dezembro 01, 2005
A neve luminosa
Foto de Tom Rune
ão conte pra ninguém: quando a neve cai, a escuridão dessa época do ano melhora muito. O céu das noites fica cinza claro, as luzes refletem no solo coberto de branco. Tudo fica muito mais bonito e silencioso. Mas quando os nativos me perguntam se noto a diferença da escuridão do outono para a "claridade" do inverno com neve, digo que não. Não vejo diferença nenhuma. É breu da mesma forma.
Ficam todos sem entender, fazem cara de estranheza e se calam (alguns com seu orgulho ferido). Faço isso não (apenas) por sacanagem, mas porque gosto de ver a cara de surpresa deles. "Como ela não vê algo tão evidente?", se perguntam, em silêncio. Mas a razão principal é porque às vezes sinto necessidade de me mostrar fundamentalmente diferente. Talvez porque já pense e aja muito igual a eles.
E novembro a-ca-bou!
A palavra em sueco do dia é snö, neve.
novembro 17, 2005
Entre dois mundos
Uma das coisas mais chatas de se mudar de país - principalmente sair de um país de terceiro mundo para um de primeiro com mania de se achar a consciência da humanidade - é que volta e meia você é vista uma representante ambulante do seu país de origem, pro bem ou pro mal.
Explico: em ano de copa do mundo, pessoas que pouco conheço vem falar comigo em tom simpático, comentam os jogos (ou as vitórias) do Brasil e acham que tudo é uma maravilha. No resto do tempo, volta e meia sou interpelada por pessoas que tenho pouquíssimo contato e que me indagam em tom reprovador sobre as mazelas sociais brasileiras, como seu eu pudesse explicá-las.
A última foi uma colega de turma na universidade. Estávamos conversando antes de uma aula. Ela, mãe de cinco filhos, me disse que nunca havia saído da Suécia. Me disse ainda que eu falava bem o sueco e me perguntou como eu fazia, já que volta e meia usava palavras que ela considerava "difíceis", como koncept, kontext, diskurs etc.
Expliquei então que falava assim por dois motivos: o primeiro é porque meu vocabulário no Brasil era muito diversificado, e ter um vocabulário pobre em sueco não era uma opção. Tenho necessidade de me expressar no mesmo nível, seja em sueco ou em português. O segundo motivo, claro, é que em português, as palavras conceito, contexto e discurso não chegam a ser difícieis, até por serem de origem greco-latina e fazerem parte da estrutura do português.
Aí, no final da conversa, tirado do nada, ela me mandou essa: "Maria, é verdade que no Brasil existem meninos de rua?" Fiquei meio sem saber o que responder. "Sim", disse-lhe, "é verdade". Toda a primeira parte de nossa conversa me pareceu um preâmbulo para a verdadeira pergunta que ela já queria me fazer há tempos (depois ela me disse isso).
A coisa de ser representante de seu país sem ter pedido pelo título é uma faca de dois gumes. É claro que gosto de ficar orgulhosa das vitórias no futebol brasileiro, e é óbvio que fico muito triste cada vez que sou lembrada das faltas gravíssimas do meu país para quem vive na miséria e nunca teve oportunidade na vida.
Acho que meu desconforto nasce também da minha própria confusão do que diz respeito aos mundos em que vivo. O terceiro, com todas as suas faltas e, ao mesmo tempo, uma vivacidade que deixa os europeus ma-lu-cos, e o primeiro, correto e justo (até certo ponto), porém chato e previsível.
Tenho certeza de que a colega não quis me humilhar. A impressão que tive é que ela estava realmente curiosa sobre como crianças poderiam ser deixadas sozinhas no meio de cidades grandes - o que para qualquer sueco é uma incógnita absurda, levando em consideração todo o cuidado que eles têm com suas crianças. (O estranho aqui, aliás, é nós, brasileiros não acharmos o fato de existirem crianças de rua uma coisa totalmente absurda. Mas isso é uma outra discussão.)
Não parti pro ataque perguntando à colega sobre os pecadillos suecos porque não quero defender quem explora por exemplo mão-de-obra infantil nos cafezais de Minas Gerais, nem os responsáveis pela existência de crianças que preferem as ruas das grandes cidades brasileiras às escolas.
Mas um diabinho pousado aqui no meu ombro esquerdo, sussurou no meu ouvido: pergunta a ela o por quê da Suécia ter fechado as fronteiras para judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial! Pergunta o por quê da Suécia ter esterelizado centenas de mulheres deficientes mentais tendo como desculpa a eugenia da raça! Pergunta como milhares de imigrantes não conseguem viver de forma equivalente ao sueco médio simplesmente porque não são aceitos no mercado de trabalho!
Consegui ignorar o diabinho.
A palavra em sueco de hoje é kluven, dividido.
novembro 07, 2005
A Europa da exclusão
A TV sueca não cansa de mostrar as cenas de guerra urbana que se espalham pelo território francês há mais de uma semana. Mostram carros queimados, pessoas desesperadas, políticos sérios mandando a polícia baixar o pau e assistentes sociais dizendo o que os revoltosos realmente querem: trabalho, respeito, aceitação, integração, cidadania.
Enquanto isso, sento e espero que a mídia sueca some dois mais dois e chegue à conclusão de que esse espetáculo de violência urbana motivada por preconceito pode acontecer aqui também. Os ingredientes são os mesmos, discriminação e a desesperança de quem mora nos subúrbios das grandes cidades daqui (Estocolmo, Malmö e Gotemburgo). Na última sexta-feira, finalmente, meu jornal escreveu em seu editorial:
"Quando as economias européias ficam pra trás, o desemprego cresce e o consumo diminui, os que estão na base da hierarquia social sofrem mais. As crianças e jovens que vêem seus pais de fora do mercado de trabalho não acreditam que eles próprios terão destino diferente ou que jamais deixarão esses mal-falados subúrbios. Para eles existe apenas as ruas, as gangues, o crime e o vício.Na Suécia, no entanto, não se vê a miséria absurda que os imigrantes franceses vivem. Os estrangeiros/novos suecos vivem em prédios enormes, as áreas onde moram não chegam nem perto do idílio típico nativo, a criminalidade é grande, a polícia já chega baixando o cacete, mas, ainda assim, o clima aqui é diferente. Talvez porque o sistema social salve da sargeta quem não tem nada.Para alguns deles, no entanto, abre-se uma outra saída: a crença e dedicação por uma Causa. É nesse meio que jovens são recrutados para pegar um ônibus ou um trem de metrô com uma mochila cheia de explosivos. O desespero das pessoas que moram na Europa sem se sentir parte dela ajuda a proliferar o islamismo radical.
Dessa forma unem-se subúrbios franceses, mesquitas inglesas, assassinos holandeses e estudantes de vôo sauditas com ódio dos EUA. Até as áreas habitadas por imigrantes na Suécia têm problemas semelhantes, lá também existe uma desesperança para com a sociedade. Em setembro último o prédio da polícia no bairro de Ronna, em Södertälje (região cheíssima de imigrantes ao sul de Estocolmo) foi alvo de tiros. (Já escrevi sobre isso aqui)
Mas isso não basta. Dinheiro é ótimo, mas esperança em uma vida interessante e decente é ainda melhor. Na minha opinião, o grande problema é que a Suécia ainda não acordou pros pequenos detalhes. O fato de gente com nome estrangeiro (leia-se árabe) ou pele escura não conseguir viver da mesma forma que qualquer outra pessoa nascida e criada aqui, por exemplo. É árabe ou africano, estudou aqui e quer trabalho? Muda de nome porque com nome árabe, você não chega nem à entrevista preliminar.
Se chama Mohammed e quer alugar um apartamento? Boa sorte no mercado negro, meu chapa. No mercado aberto, regulado por empresas públicas locais ou escritórios particulares, você só consegue um lugar em listas de espera que podem demorar anoooos, ou simplesmente não consegue sequer deixar seu nome. O cara da imobiliária diz logo que não há apartamentos pra alugar na área nobre da cidade. (Quando, 15 minutos depois, um sueco com nome comum liga, recebe três ou quatro opções de apartamentos na mesma área).
A matéria está aqui (apenas em sueco).
Aí vocês dizem: "Ihhh, lá vem a Maria com essa chatice de preconceito novamente". É, pois é. É chato mesmo. Aliás, chato foi para o embaixador do Peru (esse aí da foto acima), que foi barrado num restaurante chique de Estocolmo quando tentava tomar um drinque com colegas de trabalho. Os guardinhas disseram que o local estava cheio, quando os peruanos podiam ver pelas enormes janelas frontais que isso não era verdade. Enquanto discutiam, cerca de dez pessoas passaram por eles, todos de aparência escandinava, e foram curtir seu fim de noite. O embaixador disse que vai se queixar ao departamento de relações exteriores sueco.
A palavra em sueco do dia é förbannad, danada, furiosa.
julho 19, 2005
Plurarismo e intolerância
Acabamos de retornar de nossa primeira volta em Boden pós-Inglaterra. Impressão: senti muita falta de ver gente de outras cores que não a variação branca-braquela, branca-bronzeada da população sueca. Gosto de ver mais pluraridade. Aqui é preciso procurar muito pra achar alguém diferente. E por falar nisso, tenho lido muitos artigos de jornais ingleses e suecos sobre os quatro homens que se estouraram em Londres. Os que mais me chamaram a atenção foram os que retratam o recrutamento de jovens europeus, nascidos aqui de pais imigrantes, e que são mandados para escolas extremistas no país de origem de seus pais e avós.
Num artigo publicado no Daily Mail de ontem, David Jones escreve sobre sua visita a um bairro paquistanês na cidade de Leeds, de onde os quatro terroristas vieram. Entre outras coisas, ele descreve uma rotina de discriminação que é muito semelhante à sueca. Quem sabe o que é Rosengård, em Malmö, ou Rinkeby, em Estocolmo, compreende. Jones escreve que, em média, homens de origem paquistanesa e bangladeshi recebem £150 a menos, por semana, do que homens britânicos brancos. E mais: cerca de 40% dos jovens de Bangladesh estão desempregados – uma cifra altíssima se comparada a rapazes brancos da mesma idade.
Essa situação se repete na Suécia, com semelhantes números de desempregados entre imigrantes jovens de origem árabe ou africana. E isso NÃO É mera coincidência.
Não quero, com isso que acabei de escrever, colocar os jovens marginalizados na Inglaterra ou na Suécia numa posição de vítimas de um sistema injusto, mas, se pensarmos bem, é isso mesmo que acontece. A exclusão dos pobres no Brasil funciona da mesmíssima forma. A diferença é que a maioria das pessoas vítimas de uma economia perversa controlada por homens e mulheres conservadores (europeus ou sulamericanos) resolvem mostrar que têm valor de outra forma, principalmente através de um trabalho, e não explodindo ônibus e metrô, assaltando e matando.
No mesmo artigo, Jones escreve sobre as entrevistas que fez com muitos jovens britânicos filhos de imigrantes. Todos trabalhavam ou estudavam e a maioria tem uma vida muito boa (do ponto de vista material). Por que, então, se afiliar a esse tipo de extremista? Por quê procurar uma vida mirada no ódio e na destruição? Talvez, porque a exclusão seja um mal hereditário, assim como o ódio, que pode ser passado de geração para geração. Enquanto lia a matéria e tentava responder a essas perguntas, meu pensamento ia sempre à retórica dos neo-naz***as, que recrutam rapazes e moças perdidos, sem referências ou objetivo na vida, para seu movimento radical. É a mesmíssima coisa.
Meu pai me disse que fica muito feliz sabendo que o bin Laden afirmou que Suécia e Suíça são países seguros. Na minha pacata opinião, acho que isso não adianta nada. Osama e seus compadres querem provocar mayhem em grande escala, mas apenas em países envolvidos com os EUA de forma flagrante. Meu medo são esses rapazes e moças aparentemente estáveis, de boas famílias, mas que crescem assistindo seus pais lutar pra sobreviver na Europa inevitavelmente como cidadãos de segunda categoria e, mais tarde, sofrem o mesmo na pele. Meu medo é que de repente esse rapaz e essa moça se vêem no meio de um movimento radical e decidam fazer justiça divina com as próprias mãos.
A palavra em sueco do dia é hat [rróót], ódio.
junho 28, 2005
Que coragem!
Quem me lê há algum tempo sabe que eu escrevo às vezes sobre a discriminação sofrida por imigrantes na Suécia. Num post escrito em setembro do ano passado, comentei sobre a iniciativa de quatro repórteres do meu jornal - dois com nomes suecos e dois com nomes estrangeiros - que fizeram uma experiência interessante. Um sueco e um "imigrante" (está entre aspas porque a pessoa em questão nasceu e cresceu na Suécia, mas tem nome árabe) se candidataram ao mesmo emprego. O "imigrante" vai primeiro e é negado o trabalho, com a desculpa de que a vaga já foi preenchida. Quando o sueco liga pra se informar sobre a mesma vaga, marca-se uma entrevista de emprego na hora.
Pois ontem li uma notícia que me chamou a atenção: Sandra Backlund (foto), uma moça sueca de 27 anos que estuda para se tornar cientista política (statsvetare) na Universidade de Estocolmo, resolveu radicalizar e mudar seu sobrenome - eminentemente sueco - para Baqirjazhid, que ela criou com a ajuda da Internet. "Trata-se de uma ação política", diz ela. "Pra mim é importante que todos os que se candidatam a um emprego compitam nas mesmas condições. As pessoas não são chamadas para entrevistas de emprego apenas por ter um sobrenome estranho. Isso mostra o quão bizarra é a base de dicisão de quem é empregador. [O nome] não diz nada sobre qual a formação acadêmica ou a experiência que a pessoa tem."
Sandra sabe que terá de soletrar seu nome todas as vezes que entrar em contato com pessoas desconhecidas e órgãos públicos, mas isso não é um problema. "[O nome] é mesmo estranho. Mas não tem nada demais perguntar como alguém se chama e como se soletra. Está na hora que aprendamos a falar nomes diferentes", diz ela. Eu concordo. Os suecos mesmo têm a mania de mudar seus sobrenomes para ficar diferente dos eternos Svensson, Johansson, Andersson. Achei a atitude dessa moça admirável e fico até certo ponto comovida. Imagino que a Suécia será um país muito mais justo de se viver num futuro não muito distante, quando a geração de pessoas nascidas nos anos 80 e 90 atingir postos chaves na sociedade.
Até porque, segundo a Integrationsverket, um órgão estatal que estuda a integração de imigrantes no país, nada menos do que oito em cada dez suecos acham que imigrantes sofrem discriminação aqui. No artigo publicado na página de opinião do meu jornal ontem, Andreas Carlgren, diretor do órgão, afirma que a quantidade de pessoas conscientes desse fenômeno aumentou muito. Hoje 43% das pessoas perguntadas concordam totalmente com a existência de discriminação. Três anos atrás, essa cifra estava por volta dos 25%.
A palavra em sueco do dia é likaberättigad [likaberétigad], ter direitos iguais. (Tack, Peter!)
junho 15, 2005
Palavras, palavras
Aprender um novo idioma é um processo. Entender é o primeiro passo. Depois vem falar. E num terceiro lugar bem distante vem escrever. Já escrevo bem, mas volta e meia cometo cada barbaridade que cruz credo. Se algum dia você aprender a escrever em sueco fique alerta para verdadeiras armadilhas linguísticas. Vou te contar, esse idioma não é mole não. Senão vejamos:
Se você escreve uppmaning, você estará pedindo insistentemente a alguém para fazer alguma coisa. Mas, cuidado! Não troque os dois "p" por um "t", porque quem faz um utmaning está lançando um desafio.
Você é tímido e não gosta de aparecer muito. Você quer permanecer okänd, desconhecido. Mas se colocar duas bolinhas em cima do "o", de desconhecido você passará a ser ökänd, infame.
Você é uma pessoa cheia de espiritualidade. Sua alma, själ, é pura. Mas preste atenção quando for escrever isso! Se trocar o "j" por um "k", sua alma vira um motivo, skäl. E tem mais: se colocar um "t" no meio do "s" e do "j", você estará roubando, stjäl. E o pior é que pronuncia-se essas três palavras praticamente da mesma forma.
Complementando: O truque do sueco é pronunciar as palavras da forma mais correta possível. Isso porque sueco não é um idioma literal, como o português ou o italiano. Aqui você escreve kjol fazendo referência a uma saia, mas diz shuul. Outro exemplo: sempre confundo glas, vidro ou copo, com glass, sorvete (valeu pela dica, marinovsky!). O primeiro, por ter apenas uma consoante depois da vogal, é pronunciado com um "a" longo e fechado, glóóss. O segundo, com duas consoantes depois da vogal, é pronunciado de forma curta, o "a" aberto, tipo glás. Antes de pedir um copo d'água ou um sorvete preciso pensar para não dizer besteira. É por essas e por outras que "Me dá um copo d'água!" foi uma das primeiras frases em português que meu urso aprendeu. Hohoho.
E por falar em palavras, vou introduzir uma mudancinha aqui no Montanha: no final de todos os posts de agora em diante apresentarei uma palavra em sueco (com tradução) que esteja ligada ao texto. Essa não é uma idéia original minha, mas uma cópia do blog do Francis, um jornalista americano que escreve (muitíssimo bem) a partir de Estocolmo.
A palavra em sueco do dia é: ord [úurd], que quer dizer palavra.
maio 25, 2005
Relatório da Anistia Internacional
In March, after considering Sweden's 15th and 16th periodic reports under the UN Convention against Racism, the Committee on the Elimination of Racial Discrimination adopted its Concluding Observations. Among the Committee's concerns were the lack of statistical data on the ethnic composition of the population; reports that few hate crimes led to prosecutions and that relevant legislation was not applied; difficulties faced by a large part of the Roma community in areas such as employment, education and housing; unresolved issues relating to Sami land rights; persistent discrimination against immigrants in relation to social and economic rights; and the possibility of expulsions without a right of appeal under the Special Control of Foreigners Act.
Mais, aqui.
Insight
Cada vez mais tenho a impressão de que me mudei pra Argentina da Escandinávia.
dezembro 15, 2004
Sem drama
ssa coisa de universidade é ótima mesmo. Fico feliz em acordar todos os dias e saber que tenho algo produtivo pra fazer com a minha vida. No entanto, o fato de estar fazendo universidade aqui não assegura em nada minha condição profissinal futura. Em bom português: mesmo com diploma sueco, ainda corro um risco muito grande (maior do que minhas colegas de turma) de ficar desempregada depois de formada.
Não, não é drama dessa vez não. O Statistiska Centralbyrån (SCB), o IBGE daqui, divulgou na semana passada uma pesquisa que só confirma meus medos mais profundos: Um terço dos imigrantes com educação superior não consegue arrumar um emprego. Já dentre aqueles que trabalham, 20% têm um emprego que não corresponde ao nível de sua formação formal (médicos iraquianos e arquitetos iranianos que dirigem taxi pelas ruas de Estocolmo, por exemplo). A situação é ainda pior se você for homem com raízes na África ou mulher vinda da Ásia.
Uma das razões dessa disparidade é, segundo o SCB, a falta por parte dos imigrantes de uma rede de contatos, que facilita na hora de conseguir entrevistas de empregos, dicas quentes de vagas etc. Um nome não-sueco e um background estrangeiro (leia-se vivido em algum país não-europeu ou não-americano) também são razões para a dificuldade de encontrar um trabalho condizente com a sua competência, segundo o SCB. (Já escrevi sobre isso aqui).
Aí você pensa: ah, mas essa galera deve falar um sueco péssimo, né? Nem sempre. Dois terços dos imigrantes ouvidos para a pesquisa dizem poder acompanhar uma discussão em sueco sem problemas. Eles podem, inclusive, apresentar trabalhos, argumentar e escrever em sueco. A metade dos imigrantes podia fazer a mesma coisa também em inglês. Pra vocês que lêem em sueco, o relatório está aqui.

E hoje o Kanal 5 mostra o último episódio de Friends. Nunca fui fanática pela série, mas sempre gostei de assistir às maluquices deles. Meus favoritos são, disparados, Joey e Phoebe. Eles são o máximo, num tem pra ninguém. Mas, confesso, sempre tive uma quedinha pelo Chandler. Hohoho.
dezembro 12, 2004
Nobel
exta passada, dia 10, foi o dia da entrega do Prêmio Nobel. Vi pela televisão a cerimônia de entrega, que foi linda. As cabeças coroadas todas glamourosíssimas, cheias de glitter e bling-bling (a foto abaixo é do site do Nobel, e mostra a mesa do jantar). A austríaca Elfriede Jelinek, ganhadora do Nobel de literatura, não veio receber o prêmio por ter fobia social. Pelo menos ela não fez como Jean Paul Sartre, que em 1964, declinou a honraria.
Antes da cerimônia, tinha ouvido no rádio incontáveis reportagens com os ganhadores dos prêmios de física, química, medicina etc. Uma, no entanto, me chamou a atenção. Foi uma entrevista com a cientista Linda Buck, que dividiu o Nobel de Medicina com Richard Axel. Eles descobriram os receptores de aromas e a intrincada organização do sistema de olfato.
O interessante é que é conhecido que Linda Buck tinha avós nascidos na Suécia (em Värmland) mas que emigraram pros EUA no século passado. Ela disse inclusive que gostava do sotaque dos entrevistadores suecos em inglês, porque se lembrava dos avós. Mas o mais interessante foi o que a repórter disse no final da entrevista: "Podemos dizer que metade do prêmio de medicina vai para uma pesquisadora sueca, já que a avó da laureada veio daqui".
Fiquei pensando... E achei interessante essa "lógica". Então quando uma criança nasce em solo sueco de uma mãe e de um pai não-suecos (e geralmente advindos de países do terceiro mundo), a criança é imigrante, inclusive do ponto de vista estatístico. Mas quando uma americana ganha um prêmio importante, os nativos já querem logo adotá-la como sueca honorária.
Conclusão: pra ser levada a sério aqui preciso ganhar um prêmio Nobel. Fiquei pensando que teria de escrever livros fenomenais, descobrir as qualidades dos átomos ou a cura pro câncer... Tudo fora do meu alcance intelectual. Acho que o mais fácil seria ganhar o Nobel da Paz, mas, merde, são os noruegueses que decidem esse... :c/ HOHOHO.

E hoje é o terceiro advento. Logo, logo é Natal. :c)))))
outubro 15, 2004
Amenidades
Não sou muito boa pra falar amenidades. Quer dizer, eu até que me esforço, mas só às vezes consigo desenvolver um papo sobre nada que dure mais do que umas duas perguntas e outras tantas respostas. Aqui o assunto pra se falar quando se precisa lançar mão das conversas de circunstância é o tempo, quente, frio. Chuva, neve ou sol. Mas garanto uma coisa: fazer small talk em língua estrangeira é uma arte.
Outro dia ia encontrar com a professora e, como sempre, cheguei mais cedo. Na porta, esperava uma menina da minha turma (que tem mais de 90 pessoas) e com quem nunca tinha trocado mais do que um "oi". Na verdade, nem isso. Naturalmente ficamos imediatamente sem graça e começamos a falar sobre o tempo. Eu: "Agora está começando a ficar realmente muito frio, não é?". E ela, com cara de espanto: "Não, agora ainda é temperatura de outono. Acho até confortável."
A conversa superficial sueca - necessariamente sobre o tempo - depende muito do que se entende como frio ou quente. E aí que eu me perco. Outra coisa que é engraçada é que todas as pessoas que nunca me ouviram dizer uma palavra quando vêm falar comigo levam um susto. Sim, um susto. Elas não estão preparadas para o fato de eu não ser sueca. Acredite se quiser.
Já aconteceu muitas vezes. Uma na rua, quando uma senhora velhinha veio falar comigo sem perceber que eu era estrangeira. Quando viu (ou melhor, ouviu) que eu era, ficou sem graça e saiu de fininho. Outra vez na fila da cantina da faculdade, a moça na minha frente, envergonhada de estar tomando muito tempo, explicou seu atraso colocando a culpa na menina que ficava na caixa, que era imigrante. Ela disse: "Ela tem problema em falar sueco".
A última vez aconteceu no fim de semana passado, quando eu e meu urso saímos pra dar uma volta num parque lindíssimo que tem aqui perto de casa (esqueci de levar a câmera). Vimos algumas pessoas na beira de um laguinho jogando migalhas de pão pros patos (aqueles de pescoço verde que só vemos nos filmes da Disney). O cuidador do parque veio conversar conosco e contou, entre risadinhas cúmplices, que se espanta todas as vezes que vê um imigrante dar de comer pros patos. "Eles jogam quase que o pão inteiro no lago", riu.
Eu ri também. E fiquei calada.



High Society
Te mete! Eu cheguei lá! Hohoho.
outubro 05, 2004
Foras, gafes e afins

A última vez que fui ao cinema foi no início de setembro, já aqui em Umeå. Não me lembro o que assistimos. Na bilheteria, sentava um rapaz bonitinho, loiro com um rosto interessante. Antes de pagarmos pelos ingressos ele nos perguntou se queríamos pagar um pouco a mais e ter direito a um cartão de desconto para três futuras visitas aos cinemas da mesma cadeia (SF). Eu, me adiantando ao meu urso, disse pro rapazinho com cara interessante: "Não, não... eu não vou ao cinema sozinha aqui, não. É muito escuro!" (Det är så mörkt!).
As reações do rapazinho e do meu urso foram idênticas: ambos cairam na gargalhada. E eu, claro, fiquei com cara de tacho sem entender bolhufas (humor de um povo é uma linguagem mais complicada do que a língua falada). Mais tarde, perguntei ao meu urso o porquê daquele auê com a minha explicação e ele disse que ambos haviam entendido que eu me referira à escuridão da sala de cinema, e não à escuridão do lado de fora, do inverno, de como eu não queria pegar ônibus sozinha à noite (breu breu breu, apesar da neve no chão) pra ver um filme sozinha etc. Eles estão acostumados com as mudanças do clima, eu ainda não.
Mais uma pro meu livrinho de foras... que cresce todos os dias. No verão encontrei no mercado perto da minha casa em Boden uma moça que veio sorridente falar comigo em frente à banca de tomates. Eu lembrava do rosto dela, mas nem por um decreto do nome nem do lugar de onde a conhecia. Aí perguntei: "O que é que você está fazendo agora?", em busca de uma pista. Ela disse que continuava no curso tal e que pretendia estudar para ser veterinária. Aí lembrei dela. Mas não do nome.
Nessa hora, meu urso chega com o pão e eu sou obrigada a apresentar os dois. Aí, eu digo do alto do meu corretíssimo sueco: "Jag glömte ditt hår", no que ela prontamente arregala os olhos e fica tão surpresa que nem consegue responder e/ou rir de mim. Também, pudera. Ao invés de dizer que havia esquecido o nome (namn) dela, disse que havia esquecido o cabelo (hår) dela. Ainda não sei de onde eu tirei isso, mas de uma coisa é certa. Ela nunca mais cometerá a tolice de me pegar desprevenida no meio dos tomates assim, sem mais nem menos. :c)

Mas o pior foi quando resolvi fazer um pão com receita em sueco há uns dois anos, quando meu sueco ainda era bem básico. Estressada, li na receita que teria de sovar a massa num ambiente dagfri (literalmente, sem dia/luz). Baixei todas as persianas da casa e deixei a cozinha numa escuridão completa, nem luz elétrica eu acendi. Aí veio meu urso, cenho franzido, perguntando o que é que eu estava fazendo na cozinha com tudo escuro. Expliquei que a massa precisava ser batida sem luz e ele foi ler a receita. Quando terminou, teve que se sentar no chão de tanto rir. Onde eu tinha lido dagfri estava escrito na realidade dragfri, que quer dizer num ambiente sem correntes de ar. Hohohoho. Virou anedota de família. Hohohoho.
setembro 24, 2004
Quantas vezes morremos nesta vida?
Nascemos e morremos quando viajamos. O velho ditado francês que declara "partir (ou despedir-se) é morrer um pouco" não pode ser mais claro ou verdadeiro, pois todo viajante divide-se, reparte-se, multiplica-se e, quase sempre, dispersa-se, "diasporiza-se" em múltiplos pedaços. Pulveriza-se em memórias, saudades e vidas, cada qual sob o controle daqueles que deixou no seu porto de adeus.Escrito pelo antropólogo Roberto da Matta (publicado no Estadão, dia 15 de setembro de 2004 - gentileza da Leila e do Ricardo)Cada viagem sinaliza uma nova etapa, uma declaração de independência, um gesto de revolta, um rasgo corajoso de esperança, um dispendioso desabafo, um ato de rejeição, um tiro no escuro, um rito de passagem. Foi assim quando fui complementar minha educação universitária em Harvard, nos Estados Unidos; foi também assim quando saí de uma Niterói luminosa, marcada por animadas discussões intelectuais, cujo objetivo era "acabar com o subdesenvolvimento" e segui para o interior do Brasil para viver comos índios. E tem sido assim depois que retornei aos Estados Unidos como professor e fiquei numa gangorra cultural, morando entre dois países e experimentando, como membro de uma cultura, os valores de outra sociedade.
Para cada uma dessas partições há um preço. O viajante é um peregrino. Mas o viajante que estaciona e, desfazendo armas e bagagens, integra-se num lugar, torna-se um marginal. E aquele que se associa formalmente a uma instituição - uma companhia, firma ou universidade - vira expatriado. Reparte-se inevitavelmente, criando uma vida concreta onde chegou e uma outra no lugar de origem.
Uma coisa é viajar motivado pelo retorno, como acontece nos cruzeiros turísticos e nas viagens de estudo ou trabalho. Outra coisa é viajar para ficar, tornando-se residente num lugar onde não se nasceu e onde toda a realidade, da comida aos modos de falar, comprar, pedir, rezar e relacionar são diferentes, têm de ser aprendidos e chegam de fora para dentro.
O primeiro tipo de viagem inventa o turista engarrafado numa bolha. O segundo agencia o viajante que experimenta a morte e a divisão de sua vida de modo abrupto ou gradual. A prova cabal de que morreu ou virou fantasma é quando ouve seu nome falado em outra língua. Meu nome sempre foi Roberto, mas aqui nos Estados Unidos virou Hobero. No início tudo é mais ou menos diferente, depois a vida se rotiniza e o estranho transforma-se em aceitável e até mesmo em familiar. Quem diria que eu ia me deleitar com cachorros quentes e com "almoços de negócios ou conferências", as tais brown bag talks, embora deva dizer que a tal de root beer é ainda remédio para mim.
Qualquer que seja o gosto da rotina, porém, o fato é que é impossível viver e trabalhar num lugar, criando simpatias e antipatias, descobrindo prazeres e sofrimentos, sem ter com esse espaço uma história de sentimentos e relações. Sem se sentir saudoso de alguns de seus nichos, comidas, pessoas.
Minha experiência americana me tornou um expatriado e, ao mesmo tempo, um fervoroso brasileiro. Tanto que voltei ao Brasil só para descobrir, neste breve retorno que agora faço a Notre Dame, quanto eu me liguei a este lugar e às suas coisas. Quanto eu fui tocado por suas árvores bem cuidadas, por suas alamedas emolduradas de grama, pelo cheiro de incenso de suas missas, pelo silêncio quase sepulcral de duas noites, pelas tempestades que chegam rápidas e violentas e vão embora com amesma velocidade, pelo gosto saboroso de seus vegetais, pela civilidade com a qual seus cidadãos dirigem seus carros, pela sincera cordialidade dos meus colegas.
Quando se fica entre dois mundos, morre-se muitas vezes. Tantas são as passagens de um lugar a outro. E, quando se descobre que o "entre" também tem o seu lado negativo, revelando as perdas, contabilizando as divisões, assinalando as repartições, indiciando pelos lutos mal feitos e por muita saudades. Saudade de um lado e saudade do outro; e uma saudade nova, excepcional e inusitada do interstício, da passagem, do meio-termo.
As do Brasil são de gente e de comidas. Cheguei faz uma semana e já sinto falta de um prato de carne-seca frita com cebola, isso para não falar da imensa saudade dos meus netinhos e de tudo que vem com eles. As dos Estados Unidos são da vida que aqui deixei. Pois cada paisagem desta universidade também guarda uma parte de minha vida. Moldura terna e amorosa de um passado que não se deixa enterrar. As do miolo são as de uma liberdade um tanto onipotente, aquela que acena com a promessa de ter o melhor dos dois.
São esses sentimentos contraditórios de vida e morte,de liberdade extremada e de perda que eu tenho experimentado nesta visita. É quando vejo que o pertencer é sempre relativo. Que a terra natal - a pátria ou a mátria, comodizia o padre Antônio Vieira - exige uma constante celebração de ritos patrióticos em que reafirmamos o nosso gosto de a ela pertencer, porque - quem sabe? - somos também seres de um mundo sem fronteiras. É pelo menos isso que ocorre quando morremos e deixamos de pertencer a nós mesmos.
setembro 10, 2004
Imaginary Homelands
Imagem: EscherSalman Rushdie sobre si mesmo e asiáticos na Inglaterra:
"Somos hindus que cruzaram as águas negras; somos muçulmanos e comemos carne de porco. Consequentemente pertencemos atualmente em parte ao mundo do leste. Às vezes nos sentimos na fronteira de duas culturas (...). Pelo fato de termos sido transportados através de meio mundo, somos pessoas traduzidas. Normalmente imagina-se que algo sempre se perde numa tradução; eu sustento teimosamente que algo também pode ser ganho... Somos ao mesmo tempo insiders e outsiders nessa sociedade. Essa visão estereoscópica é o que podemos oferecer no lugar de uma visão completa." (Rushdie 1992, páginas 15, 17, 19 - Trecho retirado do livro I ensamhetens labyrint: invandring och svensk identitet, de Mauricio Rojas)
setembro 07, 2004
Você não é bem-vindo
Da esquerda pra direita: Fredrik Dahlström, Hakim Chebchoub, Rebin Solevani e Linus LarssonOntem meu jornal mostrou uma matéria fantástica: contratou quatro repórteres jovens, dois suecos com nomes bem comuns, e dois com nome e aparência árabe. Os quatro procuraram 366 empregos para os quais apresentaram méritos idênticos. O método é simples: em pares (um sueco e outro com nome estrangeiro) os rapazes ligavam para saber de empregos anunciados nos jornais e no site do banco de empregos. Quando o "imigrante" ligava, todas as vagas estavam preenchidas. O sueco ligava então 20 minutos depois e conseguia uma entrevista na hora. Trata-se de uma série de reportagens do DN para analisar as pessoas impedidas de entrar (na sociedade, no mercado de trabalho etc). Em sueco faz mais sentido, são "De Utestängda".
Exemplo das conversas por telefone, quando os rapazes ligavam para as empresas perguntando sobre a possibilidade de mandar o currículo:
Rebin Solevani, que fala sueco com um leve sotaque:
Repórter -- Oi, meu nome é Rebin Solevani e estou interessado no trabalho de cabeleireiro. Gostaria de saber se ele ainda está disponível?
Homem -- Já tenho muitas pessoas que querem o trabalho, de forma que vou esperar. Terei de encontrar com muitos interessados...
Repórter -- Ok, então pelo menos eu já sei.
Homem -- Obrigada, até logo.
Linus Larsson, sueco, ligando para o mesmo salão de cabeleireiro e falando com a mesma pessoa:
Repórter -- Olá, meu nome é Linus Larsson. Estou ligando a respeito do trabalho que vi anunciado. Vocês estão procurando um cabeleireiro?
Homem -- Sim, estamos.
Repórter -- O trabalho ainda está disponível?
(Linus tem oportunidade de falar sobre sua experiência anterior - praticamente a mesma de Rebin)
Homem -- Como é mesmo o seu sobrenome?
Repórter -- Larsson.
Homem -- Larsson, claro! Nós poderíamos nos encontrar pra uma entrevista, claro.
Quando o jornal ligou para o responsável pelo salão e o confrontou com o diálogo acima, ele disse que "não tinha nada a ver com o fato de Rebin ser imigrante". Essa é apenas uma das desculpas utilizadas pelos empresários citados na reportagem. A maioria disse estar muito estressada e por isso sem tempo para julgar de forma melhor os currículos dos aplicantes. A mesma coisa aconteceu com Hakim Chebchoub, mesmo ele sendo sueco de nascimento e falando a língua sem qualquer sotaque. Basta que ele diga seu nome para que qualquer tipo de interesse do empresário acabe.
Amany Abdelsaid tem 25 anos, é casada e tem dois filhosÉ por isso que a reportagem de hoje tem como título: "Eles mudaram de nome para conseguir um emprego". Na matéria conta-se a história de Amany, que passou a se chamar Anna para conseguir trabalhar. Ela é telefonista especializada em um tipo de sistema eletrônico sueco e não foi contratada quando a empresa em que estava fazendo estágio anunciou três vagas de telefonista. Uma colega de curso dela entrou numa vaga e outras duas moças, sem preparo especializado e com formação apenas ginasial, foram contratadas para as duas outras vagas. Ah, detalhe: as três moças são suecas. Amany acha que sua não-contratação apesar de sua óbvia competência se deve ao fato dela usar xale/véu.
O pior não é isso. Avni Dervishi, imigrante do Kosovo, tem um masters em Política Européia e Ciência Política, conseguido em uma universidade sueca, além de experiência de trabalho nas Nações Unidas - mas nenhum emprego. Quando resolve tentar um trabalho menos ambicioso, a desculpa é que ele é mais qualificado do que o exigido. Ele pensa em mudar de nome, mas acha difícil. Diz que seria como perder ainda mais uma identidade já difusa. Mas o pior mesmo é o que disse a sobrinha dele: "Por quê preciso estudar agora para entrar pra universidade? Você tem uma formação ótima e não consegue emprego." A sobrinha de Avni Dervishi tem 10 anos.



Você, que já me lê há algum tempo, deve estar achando que ando me repetindo demais, que estou obcecada com essa história de discriminação. É, pode ser. Mas, se você estivesse no meu lugar, aposto que estaria preocupada(o) também. Acho importante mostrar isso aqui porque essa série de reportagens é uma vitória. Uma vitória contra todos aqueles - suecos ou não - que dizem que não há discriminação na Suécia, apenas choramingação de imigrante mimado.
O fato de um dos mais respeitados órgãos de imprensa sueca - realmente mainstream - estar provando por A mais B que discriminação realmente acontece diariamente na democrática Suécia está espantando muitos cidadãos. A série de matérias foi acompanhada por pesquisadores, que dela tiraram conclusões de base científica. Hoje a ministra da integração aplaudiu a iniciativa, até porque os resultados das matérias mostram que não é apenas o governo que deve fazer alguma coisa pra melhorar a situação dos imigrantes, mas a sociedade como um todo.
setembro 06, 2004
No ônibus
Ontem teve jantar na casa de um casal amigo, Mia e Jens. Ela é minha amiga de curso. O namorado, Jens, é alemão e está na Suécia há tanto tempo quanto eu. A Jenny também estava lá. No ônibus sentei na parte da frente, como sempre faço quando não tenho certeza se peguei a linha certa. Ao meu lado, dois rapazes de aparência indiana (mas poderiam ser paquistaneses ou do Sri-Lanka, sei lá).
Num ponto de ônibus do centro da cidade subiram cinco mulheres da Somália, com suas roupas típicas, chales e tudo. Sentaram nas cadeiras à minha frente e uma delas ao meu lado. Ela era a mais velha de todas, uma senhora, e cheirava a sândalo. Quase comecei uma conversa, mas fiquei com receio de não me fazer entender. É muito comum que as imigrantes mais velhas, principalmente mulheres, não saibam mais do que o básico em sueco ou inglês. E eu, obviamente, sou um zero a esquerda em árabe.
Na minha frente, uma mãe e duas filhas. Uma das meninas era pequenininha e a mãe ia lendo pra ela o nome das paradas do ônibus com uma pronúncia muito boa, seguida de animados comentários em sua própria língua (somali?). Fiquei feliz por ela estar contribuindo para a educação da filha. Quando me levantei para sair do ônibus, no entanto, reparei uma coisa engraçada e triste. Todos os suecos presentes estavam sentados no fundo do ônibus, enquanto nós, imigrantes, sentamo-nos na frente (inclusive o motorista que parecia ser do Iraque).
O jantar foi ótimo! Sopa de salmão russo (a mãe da Mia é russa) com pêra no forno de sobremesa. Tomei um martini de aperitivo (gosto mais ou menos, prefiro as azeitonas hohoho) e o vinho branco que eu levei. Muito bom, viu? Se tiver oportunidade, compre. Tem um gosto muito suave, com um toque de frutas. Delicioso. No final, café e Baileys. Uhmmm.
agosto 17, 2004
No rádio
Então, quer me ouvir falar sueco? :c) Clique aqui. Meu texto em sueco está aqui. Mas como a maioria do pessoal que me visita não entende a língua, traduzi o texto:
Quando uma pessoa se torna sueca?Posso responder a essa pergunta de forma simples: nunca. Não importa quão bem você fala sueco ou quantos papéis você tem atestando sua cidadania sueca. Ser imigrante na Suécia é estar num eterno jogo de esconde-esconde. Você nunca atinge o objetivo, você fica sempre pra trás.
Para ser sueco você precisa falar sueco perfeitamente! Quando você atinge esse objetivo, você percebe que não é o suficiente, afinal, você tem sotaque. Para ser sueco você precisa se comportar e saber o seu lugar! Quando você atinge esse objetivo, você é vista como estrangeira reprimida.
Para ser sueco você precisa trabalhar! Quando você tenta atingir esse objetivo e como num milagre consegue uma entrevista de emprego, fica sabendo depois que não foi escolhida para o trabalho porque "não combinava" com o grupo de empregados. (Obs.: eu já ouvi isso na realidade).
Quando uma pessoa se torna sueca? É, eu não sei. Eu tento ser pelo menos quem sou, uma pessoa boa, não importando minha nacionalidade ou cidadania. Pessoalmente acho difícil que eu me sinta sueca. Não, não é porque eu não goste de vocês [suecos].
A razão é que a sociedade me informa continuamente que o meu jeito de ser sueca, que é minha única possibilidade de me sentir sueca quando se tem um coração brasileiro, não é suficiente. Continuamente a sociedade me lembra que eu não sou um "produto autêntico".
Pois então, quando uma pessoa se torna sueca? A pergunta não deveria ser quando uma pessoa se torna sueca, mas quando se permite que ela se torne sueca.
Maria Fabriani
Boden
agosto 16, 2004
Torcendo no éter
Olimpíada vista de fora é meio frustrante. Claro, a TV local mostra os esportes onde o país tem mais chances. Aqui esses esportes são ciclismo feminino, tênis de mesa e vários tipos de tiro ao alvo. Mas à noite, depois das 22hs, se você der sorte, pode ver a dupla Shelba e Adriana Behar arrasar a África do Sul no vôlei de praia. Ou se deliciar com a arte de Daiane dos Santos (tocando Altamiro Carrilho!) e Daniele Hypolito no exercício solo da ginástica olímpica. Cheguei a ficar com água nos olhos. Hoje a TV deverá mostrar semi-finais de badminton (?!) e outras esquisitices. E eu fico aqui, torcendo no éter pro meu Brasil.



Se você mora na Suécia, entende a língua e se interessa por rádio, sintonize amanhã das 9h20 às 10h no programa "Ring P1", no qual ouvintes podem participar diretamente. Contribuí com um pequeno artigo, no qual pergunto: "quando um imigrante torna-se sueco?" ("När blir man svensk?"). A sintonia da P1 em Boden é 90,6 (estação de Älvsbyn), em Lidköping é 88,9 (estação de Skövde), em Norrköping é 90,0 e em Arvika é 90,5 (estação de Karlstad).
Update - 16h22 => Uma das produtoras do programa "Ring P1" acabou de me ligar pra dizer que minha contribuição está "ótima" (palavra dela) e que vai sim ser colocada no ar amanhã. Fiquei tããããããooo feliz!!! UHU! Dou o link aqui assim que eles colocarem o show na Internet amanhã, depois das 10h. :c)))
junho 22, 2004
Morte e mudança cultural
A única coisa que tenho a dizer sobre a morte do Brizola é o que me lembro das primeiras eleições "livres", em 1982. Eu tinha 11 anos e fui com minha querida avó votar na Hebraica, em Laranjeiras. Ela, conservadora, votou no Moreira Franco. Minha mãe e um dos meus tios, no entanto, haviam escolhido votar no Índio Juruna (se lembram?), meu pai, no Brizola (eu acho). Coitada da vovó, o desgosto foi tanto que ela quase teve um treco.
Outra coisa que senti quando a Princesoca me avisou que o Brizola havia morrido foi uma certa melancolia. Isso porque sinto que as pessoas que fizeram do Brasil o que ele é pra mim durante os meus 29 anos de vida no Rio, estão desaparecendo aos poucos. Sejam elas boas, ou más. Estou perdendo pouco a pouco a base cultural em comum que sempre tive com amigos e família. Estranho.
Agora entendo o porquê de eu ficar meio deprê quando leio o blog do pessoal que mora no Brasil e não compreendo quem é fulano do Big Brother ou sicrano da novela tal. Estou, aos poucos, perdendo pedaços da cultural popular brasileira. O processo é inevitável, claro. Sei que é assim mesmo e não reclamo de não ser íntima dos participantes do BBB. Mesmo assim, sei lá. Me sinto mais uma vez "do lado de fora".
Hoje na aula apresentamos livros que lemos sobre vários temas ligados às questões dos imigrantes. Eu apresentei o "Ett öga rött", de Jonas Khemiri (foto à direita), do qual já falei aqui. Disse que o livro era interessantérrimo por lidar justamente com questões sérias como identidade de forma fácil, por se tratar da história contada em primeira pessoa de Halim, um adolescente nascido em Estocolmo de pais imigrantes.
Citei ainda a linguagem do livro como muito interessante. Trata-se de Rinkebysvenska, (sueco falado em Rinkeby, um subúrbio de Estocolmo onde é difícil encontrar um sueco "puro" pelas ruas). Há uma grande discussão sobre a importância de se reconhecer o sueco falado no "gueto" também como válido e não apenas rejeitá-lo como algo ruim. Eu disse que seria interessante dar esse livro para adolescentes e discutir não apenas sueco mas a própria questão social.
Nesse ponto uma menina, que está se formando para ser professora de sueco, diz que recomendar esse livro pros alunos é "um risco". "Só pra quem já sabe muito sueco é que pode ser, talvez, interessante", disse ela. Como resposta à minha pergunta do porquê dessa opinião, ela disse que o sueco do livro de Khemiri não é o sueco "correto", que deve-se evitar ensinar algo assim, tão cheio de figuras dialetais. Nesse momento, eu retruquei: "Aha, então podemos cortar da lista de livros didáticos os clássicos de Selma Lagerlöf?" (Foto à esquerda. Escritora sueca do início do século que escrevia exclusivamente no seu dialeto e que ganhou até Prêmio Nobel de literatura em 1909).
Esse tipo de ignorância misturada com preconceito me enoja.
junho 11, 2004
Crises e reflexões
No livro "Att bryta upp och byta land", de Elsie Franzén, psicóloga e psicoterapeuta além de docente em pedagogia, há uma série de coisas interessantérrimas, sobre as quais eu poderia escrever uns quinhentos posts. Não faço isso porque tenho a impressão que estaria abusando do interesse de vocês... :c) Então aqui vai apenas alguns destaques. Dentre as coisas que a autora descreve, uma delas me chamou mais atenção: o processo de crise passado pelos imigrantes.
Elsie Franzén faz um paralelo entre o processo de crise que qualquer pessoa pode sentir mesmo sem nunca sair da sua cidade de nascimento e a crise vivida por quem deixa seu país e vira imigrante numa terra desconhecida. Diz lá no livro: "Uma pessoa pode estar num estado de crise psíquica quando ela se encontra numa situação de vida em que suas experiências e modos de reação antigos não são suficientes para que ela possa entender e dominar psicologicamente de forma satisfatória sua nova situação".
Ou seja, você não sabe como reagir ou traduzir ações e reações de pessoas, lugares, costumes estrangeiros. Você entra numa espécie de vácuo cultural e emocional. É claro que esse processo tem uma série de variáveis e depende, por exemplo, do momento e até do background da pessoa em questão, além do lugar onde ela se encontra, se é muito diferente do país de origem etc. Mesmo assim, Elsie Franzén afirma que não importa se você é um refugiado ou um imigrante que veio pro país novo de livre e espontânea vontade (como eu). Há sempre um choque, uma mudança.
Eu senti isso muito nitidamente. No início era tudo um barato, apesar das saudades da minha família. Com o passar do tempo, no entanto, a novidade foi arrefecendo e eu comecei a ver a realidade. Foi um choque verdadeiro. Achei muitas vezes que não seria forte o suficiente para enfrentar o fato de, por exemplo, ter tanto problema pra arranjar um simples emprego. A imagem que alguns suecos fazem de mim é a de uma imigrante, com tudo o que isso representa (gente estranha, que fala mal sueco, que não é exatamente honesta nem gosta de trabalhar e vive do dinheiro do social).
Isso bate de frente com a imagem que eu sempre tive de mim mesma: uma moça trabalhadora, até certo ponto inteligente, esforcada e honesta. Esse impasse, que ainda existe, é difícil de se resolver. A crise de identidade está criada. Não percebi quando deixei de ser um recurso e passei a ser um problema. O lance é que os imigrantes na Suécia hoje são vistos como um grupo homogêneo, não importando se são turcos, iugoslavos, iranianos, chilenos ou brasileiros. Ninguém é visto como um indivíduo, mas como uma massa de gente diferente - e, muitas vezes, indesejável.
Alguns momentos do livro:
"O migrante não volta nunca mais, mesmo quando ele retorna ao seu país. A viagem [de imigração, de ida] irá modificá-lo pra sempre". (Elsie Franzén, página 54)
"Largar tudo e mudar de país em idade adulta é para a grande maioria das pessoas um acontecimento central na vida". (E.F., p. 54)
"Independente da causa da vinda para o país novo, os primeiros tempos são descritos como uma experiência positiva e excitante. (...) quase como uma lua de mel." (E.F., p. 57)
"[Mais tarde], as pequenas dificuldades do dia-a-dia finalmente aparecem. (...) E é esse mal-estar que aos poucos vai se instalando na surdina que pode iniciar uma crise." (E.F., p. 58)
"Costuma-se dizer que a crise tem como motivo uma perda traumática. No caso dos imigrantes, não é apenas uma perda, mas muitas perdas." (E.F., p. 58)
"Possuímos psicologicamente os lugares onde nos sentimos em casa - uma cidade, uma floresta, uma praia. Essas propriedades emocionais não podem ser vendidas ou trocadas por outras." (E.F., p. 59)
"O idioma é perdido. (...) Aqueles que querem participar da sociedade sueca precisam aprender a falar sueco." (E.F., p. 60)
"Por fim, a pessoa perde com a imigração uma parte do que ela entendia como sua identidade". (E.F., p. 61)



Completando o post, queria dizer que o livro dá uma visão otimista dessa crise passada pelos imigrantes. Elsie Franzén explica que construímos nossas identidades com a ajuda da interação que estabelecemos com outras pessoas, entidades, grupos. Quando isso desaparece, parte da nossa identidade some. Ao mesmo tempo em que a falta dessa definição nos deixa alquebrados, ela nos permite um processo de renovação. E é nesse sentido que Franzén também analisa a palavra "crise".
Ela diz lá no livro que a palavra "crise" vem do grego "krisis" (não sei se em grego é com "k" ou com "c" - no livro, em sueco, está com "k". Então, aos puristas gregos, minhas desculpas antecipadas) e que quer dizer "decisivo". É por isso que dizemos que "alcançamos o momento crítico do jogo". A partir dali, as coisas mudam. Cabe a nós trabalhar pra que a mudança ocorra ao nosso favor, né não?
junho 02, 2004
Choque cultural
Uma das vantagens de estar estudando o processo de integração de imigrantes e refugiados é poder se reconhecer em muitos momentos. Abaixo, traduzi um trecho do livro "Språk, kultur och social identitet" ("Idioma, cultura e identidade social"), de Seija Wellros, que retrata exatamente como me senti muitas vezes aqui, em épocas diferentes. O cansaço crônico a que a autora faz referência, por exemplo, ainda existe, ainda que reduzido.
Choque cultural é a sensação de um caos cognitivo ameaçador e contínuo que acontece graças à falta por parte dos imigrantes de confiáveis instrumentos de tradução e pontos de referência fixos. Esse choque é vivido por todos os que se mudam, durante longo ou curto período de tempo, para um novo ambiente, e pode ter intensidades variadas. (...) Aquele que se muda para um novo país sente ao mesmo tempo o choque de se tornar "surdo-mudo", quando não entende o que se diz nem pode se fazer entender no idioma local.
Me lembro como era complicado pra mim, nos primeiros meses, fazer coisas simples como ir ao supermercado, por exemplo. Ficava em pânico cada vez que a caixa me perguntava alguma coisa e eu não entendia nada. Todo mundo fala inglês, claro, e eu também, mas ainda assim me sentia mal por não poder me comunicar como qualquer outra pessoa na fila atrás de mim, esperando para eu andar rápido.
O fato de poder me comunicar em inglês ajudava, claro, mas, pra mim, não adiantava muito. Me sentia humilhada quando morava aqui e não sabia falar a língua. (Vale comentar que sentia essa humilhação quando já entendia o idioma mas ainda não conseguia falar direito). Os suecos, por outro lado, adoravam poder praticar seu inglês (que é muito bom) com alguém e falavam pelos cotovelos. E eu, minha maior crítica, me sentindo mal, achando que eu não estava me esforçando o suficiente.
Não conseguir diferenciar padrões conhecidos e entender as causas para os atos de outras pessoas a sua volta cria uma insegurança muito grande e quase sempre um cansaço crônico. A cognição está a toda, mas a pessoa mesmo assim não encontra nenhuma conexão entre o que se observa e o que já se sabia sobre as pessoas e o mundo. Não existe lógica e não se entende o que acontece ao nosso redor e dentro de nós.É por isso que existem muitas coisas que provocam surpresa, nervoso ou medo. Tem-se dificuldade em diferenciar o trivial do essencial, o inofensivo do perigoso. Não se pode julgar as intensões de outras pessoas, motivos e características e por isso acaba-se tendo uma imagem não muito real dessas pessoas. O único instrumento de tradução que se tem, seu próprio quadro de referência [trazido do seu país de origem], não é suficiente para recriar e sustentar uma sensação de totalidade e sentido no mundo a sua volta, uma sensação cognitiva de ordem.
Me lembro que meu primeiro ano na Suécia foi o ano em que mais tive dores de cabeça na minha vida. Era uma dor de cabeça pelo menos todas as semanas. Achei até que estava com um tumor no cérebro. Cheguei a um ponto em que precisava desligar tudo, TV, rádio, não estudar nem (tentar) ler mais revistas, jornais ou sites na Web, para que meu cérebro pudesse descansar. A sobrecarga é realmente verdadeira. Fico feliz de saber que esses sinais de cansaço são completamente normais e não eram maluquice da minha cabeça.
O que costuma causar uma inseguranca ainda maior é que a pessoa não tem como saber como ele será julgado, isso porque não se sabe como a "norma" é e o que quer dizer "normal" na nova cultura. Muitas vezes tem-se uma dolorosa consciência de que somos vistos como "estranhos", chatos, provocadores ou problemáticos, mas não sabemos em que ponto ultrapassamos o limite quando a traducäo comeca e a imagem negativa comeca a se formar na cabeca das pessoas.Pode ser problemas com o idioma, pode ser alguma coisa no nosso comportamento. Sentimos que sempre falhamos em nossa comunicacão, tanto verbal como não-verbal, mas não podemos fazer nada a respeito disso. Quando queremos ser educados parecemos metidos e formais. Quando dizemos uma piada, ninguém ri. Quando dizemos alguma coisa séria, os outros riem. Quando tentamos mostrar nossos sentimentos parece que somos patéticos ou dramáticos demais. É doloroso não poder controlar o processo de percepcão, e destrói nossa auto-confianca.
Isso é nítido. No início, nunca sabia o que os suecos pensavam de mim, até porque eles não são exatamente um povo que diz o que pensa. Muitíssimo pelo contrário. Todo mundo queria ser agradável e eu não sabia os limites (e ainda não sei às vezes) até onde ir, até onde me julgar engraçada, amiga, ou apenas uma conhecida que deve ter uma postura mais formal.
Volta e meia ia ao trabalho do meu urso tomar café e os colegas de trabalho dele soltavam umas piadas meio sem pé nem cabeça. Eu não sabia se ria ou não, sinceramente. Não queria ser estraga prazer, mas também não queria dar a impressão de ser muito amiga, até porque fui instruída assim: colegas de trabalho suecos não são como colegas de trabalho brasileiros. Ninguém é íntimo de ninguém. Aí, depois, fiquei sabendo que eles me achavam interessada e divertida. Não quero nem saber o que pensavam aqueles que discordaram deles...
A autora desse livro imigrou da Finlândia para a Suécia há mais de 30 anos e se tornou professora de sueco para imigrantes e, mais tarde, psicóloga. Os livros dela (além desse aqui, já li mais dois, "Kulturmöten till vardags" - "Encontro de culturas no cotidiano" e "Ny i klassen: om invandrabarn i svenska skolan" - "Novo na turma: sobre criancas imigrantes na escola sueca") são sensacionais.
maio 23, 2004
Salto mortal
Ter escrito o texto do post anterior me doeu. Ele não é diferente dos demais posts em que apresento os podres da Suécia de forma cínica e até certo ponto divertida - como que para mostrar que não existem paraísos na Terra. Mas, sei lá, isso não está me satisfazendo mais. Acho que esse "basta" interno aconteceu porque chegou o momento de fazer uma reavaliação. Estudar está sendo fundamental pra mim. Não apenas estou crescendo como gente e criando oportunidades para meu futuro profissional como tenho possibilidade de investigar uma série de questões íntimas minhas.
Uma delas é: por que tenho essa necessidade de escrever coisas negativas que acontecem na Suécia? Será que é pessimismo? Complexo de culpa por ter oportunidade de viver num país de primeiríssimo mundo? Ou uma necessidade subconsciente de renegar a Suécia, como quem renega e tenta se afastar de um amor que parece ser forte demais? (Afinal, todos nós sabemos que é mais fácil abandonar do que ser abandonado).
Acho que é de tudo um pouco. O Montanha-Russa nasceu por pura necessidade psicológica, cresceu como um blog de curiosidades da cultura sueca e virou, nos últimos tempos, um lugar onde escrevo sobre questões importantes pra mim, como racismo e discriminação. Isso eu não mudo porque acho que espelho minha situação aqui ao longo desses três anos. Além do que, não abro-mão de criticar, até porque não há nada mais chato de que ler blog cujos textos mais parecem propaganda de brochura turística.
Não. Escrevo aqui coisas que me tocam num nível pessoal e que me despertam interesse profissional. Sinto que, a medida em que me integro à sociedade sueca - vou à universidade, participo da vida cultural local e nacional, tenho amigos suecos etc - vou me intregando mais a mais e isso, pra mim, ainda é um pouco contraditório. Sinto que minha identidade se perde no caminho.
É difícil me sentir sueca e ao mesmo tempo brasileira. Até porque são identidades completamente distintas. Confesso que muitas vezes me sinto mais sueca do que brasileira. Outras vezes é exatamente o contrário. Isso me deixa perplexa, confusa e aflita. Me sinto numa espécie de limbo: não sou exatamente sueca (nem nunca serei) mas também não sou mais exatamente brasileira (nem nunca mais serei), entendem?
Seria muito difícil voltar a morar no Rio agora e ter de lidar com a violência desmedida, a total falta de respeito por regras e a diferença cada vez maior entre pobres e ricos. Sem falar na insegurança econômica, que devora a alma de quem precisa trabalhar para sustentar sua família. Aqui vive-se num universo paralelo, numa Disney World idílica. Acho que é até por isso que eu escrevo muito sobre os podres daqui. Para tentar tornar real essa realidade tão diferente.
Na Suécia, segurança é uma palavra ampla, que engloba vários níveis da vida do cidadão. Desde bebê até a terceira idade o cidadão é acompanhado, cuidado, educado, monitorado e ajudado de todas as formas possíveis. Para alguns isso pode parecer sufocante, um controle quase Orwelliano, mas digo por experiência própria - ainda que restrita a três anos - dá muita segurança saber que o fundo do poço nunca realmente é uma opção. O salto mortal é feito sempre com rede de proteção.



Hoje é aniversário do meu irmão, Carlos! Treze anos! Nossa, que saudade. Um beijo irmão! Te amo!
maio 07, 2004
Notícias do Primeiro Mundo V
Um terço dos suecos nascidos fora da Suécia sofre discriminaçãoUm terço dos cidadãos suecos nascidos fora do país sofre discriminação, principalmente no mercado de trabalho. Essa foi a conclusão de uma pesquisa realizada por escritórios anti-discriminação em quatro cidades suecas. Os mais discriminados são pessoas nascidas em países da África, da Ásia e da América do Sul.
- É trágico que tantas pessoas sejam discriminadas na Suécia de hoje. Tanto os políticos quanto a sociedade em geral deve reagir contra isso, afirma Jabar Amin, que trabalha no escritório anti-discriminação de Umeå. O relatório teve como base uma enquete com 25 perguntas que foi enviada para 4 mil pessoas nascidas fora da Suécia e que moram em Estocolmo (sudeste), Gotemburgo (sudoeste), Norrköping (centro) e Umeå (norte).
Nada menos do que 37% - pouco mais de um terço - afirma já ter se sentido discriminado pelo menos uma vez nos últimos três anos. Do total de respostas vindas de cidadãos suecos nascidos na África, 54% já se sentiram discriminados. Em outro grupo, o de suecos nascidos em outros países escandinavos (Noruega, Dinamarca, Finlândia ou Islândia), 14% afirmaram já terem sido objeto de discriminacão.
A forma mais comum de discriminação acontece no mercado de trabalho, seguida de perto pelo setor de entretenimento (restaurantes/pub/discotecas), por empresas de aluguel de apartamentos e, por fim, no segmento de saúde.



Preciso comentar?
Link pra matéria (em sueco).
PS.: Mas hoje eu estou bem. Fiquei sabendo de notícias de uma amiga muito querida e senti que ela está no caminho de volta, se recuperando depois de uma perda difícil. Fiquei feliz em ler o email da minha amiga, de sentir a vibração de uma das pessoas mais doces que conheço e que está se recuperando. Força, queridoca!
maio 01, 2004
Choramingação
República Tcheca Europa enterra definitivamente a Guerra Fria com expansão para o Leste
BRUXELAS - Oito ex-nações comunistas e duas ilhas mediterrâneas entraram na União Européia neste sábado (sexta-feira no Brasil) em uma histórica reunificação da Europa Ocidental e Oriental, 15 anos após a queda do muro de Berlim. Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia, ilhas de Chipre e de Malta passaram a integrar oficialmente o bloco europeu a partir da zero hora deste sábado (horário centro-europeu; 19h horário de Brasília).
Essa expansão, a maior feita até hoje, transforma os 25 membros da UE no mais poderoso bloco comercial do mundo com uma população de 450 milhões de pessoas produzindo quase um terço de toda a riqueza mundial. Para os moradores do Leste Europeu, a expansão da UE é uma recompensa pelos esforços dos últimos 15 anos, quando reformas foram implementadas depois do colapso da União Soviética. (Matéria do Globo de hoje)
Para a Suécia, a expansão da Comunidade Européia (CE) é um assunto controverso. Primeiro porque os suecos em geral têm restrições à idéia da CE de união total, com muito poder delegado à Bruxelas. Segundo porque os políticos estão apavorados com a possibilidade de imigração em massa das antigas repúblicas do leste para aproveitar o doce wellfaire escandinavo.
Muito se discutiu nesses últimos meses sobre isso e até o primeiro-ministro Göran Persson - um socialista, diga-se de passagem - virou a casaca e pleiteou no congresso regras de transição, segundo as quais os imigrantes dos novos países europeus não teriam direito imediato ao sistema de pensão e hospitais sueco se viessem trabalhar aqui. Persson até lançou a expressão "turismo social", para ilustrar o que ele acha que os moradores das novas nações européias farão na Suécia.
"Racismo! Discriminação!", berraram os partidos de direita (sim! aqui é tudo ao contrário). Polônia e Hungria até ameaçaram adotar leis restritivas semelhantes caso a Suécia insistisse. Mas, graças ao bom senso geral, a proposta dos socialistas caiu e não haverá regras de transferência. Estudos indicam que alguns novos europeus deverão mesmo se mudar para a Suécia, mas esse total não chegará a mais de 10 mil pessoas. O que, aliás, é até bom pro mercado de trabalho sueco, que tem problemas em seduzir gente pra vir trabalhar aqui.
Eu particularmente acho que isso é um absurdo. Sabe como é que é: se tá na chuva, é pra se molhar. Se a Suécia faz parte da CE, então tem que aceitar as regras. Além do que, a maioria desses países tem taxas de crescimento econômico muitíssimo superiores à sueca, que estagnou em torno dos 4% ao ano. A Estônia, por exemplo, tem uma economia aquecidíssima e cresce a incríveis 10% ao ano. Foi até batizada "O tigre do báltico". Pra quê sair de lá, se é agora que a economia promete aquecer de vez?
Parece que não são os imigrantes que assustam os suecos, mas outra coisa. Na verdade, eles estão apavorados com a possibilidade de mudança de domicílio de empresas. A Electrolux, empresa sueca que fabrica refrigeradores, fogões etc, já transferiu toda sua produção de aspiradores de pó pra Hungria, onde tem-se mão-de-obra razoavelmente treinada a salários ridículos, se comparados aos padrões suecos. Isso sim é um problema. O resto é gnäll (=choramingação).
março 17, 2004
Sem comentários
Me abstenho de responder aos comentários do post "Fragilidade". A razão é simples: não me sinto capaz de responder de forma objetiva a alguns comentários em particular. Além do que, acho que a maioria não entendeu o que eu quis dizer com o post. Escrevi sobre uma sensação, algo subjetivo e portanto bastante pessoal. Avisei, inclusive, que estava generalizando em algum ponto e deixei bem clara minha posição com relação a isso.
A retórica ligeira do tipo "Bola pra frente", "é assim mesmo" ou "não pense assim senão você nunca será feliz" não me ajuda. Só faz reforçar minha impressão de que não consegui transmitir o que queria. Ou talvez os receptores não estejam abertos à minha mensagem. Não dou (nem sigo) receitas de felicidade na terra estrangeira porque sei que o caminho de cada um é diferente. Depende de muitas circunstâncias sociais, econômicas, emocionais etc.
Dito isso, quero deixar bem claro que não busco unanimidade de opiniões, nem no blog nem nos comentários, nem tão pouco quero fazer do Montanha um muro de lamentações contra os suecos. O que desejo é entender esse país, essas pessoas. E apenas conseguirei entendê-los se observar a influência que eles têm sobre mim. E puder falar/escrever sobre isso.
O que fiz no post "Fragilidade" foi escrever sobre um momento da minha vida, a partir das minhas idéias, da minha experiência pessoal e da minha personalidade. É CLARO que sempre digo pra mim mesma: "Deixa pra lá, essa pessoa não sabe de nada" quando me deparo com algum europeu ignorante. Se não relevasse na maioria das vezes o comportamento alheio era melhor me trancar num convento e jogar a chave pela janela.
Mas exatamente por morar aqui, estudar e viver no meio de gente tão diferente, é que percebo mais cruamente as reações de quem encontro e principalmente as MINHAS reações com relação a eles. Minha análise é válida porque faz sentido para mim, pessoalmente.
Na minha opinião, quem estuda (ou se interessa por) sociologia, comunicação, cultura etc tem que fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o seu papel na sociedade em que vive. E foi isso o que eu fiz. Não quero sentar em casa e pensar: "Tomara que dê certo essa coisa de se mudar pra Suécia". Não, eu quero fazer com que dê certo. E pra fazer com que dê certo preciso entender. E para entender preciso escrever. É isso.
março 16, 2004
Fragilidade
Quando estava tomando café com a Jenny lá na universidade semana passada, começamos a conversar sobre a fragilidade que todos os imigrantes sentem no país onde se encontram. Ela, que já morou três anos na França e namora um marroquino que enfrenta as mesmas dificuldades que eu aqui na Suécia (talvez até mais), se identificou com essa minha sensação de exposição máxima à opinião alheia.
Qualquer coisa, qualquer reação, um sorriso ou uma cara fechada, uma palavra de significado dúbio (o que não é incomum no idioma sueco) tem o poder de fazer seu dia muito melhor ou muito pior. Se não nos sentimos pessoalmente atacados, pelo menos reconhecemos uma sensação geral de desconforto, mágoa até. É horrível dar tanto poder assim pra gente que nem conhecemos, que não sabemos nada a respeito, mas é a pura verdade. Nós, imigrantes, definimos nosso bem-estar muitas vezes através da reação do povo com relação a nós.
E isso fica ainda pior quando você, pessoalmente, já está mais pra lá do que pra cá. Frágil, cansada, de saco cheio. Foi o que aconteceu no sábado passado, quando fui à cidade encontrar com a tia do Stefan para tomar um café. Quando cheguei ao stand dela - ela trabalha em um dos muitos sindicatos suecos e estava fazendo propaganda na praça principal daqui - perguntei a uma moça que estava lá no stand sobre a tia. Ela disse que era pra eu esperar lá que ela já já viria.
Enquanto esperava a tia que nunca chegava, conversei amenidades com a moça do stand, falamos sobre o tempo (estava um dia lindo, mas frio) e tal. Quando ela me ofereceu uma bala, recusei dizendo que estava começando a fazer a dieta da Vigilantes do Peso e queria manter a linha. Ela ficou interessada e perguntou o que eu achava. Eu disse que o método havia mudado muito desde a primeira vez que eu fiz, há 15 anos, lá no Rio. Nesse ponto, ela arregalou os olhos e perguntou: "Mas existe Vigilantes do Peso no Brasil?"
Senti imediatamente uma pontada de raiva e irritação. Para felicidade geral da nação, consegui manter a calma e dizer com um sorriso irônico: "Claro! O Brasil é um país muito grande, sabe?" Ela notou rapidamente sua gafe e emendou: "Ahn.. Nós, que moramos aqui no norte (da Suécia) não temos muita informação..."
Deixei pra lá porque por um lado não queria discutir com ninguém sobre isso num dia de irritação e fragilidade exageradas e, por outro lado, podia até entender a argumentação dela. Os suecos, por mais desenvolvidos e primeiro-mundistas que sejam, não têm essa visão universalista que eles gostam de dizer/pensar que têm. Eles viajam bastante, mas apenas pra lugares pré-determinados por vôos charter (Natal, RN, é um desses pólos turísticos) e não se esforçam muito pra saber da cultura local.
É claro que isso é uma generalização. Pode haver um caso ou outro (meu Urso, felizmente, é um deles) que se interessa verdadeiramente pelos países que visita. Mas a maioria é mesmo ignorante e não se encomoda em permanecer assim. Relendo esse post, acho que pareço amarga. Não é isso. Os suecos são gente boníssima, inteligentes etc. Mas, como qualquer outro povo europeu, têm uma capacidade ilimitada de se orgulhar de sua própria pátria (muito justamente, aliás). O problema é que eles esquecem que existe vida inteligente fora daqui. Só isso.
março 01, 2004
Resposta e esclarecimento
Mauricéia, obrigada pelo seu toque e acho que você tem razão. Em parte. Realmente me excedi e critiquei em tom de desdém uma pessoa que nem conheço. Por isso, peço desculpas. Por outro lado, quero colocar minha crítica em contexto e, com isso, tentar me defender: desde que cheguei à Suécia tive que provar todos os dias que não sou estúpida nem faminta apenas porque vim de um país do terceiro mundo.
Sei que parece exagero, mas não é. Pergunte a qualquer brasileiro que more na Europa e ouvirás histórias mais ou menos semelhantes, muita luta principalmente no início. Quando finalmente sei falar a língua, conquistei uma ou duas coisas aqui, e encontro uma pessoa como essa bibliotecária, minha reacão é mesmo radical. Tendo mesmo a julgar logo, sem pensar "que a pessoa pode não conhecer tantas palavras como eu".
Acho que as feridas no meu orgulho ainda são profundas e tendo a fazer comédia de quem, em meus olhos, não alcança o "alto nível" que os suecos tanto prezam. Sei que pra você, que não me acompanha há tanto tempo assim, isso pode até parecer uma lógica meio esquisita. E é por isso que te peço: entenda que não critiquei as bibliotecárias do mundo inteiro, mas apenas aquela lá, sueca, exatamente por ela ser sueca e por, como integrante de uma sociedade ultra-exigente e bem instruída, exigir de mim nada menos do que a perfeicão.
Espero que compreenda meu ponto de vista também. Um beijo!
fevereiro 02, 2004
Gente
Sabe uma coisa engraçada que ando reparando? Que não acho as pessoas que encontro nas ruas, na faculdade, nas lojas, tão diferentes de mim assim. É que quando vim morar aqui, crianças, homens e mulheres de todas as idades me pareciam muito diferentes visualmente. O cabelo, a cor, as roupas. Tudo me era muito estranho e fazia com que eu me sentisse muito fora de contexto, por assim dizer.
Agora, essa sensação de estranheza diminuiu. Isso porque tenho reparado que na faculdade, por exemplo, me sinto mais "em casa", porque vejo gente de todos os tipos. Mas mesmo os suecos "puros", chamados Erik Ericsson, loiros ou morenos, já são comuns pra mim. Por outro lado, as meninas ainda são bem diferentes. Acho que é porque a maioria é loira - ou pinta o cabelo de loiro, vermelho, preto, azul ou verde. Aí não dá pra se identificar. :c)
janeiro 22, 2004
Ainda pensando nas mocréias
Tava me perguntando o porque de estar tão mobilizada pelo lance das mocréias. Com tanta coisa legal e interessante acontecendo, porque não paro de pensar/escrever sobre as infelizes que fazem parte do meu curso e que nem conheço direito? Depois de ponderar um pouco, acho que descobri a razão.
Minha primeira experiência na universidade (jornalismo na UFRJ) foi péssima em vários sentidos: professores desmotivados, livros antigos (ou inexistentes), cópias xerox generalizadas, falta de laboratórios para aulas práticas etc. Por outro lado, o da convivência social, foi um dos melhores períodos da minha vida.
Acho que isso é que está me chateando, essa falta de calor humano tão necessária quando se está dando um passo fenomenal assim, ainda mais "no estrangeiro". Mas não gosto de choramingar (apesar de adorar reclamar). Afinal, era exatamente isso o que eu queria.
E o mais engraçado, ou irônico, é que eu nem gosto tanto assim de trabalhos em grupo, nem de ficar andando de um lado pra outro com uma amiga a tiracolo. Acho que já passei dessa idade e, sinceramente, prefiro quase sempre a solidão a qualquer tipo de papo circunstancial.
E só pra defender - ou deixar de ser tão má com - as mocréias suecas: elas não são feias não. Algumas até são bonitas. Outras, lindas. Vai ver que são até gente boa e eu é que estou sendo implicante. Então, pra resumir, nada melhor do que um clichê: "Quem viver, verá".
dezembro 05, 2003
Pensando bem

Costumo comparar meu processo de aprendizado a um salto acrobático numa piscina profunda. A gente vai até o fundo, nada muito, bate os pés mas demora pra voltar à superfície. Parece que vamos morrer de falta de ar, de falta de sentido das palavras. Mas aí, um dia, você chega à superfície, coloca o nariz pra fora e respira. A partir daí, você não se afoga mais. :c)

outubro 14, 2003
Revolta com a notícia
Ontem de noite fiquei muito danada da vida. Estava lendo os jornais online quando vi a manchete no site do Aftonbladet, um dos jornais mais populares da Suécia, apesar de ser tablóide (meio absurdo às vezes). A notícia dizia respeito à prisão de uma mulher no aeroporto Arlanda, em Estocolmo, por estar carregando 15 quilos de pasta de cocaína acondicionados em várias embalagens de shampoo.
O que me indignou é que o Aftonbladet escreveu que a mulher "tinha passaporte inglês mas era brasileira". Fui verificar se isso era verdade nos outros jornais mais sérios daqui, como o Svenska Dagbladet e o Dagens Nyheter. Mas, no final, eu estava certa de ficar indignada. A história é que a mulher, que realmente tem passaporte inglês, havia saído do Brasil, e teria chegado a Estocolmo via Espanha.
Fiquei tão possessa pela falta de respeito e pela indiferença com que essa informação delicada foi tratada que escrevi um email enfurecido para a repórter e mandei cópias para todos os chefes dela, além dos representantes do sindicato dos jornalistas (ao qual pertenço, aliás). Agora, quando cheguei do colégio, a primeira coisa que fui ver foi a matéria do Aftonbladet. Vitória!!!! Eles mudaram o texto! :cD
O meu email:
"Tenho que protestar contra a maneira lamentável com que o Aftonbladet escreveu a matéria sobre a mulher presa em Arlanda com vários quilos de cocaína na bagagem. A mulher é mesmo brasileira?Eu acho que não. Depois de ter lido as matérias dos bem-escritos e sérios jornais Svenska Dagbladet e Dagens Nyheter, descobri que a mulher tinha passaporte inglês e havia apenas começado sua viagem à Europa no Brasil.
Será que todos que viajam a partir do Brasil são brasileiros?
É realmente tão importante citar que ela tinha outra cidadania que não a inglesa? Se for, é até aceitável que ela seja brasileira, uma vez que o Brasil é um país do terceiro mundo cuja população é formada apenas por traficantes de cocaína, não é mesmo?
Well, news flash: nem todos os cidadãos brasileiros são traficantes de cocaína.
Qual a relevância da informação de onde a mulher veio? O fato concreto não é que ela é cidadã britânica?
Vamos melhorar essa redação! Vocês deveriam se envergonhar desse tipo de jornalismo que estão fazendo. Incrível ler textos escritos por suecos que descriminam outras pessoas tão abertamente.
Eu não sabia que vocês eram racistas no Aftonbladet.
Maria Fabriani
Cidadã brasileira que mora na Suécia, é jornalista e NÃO é traficante de cocaína"
agosto 13, 2003
"Do not be afraid of going slowly. Be afraid only of standing still"
Tô melhor. Obrigadíssima pelos comentários ao post aí de baixo. Muito obrigada mesmo. Ajuda demais. Cheguei à conclusão que não é produtivo ficar deprê assim. Claro que não posso fazer nada no que diz respeito à falta de equilíbrio hormonal a que sou sujeita todos os meses, mas posso sim tentar evitar ficar deprê por outras razões.
Preciso me concentrar nos planos que tracei pra minha vida no outono e todo o resto, não importando se a conjuntura econômica indica mais incertezas do que promessas futuras de uma carreira. Tenho que simplesmente let it go. Senão eu fico louca.
Foi isso que eu fiz vindo pra cá, in the first place, de forma que o que preciso agora é seguir caminhando como quem respira calmamante. O ar entra; o ar sai; o ar entra; o ar sai. Senão, hiperventilo a vida e saio por aí, aos trancos e barrancos, tropeçando nos acontecimentos, sem enxergar nada o que estou fazendo nem perceber o que estou ganhando ou perdendo.
Nesses momentos de confusão mental, espiritual e emocional é fundamental poder fazer uma escolha. Decidir-se, optar por uma saída, seja ela qual for, é mais importante do que se preocupar em saber se a decisão é a certa ou não. Na dúvida, vou fazendo o que eu conseguir, até que eu pare.
agosto 04, 2003
Ora bolas
Tava lendo a home page do Diskrimineringsombudsmannen (DO) (= uma autoridade anti-discriminação daqui) e, como sempre, fui ver as últimas notícias sobre o tema, reunidas numa área especial do site. Foi quando me deparei com uma notícia engraçada e que mostra que pelo menos na Suécia ainda não está tudo perdido.
Uma padaria da cidade de Sjöbo foi denunciada ao DO por racismo. A razão é ter feito uma faixa para vender seus Negerbollar [neger = negro; bollar = bolas], doce tradicionalíssimo feito com chocolate, côco e açúcar (veja imagem ao lado). A sueca Sara Kander, que é branca, apelou para uma nova lei, implementada mês passado, que proíbe esse tipo de denominação, para requisitar a retirada do anúncio. Como não foi atendida, denunciou a padaria.
Ainda me lembro quando comecei a me ambientar por aqui e vi esses negerbollar nos cafés da minha cidade e de todas as outras que visitei. Confesso que fiquei chocada quando vi do que se tratava - não apenas pelo racismo implícito, mas principalmente pela conotação abertamente sexual do nome do doce. Mas a notícia, publicada no Aftonbladet e que repercutiu em quase todos os jornais locais do sul da Suécia, não termina aí. O pior vem no final:
Agneta Andersson, dona da padaria, não entende a crítica:
-- Os doces se chamam mesmo negerboll. Já tivemos negros retintos aqui dentro e nunca ninguém reclamou -- disse ela.
É mole?
Leia aqui a notícia na íntegra (em sueco).
agosto 02, 2003
O tempo
Leio sem parar. Em sueco, mais do que tudo. Jornais, home pages, textos e livros, muitos livros. Desde que percebi que conseguia ler livros em sueco e me divertir - não apenas por obrigação do curso de idiomas - descobri uma série de escritores escandinavos interessantíssimos. Mesmo assim estou frustrada. Estou frustrada porque por mais que leia sem parar textos sobre os mais variados assuntos, não consigo utilizar nem 30% das palavras e dos conceitos que aprendo.
Quando leio, entendo 95% de tudo o que é dito. Mas quando vou falar, parece que o cérebro engasga; lá de baixo de suas dobras, as palavras novas, cheias de ä, ö, e ås ficam borbulhando, como se fossem vinhos de safra recente, esperando para serem engarrafados e consumidos. Volta e meia uma vem a tona e eu nem sei se é a palavra certa pro contexto, mas o incrível é que sempre é.
Me lembro que quando era pequena, costumava ouvir às conversas dos adultos (pai e amigos; mãe e amigos; avó e amigos) e tentava acompanhar os assuntos, por mais que minha atenção se desviasse das palavras para algum detalhe curioso de uma das pessoas. Mesmo assim me lembro nitidamente do meu desejo de entender tudo o que eles estavam dizendo, cada palavra, as piadas etc. Me lembro que quando lia livros não entendia tudo o que era dito e que lia mesmo assim, porque "um dia", pensava eu, "vou entender tudo".
Pois estou de volta nessa rotina. Às vezes sinto que meu aprendizado de sueco é como construir um quebra-cabeça. Uma palavra lida ali e usada acolá vai como que se encaixando na minha cabeça. Mas, como se fosse o corpo curando uma doença em doses homeopáticas, preciso de tempo para poder tomar posse dessa palavra e do que ela representa, para poder usá-la propriamente. Há frustração, como eu disse antes, mas, ao mesmo tempo, gosto desse processo lento, aprecio a construção de uma existência nova por meio das palavras que povoam a minha vida.
Me lembro um dia em que vi Matrix com o meu irmão e comentei que queria ser as pessoas do filme, que "aprendem" quando o conhecimento é "baixado" no cérebro delas. Comentei com Carlos como seria bom poder fazer isso com sueco e sair por aí, falando fácil como quem pilota um helicóptero eximiamente. Mas, ao mesmo tempo, não seria tão divertido. Adoro quando descubro o significado de uma palavra que ouvi em diversos contextos e que, depois de várias pontes de raciocínio, consigo estabelecer seu significado.
maio 09, 2003
A vida como ela é
Então, aí você leu o post de baixo e pensou: "Que mamata! Essa garota deve estar se dando bem! Mas, péraí, li todo o bla-bla-bla dela aqui e acho que ela não tem filhos. Que burra! Para de choramingar e embuxa logo, menina, aproveita!". Parece meio grosseiro, né? Mas, acreditem, eu já ouvi isso. O problema é que não é tão simples assim.
Primeiro, o custo de vida na Suécia é um dos mais altos do mundo. Se por um lado tem-se quase tudo de graça (escola, saúde etc), por outro, diversos itens básicos, como comida e moradia por exemplo, saem caros para qualquer um. E não esqueçamos dos impostos, né?
Vamos analisar a situação de Anna Johansson, uma mulher sueca qualquer. Seu salário é de 10 mil coroas por mês (antes do imposto), mas ela irá embolsar apenas sete mil. Três mil são descontados na fonte. Se a nossa Anna mora de aluguel, ela precisa morar mal e pagar cerca de dois mil coroas por um quarto-e-sala. Os cinco mil restantes, têm que ser esticados para pagar as contas de luz e todos os impostos (aqui paga-se licença para tudo, até para se ter televisão e rádio), além de comida, roupas e transporte.
Pouco, né? Se a Anna for casada isso pode melhorar, caso o marido dela trabalhe (ou viva do social, como uma multidão de suecos faz). Aí o casal terá um pouco mais de grana para completar. Mesmo assim, os gastos são enormes, mesmo com a ajuda do Estado.
Uma matéria interessante foi publicada ontem no jornal que eu assino: faz as contas de quanto custa ter um filho. (Os suecos são engraçadíssimos: tudo é tão contabilizado, anotado, declarado. Essa organização me enternece). Bom, voltando. Diz lá na matéria:
Uma criança recém-nascida (0 anos) = 1.450 coroas
1-2 anos = 1.480 coroas
3 anos = 1.170 coroas
4-6 anos = 1.440 coroas
7-10 anos = 1.730 coroas
11-14 anos = 1.930 coroas (meninas) e 1.980 coroas (meninos)
15-18 anos = 2.060 coroas (meninas) e 2.220 coroas (meninos)
Primeiro é importante saber que um dólar é equivalente a sete coroas. Façam as contas se acharem necessário.
Essas contas todas levaram em consideração gastos com comida, roupas, sapatos, higiene, lazer, seguros de saúde e de acidentes pessoais. Segundo a reportagem, a razão dos meninos custarem mais do que as meninas é que os adolescentes homens comem mais.
Imaginem se a nossa Anna Johansson fosse mãe solteira (o que não é incomum aqui - apesar de aborto ser legal e aceito socialmente). Ter de viver e sustentar uma criança com apenas cinco mil coroas por mês é um sacrifício. É... o paraíso não existe, minha gente.
maio 07, 2003
O Estado sueco é uma mãe
Suécia é o melhor lugar do mundo para ser mãe
10:18 06/05 ReutersWASHINGTON (Reuters) - A Suécia, a Dinamarca e a Noruega são os melhores lugares do mundo para uma mulher ser mãe, enquanto os piores são os países pobres da África, como Níger e Etiópia, revelou um estudo divulgado na terça-feira.
No "Índice Maternal", publicado todo ano pelo grupo Salvem as Crianças, comparam-se as condições de vida de mães e filhos em 117 países, 43 dos quais sob guerra ou recém-saídos de conflitos armados. A Suécia, a Dinamarca, a Noruega, a Suíça e a Finlândia ficaram com as cinco primeiras posições, seguidos pelo Canadá, Holanda, Austrália, Áustria e Grã-Bretanha. Os EUA ficaram na 11a. posição.
O Brasil ficou com 44o. lugar, atrás de Cuba e Chile, ambos no 15o, da Argentina, no 19o. e da Colômbia, no 24o. Segundo o estudo, Níger, Burkina Fasso, Etiópia e Guiné-Bissau ficaram nas últimas posições, junto com Angola, Chade, Mali, Iêmen, Serra Leoa e Guiné.
"De cada 7 mulheres de algumas regiões da África, 1 morrerá durante os trabalhos de parto ou na gravidez. Na Suécia esse número é de 1 a cada 6.000", afirmou Mary Beth Powers, do grupo responsável pela elaboração do índice. O estudo comparou as condições de vida das mães em 19 países desenvolvidos e em 98 países em desenvolvimento, com base em 10 fatores relacionados com a saúde, a educação e o status político das mulheres e dos filhos delas.
Segundo o índice, o nível de educação da mãe e o acesso a serviços de planejamento familiar eram fatores bastante ligados à sobrevivência e ao bem-estar da criança. Na Suécia, 99 por cento das mulheres são alfabetizadas. Na outra ponta da escala, em Níger, apenas 8 por cento das mulheres sabem ler e escrever.
Só alguns comentários. Ser mãe aqui na Suécia é mesmo uma moleza. A única coisa que você precisa se preocupar é com a criança - o que não quer dizer que seja pouco - mas esqueça o estresse constante com médicos, dentistas, dispesas. Teve neném? O Estado te dá 950 coroas por mês. DÁ.
A criança tá com dor de barriga? Leva no médico porque é de graça. Ah, você trabalhava e ficou grávida? Não tem problema. Se você trabalhava há pelo menos dois anos no mesmo local tem direito a um ano de folga recebendo 90% do seu salário. Ah, e a moleza não se estande apenas às mamães não. Se os papais quiserem, podem tirar metade da licença maternidade.
Mas se você ainda se preocupa com o seu filhote e pensa nas contas de dentistas que essa criaturinha estará trazendo ao seu household, não se desespere. Aqui, seu filho tem direito a tratamento dentário de graça até o pimpolhinho completar 19 aninhos. Isso mesmo, dezenove anos.
E tem muito mais. Essa coisa de benefícios e wellfaire é realmente muito incrível. Acho que vou fazer uma série de posts sobre a moleza que é viver nessa terra... (a menos que você seja um imigrante, hohoho).
maio 05, 2003
Eles são ótimos
Nossa, tava lendo o post de baixo e reparei que critiquei a sociedade sueca sem parar. Que horror. Não, não, não. Não é tão ruim assim não, tá? Aliás, não é nada ruim. Eu é que exagerei. Eles, os suecos, são ótimos, muito queridos.
Eu, na ópera
Ah, esqueci de contar. Ainda em Umeå fomos à ópera. Pois é, pela primeira vez na vida fui assistir a um espetáculo desse tipo e tinha que ser aqui, na reservada, ascética e até certo ponto simplória Suécia. Explico meu descontentamento: ópera pra mim, desde que comecei a escutar os discos da minha mãe, contrabandeados da alemanha quando eu era uma meninota, é opulência, tons fechados de vermelho e emoção. A "Tosca" que eu vi na ópera de Umeå foi uma versão muderna e simplíssima - pobre, eu diria - da obra de Puccini.
Os cantores, todos suecos, com exceção da Tosca propriamente dita, que era italiana, eram bons, mas, sei lá, posso estar errada, mas onde sobrou técnica faltou emoção (o que pode ser um resumo da sociedade sueca como um todo, aliás). O enredo da ópera foi adaptado para os dias atuais, mas se você não tivesse lido o programa, não entenderia o que estava se passando. Acho que normalmente, lê-se o enredo geral, fica-se sabendo o que acontecerá no primeiro ato e depois espera-se que possa-se seguir a trama naturalmente.
Mas não foi isso o que aconteceu. Precisei ler o que compunham todos os três atos para poder entender o que estava se passando com aquelas pessoas todas na minha frente. O segundo ato, cujo enredo eu já esqueci completamente, foi um horror. Não sei se foi por causa do cenário (tudo creme. Um sofá no centro, duas mesinhas simetricamente posicionadas e uma TV, de costas para o público) ou se fui eu que sou burra, mas o fato é que dormi. DORMI.
O último ato, no entanto, quando a Tosca se mata, foi bacana. A cantora italiana (magrinha, alta, parecia uma sueca) se joga lá de cima do alto do palco e cai embaixo da orquestra, onde devia ter um colchãozão. Foi bacana porque é sempre lindo ver pessoas atuando ao vivo, além de ouvir vozes tão lindas. Mas achei que a Suécia precisa deixar de ser tão ascética para poder produzir um espetáculo tão cheio de emoções, traição, morte e mentiras.
Aqui tem um resumo da história da "Tosca". (Em inglês).
maio 02, 2003
Voltei
Hoje que eu voltei a fim de escrever, o Blogger sai do ar. Bom, mas se vocês estão lendo isso aqui é porque ele já voltou a funcionar. Obrigada pela paciência e pelas visitas que continuaram a acontecer mesmo sem renovação do Montanha. Fiz um monte de coisas nessas últimas semanas e acabei sem tempo (nem vontade) de sentar na frente do computador para escrever.
Curti muito meu urso polar, que tinha uma folguinha acumulada. Fomos ao cinema, saimos para andar no "calor" da primavera sueca, visitamos amigos e parentes, vimos TV, cozinhamos, planejamos, tivemos idéias. Depois da Páscoa eu fui para Umeå, uma cidade universitária mais para o sul, distante cerca de quatro horas de carro de Boden.
Fui passar uns dias com minha amiga Sonia, que é uma médica de Campinas também casada com um sueco. Ela está fazendo um curso especial para médicos imigrantes que precisam de uma aculturação tanto linguística como legal sobre o sistema de saúde desse país. Fui lá xeretar porque adoro estudar e gosto muito da Sonia.
Foi o maior barato. Conheci seis médicos iraquianos, uma patologista iraniana, um hematologista sérvio, uma enfermeira tailandesa, uma médica-geral da Estônia e um médico albanês, educado na Universidade de Bologna, na Itália. Além disso, tive oportunidade de fazer um reality check com relação aos meus avanços por aqui.
Todos elogiaram meu sueco, inclusive as professoras, muito legais. Aliás, isso foi uma coisa interessantíssima. Uma das professoras do curso, Vesna, veio da Bósnia. Ela veio para a Suécia há dez anos fugida na pior fase da guerra que destruiu a Iugoslávia. Fiquei impressionadíssima porque ela veio pra cá fugindo, com os filhos debaixo do braço, deixando uma família morta para trás, e ainda assim, fez faculdade aqui, fala sueco sem sotaque e ensina legislação médica.
Fiquei encantada.
Aliás, entre as muitas coisas interessantes que reparei na dinâmica do grupo de médicos, a que mais me chamou a atenção foi a aparente calma com que os três grupos étnicos da antiga Iugoslávia se tratavam. O médico sérvio, Vladimir, se achava o melhor do grupo, apesar de falar um sueco muito fraquinho. Descobri que os sérvios são uma espécie de argentinos: se acham superiores a tudo e a todos.
No entanto, a Vesna, professora bósnia, era educadíssima, a ponto de parecer que tomava um especial cuidado em não desagradar o cara. Tudo para evitar que qualquer alusão à situação de guerra deteriorasse a relação professora-aluno estabelecida. Enquanto isso, o albanês, muito gente boa, era gostado por todos no grupo.
Dentre as muitas conclusões que tirei, uma em especial me pareceu mais importante: preciso encontrar um desafio para mim aqui. Apenas as aulas de sueco não são suficientes para me deixar satisfeita. Preciso de mais desafios, aulas difíceis, necessidade de disciplina e de estudos prolongados. Maluca, eu? :c)
abril 17, 2003
Ela chegou!!!!

Minha carteira não é linda??? E é rosa ainda por cima!!! :cDDD
Adoramos "About Schmidt". O Jack Nicholson é um senhor ator! Ele é o filme e o filme é ele. F-E-N-O-M-E-N-A-L.
abril 09, 2003
Ufa!
O dia de ontem foi muito bom. Só pensava na tal da prova prática e nos 40 minutos nos quais teria que dirigir perfeitamente, como uma pessoa nascida e criada nas ruas dessa diminuta cidade. Mas, estranhamente, não estava desesperada de nervoso. Estava ansiosa para que a prova viesse logo e acabasse logo.
Cheguei lá no estacionamento de uma casa de banhos que tem aqui em Boden pouco depois das 14h30m, hora marcada para meu exame. Tinha dirigido a última meia-hora com minha professora de auto-escola que estava chateada. Um homem a havia destratado na frente de todo mundo porque não tinha passado na prova. Ele era russo e eu pensei: "Bonito, um imigrante se comporta assim antes de outra imigrante - eu - ir fazer a prova".

Estacionei o carro e esperei. Achava que seria um examinador, mas foram dois. DOIS. Muito simpáticos e tal. Comecei fazendo uma verificação de segurança dos freios. Depois saí para dirigir. Ainda no estacionamento, senti que não havia fechado a porta corretamente. Tive que parar para fechá-la. Tremi um pouco mas consegui me segurar. Depois dirigi num caminho conhecido por mim (já havia treinado muito), o que não foi difícil. Passei por um trevo (circulationsplats) e acertei todo o posicionamento e as setas. Fui dirigir na estrada. Tive que fazer uma curva à esquerda, o que é complicado, uma vez que você precisa controlar não somente o trânsito que vem por trás mas o que vem pela frente também.

Passamos por uma linha de trem e a todo o momento eu pensava que precisava me concentrar em tudo o que examinador dissesse. E ele falou à beça. Conversava com o outro cara sobre coisas que eu não entendia e me perguntava como eu tinha vindo parar em Boden; de onde eu vinha no Brasil; qual era a palavra que queria dizer neve em português (snö, [isnô] em sueco); se nós tínhamos neve no Brasil (caiu na gargalhada quando contei que tínhamos sim neve no Brasil, mas apenas no sul e que todos os turistas corriam pra ver um centímetro de neve quando caía).
Sentia que era difícil me concentrar enquanto estivesse conversando com eles, mas quando chegávamos em um cruzamento, eu emudecia e eles também. Eu ficava recitando baixinho, para mim mesma, as leis que havia aprendido nas aulas práticas, com os infindáveis programas de computador e com meu livrão de regras de trânsito. Tomei muito cuidado em não ser uma "tartaruga" no trânsito mas principalmente para não ultrapassar o limite de velocidade. Afinal, foi por essa razão que o russo tinha sido reprovado.

Tive também que achar o caminho para uma loja grande que tem aqui. O examinador foi gentil o suficiente para perguntar se eu podia achar porque havia dito a ele que não morava em Boden havia muito tempo, mas eu achei o caminho de qualquer forma. Estacionei o carro de frente, numa daquelas vagas enoooormes. Ainda assim, sem muita rodagem com o BMW, entrei errado. Mas sabia que eu podia corrigir, indo para trás e voltando. Fiz isso e deu certo. Depois foi apenas me segurar para não fazer nenhuma besteira até o final. Dirigimos pela cidade ainda mais um pouco e depois fomos para o estacionamento da casa de banhos.
Esse teste foi um exercício de controle e disciplina pra mim. Quando terminei, ele me disse que eu tinha sido aprovada ("Du är godkänt, Maria") e preencheu o papel com o qual posso dirigir até que minha carteira chegue. Saí do carro e só não gritei porque aqui tudo é tão calmo e silencioso que fiquei inibida. Minha professora já estava perto de mim. A abracei e quase chorei. Na verdade, tenho vontade apenas de rir, rir, rir.
Hoje completo 1 ano e 11 meses de vida na Suécia.
abril 02, 2003
O carteiro passou aqui em casa e deixou novidades
Recebi hoje um formulário complicadíssimo da Skattemyndigheten [iscatemindigrreten], ou a autoridade de impostos daqui - órgão que, por vezes, pode ter mais poder sobre o cidadão sueco do que a própria polícia.
Entre outras informações, fiquei sabendo que recebi durante 2002 um montante de 20.018 coroas (cerca de US$ 200) de ajuda financeira quando estava fazendo aquele curso especial para imigrantes.
Mas o mais divertido é ler os impostos que pagamos aqui nessa terra. Mesmo pobrinha de marré de si, paguei uma fortuna para o estado sueco! Entre as taxas, estão:
31,55% na fonte - tributo da Kommun (cidade) onde moro;
um imposto estatal sobre lucros de capital (me parece ser cobrado sobre a correção monetária que o banco me dá da poupança que tenho);
débitos gerais de custos pessoais (não me preguntem o que é isso);
e ainda um imposto chamado de Begravningsavgift, ou uma taxa de sepultamento. Agora já tenho literalmente onde cair morta. *Hohoho*
março 26, 2003
Força, Sam!
Acabei de me dar conta de um furo que dei. Escrevi sobre a facilidade com que consegui o meu visto permanente aqui ao mesmo tempo em que uma das pessoas mais doces que descobri pelo blog, a Sam, está passando por momentos difíceis lá na Bélgica exatamente porque as autoridades daquele país conseguem ser mais obtusas do que o Bush no que diz respeito às leis.
Desculpe, Sam! Escrevi o meu post antes de ler o que tinha acontecido contigo. Hoje, no entanto, fiquei feliz em voltar lá No Freezer e ler que o burocrata resolveu ter um pouco de bom senso e analisar seu caso de uma forma menos drástica. Fico feliz e aliviada porque concordo que você não merece ser tratada assim. Fique bem.
março 25, 2003
Visto permanente
Fomos hoje ao departamento de imigração sueco, chamado Migrationsverket, para pedir meu visto permanente aqui. Depois de renovar o visto anualmente por dois anos, pode-se pedir essa permissão prolongada, que vale por cinco anos, durante os quais não preciso mais me preocupar em ir lá e pagar 500 coroas por ano.
Fomos agora em março, apesar do meu visto ser válido até maio, porque nos foi informado que haveria uma demora grande para que conseguíssemos uma entrevista com um dos representantes do Migrationsverket. Essa pessoa me entrevistaria sobre minha vida aqui, o que eu faço e como é que vão as coisas comigo e Stefan.
Não sei o que aconteceu, acho que a moça que nos atendeu gostou de mim, porque consegui o visto na hora. :c) Conversamos um pouco, eu, ela e Stefan, ali mesmo no guichê. Ela me perguntou se eu estava estudando, elogiou muito o meu sueco e perguntou meio que sussurrando: "Como estão as coisas com vocês dois?", se referindo a mim e ao meu urso polar.
É engraçado como essas coisas são relativas. Acho também que esse pessoal tá acostumado a lidar com um monte de fugitivos de guerra, que vêm pra Suécia pra ter uma vida melhor e que não necessariamente se esforça para aprender o idioma. Acho que ela foi com a minha cara, sei lá. :c)
março 04, 2003
O mico da manga

Como Stefan é um orgulhoso consumidor de gorduras, batatas fritas e que tais (sem nunca engordar uma grama), tentei desviar (minha) rota engordativa e adicionar legumes, verduras e frutas à nossa lista. Fui à parte de hortifrutigranjeiros procurar por algo interessante. Foi aí que tudo aconteceu.
Parei na parte das frutas "exóticas" e vi uma manga. Amarelinha, com uma linda cor avermelhada em um dos lados. Perfeita. Pensei: "Manga! Que delícia! Há quanto tempo que não como uma!". Quando fui ver quanto teria de pagar por minha extravagância, olhei para cima, onde ficam as plaquinhas de preços e procedências. E lá, li: "Mango - från Brasilien" (Manga - do Brasil).
Larguei manga, sacos plásticos, lista, caneta, carrinho e homem e comecei a chorar ali mesmo. O maior mico, diria meu irmão, mas absolutamente irremediável.
Terra de especialistas
Procurando emprego de verão, ou emprego comum mesmo. Vou nos sites de empresas de recrutamento e faço meu cadastro. Problema: quando vou descrever que tipo de trabalho fazia em cada um dos meus empregos anteriores, apenas uma palavra não é capaz de descrever tudo. Sou jornalista, repórter, editora, mas além disso já fiz textos pra anúncio, já fui secretária, redatora, tradutora e até chefe. Já fiz quase de tudo nesse ramo. Como é que posso me restringir à escolha limitada de um formulário eletrônico?
Essa é outra diferença entre a Suécia e o Brasil. Na minha terra, a gente estuda alguma coisa como base e acaba fazendo muito mais, dependendo da necessidade, da nossa capacidade, lógico, mas principalmente da exigência do trabalho. Aqui as coisas são diferentes. Você quer ser farmacêutico (vender remédios nas farmácias estatis)? Tem que estudar cinco anos. Quer ser médico? Pode se preparar pra passar seis anos na universidade. Quer ser trabalhador de fábrica? Vai ter que passar mais alguns anos estudando pra isso. E por aí vai.
Não condeno a exigência de educação apropriada, mas confesso que é complicado pra mim pensar em investir mais alguns anos da minha vida numa carreira e saber que não poderei fazer nada além daquilo. Se estudar para ser assistente social, por exemplo, só poderei trabalhar com aquilo. Não há mobilidade alguma aqui.
Pode ser que eu esteja mal acostumada, já que tive sorte na minha vida profissional no Brasil e raramente ficava chateada, fazendo a mesma coisa sempre. Mas o que me intriga é uma pergunta que me veio a cabeça há algum tempo atrás, quando comecei a entender a sociedade sueca e como ela funciona: aqui cria-se orgulhosamente uma sociedade de especialistas. Gente que faz "A" e somente "A" pelo resto de suas vidas. Para poder fazer "B" ou "C" ou "D", precisa-se voltar para a universidade e passar anos estudando.
março 02, 2003
Sem palavras
Acho que estou ficando velha. É que volta e meia interrompo a frase que estava dizendo no meio e só penso o resto. Isso geralmente acontece quando estou concentrada em alguma coisa. Stefan, minha "vítima" mais usual, fica maluco: "Cadê o resto da frase? Cadê o resto?", pergunta ele.
Acho que é cansaço. Até porque as frases que corto pelo meio são quase todas em sueco. O lance é que as continuo na minha cabeça, em sueco também, mas tenho preguiça de falar. Já aconteceu também em inglês e até em português. Mas na minha língua é mais raro, claro.
Em sueco, volta e meia digo assim: "Jag vill ha..." (Eu quero...) e não completo. Aí, Stefan: "Quer o quê? Me diz o que você quer?".
Acho que é cansaço. Só pode ser.
O problema fica pior quando eu quero perguntar alguma coisa. Como no inglês, em sueco inverte-se a posição de sujeito e verbo quando formula-se uma pergunta. Então fico eu lá dizendo: "Vill..." ("Quer..."). E perco o interesse em dizer o quê. Fico imaginando as pessoas mudas. Deve ser uma ginástica incrível falar com as mãos o tempo todo. Quero mais é telepatia.
fevereiro 10, 2003
A distância
São as pequenas coisas que te lembram que você está realmente numa outra cidade, num outro país, numa outra realidade. Estava voltando pra casa agora à tarde e notei que tinha alguém andando atrás de mim, mas muito perto. Como carregava minha mochila nas costas, me virei um pouco para ver quem era.
Era uma mulher, mais baixa do que eu que, ao perceber que eu suspeitava dela, me olhou como se não tivesse entendendo nada. Afinal, ela não estava fazendo nada diferente do que sempre fez na vida. Eu é que não estou acostumada com o curto espaço que as pessoas deixam entre si na rua. Não estou acostumada ainda a confiar que os estranhos não necessariamente me farão mal.
No Rio a gente aprende a deixar um espaço muito maior entre si e o outro pedestre quando se anda na cidade, por exemplo. É simplesmente enervante quando alguém caminha muito colado com a gente. Parece que seremos assaltadas a qualquer momento. Mas isso, em Boden, simplesmente não acontece.
Assim que paramos em um sinal, olhei pra mulher e ela estranhou meu estranhamento. Quando o sinal abriu, lá se foi ela, andando muito mais rápido do que eu - ainda me sinto como uma astronauta, mesmo usando minhas poderosas botas McKinley. Que coisa.
janeiro 23, 2003
Avanços
Ontem o dia foi cheio. Depois do almoço tinha hora marcada em um dos computadores da auto-escola para treinar. É que para poder fazer a prova teórica preciso passar em todos os sete exercícios da escola. Minha via-crucis com essa carteira de motorista sueca está apenas no começo, mas estou avançando: ontem passei nos dois primeiros exercícios, A e B. Agora só faltam mais cinco :c( E aí, claro, tem as outras provas (a de direção propriamente dita e a de controle de segurança).
Depois de lá fui finalmente para minha aula de sueco. Digo 'finalmente' porque estava sem aulas desde o início do ano. É que não há professores para o curso que estou fazendo e como é tudo pago pelo governo, o investimento em educação de imigrantes adultos não chega a ser uma prioridade. Uma pena. De todo modo, minha professora antiga se importa conosco e nos reuniu ontem excepcionalmente para nos emprestar um exemplo de uma prova nacional, que teremos de fazer na primavera.
Trata-se de um exame feito em toda a Suécia por jovens que estão saindo do colégio e indo para a universidade. Nada de múltipla-escolha ou coisinhas assim: a prova é composta por um caderno de 31 páginas recheado com matérias de jornais, excertos de livros e quadros de informações. Receberemos ainda um outro caderno com cerca de dez perguntas diferentes, cada uma fazendo referência a um assunto em particular. Devemos escolher uma das questões e escrever um ensaio de até 700 palavras sobre o tema, tendo os textos como ajuda.
Vai ser duro, mas o que não é duro nessa terra? A boa notícia é que provavelmente eu e minha turma (um rapaz da Áustria e uma moça do Uruguai, muito gente boa, aliás) deveremos nos juntar a uma turma de estudantes suecos que estão terminando seus estudos de sua língua antes de ir para a faculdade. É bom porque não teremos a moleza de uma professora que aceita nossas falhas como normais para um imigrante. Acho que já estava na hora da gente sair à luta, sem favores. Senão nunca vou aprender esse idioma do jeito que quero.
dezembro 31, 2002
FELIZ ANO NOVO!!!
Esse ano foi especial. Foi quando vivi pela primeira vez um inverno rigoroso. Neve. Muita neve. Voltei a ter dez anos de idade várias vezes.
Comecei meu blog em fevereiro, dia 28, e o Montanha-Russa se tornou um espelho da minha vida. Me enxergo melhor quando me leio.
Ajudei a eleger Lula presidente do Brasil.
Mandei dezenas de currículos para dezenas de empregos diferentes. Recebi muitos elogios mas nenhuma oferta. Escrevi uma carta aberta, em sueco, para a ministra. Não obtive resposta mas somente meu exercício bem-sucedido do idioma e a repercussão me mostram que há terreno para uma luta.
Aprendi a viver com o mínimo de dinheiro. Descobri que é totalmente possível.
Tive sentimentos inéditos, profundos e fortes. Ganhei até um pedaço de chão na Lua!
Conheci dezenas de pessoas, brasileiros e estrangeiros, que têm blogs. Gente muito especial. Alguns posso até chamar de amigos, o que acho um luxo. Sou grata, mais uma vez, à Internet, por ter mudado minha vida pra melhor.
Foi um ano no qual "nasci" para a Suécia. Jornais, revistas, TV e rádio começaram a fazer sentido para mim. A língua não é mais cantada, como uma música cuja letra apenas adivinhamos algumas palavras. Agora as sílabas se encaixam em palavras, as palavras em frases, as frases em argumentos, perguntas e respostas. Me alfabetizei.
Sofri muito também. Briguei, fiquei com raiva, ciúmes, inveja. Mas tudo passou. O que não passou foi a saudade. Mas ela é mesmo minha companheira.
Oi Ano Novo, seja bem-vindo. Abra os braços porque essa criatura aqui está pronta para mergulhar de cabeça.
dezembro 18, 2002
Sem piscar
Sabe uma coisa que odeio? Ter que me "vender" para o empregador. Dizer que sou ótima, que sei fazer isso e aquilo etc. Não consigo lidar bem com essa coisa de marketing pessoal. Talvez por isso que apesar de gostar, não quero seguir carreira política. É muita exposição estranha e que me deixa meio perdida.
Na minha cabeça, sou o que sou e quem quiser que acredite. Mas sei que não funciona assim. É necessário sentir uma firmeza por parte do candidato, uma certeza de que ele(a) será capaz de realizar o trabalho. O meu problema agora é que sei que sou uma ótima pessoa e uma trabalhadora esforçada, blá-blá-blá, mas não sei se sou capaz de fazer o que fazia antes.
É meio complicado, mas é assim. Essa maluquice de mudar pra cá me fez olhar minha vida de uma forma diferente.
Aliás, uma moça que deixou um simpático recadinho ali no meu Mapa de Visitantes, disse uma coisa que me fez pensar. Ela escreveu que achava "meio surreal" eu ter ido morar num lugar tão longe... Acho que ela tem razão. Pensando bem, é uma loucura danada. E quando olho pra trás e vejo a inevitabilidade que sentia em relação à evolução dos eventos, me pergunto de onde veio toda essa ousadia.
dezembro 13, 2002
Pausa pra reflexão
Um comentário feito pela Elaine me deixou assustada. Ela disse que depois de ler meus posts e um comentário feito pelo Eduardo - outro brasileiro que vive na Suécia - concluía que "a Suécia é muito preconceituosa e mal informada sobre o Brasil."
O problema do comentário da Elaine, que vive com o marido na Bélgica, é que trata-se de uma generalização. Basta viver aqui - e em qualquer país europeu, aliás, até mesmo na Bélgica - pra saber que existe sim muito preconceito e desinformação. As pessoas são simplesmente burras às vezes. Mas isso não é um privilégio sueco.
Por que estou escrevendo sobre isso? É porque senti que todos os meus posts dos últimos tempos estão girando em torno do tema do preconceito e isso pode ser enganoso. Como disse no final do artigo que escrevi à ministra da integração, amo a Suécia e respeito profundamente a premissa segundo a qual o governo desse país se baseia. Nunca vivi em uma sociedade que funcionasse tão bem, onde houvesse tanto respeito pelos cidadãos como aqui.
Escrevi sobre um fenômeno que não é novo: os sentimentos preconceituosos trazidos à tona pela migração interna européia - geralmente de países pertencentes ao bloco oriental - assim como pela chegada de imigrantes externos, como eu.
O Eduardo, que mora e trabalha na região de Estocolmo, está aqui há apenas alguns meses e já já volta pro Brasil. Ele pode falar o que quiser dos suecos, xingar, criticar e até acho que ele faz muitíssimo bem porque gente imbecil e preconceituosa merece mesmo nosso escárnio.
Agora, eu não posso fazer o mesmo. Simplesmente não posso me dar ao luxo de denegrir as pessoas com as quais irei conviver o resto da minha vida. O que posso, devo e irei fazer sempre, é escrever sobre o que acontece comigo, os tropeções, as impressões, as mudanças, os erros, os acertos, as vitórias. E isso, no momento, inclui uma reflexão sobre o preconceito sueco. Mas prefiro acreditar, Elaine, que as coisas não são tão simples assim. Prefiro acreditar que esses suecos burros são exceções.
Me chame de poliana, tudo bem. Prefiro dizer que essa é uma estratégia de sobrevivência.
dezembro 12, 2002
OFF
A repórter perguntou o que eu queria ganhar de presente de Papai Noel. A resposta, óbvia, foi "um trabalho". Mas sabe do que estava realmente precisando? De umas férias de mim mesma. Deixar de me estressar tanto o tempo todo sobre tudo. Viver mais tranqüila, com mais certeza de que alguma coisa há de acontecer. Não perco a esperança nunca, afinal acredito em mim, mas o que eu queria era somente poder desligar. Essa é a palavra certa. Unplugged...
Nada a declarar
Uma repórter do jornal NSD, também aqui do norte da Suécia, acabou de sair aqui de casa. Ela veio me entrevistar sobre a dificuldade de imigrantes em conseguir emprego. Eu explicava tudo aquilo o que escrevi no artigo - que tentei um emprego simples, vendedora de loja etc, sem conseguir resposta alguma - e ela perguntou: "Você acha então que isso não acontece também com os suecos?".
Meio puta mas trabalhando minha paciência, disse a ela que sabia que muitos suecos tinham também dificuldades em encontrar um trabalho, mas, ao mesmo tempo, disse que tinha certeza de que a maioria deles é, pelo menos, chamada para uma entrevista preliminar, o que não acontece no caso de imigrantes. Sei disso porque conheço outros imigrantes aqui e é assim mesmo que acontece.
Olha, cansei de dar entrevistas. Não estou me fazendo de gostosa não, mas isso não me leva a lugar nenhum e só serve para me provar como esse povo é difícil. O que eu queria ter dito pra ela desde o início era: "Olha, não te dou a entrevista não, o que eu quero mesmo é o seu emprego".
Infeliz.
dezembro 11, 2002
Primeiro dia de aula
Acabei de voltar do meu primeiro dia como professora substituta em uma escola sueca. A moça da prefeitura me ligou hoje cedo, dessa vez com uma voz de gente normal, e me deu as coordenadas. Era pra substituir a professora de uma turma da quarta-série (crianças de cerca de 10, 11 anos) durante o dia inteiro. Nem precisa dizer que meu coração estava aos pulos quando entrei na sala e vi aquelas 16 carinhas curiosas olhando pra mim.
Quando cheguei lá eles estavam assistindo a um filme no vídeo. Depois do pequeno recreio, recebi as meninas para uma aula na qual cortamos estrelas de papel, colorimos e colamos. Foi divertido porque é uma coisa que eu sempre gostei de fazer e as crianças ficaram felizes quando conseguiram fazer as estrelonas. Quarenta minutos depois foi a vez dos meninos, que estavam na ginástica, cortarem e colarem. Almoço e logo depois uma hora de aula de matemática.
Eu tenho horror a matemática na minha língua, quanto mais em sueco, mas não podia fugir. Fiquei com vontade, mas achei que não ficaria bem. As crianças tinham que trabalhar em grupo quatro perguntas sobre multiplicação, lógica etc. Quase morri de desespero, mas consegui resolver os problemas no meu horário de almoço.
Depois apresentei imagens sobre o Brasil, o Rio de Janeiro e meninas e meninos fizeram muitas perguntas bacanas. Em seguida seis deles apresentaram seus trabalhos sobre a Idade Média na Suécia e eu aprendi mais do que eles. :c)
Minha primeira impressão foi muito boa. As criaturinhas foram gentis comigo e seguiram todas as minhas ordens, mesmo que às vezes não o quisessem. Disseram que eu falava bem sueco para o pouco tempo em que estava aqui e eu fiquei feliz. Criança não costuma mentir assim, na frente dos outros só pra agradar professor.
Preferi dar aula para os meninos do que para as meninas, que se mostraram muito mais voluntariosas. Os meninos fazem mais zona, mas foram os que perguntaram mais e melhor. No final, já mais relaxada, pude falar bastante sobre o Brasil e todos me perguntaram se eu voltaria amanhã. Fiquei feliz.
Conversei com a professora deles, Eva, que está doente, e ela disse que provavelmente não estará apta para dar aula amanhã e me perguntou se eu poderia substituí-la. Eu disse que sim. Ele ficou de me deixar um esquema com tudo o que eles devem fazer, mas eu já sei que tem dever de sueco - preposições e pronomes - além de dever de inglês também. No inglês eu me garanto, mas no sueco acho que vou mudar de cadeira e pedir pra um deles me explicar algumas coisinhas... :c)
dezembro 09, 2002
O suficiente é satisfatório... Será?
Essa discussão sobre o racismo na Suécia está mesmo pegando fogo. Semana passada (ou até um pouco antes, não me lembro mais), a Sveriges Television (SVT) - uma TV Cultura melhorada e com muito mais audiência - vetou a participação de uma apresentadora em um problema. A razão? Ela é muçulmana e usava chador, aquele véu cobrindo toda a cabeça, só deixando a mostra seu rosto.
Foi uma grande discussão aqui e, bem ao estilo sueco - todo mundo é igual a todo mundo etc - a presidente da SVT foi explicar o por quê da discriminação no ar, em um programa chamado Mosaik, criado para imigrantes.
A explicação dela - essencialmente sueca - foi que tudo tem que ter o seu limite, ou seja, a sociedade está aberta a qualquer manifestação cultural e religiosa, mas deve resguardar seus telespectadores de uma visão excessivamente parcial do noticiário. Ou seja: "Aceitamos de tudo, mas só um pouco de tudo".
Há uma palavra que define o que é ser sueco: lagom [lóogom]. Lagom quer dizer, suficiente, o bastante, moderadamente. Tudo na Suécia, para ser satisfatório, tem que ser lagom. Não fica bem ser mais nem menos. E, nesse contexo, o chador da moça estava um pouco excessivo.
Acho esse conceito do lagom muito bonito. Até mesmo um pouco espiritual, se olhado de perto. Mas como explicação por uma ação discriminatória é um pouco demais. Às vezes, fico até irritada com tanto comedimento e me dá vontade de soltar os bichos e botar pra quebrar com essa suecada chata. Mas a vontade passa logo. Achei essa charge aí ao lado em um dos jornais daqui, bacana, né?. Mas bom mesmo é isso aqui (lembrado pela Ana e resgatado imediatamente pela Andrea): "Moderation is a fatal thing, Lady Hunstanton. Nothing succeeds like excess." - Oscar Wilde, "A Woman of No Importance".
U-HU!
dezembro 06, 2002
O artigo
Algumas pessoas ficaram curiosas sobre o artigo que escrevi sobre a política de imigração e integração sueca. Como tinha que traduzi-lo de qualquer forma para enviar para meus pais, aqui vai sua versão em português. Quero dizer apenas que trata-se de uma versão em português porque, como disse antes, o escrevi direto em sueco. Há certas expressões, frases e até mesmo palavras que não têm tradução em português. Além do mais, assim como inglês, o sueco é uma língua concisa, o que nem sempre é o caso do português. Bom, feitas todas as ressalvas, ao que interessa:
CARTA ABERTA PARA MONA SAHLIN SOBRE A POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO DA SUÉCIA
por Maria Fabriani
Concordo com você, ministra da integração Mona Sahlin, quando diz que o problema da política de imigração sueca é uma descriminação estrutural. Por outro lado, considero que com a política atual de mercado de trabalho é quase impossível que imigrantes sejam empregados até mesmo por empresários que assim o escolham. Eu venho do Brasil e devido ao meu trabalho como jornalista conheço as realidades de muitos países. Nunca, no entanto, vi uma sociedade tão fechada como a sueca.
Não existe uma "Suécia Multicultural". Tentarei esclarecer o que é multicultural: cerca de 89% dos brasileiros são católicos e, ao mesmo tempo, a Igreja Católica demonstra respeito e aceitação por Umbanda e Candomblé, duas religiões que vieram da África no começo do século XVII, quando os escravos vieram para o Brasil para trabalhar.
Ser multicultural não é apenas ter imigrantes no país. É ter pessoas que falam diferente e que têm experiências diversas. Ser multicultural quer dizer, além disso, absorver aspectos da cultura dos outros e, mais do que tudo, não tentar enquandrar os imigrantes em uma fôrma sueca.
Um país multicultural não nasce por decreto. O processo é demorado e deve ser natural. Talvez os imigrantes não precisem ser suecos; funciona bem ser diferente. O ponto mais importante é entender que os imigrantes podem ser tão interessantes para o mercado de trabalho quanto os suecos.
A Suécia perde mão de obra competente que não agüenta vir para esse país e não ter uma única esperança de melhoria de sua situação de trabalho. Eu sei que é uma palavra feia em sueco, mas o que vocês estão criando hoje, Mona Sahlin, é uma sociedade de classes. (Em sueco é uma palavra só: klassamhälle)
Quando vim morar na Suécia há um ano e seis meses atrás, não sabia falar sueco mas estava convencida de que quanto mais rápido eu conseguisse aprender a língua mais fácil seria conseguir um emprego. Claro que previ muitos problemas; sabia que seria difícil convencer os empregadores suecos das minhas qualidades profissionais. Mas tudo bem, pensei, porque tenho educação formal, experiência, sou educada, honesta, persistente e, além disso, sei várias línguas estrangeiras. Mas eu estava completamente errada.
Hoje, depois de ter estudado sueco por um ano e dois meses, pensei que poderia tentar encontrar um trabalho para ajudar na economia doméstica. Eu sabia que meu sueco não era suficiente para um trabalho em jornalismo, então mandei meu currículo para vários outros locais, de vendedora de butique até tradutora. Nenhuma resposta. Como eu posso mostrar pra você, Mona Sahlin, que eu posso trabalhar tão bem como qualquer sueco? Vocês querem que a Suécia seja aberta à imigração, então precisam entender o que isso significa.
Agora é que estou começando a entender como é difícil a sequer conseguir uma entrevista preliminar. Eu pensei em talvez voltar à universidade e estudar para ter um diploma sueco. Apesar do meu diploma e meus quatro anos de estudos já terem sido reconhecidos e meus sete anos de experiência terem sido validados pelo sindicato dos jornalistas suecos que me aceitou como membro associado. Então, pensei, eu poderia procurar um trabalho que realmente me interessasse. Mas agora eu duvido disso.
Por que eu deveria passar mais alguns anos numa universidade quando estou quase convencida de que terei problemas para encontrar um emprego depois simplesmente porque vim de outro país? Por que investiria o meu tempo e o meu dinheiro - meu dinheiro, não o do estado, meu dinheiro que está em uma conta de um banco sueco - em uma educação que eu sei que não adiantaria nada?
Eu sinto como se eu estivesse batendo contra um muro. Eu bato, grito e tento dar a volta mas não consigo. Minha sensação é que eu preciso ser um dos tijolos para ser aceita, ou todo o meu conhecimento é jogado fora. A pergunta é: será que algum dia conseguirei ser um desses tijolos?
O que eu gostaria de dizer é que o governo PRECISA entender que uma mudança da política do mercado de trabalho é absolutamente necessária. Menos demandas para os empresários e novas leis para facilitar a situação dos imigrantes sem colocar o emprego dos suecos em perigo.
Por outro lado, os suecos DEVEM entender que existe sim racismo na Suécia. Existem aqueles que gritam e que mostram abertamente que nos odeiam e existe um outro tipo de discriminação: aqueles que consideram os imigrantes como pobre coitados que têm tudo de bom aqui na Suécia e não precisam mais do que um teto sobre suas cabeças.
Eu digo apenas: eu tinha tudo de bom no Brasil. Vim para a Suécia de livre e espontânea vontade porque o meu namorado é sueco e quero trabalhar aqui. Eu quero ter uma carreira aqui, exatamente como no Brasil. Quero ser elogiada e ser considerada uma trabalhadora muito boa. Exatamente como antes. Por que eu deveria aceitar menos do que isso?
Conheço imigrantes que são exatamente como eu. Existem muitos outros, no entanto, que não querem trabalhar. Mas existem também muitos suecos que preferem trabalhar como substitutos no verão e viver do seguro social o resto do ano.
Eu amo a Suécia e gostaria de continuar a morar aqui mas eu preciso me expressar e realizar algum trabalho produtivo. Tenho um profundo respeito pela Suécia, um país democrático e que realmente cuida bem de seus cidadãos. Mona Sahlin, você talvez esteja se perguntando o que eu quero depois de ter escrito tudo isso aqui. E eu respondo: quero ter uma chance para mostrar do que eu sou capaz.
dezembro 05, 2002
Meus 15 minutos
Olhem só que coisa. Recebi um email de um editor do Svenska Dagbladet, um dos jornais mais respeitados aqui da Suécia e que só circula na região de Estocolmo. Ele me pediu permissão para publicar o meu artigo no caderno de sábado, assinado e tudo. O máximo!!!!!
E quando eu ainda estava me restabelecendo do choque, toca o telefone. Era a Sveriges Television, o canal estatal de TV sueco. Um jornalista que faz o jornal local aqui de Norrbotten (região norte, onde eu moro) leu meu artigo no Kuriren e quer fazer uma entrevista comigo sobre o rascismo não aparente na Suécia. Legal né?
Agora eu tenho certeza que a ministra vai ler o artigo. Por que se ela não ler o Svenska Dagbladet é melhor ela renunciar. A entrevista para a TV não é muito bem o que eu queria porque fico enooooooorme de gorda no vídeo e, claro, gaguejo pra burro. Mas tudo bem. Já que estou na chuva é pra me molhar. :cD
Meu reino por uma pessoa segura de si
A mulher responsável por chamar os professores substitutos aqui de Boden me ligou hoje de manhã bem cedo oferecendo o que pareceu várias escolas nas quais eu poderia substituir professores que não puderam/não poderão ir trabalhar. Toda essa minha incerteza com relacão ao trabalho é porque simplesmente não consegui entender uma palavra do que ela disse ao telefone.
Não, não há nada de errado com a minha audição nem muito menos com a minha capacidade para falar sueco pelo telefone. O problema é que a moça fala extremamente baixo e eu simplesmente não consigo entender uma palavra do que ela diz. E não é sacanagem dela não. O problema é que ela é uma dessas pessoas com baixa auto-estima ou um pouco inseguras que não conseguem se expressar desembarassadamente no telefone com estranhos.
Acho isso um desespero porque eu dependo de pessoas com boa dicção e sem problemas com sua auto-estima para poder conversar no telefone. Se já é difícil estabelecer uma conversação com um inseguro(a) que fala português, imagine em sueco. Pedi várias vezes que ela falasse mais alto, culpei o telefone (como se eu ainda estivesse no Rio lutando contra as linhas analógicas da Telerj, lembram?) mas não consegui bons resultados.
No final, já exausta apesar de ter acabado de acordar, consegui entender um pouco melhor e disse que preferia trabalhar numa escola perto da minha casa pelo fato de (ainda) não poder dirigir sozinha para cidades próximas. Ela ficou de retornar a ligação para me dar um status e ainda não ligou.
Agora você veja, de todos os obstáculos que enfrentei nunca pensei que a insegurança alheia fosse me causar tanto problema.
dezembro 02, 2002
Papel de embrulhar peixe
Escrevi um artigo sobre essa coisa de racismo e a dificuldade de se conseguir emprego - ou sequer uma entrevista preliminar - e pelo menos um jornal o publicou. Foi o Kuriren, e o meu artigo está aqui, na página de Opinião (não a de cartas dos leitores, mas na página de opinião do jornal, o que é bem diferente).
Legal.
O problema é que nada muda por causa disso. Muito provavelmente, a ministra da integração, para quem escrevi a carta aberta, nem sequer leu o artigo (o Kuriren é um jornal local). Mas foi bom ao menos poder dizer o que estava entalado aqui na minha garganta. No mínimo, no mínimo, exercitei meu sueco. O duro disso tudo, é que tem suecos que concordam comigo em gênero, número e grau, mas duvidam que tenha sido eu quem escreveu o artigo no idioma deles.
novembro 29, 2002
O meu nome é estresse

O mais engraçado disso tudo é que percebo o quão estressada estou/sou. Tenho contato com outras pessoas vivendo longe do Brasil e que têm experiências desgastantes às vezes, mas no mais vivem tranqüilamente a sua vida e são felizes. Por que eu não consigo ser assim?
É claro que não sofro o tempo todo, muito pelo contrário. A vida está se mostrando mais bonita do que eu jamais pensei que ela poderia ser, mas parece que só o sofrimento emerge. Estranho. Acho que isso é um padrão inconsciente de vida. Preciso mudar isso.
E o que eu ainda estou fazendo acordada? Tchau. Boa noite a todos.
Maria Svensson Fabriani
Uma foto minha apareceu hoje no jornal para ilustrar um artigo de políticos de centro-direita criticando a política de integração sueca. Junto estão duas colegas de classe e a professora do curso especial para imigrantes que fiz de abril a agosto desse ano. A legenda da foto diz: "Maria Fabriani, Jevgeniya Ivanova, Elisabet Vidman e Evelina Akopof representam imigração que tornam mais rica nossa região".
O artigo critica um ponto em particular do discurso da Ministra da Integração, Mona Sahlin: não é o racismo estrutural que impede que "bons" imigrantes como eu consigam empregos, como a ministra defende, mas as regras extra-duras do sistema de trabalho desse país. Quando se contrata um funcionário aqui na Suécia é quase impossível demiti-lo. Os sindicatos são fortíssimos e defendem os interesses de seus associados até a última instância. Os autores do artigo defendem que essa lei dura inibe empresários e até mesmo grandes empresas, que desistem de empregar imigrantes porque há um temor de contratar "uma pessoa certa para o lugar errado".
Até entendo que esse medo deve existir sim e concordo que a política de contratação sueca é duríssima. Acho inclusive que a tal ministra Mona Sahlin não tem feito grandes avanços no que diz respeito ao sucesso da política de integração. Mas nesse ponto, sou obrigada a concordar com ela. Não é apenas a incerteza de contratar uma pessoa "diferente" que faz com que os empregadores desistam de dar empregos a imigrantes, mas sim um preconceito tão arraigado no subconsciente sueco que até mesmo os mais liberais e críticos não percebem.
Um exemplo? Nenhum tipo de formação acadêmica é boa o suficiente para a Suécia se você não estudou em algum país europeu. Não adianta espernear, dizer que estudou quatro anos para se tornar uma jornalista e eles aqui precisarem apenas passar dois anos numa faculdade para poder escrever em qualquer jornal. Você ainda precisa fazer um ano de "complementação". Complementação de quê, cara pálida? Sueco eu já estudo que nem uma louca desde que coloquei os pés nessa terra. Sobre regras e padrões jornalísticos suecos eu aprendo em um curso de dois meses, no máximo.
Ontem vi uma matéria no jornal da TV4 sobre a dificuldade da segunda geração de imigrantes para conseguir empregos. Entrevistaram uma moça de origem iraniana, muito bonita, falando um sueco perfeitíssimo, com sotaque de Estocolmo mas que não consegue um emprego por causa do nome dela, evidentemente persa. Como ela sabe que é por causa do nome? Depois de enviar currículos, fazer visitas diretas às empresas e ligar para inúmeras companhias por mais de um ano, ela se cansou e fez uma experiência: mandou o seu currículo para um empregador e mudou de nome. Passou a se chamar Michelle Egström, um nome bem sueco.
O currículo dela não apenas foi considerado, como ela foi chamada para uma entrevista. Depois de duas horas de conversa, o empregador se disse feliz com o resultado mas só queria ligar para as referências dela. Aí, sem poder mentir mais, ela disse que seu nome era outro. O cara desistiu de empregá-la e deu como desculpa que não era bom ter mentido no currículo. mas como é que ela poderia não mentir se com seu nome verdadeiro é quase impossível sequer ser chamada para uma entrevista preliminar? Como resultado, a moça está pensando em mudar seu nome para algo bem sueco. Tenho certeza que ela terá mais chances.
novembro 19, 2002
A professorinha
Passei ontem a tarde toda na rua. Saí de casa às 13hs e fui andando até o centro da cidade, que fica a 20 minutos a pé da minha porta. O problema é que o chão está coberto de neve e por mais que a prefeitura tenha mandado as máquinas retirarem grande parte do gelo, ainda sobra muito. Parece que estou andando numa roupa de astronauta e com botas enoooormes. A sensacão é que navego por dunas de areia: ando, ando, ando e avanco pouco (olha se esse não é um paralelo interessante para a minha vida?).
Bom, saí de casa decidida a ir até a prefeitura, aqui chamada de Kommun, para colocar o meu nome numa lista de pessoas que desejam trabalhar como professores substitutos. Quando cheguei ao centro, dei uma passada pelo correio para enviar a justificativa da minha ausência no primeiro turno para a Embaixada do Brasil em Estocolmo... e desisti. As minhoquinhas que moram na minha cabeca comecaram a dizer: "Você não sabe ensinar!", "Essa não é a sua!", "Você não tem paciência com criancas, muito menos com adolescentes". Bla bla bla. Desisti.
No caminho todo de volta, com um sabor de derrota na boca, pensava: "É melhor mesmo. Ia ser uma vergonha não conseguir encarar aquelas pestinhas e ficar com medo". Mas aí, me dei conta de como estava entrando na armadilha não tão subconsciente assim de continuar na dependência, ficar dentro de casa (afinal, está frio, né?) e pronto. Odeio quando faco isso comigo mesma. Por essa razão, dei meia volta quando já estava perto de casa e voltei o caminho inteirinho.
Cheguei lá na senhora responsável por receber as pessoas interessadas e tudo correu bem. Eu estava um pouco nervosa, gaguejei um pouco, mas fiquei contente por ter conseguido ultrapassar mais esse obstáculo. Me inscrevi para substituir professores de inglês e de desenho (disse pra moca que minha mãe é artista plástica, o que é verdade, mas que não quer dizer rigorosamente nada no que diz respeito a minha competência para qualquer coisa relacionada ao assunto).
Se eu for chamada - isso depende se precisarem de substitutos nas escolas para as quais me inscrevi - não vai ser nada para agora, porque quem quer ser professor tem que mandar o seu nome e dados para a polícia federal daqui para que se verifique que não se trata de pedófilos ou monstros em geral. Quanto a isso, estou tranqüila.
novembro 07, 2002
Exatidão sueca
Sueco é maluco por estatística. Tudo aqui é minuciosamente analisado; todas as pessoas e suas vidas devidamente classificadas. Quantos nasceram, quantos morreram, onde e até porque. Saiu hoje no jornal: até o terceiro trimestre do ano 788 pessoas saíram de Norrbotten - região do extremo norte da Suécia - onde moro. Em Boden, há atualmente 28.293 habitantes; 87 a menos do que no mesmo período do ano anterior. Os nascimentos foram 201, enquanto 238 pessoas morreram, o que causa um déficit de 37 almas.
Exatas 794 pessoas se mudaram para Boden, enquanto 842 saíram da cidade. São menos 48 pessoas morando e pagando impostos aqui. No que diz respeito à migracão e à imigracão, os números são assim: 12 pessoas advindas das cidades vizinhas se mudaram para Boden, enquanto 143 advindas de outras partes da Suécia saíram daqui. São 83 os estrangeiros em geral com visto de permanência no país que moram em Boden, como é o meu caso. Os imigrantes sem visto não entram na estatística.
Imagina essa organizacão minuciosa no Brasil??? :c)
O controle sobre o cidadão é tão intenso que qualquer um aqui se sente paranóico. Eu mesma, quando cheguei fiquei meio desconfiada. É que poucas semanas depois de fazer 30 anos recebi uma cartinha do hospital mais próximo me convidando para um exame de rotina para o controle de câncer uterino. Achei aquilo meio estranho e liguei pra minha sogra - que é uma ótima pessoa quando não nos metemos com os Tupperwares dela - pra perguntar se isso era correto ou se as autoridades suecas estavam me tratando como uma imigrante de saúde duvidosa.
Claro que a explicacão foi simples: assim que completam 30 anos, todas as mulheres são convidadas a fazer esse exame de quando em vez, exatamente para evitar o aparecimento de problemas. É a tal da medicina preventiva que escutamos tanto falar mas que nunca vimos funcionar, sabe? Gracas a Deus estava tudo bem comigo e esse meu primeiro encontro com o sistema de saúde sueco, apesar de confuso no início, foi satisfatório.
Um site muito bacana é que demonstra bem como os caras são organizados é o do Statistiska Centralbyrån. O link é da página em inglês. Sempre que eu o visito minha alma jornalístisca treme de prazer. :c)
outubro 23, 2002
A vida como ela é
Achei muito oportuno da TV4, um canal de TV de notícias e entretenimento que adoro e que está dedicando toda sua grade de programas dessa semana a matérias sobre o racismo na Suécia. Ontem, no jornal nacional deles, foi mostrada uma autoridade dizendo que podem haver tumultos tão graves quanto aqueles que ocorreram em Los Angeles quando policiais brancos bateram em Rodney King sem motivo aparente. Até a ministra da integracão da Suécia, Mona Sahlin - não muito competente se você quiser mesmo saber minha opinião - disse que não chega a tanto, mas que perigo sem existe.
Amanhã vão mostrar em um programa ótimo chamado "Kalla Fakta" (que quer dizer mais ou menos "a verdade nua e crua dos fatos") como é difícil para imigrantes com educacão superior conseguir um emprego aqui. É o caso por exemplo, de Kurosh Jalali, cidadão sueco nascido no Irã, que por ter background de imigrante, só conseguia empregos como faxineiro e lavador de pratos. Foi para a Inglaterra e se tornou chefe apotecário no primeiro dia em que procurou emprego. Experiência semelhante a de Naser Izadkhan, também cidadão sueco com família imigrante. Hoje ele é ortodontista radicado em Manchester, Inglaterra, mas quando estava na Suécia era obrigado a ser motorista de taxi para poder sobreviver.
A verdade é que a sociedade sueca precisa acordar para o fato de que preconceitos existem e são prejudiciais para todos. Se não for por humanidade que seja por problemas econômicos. A dificuldade de se aproveitar os talentos e a competência de suecos com background imigrante custa muito à sociedade sueca como um todo. "Se o estabelecimento de profissionais de background imigrante fosse o mesmo registrado por suecos nascidos aqui, o governo ganharia mais de 30 bilhões de coroas por ano", constata Jan Ekberg, professor de Economia Nacional. Ele faz referência a todos os impostos que essas empresas pagariam, além dos custos do social com os desempregados, que deixariam de ser pagos.
Kalla Fakta, TV4, Torsdag, Kl. 20.00.
outubro 21, 2002
De volta à Academia
Acabei de voltar da Universidade de Luleå, que fica a 30 minutos de carro daqui de Boden (como do Leblon à Barra em dias privilegiados). Fui lá conversar com um studievägledare, uma espécie de consultor que indica caminhos aos estudantes que estão em dúvida sobre que curso fazer. No meu caso é ainda mais aguda a necessidade de orientacão porque sequer sei como o sistema de ensino funciona. Levei meus diplomas, já reconhecidos pelo organismo de educacão superior daqui, e o cara ficou meio de queixo caído.
Não que eu tenha uma educacão fora dos padrões, mas quatro anos de universidade (UFRJ), sete de experiência profissional e mais vários cursos de idima são mais do que o suequinho poderia esperar de uma imigrante. Para cursar qualquer coisa aqui você tem que ter um curso de inglês básico. Mostrei meu diploma do curso que fiz em Nova York e o cara quase caiu pra trás. Gosto de mostrar essas coisas porque me fazem lembrar o quanto eu me esforcei para ser o que sou hoje - e mostro aos suecos o que é que a baiana tem, sabcumé?
Anyway, fui lá munida também de algumas informacões que pesquei no site da universidade e muitas perguntas, claro. O cara me explicou como são os cursos e eu perguntei como é que se consegue uma vaga. Há cerca de três tipos de classificacão de estudantes: os que saem direto do colégio, quem faz uma högskola - um nível intermediário entre o colégio e a universidade - e quem tem diplomas de fora da Suécia, como é o meu caso.
Para conseguir minha vaga dependo que poucos adolescentes queiram ir direto para a universidade e, aqueles que por ventura queiram estudar mais, tenham notas ruins. Além disso, caso tenha sucesso, preciso ainda pedir ajuda de custo para pagar o curso. Em fim, fui lá, falei muito, mas não tenho a menor idéia se vou conseguir alguma coisa. Nem sei que curso farei, pra falar a verdade. É nessas horas que eu queria ser bem pequenininha e aceitar as decisões que alguém tomasse por mim. Sei que é infantil, mas, ah, às vezes é tão difícil ser adulto o tempo todo!!! :c/
outubro 19, 2002
Tudo por um poema
Uma das coisas mais legais de se viver num país como a Suécia não é apenas conhecer características e maluquices do povo sueco. É muitíssimo interessante também entrar em contato com gente dos países mais variados, como Bósnia, Irã, Vietnã, Turquia, Rússia e até Iraque. A convivência, claro, não é lá muito fácil. Afinal, somos todos muito diferentes. Mas, mesmo não sendo refugiada de guerra eu ainda sou imigrante e algumas pessoas têm histórias que merecem mais atencão.
Uma dessas pessoas é o meu amigo Farshid, que é iraniano. Esquecam todos os esteriótipos de árabe machista (até porque os iranianos não são árabes, mas persas): o Farshid é um amor de criatura, muitíssimo inteligente e engracado. Ele veio pra Suécia há quase quatro anos atrás, fugindo de uma milícia que rondava a universidade onde ele estudava em Teerã. O que ele fez? Escreveu um poema no qual criticava o governo dos Aiatolás. Claro que não assinou o poema, que foi colocado num quadro de avisos da universidade. Alguém descobriu quem o tinha escrito e ele teve de fugir no meio da noite.
Pois bem, o negócio é que o governo da Suécia acabou de negar o visto de permanência do Farshid e ele terá de deixar o país dentro em breve e voltar para o Irã. Me encontrei com ele no colégio na semana passada e ele estava desconsolado. Eu sinceramente não entendo. O governo sueco precisa de gente para trabalhar exatamente no servico feito pelo Farshid, que é enfermeiro. Fala-se inclusive em importar mão-de-obra para certas áreas nas quais há falta aguda de profissionais e a profissão de enfermeiro é uma delas.
Para se defender durante o julgamento do seu caso, Farshid e seu advogado sueco conseguiram um fax enviado por seus amigos iranianos confirmando que a cacada realemente aconteceu e que Farshid não pode voltar para Teerã sem arriscar anos e mais anos na cadeia ou então morte imediata. Estilo Salman Rushdie. Uma das pessoas que estavam julgando o pedido de asilo político argumentou que o fax "não tinha sequer um envelope". "Mas como é que eles querem que meus amigos enviem uma carta pra mim se absolutamente tudo no Irã é censurado?", pergunta Farshid.
Acho fantástica essa abertura do governo sueco no sentido de abrigar dezenas de milhares de refugiados de guerra - gente nem sempre qualificada que se não fosse por países com uma política de paz exemplar como a Suécia morreria antes mesmo de tentar se salvar. O que eu critico é que esse abrigo seja tão parcial. O Farshid sabe muito bem sueco, se comunica e trabalha todos os dias. Ele não vive do dinheiro do social, muitíssimo pelo contrário. Além do mais, desde que chegou aqui já fez vários cursos para poder falar sueco e para poder trabalhar como enfermeiro. Por que jogar tudo isso fora?
outubro 18, 2002
Uma idéia genial!
Li no blog da Cora e reproduzo aqui: a Luciana fez um post com links de blogs de brasileiros que moram no exterior. São 40 blogs feitos nos quatro cantos do mundo, cada um mais interessante do que o outro. Como li em um deles (já visitei todos), pode-se perceber que ser brasileiro não é apenas exercer uma nacionalidade, mas um estilo de vida.
Há dois blogs na Alemanha, um na Jordânia (pois é, incrível, não?), 13 nos EUA, dois no Canadá, cinco no Japão, dois na Austrália, cinco na Inglaterra, um em Paris, dois na Itália, dois na Holanda e quatro na Suécia, incluindo euzinha. Muito interessante!
UPDATE :: A Luciana informa que a lista já está com 58 blogs e tem mais gente chegando, oba!!!
outubro 09, 2002
Assassinaram a gramática
Estou fazendo o dever para a aula de sueco de hoje e queria escrever sobre uma mulher com vastos cabelos castanhos. Tasquei lá no papel: "Mörk hårig kvinna". Mörk quer dizer "escuro(a)"; hårig significa "cabeludo(a)"; e kvinna, "mulher".
Só que está errado. A razão? Se você não juntar as palavras mörk e hårig, o sentido fica totalmente alterado.
Então: Mörk hårig kvinna = Mulher escura e cabeluda; e Mörkhårig kvinna = Mulher de cabelos escuros.
O adjetivo mörk, no segundo caso, se junta e altera hårig. No primeiro caso, ambos adjetivos dizem respeito ao sujeito, kvinna.
Ô linguinha marvada! :c)
outubro 04, 2002
Blá-blá-blá
Meu estágio termina semana que vem. Sem chances de emprego.
Às vezes me sinto como uma macaquinha brasileira, acenando para os suecos febrilmente, dizendo "Oi, Oi, eu já falo a sua língua! Eu sei fazer um monte de coisas! Já estou até escrevendo textos em sueco! Além disso, sou competente, confiável e honesta!". Mas mesmo que alguém me ouvisse e até acreditasse, seria difícil me encaixar em algum trabalho.
Isso porque todos os empregos ligados à área de mídia e comunicacão demandam anos de estudos. Apesar de já ter tido meu diploma da UFRJ reconhecido aqui - não sou mais apenas uma imigrante, mas agora sou uma jornalista imigrante - isso não quer dizer que posso exercer a profissão. Segundo o sindicato, do qual aliás já faco parte, preciso estudar um ano de jornalismo aqui para saber como se faz. Não me importaria de fazê-lo se para isso não precisasse me mudar pra Estocolmo.
Tentei, então, encontrar outros trabalhos, temporários, só pra entrar uma grana, e que não me obrigassem a ser faxineira. Mas não deu. Até mesmo para vender remédios na farmácia você precisa estudar anos. Química, física, o escambau. De forma que estou ainda naquele meio termo: falo sueco super bem, mas não consigo um emprego porque não tenho a educacão formal necessária para os trabalhos que quero realizar. Não quero ser jornalista porque sou uma pessoa realista: simplesmente ainda não dá para ter o controle de texto que eu tinha em português.
Ao mesmo tempo não posso fazer outra universidade porque ainda não completei o último curso de sueco, absolutamente necessário para um imigrante entrar numa universidade aqui. Só termino esse curso no segundo semestre do ano que vem. AMO o meu curso de sueco, entendam bem, queria, inclusive, poder me dedicar totalmente a ele. Mas e a minha necessidade de me exercer profissionalmente? Onde é que eu ponho?
Não precisam responder.
A pessoa que me orienta lá na agência nacional de empregos disse que eu sou uma prioridade. Segundo ela, é um desperdício ter uma pessoa como eu, que realmente tenta o tempo todo, desde que chegou aqui, que se preocupa em falar bem a língua - coisa raríssima entre imigrantes - que tem experiência profissional e formacão formal e que ainda não tenha conseguido nada, nem uma luzinha no fim do túnel. Concordo com ela. É por isso que tanta gente se muda daqui. Além de ser gelado, nego pena pra conseguir um trabalho legal!
Mas sei que tudo isso é uma loucura também. Estou aqui há exatos 17 meses. Tenho é que segurar a minha onda.
julho 13, 2002
Falar e viver
O Tom Moore, do Mostly Music (que é feito também pela Laura Ronai), escreveu esse post aqui que eu achei interessante por ter sido uma das minhas descobertas mais recentes:
Language and personality
I found this in a page on the Czech language today: As the Czech saying goes: "You are as many times a person as many languages you speak." The English rendering is not quite idiomatic, but you get the idea.
And I guess it must be common, because it only took a few more seconds to find the Czech... Kolik jazykù znáš, tolikrát jsi člověkem. (As many languages as you know, that many times you are a man). I studied enough Czech to read it slowly with a dictionary, but speaking it is another matter entirely.
Comentei que eu sentia isso na pele, todos os dias. Falando português sou uma pessoa; sueco, outra. E não tem apenas a ver com falta de vocabulário, mas com mudancas mais drásticas, como o próprio ritmo da fala. Notei que quando falo sueco, minha fala fica "ondulada" - no sentido de altos e baixos; sons novos e combinacões meio ilógicas. Não sei explicar direito. Mas é estranho. O Tom Moore respondeu ao meu comentário dizendo que quando ele, que é americano (eu acho), fala português até sua voz fica diferente.
Repito aqui um trecho do "Diário de Viagem", do Camus, que escrevi aqui no dia 14.05.02: "Quando se fala uma língua estrangeira, segundo Huxley, há alguém dentro de si que diz não com a mão".
Aliás, como a linguagem é importante! Outro dia estava vendo um dos documentários do Discovery e assisti um especial sobre um "cientista" que havia separado criancas de suas famílias e feito com que nenhuma linguagem lhes fosse ensinada. Ele queria saber se as criancas criariam um idioma próprio para se comunicar. Ele nunca soube porque todas as criancas morreram. Infelizmente não lembro o nome desse criminoso, mas acho que a experiência aconteceu na Rússia, mas não tenho certeza.
maio 24, 2002
Racismo na Escandinávia
Depois de um oportuno e-mail do Tom Taborda, achei que esse era uma assunto interessante. O Tom me mandou um link com o site feito por uma americana que está vivendo há um ano em Copenhagen e escreveu textinhos curtos e interessantes sobre as esquisitices dos dinamarqueses. E uma das características que ela notou é que os dinamarqueses são bastante "restritos" no que diz respeito às diferencas. Segundo a americana, vive-se na Dinamarca sob o moto "We are open to anyone exactly like us".
Tom perguntou sobre as diferencas e semelhancas entre Dinamarca e Suécia e achei que seria um assunto interessante pra tratar aqui, já que muita gente me pergunta como é viver em um país tão diferente. Bom, a Suécia tem uma política de aceitacão de refugiados e imigrantes muito eficiente e que dá todo o tipo de apoio a quem vem pra cá por pura falta de opcão de morar em seu próprio país. Os refugiados têm escola, moradia, assistência médica de graca além e ajuda monetária do estado.
Além do que, a própria sociedade sueca é mais tolerante quanto às diferencas. É claro que há extremos racistas, mas não chegam nem perto à Dinamarca. O pessoal mais barra-pesada contra os imigrantes fica em Malmö, cidade que, aliás, já foi dinamarquesa, mas que foi anexada pela Suécia por meio de uma guerra (link em sueco, sorry. A Suécia lutou com Dinamarca, Rússia, Polônia e Alemanha, entre outros, várias vezes de 1500 até 1800. Veja aqui um texto em inglês, mas o ponto de vista é dinamarquês!). Mas esses problemas em Malmö são locais e de modo algum se espalham pela Suécia inteira.
Mas essa questão de diferencas de política de refugiados entre Suécia e Dinamarca está pegando fogo aqui. É que esta semana, a líder do partido de direita Folkpartiet dinamarquês, Pia Kjaersgaard, uma política importante do governo daquele país, está ameacando fechar a Öresundsbron, ponte que une os dois países. A causa: a ministra da integracão sueca, Mona Sahlin, vem criticando o extremismo dinamarquês no que diz respeito à imigracão. Estou seguindo a discussão pelos jornais e está ficando cada vez mais quente.

Dinamarca: vamos fechar a ponte entre os dois países
Hoje, sexta, um dos jornais que eu leio aqui, o NSD - Norrländska Socialdemokraten, publicou uma página de opinião sobre o conflito. Achei interessante. Veja só: a jornalista que escreve a coluna, Josefine Elfström, diz que a crítica da ministra Mona Shalin não foi desproporcional, como protestou Pia Kjaersgaard. O problema todo é que a Dinamarca está para assumir a lideranca da Comunidade Européia agora no verão (inverno aí no Brasil) e teme-se que essa questão momentosa dos refugiados na Europa receba um tratamento extremista. A Suécia lidera o bloco de nacões-membros da CE que não estão alinhados à política intolerante dinamarquesa. A Suécia, governada por socialistas, é totalmente contra essa demonizacão dos refugiados e tem uma política sólida que oferece apoio de todas as formas a quem é obrigado a deixar seu país.
A Josefine continua: "A líder do partido de direita Folkpartiet, Pia Kjaersgaard, escreveu em sua carta da semana: Se eles querem transformar Estocolmo, Gotemburgo e Malmö em uma Beirute escandinava, com guerra de clãs, assassinatos por honra e estupros em massa, então que deixe eles fazerem isso. Podemos sempre colocar uma barreira na ponte de Öresund".
Essa cacatua infeliz faz referência a um crime que de fato aconteceu recentemente na Suécia - um pai de origem Curda matou com um tiro na cabeca a filha, nascida na Turquia (eu acho) mas criada desde bebê na Suécia e que só queria namorar rapazes suecos e não quem a família mandasse. O nome dela era Fadime e o crime levantou grandes discussões em todo o país porque a família da Fadime já vivia na Suécia havia mais de 20 anos e, no entanto, esse pai nunca aprendeu sueco. Ele está sendo julgado agora com a ajuda de um tradutor, só pra vocês terem uma idéia. Depois de mais de 20 anos morando aqui. O cara vai ser mandado de volta para seu país de origem. Mas também não tem essa de "estupros em massa". Isso é papo de direitista ensandecido.
A Josefine afirma: "Todos os refugiados na Dinamarca precisam fazer um exame de saúde antes de requisitarem asilo, porque o servico de saúde público não cobre as doencas pré-existentes. Na Suécia o sistema de saúde público não faz diferenciacão entre doencas pré-existentes e novas. Todo mundo tem direito a cuidado médico." E continua: "Não podemos dizer que a nossa política de integracão é perfeita. Não é. Mas sem dúvida alguma todos os partidos suecos têm uma visão mais humanitária do problema". E têm mesmo, porque até o Lars Leijonborg, líder do Folkpartiet sueco - equivalente ao partido da dinamarquesa enlouquecida - condena o tratamento conferido pelo estado dinamarquês aos refugiados.
maio 10, 2002
Looping
Estava pensando neste ano passado aqui na Suécia, e constatei quantas coisas mudaram. Minha vida virou ao contrário, como a Lua aqui, que cresce e diminui no sentido oposto ao do Brasil. Uma coisa.
Quando cheguei quase morri de frio (e olha que estávamos na primavera, com média de 10 graus em dias de sol), não conseguia entender uma palavra do que as pessoas diziam, assistia televisão só mesmo porque aqui tudo é legendado (só programa infantil é dublado), de forma que a maioria dos filmes, seriados etc, são em inglês, gracas a Deus.
Mal entrava na Internet, apesar da conexão de banda larga aqui de casa, porque escrever e-mails pra minha família e amigos era uma tortura chinesa de último grau de crueldade. Chorava horrores, meu corpo comecava a reagir à adaptacão ao novo clima - radicalmente mais frio e seco do que o do Rio.
Agora as coisas melhoraram muito. Só poder ler em sueco, conversar com as pessoas, ver televisão e, de repente, me dar conta de que vejo o programa sem me esforcar para entender o que está sendo dito, já é suficiente para me dar uma qualidade de vida muito boa. O estranhamento, ainda presente, é mais suave.
Mas, vocês sabem, morro de saudades das pessoas que deixei no Rio. Tem problema não! Agosto está logo ali na esquina!
maio 08, 2002
Xodó
As senhoras muçulmanas com as quais estudo me adoram. A Shefica, que vem da Bósnia, e a Dele, que vem da Turquia, sempre me perguntam tudo quando elas não entendem o que a professora diz. Não que a professora seja ruim, mas é que eu acho que elas se sentem mais à vontade de perguntar pra mim, que sou estudante como elas.
Outro dia, durante o intervalo, as duas vieram me perguntar quanto anos eu tinha. "Trinta", respondi. Elas não quiseram acreditar de jeito nenhum. Disseram que eu tinha, no máximo, 25 anos. :c) Também quiseram saber se eu já tinha filhos. "Não", disse eu. E depois: "Já é casada?". "Não, ainda não", respondi. E elas: "Ah, bom", finalizaram, felizes.
Enquanto isso, a Sandya, que veio do Sri-Lanka, é meio pentelha. Outro dia, só pra preencher o silêncio (tenho horror de gente que fala qualquer coisa só para não ficar em silêncio), ela tentou entabular um diálogo maluco comigo. Foi assim:
-- Maria, onde fica o Brasil? Na Ásia?
-- Não, fica na América do Sul.
-- Ahn. Tem côco no Brasil?
-- ???? Sim, tem.
-- Ah! Igual ao Sri-Lanka!
maio 07, 2002
Ginástica
Hoje, depois da aula comum do curso, fomos todos ter aula de ginástica. Estou mortinha da silva. Fizemos spinning por uma hora. A professora, uma daquelas suequinhas que parecem Barbies, botou pra quebrar e quase pedi arrego, ainda mais quando ela botou "Great Balls of Fire" na vitrola e mandou a gente caprichar no pedal. Quase não consegui subir as escadas aqui do meu prédio. Quero só ver como vou sair da cama amanhã de manhã. Mas essa coisa de esporte é outra característica engracada daqui: todas as pessoas com emprego fixo têm direito a uma folga de algumas horas em um dia da semana para praticar esportes. Nadar, correr, fazer ginástica, andar, qualquer coisa vale.
Quando vim pra cá pela primeira vez, em 1999, Stefan me contou sobre isso quando fomos a um parque aquático que tem aqui perto de casa e que é o maior sucesso (os suecos, assim como os finlandeses, adoram água e, principalmente, sauna). Aí pensei alto: "Ahn, claro. As pessoas podem vir aqui e mostrar o tíquete depois para o chefe, pra provar que foram realmente se exercitar." E Stefan me olhou com estranhamento: "Não. Não precisamos mostrar nada a ninguém. Eu, por exemplo, vou correr nas trilhas da folhesta e não tenho tíquete pra apresentar. As pessoas simplesmente sabem que é uma boa coisa se exercitar e, quando saem do trabalho mais cedo é pra fazer exercício mesmo". Civilizados, não?
maio 06, 2002
Político é tudo igual
Pois é. Nunca gostei de generalizacões, mas essa é verdadeira mesmo. Hoje, no curso especial para imigrantes, recebemos a "visita" de um político (visita está entre aspas porque também estamos em ano eleitoral aqui e eu não nasci ontem). O nome da figura é Olle Lindström e ele é do partido de centro Moderaterna (ou Moderados). Quis saber o que era ser um político moderado na Suécia, um dos poucos países socialistas que deram certo. E ele: "Defendemos que o estado tenha menos ingerência sobre o dinheiro dos impostos". Um odor liberal ficou no ar. Quando perguntei a posicão dos moderados sobre os imigrantes, fazendo referência ao fenômeno/desastre Le Pen, ele circulou, circulou e não disse nada. Ou melhor, disse sim. Afirmou que os moderados gostavam muito dos imigrantes. Ahn, então tá.
Por outro lado, quando teve oportunidade de apresentar uma de suas idéias que submeteu ao parlamento lá em Estocolmo, discorreu longamente e com muita propriedade sobre a necessidade de melhores estradas aqui para o norte do país. Propôs, em conseqüência, um imposto que adicionaria mais duas coroas ao já ultra inflacionado preco da gasolina para garantir as mudancas. Parecia um Maluf escandinavo. Cruz credo. O pior é que se paga cerca de 33% de impostos todos os meses, descontados ali, na fonte. Tudo bem que aqui na Suécia há uma tremenda rede de servicos sociais, o chamado wellfare, mas ainda assim. É muito dinheiro. E o cara ainda quer aumentar o preco da gasolina. Pergunta se ganhou o meu voto?
abril 24, 2002
No curso II
Um pouco frustrada. Algumas pessoas não compreendem direito o que é dito na sala de aula pela professora. Por isso, repetem como macacos amestrados tudo o que é dito, mas o olhar é "em branco", típico de quem não entendeu nada. Não sei quanto à professora, mas eu fico chateada com essa falta de resposta. Tinha tantas coisas pra perguntar para esse povo!
O índice de concentracão é mínimo. Reclamei disso com a minha professora do outro curso - no qual estudo sueco - e ela me disse que é preciso ter muita paciência porque a maioria das pessoas não têm o costume de estudar tanto. Concentracão se aprende na escola também.
A vietnamita, por exemplo, é um problema. Ela parece uma máquina de repeticão de monossílabos em sueco. E pior, com um acentuadíssimo sotaque vietnamita, incompreensível. A professora pergunta: "Vad heter du?" ("Como você se chama?"), e ela diz: "huhum du".
No curso
Anotacões rápidas da apresentacão dos nossos países.
-- No Sri Lanka as mulheres não conseguem empregos bons e, em conseqüência, se mudam para o Kuwait ou para a Arábia Saudita para tentar ganhar mais.
-- O Afeganistão teve um período bom, antes dos Talibãs, quando ainda era um país comunista.
-- Ainda fazem testes atômicos debaixo do solo do Cazaquistão.
-- Motivo de orgulho na história bósnia: o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand em 1914, fato que deu início à Primeira Guerra Mundial.
abril 15, 2002
Novo curso
Hoje comecei um curso novo, que vou fazer ao mesmo tempo em que estudo sueco. É um curso especial para imigrantes no qual estudaremos ciências sociais, leis, direitos e modo de vida da sociedade sueca. Uma das partes mais interessantes é que, além das aulas comuns, que duram quatro horas por dia, teremos visitas de pessoas que nos explicarão como funciona a sociedade desse país. Como funcionam, por exemplo, os sindicatos (aqui é muito importante fazer parte de um sindicato), ou o sistema de assistência social.
A intencão é nos dar mais conhecimento do país, das leis, dos direitos e das obrigacões dos cidadãos, para que possamos nos preparar melhor para o mercado de trabalho. O incrível é que recebemos um pagamento para frequentar as aulas, que vão até a primeira semana de agosto. Quatro mil coroas suecas por mês (US$ 400). Não é muita coisa, mas já é alguma coisa. Ainda não me acostumei com a idéia da cidade me pagar pra eu ter educacão. O curso já é de graca e eles ainda pagam pra você ir estudar. Não é magnífico?
Hoje foi apresentacão e, confesso, o mais interessante foi conhecer pessoas tão diferentes. Estudando comigo temos duas pessoas do Cazaquistão, uma moca do Sri-Lanka, um casal russo, duas mocas da Bósnia e uma de Kosovo, um rapaz do Afganistão, uma moca da Turquia e outra do Vietnã. Ainda tem um rapaz que veio de alguma terra do Oriente Médio, mas não consegui entender qual.
Primeiras impressões: é tudo verdade o que dizem das mulheres da Bósnia e de Kosovo. Haja repressão! Você precisa fazer um esforco pra escutá-las dizer alguma coisa. A orientadora teve de ser perseverante para saber os nomes delas. Uma coisa. Já a russa, que se chama Evelina, parece ser uma simpatia. Além do que, é absolutamente lindo escutá-los falando russo uns com os outros. Não entendo nada, mas é uma língua tão bacana! Queria aprender russo um dia.
abril 06, 2002
5x7
Atenção você, que pensa em vir morar no exterior. Não se esqueça dos seus livros, dos seus CDs, do seu computador, das suas roupas, das suas cartas, dos seus documentos, mas, mais importante, não se esqueça de trazer com você um sortimento extra de fotos 5x7. Tá pensando que é brincadeira? Tenho que renovar meu passaporte, que vence agora em novembro de 2002. Pois precisava das tais fotos 5x7 e pergunta se aqui, no pico do mundo, é fácil encontrar algum fotógrafo que faça esse formato de foto? Resposta: não, não é.
Acabei encontrando, claro, depois que o Stefan ligou para uma meia-dúzia de estúdios. Chegaram a querer nos cobrar, por quatro fotos, 700 coroas suecas, o que corresponde a mais ou menos 70 dólares... Façam as contas para reais... Conseguimos encontrar uma fotógrafa que fez as fotos por apenas 250 coroas, 25 dólares, mais de 50 reais. Mas, pelo menos, as tenho.
A grande dificuldade é que aqui eles fazem fotos de forma diferente. De acordo com uma resolução da União Européia, as fotos dos cidadãos dos países participantes precisam ser tiradas de forma a mostrar a orelha do indivíduo. Isso mesmo, você leu direito: é absolutamente essencial que a foto mostre a orelha do cidadão. Eles dizem que tudo pode ser mudado no rosto, mas a orelha continua lá, a mesma.
Para ter a minha identidade sueca precisei passar pelo tormento de tirar a tal da foto-mostrando-a-orelha, como vocês podem ver aí ao lado. Minha mãe sempre me disse que eu era muito mais bonita do que isso. E não vale rir da minha cara amuada.
março 22, 2002
Å Ä Ö
Hoje estou meio sem energia pra nada. Acho que é porque, mesmo sem trabalhar, estou estudando como uma maluca essa língua cretina. E isso, sem dúvida, deve valer como um tremendo trabalho cerebral. Atualmente estou estudando preposicões, o que está me deixando louca. Como em todas as outras línguas que sei, não há regras exatas para a maioria dos casos. Você precisa decorar mesmo. Aliás, só pra dar um exemplo: vocês sabiam que sueco tem NOVE vogais e não apenas as nossas cinco? É que aqui eles resolveram inovar...%&¤##&%%"#... e além do conhecido a, e, i, o, u temos ä (pronuncia-se "é"), ö (ê), å (ô), e y.
...%&¤##&%%"#...(piiiiiiiii)
março 08, 2002
A saída
Para alcancar meu objetivo - ter um trabalho que me satisfaca e estar perto do meu namorado - preciso ser simplesmente A MELHOR. Aliás, isso não basta. Preciso também de intervencão divina para me fazer atraente para as redacões que "precisam" de jornalistas imigrantes. Isso porque não sou árabe nem africana nem bósnia. Que coisa.
Meus planos
O que terei de fazer para tentar viabilizar minha carreira aqui? Simples: estudar sueco como uma louca, escrever sem parar para poder aprender direito, me mudar para Estocolmo ou Gotemburgo e estudar por um ano. Pois é, não bastaram meus quatro anos na universidade, nem meus sete passados em redacões de diferentes veículos de imprensa.
Tenho que fazer esse curso "complementar", como eles chamam aqui, para que eu saiba como trabalhar nos limites e peculiaridades da imprensa sueca. E esse curso só existe no sul.
Meu plano imediato é terminar o curso que estou fazendo agora, "Svenska Som Andra Språk A", o que deve acontecer no próximo mês de junho, e continuar com o "Svenska Som Andra Språk B", o que, à princípio, seria obrigatório para perseguir qualquer ambicão universitária nesse país.
Isso posso fazer aqui, em Boden, na escola na qual já estou estudando. Mas o tal curso de um ano vai ter mesmo que ser em Estocolmo ou em Gotemburgo.
Os problemas são: preciso esperar, pelo menos, mais um ano para completar o curso "B"; preciso esperar até completar dois anos na Suécia para poder pedir a tal da ajuda econômica para estudar; essa ajuda não é suficiente para me garantir em Estocolmo - uma cidade caríssima, assim como todas as capitais européias - o que me obrigaria a procurar uma bolsa de estudos, o que ainda é um mistério para mim (sinceramente, ainda não tive coracão para saber de todos os obstáculos burocráticos para imigrantes conseguirem bolsas aqui).
Aí basta estudar que nem uma louca, talvez trabalhar em algum sub-emprego para poder sobreviver e, quando as aulas terminarem, me candidatar a um "vikariat", o que quer dizer que você trabalha, geralmente no verão quando o país todo pára (veja nota abaixo), no lugar de alguém que está de férias.
Parece justo, né? Pois ainda tem mais. Ainda no programa Medie Magazinet vi uma estatística que me deixou mais do que apreensiva. Do total de sommarvikarier, apenas cerca de 1% tem background não-europeu. E pior: a tendência é que os vikarier suecos, alemães, noruegueses, dinamarqueses e que tais, sejam os escolhidos na hora de ver quem eventualmente é contratado. TODOS os imigrantes são mandados embora.
De segunda
Não tinha me dado conta, mas acho que agora a ficha está caindo: sou uma imigrante e, como tal, sou diferente, ameacadora e tratada como cidadã de segunda classe. Se bem que nem sou ainda uma cidadã sueca, o que, aliás, não vai acontecer tão cedo. Também não procurei asilo; sou pura e simplesmente uma imigrante, e essa condicão me deixa em uma espécie de limbo burocrático demolidor.
Um exemplo: se eu tivesse vindo de Gana ou da Bósnia ou da Macedônia receberia desde o primeiro passo em solo sueco uma ajuda econômica mensal, apoio médico e dentário gratuitos para mim e toda a minha família e até, pasmem, apartamentos cujos aluguéis são pagos pelo governo.
Não tive essa sorte. Pago o mesmo nível de impostos dos suecos e, ainda assim, sou nada. Para eles.
Racismo nas redações suecas
Ontem assisti a um programa que me deixou mais consciente do que representa para mim em termos de trabalho ter vindo morar na Suécia. Claro que sem dominar a língua nunca poderia trabalhar como jornalista e, para aprender, precisaria de tempo e, sem dúvida, paciência. Mas a reportagem, feita pelo programa Medie Magasinet, também transmitido, aliás, pela Sveriges Television, assim como o meu preferido Mosaik, foi um verdadeiro balde de água fria que me fez repensar radicalmente meus objetivos a médio e longo prazos.
Não que eu já não soubesse que seria uma loooonga caminhada essa minha de tentar ser jornalista em uma terra com um idioma tão complicado e distante do português, mas o que assisti ontem me fez ver que minhas preocupacões eram, de certo modo, prosaicas.
O programa tinha como tema "Etniskt rensade redaktioner", o que pode ser traduzido literalmente como "Redacões etnicamente limpas". É a tal expressão que ouvimos desde a Segunda Guerra Mundial: a tal da "limpeza étnica". O que ocorre é que praticamente não há imigrantes trabalhando como jornalistas em jornais, revistas, rádios e canais de televisão daqui. A razão/desculpa dos que decidem quem é contratado ou não é que há pouca procura por parte dos não-suecos para empregos de jornalistas.
O engracado é que a Suécia sempre se gabou por ser um país extremanete democrático no sentido étnico e absolutamente aberto a povos tidos como altamente indesejáveis por todas as outras nacões européias, como kurdos, albaneses, bósnios, turcos, árabes e africanos em geral. Aqui há muita gente originária de terras não européias. Seus filhos nascem suecos, aprendem a falar o idioma, mas seus pais, muitas vezes, relutam. Afinal, são asilados e, por definicão, ainda têm esperanca de voltar para sua terra algum dia.
Mas enquanto estão aqui, essas pessoas se sentem absolutamente sem voz dentro da comunidade sueca. E foi isso que a Medie Magasinet foi analisar. A pergunta foi: por que as redacões não contratam mais imigrantes, que têm as fontes certas, entendem a língua, o mundo e a cultura, para fazer um retrato mais acurado dessas pessoas e, conseqüentemente, trazê-las mais para perto da sociedade que as abrigou? A conclusão foi clara: há uma barreira racista nas redacões suecas.
Um dos chefes da TV 4, um dos melhores canais de notícias e entretenimento daqui, chegou a dizer que eles talvez devessem baixar o nível da exigência de se falar ou escrever um sueco quase perfeito para que os imigrantes tenham mais chances nas redacões. Isso não só me provoca dor como me humilha, e olha que eu mal cheguei aqui. Pior: o cara era diretorzão da sucursal de Göteborg, a segunda cidade mais importante da Suécia e um dos locais onde há mais imigrantes por metro quadrado em todo o país.
março 06, 2002
Ajuda
Apesar de querer me ajudar, a Anne disse que eu não posso ser medlem do sindicato dos jornalistas aqui na Suécia porque eu não estou trabalhando em nenhum jornal ou revista. Além do que, não estou estudando para ser jornalista também. De forma que posso pedir por favor para ser aceita como membro associado, o que é muito utilizado por jornalistas estrangeiros que venham para a Suécia trabalhar com notícias. Ela não me garantiu nada mas me mandou um endereco de e-mail para eu pedir minha associacão. Espero que dê certo.
Língua
Falei ontem e hoje pelo telefone com duas pessoas em sueco fluente. Ontem foi com o Abdul, repórter da Sveriges Television, que recebeu meu e-mail e respondeu muito amavelmente. Ele também é invandrare, claro, de forma que ficou mais fácil se importar com o que eu disse na carta. Se bem que já aprendi que pessoas se mexerem pra te ajudar assim, do nada, é coisa rara. Agradeci à beca a ele. Hoje falei com a Anne, que dirige o sindicato dos jornalistas daqui, que tem âmbito nacional, o chamado Journalistförbundet. E, ao contrário dos sindicatos brasileiros, não é pouca porcaria. Com ela falei em um sueco de arrepiar, o melhor que consegui até hoje, depois de ralar muito nas aulas e aqui, com meus livros. Até eu, minha pior crítica, fiquei feliz simplesmente pelo fato de ter me expressado tão corretamente em sueco. Que orgulho!
Famosa na Roça
Aliás, contei que fiquei famosa aqui nesse rancho chamado Norrbotten? Pois é. Depois de ter ido pedir emprego a um dos jornais locais, o Kuriren, um dos jornalistas com quem falei e mostrei meu trabalho me ligou pra dizer que eles estavam muito curiosos a meu respeito e, por isso, decidiram fazer uma matéria sobre mim. ...!!!...
Bom, aqui está a matéria na íntegra:

Marias känsla för snö
02-03-02
Kärleken fick Maria att lämna Brasilien för Boden
Maria Fabriani har känsla för snö. Hon älskar vintern, något hennes föräldrar i Brasilien har svårt att förstå.
Boden, Hela Helgen.
Maria Fabriani utbildade sig till journalist vid ett universitet i Rio de Janeiro och har jobbat på en rad tidningsmagasin med inriktning mot Internet och datavärlden.
- Jag är lite nervös, skrattar hon och skruvar på sig i soffan. Som reporter är hon van att ställa frågor, nu är det tvärtom. Hon sitter uppkrupen i soffan i trerummaren på Sveavägen och berättar om vilka märkliga turer våra liv kan ta. Trots att hon bara bott i Sverige i nio månader pratar hon bra svenska, hon övar ständigt.
Maria har lätt till skratt och betecknar sig själv som en impulsiv människa. Kanske förklaringen ligger i hennes sydeuropeiska påbrå. Släkten har rötterna i Italien; Boulogne och Florens. Maria är född och uppvuxen i centrala Rio de Janeiro, inte långt från Copacabanas strand. Hennes pappa är författare och skriver till största delen poesi och har vunnit flera priser för sina alster, mamman är konstnär.
Delade upp världen
- Jag har en humanistisk bakgrund, konstaterar Maria och berättar att hennes far skrev en bok när hon föddes. Den heter Bara en burk och handlar om en burk som kastas bort och hamnar på olika äventyr. Men till slut hittar den sin plats i tillvaron. Maria Fabriani har själv hittat sin plats i tillvaron: i Boden tillsammans med Stefan Pieksma, som hon fann av en slump i cyber-rymden.
(Pois é, esses malucos comecam parágrafos com números, um espanto!) 1994 började hon arbeta på PC World och hon har genom sitt skrivande följt utvecklingen av internet och har också intervjuat mannen bakom den stora sökmotorn Alta Vista. Hon har också jobbat på en finanstidning och skrivit om teknik. På Internet.br var hon redaktör och hoppade sedan vidare till Globo.com - en stor nyhetsportal som ingår i ett stort mediaföretag i Brasilien. När hon jobbade på Internet.br fick hon idén att skriva om vad det kostar att surfa på nätet i olika länder. Redaktionen letade efter personer runt om i världen som kunde berätta vad de betalade för att använda Internet.
- Vi delade upp världen mellan oss på redaktionen och jag blev tilldelad Europa. Jag visste att internet har en stor marknad i Skandinavien, och jag försökte via nätet hitta en person som kunde ge information om kostnader. Det skulle vara en helt vanlig person som berättade om hur han eller hon använde internet och vad det kostade. Det var ett jättesvårt uppdrag, berättar Maria Fabriani.
Hittade Stefan
Och det är här som slumpen får ett ansikte. Hon använde en sökmotor och skrev in sökordet "Swedish" och fick en träff på en svensk hemsida, gjord av Stefan Pieksma, som till vardags jobbar som officer i Boden. Han hade gjort en egen hemsida där han bland annat berättade om sin internationella tjänstgöring. Hemsidan finns i engelsk version och ordet "Swedish" fanns med i beskrivningen av den svenska campen. Träffen i sökmotorn ledde sedermera till en träff i verkligheten. Amors pilar susade genom cyberspace. Från Sydamerika till Boden.
I början skickade de e-post till varandra. Tycke uppstod, som det heter. Det blev sedan telefonsamtal och hösten 1999 åkte Maria Fabriani till Sverige. Året efter reste Stefan till Brasilien. De förlovade sig vid den kända Kristus-statyn i Rio. Maria bestämde sig snart för att lämna sitt hemland och flytta till Sverige.
- Det var jättesvårt att lämna jobbet, familjen och alla kompisar. Men Stefan och jag klarade inte av att bo på var sin sida av jordklotet.
Saknar storstadspulsen
Maria säger att hon kan sakna storstadspulsen.
- Men å andra sidan har jag aldrig känt mig så trygg som jag gör här i Boden. I Brasilien är det betydligt mer oroligt. Något som Stefan fick erfara då han besökte Rio de Janeiro.
- Det första Maria sade åt mig var att jag skulle ta av mig klockan, inte bära plånboken i bakfickan och lämna de dyra kläderna hemma. När vi stannade bilen vid rödljusen stängde hon alla vindrutor och låste bilen. Turister är mycket utsatta, och jag såg verkligen ut som en turist. Det fick mig att tänka om, vi svenskar är nog lite blåögda, säger Stefan.
När Maria såg TV-bilderna från Göteborgskravellerna i somras och hörde folk protestera mot polisen reagerade hon starkt.
- När jag hör ungdomar kalla den svenska polisen för fascister tänker jag att de inte träffat polisen i Brasilien, som saknar utbildning och bor i samma kvarter som knarklangare. De kan bete sig väldigt illa mot människor. Jag tycker nog svenskarna är lite bortskämda, säger hon. Hennes kompisar och föräldrar lyfter på ögonbrynen när hon berättar att tandvården är gratis för barn i Sverige.
- De som klagar mycket skulle behöva åka till Sydamerika eller Afrika. Det behövs perspektiv på tillvaron, säger hon och inflikar:
- Jag är nog kanske lite bitter.
Bara för eliten
I Brasilien är det bara en minoritet som har råd att studera och resa.
- Det är eliten, men här i Sverige kan alla studera och de flesta har råd att resa. Stefan Pieksma har också en internationell bakgrund. Hans far är holländaren som flyttade till Indonesien och blev polischef. Han flyttade sedan till Kalifornien och jobbade som städare och träffade en undersköterska från Piteå. De flyttade till Sverige där hans första jobb, efter en tid i varma Indonesien och Kalifornien blev att bygga en bastu i Älvsbyn.
- Jag är född i Los Angeles och blev svensk medborgare 1977. När vi har släktträff framöver kommer FN att framstå som en liten församling, skrattar han.
De planerar nu att gifta sig, och Maria letar febrilt efter ett journalist-jobb.
- Men jag behöver lära mig mer svenska. Man måste ha tålamod.
Den svenska byråkratin har orsakat dem en del bekymmer.
- Jag måste bo här i två år innan jag får rätt till studiebidrag. Och något introduktionsbidrag får jag heller inte, säger Maria. Stefan inflikar:
- Bodens kommun säger att man behöver inflyttning, men då kanske det inte räcker att skicka en informationsbroschyr om Western Farm och Nordpoolen, inget fel på dessa anläggningar, men det kanske behövs något mer.
Lars-Henrik Andersson.
O email
Escrevi direto em sueco, pra ficar mais fácil (o mesmo método que usei para escrever melhor em inglês). Ele me ajudou a corrigir os erros e mandei. Foi aí que o Abdul da Sveriges Television fez contato oferecendo ajuda. (Veja notas abaixo)
O meu e-mail dizia assim:
"Hej, jag såg programmet och kunde identifiera mig med situationen, trots att jag inte får några bidrag från Regeringen. Jag kom hit förra maj 2001. Jag är en journalist med betyg från en av de största universiteten i Brasilien, Universitet Federala Rio de Janeiro. Jag är klar med SFI (Svenska För Invandrare), efter bara tre månader kurs och nu fortsätter jag att studera svenska med Komvux med "Svenska Som Andra Språk A". Jag har sex år erfarenhet inom journalism och jag kan fem språk: portugisiska, engelska, franska, spanska och nu svenska. Och JAG KAN INTE HITTA ETT JOBB.
Jag förstår att det är svårt för en journalist för att vi arbetar med ord och jag är på början av en lång väg, men ändå. Jag hade ett praktikplats för två månader sedan och kan säga att jag klarerade mig mycket bättre än de svenska människorna som arbetade där och tjänade nästan fyra gånger mer än mig. Nu försöker jag att hitta ett jobb som lärare på Medborgarskolan, men först till hösten. Och vad ska jag göra fram till hösten?
Jag tror att Regeringen inte kan tro att en ren byråkrati som Arbetsförmedlingen kan vara lösningen för det stora problem som invandrare har idag i Sverige för att hitta ett vanligt jobb. Ett vanligt arbete. Det är som flera av de människorna i programmet sa: man blir deprimerad. Det räcker inte bara några månader i en praktikplats och sen, "Hej då". Det är frustrerande och grymt. Jag funderar, till exempel, på att studera mera, och kanske bli en psykolog. Men för det behöver jag ett stöd. Och jag får ingen.
Jag vet att det är ett stort problem i Europa idag att acceptera utbildade människor från länder utanför EU. Men det är lustigt för det finns ett behov av utbildade människor i Sverige. Åtminstone i Norrbotten, där jag bor. Man behövde att "importera" kunskap, till exempel, tandläkare från Belgien och läkare från Tyskland, men Regeringen har inga planer att utveckla ett system för att tillvarata de kunskaper som redan finns här.
Jag är beredd att försöka mig på andra karriär möjligheter men jag är tvingad att vänta två år innan CSN kan överväga om jag får studiebidrag eller studielån. Vad måste jag göra då? Bara vänta med armarna i kors? Jag går till Arbetsförmedlingen och DET FUNKAR INTE. För de bok över antalet arbetssökande bara för att upprätthålla sitt eget jobb? Synd.
Hoppas att Ni kan fortsätta att rapportera och granska invandrares situationer i Sverige för det är ett mycket känsligt och viktigt ämne.".
Começo
Isso tudo comecou porque assisti ao tal programa Mosaik, feito para os invandrares e por, em sua maioria, um staff de invandrares. Eles falavam da dificuldade de se encontrar emprego para a multidão de asilados e imigrantes (como eu) que procuram trabalho na Suécia hoje em dia. Há uma burocracia infernal chamada Arbetsförmedlingen que, supostamente, foi criada para facilitar para todos os cidadão sueco (imigrantes ou não) a busca por empregos. O problema é que essa jossa não funciona. Uma das mulherzinhas entrevistadas disse: "Os invandrares podem comecar a trabalhar numa creche e isso é muito bom". Não importa qual o background da pessoa. Para essa burocrata o importante é que as metas dela como "facilitadora de empregos" sejam atingidas. Mesmo que um físico nuclear vá trabalhar como faxineiro em um prédio, o que consta nos papéis é que aquela pessoa conseguiu um "emprego". Meu Deus, será que alguém já ouviu falar aqui na Suécia de ambicão? De frustracão? De orgulho? Quando ouvi o que ela disse fiquei maluca, chorei e fui pro computador escrever o que eu pensava.


