras tantas de gramática. No final, traduzir um poema da minha língua pro sueco (como se isso fosse tarefa fácil) e, pior, escrever um poema de amor. Em sueco, lógico.
O poema que escrevi eu não mostro aqui de jeito nenhum, mas a "tradução" que fiz foi a de um poema do meu pai. Acho que é o que mais gosto de toda a obra dele. O original é:
VERBETE PARA WEBERN 2*
Lágrimas gargalhantes
tantas quantos são
os brilhantes pisados
*****Minha "tradução"*****
VERBETE PARA WEBERN 2*
Skrattande tårar
så många som
söndertrampade diamanter
*Armando Freitas Filho, Paissandu Hotel, 1986.
março 03, 2003
Impessoal
Fazendo um exercício novo para o curso de sueco. Tinha que ler um livro e fazer uma espécie de diário sobre a leitura. Anotar partes mais importantes, explicar por que; dizer quais os personagens que mais nos marcaram etc. Interessante. Li "Liten Ida", de Marit Paulsen, sobre uma menina nascida na Noruega ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, filha de uma norueguesa e de um soldado alemão.
Trouxe comigo outros dois livros pra experimentar. Um sobre um casal que vive separado por força do trabalho do marido - mergulhador em uma plataforma de petróleo na Noruega - e que deixa toda a responsabilidade dos filhos com a mulher, que também trabalha. O outro livro é a tragetória de uma escrava nos tempos do Império Romano.
Na verdade queria comentar uma coisa que vi na TV, um documentário sobre Arquimedes, mas estou sem saco. Mas já já eu volto ao normal. Volta e meia me sinto meio felina. Fechada dentro de casa, sentada perto do radiador, olhando pra fora da janela, vendo o tempo passar. Não, não estou triste nem nada. Estou ok. Mas é o que estou sentindo sinceramente.
janeiro 29, 2003
Tamanco, Português, Milito, Alemão e Figa
Estou lendo o primeiro livro da série sobre a ditadura do Elio Gaspari, que ganhei de Natal do meu pai. O livro é muito bom porque conta com riqueza de detalhes como foi construída e destruída a ditadura militar. São os pequenos pedaços de história, esquecidos pelos livros escolares e pelos doutores em seus tratados, que dão colorido ao texto. Garanto que se me tivessem ensinado no colégio que "o Brasil foi presidido de 1964 a 1985 por Tamanco, Português, Milito, Alemão e Figa", tenho certeza que teria um interesse muito maior pela história do meu país.
É claro que precisaria de mais alguns anos para desenvolver a ironia, capaz de apreciar esse achado histórico-literário, mas isso e outra conversa.
O bacana, é que o Elio Gaspari começou esse livro há 18 anos, pensando em escrever um estudo de no máximo 100 páginas sobre o Golbery e o Geisel. Deu-se conta de que seria impossível fazer apenas isso. O livro é legal porque conta por exemplo, como surgiu o Serviço Nacional de Informações, SNI. Foi idéia do Golbery, braço direito do Geisel e o "pensador" - se é que posso utilizar essa palavra - que organizou o poder pós-Golpe de 64. Um dos planos do SNI, descrito apenas de passagem no livro, era - pasmem! - invadir Portugal, numa guerra de colonização às avessas. A idéia apareceu em 1975 mas, claro, nunca foi levada a cabo. Que coisa.
* Castello, Costa e Silva, Garrastazú Medici, Geisel e Figueiredo.
janeiro 22, 2003
Olha! Matéria do Globo

Olha! Matéria do Globo de hoje, da minha querida Daniela Name: "Pippi Meialonga foge do frio e vem para o Rio". A reportagem diz ainda que a exposição sobre a Astrid Lindgren "(...) abre os trabalhos do Instituto Brasil-Suécia em terras cariocas". Gente!!! Será que eles não precisam de alguém que fale sueco lá no Rio, não??? :cD
O site oficial é aqui.
dezembro 03, 2002
Viciada
Estou quebrada. Fui dormir ontem depois das quatro da manhã. Não conseguia largar do último livro do John Grisham, "The Summons", que comprei na minha última viagem à Estocolmo. Não que o livro seja uma maravilha, mas o estilo do Grisham é tão gostoso e a trama não deixa de ser interessante, que a experiência passa a ser estilística, mais do que de conteúdo.
Toda noite preciso ler um pedaço de algum livro antes de dormir. Parece que a leitura acalma minhas ondas cerebrais. Quando não leio fico rolando na cama até que finalmente me canso, acendo a luz de leitura e pego o livro na cabeceira. Nem quando estou fisicamente cansada consigo passar sem. Fissura braba. No mercy.
Me lembro quando li o livro do "Notícias do Planalto", do jornalista Mario Sergio Conti, sobre o governo Collor e toda a sua corja. Simplesmente não conseguia mais dormir direito. E olha que trabalhava pra caramba, todos os dias etc. Batalhei com o livro noites a dentro até que as 719 páginas tivessem sido devidamente devoradas, verificadas, apreciadas, digeridas. Foi uma festa.
Pelo menos esse vício não infringe nenhuma lei e - graças aos céus! - não engorda. Próxima parada junky: "White Teeth", Zadie Smith.
outubro 31, 2002
Namorado: ter ou não, é uma questão
"Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves friccões de esperanca. De alma escovada e coracão estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela.
Ponha intencões de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enlou-cresca."
Carlos Drummond de Andrade, extraído da crônica que saiu no JB em 20/12/93.
Que coisa linda, não? Este é o meu credo. Tenho a crônica toda, quem quiser basta pedir. Postei mais Drummond aqui, no dia 26. Clique aqui. A imagem copiei do Victor.
outubro 28, 2002
Orgulho, Estocolmo e carros
Voltei. Tô cansadona mas feliz porque eu ajudei a eleger Lula presidente do Brasil com a segunda maior votacão popular do mundo. Estou muito feliz. Desejo do fundo do meu coracão que ele tenha luz para escolher seu secretariado, seus ministros e as pessoas que tocam a parte técnica do poder executivo. Fiquei encantada com a votacão. Nunca poderia imaginar que seria assim, com 63% de aceitacão. Que vitória, que orgulho do meu país!!!
Bom, a viagem até Estocolmo pra votar foi tranqüila. Na ida fiquei com um cupê só para mim, o que é ótimo. Já sabia como ir até a embaixada porque já fiz essa viagem antes, para me inscrever e transferir o meu título para cá. Estacão central, metrô, embaixada, metrô, estacão central. Dei uma volta pelas redondezas mas como era domingo tudo estava fechado, sem graca. Acabei burlando a minha disciplina financeira e comprando dois livros: "White Teeth", da Zadie Smith e "The Summons" do John Grisham.
A estacão central é ótima, tem de tudo. Comprei uma coca light e um muffin de chocolate (ai ai ai!) e fiquei lendo até a hora do meu trem sair. Uma delícia.
Na volta dividi o cupê com uma menina simpática que, com certeza, vinha da área de Gotemburgo. Sei disso não porque perguntei mas porque a danada falava tão rápido - do jeito que só esse pessoal de Gotemburgo faz - que precisei pedir a ela que repetisse tudo o que me perguntava pelo menos duas vezes para que eu pudesse ter alguma idéia do que ela estava falando. O maior mico. Ela deve ter me achado muito estranha... ou meio burra.
Foi hoje também a minha primeira aula de teoria para tirar carteira de motorista. Serão seis semanas de teoria, com mais aulas práticas de como trocar pneu, verificar a seguranca do veículo etc. Além, é claro, da famigerada Halkbana, cuja traducão seria alguma coisa próxima a "pista de derrapamento". Trata-se de uma pista de gelo na qual os alunos dirigem com pneus de verão e aprendem como (tentar) controlar o carro numa curva. Vai ser engracado...
Se lembram da prova do Detran? Dá uma volta naquela pistita em frente ao autódromo de Jacarepaguá e faz baliza numa vaga gigante? Pois é... senti saudades disso. Vou dormir porque tenho um livro de quase 200 páginas para ler, em sueco, sobre tudo: leis de trânsito, funcões mecânicas do veículo etc.
outubro 26, 2002
Para sempre
Licão das Coisas
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graca,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
-- mistério profundo --
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito um grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade.
outubro 17, 2002
Rapidinhas
Vejo dois meninos brincando de andar de bicicleta na neve fininha e já quase toda derretida pelo sol. Agora não sei se quero um deles ou se prefiro me juntar a eles.
Comprei minha passagem de trem até Estocolmo para poder votar pelo Lula. Quero ver chegar, Lula lá, brilha uma estrela...
Não sei que livro comecar para ler no trem. O que leio agora Paradiset, Liza Marklund, está no final.
Encontrei na rua com um conhecido que nos convidou para a festa de lancamento do CD da banda de heavy metal dele. Lamentou que não poderíamos ir. Eu disse que estaria em Estocolmo votando e Stefan vai trabalhar o fim de semana inteiro. Mas eu poderia ter respondido que preferia martelar um prego na cabeca a ir a uma festa de heavy metal. Adoro esse meu lado Dragon Lady.
Vou fazer peitinho de frango a parmegiana (sem a parmegiana, só com queijo) pro meu amor jantar.
Vi Apocalipse Now Redux no Pay Per View. Bonito pra burro. Por outro lado, uma depressão. Nunca mais.
A prova ontem foi difícil, bem difícil. Sei que perdi seis pontos, pelo menos, porque ao contrário do que costumo fazer, deixei uma questão em branco.
Quem vai ser a alma boa que dará o primeiro Prozac à Regina Duarte?
Depois de Meg e Victor
"Havia uma força tremenda no olhar ardente de seus olhos escuros; chegou 'conquistando e para conquistar'. Parecia orgulhosa e por vezes até arrogante; não sei se alguma vez chegou a ser bondosa, mas sei que isso era o que ela mais queria e que vivia momentos de angústia obrigando-se a ser um pouco bondosa. Havia, evidentemente, em sua natureza inúmeros impulsos admiráveis e uma iniciativa das mais elogiáveis; mas tudo nela parecia estar em perpétua busca de equilíbrio, sem jamais encontrá-lo; tudo estava em desordem, num estado de agitacão e desassossego. Talvez por ser demasiado severa nas exigências que fazia a si mesma não fosse capaz de encontrar dentro de si a força necessária para satisfazê-las". - Dostoievski, Os Demônios. Citado como epígrafe na biografia de Sylvia Plath, Amarga Fama, página 15. 04/03/92
outubro 13, 2002
MEU VENENO
Ferreira Gullar
Atrás de meus olhos dorme
Uma lagoa tão mansa
E o céu que trago na mente
Meu vôo jamais alcança
Há no meu corpo um incêndio
Que queima sem esperança
A própria terra que piso
Vira um abismo e me come
Corre em meu sangue um veneno
Veneno que tem teu nome.
Copiado da primeira página do Caderno B do JB, dia 02/08/93.
outubro 11, 2002
Quem Matou o Leão?
Terminei de ler o "Bröderna Lejonhjärta", da Astrid Lindgren. O livro, como disse num post logo aqui em baixo, é muito lindo porque é a narrativa de aventuras vividas por dois irmãos. Quem conta a história é o irmão mais novo, Karl, que é uma gracinha.
Mas, apesar de lindo, o livro tem um problema, na minha opinião: o final. É que no final do "Bröderna...", o Karl se suicida. Sim, o menino se suicida.
Putz, lendo assim, é dramático pra burro, né? Bom, mas o livro não é tão pesado assim como parece. A Astrid realmente escreve bonitinho e a história é bacana, mas... sinceramente? Ainda prefiro Maria Clara Machado. :c)
EXTRA EXTRA!!! -- Querem saber mais sobre a Maria Clara Machado? Inclusive seu novo visual? Cliquem aqui para ver a foto que a galera do IG colocou numa biografia da escritora e teatróloga mineira...É brincadeira?
outubro 10, 2002
Nobel
O húngaro Imre Kertész ganhou o prêmio Nobel de Literatura.
Quem???
junho 13, 2002
Pegada
Estava meio orolig, procurando alguma coisa pra ver na TV, quando sintonizei num programa de um canal norueguês e dei de cara com a leitura de um livro sendo feita em inglês por uma moca inglesa. Parei. Comecei a prestar atencão. Intenso e engracado. Ela explicou uma série de coisas sobre o livro, sobre personagens e, somente depois de uns dez minutos, fiquei sabendo o nome da obra e da moca. Ela é Zadie Smith, e o livro, que ela escreveu aos 21 anos, é "White Teeth". Vou comprar imediatamente (assim que achá-lo por aqui).
Achei essas informacões sobre o livro:
"First novelist Zadie Smith takes on race, sex, class, history, and the minefield of gender politics, and such is her wit and inventiveness that these weighty subjects seem effortlessly light. She also has an impressive geographical range, guiding the reader from Jamaica to Turkey to Bangladesh and back again.
Still, the book's home base is a scrubby North London borough, where we encounter Smith's unlikely heroes: prevaricating Archie Jones and intemperate Samad Iqbal, who served together in the so-called Buggered Battalion during World War II. In the ensuing decades, both have gone forth and multiplied: Archie marries beautiful, bucktoothed Clara--who's on the run from her Jehovah's Witness mother--and fathers a daughter.
Samad marries stroppy Alsana, who gives birth to twin sons. Here is multiculturalism in its most elemental form: "Children with first and last names on a direct collision course. Names that secrete within them mass exodus, cramped boats and planes, cold arrivals, medical checks."
Big questions demand boldly drawn characters. Zadie Smith's aren't heroic, just real: warm, funny, misguided, and entirely familiar. Reading their conversations is like eavesdropping. The deal was this: on January 1, 1980, like a New Year dieter who gives up cheese on the condition that he can have chocolate, Samad gave up masturbation so that he might drink. It was a deal, a business proposition, that he had made with God: Samad being the party of the first part, God being the sleeping partner."
Veja também outras matérias aqui em baixo. Recomendo a da Salon.
:: Matéria da Salon, aqui.
:: Info da editora Random House, aqui.
:: Pedacinho do texto, aqui.
:: Entrevista com a autora, aqui.
:: Matéria do Guardian sobre o livro, aqui.
maio 14, 2002
Viajando com Camus
"Quando se fala uma língua estrangeira, segundo Huxley, há alguém dentro de si que diz não com a mão".
"19 de julho
Tempo magnífico. Uma jornalista encantadora e míope. Correspondência. Almoço com os Delamain, numa espécie de buffet de estação de trem - naturalmente, a neon. Refeição. Meditações sombrias. No fim da tarde, dirijo-me a uma escola de teatro. Entrevista com professores e alunos. Jantar na casa dos Chapass, com o poeta nacional Manuel Bandeira*, pequeno homem extremamente fino. Depois do jantar, Kaïmi*, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido."
"Segunda-feira. Dia magnífico. O vento amainou. Pela primeira vez, o mar está calmo. Os passageiros surgem no convés como cogumelos depois da chuva. Respira-se bem-estar. No fim da tarde, o sol brilha magnífico. Depois do jantar, luar sobre as águas. A Sra. D. e eu concordamos ao achar que a maioria das pessoas não leva a vida que gostaria de levar e que nisso há covardia".
"O vento me chicoteia brutalmente o rosto, de frente, depois de ter percorrido espaços cuja vastidão nem mesmo imagino."
"A terra é totalmente vermelha. Bahia, onde só se vêem negros, parece-me uma imensa casbah fervilhante, miserável, suja e bela. Mercados imensos, feitos de velas esburacadas e de tábuas velhas, de velhas casas baixas, caiadas de vermelho, verde-maçã, azul, etc...
Almoço no aeroporto. Grandes barcos de velas latinas, ocre e azul, descarregando cachos de bananas. Comemos pratos tão apimentados que fariam andar paralíticos."
*Grafias do original em francês.
-- Albert Camus, "Diário de Viagem".
maio 13, 2002
A Cadeira
Já estou lá, no lindo site A Cadeira. Recomendo. Enquanto isso, vou dormir cantando.
maio 12, 2002
A Cadeira
Vocês sabem que amo livros. Hoje, quando estava de visita na Rosana, vi esse site aqui. Magnífica idéia que eu queria ter tido. Bom, mas já participei. Acabei de mandar o nome do meu livro e a explicacão. Queria que mais gente enviasse os seus e explicasse. Acho isso fascinante. Como o Serginho escreveu dia desses, sobre comprar livros em sebos, é sensacional saber quais livros as pessoas gostam, ler suas anotacões nas margens, descobrir guardados esquecidos por entre páginas. Jóias.
maio 08, 2002
Livros, livros
Descobri a lista completa dos 100 melhores livros de todos os tempos, eleitos por alguns escritores espalhados pelo mundo à pedido do Instituto Norueguês do Nobel, conforme escrevi aqui ontem (veja post logo abaixo). A lista completa, que você pode ler aqui (documento de texto feito aqui na minha máquina, totalmente livre de vírus), está em ordem alfabética e tem algumas surpresas boas e muitas ausências importantes.
Estão lá, lindos, "Grande Sertão: Veredas", do João Guimarães Rosa - o único livro brasileiro na lista - assim como "O livro do desassossego", de Fernando Pessoa, e "Ensaio sobre a Cegueira", do José Saramago. Votaram pelo Brasil apenas dois escritores, a Ana Miranda e o João Ubaldo Ribeiro.
Agora, achei que faltaram alguns livros que não poderiam estar ausentes de qualquer lista de respeito. Claro, Machado de Assis ("Dom Casmurro" é a escolha mais óbvia), Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade. Lá pros americanos, achei que não poderia estar de fora da lista "O Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger, que li quando tinha 13 anos e nunca mais parei de reler.
maio 07, 2002
Moinhos de vento
Matéria da BBC noticia que o Instituto Norueguês do Nobel promoveu uma votação com alguns dos mariores* escritores do mundo para eleger o melhor livro de ficção de todos os tempos. "Don Quixote", de Miguel de Cervantes, levou a taça com mais de 50% dos votos.
Infelizmente não foi divulgada a colocação dos outros livros, mas sabe-se que estavam na disputa obras de Dostoievski (quatro livros na lista dos 100 Mais); Shakespeare, Kafka e Tolstoi (cada um com três livros na lista); e Faulkner, Flaubert e Gabriel Garcia Marquez, Homero, Thomas Mann e Virginia Woolf (dois cada um).
Participaram da votação Salman Rushdie, Norman Mailer, Nadine Gordimer, Milan Kundera, John le Carre, John Irving e Carlos Fuentes, juntamente com outros autores de mais de 50 países. O mexicano Carlos Fuentes disse que Cervantes foi um dos "pais fundadores" da literatura latino-americana ("Don Quixote" foi escrito no início do século XVII).
Eu particularmente fico contente que um livro escrito em uma língua latina tenha ganho tamanha honraria. Por outro lado, fico muito surpresa de Shakespeare não ter ganho. E os irlandeses? E James Joyce? Ficou de fora? Já tentei ler "Ulisses" mas não consegui. O meu gosto pessoal é mais para os russos. Adoro Dostoievski e Tolstoi. O que vocês acham?
* Tenho minhas reservas com a lista desses "maiores escritores" divulgada pela BBC.
abril 25, 2002
Bibliotheca Alexandrina
Fiquei sabendo por meio de um artigo da Wired sobre a reconstrucão da maior colecão de manuscritos de todos os tempos, a Biblioteca de Alexandria. Ela deveria ser aberta nesta semana, mas as comemoracões foram adiadas por enquanto devido aos conflitos no Oriente Médio. Uma pena. Mas o projeto, que custou US$ 200 millhões de dólares ao governo do Egito e à Unesco, será completado em breve.
Mas há uma boa notícia: o site da biblioteca já está lá, no ar. Aliás, são dois. O oficial e o da Unesco. Tem um monte de informacões lá. Aqui vão alguns números que achei interessantes: a área total da biblioteca é de 40 mil m²; serão 13 andares; 3.500 cadeiras; cerca de oito milhões de livros; 50 mil mapas; 100 mil manuscritos; 30 base de dados; 10 mil livros raros; 100 títulos de CD-ROM (achei pouco...); 200 mil CDs e tapes de música; 50 mil CDs de imagens e vídeos; e 578 empregados. Ah! Ainda existem um centro de conferência, um museu de ciência, um planetário, uma escola de estudos da informacão e um instituto e museu de caligrafia.
Não é o máximo??? O Egito já está nos meus planos de viagem. :c) Essa foto daqui de cima é chamada "The Spine". É a solucão encontrada pelos arquitetos para conectar áreas e dividir paredes. Nossa! Quanto será que custa uma passagem para o Egito???
abril 08, 2002
Livros e lágrimas
Depois de terminar o "Good Night, Mr. Tom", da Michelle Magorian, estaria sem ter o que ler, mas eis que o meu anjo da guarda resolveu acordar e chegou hoje pra mim um livro que encomendei na Amazon inglesa: "Iris: a memoir of Iris Murdoch", de John Bayley.
É o livro que inspirou o filme "Iris", com a minha preferida Judi Dench e que rendeu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante para Jim Broadband, que interpreta o marido da Iris, John Bayley.
Confesso que fiquei interessada à princípio apenas pelo fato de ser a Judi Dench e porque a história tem um toque familiar para mim. Mas, estou lendo o livro (na verdade, o estou devorando) e o que salta aos olhos é um texto delicioso e uma história de amor tão linda!!!
Só espero que o filme chegue aqui no pico do mundo logo. Já está há séculos em Estocolmo, mas aqui que é bom, nada. E o melhor: comprei o livro e não paguei nada. É que Stefan entrou em um concurso na Internet e ganhou bônus para gastar na Amazon... E ainda podemos ganhar uma câmera digital. Bom, vou ler. Beijo, tchau.
abril 07, 2002
Correção, correção
"Good Night, Mr. Tom" é lindo. Terminei. Estou chorando até agora.
abril 05, 2002
Leituras
De certa forma essa parada do Blogger foi boa. É que preciso me concentrar mais no livro que estou lendo para o meu curso de sueco. Alguém já leu "Good Night, Mr. Tom", da Michelle Magorian? Pois eu nunca havia lido e agora estou tendo de enfrentar a fera em sueco. Vou contar uma coisa: não é tarefa fácil.
Desde que cheguei aqui li apenas um livro em sueco: "Of Mice and Men", do John Steinbeck, que se revelou muito mais interessante do que o livro da Michelle Magorian e, porque não dizer, mais fácil de ler.
Só queria fazer um apelo: pai querido, assim que você puder, manda uns livros para a sua filha ler, pelamordedeus!!!
Bom, deixa eu ir, ok? Vejo vocês ainda hoje. Isso é, se o Blogger não se opuser, claro.

Antes de mais nada, é importante dizer que minhas opiniões escritas no site são eminentemente pessoais e subjetivas. Não tenho a menor intensão de ser crítica literária, até porque não tenho competência para tanto. Mais uma vez: os textos são opiniões particulares.
Hoje estou TÃO feliz!
Lara-ri lá lá
"A rigor, ela é proibida para menores. Ou assim pensava eu. Mas não é que, para minha surpresa, quando organizei uma antologia para a Nova Fronteira, destinada a estudantes de ensino médio na coleção Novas Seletas, que a editora está lançando, vi que a minha querida Ana, mais viva do que nunca, é ampla, geral e irrestrita.
